Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no

collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na

vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido

indifferença.

Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe frivola e

vaidosa, e esses filhos desprezados.

Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera.

Eram romances.

Fallavam de paixões indomitas, de amores _mais fortes do que a morte_,

de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas _couleur de

muraille_; de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa

das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos

Almavivas de torna-viagem.

Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras,

embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos seus cabellos

brancos parecia uma ironia cruel!

Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe até os mesmos parias.

Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma

das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas montanhas azues!

Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopéa das suas

fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia

calmante das suas noites tepidas!

Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu?

Não.

E não é que ella seja implacavel ou severa, não é que ella saiba sequer

das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio. É porque não é na

velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo.

É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem gradual, é que a vasta

creação só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para

os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, radiosas

esperanças.

É que a alma, que ao desabrochar não soube ser sensivel á enternecedora

poesia das cousas, nunca saberá entender na hora triste do declinar, a

sua ineffavel e divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura

e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando

os velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de

estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por

companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegação!

Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da

felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e tão

accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoção.

É lá que ellas vão buscar refugio.

Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia

de revolver com ellas o montão de flôres murchas do passado, a ver se

ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam

fervorosamente toda a casta de superstições rediculas; entram em

associações pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra fórma não

menos redicula e não menos balofa do que gastaram os dias da juventude.

E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de

santidade entre a piedosa confraria.

* * * * *

O que é pois necessario e indispensavel para todas nós?

É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos

intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para

construir com elles a nossa propria felicidade.

Quando a mulher depois de ter recebido uma educação robusta, depois de

ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais

favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que

seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicação util ás suas aptidões

especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idéas geraes, de

noções e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a

consciencia de que mesmo sósinha na vida, saberá grangear dignamente o

seu pão, olhar em torno de si,--forte, intelligente e instruida--e entre

os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um

homem, esse póde sentir-se justamente ufano.

Não haverá n'este consorcio nenhuma especulação e nenhum calculo.

Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi

raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu

destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar.

Trabalharão ambos.

Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador,

negociante ou politico, sempre a coadjuvação de uma intelligencia

cultivada e flexivel, penetrante e fina, será de incalculavel utilidade

ao homem.

Não viverão de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e

rapidos amores; terão um fim commum, o bem proprio e o bem de seus

filhos. Terão meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade

de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz.

Como o casamento foi um acto em que não entrou a paixão irreflectida, a

precipitação estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia

de que essa união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher é

irrequieta e audaz, logo que ella faça o seu fito de alguma cousa de

maior e de mais elevado, deixarão de ser perigosos os seus caprichos.

O homem, preparando-se para casar, tambem não dirá comsigo: Vou buscar

um encargo.

Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio.

Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista.

Provirá d'esta nova interpretação do casamento o haver muito menos

mulheres solteiras.

As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa.

Trabalharão.

Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não possa tornar util, e

produzir em bem, tudo que consome em sustento.

Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipação,

mas crear-se-hão outras novas, mais necessarias, e para as quaes a

mulher poderá levar as suas faculdades felizes, ás quaes só falta

educação condigna. E quando para todas chegar a velhice será como a

corôa e o remate de um monumento sublime.

* * * * *

Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de attribuir todos

os males da familia á falsa educação das mulheres.

Como se ellas fossem tudo!

Como se d'ellas dependesse tudo!

É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia

immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que muitos males,

que muitas desgraças, que muitas immoralidades se lhes devem!

_Cherchez la femme_, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa

pretensão feminina esta minha idéa.

CAPITULO IV

A dissolução dos costumes e o casamento

Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente

contra a dissolução dos costumes modernos, ou descrevem-na com o

pungente _realismo_ da sua solta e desbragada ironia.

Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras

de Juvenaes _au petit pied_.

Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou

pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcançal-o.

As theorias são optimas, a pratica é deploravel.

Ninguem é já tão ignorante e tão desallumiado da scentelha sagrada, que

confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais

funesto á sociedade e á familia, do que a idéa confusa que em épocas

menos adiantadas se formava dos deveres de cada um.

Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco

vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um

aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos

que de perto lhe observam o progressivo definhar.

Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral,

cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos effeitos desastrosos

que todos os dias se vão mais claramente revelando.

Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. Não ha ninguem que

não esteja interessado igualmente na destruição de tão terrivel

flagello.

Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que das alturas

onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam

outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa vontade.

Parece que metade do caminho está vencido, porque se muitos,--se a

maioria--anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que

aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se

afastam.

O grande mal da nossa época é--quem tal o diria?--é a preguiça

intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porém ha poucos que meditem

e que pensem.

O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove é o

seculo da industria.

Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da

riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende á voz

prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos

homens que elles vão por um caminho errado, que trilham uma estrada que

não é a verdadeira, visto que a não illumina e lhe não mostra os

precipicios, a verdadeira e eterna luz.

Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da familia,

que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provém de uma causa,

composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem

juntar-se os esforços de todos os que amam o bem.

Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, não

já sob um ponto de vista mystico e sentimental, porém no seu verdadeiro

aspecto, nas suas relações inilludiveis com a sociedade e com a

verdadeira moral.

Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, é com a mulher que eu fallo.

O homem tem-se em muita conta para dar attenção á minha debil e

desautorisada voz.

A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, da

felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que

eu lhe estou aqui fallando.

O casamento não é um contracto puramente social, não é uma união só

filha da religião e do sentimento, não é uma sancção legal de affectos

egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas é

muito mais sério, mais sagrado e mais santo do que isso tudo.

Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a geração de que

fazemos parte, é triste como nenhuma outra, essa tristeza provém

principalmente das imperfeições que maculam o casamento, das duvidas que

assaltam todos os espiritos ao vêr tão longe da sua resolução definitiva

o problema importante da familia.

Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia

insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado

sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram

que corresponda ás radiosas esperanças com que se haviam embalado.

É que realmente depois da escuridão caliginosa, da noute lugubre e

sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar

tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparições

luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, fizeram-lhe crêr

em tão divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vêr quão

pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora

infecundos.

Mas não percamos a fé; sem ella o mundo caminhará sem ter outro norte

que não seja o perigoso conselho das suas paixões desordenadas.

Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos preparando

essa evolução pacifica e luminosa de que já talvez nenhum de nós

aproveite os resultados beneficos.

Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em

todas as emprezas de que não possamos com mão soffrega e impaciente

colher os fructos embora prematuros e mal sasonados.

* * * * *

Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego,

com que os moços de hoje, os moços de ambos os sexos, fallam do

casamento e da familia.

Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam

devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos,

diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas com ternura apaixonada,

as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto.

A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por feição a ironia

mordente, a analyse fria, a dissecação anatomica mais positiva e mais

crua.

O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e debaixo de

todos os aspectos.

Se acabaram as declamaçães de _Benedicto_ e de _Antony_ contra a

tyrannia esmagadora da instituição conjugal, apparecem em logar d'estas

os quadros mais abjectos da dissolução e da decadencia a que chegou o

casamento e com elle a mulher.

No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo falso e tão

ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam

arithmeticamente o que póde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo

a que chamam um _bom casamento_.

Não attendem ás qualidades moraes, que não podem apreciar nem conhecer;

quando muito, lançam no orçamento como uma verba de certa importancia as

vantagens physicas da noiva escolhida.

Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma idéa definida e clara da

missão que aceitam os eleva a seus proprios olhos.

Pelo seu lado a _noiva_, a creança radiosa que enfeitam todas as galas e

todas as flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás amigas

intimas, de que _já não tem illusões_ e que _conhece a vida_, a vida de

que ella não leu ainda sequer a primeira pagina!

Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous

bailes, porque o achou _interessante_, _sympathico_, _muito amavel_,

porque emfim é um _bom partido_, segundo diz o papá!

Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle

instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mão que

aperta nas suas mãos virginaes, será sempre em todas as crises, em todas

as occasiões da vida, a mão de um homem honrado.

No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro

sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto.

Dizem então os frivolos e os superficiaes: o _melhor tempo é o da lua de

mel_.

Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas não são os dias da

felicidade.

Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma semente

envenenada que ha de germinar mais tarde.

Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixão sensual os

prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do

pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque

sabem que lá os espera a desillusão, teem guardadas muitas das tristes

descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de

extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente.

_Elle_ sabe já que a mulher é frivola, é ignorante, é vaidosa, que vê no

casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os

sacrificios; _ella_ tem a certeza de que todas aquellas promessas

radiosas não passam de uma chimera que o tempo desfará, que o marido não

tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos

exigente, e a menos ambiciosa.

Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os

defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros.

O que os entristecerá mais tarde, o que avincará de rugas de mau

prenuncio o rosto do marido, e fará encher de insondavel tristeza o

coração da mulher, não é mais que a resultante das pequenas e todavia

fataes concessões e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos

defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos

risonhos dias do noivado.

_Ella_ sahiu do aconchego tepido da familia, das doçuras do lar paterno,

dos braços amoraveis da mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser

muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinações,

os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no

coração humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e

de genio.

Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto conviviam

com _ella_ lhe perdoavam, é desculpado tacitamente por _elle_ no extasi

e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde tudo isso servirá

de base a accusações asperas, e a censuras amargas.

_Ella_, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as

imperfeições que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje é intolerante

e severa.

Por isso, a mãe, quando dá o ultimo abraço á filha que parte para os

braços do noivo expede dilacerantes soluços de afflicção, e lamenta-se

desesperadamente.

--É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a

apenas nos saráus, á luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha,

feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou

a aprendizagem da vida! E como esta é devéras tão outra e differente do

que suppunha!

Pobre creança!

Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente,

e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso

que seja.

Mas, de quem é a culpa, bom Deus?

Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro

da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam,

das recriminações azedas, que farão explosão mais tarde, e que levarão

áquelle dôce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desillusão, e a

algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se

desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgirão?

A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher como ao

marido.

O noivado é uma iniciação augusta, uma escóla onde devemos aprender a

ser justos e tolerantes.

O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido

em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois injustamente

considerado uma cousa horrivel e monstruosa.

E mister que o marido e a mulher se não julguem a suprema e alta

perfeição, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que

ninguem escapa.

O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de

negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, phrenesis e

agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias,

não será o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos pés da noiva,

submisso, trémulo e feliz, não medindo o mundo senão pelo ambito

aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perderá todo esse ar de

humildade e de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre

creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e

nativa delicadeza.

A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da

administração de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que

prevê, terá hesitações, duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas

e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão

ambicionada posição de senhora e dona de casa.

Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, das academias,

desgostoso, com o coração mordido pelo infortunio, magoado pela

ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que cégamente

confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa

e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma

consolação benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente

as feridas que sangram, para só pensar no marido de que é solidaria

companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora.

Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o socego, a ventura e a

honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverança inalteravel, a

bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz

que dimana do coração.

Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza,

as coleras bruscas do marido, e verá como este saberá fingir que ignora

que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos.

Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que dê o exemplo, e os

resultados d'essa condescendencia serão de maravilhoso alcance.

Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um caracter de austera

seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias

duradouras, se não quizermos que a familia se desmanche, e que a

immoralidade triumphe.

Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a

grinalda de flôr de laranjeira causarão ás suas mais intimas amigas,

entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que

apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de

abatimento e tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam.

Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende

a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o porvir dos filhos.

Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido

intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noção do justo

e da verdade, poderão facilmente escolher o caminho que os leve mais

direitos á felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se

não souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em

espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com

olhos benevolamente complacentes, e só então complacentes! de noivos.

No campo não é raro ouvir-se ás aldeãs a quem se pergunta se se dão bem

com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca

d'essas mulheres:

--Ao principio tivemos as nossas _turras_, mas a gente, como o outro que

diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o

que elle quer, quero eu tambem.

_Ao principio tinhamos as nossas turras_... ouviram? É que no campo ao

primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo

o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as

differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão

desapparecendo.

A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer

ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora

influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido,

conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos

que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana.

CAPITULO V

As mães e as filhas

Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é

um meio de ser ouvida com attenção.

Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males

que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só

levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas

entranhas.

Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser

guiado e dirigido.

Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram

de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a

voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a

suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás

_exterioridades brilhantes_, que farão d'ella a favorita dos salões

mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas

frivolidades sociaes.

Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da

miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de

longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas

teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas

devem receber.

Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas

galas sediças; para ellas uma _educação de senhora_ não varia.

Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica.

Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem

de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official;

as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no

lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica

a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou.

Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a

espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira

obrigação que reconhecem é a _de não fazerem bulha_.

Tornam-se taciturnas e sonsas.

O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua

idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais

vulgar dos vicios femininos.

Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica,

de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao

livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os

segredos.

Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos

miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 3 / 13 段