Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da
perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com a vida, da
que excita os grandes, os eternos, os sãos e robustos amores.
O culto pagão da belleza plastica é um dos erros que mais ha de custar a
destruir, e que no entanto se acha tão deslocado no ideal moderno, como
se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revolução deitou
por terra alluido e decomposto!
A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu destino, só
aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, só inveja as
que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e não percebe
que a belleza interior é aquella cuja gloriosa conquista, accessivel
para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio.
A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras não
temos nós ouvido lamentar a pouca duração dos affectos terrestres, a
_inconstancia_ do homem, a ingratidão cruel que faz definhar as suas
victimas em desolador abandono!
Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas
se revestem, que ninguem se ria d'elles!
Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas não de imaginarias
perfidias ou de tragicas aventuras.
São victimas da sua educação falsa, da sua sentimentalidade piégas, da
idéa inteiramente errada que formam da vida pratica.
Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis
poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola
franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que
tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas
apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias convulsas
dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus
desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar,
a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo
isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a _toilette_!
Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, os proprios
homens se enfastiaram.
E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traição masculina,
que lhes não deu mais que o castigo merecido!
Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento.
Felizmente, porém, esse tempo vae longe.
O homem já não exige da companheira do seu destino, como condição unica
de felicidade, encantos que murcham com os annos.
Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal.
Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na
vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as
illumine.
A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem _selvas ignotas_, como o
_inferno_ do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mão branca
e macia os robustos luctadores, que ás vezes param no limiar d'esses
caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante.
E isso que hoje se exige de vós.
Eu vou mais longe que _madame_ de Girardin, na sua arrojada proposição
que tão poucos comprehenderam.
Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a
mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vêr a
disposição dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanças, a
expressão das _cousas mudas_, para poder afiançar se a dona d'essa casa,
a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu
titulo sagrado de esposa e mãe.
É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo--natureza
expansiva e vibratil--põe uma indiscrição involuntaria em cada objecto
de que se rodeia.
Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da
emancipação politica e social do seu sexo.
Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo os que teem tão
acanhada idéa do destino da mulher.
No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para sempre do throno que tem
seculos por degraus.
É que a emancipação politica seria a abdicação domestica, quer dizer, a
mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades.
Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria!
A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, é o
refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo onde encontram
_direito de asylo os parias_ que andam cá fóra aos baldões da ira
popular; é o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento
acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da
sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos
seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples,
onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os
diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao
tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no coração as
terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes
embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilrêam, de
uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola.
Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de
febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a consciencia, a
dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim!
Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, é trazer para dentro
do lar as paixões tumultuosas da praça publica, é destruir o mais doce
dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza
feminina!
E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertação
absoluta perante a sociedade e perante a lei.
Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a contém na esphera que
lhe é propria, é que são os seus peiores inimigos.
Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços ella deve fazer e não
faz!
Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. Qualidade que não
está de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior
parte dos seus resultados.
Esta ambição pela influencia latente que exerce no animo masculino
leva-o, não poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres
cousas.
Até um certo e determinado limite, é portanto benefica a ambição da
mulher.
Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambição
mal dirigida por uma educação eivada de mesquinhos preconceitos não
arrasta o homem até á infamia, á deshonra, á quebra de todos os pudores,
ao suicidio!
A garridice, o amor da _toilette_, das pequenas futilidades elegantes, o
gosto do luxo, das graciosas invenções da moda, ahi está uma das graças,
um dos elementos do dominio da mulher.
Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma percepção
definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias
muitas vezes exageradas.
Não ha nada mais agradavel n'um _ménage_ do que uma mulher moça, fresca,
elegante, da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado e
distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim dizer, na vida
do homem, uma superfluidade necessaria, são um conchego para o corpo,
uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia á mais
leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um só
dos seus deveres!
Todos são igualmente respeitaveis; todos estão unidos entre si por uma
cadeia de élos inquebrantaveis.
Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva
ás mais funestas consequencias.
Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever.
O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para áquem d'elle ou para além
d'elle está o erro.
Por isso quantas senhoras ás vezes dizem:
«Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos vêem modestas, sem
prendermos a minima attenção ás futilidades perigosas do luxo,
condemnam-nos ou fogem do nosso lado.
«Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se
accende em curiosidades scientificas, se lêmos, se estudamos, se
tentamos ir um pouco além dos limites impostos ao nosso sexo, somos
alcunhadas de pedantes, e de _preciosas_ ridiculas!
«Queixam-se de nós porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos
ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar
mysteriosamente pela mão occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos
d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da
consciencia, chamam-nos _livres pensadoras_, e os homens sentem medo
instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mãos.»
E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor.
Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no
que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é positivamente porque a
vossa missão é difficil que ella tem tamanha importancia e póde adquirir
de dia para dia uma importancia ainda maior.
No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis então
o que é ter a graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos
contaminem as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida,
reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; o que é ter
o ideal religioso, sem o manchar com superstições, preconceitos,
intolerancias funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas
riquissimas faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem
que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso
temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas á familia
e á sociedade da qual é aquella o mais perfeito reflexo.
CAPITULO XI
O trabalho das mulheres
O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, é o
que considera o trabalho uma escravidão deshonrosa.
Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões rubros a aurora do dia
que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de assistir á divina
apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas
as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos
abatidos, que distráe de todos os tédios, que lucta contra todas as
inercias.
Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a mulher bastante superior
para confessar que trabalha, e o que é peior de tudo, é rara a mulher
que trabalha sem absoluta e incontestavel precisão.
Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educação mais apurada
e mais completa deviam estar a cima de tão profunda ignorancia dos seus
deveres, confessarem que não gostam de fazer nada, que são preguiçosas,
que não téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos,
etc., etc.
E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de Deus, para
não poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para
quem as sabe empregar bem?
Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas,
logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco
será sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e
complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua missão
complexa.
Não são sómente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pôr
a mira; a par d'esses, que tambem são indispensaveis, ha todo um mundo,
que a mulher ignora, e cuja exploração lhe enriqueceria o espirito de
thesouros incomparaveis.
E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educação
mundana, podem ter uma significação elevada, um sentido occulto, uma
_alma_ emfim, logo que se não considerem um _todo_, mas uma parte
insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o
lugar que lhes compete, na classificação harmoniosa e bem graduada das
varias riquezas que formam um espirito.
Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho
e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma idéa elevada e
synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisições intellectuaes,
e que por assim dizer as vivifique?
O que é preciso antes de tudo, é comprehender a musica e a sua
influencia poderosa nas almas e nos organismos; é saber usar com
aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por
si, só, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; é
estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para
a tela ou para o papel; é ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas
prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas,
não teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica.
Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que
imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a
consciencia d'isso, as suas idéas hão de dilatar-se e encadeiar-se por
uma successão logica, e dar á vida um novo e imprevisto aspecto.
As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma
grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa
facilidade... conversando com os diplomatas.
Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem
Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das differentes
nacionalidades e das differentes litteraturas; não comparam entre si as
civilisações, chegando por esta comparação a conhecerem de um modo mais
ou menos perfeito a humanidade, não senhor! Conversam com os _gommeux_
da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso!
Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o coração do
homem no coração de tantos homens de genio, o que ellas vêem sómente é o
modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais
rivaes!..
Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio
carinhoso e fecundo da grande mãe, são tão frivolas, tão superficiaes,
como em todas as outras cousas.
As mais das vezes não teem animo de colherem uma flôr do jardim e de a
copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a
natureza, e atrophiando a propria imaginação!
São estes defeitos, que todas nós as que pensamos um pouco, devemos
combater com todas as nossas forças!
Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus graves e
obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma
das grandes descobertas e das grandes conquistas!
O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre todas, a missão a que
o futuro a convida.
A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a mulher da
familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as geraçães vindouras hão
de admirar fervorosamente.
A mulher da familia não é de certo a matrona desgeitosa, deselegante, só
occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto,
despido de todas as flores e de todas as poesias.
Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo
tempo a consciencia de que essa instrucção a não aparta do cumprimento
religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade.
O homem deve achar n'ella não só a enfermeira desvelada das suas
doenças; não só a distribuidora sensata e economica do seu alimento; não
só a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não só a mãe
carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes
sacrificios, senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das
suas aspirações; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas
legitimas ambições e as suas chimericas phantasias; o animo viril que
saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão firme e branda, que saiba
guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentação: o seio terno que
lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e
enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas
victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e de educar uma
geração de fortes.
É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa fundamental: o trabalho,
seja de que especie fôr não desdoira uma mulher nem deixa de ser
compativel com as mais delicadas distracções de um espirito culto.
Trabalhar não é fazer _crochet_, não é cozer durante seis mezes na mesma
camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de
_opera-comica_; não é bordar umas eternas _babouches_, que se começam no
dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois.
Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, é adquirir conhecimentos ou
espalhal-os em torno de si, é concorrer para o bem-estar dos outros e
para o seu aperfeiçoamento proprio.
A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as scismas
voluptuosas, os languores morbidos, as _flâneries_ sem motivo e sem fim.
É activa, por isso não tem aquellas horas de tédio profundo, que
descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do
suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido não lhe
deixa intervallos para se _escutar_, se sondar, para analysar as suas
pequenas dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando
remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e pouco destroe
a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com
expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma occupação, nenhum trabalho
porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz.
Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso
deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios,
vêr se estão limpos, inventar um _menu_ que reuna as condições da
economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas
mãos um prato predilecto, que á mesa o marido e os filhos hão de saudar
com alegria e saborear com appetite.
Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar
rêdes com perfeição, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar
e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia,
um exemplo de moralidade! protestando até onde chegam os seus limites,
contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o
luxo até á infamia, desde a impostura até á quebra de todas as
dignidades e de todos os pudores.
Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que trabalha, e que
não diga que o seu fato é feito por uma qualquer modista estrangeira,
quando é ao seu laborioso serão que ella deve a elegancia que d'este
modo é duplamente preciosa e sympathica.
Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a
deslustram, e outros que lhe ficam bem.
Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres são eguaes e estão
prezos entre si por uma cadeia invisivel.
Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os
instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e
primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do
modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende
a educação dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da
vida, e até a graça, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri
na sala.
Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o
seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; é a ellas
que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissolução, ou a sua
felicidade.
Não basta ter todas as graças, é preciso ser util, e no fardo que se
acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar.
Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; é preciso ter a
intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da
vida.
Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e
protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituições, que a
exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para
todas as eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e á lhaneza
do viver domestico.
Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as instituições, que deram ao
homem tudo que é ruido, pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos
deram a nós a dôce missão de encaminharmos o futuro, de guiarmos a
humanidade no caminho do bello e do bom!
Se até agora temos trahido essa missão a que fomos destinadas, a culpa é
nossa e não de quem constituio sob uma fórma tão racional e tão justa a
sociedade.
O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo
decepções e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos,
porque o não gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza
e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos tão varios, em todas as
suas manifestações tão sympathicas; porque não dirigimos a poder de
trabalho e de esforço a primeira educação de nossos filhos, e deixamos
que mãos mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que é a
ignorancia dos pequeninos?
Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e fôfo, que o nosso
marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante, á casa
dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais
saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais
commoda, a conversação mais animada, mais substancial, mais chistosa e
menos pedante?
Pouco a pouco á regeneração da mulher, seguir-se-hia a regeneração do
homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto;
deixariamos de ser o tédio para nos tornarmos a alegria.
Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas
filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar
perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas
fechassem algumas das suas lojas, mas em compensação quebravam menos
negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma
grande porção do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os
filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se
reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé de oito mollas,
o falso luxo deixaria de ostentar com tão descarada altivez as suas
lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que parodía
tão ridicula e tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e
artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe
falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem e que procura nas
trevas.
O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um
pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar.
As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem
da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posição social,
occupem o tempo para não darem logar ás tentações da vaidade, aos sonhos
morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, ás negras horas
dissolventes do tédio, em que tudo se concebe e se admitte como
possivel, até o esquecimento de todos os deveres, até o proprio crime
com o seu romantico cortejo de sensações e de terrores.
CAPITULO XII
A toilette
As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só se vestem e
se enfeitam e querem ser amaveis para o publico.
O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival
terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das
prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos.
Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno chamado _tout le
monde_, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem
criticas e desdens!
Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o
effeito da nossa _toilette_, para elle estamos defronte do espelho
prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do
penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle
desejamos ser formosas! para que elle nos applauda--mentiroso e
humilhante applauso!--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginação.
Para agradarmos a elle, que é o _extranho_, nos esquecemos dos que são
nossos!
Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de
mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que tão impropriamente
chamam _estar á vontade_.
Usam uma _robe-de-chambre_ desbotada, quando não trazem um vestido velho
que já não serve para a rua; trazem o cabello em _papelotes_ ou frisado
em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos
pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas _babouches_ desgeitosas.
Pela manhã, á hora do almoço dão vontade de chorar!
O marido olha para ellas e... de duas uma:--ou sente fastio ou come como
um lobo.
De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia.
Questão de temperamento que não vem ao caso analysar aqui.