collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na
vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido
indifferença.
Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe frivola e
vaidosa, e esses filhos desprezados.
Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera.
Eram romances.
Fallavam de paixões indomitas, de amores _mais fortes do que a morte_,
de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas _couleur de
muraille_; de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa
das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos
Almavivas de torna-viagem.
Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras,
embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos seus cabellos
brancos parecia uma ironia cruel!
Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe até os mesmos parias.
Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma
das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas montanhas azues!
Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopéa das suas
fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia
calmante das suas noites tepidas!
Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu?
Não.
E não é que ella seja implacavel ou severa, não é que ella saiba sequer
das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio. É porque não é na
velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo.
É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem gradual, é que a vasta
creação só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para
os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, radiosas
esperanças.
É que a alma, que ao desabrochar não soube ser sensivel á enternecedora
poesia das cousas, nunca saberá entender na hora triste do declinar, a
sua ineffavel e divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura
e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando
os velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de
estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por
companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegação!
Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da
felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e tão
accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoção.
É lá que ellas vão buscar refugio.
Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia
de revolver com ellas o montão de flôres murchas do passado, a ver se
ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam
fervorosamente toda a casta de superstições rediculas; entram em
associações pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra fórma não
menos redicula e não menos balofa do que gastaram os dias da juventude.
E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de
santidade entre a piedosa confraria.
* * * * *
O que é pois necessario e indispensavel para todas nós?
É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos
intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para
construir com elles a nossa propria felicidade.
Quando a mulher depois de ter recebido uma educação robusta, depois de
ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais
favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que
seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicação util ás suas aptidões
especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idéas geraes, de
noções e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a
consciencia de que mesmo sósinha na vida, saberá grangear dignamente o
seu pão, olhar em torno de si,--forte, intelligente e instruida--e entre
os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um
homem, esse póde sentir-se justamente ufano.
Não haverá n'este consorcio nenhuma especulação e nenhum calculo.
Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi
raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu
destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar.
Trabalharão ambos.
Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador,
negociante ou politico, sempre a coadjuvação de uma intelligencia
cultivada e flexivel, penetrante e fina, será de incalculavel utilidade
ao homem.
Não viverão de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e
rapidos amores; terão um fim commum, o bem proprio e o bem de seus
filhos. Terão meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade
de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz.
Como o casamento foi um acto em que não entrou a paixão irreflectida, a
precipitação estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia
de que essa união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher é
irrequieta e audaz, logo que ella faça o seu fito de alguma cousa de
maior e de mais elevado, deixarão de ser perigosos os seus caprichos.
O homem, preparando-se para casar, tambem não dirá comsigo: Vou buscar
um encargo.
Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio.
Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista.
Provirá d'esta nova interpretação do casamento o haver muito menos
mulheres solteiras.
As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa.
Trabalharão.
Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não possa tornar util, e
produzir em bem, tudo que consome em sustento.
Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipação,
mas crear-se-hão outras novas, mais necessarias, e para as quaes a
mulher poderá levar as suas faculdades felizes, ás quaes só falta
educação condigna. E quando para todas chegar a velhice será como a
corôa e o remate de um monumento sublime.
* * * * *
Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de attribuir todos
os males da familia á falsa educação das mulheres.
Como se ellas fossem tudo!
Como se d'ellas dependesse tudo!
É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia
immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que muitos males,
que muitas desgraças, que muitas immoralidades se lhes devem!
_Cherchez la femme_, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa
pretensão feminina esta minha idéa.
CAPITULO IV
A dissolução dos costumes e o casamento
Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente
contra a dissolução dos costumes modernos, ou descrevem-na com o
pungente _realismo_ da sua solta e desbragada ironia.
Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras
de Juvenaes _au petit pied_.
Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou
pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcançal-o.
As theorias são optimas, a pratica é deploravel.
Ninguem é já tão ignorante e tão desallumiado da scentelha sagrada, que
confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais
funesto á sociedade e á familia, do que a idéa confusa que em épocas
menos adiantadas se formava dos deveres de cada um.
Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco
vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um
aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos
que de perto lhe observam o progressivo definhar.
Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral,
cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos effeitos desastrosos
que todos os dias se vão mais claramente revelando.
Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. Não ha ninguem que
não esteja interessado igualmente na destruição de tão terrivel
flagello.
Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que das alturas
onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam
outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa vontade.
Parece que metade do caminho está vencido, porque se muitos,--se a
maioria--anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que
aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se
afastam.
O grande mal da nossa época é--quem tal o diria?--é a preguiça
intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porém ha poucos que meditem
e que pensem.
O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove é o
seculo da industria.
Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da
riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende á voz
prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos
homens que elles vão por um caminho errado, que trilham uma estrada que
não é a verdadeira, visto que a não illumina e lhe não mostra os
precipicios, a verdadeira e eterna luz.
Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da familia,
que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provém de uma causa,
composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem
juntar-se os esforços de todos os que amam o bem.
Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, não
já sob um ponto de vista mystico e sentimental, porém no seu verdadeiro
aspecto, nas suas relações inilludiveis com a sociedade e com a
verdadeira moral.
Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, é com a mulher que eu fallo.
O homem tem-se em muita conta para dar attenção á minha debil e
desautorisada voz.
A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, da
felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que
eu lhe estou aqui fallando.
O casamento não é um contracto puramente social, não é uma união só
filha da religião e do sentimento, não é uma sancção legal de affectos
egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas é
muito mais sério, mais sagrado e mais santo do que isso tudo.
Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a geração de que
fazemos parte, é triste como nenhuma outra, essa tristeza provém
principalmente das imperfeições que maculam o casamento, das duvidas que
assaltam todos os espiritos ao vêr tão longe da sua resolução definitiva
o problema importante da familia.
Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia
insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado
sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram
que corresponda ás radiosas esperanças com que se haviam embalado.
É que realmente depois da escuridão caliginosa, da noute lugubre e
sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar
tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparições
luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, fizeram-lhe crêr
em tão divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vêr quão
pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora
infecundos.
Mas não percamos a fé; sem ella o mundo caminhará sem ter outro norte
que não seja o perigoso conselho das suas paixões desordenadas.
Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos preparando
essa evolução pacifica e luminosa de que já talvez nenhum de nós
aproveite os resultados beneficos.
Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em
todas as emprezas de que não possamos com mão soffrega e impaciente
colher os fructos embora prematuros e mal sasonados.
* * * * *
Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego,
com que os moços de hoje, os moços de ambos os sexos, fallam do
casamento e da familia.
Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam
devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos,
diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas com ternura apaixonada,
as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto.
A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por feição a ironia
mordente, a analyse fria, a dissecação anatomica mais positiva e mais
crua.
O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e debaixo de
todos os aspectos.
Se acabaram as declamaçães de _Benedicto_ e de _Antony_ contra a
tyrannia esmagadora da instituição conjugal, apparecem em logar d'estas
os quadros mais abjectos da dissolução e da decadencia a que chegou o
casamento e com elle a mulher.
No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo falso e tão
ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam
arithmeticamente o que póde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo
a que chamam um _bom casamento_.
Não attendem ás qualidades moraes, que não podem apreciar nem conhecer;
quando muito, lançam no orçamento como uma verba de certa importancia as
vantagens physicas da noiva escolhida.
Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma idéa definida e clara da
missão que aceitam os eleva a seus proprios olhos.
Pelo seu lado a _noiva_, a creança radiosa que enfeitam todas as galas e
todas as flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás amigas
intimas, de que _já não tem illusões_ e que _conhece a vida_, a vida de
que ella não leu ainda sequer a primeira pagina!
Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous
bailes, porque o achou _interessante_, _sympathico_, _muito amavel_,
porque emfim é um _bom partido_, segundo diz o papá!
Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle
instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mão que
aperta nas suas mãos virginaes, será sempre em todas as crises, em todas
as occasiões da vida, a mão de um homem honrado.
No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro
sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto.
Dizem então os frivolos e os superficiaes: o _melhor tempo é o da lua de
mel_.
Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas não são os dias da
felicidade.
Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma semente
envenenada que ha de germinar mais tarde.
Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixão sensual os
prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do
pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque
sabem que lá os espera a desillusão, teem guardadas muitas das tristes
descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de
extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente.
_Elle_ sabe já que a mulher é frivola, é ignorante, é vaidosa, que vê no
casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os
sacrificios; _ella_ tem a certeza de que todas aquellas promessas
radiosas não passam de uma chimera que o tempo desfará, que o marido não
tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos
exigente, e a menos ambiciosa.
Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os
defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros.
O que os entristecerá mais tarde, o que avincará de rugas de mau
prenuncio o rosto do marido, e fará encher de insondavel tristeza o
coração da mulher, não é mais que a resultante das pequenas e todavia
fataes concessões e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos
defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos
risonhos dias do noivado.
_Ella_ sahiu do aconchego tepido da familia, das doçuras do lar paterno,
dos braços amoraveis da mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser
muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinações,
os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no
coração humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e
de genio.
Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto conviviam
com _ella_ lhe perdoavam, é desculpado tacitamente por _elle_ no extasi
e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde tudo isso servirá
de base a accusações asperas, e a censuras amargas.
_Ella_, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as
imperfeições que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje é intolerante
e severa.
Por isso, a mãe, quando dá o ultimo abraço á filha que parte para os
braços do noivo expede dilacerantes soluços de afflicção, e lamenta-se
desesperadamente.
--É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a
apenas nos saráus, á luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha,
feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou
a aprendizagem da vida! E como esta é devéras tão outra e differente do
que suppunha!
Pobre creança!
Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente,
e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso
que seja.
Mas, de quem é a culpa, bom Deus?
Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro
da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam,
das recriminações azedas, que farão explosão mais tarde, e que levarão
áquelle dôce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desillusão, e a
algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se
desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgirão?
A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher como ao
marido.
O noivado é uma iniciação augusta, uma escóla onde devemos aprender a
ser justos e tolerantes.
O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido
em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois injustamente
considerado uma cousa horrivel e monstruosa.
E mister que o marido e a mulher se não julguem a suprema e alta
perfeição, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que
ninguem escapa.
O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de
negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, phrenesis e
agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias,
não será o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos pés da noiva,
submisso, trémulo e feliz, não medindo o mundo senão pelo ambito
aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perderá todo esse ar de
humildade e de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre
creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e
nativa delicadeza.
A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da
administração de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que
prevê, terá hesitações, duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas
e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão
ambicionada posição de senhora e dona de casa.
Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, das academias,
desgostoso, com o coração mordido pelo infortunio, magoado pela
ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que cégamente
confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa
e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma
consolação benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente
as feridas que sangram, para só pensar no marido de que é solidaria
companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora.
Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o socego, a ventura e a
honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverança inalteravel, a
bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz
que dimana do coração.
Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza,
as coleras bruscas do marido, e verá como este saberá fingir que ignora
que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos.
Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que dê o exemplo, e os
resultados d'essa condescendencia serão de maravilhoso alcance.
Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um caracter de austera
seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias
duradouras, se não quizermos que a familia se desmanche, e que a
immoralidade triumphe.
Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a
grinalda de flôr de laranjeira causarão ás suas mais intimas amigas,
entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que
apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de
abatimento e tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam.
Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende
a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o porvir dos filhos.
Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido
intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noção do justo
e da verdade, poderão facilmente escolher o caminho que os leve mais
direitos á felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se
não souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em
espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com
olhos benevolamente complacentes, e só então complacentes! de noivos.
No campo não é raro ouvir-se ás aldeãs a quem se pergunta se se dão bem
com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca
d'essas mulheres:
--Ao principio tivemos as nossas _turras_, mas a gente, como o outro que
diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o
que elle quer, quero eu tambem.
_Ao principio tinhamos as nossas turras_... ouviram? É que no campo ao
primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo
o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as
differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão
desapparecendo.
A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer
ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora
influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido,
conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos
que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana.
CAPITULO V
As mães e as filhas
Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é
um meio de ser ouvida com attenção.
Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males
que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só
levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas
entranhas.
Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser
guiado e dirigido.
Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram
de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a
voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a
suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás
_exterioridades brilhantes_, que farão d'ella a favorita dos salões
mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas
frivolidades sociaes.
Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da
miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de
longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas
teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas
devem receber.
Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas
galas sediças; para ellas uma _educação de senhora_ não varia.
Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica.
Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem
de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official;
as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no
lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica
a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou.
Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a
espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira
obrigação que reconhecem é a _de não fazerem bulha_.
Tornam-se taciturnas e sonsas.
O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua
idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais
vulgar dos vicios femininos.
Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica,
de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao
livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os
segredos.
Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos
miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena.