Posto isto, provado está que os criados são os nossos _inimigos

necessarios_, e que é preciso que para com elles a nossa attitude seja

por em quanto inteiramente defensiva.

E dizemos _por em quanto_, por uma razão muito simples.

Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam

symptomas de corrupção e de gangrena, a culpa vem por força de longe, e

_de cima_, e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e todos

os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim.

A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os

criados _antigos_ e os criados de hoje?

A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade

d'elles; as causas que teem o seu _quê_ de politicas, e seu _quê_ de

economicas, o seu _quê_ de sociaes, o seu _quê_ de philosophicas.

Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta esta humilde

questão de criados.

Transformação completa do viver social e do viver domestico.

D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justiça, mas

n'uma base de muita mais solidez.

Havia o _chefe_ que acolhia á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes

pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradição e tambem uma

herança.

Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais velho, que

herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os

haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade.

Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, ou varredora,

ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no

caixão para o cemiterio, deixando na familia nova geração de servos que

eram seus filhos.

D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram demittidos por

_erro de officio_.

Não receiavam o dia de ámanhã, não sentiam a esmagadora indifferença dos

superiores a revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos,

eram inimigos.

Não precisavam de se apossar de um segredo, de ameaçar tacitamente com

uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para

darem solidez e garantia de duração á sua posição dependente e precaria!

Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos

pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente

entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de

gerações se enlaçavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das

fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos

antigos servos.

Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos.

Não estavam privados de todas as condições humanas, tinham as suas

festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos.

O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam,

florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim

dizer, identificada com a sorte dos amos.

Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou áquelles moveis, á senhora que era

branda e protectora para elles, ás creanças que tinham ajudado a crear,

e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que hoje recebiam

dos paes.

Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! É porque eram homens,

e não porque eram servos.

Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e não as de uma

determinada classe.

D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje.

* * * * *

No regimen moderno, a familia tem outra constituição e outros costumes.

As fortunas extremamente divididas já não consentem esse modo de viver

opulento e patriarchal.

Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes financeiros

modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa de privações

e de trabalho, são egoistas para todos, e particularmente duros para os

inferiores.

Na sua opinião os criados são machinas. Umas machinas que vestem casaca,

e usam gravata branca.

Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma

disciplina exemplar.

De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo.

Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que andaram tanto

tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurrões e maus

tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante

dos _patrões_, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de

potentados.

Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares exquisitos

que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes

impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do

olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo

escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão percebendo o seu

desastramento, os seus gestos grosseiros, e até a saudade com que

recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade.

D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar.

Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de indiferença, de duro

egoismo; os criados são hypocritamente humildes, são invejosos, e

malevolamente escarnecedores.

Só um laço póde ligar estes sêres; a cumplicidade.

De cima não haverá brandura em quanto de baixo não houver subserviencia

criminosa.

Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que

andam á mira d'um segredo, d'uma indiscrição, d'uma descoberta qualquer

que os faça levantar a cabeça.

No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em

que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado o primeiro

recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e só continua

apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de

despeito.

Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer dizer tyranna.

Ao marido em caso identico succede o mesmo.

Moralidade d'esta situação: o criado de hoje triumpha quando seus amos

se rebaixam.

* * * * *

Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria.

Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma

certa promiscuidade que abala o respeito.

Já aqui os criados não são automatos que se movem ao impulso d'uma

vontade superior.

Não são mudos, não teem a fria apparencia aristocratica que revela a

opulencia da casa em que servem.

Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos segredos da

familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar,

desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida antiga, as

criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver,

julgam-no e escarnecem-o.

Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma

alimentação sadia, para a satisfação das necessidades indispensaveis; se

a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia,

conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno, _joindre les deux

bouts_ como expressivamente dizem os francezes.

O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se não é grande pelo

menos é sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa.

Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde possa

penetrar a malicia interesseira da criadagem.

Pois ha, minhas senhoras!

O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a subir de

posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto _em capricho_

por causa das _picuinhas_ do seu collega da secretaria, o conselheiro

Fulano; logo, para attingir este fim desejado é preciso antes de tudo

_figurar_.

Tem de ir aos _chás_ do seu amigo deputado, ás _soirées_ do barão de tal

_que é muito influente_, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu

amigo _cicrano_ que é parente do primo da mulher do secretario

particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em

luxo avariado, em pompa feita de remendinhos.

A mulher, já se entende, não lhe fica atraz!

Podéra!

