É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas

utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera

tudo menos o calculo e a arithmetica.

Prefere, pois, uma noiva pobre.

Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos

honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns

poucos de mezes.

Os mezes da _lua de mel_.

--Portou-se admiravelmente!--exclamam as _mamãs_, contemplando com ar

piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os

_dandys_ que andam á pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa

sociedade.

Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso

pobre heroe vê-se a braços com todos os encargos de um _ménage_ a que

falta o conchêgo e a alegria. Como não teve tempo de fazer-se amado,

como o amor é no fim de contas um genero carissimo que o coração das

meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das

luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova fé, um

acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignação

e que só tem despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das

frivolas vantagens que lhe promettera.

Tinha sonhado com _toilettes_ elegantes, uma _robe de chambre_ bordada,

uma touca de manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos

caixeiros da _Mode Illustrée_, queria uma casa de jantar elegante com

mobilia _en vieux chêne_, aparadores carregados de finas porcellanas, um

criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente,

sem fazer barulho, por cima do _parquet_ suisso, cuidadosamente

encerrado.

Gostava de ter um _boudoir_ todo de seda côr de perola onde ella podesse

ler, preguiçosamente deitada no no seu pequeno _fauteuil_ muito

flascido, diante de um _guéridon_ cheio de violetas e de _gardenias_, os

ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos

mestres mais famosos.

Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento á pressão sordida da

miseria paterna.

Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os

vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco,

com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o coração cheio

de rancor e inveja ás que tinham o luxo e o conforto que ella não tinha.

Aquelle homem apparecera-lhe.

Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que _tinha talento_, que tinha

_ou que ia ter uma posição_; acceitara-o por cansaço, por desalento,

porque se impacientava já de esperar mais tempo.

Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas

imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á força de ambicionar a

riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica.

E agora!

Tudo que a cercava era tão mediocre!

Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas

o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas cortinas de cassa

branca na janella.

Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo o luxo, podia ter a

graça.

Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse

feito ao serão, uma jarra de louça com um ramo de madresilva ou de rosas

de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de

alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz tão bem á alma!

Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, mas de um

feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flôr presa

nas tranças.

Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o

pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, mas cheio de fé robusta

e de profundas crenças, porque o amor o amparava e lhe sorria!

Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario

muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina _ménagere_

muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre

um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e sã!

Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma tão simples e

tão difficil?

Quem lhe tinha communicado com o leite a noção d'estes graves e honestos

deveres?

A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de um marido?

Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados entre um

bardo _pelintra_ e uma menina romantica com olheiras e muito pó de

arroz?

O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já que a

familia a não educou; vem de fóra muitas vezes preoccupado com os seus

estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma

especulação industrial que talvez lhe dê a paz e a aurea mediocridade a

que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... não importa!

Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam,

senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, enfastiada, com um certo

desleixo no aspecto que lhe aperta o coração, procura não reparar, para

a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o

captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante

do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias.

Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem jámais poderá sondar nem

comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base

chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de

ser-lhe amparo, guia, consolação, conselho, em vez de luctar ao lado

d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dôce e tranquillo

socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas;

que empallidece de raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é pobre;

que amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe ganha

laboriosamente, porque lhe não é servido em pratos do Japão; que olha

com desdem para os modestos presentes que elle á custa de longas

economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que

tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o

resumo de todas as suas alegrias!

N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos

estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldiçoam tambem a

sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a

todos os turvos mares da especulação e do mercantilismo!

Outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez

saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e

isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem.

Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos,

descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem á convicção fatal de

que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem

liga de calculos vis.

A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver!

Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no coração dos moços a

idéa de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao homem, os

robustece e lhes dá mais solidos alicerces.

No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e

com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como a base do

casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula.

Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que unindo a sua

vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas forças para a lucta em

que anda empenhado, é incontestavel que deixará de considerar como unico

elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido.

Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privações da

pobreza; é preciso antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a

pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios

não obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle

dôce e poetico conchego, que é para a alma um ninho mais tepido e mais

macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos

millionarios.

CAPITULO IX

A uma noiva

Minha querida Maria:

A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva.

Estás radiante!

Subiste ao _setimo céo_ da ventura humana e crês que não é possivel

cahir de lá.

Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das palavras enternecidas que

_elle_ te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama á

Pompadour, do amor que tens ao teu _maridinho_, do futuro que sonhas

radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da

tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero.

Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me.

Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha.

Não me fallaste da panella.

Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias,

d'este assumpto que é um dos mais graves n'um _ménage_ que principia.

Credo! exclamas tu com aquella _moue_ engraçadissima, que eu te conheço

do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso.

--«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de

misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal

felicidade com a relação das minhas cassarolas! Que tem este amor que me

enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que

eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar

a _elle_; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza

feminil, não queiras que eu ajunte a essas descripções uma nova receita

de refugado.»

Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que são

elementares, tudo quanto ha de mais elementar.

Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade de um _ménage_?

Na cosinha.

Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa?

Da cosinha.

Sabes qual é a origem de tantas doenças que por ahi nos desconsolam com

os seus aspectos repulsivos?

A cosinha.

E tu entrando na vida conjugal, acceitando o _encargo_ d'almas, porque a

dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mãos delicadas a

responsabilidade complexa de mãe de familia, tu pobre querida ignorante,

ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha

cosinha.

Pois sabe.

Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos

brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos

legaram as mysteriosas riquezas da sua alma?

Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos

bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de

graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas da nossa

vida?

Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de

esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que é agradavel, tem de

adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio!

E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilação do teu ser.

Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te has de

sentir.

Será como um progressivo ascender a uma esphera superior.

Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as

puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expressão mesquinha

e imperfeita do teu organismo; lá em cima está a larga tranquillidade

que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia

plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina

da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfação do dever

preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz

comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para

nós--eminentemente estupido!

Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua _lua de mel_.

Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela simples razão

de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretações da

vida conjugal.

A _lua de mel_ é uma mentira; não existe, ou, se existe, não deve de

modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma.

Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de

impostura, deve ser abolido sem appellação por todos os pares honestos

que se estimem e prezem.

Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade

de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam

um para o outro:

«Já conheço todos os teus defeitos, já sei que hei de vir a dar-me muito

mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella

phrase que me disseste; mas como estamos na _lua de mel_, deixa-me que

te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da

minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade piégas com que os

caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim

conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posição

official e a quem não póde renunciar sem desdouro!»

Não seria profundamente ridiculo este dialogo?

Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa

consciencia traval-o entre si.

Muitas vezes a _lua de mel_ não passa de uma dolorosa iniciação.

Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio

de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que

no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e

identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica

conquista-se, com esforços meritorios de parte a parte; o que ha pouco

era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura.

E o que prova tudo isto, minha amiga?

É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas é aquelle que os

tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o

mais delicioso!

Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço bem meu marido, nem

meu marido me conhece a mim...

Palavra, que acho isto uma esplendida interpretação da vida domestica!..

Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores

que se tecem á celebre _lua de mel_, e ahi téem os divorcios, os

adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous

entes se dilaceram até que n'elles morra a alma e o corpo!

Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão apaixonada.

Perdoa-me.

Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais _terra a terra_.

Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas

aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até á cosinha de tua

casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar.

Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse _senhor_, discreto, ameno,

gracioso, condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que concorda

com todas as tuas opiniões, que ás vezes se ajoelha submissamente aos

teus pés, e te diz baixinho--adoro-te!--com uma expressão de _tenor_ em

disponibilidade, que se delicia com as tuas _toilettes_, que dá muita

attenção á variedade artistica do teu penteado, que é, emfim, _todo teu_

no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará

por muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?..

Enganas-te.

Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar

sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar á

sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da

sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte.

Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu

qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que

elle comece então a ser sincera e dignamente _o teu marido_, isto é, o

teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em

bases solidas e perduraveis.

Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares

o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres

com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes,

mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educação povoou o teu

espirito?

Innocente creatura! não conheces o que é o _homem_, o animal mais

prosaico e positivo da creação!

O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das farças

que é obrigado a representar para o publico, dos combates em que é

alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer é descanso,

conchego, esquecimento de todos os artificios que vão lá por fóra, e

sobretudo (não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades

physicas.

Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais

suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, dá-lhe _um bom

jantar_.

Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta.

Confesso que me custou! Isto de mulheres!..

Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que pertence

exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro.

Como te enganas!

Em primeiro logar, não ha nada peior que um _bom_ cosinheiro.

Um _bom_ cosinheiro é a ruina de uma casa, é um envenenador de barrete

branco, é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita.

Um _bom_ cosinheiro começa por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel;

acaba por nos dar cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel.

Todos os _restaurants_ luxuosos possuem a prenda de um _bom_ cosinheiro.

Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses

_restaurants_ elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado

miseravel vaes dar com elle.

Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu

não sabes.

A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu embirras em

querer dar-lhe.

Sendo o estomago um dos orgãos principaes da humanidade, é absurdo

desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas relações.

Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro que

descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e nas quadras

de civilisação refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos

tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da

historia universal da humanidade.

O alimento faz o homem.

Os antigos scandinavos, _os reis do mar_, os impetuosos e bravios

caçadores de _uroch_, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues

metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da

carne quasi crua dos animaes que matavam.

Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das _murêas_ que creava

nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante

dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua _Casa de

ouro_, emquanto dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os

convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o

ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe.

Não vês atravez d'estes dous exemplos uma raça de instinctos barbaros, e

uma civilisação pavorosa e apodrecida?

O homem moderno enfraquecido pela degeneração progressiva de umas poucas

de gerações, tendo de dispender uma enorme porção de energia e de força

nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa

época, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia.

É n'isto que as mulheres não pensam bastante.

Depois em um _ménage_, sobretudo de medianos haveres, a mesa

relaciona-se com tres questões de uma alta importancia.

Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas.

Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a alegria, o

socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a

_toilette_ fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de

linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria

domestica.

Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas iguarias da

sua mesa de familia.

O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande

problema.

Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito

suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias

estapafurdias e de nomes francezes estropiados.

Fia-te em ti.

É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de

agradecer mais.

Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, não desças á humilhante

posição de _cordon bleu_ da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo

tão importante de administração domestica.

Estuda essa sciencia tão util e tão descurada que se chama _chimica

culinaria_, e verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha

de progredir com isso.

Não te injuries, nem te afflijas então quando conheceres que o sorriso

que teu marido negou ás sabias architecturas do teu penteado, lhe

desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a

tua direcção, de um _roastbeef_ temperado pelas tuas mãosinhas de fada,

de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido

appetite.

A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo muito simples.

Não se trata de sermos felizes á custa dos que são nossos; trata-se de

fazermos felizes os nossos, á nossa propria custa.

Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose!

Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lição de _azeites e

vinagres_.

Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa que na terra não ha nada

pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas,

estão de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas

este grande conjuncto que se chama a vida.

CAPITULO X

O dever de ser bonita

Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, aquella para quem

Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de _bas lilas_,

livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de

_bas bleu_, que _o primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser

bonita_.

Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias,

furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer fóra da lei.

Foi necessario entrar em explicações, e todas nós vemos então a

comprehender o que Madame de Girardin entendia pela belleza feminina.

Ser bonita no fim de contas não é ter fórmas esculpturaes--isso já

passou de moda, não é ter feições perfeitas--não ha nada mais

profundamente monotono e massador; não é ter collo de _alabastro_,

cabellos de _ebano_, labios de _rubis_, dentes de _perolas_, olhos de

_diamante preto_, testa de _marfim_, etc., etc., etc.

--Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham

com as sobreditas materias, e aos _trovadores_ mais ou menos choramigas,

que manejam as sobreditas rimas; não é saber olhar com expressão ardente

ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia

ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um

sentimento occulto, ou erguer a cabeça altiva e triumphante com a plena

consciencia da propria formosura!

Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e completa d'esta palavra, é

possuir a graça mysteriosa que prende os que param junto de nós, que

attrahe os que vão passando ao nosso lado.

Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino

encanto da mulher!

A graça de que eu fallo é feita principalmente de intelligencia e de

bondade.

O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a vontade

humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios cccultos, de

abnegações intimas, de aspirações continuas e incessantes para a suprema

perfeição!

Todos podem ser bons!

É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade,

que é o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e

que tantos julgam vedado.

Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo

cuidadoso e vigilante não possa arrancar flôres.

No homem--e quando digo _homem_, refiro-me geralmente á humanidade--, no

homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias

bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade.

Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que domou essa féra de

funestos instinctos; é a pressão continuada e constante de uma vontade

energica, de uma razão esclarecida, de uma percepção profunda de todos

os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel

selvagem.

Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e

mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar

adormecer de vez em quando a accesa vigilancia.

São no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento.

Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser meritorio cumpre que

este esforço seja tão invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda

a mais perspicaz não chegue a dar por elle. A bondade é o supremo

attractivo da mulher, aquelle que mais acção exerce em torno de si.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 6 / 13 段