colonias seja retalhado á patria, como um novo emprestimo ou uma
sobrecarga de impostos--que venham agravar as condições geraes da vida,
já de si tão dolorosas--sejam votados e postos em execução.
Qual a alma de mulher que vibra de enthusiasmo ao lêr uma pagina
vehemente de patriotismo? Qual a que se desespera e indigna vendo a
derrocada de caracteres que nos arrasta para um fim vergonhoso?!
Convenceram-na--e ella acreditou!--de que não deve pensar em
_politica_, porque isso lhe tira toda a modestia e ductil graça
tornando-a uma desagradavel _Maria da Fonte_; e, no entanto, não sendo
ouvida quando se trata de novos emprestimos, despesas extraordinarias
e desequilibrios orçamentaes, mais do que ninguem os sente e sofre
ella, na sua qualidade de reguladora das despesas da familia.
A mulher, e, o que é mais, a mãe, não se interessa pelos trabalhos
intelectuais que o filho tem a seguir, não estuda as questões
pedagogicas, não impõe a sua vontade, só se fôr para lamentar a
criança, que tem de se maçar com tantos livros... Não pensa nem dá
importancia á educação dos rapazes, isto é, dos homens que hão-de ser
os maridos das suas filhas, os pais educadores dos seus netos; não se
indignam nem protestam contra as injustiças e prepotencias que a seu
lado se praticam, como não se enthusiasmam por uma manifestação da arte
nacional ou por um acto de coragem e hombridade que levante, ao menos
por instantes, o nome português.
A mulher, a mãe, recebe com o mesmo sorriso carinhoso o filho que
passou num exame por empenhos, como se elle fosse um consciencioso
estudante; o que compra o emprego, sabendo que comete uma ilegalidade;
o marido que por comodismo ou por interesse aceita todas as imposições
dos superiores, sem um protesto de consciencia; o noivo que apresente
mais valiosos titulos de renda, seja qual fôr a sua procedencia.
A mulher, que hade no futuro ser acusada por todas as faltas civicas
do seu tempo, julga-se desobrigada porque delegou no homem todas as
responsabilidades e todos os encargos da governança publica.
Ora isto não é assim, porque, de todos os crimes civicos do homem, é a
mulher a verdadeira culpada.--«_Deante da esposa e talvez ainda mais
das filhas, quando civicamente educadas_--diz o sr. dr. Bernardino
Machado--_ninguem se atreveria a aparecer depois duma má ação na sua
vida publica._»
Grande é pois a responsabilidade da mulher no estado de depressão
moral, que é a caracteristica da sociedade portuguêsa dos nossos dias.
Não posso crêr que seja isto falta de sentimento, essa flôr delicada
que dizem ser apanagio do coração feminino e que é a ultima que nelle
fenece; não posso crêr que a generosidade, o altruismo, a coragem, que
em todos os tempos nimbaram de luz o espirito da mulher portuguêsa,
a tenham abandonado de todo, para sómente se manifestarem em algumas
almas masculinas.
Não, não é isso possivel, que seria contrariar todas as leis da
natureza, falsear todas as tradições, duvidar de tantissimos factos que
nobilitam a mulher do nosso paiz.
É que hoje, desinteressadas por educação e por habito das questões
que tanto preocupam o espirito masculino, não pensam que--em todos os
actos da vida nacional em que os seus nomes entrassem, protestando pelo
direito e pelo dever contra a injustiça, a força e a intriga politica,
seria uma afirmação dos seus sentimentos civicos e a próva de que
comprehendiam as questões de que depende a felicidade da sua Patria, o
futuro honrado dos seus filhos.
Com esse simples acto espontaneo da vontade, provariam que o seu sexo,
embora afastada das luctas que se dirimem dia a dia no jornalismo e na
politica de _dize tu direi eu_, que é a politica portuguêsa dos ultimos
tempos, acompanha e apoia os homens, quando justa e nobre é a sua causa.
Mostrariam conhecer os deveres e os direitos que assistem a todo o
cidadão livre, seja homem ou mulher, de protestar contra os actos que a
sua consciencia repudía, embora praticados á sombra das leis.
Tendo dado essa prova de individualidade mostrarieis ser, senhoras, as
mulheres que deveis ser para que os vossos filhos, no futuro proximo
que os espera--quem sabe de que vergonhas e miserias tecido!--tenham a
nobre coragem de se sacrificarem pelo resurgimento da Patria Portuguêsa.