E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.^{as} Silvas

fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella

trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a _D. Leocadia_ que é

mulher d'um commendador seu conhecido; e de _quebrar os olhos_ á prima

Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento «que não sabe

onde ella vae buscar para tanto luxo!»

Filhas d'estes paes o que serão as meninas?

Querem vestidos de seda, embora os comprem em _segunda mão_, querem

joias embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as teem

visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza

de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao _Club_, querem tomar

banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem

_reunir á noute_ uma vez por semana, umas visitas que nunca vão, querem

fazer emfim o que por ahi faz _toda a gente_.

Resultado d'isto, resultado inevitavel.

Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no

sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas.

A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas

humilhações insupportaveis.

As criadas vão á porta receber os credores, e trazem dentro os recados

com um sorriso maganão que escapa a todas as reprehensões e a todos os

castigos.

Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o _inimigo_, que

é no fim de contas o _confrade_; se estão bem dispostas dão alvitres,

inventam e lembram desculpas, lamentam a _senhora_, etc., etc.

De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e

ellas uma intimidade funesta.

Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella

hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja

bem organisada.

Um dia, as _meninas_, que teem recebido a educação mais perniciosa e

mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privações intimas, de balofas

apparencias e querem fugir d'ella.

Teem só uma porta: o casamento.

Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a porta por onde

se sahe da miseria!

Quantas vezes não é elle a porta por onde se entra na desgraça!

Começam então a namorar.

A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o _dandy_ pelintra que

encontram nos seus passeios, o _litterato_ pallido e fatal que olhou

para ellas da plateia.

Quem é a confidente natural d'este _namoro_, a auxiliar forçada d'esta

intriga ridicula?

A criada!

É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a enganal-a; é ella quem entrega e

recebe as cartas, é ella quem se _farta de rir_ com a menina, ouvindo

contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou!

Quantos perigos, quantas humilhações, quantas vergonhas n'este facto que

é hoje trivial e repetidissimo!

A criada só tem a ganhar na execução d'estes misteres.

Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por

medo ou por sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr preciso se

revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a

ajude no trabalho!

Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua

posição inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de

qualidade alguma.

* * * * *

Quando se não dão estes casos que ahi deixamos apontados dão-se outros

identicos ou outros similhantes.

Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de explorar de

todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo,

desapego.

Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco e pouco

pela incerteza ácerca do dia de ámanhã; desaffeição pronunciada,

despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do

maior salario que poderem alcançar, separação de vida, de interesses, de

alegrias, de affectos.

Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres tristezas,

de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá ser enfermeira. Fará o

serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para

ir á janella _ver quem passa_; deixando apagar o lume de noite porque

adormecerá inteiramente esquecida dos que soffrem e velam.

E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem.

Hoje está aqui, ámanhã estará n'outra parte!

Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, sósinha

como um cão!

Não dá porque não recebe.

Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente oppostos.

A unica circumstancia que póde alterar esta situação reciproca: a

cumplicidade.

Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda

immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as

excepções se vão tornando dia a dia mais raras?

A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio.

Procuremos apontal-o.

No que respeita aos amos cumpre:

Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca

seja para elles uma humilhação.

Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo

respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante

ainda os que estão mais baixo.

Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de

alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se influencias funestas.

Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres não

tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e já que é

indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos

os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto

e efficaz remedio a todos os males que são por assim dizer o privilegio

especial d'essa classe.

II

No capitulo anterior, tractando d'esta questão, tentámos apresentar as

causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisação dos

criados modernos.

Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte:

É tão precaria, tão falta de garantias, tão exposta a continuas

alterações a sorte dos criados, que para ella só descem os que n'outra

esphera não poderiam achar collocação que lhes dê a subsistencia.

Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este

modo de vida, são ainda mais desgraçados do que os maus, porque são mais

explorados.

Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente.

Estamos, pois, em face d'este dilemma.

Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus.

É verdade que fomos nós que voluntaria ou involuntariamente os

corrompemos e estragámos.

Concedo.

Agora, porém, não se tracta d'isso.

Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de

o modificar.

Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os nossos

futuros criados.

Mas como?

Creando para isso instituições especiaes, ou modificando a indole das

que já existem.

Tractemos antes de tudo das mulheres.

Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim é, as

instituições de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de

iniciativa do Estado.

O que é que n'esses asylos se aprende, salvo excepções possiveis, mas

que não chegaram ainda ao nosso conhecimento?

Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para toda e

qualquer situação, por mais humilde que seja; aprende-se a ler,

escrever, contar, coser e marcar.

Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a

bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou _harmonium_; ha

alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc.

Muito bem.

Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia

superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos.

Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de alguma pequena loja,

serão mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e

adquirido uma instituição mais solida e mais proficua.

Que fazemos das outras noventa?

Imaginemos que cincoenta casaram muito moças.

Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um

pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada solidão que

estava á espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue

desguarnecido e miseravel.

Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada pelo asylo quaes

aproveitarão, quaes applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar

domestico?

Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, insufficiente

para acudir a todas as necessidades do _ménage_?

Que officio aprenderam a exercer?

Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, cosinham, mas fazem tudo

isto mal.

Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes

misteres tão humildes.

Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus

remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre

mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegação, a boa vontade,

e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena

industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas,

viver só com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no

trabalho fecundo, isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o ensinou a

praticar?

Deixemos, porém, essas cujo destino agora não precisamos de apreciar e

voltemos para as que ficam.

Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser costureiras,

vendedeiras, etc., etc.

Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos

atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, outras as pallidas

e anemicas creanças, de _cuia_ postiça, chapeu de aba revirada,

polonaise phenomenal, bota de tacão alto e cambada, que encontramos á

noutinha ou de manhã cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de

lá.

As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas?

São as criadas de hoje, ou serão as criadas de ámanhã.

A educação que lhes deram está em contraposição perfeita com a tarefa

que teem de cumprir.

Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas noções

culinarias, mas em compensação lê correctamente os jornaes que veem de

manhã.

Outra, cuja obrigação é engommar, não tem geito senão para bordar de

matiz.

Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que aprenderam,

nem aprenderam aquillo que fazem.

São as mais vulgares!

* * * * *

Porque é pois que se não dá ás raparigas do povo, ao menos ás que são

educadas nos asylos de beneficencia, uma educação em harmonia com o seu

futuro papel?

Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de

arithmetica, mas o que reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta

na educação que se ministra a tantas e tantas creanças de indoles

diversas, de intelligencias diversissimas.

Aquellas que tivessem disposições para um genero de trabalhos mais

levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para

as filhas do povo que até aos 12 annos tivessem dado manifestações

inequivocas de claro e perspicaz entendimento.

Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas.

Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma

conforme a sua vocação ensinassem as linguas, a musica, a pintura em

porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc.

A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela

bolsa particular, iriam as mães de familia procurar _professoras

portuguezas_ para as suas filhas, professoras cuja educação fosse

completa, e cuja moralidade podesse ser affiançada.

Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de

comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, iriam tambem buscar a

essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado

de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu

estabelecimento.

Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na intelligencia

e na prompta comprehensão feminina grande auxilio, e auxilio mais

economico.

Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria,

n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que

requerem não só engenho, mas tambem habilidade manual.

Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem

fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes

houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente.

Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para

qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer.

A disciplina escolar, a instrucção elementar recebida, a aprendizagem

methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras.

* * * * *

Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam

aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicação

difficil.

Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir.

Mas que educação precisa uma criada?

Ora essa!

Uma criada precisa uma educação tão cuidadosa como uma duqueza.

A differença consiste unicamente n'isto:

Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza.

No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na

escolha das mestras.

Antes de tudo uma moralidade austera.

Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas

onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços

que mais tarde tivesse a cumprir.

Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene.

Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais

adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e

algodão.

Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de

senhora.

Não se attenderia aqui como no _atelier_ das modistas do asylo superior,

aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á

hygiene.

Outras ainda onde se cozesse á machina.

Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a

varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda

franceza, a deitar bem _rêdes_, a fazer meias, a cerzir panno, etc.,

etc.

Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez.

As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois

educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas

discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no

seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente

de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a

todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe,

uma honestidade composta de elementos muito variados.

Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de

resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser

laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas

obrigações.

N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias.

As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a

elle de preferencia, não desprezando porém os outros.

Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os

elementos que houvessem de constituir a sua educação.

Ser criada não é--entenda-se bem--nem uma vergonha nem um _pis aller_;

ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque

comprehende muitos.

A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo

excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são

robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho.

* * * * *

Não se diga que isto é uma utopia impossivel.

No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de

associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar

por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz.

Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente

a educação popular.

Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia

de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a

indole dos que existem.

Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural.

Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10

annos que estivessem no caso de serem admittidas.

Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de

espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha.

Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.^a classe, outras

para o asylo profissional de 2.^a classe, a terceira para o asylo das

criadas futuras.

Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que

grangeassem um salario por mesquinho que fosse.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 9 / 13 段