Senão vejamos: V. Ex.ª, que leu e respondeu ao meu artigo, s

Anna de Castro Osorio

Ás mulheres

Portuguêsas

LISBOA

=LIVRARIA EDITORA=

VIUVA TAVARES CARDOSO

5--LARGO DE CAMÕES--6

1905

Typ. a vapor da Emprêsa Litteraria e Typographica

178, Rua de D. Pedro, 184--Porto

Na incerteza pelo futuro, caracteristica muito acentuada do actual

momento historico, não ha ninguem, por mais ferozmente que se

ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se

não surprehenda, um dia, meditando, transido de duvidas, nalgum dos

multiplos problemas que agitam a alma moderna.

São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta

lagrima, evocam tanta dôr soffrida pela mísera humanidade--que em vão

lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente

goso, conforme é alevantada aos ares em triumfo ou mergulhada na

indifferente desgraça--que o nosso espirito se detem e pergunta, no

augusto silencio da propria consciencia--se vale a pena existir num

mundo assim?!

Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados

pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de

trazer, embora com o sacrificio proprio, alguma melhoria á sociedade;

outros desanimam, a mesma dôr os mata ou anula para o trabalho paciente

do futuro.

Mas o desânimo e a renuncia é uma dupla falta--pelo que deixâmos de

fazer e pelo que consentimos que os egoistas e os sem escrupulos façam

impunemente.

Para todos é de responsabilidade a hora presente, na qual, a par de

muito crime e muita injustiça, um bello e salubre movimento se opéra

por todo o mundo.

Ninguem se poderá isentar dessa tremenda responsabilidade moral, que

tanto cabe ao homem como á mulher, a esta mais ainda porque nas suas

mãos, com a educação da infancia, que lhe pertence, está confiado o

futuro.

Á mulher, pois, ou seja pobre operaria que mal ganha para o pão de cada

dia, ou opulenta dama avergada ao pêso dos seus deveres sociaes; ás

mães que têm filhos a entrar na lucta pela existencia e que ansiados

esperam o conselho, que os guie para a felicidade e para o bem,

dos labios que lhes ensinaram as primeiras palavras e lhes deram

os primeiros beijos; como ás raparigas que, mal iniciadas nos seus

deveres, têm de arcar com um futuro de que nem chegam a comprehender

as responsabilidades; a todas, repetimos, corre o dever de se deterem,

ao menos um instante, a pensar no remedio a dar a tanto mal e a tanta

iniquidade.

Por isso é ás mulheres, e principalmente ás mulheres do meu paiz--que

tão insuficientemente são educadas para serem as companheiras e as mães

do homem moderno--que me dirijo.

Possa este modesto trabalho corresponder dalgum modo ás necessidades

espirituaes da alma feminina, que desperta emfim para uma nobre e mais

util missão social.

FEMINISMO

I

SER FEMINISTA

Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou

se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das proprias

mulheres córam, coitadas, como de falta grave cometida por algumas

colegas, mas de que ellas não são responsaveis, louvado Deus!...

E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este

caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua

autonomia.

O homem português não está habituado a deparar no caminho da vida

com as mulheres suas iguais pela ilustração, suas companheiras de

trabalho, suas colegas na vida pública; por isso as desconhece, as

despresa por vezes, as teme quasi sempre.

Mas siga a mulher o seu caminho, intemerata e digna, sem recear o

isolamento como o ridiculo--que nem um nem outro atingem o verdadeiro

mérito e a sã razão.

Tenha o coração alto e o espirito alevantado; não faça do amôr o ideal

unico da existencia nem o seu unico fim. Pense no trabalho e no estudo,

e deixe que as suas faculdades afectivas se desenvolvam livremente, ou

se não desenvolvam mesmo, que isso deve ser indiferente á sociedade.

Cuidados de amôr devem ser cuidados tão absolutamente pessoais e

intimos, que não os assoalhar deveria ser a maior prova de pudôr.

Tal não sucede, porêm. Toda a gente publíca os seus afectos, puros

ou impuros, verdadeiros ou falsos; e, por mais absurdos, por mais

indesculpaveis que sejam, despertam mais simpathia e compaixão do que

verdadeiras desgraças sociaes. Na vida real, como no drama, no romance,

na poesia, ou na musica, só cai bem no gosto do publico o amavío

voluptuoso do amôr sentimental.

Assim o quer a sucessão de seculos, em que a mulher foi a reclusa do

convento ou da familia, tendo na vida um só fim--_agradar_.

Assim o estima o homem, que fez do amôr carnal o seu culto e da mulher

a sacerdotisa desse culto. Mas sacerdotisa que se torna em escrava,

deusa que se cobre de injurias e se lança ao monturo das velhas coisas

inuteis, logo que o capricho, a paixão dos sentidos, foi como o fumo

desfeito no céo sem nuvens.

O homem, passada a idade da poesia, segue triumphante o caminho da

existencia, sem mais lhe importar com a sua inspiradora. Da deusa ideal

dos seus sonhos faz a cozinheira habil, a dôna de casa ignorante e

util, mixto de costureira e governante, a mãe paciente e sofredora dos

filhos que são o seu orgulho.

A mulher, em geral, é, quando esposa, a companheira só para a vida

banal e mesquinha--que nem por sombras deve abordar os graves

pensamentos que preocupam o marido!...

Porque quando o homem, por acaso, encontra méritos intelectuaes que o

confraternisem com um individuo do sexo feminino, é rarissimo confessar

que a sorte lho deu para companhia da sua vida.

Mas quantas vezes se enganam na escolha, e, por castigo, na companheira

ignorante e inferior que procuram para seu descanço, não encontraram,

hipocritamente velados por uma habil ingenuidade, todos os baixos

instinctos dos seres inferiores?!

Quantos, procurando nas ignorantes criaturinhas que nunca se _poluiram_

com o estudo e com o trabalho, as previdentes mães de familia,

destinadas a fazer prodigios de economias, de método e de arranjo,

não depararam com desditosas mulheres roídas de ambições e vaidades,

tanto mais ásperas quanto maior é a sua impotencia para as realisar--a

fantasia só presa nas galanices e módas, inuteis para os trabalhos

caseiros como para outro qualquer, sofrendo e fazendo sofrer todos os

seus por não possuir o que deseja e vê ás outras, transformando os

lares em gehenas onde féras da mesma raça se espesinham e abocanham?!

Quando ao homem fôr dado encontrar facilmente a mulher sua igual,

comprehenderá quanto era louco preferindo-lhe esses pobres sêres que

não têm assumpto para conversa fóra do ultimo figurino, da vida alheia

e das criadas e seus costumes.

Comprehenderá então o que é o verdadeiro afecto entre esposos, e não

mais preferirá essas que hoje diz amar, mas que no intimo despresa,

como suas inferiores, que supõe.

E digo que supõe, porque está provado pela sciencia que

_intelectualmente_ não ha sexos privilegiados, mas unicamente

individuos e, quando muito, raças.

Foram os sabios que desmentiram esse grosseiro e velho erro de que

o cerebro feminino é menos pesado e consequentemente inferior ao do

homem. Foram elles, os mesmos que lhe tinham levantado barreiras sobre

barreiras e escreveram sobre cada porta da sciencia o fatal _non

possumus_, os primeiros a desmentir-se e a penitenciar-se próbamente a

cada manifestação da mentalidade feminina.

Foi a sciencia, fonte de toda a verdade e de toda a justiça, e na

qual devemos pôr os olhos como na unica libertadora, que fez cahir por

terra esse argumento tão falado da superioridade intelectual do homem,

fundando-a no peso do cerebro.

Se a _massa cinzenta_ contida no craneo feminino é menor, corresponde

harmonicamente ao tamanho do corpo, em regra mais pequeno.

