Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos

recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um

perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia.

Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim

enfastiar as minhas leitoras.

_É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das

mulheres._

Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar.

Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de

vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.

Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é

positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada

attenção.

Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de

apresentar.

Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de

uma educação perfeita.

Ha a _dança_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só

serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de

agradar.

A _tapeçaria_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão

vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da

mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um

vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de

trabalho feminino, a _hypocrisia da preguiça_.

Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar,

mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como

a segunda.

Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a

ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente

estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido.

São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc.,

etc.

O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou

mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano.

Muito bem.

É preciso, porém, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi

anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada

mais.

A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á

alma do homem.

Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e

muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos,

enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as

resistencias viris do caracter.

É uma amiga, póde ser uma cumplice.

Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel

poder.

Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia

profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.

Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer

adivinhal-o ou presentil-o.

Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e

ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma

flauta ou de uma guitarra!

Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os

nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que

agitada por uma potencia ignota.

Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a

comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração.

De outro modo é uma profanação e é um escarneo.

Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas

exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem.

Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento

elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a

estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.

Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia

moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as

suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este

genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento

d'essa vocação.

O piano deixará de ser o flagello e a peste das _soirées_ sem ceremonia,

o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio

das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse

despotico e terrivel instrumento.

Não se dirá das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_,

subentendendo já o malfadado _piano_.

Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem

violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque nós não

queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario

queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente

condemnados.

Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem

cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da

mulher.

A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a

apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada

distracção artistica.

Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora

influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio

d'elle.

Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias,

ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos

intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma

serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar!

* * * * *

O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras

artes.

O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.

Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como

elementos de util e fecunda moralisação.

Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua

discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade

intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa

vocação espontanea.

Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme!

Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de

cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de

vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha.

As linguas são hoje ensinadas com muito esmero.

Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de

estudo e de pratica?

Uma applicação deveras ridicula!

Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou

italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou

Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro

sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do

pensamento e da palavra.

E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?

Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos,

idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.

Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral,

physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação

conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve.

E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum

philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido

nos seus estudos?

É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as

linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete.

A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de

dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das

mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo

attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade

mais poderosa e dominadora.

A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura,

animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação

infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas

por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender.

Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia,

abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse

espraiar-se livremente.

* * * * *

Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado

por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas

cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo

methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada,

fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje

tem.

Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de

pensar e de sentir.

Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da

sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_.

É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue

o pedantismo d'esta.

Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das

_excepções_.

Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a

rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a

torna ridicula.

Poucas são as que téem a coragem de--tendo um lado superior--se

conservarem simples, desartificiosas, naturaes.

Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um

vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!

Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção

admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam

humilhadas e deslocadas!

A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das

tôlas, e acabaria por desapparecer completamente.

A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si

recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem--e é

isto o principal--para se _entreter a si_.

É essa a grande questão!

É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que

ellas não precisem dos outros para viver contentes.

E como se ha de conseguir este fim?

Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito

todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera

dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que

ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições

intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma

exacta e elevada comprehensão da vida!

E não é muito o que nós exigimos.

Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do

que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas

filhas.

Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica

entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das

mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que

possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio.

Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos

indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o

sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa.

As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções

praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de

julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que

o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as

differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si.

A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos

os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar

lucidamente no sentido da palavra--progresso.

O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e

revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande

justeza de pontos de vista.

Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a

geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente,

progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um

conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel.

Juntamente com estas acquisições uteis, e como que amenisando os

esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua

filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais

accentuada vocação.

Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia

alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de

vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma

mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o

encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida.

Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar

mais puro e mais subtil.

D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada

pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia

facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever,

esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita,

apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho

interior que no seu espirito se houvesse feito.

Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir.

A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e

transformado de alcançar a perfeição moral.

Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos.

Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da

esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas

humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa

quotidiana, e o seu quinhão na vida?

De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu

cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos

deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem,

são um triumpho para aquella que os sabe exercer.

CAPITULO III

A velhice das mulheres

Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario

operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira

principal, duas cousas muito dignas de attender-se.

Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de

circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella

não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu

espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida

influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole.

Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão

curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e

podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice.

Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.

No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por

toda a parte encontraremos argumentos victoriosos.

No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta

dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias,

se póde chamar escravidão.

Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a

elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a

energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a

forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua

modesta subsistencia.

Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas,

diante da desgraça.

Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não

resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da

mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril

energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de

dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino.

Além do medo a impossibilidade absoluta.

Se nada sabe, o que ha de ella fazer?

Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante.

As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os

homens, são proprias para este genero de trabalho.

Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento

de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc.

Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos.

Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias

que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a

geographia.

Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes,

estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria,

independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás

circumstancias eventuaes.

Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a

conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão

tres caminhos a seguir.

Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de

respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle

lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu

futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta

funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam

para a sociedade e para a familia!

Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a

acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e

decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura

humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter

individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto

enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo,

atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças

alheias.

A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente.

A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não

achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o

mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não

soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se.

D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres

que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram

absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre

todos, o protector mais util e mais dedicado.

Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias

a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna.

Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das

ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _ménages_

tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa

paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não

menor proporção o numero das primeiras.

Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e

achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria.

* * * * *

Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes:

A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade

cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas.

A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para

ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor

responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não

occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para

sempre entregar-se.

A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo

que a rodeia.

A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e

abysmou.

Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á

dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica,

póde estar satisfeita comsigo mesma.

O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como

podem, os outros.

As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante,

o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz

esquecer.

Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram.

A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si

mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive

com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se

contentar.

* * * * *

Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos.

A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar

sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura?

Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria

para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice.

O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito

mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada

edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou.

A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as

argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e

mesmo os gosos ardentes da arte.

Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e

tantos e tantos mais.

A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina,

funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no

encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo

e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e

perfumada como a das flôres!

Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos,

um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o

espelho revelou aos seus.

Esse fio traz preso a si a desventura!

Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e

todas as vontades!

A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem

pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos.

Era das salas que ella gostava!

Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava

ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e

soberanamente ridiculo!

Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma

indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e

desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo

e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho

da madrugada humedeceu.

Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas

se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de

brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus

braços!

Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas

mulheres!

Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço!

Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias

insolentes, e aquelles odios violentos e felinos!

E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu

prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha.

Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha

epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era

bella, era triumphante!

A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons

companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas

brumas indecisas de um passado que ella não queria ver.

Oh! que intensidade de vida n'estas horas!

Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que

havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o

segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas?

Era feliz porque era admirada.

* * * * *

Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma

magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos

esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura.

Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara.

Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só

escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham

acclamado em triumpho.

Se vae procurar as alegrias e as distracções proprias d'essa nova phase

da sua vida, o que é que encontra em torno de si?

Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia

desertado.

O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, ou na dissipação

criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle

tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára

outros interesses ou outras affeições, seguira outro rumo, outra ordem

de idéas. Já agora não era possivel tornarem-se a encontrar na terra.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 2 / 13 段