recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um
perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia.
Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim
enfastiar as minhas leitoras.
_É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das
mulheres._
Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar.
Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de
vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.
Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é
positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada
attenção.
Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de
apresentar.
Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de
uma educação perfeita.
Ha a _dança_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só
serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de
agradar.
A _tapeçaria_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão
vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da
mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um
vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de
trabalho feminino, a _hypocrisia da preguiça_.
Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar,
mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como
a segunda.
Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a
ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente
estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido.
São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc.,
etc.
O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou
mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano.
Muito bem.
É preciso, porém, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi
anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada
mais.
A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á
alma do homem.
Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e
muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos,
enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as
resistencias viris do caracter.
É uma amiga, póde ser uma cumplice.
Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel
poder.
Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia
profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.
Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer
adivinhal-o ou presentil-o.
Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e
ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma
flauta ou de uma guitarra!
Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os
nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que
agitada por uma potencia ignota.
Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a
comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração.
De outro modo é uma profanação e é um escarneo.
Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas
exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem.
Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento
elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a
estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.
Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia
moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as
suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este
genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento
d'essa vocação.
O piano deixará de ser o flagello e a peste das _soirées_ sem ceremonia,
o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio
das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse
despotico e terrivel instrumento.
Não se dirá das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_,
subentendendo já o malfadado _piano_.
Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem
violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque nós não
queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario
queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente
condemnados.
Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem
cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da
mulher.
A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a
apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada
distracção artistica.
Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora
influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio
d'elle.
Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias,
ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos
intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma
serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar!
* * * * *
O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras
artes.
O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.
Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como
elementos de util e fecunda moralisação.
Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua
discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade
intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa
vocação espontanea.
Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme!
Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de
cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de
vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha.
As linguas são hoje ensinadas com muito esmero.
Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de
estudo e de pratica?
Uma applicação deveras ridicula!
Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou
italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou
Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro
sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do
pensamento e da palavra.
E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?
Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos,
idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.
Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral,
physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação
conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve.
E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum
philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido
nos seus estudos?
É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as
linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete.
A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de
dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das
mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo
attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade
mais poderosa e dominadora.
A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura,
animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação
infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas
por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender.
Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia,
abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse
espraiar-se livremente.
* * * * *
Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado
por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas
cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo
methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada,
fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje
tem.
Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de
pensar e de sentir.
Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da
sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_.
É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue
o pedantismo d'esta.
Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das
_excepções_.
Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a
rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a
torna ridicula.
Poucas são as que téem a coragem de--tendo um lado superior--se
conservarem simples, desartificiosas, naturaes.
Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um
vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!
Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção
admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam
humilhadas e deslocadas!
A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das
tôlas, e acabaria por desapparecer completamente.
A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si
recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem--e é
isto o principal--para se _entreter a si_.
É essa a grande questão!
É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que
ellas não precisem dos outros para viver contentes.
E como se ha de conseguir este fim?
Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito
todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera
dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que
ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições
intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma
exacta e elevada comprehensão da vida!
E não é muito o que nós exigimos.
Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do
que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas
filhas.
Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica
entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das
mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que
possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio.
Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos
indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o
sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa.
As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções
praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de
julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que
o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as
differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si.
A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos
os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar
lucidamente no sentido da palavra--progresso.
O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e
revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande
justeza de pontos de vista.
Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a
geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente,
progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um
conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel.
Juntamente com estas acquisições uteis, e como que amenisando os
esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua
filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais
accentuada vocação.
Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia
alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de
vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma
mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o
encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida.
Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar
mais puro e mais subtil.
D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada
pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia
facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever,
esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita,
apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho
interior que no seu espirito se houvesse feito.
Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir.
A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e
transformado de alcançar a perfeição moral.
Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos.
Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da
esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas
humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa
quotidiana, e o seu quinhão na vida?
De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu
cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos
deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem,
são um triumpho para aquella que os sabe exercer.
CAPITULO III
A velhice das mulheres
Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario
operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira
principal, duas cousas muito dignas de attender-se.
Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de
circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella
não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu
espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida
influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole.
Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão
curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e
podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice.
Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.
No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por
toda a parte encontraremos argumentos victoriosos.
No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta
dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias,
se póde chamar escravidão.
Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a
elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a
energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a
forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua
modesta subsistencia.
Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas,
diante da desgraça.
Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não
resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da
mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril
energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de
dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino.
Além do medo a impossibilidade absoluta.
Se nada sabe, o que ha de ella fazer?
Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante.
As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os
homens, são proprias para este genero de trabalho.
Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento
de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc.
Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos.
Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias
que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a
geographia.
Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes,
estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria,
independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás
circumstancias eventuaes.
Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a
conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão
tres caminhos a seguir.
Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de
respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle
lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu
futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta
funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam
para a sociedade e para a familia!
Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a
acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e
decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura
humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter
individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto
enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo,
atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças
alheias.
A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente.
A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não
achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o
mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não
soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se.
D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres
que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram
absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre
todos, o protector mais util e mais dedicado.
Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias
a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna.
Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das
ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _ménages_
tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa
paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não
menor proporção o numero das primeiras.
Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e
achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria.
* * * * *
Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes:
A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade
cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas.
A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para
ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor
responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não
occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para
sempre entregar-se.
A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo
que a rodeia.
A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e
abysmou.
Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á
dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica,
póde estar satisfeita comsigo mesma.
O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como
podem, os outros.
As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante,
o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz
esquecer.
Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram.
A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si
mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive
com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se
contentar.
* * * * *
Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos.
A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar
sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura?
Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria
para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice.
O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito
mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada
edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou.
A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as
argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e
mesmo os gosos ardentes da arte.
Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e
tantos e tantos mais.
A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina,
funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no
encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo
e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e
perfumada como a das flôres!
Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos,
um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o
espelho revelou aos seus.
Esse fio traz preso a si a desventura!
Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e
todas as vontades!
A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem
pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos.
Era das salas que ella gostava!
Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava
ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e
soberanamente ridiculo!
Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma
indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e
desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo
e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho
da madrugada humedeceu.
Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas
se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de
brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus
braços!
Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas
mulheres!
Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço!
Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias
insolentes, e aquelles odios violentos e felinos!
E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu
prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha.
Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha
epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era
bella, era triumphante!
A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons
companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas
brumas indecisas de um passado que ella não queria ver.
Oh! que intensidade de vida n'estas horas!
Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que
havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o
segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas?
Era feliz porque era admirada.
* * * * *
Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma
magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos
esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura.
Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara.
Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só
escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham
acclamado em triumpho.
Se vae procurar as alegrias e as distracções proprias d'essa nova phase
da sua vida, o que é que encontra em torno de si?
Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia
desertado.
O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, ou na dissipação
criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle
tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára
outros interesses ou outras affeições, seguira outro rumo, outra ordem
de idéas. Já agora não era possivel tornarem-se a encontrar na terra.