A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario das suas

pequenas joias torna-se para as mães--para as mulheres--um negocio de

alta e gravissima importancia.

Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, as rendas, as sedas, as

plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido

anjo.

Dous resultados inevitaveis:

A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a

feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira semente, que mais

tarde ha de desatar-se em venenosos fructos.

A pequena assim vestida julga-se forçosamente de uma essencia superior

ás que não podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o

orgulho, de outro lado rasteja a inveja.

O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulações raivosas, de

ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito

da creança a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da

mulher.

Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel

cultura, o mesmo systema que até alli dominou na educação da pequenina

continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia.

«--Quero que a minha filha se não possa envergonhar de apparecer ao pé

das mais ricas!--diz a mãe enfatuada na sua funesta vaidade.

* * * * *

Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de desenho, ou

conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero.

Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a _bordar_ a lã, a

_bordar_ a ouro, a _bordar_ sobre escomilha, a fazer _crochet_, flôres,

pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentação de um quarto de

pensionista ingenua.

Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos de geographia,

alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica.

Por cima de tudo isto um pó dourado de devoção elegante, ministrada pelo

director das consciencias do _high-life_.

Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e

despretencioso, cujos sermões não tenham fama, cujas predicas não sejam

ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia,

inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica.

É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o

ensino da religião alguma cousa de artistico e de adocicado como elle.

_Saber bem doutrina_ constitue um dos deveres de uma educação primorosa,

e no entanto a filha que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram

todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as

obrigaria.

Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cór umas

certas e determinadas regras de que não percebem a applicação pratica.

Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua

educação completa.

Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o

seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos

personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da côrte, para

conviver n'um pé de intimidade com todos os grandes, e com todos os

opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto

empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista

desprotegido, é a mesma a sua educação moral, physica e intellectual.

Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida;

tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito,

tem as mesmas noções na consciencia.

A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos

direitos, as mesmas aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo

lugar na sociedade.

Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta educação, toda

vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, convem tão pouco

á filha da aristocracia e da opulencia, como á filha da burguezia e da

mediocridade.

Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto

e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina para os

attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixões, para os

conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria

para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um

auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o

ajude a conservar dignamente a posição que herdou dos seus avós ou que

conquistou com o braço e com o pensamento.

A outra, n'uma esphera que é inferior á da primeira, segundo o ponto de

vista social, mas que de feito lhe é superior, porque inclue mais altos

e mais complexos deveres--a outra precisa de descer com seu marido á

arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em

tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si

terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a preparou!

Dir-me-hão que o nivelamento democratico das modernas sociedades dá a

todos os mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a mãe

opulenta e nobre que cria suas filhas nos fôfos ocios da riqueza não

sabe se em breve terá de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria,

assim como a mulher de um humilde empregado não sabe se verá sua filha

ascender a uma prospera e brilhante posição, elevada por um d'esses

casamentos que são vulgares, como d'antes eram raros.

D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destróe a

minha asserção, pois o que eu disse e repito é que a educação feminina,

tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma

posição brilhante ou precaria é util ou conveniente.

* * * * *

Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde adquirir-se

partindo de tão errados principios?

A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma educação que tem

por unica base a vaidade?

Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir

conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir ás

tentações, ás adversidades, ás miserias, aos combates da vida?

Imagine-se, em contraposição a esta falsa cultura, que constitue o que

os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma _educação

muito fina_, imagine-se que as mães, juntando-se n'uma piedosa cruzada,

conseguiam crear uma instituição moderna, onde suas filhas recebessem a

educação que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na

sociedade e na familia.

Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos a idéa d'essa

escola-modelo, onde a creança aprendesse a ser mulher, onde a mulher

aprendesse a ser mãe! onde uma direcção harmonica e intelligente

presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento não menos

sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a

primeira noção que o entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o

trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir

um dever!»

Eu não quizera por certo proscrever da educação da mulher as graças, que

são para ella o que o perfume é para a flôr.

Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de _pedantes_,

enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude, á força de lhe

darem ares dogmaticos.

Se a leitora suppõe de mim tal abominação, é que eu bem pouco tenho

conseguido revelar-me aos seus olhos.

O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel.

V. exc.^a, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e

risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do céu

azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abençoado.

Tome o meu conselho: não siga na educação do seu pequeno amor o systema

que sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que

teem.

Córte de uma vez este fatal nó gordio da tradicção, do costume, da

rotina, que faz morrer em flôr tantas innovações beneficas.

Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e rico enxoval

que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fóra essas

sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdição para a alma

pequenina que Deus lhe confiou.

Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que

revele os seus desvelos de mãe, mas que não denuncie as suas vaidades de

rica.

Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um laço

de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e

mais contente.

Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu

dos pés á cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a

si mesma se v. exc.^a já não era tão rica como ella julgou; mas em

compensação d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creança

pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de

rosas, e beijal-a com um dôce e fraterno beijo, como os anjos se dão

entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um

sorriso bom!

Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que não teem as

invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como uma eterna maldição!

Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e

muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous motivos,

ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e deixa uma esmola de pão

e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente.

Oh! como são doces ao coração das mães as bençãos que se desfiam como um

rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos.

* * * * *

Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe pedir

cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um trabalho pesado e

tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma idéa tão frivola, que ella só

aprenda o que é superfluo para não dizer inutil.

Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e tão subtil o vasto livro

da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de

amor e de fé. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora.

Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se não

conserve aos seus olhos inanimada e esteril.

Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a

brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei,

que é feita de tanto amor!

Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes,

deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do

pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da

desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas

nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe então baixinho, com a sua voz

de mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma

virgem:--Comprehendes agora as palavras do Christo: _Ama a Deus sobre

todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo_?

Só este commentario das lições do Justo póde fazer com que ellas dêem

abençoados fructos!

Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana

tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a

sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer e dominar as

astucias criminosas e traiçoeiras.

Faça-lhe sentir com a lição e com o exemplo que a mulher tem quasi

sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as

fórmas imaginaveis, é sempre no fundo o mesmo! o orgulho.

Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua

bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo,

que tem como origem a belleza e a graça artificial das seducções,

rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o põe em acção.

Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as

eventualidades.

Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balcão.

Eis o ideal.

Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa propria

assencia, que provém da noção elevada que nós temos dos nossos direitos

e dos nossos deveres, e que é portanto independente de qualquer

circumstancia exterior.

É d'esta dignidade que uma educação justa e forte deve dar á mulher, e

que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a

deve acompanhar.

Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos

delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa do dever

que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigações,

depois as distracções, eis aquillo que todas as mães devem ensinar ás

suas filhas.

No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das creanças

fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o

impulso das suas ephemeras paixões, uns seres pensantes, conscios da sua

força, sem ambições desregradas de um poder que lhes não deve pertencer,

sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco

sympathica.

As salas terão menos estatuetas de _biscuit_ amaneiradas e ridiculas,

mas a familia terá mais elementos na vida e duração; os pianos deixarão

de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a

verdadeira comprehensão da arte, da religião, e da poesia penetrará como

por encanto nos entendimentos feminis.

Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira,

não só digna d'elle, porém capaz de o levantar a um nivel que elle

ainda, desacompanhado e desprotegido, não pôde desgraçadamente attingir.

CAPITULO VI

Leitura para nossas filhas

«Minha querida amiga:

Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca

infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e

luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento que

a nutra e que a deleite.

Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a

minha opinião, o meu conselho.

É um caso difficil este que me propõe.

Lili é uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica inflexivel das

creanças intelligentes, tira rapidamente a conclusão das premissas que

submettam ao seu criterio. A leitura póde fazer-lhe muito mal ou muito

bem; não póde de modo algum ser-lhe indifferente.

A minha amiga seguindo as tradicções que já encontrou assentes,

pergunta-me se póde deixar ler a sua filha _Paulo e Virginia_, esse

idyllio que tem cem annos e que ameaça ser eterno, ou _Jocelyn_, o poema

mais perigosamente mystico que eu conheço. Falla-me no _Genio do

Christianismo_, de Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine.

Não se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se

justamente d'aquelles que só lhe podiam fazer mal.

Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha uma

mulher solidamente instruida ou então uma mulher ignorante?

Quer que ella saiba resistir ás tentações que forçosamente ha de

encontrar na vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e

absoluta inexperiencia até á edade em que ha de entregal-a ao homem que

tem de ser seu marido?

Da resposta a estas duas perguntas é que tudo depende, porque segundo a

idéa que a minha amiga fórma da educação de uma mulher, segundo o

systema que tenciona pôr em pratica com relação á educação de sua filha,

o futuro d'esta ha de levar um outro caminho.

Eu não posso dizer-lhe positivamente: faça isto, faça aquillo.

Posso apenas contar-lhe o que fiz.

Minha filha tem hoje vinte seis annos, é casada, é mãe, e tem sabido

cumprir a dupla e difficil missão que a sorte lhe confiou.

Não sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem á educação

que procurei dar-lhe; parece-me, porém, que sem falsa modestia poderei

confessar, que os meus cuidados não foram de todo inefficazes, e que o

muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha, me

ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeiçoamento.

Ha gente que diz que as mulheres não devem ler.

Não sei se alguma vez tem ouvido essas opiniões estupidas ou perfidas;

não lhes dê credito minha boa amiga.

Eu não acho merito algum á mulher ignorante, que se resigna ao

cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias.

Segue rotineiramente um caminho de que não conhece as difficuldades, e

se não se afasta d'elle é porque não sabe de nenhum outro.

A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades

mentaes, e da sua força moral, ella póde ler tudo sem perigo, é

indispensavel que uma educação anterior a tenha preparado e fortalecido,

é indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que

ella deve receber na infancia e na adolescencia.

Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances são immoraes, que

os que não são immoraes nos intuitos são perigosamente exaltados ou

revellam ao espirito da mocidade quadros que ella não deve conhecer:

diz-me que a historia de todos os povos não é mais que um amontoado

confuso de crimes e de vicios, que a sciencia está em contradicção

absoluta com as verdades de religião, e no meio das duvidas que se

desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma

ignorancia que ao menos a conserve simples de coração e tranquilla de

espirito.

Tenho duas objecções a fazer-lhe minha amiga, e parece-me que ambas hão

de impressionar o seu esclarecido entendimento.

Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, verá que transige

por fraqueza e por preguiça com a ignorancia de sua filha.

Prefere que ella não tenha quasi nada, a ter de se entregar a trabalho

difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella

deve saber.

Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto

socegado e tranquillo onde ella repousará affoutamente, parece-me a mim

um banco de perfidas areias onde facilmente ella póde naufragar.

Já estou d'aqui prevendo a sua objecção.

Mas eu não quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo contrario,

dei-lhe uma excellente educação. Aqui não se tracta senão das leituras

que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar.

Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha não souber senão

o que tem aprendido até agora, de poucos recursos fica munida para

combater na grande batalha em que vae entrar.

Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez já a sua primeira communhão,

e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade, e com uma

memoria impecavel.

E depois?

Em que é que essas noções a auxiliam para que ella chegue a conceber o

bem absoluto, a eterna justiça, o Espirito Supremo que anima a grande

natureza?

É preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda idéa, e as

manifestações da sua grandeza não estão no cathecismo, estão espalhadas

n'essa creação universal que ella não sabe ver e que ella não conhece.

Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e

impurezas, que deixaram chegar ás suas mãos infantís.

Não será uma irrisão dizer que ella conhece a historia?

Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes,

coroações e consorcios, e os filhos que tiveram e as cidades e villas

que conquistaram; mas que idéa tem ella d'essa historia sublime, que

participa do drama e da epopêa, que tem paginas doloridas e paginas

brilhantes, que tem cantos triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia,

d'essa historia em que estão registradas tantas luctas heroicas, tantas

conquistas immortaes, e que se chama a historia da humanidade?

Não lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante,

robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforços titanicos que o homem

tem empregado para alcançar a quasi omnipotencia que hoje possue?

Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e de

chimeras para o espirito, esmagado pela força brutal da natureza, sem

comprehensão do destino que o esperava e da missão a que vinha, até ao

homem dos nossos dias, ao rei, ao victorioso, ao vencedor, ao que tem

dominado todas as tyrannias que o dominavam, que differença enorme vae,

minha querida amiga!

Entre o pária errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que

se chama Newton ou Goethe, Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a distancia

de uns poucos de milhares de seculos, que é preciso conhecer ao menos

pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais

illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisação.

É isso que eu chamo conhecer a historia.

D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, ávido, aberto para

todas as grandes cousas, só póde colher proveito, um enorme proveito

cujo alcance mal lhe posso explicar!

Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros

revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto póde ferir o delicado e

original espirito de uma creança.

Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, abnegações, arrojos sublimes!

Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres;

se ha monstros, tambem ha santos.

Deixe que no cerebro da creança se faça a mysteriosa elaboração de que

ha de sahir o culto pelo que fôr bello e bom, o odio raciocinado e

violento a tudo que fôr abjecto e vil, a compaixão virtuosa e divina

para tudo que fôr fragil e ignorante!

Ponha nas mãos de sua filha todos os cantos d'essa epopêa enorme.

Faça-lhe lêr com attenção essa historia, e quando ella tiver chegado á

ultima pagina, será mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte,

capaz de ser esposa digna, e mãe desvellada, tendo aprendido a conhecer,

comparar, julgar e a pensar.

Não sei se comprehendeu bem a idéa que procurei expôr-lhe. Apontei a

traços largos a direcção _una_ que deve dar ás leituras de sua filha.

Isto a que chamei conhecer a historia, não é, como viu, ler simplesmente

os historiadores.

É lêr, dominada por uma idéa de elevada critica, que as conversações

d'uma mãe intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este

thesouro formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util.

Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que

vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os

seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os

navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais

gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam

lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeiçoamento do homem.

Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle.

É o coração mais apaixonado de justiça que eu conheço, o que o não priva

de ser injusto muitas vezes; mas tem uma alma tão grande, tem uma

comprehensão tão viva do bello, tem faculdades artisticas tão poderosas,

que para mim não ha companheiro melhor para um espirito moço.

Deixe que sua filha leia muito Michelet.

É um grande mestre. Atravez d'elle ella saberá sentir melhor, amar com

um amor mais intelligente a natureza.

Michelet tem a doçura misericordiosa que redime e levanta os humildes e

anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos sêres mais

inferiores, e que o illumina de uma luz sympathica.

Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios.

É um genio que tem alguma cousa de propheta.

Como é bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, dá bondade e

força.

«Para elle não ha na natureza, nada que tenha vida, e não tenha alma!

Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo

que ama tem direito ao nosso amor.

Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias!

Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, não

entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever

implacavelmente a outra poesia.

Quando digo isto refiro-me á poesia rimada, á que canta no ouvido, com

uma musica que é muitas vezes traiçoeira.

Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de

sereia penetrem no ouvido de sua filha.

Oh! é que é preciso muita força para resistir á influencia dissolvente

que ellas teem em nós.

Nunca perca de vista que a vida é um combate, um rude e terrivel

combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no

espirito a força de que este precisa, tornam-n'o debil, amollecem-n'o,

em voluptuosidades enervantes.

Ninguem tem medo de Lamartine.

As mães dão-n'o a ler ás suas filhas, os noivos dão-n'o de presente ás

suas noivas.

Para todos elles é o mais puro dos poetas, um cysne que nunca maculou as

suas pennas brancas no lodaçal das paixões insalubres!

Não se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de

Lamartine e dos melancolicos da sua escola.

Que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspiração a um ideal

impossivel? do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de

amores que não existem?

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 4 / 13 段