o que póde a quem não estuda nem deseja saber, desde a pintura sem
desenho até á musica sem rudimentos. As que não pódem ter professores
ficam em casa com o pouco que aprenderam, a esperar que os annos, na
sua fugitiva carreira, lhes tragam o noivo correspondente.
Vestem com elegancia, mas não sabem fazer os seus vestidos; sabem pôr
sobre os seus cabellos frisados o mais disforme e complicado chapéo,
mas não o sabem enfeitar por suas proprias mãos; não costuram nem
bordam a roupa da casa; não talham as suas camisas; não cosinham ou
sabem dirigir o jantar da familia; não tomam a si o encargo de criar e
educar os irmãosinhos mais novos. As mães poupam-nas o mais possivel.
_É o seu bom tempo_--dizem. _Deixá-las, lá virá época em que tudo
aprendem á sua custa!..._
Pobres dellas! Não viram, no seu exemplo, quantas amarguras representa
essa _aprendizagem á propria custa_, desde o mau humor do marido que vê
tudo feito por mãos inexperientes até ao desrespeito das criadas por
quem não as sabe mandar nem ensinar.
A rapariga portuguêsa não é um sêr util e respeitavel, de que os
rapazes sejam fraternaes companheiros, lendo os mesmos livros,
interessando-se pelos mesmos assumptos, conversando naturalmente em
qualquer ocasião e com qualquer pessôa que se encontrem.
Não, ella é uma criatura no papel passivo de pretendente, esperando
vagamente o numero da loteria--que lhe _dê o premio_.
Depois, conforme este seja, grande ou pequeno, isto é, marido rico
ou pobre, terá então que adaptar a trouxe-mouxe as suas qualidades
assimiladoras e resignar-se ao trabalho ou pavonear-se soberbamente no
luxo e na inactividade.
Para tudo está preparada, não estando habilitada para coisa alguma.
A rapariga portuguêsa é, em resumo, uma criatura encantadora, que veste
com garridice, que passeia nas horas de musica, que vai ás praias, aos
theatros e ás reuniões, que ás vezes lê os folhetins dos jornaes e tem
ataques de nervos, de quem os rapazes desdenham e troçam--mas que, por
fim, virão a ser as suas mulheres.
Quantas não têm o desejo de se tornar uteis, de ganhar _para os seus
alfinetes_, de terem uma ocupação que as enobreça aos seus proprios
olhos e as habilite a serem mais tarde livres pelo seu trabalho?!
Mas, entorpecidas pela educação, deprimidas pelos estreitos habitos da
vida portuguêsa, resignam-se a não serem mais do que as outras--umas
eternas aspirantes ao casamento.
Inteligente e dedicada como é, em geral, a mulher portuguêsa, que
grande e bella obra social não faria, quem a pudesse interessar pelas
duas questões capitaes de que depende o resurgimento da nossa patria e
o futuro da nossa raça:--o trabalho livre e remunerado para a mulher, a
educação, fisica e intelectual, da mísera criança portuguêsa.
A MULHER DE HA TRINTA ANNOS E A MULHER DE HÔJE
Se perguntarmos aos que ora entram com desplante na vida, julgando
que nada devem ao passado, que o presente é obra sua, e o futuro lhes
pertence, o que era a ilustração da mulher portuguêsa de ha trinta
annos, não haverá ahi rapaz ou rapariga de mediana educação que não
solte uma gargalhada escarninha, ou que, ao menos, não franza a bôca
num tregeitar de troça.
É que essa época de romantismo agudo avulta a nossos olhos a turba
desgrenhada das jovens que recitavam ao piano, com os olhos no
infinito; que dormiam de colete para adelgaçarem a cinta, defumavam
o rosto para obterem a palidez interessante que a moda reclamava ás
heroinas tisicas, que sonhavam com o menestrel choroso que por noites
luarentas as viria buscar para um eterno _duo_ de amôr, na _cabana_
ideal onde se vivia... do ar.
Essas eram as exageradas de todas as escolas, as desvairadas de todos
os tempos. Mas ao lado dellas, as sãs, as ajuisadas, que liam os mesmos
livros e conheciam as mesmas poesias, não se deixavam levar em excessos
de romantismos piegas, mas amavam os seus poetas e comprehendiam a
literatura do seu tempo.
Não ha por ahi senhora da geração de nossas mães, rudimentarmente
educada que fosse, que não tenha chorado com os romances de Camillo,
que não tenha discutido e amado Julio Diniz, que não conheça Garrett e
Herculano, que se não lembre com saudade da _Lua de Londres_, que não
tenha recitado Soares de Passos, Castilho, Palmeirim e Thomaz Ribeiro,
que não tenha cantado essas poesias, que entraram no ouvido de todos em
modilhas e cantatas, compostas por musicos ignorados.
Isto numa época em que a mulher não tinha, como a de hôje, facilidade
em se instruir, em que a instrução por essas provincias fóra era um
caso esporadico, em que os liceus lhe não eram franqueados e nas
escolas superiores se falava do exemplo de Publia Hortensia de Castro,
que cursou a Universidade vestida de homem, como dum caso fabuloso,
porventura menos provavel do que a sabedoria de Minerva, a deusa
mitologica da sciencia.
O que significa que a mulher joven ha trinta ou quarenta annos, sem
ter a alta cultura duma grande dama da côrte brilhante de D. Manuel,
era, sem dúvida, muito superior á de hôje, que não conhece os seus
escriptores nem comprehende os seus poetas.
Se bem que a Arte, embora na sua fórma mais intelectual,--a
literatura--não possa dar á mulher o grau de conhecimentos, a soma
enorme de noções exatas da sciencia que são necessarias para constituir
hôje a educação de qualquer criatura regularmente culta, é bem certo
que eleva as almas e constitue um dos mais nobres ideais da existencia
humana.
«A mulher desconhece os escriptores do seu tempo e deixou de se
preocupar pela literatura, porque não temos romancistas que a
interessem e os poetas deixaram de lhe falar ao coração...--costuma
dizer-se para desculpar uma falta que todos reconhecem e da qual
ninguem se confessa culpado.
Seguramente que a maior, se não a unica responsavel, é a mulher que
assiste, sem comprehender, ao avançar victorioso da civilisação, que
hade expulsar os ignorantes como párias inuteis numa sociedade que se
encaminha para a luz.
Poetas e prosadores deixaram, é certo, a azinhaga florida do romantismo
para seguirem pela estrada arejada de um novo ideal estético, para uma
fórma mais verdadeira e humana. Mas porque os não seguem as mulheres?
Porque se quedam numa indiferença que as distanceia do seu tempo, que
as torna tão alheias a tudo quanto interessa o homem do seu paiz, da
sua sociedade, do seu proprio lar?
Não lêr porque não ha quem escreva a seu gosto no nosso paiz é...
apenas uma desculpa. Temos hôje, como sempre tivémos, quem escreva
bem. Todos os annos, a par da grande alluvião de livros sem valôr que
ficam nos depositos das casas editoras para serem vendidos ao peso do
papel, ou dados como brinde a quem compra outros livros, publicam-se
os bastantes para saciar a curiosidade vulgar em quem tem o habito da
leitura.
O que falta não são os escriptores nem as suas obras.
Falta o público que dê no seu aplauso ou no seu desagrado o incitamento
de que precisa todo o artista para fazer obra em que pônha toda a alma,
toda a energia do seu espirito, na inspiração de progredir e vencer a
concorrencia, que então se dá material e áspera, mas compensadora para
os triunfantes.
Quem lê no nosso paiz? Uma minoria de intelectuaes, que preferem a
literatura estrangeira, e que a maior parte das vezes não compram
sequer os livros portuguêses, que poderão ler de emprestimo ou
oferecidos.
Lê o povo bastante, mas o povo das cidades, e principalmente os
operarios, os livros dos propagandistas, as brochuras que os chamam
á consciencia da sua grande miseria; ou lê os romances sensacionaes,
ultimamente, e por felicidade, substituidos pelos grandes romances
historicos ás cadernetas, ilustrados, que têm a enorme vantagem--quando
não tenham outra--de ser portuguêses e não habituar o povo a dizer
nomes disparatados e ridiculos que lhe servem nas traduções.
Não lê no nosso paiz, a grande maioria dos homens, porque não encontram
para isso tempo que lhes sobre dos seus afazeres ou da vida dispersada
por cafés e clubs, na conversa de conhecidos e amigos encontrados
sempre nas horas de sobejo.
Não lêem as mulheres, o que é muito peor. Porque é em toda a parte
o grande publico feminino quem lê os poetas e os romancistas, quem
assigna os _magasines_ e revistas, quem conhece as mais interessantes
brochuras de viagens, quem discute os seus autores, quem faz, emfim,
uma reputação literaria.
Entre nós, a não ser nos centros intelectuais de que as mulheres só
raramente fazem parte, não se fala em literatura, não se conhecem
os escriptores e não ha--o que é significativo--o menor desejo de os
conhecer.
Para muitas senhoras que lêem e gostam de lêr é um facto desconsolador
o pensarem que serão ridicularisadas e que os ignorantes as alcunharão
de _sabichonas_ e _doutoras_, se por acaso entram em conversa que
transponha os limites literarios dos folhetins dos jornaes ou da secção
das modas.
Mas será isto motivo bastante para se desinteressarem tão completamente
pela literatura do seu paiz?
Fugindo do ridiculo com que fôram tão cruelmente perseguidas as
romanticas de ha vinte annos, as mulheres deixaram de lêr com receio de
que as chamassem _literatas_--o epiteto mais desagradavel que podia ser
dito a uma senhora que era vista com um livro na mão.
Pararam, indecisas, isto é retrogradaram, porque em civilisação não ha
paragens que não sejam retrocessos.
E foi este o motivo porque se deu o afastamento cada vez mais
pronunciado da mulher portuguêsa pela arte e pelos artistas do seu
paiz e do seu tempo. É desolador este simptoma porque nos mostra como
é feita sem elevação moral, nem intellectual, a educação das mulheres
que hão de ser as educadoras das futuras gerações. Numas, as que se
dizem educadas, os seus conhecimentos são apenas um mostruario vistoso
de habilidades e conhecimentos superficiaes, que não iludem ninguem.
Outras, conservam-se na mais boçal ignorancia, na mais completa
indiferença pelas coisas do espirito.
Mas dando de barato que, por uma estranha repugnancia de espirito, os
escriptores de hôje não agradem ás mulheres, porque despresam tudo
quanto de grande e bello tinha a do tempo de nossas mães?
Por acaso deixaram os livros de Camillo de ser os mais humanos, os
mais portuguêses, de quantos tem escripto e sentido um grande talento
português? Por acaso já secaram, como fonte despresada em campo
maninho, os lindos olhos das mulheres do nosso paiz, que já não se
arrasam de lagrimas na partida de Simão Botelho para o desterro e na
morte da linda Thereza e da tragica e simples Marianna?!
Tão perdido vai o seu gosto artistico, que já os seus labios se não
abrem jocundos sobre as paginas de eterna graça, que o incomparavel
escriptor espalhou por toda a sua grande obra?!
Tão adversas a preocupações de espirito, que se não familiarisem com
todo esse mundo amoravel e risonho que nos deixou o romancista que
deveria ser, por excellencia, o preferido das mulheres, Julio Diniz?!
Tão esquecida que já não leia toda essa pleiade brilhantissima de
poetas e prosadores que foi a de Garrett e Herculano, até João de Deus,
Anthero, Crespo, Eça, e tantos outros que a morte levou; sem falar nos
que, por graça de Deus, ainda vivem e trabalham nesta Patria que devia
ser o nosso orgulho e é o tormento de quem a ama e a vê tão outra do
que devia ser?
Não, a falta não é dos escriptores, a falta é só da mulher que não está
educada bastantemente (apesar de certos criticos acharem que o está já
demais!...) para discernir e escolher o bom caminho que o mais vulgar
senso commum lhe indica: uma educação séria e fundamentada, começando
nas coisas práticas e uteis da vida, acabando na literatura e na arte
em geral, que é por assim dizer a alma falante d'um povo.
É urgente que se convençam de que a mulher ignorante é o mais triste
e aborrecido verbo de encher que a sociedade agasalha. Se é bonita,
elegante, e veste bem, começa por ser um prazer para os olhos e acaba
por se tornar um desprazer maior para o espirito, quando responde com
o mutismo da ignorancia convicta, ou com a tagarelice da ignorancia
atrevida, a uma simples conversa em que pessôas cultas jogam com ideias
e conhecimentos como as crianças com as irisadas bolas de sabão que
tanto as alegram.
Isto olhando-a pelo lado social, que na vida familiar os efeitos
da ignorancia feminina são ainda de mais tristes e deleterias
consequencias.
