contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabeça aos golpes da
fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas agonias, a
saborear a doçura debilisadora das lagrimas!
Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a desgraça, os que
furtam a sua alma ás languidas tristezas da desesperança, saudemos os
que são fortes, alegres e bons.
É d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve sómente
alimentar-se.
Ella ha de querer ler romances.
É natural.
Os romances são a fantasia, e na vida das mulheres a fantasia tem um
grande logar.
É na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado.
Proscreva sem dó, da bibliotheca de sua filha, as obras primas dos
romancistas francezes.
Balzac é um anatomista implacavel.
Os seus romances matam a flôr da fé na alma dos innocentes.
Georg Sand é um bello anjo revoltado.
Tem o orgulho de Satanaz na imaginação de uma mulher apaixonada.
Octave Feuillet tão fino, tão delicado, só deve ser lido depois dos
trinta annos.
Daudet um delicioso romancista, começou a escrever n'uma época doentia;
ha n'elle um não sei que de morbido que entristece e que faz mal.
Escusa de procurar minha amiga.
Nós as mulheres para quem a vida já não tem segredos, adoramos esses
escriptores, porque elles contam-nos o que já tinhamos adivinhado,
relembrando-nos o que tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a
curiosidade de conhecer, mas as creanças que os lerem devem experimentar
bem dolorosas surprezas.
É a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no genero que
procura.
Walter Scott um verdadeiro poeta, reviverá para sua filha as scenas mais
pittorescas de um passado aventuroso.
Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes,
sentimentos caracteristicos de uma raça energica e arrojada, incidentes
romanescos, mas de um romanesco são, tudo que tem o poder de enlevar e
attrahir a imaginação colorida e ardente de uma mulher de poucos annos.
Não ha creações femininas mais diliciosamente virginaes do que as do
romancista escossez.
As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de
Dickens, são feitas de um raio de luar, de uma petala de rosa, de um
canto de rouxinol.
O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado,
córa na sua presença; não conhecem as más tentações, as vigilias
ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres.
Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras.
As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nação.
Os livros de algumas d'ellas teem a graça d'um narrar discreto e
_nuancé_.
Não se queixe de que não póde dar á sua filha romances que a distraiam,
sem a inquietarem.
Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell,
Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de enumerar,
ahi estão para desmentirem.
Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com
esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella aprende a gozar
da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distracções
mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo.
Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas distracções
intellectuaes, assim educada, fortalecida, illucidada, verá como ella
chega á edade propria de escolher o seu destino, possuindo um são
criterio, uma penetração delicada, uma firmeza de principios que a ponha
ao abrigo de qualquer tentação menos digna.
Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam e
valem, saberá o que não sabem os ignorantes, saberá escolher o caminho
que tém de seguir se lhe confiarem a escolha.
Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da
intelligencia devem ser auxiliares preciosos, não acha?»
Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa,
e sem a corrigir vimos offerecel-a ás nossas leitoras.
CAPITULO VII
As dactas d'uma vida
A ida para o collegio
--Então achaste o que procuravas?
--Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de S., que tem,
como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.^{me} Maubry.
Uma franceza elegantissima.
Parece-me que fiquei muito bem servida.
--Tu é que foste ao collegio fallar com a directora?
--Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei
por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita.
--O collegio está bem situado?
--Sim. Está n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo muito á
mão. Um constante vai-vem de carruagens, que nas horas de recreação ha
de distrahir immenso as creanças.
--E a respeito de jardim para ellas correrem?
--Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, muito bem tratado, á ingleza.
Conhece-se á primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas,
olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras infantís. Uma
limpeza ideal nas pequenas ruas arêadas.
Fui lá na hora do recreio da tarde; andavam as meninas passeiando e
conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam senhoras em
miniatura!.. Achei engraçadissima aquella parodia de uma das nossas
salas.
--Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de
metter as minhas pequenas em um collegio, porque estão de uma maldade!..
Não pára nada com ellas! Importunam-me extraordinariamente. Tu sabes.
Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e dous diabretes em uma casa
pequena, é de se morrer. Decido-me pelo teu collegio. Perguntaste o que
lá ensinam.
--Oh! a esse respeito podes estar descansadissima.
Uma perfeita educação de senhora. M.^{me} Maubry é o typo da parisiense
delicada e graciosa.
Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu
modo de se apresentarem, com a sua _toilette_.
Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto
de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma sensação
agradavel... impregnal-as d'aquella graça especial que constitue a
mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de entender
a vida social.
--Mas não me fallaste ainda da instrucção que recebem as discipulas...
--Oh! já se vê, correspondente ao resto. Linguas... nas linguas M.^{me}
Maury tem um apuro especial. Piano, canto, um pouco de historia, de
geographia, dança, desenho, varios bordados, etc., etc. Creio que é o
sufficiente para brilhar entre as primeiras.
M.^{me} Maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito
aproveitavel. Ministra a instrucção brincando por assim dizer. Ha
concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de
conversação; ha noutes em que se lê alto, se recita ou se representa.
N'uma palavra, o fim d'ella é tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a
emulação entre as discipulas. Como verdadeira franceza, percebeu que a
vaidade é o motor principal da mulher e...
--Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da oradora; faze o
que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua
filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso; mas o
que desde já te affirmo é que a tua M.^{me} Maubry é uma corruptora
inconsciente da mocidade, e que a tua filha nunca passará de uma boneca!
* * * * *
_Durante as ferias_
--Mamã, eu antes quero o laço côr de rosa...
--Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no
_baile infantil_ hão de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que
alegria para ellas se te virem feia!
--Alegria, mamã? Alegria porque? As meninas do meu collegio são todas
minhas amigas, hão de gostar muito de me ver bonita e bem vestida.
--Assim será, minha filha, mas as _mamãs_ d'ellas é que com certeza hão
de ter inveja de mim se tu fores a mais linda, a mais bem vestida, a que
dançar melhor!
Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim é que
ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, são tão bonitos
os teus olhos!..
--A mamã quer que eu levante os olhos? M.^{me} Maubry ralha commigo por
eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar sempre de
olhos baixos, deve córar de vez em quando... nunca se deve rir com
vontade.
--M.^{me} Maubry diz-te isso?..
--Diz, mamã, e que assim é que as senhoras agradam e se tornam amaveis.
* * * * *
--Então, minha Lili, tu e a mamã divertiram-se muito no tal _baile
infantil_?
--Ah! papá, não imagina! Dancei muito, e todos me disseram que eu era a
menina mais bonita que lá estava.
--É verdade! a Lili estava encantadora. Não imaginas como a elogiaram!
Todas me perguntaram onde ella aprendeu a dançar.
--E a mim tambem, mamã.
As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio.
--Vês! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.^{me} Maubry era uma
professora má. Vê o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em
que appareceu em publico!
Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho.
_A primeira communhão_
Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba.
O véu de gaze cahe em prégas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo
esbelto e franzino, de 14 annos; a corôa de rozas emmoldura-lhe
deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de
infantil melancolia.
Acha-se linda, e sente que todos que a virem hão de achal-a assim!
Dentro da sua alma resôa como que um cantico de orgulho!
Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro
tabernaculo do seu coração a visita mysteriosa do Esposo!
O seu director espiritual, um moço sacerdote francez, fino, louro,
delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas mãos brancas, de
cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto,
acabou hontem de a conduzir até aos umbraes d'essa nova vida, em que
ella vae penetrar já consciente do que é e do que vale.
Que doçura mystica tinham as palavras d'aquelle padre!
Eram ternas, unctuosas, de uma graça desconhecida!
Até alli para ella a religião fôra um não sei quê de vago, triste e
indefinivel, mais para assombro e terror do que para delicioso extasi...
O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, e
o corpo cravejado de prégos, dera-lhe a idéa de uma angustia desoladora
e desesperada, que ás vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de
dez annos.
Porque seria que, á voz do moço confessor, o Martyr do Calvario como que
se tinha transfigurado aos olhos d'ella?
O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis
esperanças, chamando a si as almas virginaes, e promettendo-lhe a
eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes.
Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil
neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um
pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado!
E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moça, radiosa de vida e de
esperanças, com um profano desejo de alegrias novas, de triumphos
ignorados a alvoroçar-lhe o seio juvenil.
E agitando em torno de si as prégas fluctuantes do véo de noiva do
Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das orações e leu em
voz baixa e palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que
se habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus:
«_Oh! venez le bien-aimé de mon coeur! venez, Agneau de Dieu, chair
adorable, venez servir de nourriture á mon âme! Que je te voie, ô le
Dieu de mon coeur, ma joie, mes délices, mon amour, mon tout!_
«_Qui me donnera des ailes pour voler vers toi! Mon âme éloigneé de toi,
impatiente d'être remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et
soupire après toi, ô mon Dieu, ô mon unique bien, ma consolation!
Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon
bien-aimé est à moi_»
O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para
fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte
edificante declaração de amor:
«Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! carne que eu adoro! vem
servir-me de alimento ao coração! Quero ver-te, oh Deus amado, minha
alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo!
«Quem me dera azas com que voasse para ti!
«Minh'alma afastada da tua presença almeja por se impregnar de ti,
enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh meu Deus, oh meu
unico bem, minha consolação!
«Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu coração com as chammas do teu
amor!..
«És meu, oh bem amado, pertences-me!»
_Na volta do baile_
Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras
opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como
que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do seu rosto, que o
capuz de baile emmoldura em alvas rendas.
Dançou até ás seis da manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos
fôfos coxins do seu _coupé_, mas vem pensando muito.
É que o viu no baile, e lhe disseram que _elle_ seria o seu marido.
O pae antes d'ella partir de casa--vestida de tulle e rendas, coroada de
myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar
voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo--o pae, antes d'ella
partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito
affecto:
--_Elle_ é moço, é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima.
A familia deseja este enlace. Não te quero forçar, Lili; mas, se
gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeição!
--É moço e nobre, pensára Lili comsigo. Hei de amal-o por força. Terá
maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso.
E dirá _amo-te_, com uma graça fina e superior!
Depois, á proporção que o baile se ia approximando, com o esplendor
prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de
flores, com as prismaticas scintillações dos seus diamantes, com o
ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era
positivamente uma cousa agradabilissima ser rica!
--Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio
discreto de admiração que enlouquece as mulheres, terei vestidos de
velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos
meus cabellos! Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante
das salas em que fôr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de
admirações apaixonadas!
Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos.
Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e
enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres
que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua riqueza
presente.
Apesar d'isso, Lili estava contente.
Era ella que _elle_ preferira, e visto que _elle_ era rico, teria
carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e
elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas
salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras mulheres que
sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de
fastoso e brilhante.
Que importa que _elle_ não saiba dizer _amo-te_ com a voz que Lili tinha
sonhado!
A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitação e sem
lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura só deve dizer ao
eleito do seu coração, as palavras magicas:
_Sou para sempre tua!_
_Dez annos depois_
Já lhe não chamam Lili. É condessa.
Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as
artes e de todas as civilisações.
As festas que ella dá são citadas pela sua pompa severa e artistica,
pela sua graça principesca, pelos requintes de bom gosto que as
singularisam entre todas.
Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada um
dos seus accenos.
As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos
inglezes excitam a admiração dos entendidos e a inveja dos profanos.
A condessa nunca está só.
Hoje uma recepção a que não póde faltar, ámanhã um baile, no outro dia
um jantar diplomatico, e as mil praticas da sua devoção aristocratica, e
as pequenas _soirées_ intimas que dá, e as festas a que preside em sua
casa, e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos
accessorios.
Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae.
Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha.
Tem um filho... que está no collegio.
Tem marido... que anda sempre por fóra!
Será feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte marmorea
não se reflecte senão uma sombra.
É a mulher do mundo na sua accepção mais genuina.
Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por
exclusivo alimento.
Sabe que é bella, invejada, cubiçada, admirada, odiada até!
Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz!
_Na velhice_
Está sentada ao fogão na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por
tudo que ha mais bello e mais luxuoso.
Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz
discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas.
A condessa está só, e os seus olhos baços e amortecidos seguem as
chammazinhas iriadas do fogão com uma insistencia pensativa.
Com a formosura perdeu a força dominadora que a tornava poderosa e
querida.
Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e
festivas onde suas filhas já casadas segundo as conveniencias da alta
posição que occupavam, continuam a vida de que sua mãe lhes déra o
exemplo tentador.
O seu confessor começa a sentir-se cansado do escrupulo esmiuçador com
que a condessa aproveita os longos ocios da solidão para esgravatar
piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia.
--Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que já não era o moço
almiscarado dos dias da mocidade, e que ganhára em abdomen o que perdera
em mystica elegancia; minha senhora, não nos percamos em funestos
exageros. Deus não quer a morte do peccador, snr.^a condessa.
Nem essa distracção ultima lhe ficára.
As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo
deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a
analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta
para suprema distracção.
No fim de contas a sua vida não fôra mais do que um sonho frustrado, a
carreira impetuosa e desvairada atrás de uma sombra que fugia sempre!
Não tivera as livres e salutares expansões da alegria infantil, não
tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia, não fôra filha,
nem amante, nem esposa, nem mãe!
Agora já não saberia ao menos ser avó!
E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver
deslisar uma pequenina figura de cabeça annellada e loura, uma figurinha
que dava pelo nome de Lili!
Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara!
--Minhas filhas--murmurou baixinho a altiva senhora,--perdoae-me pelo
amor de Deus, assim como n'este momento eu perdôo á minha mãe!
CAPITULO VIII
Casamentos pobres e casamentos ricos
Uma das accusações mais frequentes que hoje se dirigem aos homens é que
elles são egoistas, interesseiros, que introduzem o calculo e as
finanças no que devia ser um impulso espontaneo do coração, que
confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor.
Eu, que não gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que
produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de
perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem
cabidas as censuras frisantes que por ahi ouço continuamente á porção
mais _feia_ da humanidade.
_Uma cabana e o teu coração!_ eis o que antigamente soluçavam aos pés
das suas deusas de _biscuit_ os trovadores de algodão em rama.
Um _rez de chaussée muito commodo e quatro contos de réis de
rendimento!_ eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas
alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e
mercantil.
Mudou a tal ponto o coração humano, que já os sinceros e impetuosos
sentimentos não possam acclimatar-se n'elle?
Isto caminha n'uma tal e tão rapida decadencia, que tudo que era bom,
honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras regiões
ainda inexploradas?
Sinceramente não o acreditamos.
Em primeiro logar, em todas as épocas e em todos os paizes, o
desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi
cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto.
Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas juvenis,
que o mundo expulsava do seu seio, por não têr que lhes dar nenhuma das
alegrias naturaes que são o apanagio mais caro da mulher!
Se alguma differença temos que apontar são as conquistas alcançadas pela
familia, nos terrenos que até aqui usurpara o egoismo e a ambição do
homem.
Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa época, com uma certa
força o interesse pessoal, que é um dos elementos mais esterilisadores
que póde existir na sociedade, não demos só ao homem a culpa de essa
tendencia nefasta.
É incontestavel que á proporção que as civilisações se desenvolvem,
crescem as necessidades, cresce o amor do luxo, sem que para todos
cresçam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspirações
fataes.
Não é portanto espantoso, que o homem, ainda o mais dedicado e crente,
antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia, meça as
suas forças, calcule com precisão mathematica os meios de que dispõe
para cumprir as obrigações que acceita, e muitas vezes diante da grande
desproporção que encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do
sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razão!
É que a familia, tal como está constituida na sua generalidade,
estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os
deveres da mulher.
Se a esta, em face da consciencia e da razão, cabe a tarefa mais
espinhosa, a missão mais elevada e mais complexa, nem por isso, logo que
ella fecha os ouvidos a esta voz superior que tão poucas escutam e que
tão poucas entendem, se acha realmente forçada a outra cousa que não
seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar protecção, amparo,
ajuda, sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes.
Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra
com bastante peso na balança dos seus affectos.
Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser
independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os
bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do
luxo real ou do luxo hypothetico do _ménage_?
Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio de
aspirações sãs, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades
intellectuaes, capaz de conquistar á força de perseverança, de trabalho
e de privações, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na
politica ou no magisterio.
Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou,
juntamente com um nome honrado.
Sente a natural aspiração de completar a sua existencia, unindo-se á
mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente.
Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forçosamente tem
de consagrar quasi todas as suas horas.
Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina.
Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas
precauções restrictas, que dão idéa pouco lisongeira do pudor e da
castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha
d'ellas um conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial--o
conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas
sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio.
Não póde pôr-se pelo mundo á busca de uma excepção: o molde das nossas
meninas da sociedade varia muito pouco.
Todas sabem bordar a matiz, tocar a _Somnambula_ e o _Trovador_ ao
piano, fazer _housses_ de crochet, papaguear em duas ou tres linguas
puerilidades comicas, dançar os _Lanceiros_ e criticar as _amigas
intimas_.
N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre moço?
Ou resistir ás solicitações impetuosas da mocidade, á necessidade
instinctiva que sente do conchêgo de familia, d'aquelle _sweet home_ que
tanto imperio tem no coração de todo o homem de pensamento e de
trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á pressa de uma
d'essas rachiticas flôres de salão.