Foi esse o primeiro passo, o mais importante e decisivo, para o

triumfo da ideia feminista. Até lá, quando a mulher pretendia estudar,

trabalhar, ser um ente de razão e de luz, cahia-lhe como avalanche de

gelo, a sufocar-lhe as aspirações, essa cruel e deprimente opinião. E

a pobre, se não era um espirito de excepcional brilho ou um caracter

de excepcional tempera, sentia-se amesquinhada aos seus proprios olhos

e desistia do enorme esforço requerido para subir onde a multidão das

suas pobres irmãs nem sequer se atrevia a pôr as vistas ambiciosas.

Ás vezes, ou porque fossem realmente _excepcionaes_, ou porque as

condições mesologicas as favorecessem extraordinariamente, dentre

as mulheres sahiam algumas que os proprios homens eram os primeiros

a reclamar e incensar, mas passando-lhes cautelosamente o diploma

de _raridades_, quasi fóra do sexo, sêres hibridos, masculinos pela

inteligencia e só fisicamente femininos.

De modo que essas aclamadas, e afastadas do caminho trilhado pela

turba-multa das ignorantes, exactamente porque eram superiores e se

julgavam intangiveis, abandonavam a causa das suas irmãs, que já não

era a sua, concedendo-lhes apenas, e isto nem sempre, a sua piedade

diluida em conselhos de resignação e submissão para desempenharem o

papel de escravas, nascidas sómente para a felicidade e regalo do

homem. Desta maneira, a causa feminina perdia as suas mais legitimas

defensoras, deixando nas mãos dos homens os melhores argumentos.

É como algumas esposas, que, por serem ditosas no casamento, porque

tiveram a fortuna--que não digo rara--de encontrar para maridos homens

inteligentes e justos, encolhem os hombros com indiferença á desgraça

das que tiveram destino contrario.

É uma prova de egoismo, que é uma deploravel qualidade, e é, peor do

que isso, o abandono duma causa justa que, se não toca individualmente

a cada mulher, interessa colectivamente o sexo a que pertencem.

Acabar com os _fenómenos_, com os _monstros femininos_, julgar todos os

individuos intelectualmente semelhantes sem distinção de sexo, aptos

igualmente a estudar e progredir pelo trabalho, foi sem dúvida o passo

definitivo para a libertação feminina.

As mulheres poderão, assim como os homens, distinguir-se pela sciencia,

pela industria, pela arte, pelo comercio, pela pedagogia, ou ficarem

tão-sómente dônas de casa,--mas fazendo do seu lar a primeira e a mais

nobre escola dos filhos.

Haverá, decerto, tal-qual entre os homens, umas que se superiorisam

num trabalho, outras em outro, mas serão todas educaveis, todas

melhoraveis, todas uteis, laboriosas e conscientes obreiras, ajudando á

melhoria da grande colmeia social.

As mulheres de hôje não têm desculpa se continuarem na ignorancia e na

inactividade, tudo esperando do homem, que as hade procurar para a sua

conveniencia.

As escolas estão abertas por igual aos dois sexos e não ha já quem,

nesta hora alta da civilisação, se atreva a banir dellas um individuo

que as queira frequentar sob o pretexto da diferença do sexo.

Tempos atrás, quando a mulher pensava em sahir do anonimato da sua

missão caseira, tinha apenas por campo aberto á sua actividade, a

literatura, visto que é a unica profissão onde o talento e o estudo

individual dispensam a educação preparatoria.

Hoje não é assim. Toda a gente aceita uma senhora que tem a profissão

de medica, pintora, esculptora, engenheira ou professora, tudo que

requer habilitações e estudos publicos, e que lhe tinham ensinado

a crêr que nunca poderia atingir por falta de genio criador e

persistencia no estudo.

Não se sobresaltem os homens com a concorrencia, que é antes auxilio.

Pequena, por mal da humanidade, hade ser sempre a percentagem dos

cerebros verdadeiramente superiores em qualquer dos sexos. Não é, pois,

justo que por falta de educação se percam aptidões que nem sequer

chegaram a manifestar-se, talentos de que nem sequer se suspeita...

Se os mais ardentes sectarios dos velhos preconceitos já chegaram

á conclusão egoista de que é preciso educar o povo para que se não

percam tantissimos talentos que podem beneficiar a humanidade, não

é justo--ainda que não seja senão pelo mesmo motivo--condenar á

ignorancia, na mulher, metade dessa mesma humanidade.

Dever-se-ha pensar que Clemence Royer, honra e gloria da França, sabia

entre os sabios, espirito todo precisão, clarêsa e método, não teria

sido o que foi se, por um mero acaso, tivesse nascido em Portugal ou

em outro qualquer paiz, onde, como no nosso, se descure a educação

feminina.

As mulheres conservam-se entre nós numa indiferença quasi total pelas

conquistas que dia a dia vão marcando um passo de avanço para o triumfo

definitivo do espirito sobre a materia, da inteligencia sobre a força,

da educação sobre a ignorancia, embora doiradas pela fortuna ou pelos

privilegios de classe.

Mas esperemos serenamente, porque á mulher portuguêsa hade chegar

tambem a sua vez de comprehender que só no trabalho póde encontrar

a sua carta de alforria. Não no trabalho esmagador, exercido como

castigo, mas no trabalho que enobrece o espirito, que dá o bello

orgulho dos que só contam comsigo e nunca foram um peso para ninguem.

E desde que se torne independente pelo seu proprio esforço, desde que

saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos que

veste, sem estar á espera do homem, fonte perene de todo o dinheiro que

hoje a sustenta--seja como pai, como marido ou irmão--a sua alforria

está decretada.

Uma vez será um artigo do codigo que se modifica (porque as leis devem

seguir e não preceder os costumes); ámanhã um preconceito que cahe no

desuso; depois um habito que se vence; até que obrigações e direitos se

igualem entre as duas metades do genero humano, hôje em guerra sob a

aparencia do amôr e do respeito social.

Os proprios homens as ajudarão nesse empenho, porque nenhum ha que não

seja feminista se a mulher victimada fôr a sua propria filha, aquella

para quem ambicionou maior soma de venturas e de bem estar.

Não ha pai que não aspire a deixar nas mãos de suas filhas, senão um

dote em dinheiro--cada vez mais dificil de juntar honestamente, com

as necessidades sempre crescentes da vida moderna--pelo menos um dote

em educação e aptidões de trabalho que as pônha ao abrigo de toda a

servidão.

Não haverá pai que se não insurja contra a lei, se vir o marido de

sua filha pôr e dispôr da fortuna que lhe deu, e sem que a dôna possa

sequer gastar o rendimento. Nenhum que se não indigne se o genro

a despresar ou maltratar, se lhe prohibir qualquer intervenção na

educação dos filhos, se a não atender nos seus conselhos e opiniões,

se a não consultar para os negocios decisivos da sua vida, se por

capricho ou vaidade se oposer a que exerça uma profissão honesta

que a dignifique a seus proprios olhos, se, emfim, o homem fizer da

esposa o que de facto a lei quer que seja--a menor sem vontade nem

discernimento, a _coisa_ de que o marido é o senhor, o ser humano

pertença absoluta doutro sêr, que devia ser seu igual.

Os homens mais autoritarios e rotineiros como maridos, são, como pais,

incapazes de apoiar um estado de coisas que apenas dá por garantia de

felicidade á mulher que casa, a bondade, a inteligencia e a tolerancia

do marido.

É evidente que, na maioria dos casos, mórmente no nosso paiz onde o

homem é bondoso por temperamento, ninguem se importa com a letra do

codigo feito para uma sociedade onde a esposa era ainda, ou apenas, uma

escrava submissa, sem azas para grandes vôos de vontade nem ansias de

libertação.

Nas mãos de um doido ou de um perverso, porém, o que poderá ser a

vida da mulher que se volta para a lei e a lei manda-lhe simplesmente

e implacavelmente: _que obedeça!_ Que se volta para a sociedade, que

lhe ordena hipocritamente: _disfarce e submissão!_ Que se volta

para a familia, e essa propria, temendo o escandalo, a violação das

conveniencias sociaes, lhe aconselha: _que se resigne!_

Portanto, _ser feminista_ é o dever de todos os pais. Porque _ser

feminista_ não é querer as mulheres umas insexuais, umas _masculinas_

de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de

inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a

vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a

dignidade humana.