Mas sabeis porventura o que é _sêr português_, vós que falais a lingua
que tem todas as energias do mar bravo e todas as doçuras dum poente
entre pinhaes rumorejantes?...
Sabeis o que é _sêr português_, vós que pizais indiferentes uma terra
tantas vezes embebida em sangue dos que luctaram até á morte para a
tornar uma Patria livre?...
Sabeis o que é _sêr português_, vós que respirais o aroma das flôres
que por toda a parte desabrocham em hilariantes coloridos, neste
abençoado canto do universo?!...
Sabeis o que é _sêr? português_, vós que recebeis a dulcida caricia
dum céo limpido, que passeais os vossos olhos sobre as aguas movediças
que levaram os nossos antepassados á aventura gloriosa de descobrir
novos caminhos e novos mundos maravilhosos, essas aguas que trouxeram,
em paga de tanto esforço e tanta heroicidade, o oiro, as pedrarias, a
riquêsa que deslumbrou o mundo e--ai de nós!--pela vaidade nos perdeu!?
Sabeis o que é _sêr português_, senhoras!?...
Pesa-me dizer-vos que, salvo algumas excepções, não o sabeis.
Que isto vos não cause enôjo, e que sobre a minha cabeça não cáiam as
vossas ironias e odios!
Se vós o não sabeis, pouca ou nenhuma culpa tendes, que de longe vem
o despreso pela vossa educação, que de bem longe vem o mal que nos
está ligando como cadaver embalsamado prompto a entrar para o tumulo
historico das nações que só vivem do passado.
Mas podeis ainda resistir. É tempo ainda de sacudir a apathia egoista
em que vos conservaes ante todas as angustias colectivas do paiz, e
mostrar ao mundo que o povo português não morreu ainda, porque as
suas mulheres, as mães, têm sempre no coração a imagem estremecida da
Patria, e ensinam os filhos a respeita-la, a ama-la mais do que á sua
noiva, mais do que aos seus proprios pais.
A nação amada pelas mulheres não morre nunca na historia.
Martirisada, dividida, conquistada, não morre emquanto as mães
transmitirem aos filhos, com o leite dos seus peitos, o sangue das suas
veias, o fogo das suas palavras, o despreso aos vencedores e o amôr á
terra que foi de seus avós, á terra onde existe a sua casa, que é o seu
lar.
Começam por ensinar-lhes no berço, acalentando-os com ellas, as lendas
e cantares da sua patria; acabam por lhes indicar o caminho por onde
enveredaram os que sofreram e morreram contentes pela sua gloria.
Falo-vos ao sentimento, eu sei, mais do que á razão, mas prouvéra a
Deus que fôsse o sentimento que guiasse ainda o nosso paiz! Quando
uma patria é nova, crente, esperançada e forte, firmando-se no amôr e
no enthusiasmo dos seus filhos, não se prende por conveniencias, não
recúa ante o perigo, não sabe contar os inimigos que a atacam, para os
vencer. Por isso avança, torna-se inolvidavel na historia, como nós o
fômos!
Só na decadencia se aprende a transigir, decadencia que tanto póde ser
material como moral, decadencia que é, a maior parte das vezes, filha
só do egoismo, do desejo inferior de gosar sem que o gôso dos outros
nos seja preciso para a felicidade propria.
E no nosso paiz transige-se para se estar bem com todos, transige-se
por preguiça de discutir, transige-se por uma emaranhada teia de
preconceitos, de pequeninas considerações que amolecem o ânimo,
quebrantam as vontades, e fazem das oposições uma coisa ridicula,
porque não têm éco nas almas, ou são, quando muito, um brado louco e
desacompanhado de quem vê uma grande multidão correr para um abismo e
nada póde fazer para a sustêr e salvar.
Mas não ensineis a vossos filhos essa excessiva transigencia, senhoras!
Deixai aos moços o enthusiasmo e a fé; não estanqueis a fonte de
coragem e energia e justiça que existe em toda a alma joven!
Levantai o espirito para mais nobres ideais, não vos amesquinheis numa
abstenção que não é modestia mas ignorancia, indiferença, covardia
das vossas almas que assim querem fugir á dôr forte e nobre do sêr
que aspira--a ascender, na escala zoologica, de simples animal de
instinctos para criatura de espirito e de vontade.
Não tenhais mêdo da dôr intelectual que retorce febrilmente os nervos
em convulsões de agonia e aperta a garganta inchada de soluços
num estrangulamento de desespero, vós, as mães, que sofresteis
corajosamente a dôr fisica de ter um filho! Tornai-vos conscias da
grande missão que é de vosso dever desempenhar, com a firme certeza de
que não ha paiz grande onde a mulher seja inferior.
Vós, mães e educadoras, que tendes a vosso cargo pequenas almas em
embrião a despertar para a luz, ensinai-lhes primeiro do que tudo, e
antes de tudo,--a serem portuguêses.
E ser português é amar a sua terra entranhadamente, religiosamente,
esta terra de que somos filhos e não podemos despresar sem nos
despresarmos a nós mesmos.
Ser português é aprender a sua lingua antes de nenhuma outra; é lêr
os livros que portuguêses têm escripto; é conhecer os seus artistas;
não despresar as suas industrias; comer o producto da sua terra; amar
as paisagens, ora recortadas em fundo grandioso de montanhas, ora
espraiando-se em campinas onde as searas ondulam em marés verdes de
esperança e os gados pastam com fartura; cantar as suas canções; folgar
com as festas do seu povo; amar a sua flóra tão simples e graciosa;
estudar a sua arte em todas as manifestações, desde a bilha de barro
abrindo-se em duas azas, recordando a amfora romana, tão gentilmente
posta sobre a cabeça da rapariga de Coimbra, até á magnificente fabrica
do mosteiro da Batalha, sem esquecer o mobiliario severo e nobre
dos nossos avós, a ourivesaria subtilmente trabalhada, os tecidos, a
ceramica, as rendas, que, em tudo, houve tempo em que fomos _alguem_.
Se o não somos hôje, cuidais que os artistas e a patria é que são os
responsaveis de tão grandes decadencias?
Não; uma, não póde nada, prisioneira do oiro nas mãos dos usurarios; os
outros, sem estímulo nem público que lhes pague as fadigas e os empurre
para o exito, ou lhes mostre pelo despreso a inferioridade do trabalho,
retiram-se do campo onde a mediocridade dá leis. São poucos os que á
força de vontade e coragem conseguem não esmorecer, trabalhando mais
para satisfação propria do que pelos lucros materiais.
Que a Arte não dá hôje gloria em Portugal, e muito menos riqueza.
Se não sômos o que já fômos é que uma educação fundamentalmente
portuguêsa falta por completo no nosso paiz.
A criança começa por interessar os olhos ingenuos nas estampas dos
livros estrangeiros--ou vindas do estrangeiro para adaptar a coisas
portuguêsas, o que é peor ainda!--por lêr traduções das historias que
nos outros paizes se fazem para os pequeninos; por vestirem luxuosos
vestidos cujos modelos vieram de fóra; por só apreciarem as flôres
exoticas cultivadas com mimos de estufa, despresando a simples e
honesta flora portuguêsa, tão espontanea e bella; por vêr as habitações
dum tão duvidoso gosto de importação, os brinquedos, a loiça, os
navios, os carros, os velocipedes, que tudo nos vem do estrangeiro e
nos dá o aspecto banal e miseravel de povo sem nacionalidade.
Só vós, senhoras, podereis levantar-nos desta situação por demais
incaracteristica e infamante!
Só vós podereis insuflar na alma dos moços o respeito pelo passado,
o horror da situação presente, e a esperança consoladora num futuro
melhor!
Num futuro que não está nos cursos complicados, nas repartições
da burocracia, nos feitos das vanglorias militares com _sobados_
africanos, mas nas oficinas, nas fabricas que nos poderão criar
industrias exportadoras, no cultivo da terra que nos dá o pão do nosso
sustento, o linho da nossa roupa, as fructas mais delicadas, o arroz,
a cortiça, o vinho, as conservas, e tantissimas coisas que já hôje se
exportam a mêdo e que poderão ser outras tantas fontes de riqueza, se a
ellas se dedicarem inteligencias e dinheiro que mal parados andam umas
e outro.
E nós, as mulheres, que temos nas nossas mãos a alma dos nossos
filhos, que é como quem diz o futuro e a esperança, ensinêmos-lhes a
despresarem o caminho das transigencias acomodaticias e a fugir do
fatalismo musulmano com que temos acolhido, de braços cruzados, todos
os desastres e toda a decadencia da nossa nacionalidade.
Preparêmo-los para que entrem na vida cheios de coragem e energia
para o trabalho, renegando as miserias e as vergonhas de agora, e
façam resurgir das ruinas duma sociedade que se anulou a si mesma, um
Portugal novo, conscio de si, altivo e digno.
Nas vossas mãos, senhoras, está a rehabilitação das humilhações e
vergonhas que ha dois seculos formam o triste fundo da nossa vida
pública.
Nas vossas mãos está a morte definitiva da Patria Portuguêsa ou o seu
resurgimento para o trabalho e para a vida.
Ponhâmos de parte as frivolidades que nos ensinaram a crêr que são
a maior graça do nosso sexo, e sejâmos _mulheres_ como o devemos
ser:--criaturas conscientes e autónomas, companheiras e aliadas do
homem, as verdadeiras educadoras de seus filhos.
Como a dama romana que mostrava os filhos como as unicas joias de
preço que possuia, tiremos nós mais gloria em mostrar os nossos como
cidadãos livres, sobrios e honestos, em vez de lhes darmos exemplos de
ostentação e grandêsa que se não coadunam com a modestia da nossa terra
e só provam a decadencia moral da sociedade em que vivemos.
Pensai nisto, senhoras, e ensinai-o a pensar a vossas filhas, porque
tem mais interesse para o seu futuro e para o dos seus noivos do que o
ultimo figurino, ou a ultima valsa tocada de ouvido ao piano.
Fazei de vossos filhos homens saudaveis de corpo e de alma, e das
vossas filhas as companheiras dignas desses homens, capazes de os
auxiliar no trabalho, alegres nas privações como modestas na grandêsa,
e tereis cumprido a mais bella missão da mulher, dado a mais alta lição
de verdadeiro e salutar patriotismo.
NO ANNIVERSARIO DUMA ESCOLA
Pela descripção da festa realisada este anno[3] na «_Escola 31 de
janeiro_» deveis saber que alguns homens dos mais notaveis pelos seus
talentos e caracteres se referiram a nós, mulheres, em varias passagens
das suas orações eloquentes. E para frisar essas passagens vos escrevo,
porque é do vosso interesse, do interesse de nós todas que se trata,--e
todas deveis saber o que valeis e quanto a sociedade espera e tem
direito a esperar da vossa cultura e ação inteligente.
Foi-me grato encontrar nas palavras da luminosa e bondosa alma que é o
dr. Manuel de Arriaga, um apêlo á mulher portuguêsa--_que tem sido até
hôje_, no seu proprio dizer, _o maior auxiliar da tirania_.
Mas um auxiliar inconsciente, dizemos por desculpa, se a inconsciencia
a póde ser, não o sendo a _ignorancia das leis_ perante o delicto a
punir.
Apraz-me conhecer a opinião do infatigavel batalhador sr. Heliodoro
Salgado, porque essa opinião coincide com a minha, expressa em muitas
paginas destas mesmas cartas, espalhada por artigos e correspondencia
particular que sobre o assumpto ha muito tenho escripto.
Comoveu-me o pedido do sr. dr. Teixeira de Carvalho, o energico e
brilhante espirito, feito _ás Mães Portuguêsas_.
Não fômos esquecidas, nessa manifestação de quanto póde a inteligencia
e a vontade aliadas no bem--exercicio de força que não tem por campo de
manobras os montes e as encostas duma região, mas o espaço infinito do
pensamento. Não tem horizontes que se fechem em recorte de montanhas
agrestes, é campo aberto a todas as energias e vontades, esplendente
de luz que não queima em fantasmagorias dolorosas de febre, mas que
ilumina as almas e aclara os espiritos, fazendo-os ascender ás regiões
superiores da verdadeira e pura Consciencia.
Se pudessemos ter assistido a essa reunião em que festejou a criança--a
pobre criança portuguêsa, tão tristemente educada, tão despresada
mesmo!--o amoravel apostolo da educação dr. Bernardino Machado,
mortificar-nos-ia o sentimento da propria inferioridade, que não nos
deixaria responder com a confissão das nossas culpas, mas tambem com
o nosso libello acusatorio aos homens livres, que têm consentido em
que as mulheres sejam as mais ardentes adversarias dos seus ideais, o
auxiliar passivo e inconsciente da tirania e do retrocesso.
É justa, se bem que implicada de censura amarga aos homens, a frase
do sr. Heliodoro Salgado:--_resgatêmos a mulher da ignorancia a que a
temos condenado e ella será a nossa cooperadora na revolução_.
Educar a mulher; torná-la util a si e aos seus, pelo trabalho
remunerado; escolher cada homem livre esposa que o seja, não só do
corpo mas tambem do espirito, não só humilde e paciente dôna de casa,
mas nobre e inteligente educadora, fóco de luz e de bondade superior,
irradiando na familia, como sol por onde se norteia a alma caminhando
para o futuro.
Se assim fosse, a revolução deixaria de ser um facto brutal e rude para
ser tão sómente uma evolução triumfante para a humanidade que marcha e
se resgata...
Não ha homem que se possa dizer livre, e que afoitamente possa
responder pela sua propria consciencia, em todas as horas de
desfalecimento e de dôr, quando a seu lado tenha--ignorante, mas
teimosa na crença; sem brilho na palavra, mas cheia de convicção no
olhar; sem convencer pela razão, mas abalando pelo comentario de cada
hora--a mulher que é a sua companheira, que foi talvez a sua paixão,
que é a mãe dos seus proprios filhos.
A mulher, sempre atrazada, por mingua de educação, no evolucionar das
aspirações e das novas crenças sociaes é o agente mais importante do
retrocesso e da rotina.
É ella que em politica, como em sciencia, como em tudo mais, é sempre
pelos velhos preconceitos, pelo estatuído, pelo comodismo egoistico e
enervante do _seguro_, pelo que ouviu tradicionalmente e não discute
nem quer ouvir julgar nem discutir...
Ora a tradição e o respeito pelo passado, se é uma virtude e um
estudo indispensavel para o conhecimento perfeito dos costumes e
reconstituição historica de uma época, como norma de vida e como crédo
intangivel é a negação de todo o progresso e de toda a civilisação.
Conversando ha dias com um pobre barqueiro, de rio acima, ouvimos-lhe,
no limitado e pitoresco vocabulario do seu chão estilo, esta
observação que é curiosa, pelo que nos revela mais do que pelo que
nos diz:--agora--dizia--está tudo mais _esperto_. O que antigamente
só podia fazer um homem velho no oficio e cheio de experiencia, fa-lo
hôje, quasi sem custo, um rapaz de dezeseis annos. Os senhores haviam
de vêr como rapazinhos governam ahi barcos, rio acima, conhecendo
todos os esteiros e manobrando dentro dos canaes das marinhas, como os
velhos só o faziam dantes ao cabo de muitos annos lidarem por aquelles
sitios. _É que está agora tudo mais esperto!_--Repetia, concluindo, a
frase que era o seu bordão.
Não é porque esteja tudo mais _esperto_, como queria o homensinho,
comprehendem muito bem, mas é porque está tudo um pouco mais
instruido. Um rapaz de dezeseis annos que sabe lêr o seu roteiro é
incomparavelmente superior ao velho ignorante que só na memoria póde
armazenar conhecimentos e esses mesmos com lentidão e insuficiencia
adquiridos pela prática.
A mulher portuguêsa tem vivacidade de espirito e assimilação facil; não
lhe falta o enthusiasmo nem a paixão; bastaria pois que a educassem e a
orientassem.
Mas de quem póde esperar esse forte impulso libertador, unico capaz
ainda de levantar a alma portuguêsa a toda a altura da exigente vida
moderna? Dos pais que não educam as filhas como criaturas humanas e sim
como bonecas de corda, de que é preciso vigiar o maquinismo, e que em
vez de lhes fornecerem educação que lhes garanta o futuro pensam com
afinco em lhes amoedar o dóte, que mais facil lhes torne o casamento?
Das mães, que não comprehendem o que hôje se chama educação feminina
e ainda se surprehendem e assustam com inovações de que ouvem falar
vagamente? Do homem, já amezendado na vida, comodista, defendendo por
egoismo o que lhe satisfaz as aspirações de senhor; querendo a esposa
muito sua humilde companheira, hôje prompta a servi-lo, ámanhã a ser a
criada dos seus filhos?...
De nenhum desses póde receber o salutar influxo que a torne a
companheira condigna do homem civilisado, que a sociedade prepara no
seio revoltoso das luctas e desesperos de hôje para um ámanhã mais
justo.
É dos rapazes novos--não daquelles que entraram na vida tarados para
o ramerrão comodista dos empenhos e empregos públicos, numa covardia
mórbida para a revolta e para a lucta--mas duma pleiade de moços a sair
das escolas, cuja alma sentimos palpitar numa _aspiração perfeita das
suas responsabilidades_, como disse o Snr. Teixeira de Carvalho. São
esses os que as podem encaminhar para a emancipação intelectual, esses
os que devem colocar-se ao lado das suas irmãs e, tornando-as as suas
verdadeiras companheiras, prepararem o seu proprio futuro de serenidade
e confiança no lar.
Então o homem póde entrar com segurança na vida e ferir as batalhas
mais sangrentas sem o receio de ver atraiçoada a sua obra na propria
casa, na sua familia, pela companheira da sua vida, e pelos filhos
educados no despreso e no odio ás suas ideias.
O que em Portugal se tem feito pela mulher é pouco e máu, mas o que se
tem feito pela criança é ainda menos e peor, se é possivel.
Por isso nos consola uma festa como a da _Escola 31 de Janeiro_,
iniciativa de rapases das escolas, sustentadas em annos consecutivos
de lucta pela esforçada coragem de dois ou três que não debandaram nem
desanimaram, passado o primeiro momento do arrebatado enthusiasmo da
alma meridional.
Era isto, que fizeram alguns rapases das escolas, isto que fazem hôje
e sempre os snrs. Luiz Derouet, Santos Franco e outros, não afrouxando
nunca na propaganda, não esmorecendo na campanha contra a indiferença
do público; era isto o que eu desejava que as mulheres fizessem. Não
as casadas, que têm a sua vida, os seus filhos, os seus encargos, mas
as raparigas que estudam e pensam; senhoras novas e inteligentes que
do pouco fizessem muito á força de energia e amôr pelas crianças,
raparigas modestas que desejassem fazer obra de honestidade e proveito
e não especulação caridosa para arranjar noivo mais depresa.
Seriam essas, as futuras mães e educadoras, quem desejariamos á frente
de escolas e institutos infantis, criados pela sua iniciativa, vivendo
do seu benefico influxo.
Ahi, no convivio da alma da infancia, tão obscura e complexa,
aprenderiam o seu papel de mulheres na familia.
Na _créche_, ellas aprenderiam a enfachar um pequenino corpo leitoso
e mole, que mais tarde a natureza lhe porá ao seio e que as suas mãos
inhabeis mal poderão tocar com mêdo de que se despedace. Aprenderiam
quais as doenças que mais adquire a primeira infancia; qual a maneira
de as evitar e combater, o que se chama a hygiene propriamente infantil.
Na _escola maternal_, aprenderiam, ensinando, como é facil educar e
instruir crianças de menos de seis annos, conservando-as sempre na
atmosfera alta da curiosidade e da aprendisagem.
Na _escola primaria_ comprehenderiam quanto é agradavel e facil ensinar
crianças, quando a familia ou a primeira escola as enviarem já com o
raciocinio desabrochado e com certas noções da vida e da natureza que
as rodeia.
Nos _hospitaes_ adiquiririam aquella prática de tratar os pequeninos
doentes, que tão custosamente obtêm as mães quando a alma lhes sangra
pelo soffrimento dos seus filhitos.
Nas _escolas-oficinas_, nas escolas práticas de cosinha, de costura e
de governo de casa, em toda a parte onde se trabalhasse pela criança, a
mulher solteira poderia formar o seu caracter, conhecer e fortalecer as
suas aptidões, fazer a si mesmo a educação que a tornasse util a todos
e lhe desse para o futuro a certeza de poder contar comsigo para provêr
á propria subsistencia.
A menina solteira no nosso paiz tem uma vida sem responsabilidades
sociaes e a maior parte das vezes sem utilidade nenhuma.
Anda na escola ou no collegio--as que não vão para os internatos--até
a saia lhe descer do joelho e roçar no cano da bóta. Aos primeiros
signaes da puberdade, os pais atarantam-se, num pánico de grandes
perigos a recear, e a pequena recolhe a casa.