AS POBRES MÃES
Porventura evocará este titulo míseras mulheres desgrenhadas,
arrepanhando-se de dôr, ante a morte que lhes arranca dos braços os
filhos estremecidos...
Ou a visão dolorosa das que os vêm partir, na força da vida, frementes
de esperanças e ambições, chamados pela lei para a guerra odiosa...
Ou, ainda, pobres mulheres vagabundas, arrastando os seus farrapos
pelas ruas e caminhos, mendigando baixinho, numa vergonha ou num
pavôr, para os sêres informes que levam nos braços e pendurados ás
saias, culturas para a dôr e para a doença, crimes e loucuras em
fermentação...
E, entanto, não são essas as que merecem a epigrafe que encima estas
palavras.
É mais dôce o seu viver, mais calma a sua existencia...
É ao recolhimento da vida burguêsa que iremos buscar essas _pobres
mães_, que a sociedade moderna, no impulso avassalador e tiranico de
necessidades e exigencias novas, vai fazendo martires pelo sentimento e
pelo coração.
São essas mulheres naturalmente inteligentes, mas fundamentalmente
ignorantes, que sofrem pelo afastamento progressivo dos filhos do seu
amôr e do seu encanto, a par e passo que os vêm crescer em inteligencia
e saber.
É á _classe média_, a mais numerosa e _nacionalisada_, a mais apegada a
preconceitos e tradições, que vamos buscar o nosso exemplo, porque:--o
povo operario, caminhando revoltósa e tumultuariamente para o futuro; o
dos campos, muito perto ainda do primitivismo animal; a alta burguesia
e os restos desmantelados das velhas aristocracias, despaízadas pela
educação e pela existencia só de luxo e egoismo--não podem fornecer os
elementos comprovativos para a nossa these.
Um dos muitos axiomas fabricados para satisfação da nossa vaidade,
e que transmitimos gostosos pelo prazer de nos iludirmos e pela
preguiça em nos emendarmos, é a conhecida frase--que faz comover
sentimentalmente os mais áridos corações--_a mulher portuguêsa é uma
bôa mãe_.
Ora se olharmos a maternidade apenas como a funcção animal de conceber,
ter o filho, amamentá-lo e cuidá-lo materialmente, nos primeiros três
ou quatro mêses da sua existencia, a mulher portuguêsa é, realmente,
uma bôa mãe.
Tudo a predispõe para isso. A bondade natural da nossa raça, essa
bondade passiva feita da indolencia atavica de sangue oriental que nos
anda nas veias; a belleza efemera, quasi toda feita da frescura dos
poucos annos e da delicadeza das linhas que a maternidade ainda não
engrossou; o esmagamento duma longa série de gerações em que viveu no
recolhimento freiratico da antiga vida portuguêsa, e ainda hôje sem os
cuidados rudes de procurar a subsistencia, encargo exclusivo do homem...
Tudo predispõe a mulher, na doçura amolecedôra do nosso clima, para ser
uma cuidadosa mãe: cheia de mimos para os seus pequenos; temendo vê-los
chorar, como quem teme uma trovoada; muito ciosa das suas prerogativas,
quando se trata do enxoval de bébé, da moda dos vestidos, dos chapéos e
das bótas; sacrificando-se, em caso de doenças; tendo, emfim, todos os
carinhos e todos os merecimentos duma bôa _aia_.
Mais tarde, procurará dar ás filhas uma educação primorosa, segundo o
seu ponto de vista, não se poupando ainda a sacrificios para que toquem
no seu piano, saibam prendas de mãos, e um bocadinho de francês para
não se envergonharem numa sala...
Emquanto aos rapazes, cedo entregues aos professores que os levam a
exame, ficam--graças a Deus--livres de toda a responsabilidade de
educadora.
Para com as filhas é mais longa a sua missão, que não é desagradavel a
espiritos que ficaram ignorantes das mais singelas regras de alta moral.
Quando as raparigas chegam á idade de procurar marido, ahi dos dezeseis
para os dezoito, começa para a mulher o desempenho do papel, annos
atrás a cargo da sua propria mãe, quando a acompanhou a todos os
divertimentos, aguentou calôres e frios nos passeios da móda, cabeceou
pelas reuniões dançantes, fez sacrificios para lhe comprar vestidos
vistosos, despojou-se dos seus adornos para enfeitar as filhas,
porque--e esta frase é bem caracteristicamente portuguêsa e lança
toda a luz no módo de ser e nas aspirações da nossa pobre mulher--_já
agradou a quem tinha de agradar_.
Agora é a vez da filha ir para _a amostra_, até encontrar _senhor_.
Sujeitam-se a tudo: trabalham, quando não têm criadas, nos mesteres
mais humildes, para que as filhas desempenhem o seu papel de
princesinhas de contos á espera do principe encantado que as fará
soberanas de deslumbrantes reinos imaginarios...
A rapariga, assim preparada, casa emfim, realisa a sua ambição, está
finalmente _arrumada_--como é vulgarissimo dizer-se quando uma noiva
passa, sorridente e confiada, dos mimos da casa paterna para os braços
de um homem que na maior parte das vezes é quasi um desconhecido.
Pobres dellas!... O que julgam o _fim_ é apenas o _principio_--da sua
árdua missão de mãe de familia.
Deixou de ser uma criatura sem deveres nem responsabilidades, a quem
tudo se perdôa e desculpa, para ser a pedra basilar desse sagrado
templo que se chama o lar.
Vai sêr _a mãe_! Vai pertencer-lhe, só a ella, por longos e dolorosos
mêses, viver da sua vida, alimentar-se com o seu sangue, sentir pelos
seus nervos, um pequenino ser informe que é o seu filho, que será para
o futuro um homem ou uma mulher, que poderão ser uns criminosos ou uns
santos, doentes ou sãos, devido, em muito, aos cuidados, preocupações e
higiene moral e material da mãe.
Nascido para a vida, é ainda o objecto dos seus cuidados e amôr. Treme
pela sua fragil existencia, alimenta-o com o seu leite, acalenta-o no
seu regaço,--continúa a viver da sua existencia, póde assim dizer-se.
A mãe sente-se satisfeita com esses cuidados que dispensa aos
pequeninos seres, que lhe enchem de ternura e de encanto o coração;
e, cuida, justamente, que ninguem será capaz de os tratar e amar como
ella...
Mas esta mulher tão cuidadosa e carinhosa não é, não pode ser, uma
bôa mãe! Só o instincto a guia, e o homem de hôje é por tal fórma o
producto de costumes e civilisações sobrepostas, que deixou ha muito de
ser o _animal de instinctos_, segundo a natureza, para ser um producto
de arte e de trabalho e de paciente cultura.
Educar uma criança de hôje, não é manda-la para a escola para que saiba
lêr e escrever; é muito mais do que isso!
Ainda antes de nascer, já a criança deverá ser respeitada e amada,
cohibindo-se a mãe de muita coisa que a póde prejudicar, cuidando do
seu proprio somno, da sua alimentação, e da sua higiene, para que
a delicada planta humana desabroche vigorosa e possa resistir e
desenvolver-se propiciamente.
Conhecem, por acaso, a maior parte das mães, a responsabilidade duma
gravidez?
Sabe a mulher que casou com a educação que descrevemos, que do
conhecimento e da prática de simples noções de hygiene póde evitar
aos seus filhos terriveis males, quasi todo o estendal das doenças
infantis, que levam para a terra centenares de corpinhos inermes:
desde a enterite, que faz das mais lindas creanças pequenos cadaveres
ambulantes, até á atrepsía que, sob as côres rosadas da saude, disforma
o esqueleto, dobrando as pernas em arco, dando ás criancitas o andar
grotesco de _marrequinhos_ fóra da agua?
A propria tisica, a escrofulose, a anemia, como as inúmeras nevróses
que desvairam a raça humana, são quasi sempre evitaveis se uma vida
infantil regular e higienica tonificar o organismo e o preparar com a
resistencia precisa para o triumfo dos principios vitaes.
Partindo do cuidado, quasi só material, dos primeiros dois ou três
annos, a missão da mãe redobra a cada passo de dificuldades e requer
toda a inteligencia e a tenacidade duma grande obra.
É então que todos os desvelos serão poucos para vigiar a consciencia
que vai despertando, e que é necessario começar cedo a ser educada e
dirigida para o bem.
Não faltará quem se ria ouvindo falar em educação duma criança de três
ou quatro annos; e, no entanto, nada mais sério e nada mais util do que
saber aproveitar a franquêsa dessa idade, que ainda não sabe mentir,
para conhecer na criança o homem ou a mulher que será no futuro. É a
ocasião de poder aproveitar todas as qualidades de um caracter e até os
seus defeitos, e convertê-los em virtudes, sem torcer a vontade nem o
temperamento individual.
E a mãe, a _pobre mãe_, que é a mulher da qual descrevemos o casamento,
começa então a sentir que o seu filho se lhe escapa dos braços,
arredando-se-lhe do coração, alheando-se-lhe do espirito.
Dahi em diante, a criança, pela vida e pela alegria da qual ella
sacrificaria gostosamente a sua propria vida, dá cada dia um passo que
a tornará uma estranha para aquella que lhe devia ser a mais certa e
mais respeitada guia.
É quando, cheia de curiosidade, começa a abrir os olhos do espirito,
que se não fartam de luz, e pergunta tudo quanto existe, tudo quanto
lhe fere a atenção, sempre desperta e voluvel.
As coisas mais simples, como as coisas mais complexas, tudo procura
saber e tudo é preciso que se lhe explique duma maneira comprehensivel.
É o momento unico de lhe dar noções que nunca mais esquecem e que
pela fórma estejam ao alcance dos seus poucos annos e rudimentar
inteligencia, mas pela substancia resumem os conhecimentos e verdades
que lhe serão uteis pela existencia fóra.
Se a mãe não responde, a criança desinteressa-se de coisas sérias e
torna-se futil, ou vae fazer as suas perguntas ao pai, quasi sempre
mais culto, e que por esse motivo passará a ser considerado superior á
_mãe ignorante_. Se a mãe, não querendo passar aos olhos da criança por
inferior, diz uma coisa ao acaso, que não é precisamente a verdade, o
mal é ainda peor porque não tardará que a criança saiba, por estranhos,
o contrario do que lhe disseram.
E não imaginem que ella esquecerá, não! Na primeira ocasião saberá
mostrar a sua estranhesa.
Cresce: da escola _para sujeição_, onde a mãe a meteu por ser
impossivel tê-la em casa desde os três annos, passa a frequentar as
aulas públicas. Tem os seus compendios, que lhe falam de coisas de que
não tinha a menor noção; cada passo é uma dificuldade, cada palavra
um barranco, cada materia uma novidade, que o professor, entre tantos
discipulos a reclamar-lhe a atenção, não tem tempo de aclarar-lhe o
sentido. De lagrimas nos olhos, o livro na mão, a criança irá procurar
aquella que mais estima, e que mais tem tido chegada ao coração desde
que existe, para que lhe explique o que não comprehende. E a _pobre
mãe_ não saberá auxilia-la, terá de confessar a sua impotencia, a sua
ignorancia, diante do filho que se desespera!
Quantas vezes, indo encontrá-lo a cabecear sobre o livro que não
comprehende, a mãe não teria desejo de tirar-lh'o das mãos e, numa
clara leitura e uma inteligente explicação, fazê-lo aprehender o
sentido que lhe foge?!... mas... a _pobre mãe_ não o poderá fazer,
porque não sabe tambem! E quantas vezes a sua revolta de ignorante não
se torna uma defesa para a criança mandriona, que repetirá o que lhe
ouve:--_Para que serve saber isto ou aquillo? Sem estudar tambem se
come e bebe!..._
Se a criança é estudiosa e inteligente, em vez de pensar com leviandade
sobre o assumpto, com a aprovação da mãe, concentrará todo o seu
espirito no estudo e irá perguntar aos estranhos o que em casa não
poude saber.
A _pobre mãe_ será, aos olhos de seu proprio filho, uma _ignorante_,
uma _inferior_.
De dia para dia esta convicção se irá radicando no ânimo da criança, á
medida que fôr adquirindo conhecimentos, desenvolvendo a inteligencia.
O trabalho que se faz no seu espirito é lento, mas é seguro. Homens
e mulheres feitos, não deixarão de amar as mães--quem o duvída?--Mas
com esse amôr protector que se tem a uma bôa e dedicada ama que nos
acalentou e amimalhou na infancia, o amôr deprimente que se tem pelos
inferiores; não o sagrado afecto do filho, que o é, triplicemente, pelo
sangue, pela amamentação e pela inteligencia desabrochada ao calôr do
ensinamento materno.