II

UMA RESPOSTA[1]

Não imagina V. Ex.ª o prazer que me deu a sua carta, sabido como é que

da discussão inteligente e sincera têm sahido as mais claras verdades,

conhecido como é, por todos os propagandistas, quanto se ganha em fazer

interessar pelas nossas opiniões, ainda os adversarios que mais as

combatem.

E não sendo V. Ex.ª um adversario, mas um confesso adepto, embora

moderado, maior prazer o meu em lhe vir expôr serenamente as ideias

feministas, tais como as comprehendo e preconíso. Diz V. Ex.ª que é

_feminista_, embora moderado, que o é _como todos os ilustrados não

poderão deixar de o ser_, segundo a sua propria frase.

Eis o nosso primeiro triumfo, a nossa principal batalha vencida; tudo

mais, creia, é questão de tempo, de paciencia, de serena e pertinaz

energia, e de muito _bom senso_.

Ora aquellas qualidades não faltam ás mulheres, este é que ás vezes tem

faltado, e não estamos longe de confessar que faltará ainda por largos

annos á maior parte...

Mas, neste ponto, ninguem no nosso paiz poderá lançar á mulher a

primeira pedra; culpados dessa falta somos todos e talvez mais o homem

do que a mulher, talvez...

Voltando ao assumpto dizia eu, que está ganha a principal batalha

do feminismo; efectivamente assim é desde que todos os homens, que

se presam de inteligentes, reconhecem a mulher como um sêr _quasi_

autonomo, com direito a pensar, trabalhar e luctar pelo seu proprio

ideal. Nós não temos a fazer mais do que expôr ideias, e realisar pela

prática as conquistas a que nos julgâmos com direito.

Que victoria imensa não representa essa sua simples frase! Que soma

enorme de trabalho intelectual, que acumulação de esforços, para que

os homens inteligentes nos concedam a _outorga da sua restricta carta

constitucional_!...

E se pensarmos que esta primeira, mas definitiva conquista do espirito

masculino, representa quasi o trabalho de meio seculo, temos vontade

de dizer como o mais brilhante dos feministas francêses, Camille

Mauclair:--que as mulheres apresentando as suas ideias e luctando pela

educação que as superiorisa, lembram a paciencia das aluviões que fazem

recuar o mar e mudam o aspecto de um paiz.

Se á geração que nos precedeu alguem falasse em feminismo, que apenas

lá fóra começava a fazer-se perceber pela guarda avançada de exageradas

e desiquilibradas, como adeante das procissões solemnes vem sempre o

rapasío gralhando e correndo a foguetes, não haveria homem inteligente

que não soltasse uma gargalhada escarninha, nem, com certeza, rapaz

das escolas, que madrigalisasse pelos passeios publicos ou para os

balcões floridos das vizinhas, que não encolhesse os hombros com desdem.

Os que não rissem, por temperamento sombrio e sentimentalesco,

ergueriam os braços em clamôr chamando em auxilio da propria opinião

a ignorancia das pobres mães e descrevendo, com enthusiasmo lamecha,

o encanto duma carta amorosa com _erros de ortografia_ como ironisava

dôcemente Gonçalves Crespo, elle que na prática tão flagrantemente

mostrou estimar o contrario.

Homens de incontestavel mérito não se pejavam de dizer--que só

apreciavam as mulheres para os lavores caseiros, chegando a pôr em

duvida a competencia intelectual do sexo feminino, não obstante

as tradições gloriosas de _excepcionaes_, que tem vindo sempre a

acompanhar a humanidade na sua evolução social através dos seculos.

Se a um dos mais bem organisados cerebros da geração a que me refiro,

ouvi responder a quem citava o enorme talento de George Sand como

prova da igualdade intelectual dos sexos--_que essa não era mulher, era

o diabo!_...

Se é do meu tempo, se ouvi muitas vezes, eu mesma, a novos e a velhos,

a homens e a senhoras, troçar das _doutoras_, citar por troça aquelle

estupido dictado portuguez da _mulher que sabe latim_... já V. