Á castellã de repente acordada do seu lethargo mental, pela

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Rita Farinha (Jul. 2009)

BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA

D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO

MULHERES E CREANÇAS

(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO)

Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO

Rua do Almada 209--1.^o andar

PORTO

MULHERES E CREANÇAS

A propriedade d'esta obra pertence:

Em Portugal á _Bibliotheca do Cura de Aldeia_.

No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro.

BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA

MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO

MULHERES E CREANÇAS

(NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO)

PORTO

Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO

Rua do Almada 209--1.^o andar

1880

TYP. DE ALEXANDRE DA FONSECA VASCONCELLOS

29, Rua do Moinho de Vento, 29

Á

Minha querida mãe

_Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereço-lhe este

livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu

santo e nunca desmentido exemplo._

CAPITULO I

Falla-se hoje muito a respeito da dissolução domestica, manifestada e

provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questões

miseraveis entre parentes proximos, rebelliões filiaes, etc., etc.

Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as

questões sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o

vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que este

estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e

perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na época em que o

homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido a mais

elevada e justa noção do Bem que ainda lhe foi dado alcançar no seu

caminho de seculos.

A manifesta e clara contradicção que hoje mais do que nunca existe entre

as idéas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais

penetrantes.

Como é que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a

escrava submissa da intelligencia; que forçou a grande e muda Natureza a

tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao astro e á planta o

segredo immortal da vida que os anima; que penetrou--investigador

implacavel--nas catacumbas das mortas religiões, e que ouviu de cada uma

a palavra suprema que as explica e desvenda; porque é que o homem que

tem hoje a percepção lucida e completa do seu destino, não soube ainda

prostrar, vencer, amordaçar o animal indomito que vive dentro d'elle,

que o martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo,

quando o não leva ao lodaçal? Se o bom e o bello lhe revelaram a sua

larga claridade benefica, porque se não revigora elle, e se não

robustece n'esse grande banho de luz? porque não estabelece uma harmonia

perfeita e intima entre a idéa que fórma dos deveres e a sua

manifestação pratica e vizivel?

Depois de havermos concedido ás paixões humanas o imperio relativo que

ellas não podem perder, somos ainda forçados a confessar que na culpa

d'esta desgraça que todos lamentam, compete ás mulheres um grandissimo

quinhão.

Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso que contraria

a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisação

no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razões

que devem analysar-se e depois combater-se.

Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás transformações continuas

do progresso.

Retrogradas por educação e por natureza, cada innovação se lhes affigura

ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa.

Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem

immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever

afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as

exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas

e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e

lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos

d'uma imaginação doentia.

Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da

justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós

estamos.

Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este

equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade,

cumpre que a mulher se não revolte contra a inferioridade a que

fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam

os costumes.

Para alcançarem porém esta submissão voluntaria entenderam desde muito,

que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da

superstição em torno d'aquella de quem são forçados a fazer a sua

companheira na vida, o seu consolo nas horas da provação, a mãe de seus

filhos, a carne da sua carne.

Terrivel contradicção, systema absurdo que tem como resultado a lenta

desorganisação da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem,

não póde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez

da mulher.

D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior á sua, como

illustração, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha

á idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios;

d'outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de abnegação, de

paciencia, de que só são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da

eterna Perfeição.

A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para

conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e

a sociedade lhe impoem.

No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo

terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade.

Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver.

Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu berço fôfo e tepido de

beijos, e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca

trilhou.

É preparal-a para a grande lucta moral que é a Vida, com os cuidados com

que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as

luctas do corpo, para as victorias da destreza physica.

É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a todos os trabalhos e

investigações do homem moderno; é dar-lhe ao lado d'este um lugar

honroso e definido, não egual pois que são diversas as attribuições de

ambos, mas equivalente em direitos e em deveres.

É fazer-lhe comprehender bem claro que as seducções do corpo--seu

orgulho supremo e seu constante desvanecimento--quando não são reflexo

da formosura e da robustez da alma, não passam d'um laço ignobil armado

ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si.

Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na

familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais

levantadas ambições, e tambem--o que é d'uma importancia capital--de

pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo.

É dar-lhe uma idéa perfeita do dever e da justiça, um Ideal a que tendam

incessantemente as aspirações do seu espirito, uma religião que a

hypocrisia e os calculos interesseiros não maculem nem amesquinhem, que

se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas sacrificio sem

voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos

de paixão sensual.

Não basta porém exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de ámanhã, é

preciso tambem lançar um olhar demorado e justo ao que é a mulher

d'hoje.

Só assim poderão comprehender-se os erros que é preciso desarreigar, os

preconceitos que é indispensavel destruir, a distancia enorme que temos

de transpôr para chegar ao momento da sua completa e salutar

transformação.

II

As divisões sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos

collegios, nas mesmas academias, nas mesmas escolas superiores, quasi

que se não distinguem, ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes

imperceptiveis ás vistas superficiaes, imperam ainda na mulher com

extraordinaria força. Vamos pois procurar ás diversas classes as suas

femeninas representantes, e pincipiemos pela mulher da classe media,

classe que considerada no seu elemento masculino representa a

intelligencia, a riqueza, o commercio, a industria, o progresso d'um

paiz.

A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos

accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda não

corromperam, e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da

sua opulencia, as finas graças, as exterioridades elegantes, os

requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regiões mais elevadas

da sociedade.

A primeira é evidentemente mais sympathica; é laboriosa e tem a rude

sensatez plebeia da sua raça. Tem o amor dos filhos, um amor animal, um

amor physico, mais instincto do que religião. Não raciocina mas sente

com uma energia poderosa e creadora.

É d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi sublime na sua

cegueira. Imagina-se porém investida d'um dever supremo a que todos se

subordinam:--o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem

estar material do marido, e da familia.

Não tem conversação, não tem espirito, não tem aquella doçura benevola e

intelligente que é para o coração dos homens o que o algodão em rama é

para o ninho das aves.

Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta

convencer, despersuade.

É porém activa, aceada, robusta, fiel, e nas horas de adversidade, de

doença, de desfallecimento ou de miseria, tem os carinhos rudes, tem a

dedicação humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico

e fecundo por isso mesmo.

O homem anda lá fóra, na lucta, no trabalho, na investigação, na

sciencia; vae vivendo e vendo como n'uma ascensão rude, desvendarem-se

todos os dias horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma

iniciação progressiva dilatar-se-lhe o espirito, clarear-se-lhe o

entendimento.

Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus

combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os

desanimos, as horas de impotencia, as aspirações, os arrebatamentos

triumphantes da victoria.

Percebe simplesmente se o marido está doente, se anda magro, se tem

fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, manipula-lhe

remedios caseiros, vigia para que lhe não faltem aquelles commodos que

elle aprecia, tem prodigios de invenção espontanea para o envolver no

bem estar tão necessario aos que se consomem n'uma actividade sem

treguas.

De que ha de elle queixar-se? De nada.

É amado, é estremecido, obedecem-lhe cegamente, tem a certeza de

encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto.

Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande idéa o

levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz

palpitar de enthusiasmo o coração, é debalde que elle busca junto de si

o espirito que comprehenda o seu espirito, que partilhe as suas

impressões, que lhe revele emfim intima, absoluta, indestructivel, essa

união ideal sem a qual o casamento é espiritualmente infecundo e

incompleto.

Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador,

esse homem de pensamento ou de sciencia á conquista e á posse da sua

felicidade.

Sem que elle talvez mesmo dê por isso, uma tristeza indefinivel, vaga,

sem traducção, lança como que um sopro esterilisador sobre as suas mais

queridas concepções. Falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no

entretanto não conhece nem sabe definir.

Falta-lhe o complemento do seu sêr!

Subamos agora na escala social mais um degrau.

O trabalhador incansavel venceu.

O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua

descoberta; o medico alcançou uma popularidade subita; o industrial

ganhou um milhão.

Elle é simples e modesto, lembra-se dos dias em que trabalhava e

combatia, como dos seus dias melhores; não quer offuscar ninguem,

basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor

individual.

Ella porém a mulher--e eis a segunda variedade que acima citamos--ella

que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade, ella a

quem o trabalho forçado já não absorve, e a quem as distracções elevadas

e nobres d'um espirito culto são vedadas, ella que não pensa, que não

medita, que não entendeu bem na sua acepção levantada e digna a missão

exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que

vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra

época com o pezo da sua superioridade social, eil-a que opera a pouco e

pouco, quasi imperceptivelmente, uma influencia funesta no homem, que o

corrompe, e que o arrasta.

Emquanto elle tivera as serenas e robustas consolações do trabalho que a

intelligencia illumina, e a que a intelligencia preside, tinha ella

apenas na sua profunda escuridão mental, as pequenas humilhações, as

raivas mal dissimuladas, os despeitos mal contidos.

Não podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime, só

tivera a consciencia da sua inferioridade, que a tornara mesquinha e

redicula. Chegando o momento da desforra exigi-a completa.

Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa,

mal sentada nos flaccidos coxins d'um _coupé_ de oito molas, coberta de

velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, lembra-te que é

o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade.

Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que está abaixo d'ella,

que é mais pobre, mais humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos

brilhantes.

Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga.

Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das

humilhações envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem.

As filhas d'esta mãe são as desgraçadas creanças que por ahi vendem a

sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhões

d'um negreiro enriquecido.

Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educação que

receberam, germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que

vão estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora.

Combater estes erros, lançar por terra estes preconceitos deve ser a

mira de todo o ser que pensa e crê!

III

Deixemos agora os _menages_ modestos onde reina o trabalho ou os salões

vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vãos orgulhos, e

penetremos no _boudoir_ elegante, onde a mulher do alto mundo proclama o

que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade.

Ha um preconceito falsamente democrata, e digo _falsamente_ porque a

democracia tem obrigação de ser justa, imparcial e intelligente, que

attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as culpas

e todas as inferioridades.

Engano!

É verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto, se

annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se annullou pelo

desdem, e a prova temol-a nós em Inglaterra onde esta classe que não foi

nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o pezo d'uma robusta

instituição de seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da

nação.

Hoje porém, o que em Portugal resta de uma raça que teve todos os

privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa vontade,

aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o consegue,

é que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta, é que a

decadencia e o abastardamento das raças são uma verdade scientifica

contra a qual nada póde a vontade humana.

A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa,

ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de

idéas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo idiota que

aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma civilisação que não

comprehende, vae desapparecendo completamente até dos velhos solares da

provincia acastellados e altivos.

Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua.

Hoje as representantes femeninas das altas classes se não seguem um

caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados praticos,

revestem ao menos a sua falsa percepção da idéa moderna, d'um prestigio

que á primeira vista agrada e seduz.

A educação d'ellas, uma educação toda exterioridades brilhantes, se não

é aquella de que carecem as mães, as perceptoras de futuro, estabelece

comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre

as gerações que as precederam.

A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas

desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa

aristocracia moderna.

Se não temos a mulher de familia, a creadora de uma geração robusta,

conscienciosa, crente e leal, temos a _mulher de sala_, que é uma nova

face da transformação lenta por que vão passando as idéas e os

acontecimentos.

A mulher de sala é um producto exotico entre nós.

A França recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, deu-lhe todos

os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um throno

no seio das suas côrtes galantes, e deixou que nós, vendo-a de longe a

cubiçassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chãos,

para a nossa pobreza envergonhada e modesta.

Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que não está em relação com o

seu meio, deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos

superficiaes.

A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e

fluencia; escreve bem, com uma certa graça adquirida que não occulta a

frivolidade, mas que a envolve em véu rendilhado; conversa com vivesa e

com chiste, sabe dar aos pequenos _nadas_ da sua vida uma elegancia que

illude os incautos. Quem a vê de longe, no scenario pomposo da sua

opulencia, sente-se deslumbrado; quem a observar de perto conhece que

ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas

que o caminho que vae trilhando é como o que ellas trilharam, um caminho

falso, um caminho sem sahida.

O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, é uma devoção

inteiramente errada, em que a idéa luminosa e fecunda prégada pelo

Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras

anti-christãs.

Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma

barreira enorme--a sua ignorancia--a mulher mais culta e mais educada

das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos

filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente

fanatismo.

Quando digo fanatismo, não quero referir-me a uma crença exaggerada e

absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os subordine ás

suas austeras exigencias.

É um fanatismo elegante, um fanatismo de _alta vida_, bastante

indulgente para se permittir todos os gozos sociaes, bastante severo

para não admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade

possivel fóra do seu estreito gremio.

Aqui como alli é sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos

aspectos.

Aqui porém mais completo ainda, visto que a vida da sociedade exige mais

da mulher, visto que n'esta existencia de representação exterior e

pueril, nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella

intimidade material, aquella protecção mutua que faz com que o homem

seja o braço, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o desvelo, a

economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos os

confortos materiaes da familia.

A mulher de sala vive para todos, menos para os seus.

Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella,

agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupações,

de pequenos deveres, de pequenas caridades officiaes, de pequenas

praticas devotas, ignora completamente e absolutamente tudo que póde

constituir a verdadeira missão da mulher no mundo e na familia.

Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe:

--Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha

com o suor do rosto ao lado do homem, o pão que os filhos hão de comer á

noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel.

Julgas-te instruida e não tens no teu pequeno cerebro recheiado de

insignificancias bonitinhas, a noção mais elementar dos milhões de

cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo,

para educares dignamente aquelles em cujas mãos estão os destinos de

ámanhã.

Julgas-te virtuosa e não pratícas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas

virtudes sãs que são a dignidade, o imperio e a força da mulher.

Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos

teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religião que

allumia e esclarece os fortes.

Julgas-te boa esposa e boa mãe e vives sósinha n'um mundo teu, povoado

de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos não penetram; não

tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio á idéa

que a mãe de familia precisa de viver no coração dos seus, identificada

completamente com elles, para ser digna d'este sagrado nome!

Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua

estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade.

Pois é necessario que ella entenda esta lição, que ella ouça estas

palavras, e que pelo seu esforço permanente e consciencioso, ella tente

sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa

educação a teem submergido.

IV

No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta

época parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e como que

vencer-lhe as aspirações e as energias, erguemos a voz desauctorisada e

humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos tão

deploraveis.

Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos

como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a

educação estabelece e nutre entre os dous sexos.

Mas não se trata sómente de observar as causas e os effeitos, trata-se

de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas, que

a prolongar-se indefinidamente produz a dissolução social nos seus

aspectos mais dolorosos e mais repellentes.

Se a sociedade e a civilisação requintada e corrupta dos nossos tempos

ainda não ensinaram á mulher o caminho verdadeiro e util que tem a

seguir, antes d'elle a teem afastado mais e mais, ella póde ainda

erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem

que é digna de coadjuval-o na sua obra de reedificação, digna de

acompanhal-o na realisação pratica do que para elle, desajudado e só,

não tem passado d'uma bella concepção theorica onde ás vezes transluzem

não sei que visos de chimera.

Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herança dos seculos

precedentes.

Ao nosso cabe porém a gloria de ter renegado muitos erros do passado, de

ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um reviramento

absoluto n'esse conjuncto de idéas, de conhecimentos, de aspirações e de

theorias que constituem o _ideal_ humano.

O que hoje se exige da mulher é positivamente o contrario do que a

sociedade antiga affeiçoada por moldes diversissimos exigia até agora.

Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo.

Á escravidão absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de

religiões extinctas, á bruteza dilacerante em que elle viveu submerso

entre as sombras das idades barbaras, succedeu--e succedeu

providencialmente--a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo,

aureolada por aquella poesia artificial, exageradamente requintada e

platonica dos trovadores da Edade media, e aquella abnegação amorosa e

idealista dos paladinos da cruz!

Essa transformação radical no destino da mulher fez sentir a sua

influencia até hoje, em phases e gradações successivas e diversas.

Á castellã de repente acordada do seu lethargo mental, pela tiorba

namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, succedeu a

rainha das _côrtes de amor_, a que erigia em dogma ideal o adulterio, a

que proclamava em sentenças _preciosas_ a quebra de todos os laços da

familia, a que via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito

superior a todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil

pagã da Renascença, a inspiradora dos artistas, a amante dos papas, a

musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, erudita, apaixonada,

intelligente, cheia de phantasias superiores, que se era virtuosa se

chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se chamava Lucrecia Borgia.

A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma missão

civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a sua orbita descripta

succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo XVIII, de que hoje

só temos a descendencia amesquinhada, decadente, anachronica, e, o que é

peor de tudo, inutil quando não é funesta, ridicula quando não é tambem

perniciosa, o que lhe succede quasi sempre.

O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal

domesticado, fez d'ella movido por influencias que não podemos historiar

aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlêvo das suas horas de ocio, depois

novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres,

e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem importancia, uma

creança indocil, ante a qual se curvava, não porque a respeitasse mas

porque n'esta falsa e mentida submissão encontrava novos requintes de

prazer.

Não comprehendeu porém que era victima da sua propria injustiça, que a

corrupção da mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu

amesquinhamento se lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o

fazia tambem retrogradar, que ha relações reciprocas que não podem

quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo

divorciados e unidos, não podem por mais que queiram furtar-se.

* * * * *

Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idéas democraticas,

purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado

os vestigios das suas paixões insalubres.

Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande

claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento

reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa

bradou bem alto: t

--Não se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, tracta-se

de procurar uma nova direcção que nos conduza á verdade.

Ouvir esta voz é renunciar aos erros do passado, e cumpre que nós

mulheres renunciemos a elles, para não caminharmos por uma estrada

opposta áquella por onde vão subindo fortes, illuminados, convencidos,

os nossos paes, os nossos esposos, os nossos irmãos.

Não é a uma penna tão obscura como é a minha que pertence dar leis

absolutas sobre um systema de educação diverso do que hoje está

geralmente adoptado.

Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a força da consciencia,

consultando o bom senso que é apanagio dos mais humildes, e a observação

que póde ser partilha dos mais pobres, a indicar alguns dos obstaculos

que nos separam moralmente d'aquelles de quem sômos companheiras e de

quem devemos ser auxilio e complemento.

A vida da sociedade é uma vida toda de egoismo e de vaidade, a vida de

familia uma vida de renunciamento e de abnegação.

Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser exteriormente

agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte.

O mundo exige as graças, as garridices, as subtilezas do espirito, as

louçanias do tracto; a familia sem prescrever inteiramente aquellas,

exige acima de tudo a consciencia firme, a idéa clara e definida dos

deveres, o espirito do sacrificio, e aquella energia branda que resiste

ás tentações dissolventes do peccado.

Entendemos pois que os esforços de todos os educadores, de todos os que

se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a

mulher dos salões, e para crear e fortalecer a mulher da familia.

Não nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a

educação feminina, não as condemnamos a um completo ostracismo,

desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza

lhes compete. São simples ornatos decorativos, como taes os applaudimos

e os queremos, não como fundo solido e base de todo o cultivo

intellectual da mulher.

Tambem não pedimos para o nosso sexo a emancipação, essa utopia de que

hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas.

O que nós desejariamos era vêr na mulher uma personalidade robusta e

consciente, inaccessivel ás chimeras da sentimentalidade, solidamente e

despretenciosamente instruida, tendo todas as noções praticas

necessarias para subordinarem o seu destino ás leis do bom senso, ao

alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu

tempo, comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta

para perdoar o mal mas não para transigir com elle; sabendo resistir-lhe

mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam ás vezes.

Tendo acima de todas as religiões a religião do Bem, sacrificando-se aos

seus affectos, mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres.

Laboriosa como condição indispensavel da propria dignidade.

O trabalho é a redempção.

Não ha mulher que não tenha conhecido mais ou menos fugitivas, mais ou

menos traiçoeiras, mais ou menos perigosas, essas horas más chamadas

tentações. O trabalho é a salvaguarda para essas horas.

Os espiritos ociosos são os espiritos accessiveis.

* * * * *

No dia em que este novo ideal tiver tomado uma fórma tangivel até para

os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estará salva,

porque terá por esteio a moralidade.

Até então ha de haver as incertezas, as duvidas, as vacillações, os

desalentos que tornam esta hora da vida das nações, uma hora

contradictoria, estranha, profundamente dolorosa, que já não tem raizes

no passado sem ter ainda um ficto no futuro.

Trabalhem todas as mães n'esta obra sublime, e como a mythica Minerva

sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher sahirá do

ninho em que se educou, já prompta para receber a pé firme o embate

tempestuoso das paixões, que se a vencem a inutilisam e a degradam.

* * * * *

CAPITULO II

O falso luxo

I

Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão em completo

desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo

que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a

sacrificar ao amor da sociabilidade.

Entendemos que uma sociedade civilisada não póde viver sem festas e sem

saraus, portanto é necessario que sem hesitação façamos tudo que nos

seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e

festas.

Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam

como papoulas nas seáras de abril.

Não duvido, não senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade,

temos phantasia, temos tudo quando quizerem.

O que nós não temos é uma cousa pequena, humilde, despertenciosa,

desdenhada.

Não temos _bom-senso_.

Não quero aqui entrar na questão muito complexa e muito complicada de

saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as

ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da

industria, no progresso da civilisação moderna alguma influencia

benefica.

Em outros paizes mais ricos, em outras nações mais industriaes, em outro

regimen mais favoravel ao luxo creio que sim.

Entendo eu, porém, que as leis geraes não se podem applicar a casos

especiaes, e que nós não podemos conservar a vida falsamente luxuosa que

é e continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo!

Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar em

superfluidades um rendimento avantajado.

Mas, como o amor da representação é o nosso cunho nacional, como o

desprezo pelos pobres é o timbre e o brazão da nossa sociedade, como o

luxo é o sonho e a aspiração constante de todos os cerebros juvenis,

provém d'aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbação e uma

desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se

tornando uma flôr rara, que só aqui ou alli enfeita suavemente a fronte

ignorante de uma collegial de quinze annos!

Depois, como se não póde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os

maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcançado o

fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes

de o ter realisado.

No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas,

entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem--e com que

amargo desespero!--que o seu vestido não está fresco, que estão

machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial

das suas rendas falsas, e que o _strass_ não póde substituir com muita

vantagem os diamantes verdadeiros.

Oh! quantas privações, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes,

que scenas intimas, para alcançarem aquella _toillete_ mesquinha,

desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma

das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu _fru-fru_ escarnecedor.

E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia

concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias

nos seus olhos pisados.

--«Não consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, não venço nenhuma

das minhas rivaes! As pobres adivinharão todas as penas que esta hora de

ostentação me tem custado! as ricas terão dó, um dó profundo da minha

miseria mal disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?»

Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. Ganhou a certeza

de que seu marido ou não a estima já, se é honesto e digno e tem a alta

comprehensão dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que

até alli tinha sentido, uma paixão insalubre ou uma indifferença

bestial, e n'esse caso não passa de um homem tolo, ou de um homem máu!

Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situação;

ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de

seus filhos e o seu.

E não se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou

injustiça flagrante.

O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca attenção a

todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as

causas; em perdermos completamente de vista, que não ha effeito por mais

mesquinho que não seja o corollario de uma lei importante.

Não quero, já se vê, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a

sociedade e se habituam á atmosphera artificial dos salões.

Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, só dez é

que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se não coaduna com

esses costumes pomposos, restos e herança de um extincto regimen.

* * * * *

Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia

apontar para a França de Luiz XV e para a França do segundo imperio.

A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria

revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto é

escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á immoralidade, ao

impudor da mulher e ás deshonestas transigencias do homem.

Não queremos, porém, n'este estudo despretencioso evocar a historia, nem

revolver o lodo das passadas corrupções.

Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos

fallar chãmente, simplesmente, sem declamações, nem idéas preconcebidas.

Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão dos bens, a

democratisação das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis

injustiças sociaes do passado, teem sido tambem a destruição das

colossaes fortunas de outro tempo.

Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas pelo trabalho

em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela

actividade devoradora de homens privilegiados.

Já se não fundam como antigamente em direitos estaveis e

indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas

com que se não póde absolutamente contar.

Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra importante, um

abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e

complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades,

e que um sôpro logra alluir!

Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, se nem ellas podem

contar com o dia de ámanhã, que farão os que não possuem mais que o

necessario, os que ás vezes nem isso possuem?

Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns

tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos

teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias.

Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas

podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e

ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais exaltados

socialistas se lembraram ainda de aspirar.

Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno

paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma maioria enorme que

é miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais

importante--no fim de contas, visto que tem a superioridade da educação

e da intelligencia, que é simplesmente remediada, porque é que não

havemos de sujeitar o nosso regimen social ás exigencias e necessidades

d'essa classe, que é a predominante, senão pelo numero, ao menos pela

influencia que exerce?

Essa classe póde conhecer as distracções de uma agradavel intimidade,

mas não as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de

salão apparatosa e futil.

Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privações, as

luctas, as miserias dos que só conseguem com o suor do rosto ganhar um

pedaço de pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que

se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua

mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas

distracções intimas de um circulo affectuoso e limitado.

Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os potentados, os dominadores

do seculo, ouvem nas tentações febris das suas noites o tilintar

magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros coupés,

pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flôres exoticas de

fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em

si o desejo insaciado de todos os prazeres que não teem, e sem

prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se ás especulações

vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os

bens que herdaram de seus paes, até á consciencia que lhes veio de Deus,

e quando conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel só

podem ser vencidos, já não é tempo para retrocederem no funesto caminho

encetado!

E que não ha parar n'esta ingreme descida.

Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que

pertenço; que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males

que teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no nosso

mesquinho planeta.

Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a

minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma importancia que

mais ninguem lhes quer reconhecer.

Eu digo que d'ellas provéem todos os males, porque estou

convencida--talvez sem razão--que d'ellas podiam provir todos os bens.

Ainda no ponto de que se tracta é d'ellas toda a culpa, no meu humilde

entender.

Sim, porque no fim de contas, não são os pobres maridos que mais desejam

figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a

commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso

jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam,

para gastarem esse dinheiro n'uma _toilette_ falsamente luxuosa, n'uma

_soirée_ ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos

acepipes, na opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos de

figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelão.

São as mulheres que teem sempre a louca ambição de figurarem ao par de

outras mais ricas, embora n'essa lucta desigual só consigam tornar bem

visivel e bem grotesca a sua derrota!

São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel

elemento para a sua completa felicidade.

São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do _ménage_, á carne

que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do

inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e

confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto

domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de

_pacotille_ que não illude, nem excita a commiseração de ninguem.

E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa

lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são

ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á

extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os

filhos á miseria e á desolação!

Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma

d'essas casas, em que o necessario é sacrificado ao superfluo, em que o

real é sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo é

sacrificado ao apparato exterior.

As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanças pallidas,

anemicas, sem educação e sem solas; com os dentes podres e nodoas no

vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, uma unica casa

elegante--a sala--falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa

branca do marido encardida e grosseira, a _toilette_ da mulher vistosa e

_mirabolante_. As côres _tapageuses_, substituindo a qualidade fina e

solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade

opulenta do trajo.

Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se resigna a

viver n'ellas?

Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o

botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na

modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na

ociosidade e depois Deus sabe em que!

Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo.

* * * * *

Afastemos porém os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto,

leitora querida, tu bem sabes que não são carregados.

Imagine-se que transformada a sua educação, a mulher se formava

unicamente para o interior da sua casa.

D'essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, não se

excluiam as pequenas reuniões intimas, a musica, as conversações

artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões.

O que se excluia sem appellação eram os inuteis apparatos.

Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, deixava logo de

armazenar todas as suas armas--o espirito, a graça, o sorriso, a

amabilidade--para distrahir os estranhos, para agradar aos

indifferentes.

Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás enervantes tristezas da

solidão, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus

companheiros, os melhores, os que nunca atraiçoam, os livros, a musica

boa, as flôres, o trabalho.

Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se

achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo involuntariamente a

sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia.

Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa que se diverte

francamente.

O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e enfadem, por

mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o

cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente um raio de bom e salutar

contentamento ao pé da esposa que volitar em torno d'elle viva e

chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, animada, activa, cheia

de invenções felizes, e de sincera e desaffectada alegria!

E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia,

eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as

preoccupações mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos

mais corruptores.

Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o

bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo!

É que--note-se isso bem--o luxo quando não é a atmosphera natural em que

se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que á força de estar

identificada comnosco, nós já nem se quer percebemos--o luxo quando é o

fim a que aspira a nossa desenfreada ambição, torna-se um elemento

profundamente desmoralisador.

Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, aggrava a

insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a idéa de

requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um

cortejo de voluptuosas tentações.

A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora

a mulher de hoje.

Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as

classes sociaes.

A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se

de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda mais

ambiciosa o desejo de a vencer.

Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que estão no

mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforços para

lograrem a palma.

As raras flôres da nossa velha aristocracia, não querendo ser

desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se vê, no combate com

grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos.

A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que

guarnecem o vestido d'esta são mais preciosas, os diamantes que enfeitam

o collo e os braços d'aquella são mais raros; se a _traine_ de velludo

d'est'outra é mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais

singular.

E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais desapiedado.

Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. É a lucta da falsa riqueza, a

lucta das pedras que fingem brilhantes, das _imitações_ que fingem

rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos.

São mais profundos ainda os despeitos, é mais desesperada ainda a

energia que se gasta!

Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambições insalubres, exaltada

de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, não

sabe, não tem forças para ser boa esposa, boa mãe, boa dona de casa!

Pintámos em traços rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos

desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos

para a mulher de familia.

No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena

dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a pouco se

vae tornando desflorido, melancolico e deserto.

II

Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da

sociedade, a _vida de sala_, pela influencia corruptora que ella exerce

nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella

está com a moderna concepção da familia e da sociedade.

No entanto não basta só lavrar a condemnação de um modo de ser social, é

necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á

nossa consciencia pareça proficuo e salutar.

As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, pelos seguintes

motivos:

--Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e conquistas.

--Porque é ahi que ellas são lisongeadas, louvadas, incensadas e

queridas.

--Porque os homens só prestam homenagem ás mais bonitas, ás mais

vaidosas, e ás mais ricas, na realidade ou na apparencia.

Além d'estas causas que as levam a gostar da representação e da pompa

mundana, ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas, que as

levam a aborrecer-se no interior das suas casas.

Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educação solida e

positiva, que as faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto.

Um aspecto de seriedade e de justiça, assentando na comprehensão de

todos os deveres.

Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de

qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto

adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de

uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de

esposas, de mães, de donas de casa.

Mulheres e creanças: notas sobre educação · 第 1 / 13 段