_inimigas intimas_ que veem colhêr invejas e semear despeitos, de todas
as ferozes exigencias sociaes, de que são submissas escravas!
Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental,
consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e
perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se,
pintam-se... e apparecem transformadas.
Durante umas poucas de horas estão no palco.
O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe destôe,
manifesta sem piedade o seu desagrado.
Ellas, no entanto, suam _sous le harnais_, mas são intrepidas até á
heroicidade.
Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos corações
mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenções felizes,
conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma
impressão boa, quasi enternecida.
Chegou a occasião de voltar aos _bastidores_.
N'este caso os bastidores são a companhia do marido.
Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de
desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio,
todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio
apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar.
A pelle precisa de _cold-cream_, de _veloutine_, de todos os
ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos pés, solto dos
ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os
recolhe cuidadosamente na caixa de cartão, o marido contempla
assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabeça que
ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com
que ostentava o delicado edificio das tranças e dos _riçados_, lembrava
uma das cabeças gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a
guilhotina beijou com volupia selvagem.
O pé estreito e _cambré_, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos
da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roçam a
terra com o vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o ligavam
dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de independencia
verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que
apparece.
Todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma
causa--o aspecto moral transfigura-se tambem.
Como a dissimulação eterna é impossivel ainda aos mais hypocritas, os
defeitos que tão cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao
marido.
Riamos sem vontade ainda agora!
Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa!
Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e benevola as
sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas côr de
canario e bigode retorcido e insolente?...
Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco velhas, mas em
summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar!
Fingir! sempre fingir!... Impossivel!
Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já que só desagradamos
áquelle que tem obrigação restricta de nos aturar, quer queira, quer
não!
Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem um
alcance enorme no destino de vv. ex.^{as}, minhas senhoras!
O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel é a
sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de
annos de revolta!
É assim que se destroe a familia, é assim que se torna desflorido e
deserto o lar.
Em compensação enchem-se os salões, os _clubs_, os theatros, os
botequins. Resta saber se uma das cousas póde n'uma sociedade honesta e
bem constituida supprir a outra.
Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem á elegancia
desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á
familia e conseguirão a pouco e pouco, sem esforço premeditado, agradar
aos estranhos.
Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de calor que attrahe e que
irradia luz benefica.
Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e
captivante.
São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do coração,
essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os
attractivos do espirito.
Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se de cousas
bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distracções
delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não
cansa, uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que é ser
mulher na accepção completa da palavra.
Toda a mulher tem de ser _coquette_ para o marido emquanto para o marido
a eterna tentação for o pômo vedado.
Em geral só se conhecem os dous extremos.
Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, temivel,
assanhadiça, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do
esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os
outros; ou então a mulher dos salões, a flôr exotica das nossas estufas
mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de _biscuit_ que se compraz
nas adorações que provoca e que inspira, infativel actriz que só á luz
da _ribalta_ sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos.
Entre os dous contrastes é que fica a verdade.
Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que desperdiçaes
pelas voragens d'este mundo.
Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as
graças e todas as energias; sêde o encanto, sem deixardes de ser a
virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que
vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde.
CAPITULO XIII
Victoria Woodhall
Uma oradora americana
Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das excentricidades
colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para
justificar o axioma de que _os extremos se tocam_, tem conduzido a
intelligencia a uma especie de permanente hallucinação, os
Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza,
mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas.
Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e florescente
ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que é
uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica
e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipação completa do
seu sexo.
Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta
doutrina revolucionaria, da qual não esperamos senão funestos
resultados, por isso nenhum laço de sympathia póde prender-nos á famosa
Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns
dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte.
Não deixaremos, porém, de estudar com attenção os poucos dados que
conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como
mulher--não concordemos com as suas theorias,--como artista--não podemos
deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu meio.
Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa presença, _sabe vestir-se_, o
que já é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos _direitos
politicos da mulher_, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um
pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam,
nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana.
Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo
as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de
velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranças
escuras do seu cabello garridamente penteado.
É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos salões onde tem
preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada platafórma, de onde
préga ás turbas.
O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se
occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não ha posição mais
deploravel que a do marido de uma mulher _celebre_, quer dizer de uma
mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os
ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora
os mais modernos da preleccionista social.
Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão Stael, de _monsieur_
Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros
forçados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que é
a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões.
Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que não
podemos de modo algum affirmar, não tendo nunca ouvido citar o seu nome,
parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado.
Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em
Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da
Inglaterra e da America.
Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação arrebatada e
artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas tão quente e
apaixonada que exerce sempre uma impressão profunda nos que a escutam.
Como já dissemos não tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso
e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma
revolução humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito
sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias
pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria.
A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula.
Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, sem circumstancias
aggravantes, não a salva nem mesmo a formosura.
Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do matrimonio,
da reforma da educação, de todos os graves e momentosos assumptos de que
hoje depende a regeneração politica e moral das sociedades.
Fóra do seu paiz, porém, não vão tão longe ainda as suas aspirações.
O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento absoluto de
deveres e direitos entre a mulher e o homem.
Adoptamos com todo o coração não os meios, mas o fim d'essa propaganda
tão necessaria; mas não podemos concordar de modo algum com o
complemento que a feminil oradora proclama indispensavel.
Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás instituições abaladas,
que se pretendem salvaguardar.
Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creança educada
com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida,
consciencia de bronze e coração de cêra, queremos na arte um ideal
severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena
justiça, queremos o homem regenerado e forte, e é porque desejamos tudo
isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de nós o terrivel
flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da
sociedade.
N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e
applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se
os trechos seguintes:
«Fallando do casamento, é escusado dizer que falamos n'esse casamento
ideal que toda a maldade dos homens não póde destruir; n'esse casamento,
de cujos membros poderá dizer-se com verdade: _Foram unidos por Deus, e
o poder do homem, não logrará desunil-os_; n'esse casamento, de cujas
alegrias jámais quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse
casamento que é tão sagrado, tão puro, tão santo, que nem a sombra de
uma discussão póde existir entre, os dous factores que o determinam;
fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da
humanidade--o elemento positivo e o negativo das raças--se tornam pela
acção e pelo pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos
motores o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do
qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a
unidade, a ideal perfeição.
«O casamento é geralmente considerado como um assumpto por demais
frivolo ou pueril.
«Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma pressa e a mesma idéa
das responsabilidades que elle impõe, como se o considerassem uma
instituição especialmente designada para satisfazer as egoisticas
paixões da humanidade.»
Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a
formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle
nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que
ella tão ardentemente advoga.
A prova evidente d'esta nova asserção é ella quem se encarrega de nol-a
fornecer.
A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não é a forasteira acclamada
e illustre que anda espalhando por sobre a cabeça das turbas
indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convicções e as
suas theorias sociaes.
Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando infantil,
mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema
alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um
membro activo e laborioso da moderna sociedade, a acção d'esta mulher
seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais
salutar.
Não daria uma hora de commoção dramatica ao auditorio que viesse
ouvil-a, curioso de excentricidades novas; não julgariam possivel a sua
eleição como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que
vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a
influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam
outros tantos elementos fecundos da futura regeneração social.
Não é prégando o respeito ao casamento que se convencem os homens, é
provando esse respeito nas minimas acções e nas acções mais decisivas de
uma existencia.
Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia
oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem
modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa
absoluta identificação de duas almas, essa absorpção de um espirito em
outro espirito seu irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua
individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra
aquelle de que não póde ser senão a metade incompleta, a porção
imperfeita e mutilada.
Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que prevaricam ou
descreem, ou ignoram.
Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir?
Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos
pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, toda a
poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel
d'essa ineffavel união chamada o casamento?
* * * * *
Não nos surprende, porém, este producto extraordinario de uma sociedade
agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel.
A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas leis e para
os seus costumes uma solida base tradicional.
N'ella que é tão forte como nação, tão pertinaz nos intentos, tão
energica nas acções, n'ella que é uma prova terminante de como em dous
seculos se fórma uma raça, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas
que estão ainda perfeitamente vagas e fluctuantes.
O destino das mulheres é uma d'essas cousas.
Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a
tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus passos;
socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram.
Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita,
gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam desprotegidas ou
antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro,
nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas á meza redonda de um
_hotel_, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos
costumes, tudo que a nós, européas de facto ou de tradição, se affigura
quasi monstruoso de inconveniencia.
E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio
ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do
velho mundo exercem em torno de si, não sobre as leis, o que seria
pouco, mas sobre os costumes, o que é quasi tudo.
É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz
ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade ou a ruina, a dôce
mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana.
Não parecemos nada e somos tudo!
Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe
inconscientemente. Os que luctam contra nós teem de confessar-se
vencidos.
Não somos medicas, não somos advogadas, não somos professoras, não somos
preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada;
mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se
escuta, a tentação funesta ou a guia providencial, o grande poder
obscuro, a que se não furta o filho, o irmão, o marido, o proprio pae!
Que importa que não possamos exercer a nossa acção dentro da esphera
restricta e limitada das leis, se os costumes ahi estão, para que nós os
criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que nós lhes dêmos o
nosso collectivo impulso enorme!
Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no
campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o seu poder na
esphera em que ella póde e deve ser rainha.
O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem
observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, é um contracto
temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto póde
destruir.
O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres
maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado
e tão respeitavel como os tres primeiros.
Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que
permanece a familia.
Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que provavel que não
tenham amor.
Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, logo porém que
sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da
vida.
A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli
d'uma fórma muito mais saliente.
_Cada um por si_, eis a lei que rege o verdadeiro _Yankee_, lei que
herdou de seus avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a ás
despoticas exigencias do seu meio.
Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e
rasgada descentralisação, assim a sociedade moral é dominada por um
principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os
laços da familia.
Não se faz idéa entre nós do que é um interior nos Estados-Unidos.
Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna,
vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se
reune uma duzia ou mais de familias.
Ás horas da refeição agglomera-se em torno da meza aquella multidão de
indifferentes que mal se conhecem; comem á pressa absortos em
preoccupações de ordens diversas que ainda mais os separam e os
distanceiam.
A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram á
boa mãe e á boa esposa as predilecções dos filhos e do marido, a hygiene
da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos commensaes nem
alegria nem sabor.
Comem como quem cumpre uma obrigação indispensavel e enfadonha, e d'alli
partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e
pertinaz.
Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio.
A vida é o trabalho; o tempo é mais do que dinheiro, é sangue.
A existencia dos americanos é uma existencia de operario, tressuada,
esmagadora.
Todos querem conquistar a sua porção legitima de abundancia ou mais
ainda, de riqueza.
Para que?
Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram.
Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os
instantes n'esta raça de impetuosos luctadores.
As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do Atlantico um
relevo exagerado.
N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a
energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu
querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar
póde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas doçuras da
vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade?
Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas
novas e excentricas que firam a attenção, que se imponham rapida e
subitamente ao pasmo das turbas.
Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem
a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. Isolada por um esteril
respeito, despojada de todo o predominio que entre nós lhe concedem os
costumes, e a tradição religiosa e social, a mulher para tentar adquirir
a consciencia da sua força, tem fatalmente de ir procural-a na arena em
que luctam os homens.
Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e
latente, d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes
suavisaria a indole, os costumes e os gostos.
Victoria Woodhall é o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns
pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, do
caminho que conduz á felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades
humanas.
Só na America do Norte é que esta valente prégadora das reformas sociaes
podia ter nascido, só a America é que podia entendel-a e applaudil-a com
tão sincero enthusiasmo!
Se ámanhã uma das nossas mulheres começasse a percorrer as grandes
cidades da Europa meridional, prégando a transformação dos costumes, os
direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituições, a sua
prédica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade
homerica de risos!
Aqui muito á puridade, eu não sei se somos nós, que temos razão!
Criados e Amos
CAPITULO XIV
I
Fallemos dos nossos criados.
É um assumpto este de importancia summa.
Tem relações estreitas com a administração da casa, com o seu aceio,
arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com
a figura que ella representa em relação ás outras casas.
Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as
matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua
bilis; é o assumpto obrigado das conversações das mães burguezas, em
quanto nas pequenas _soirées_ dos quartos andares _as meninas_ estafam
um desgraçado piano asthmatico, os _litteratos_ da familia recitam
versos a _Ella_, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam
acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete.
Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu verdadeiro
aspecto.
Declama-se contra a decadencia e desmoralisação dos criados de hoje, mas
ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisação, provém
forçosamente de alguma causa que é necessario conhecer e destruir.
Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem
tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte:
--Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados antigos, nem
na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade.
Já se vê que esta regra tem excepções numerosas, de que não tractaremos,
mas que reconhecemos e admittimos.
--Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas
familias a quem serve, e em cujo seio penetra.
--Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da traição, do
vicio, da desobediencia, e que portanto é profundamente corruptora a
influencia que exercem na familia.
--Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as
maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na
immoralidade dos seus superiores.
--Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que
estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes póde provir
do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que são
forçados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e
que procuram por todos os modos attingir, é o seguinte: penetrar
vagarosa e cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus
segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de vingança, ou
exploral-os, por desejo immoderado de ganho.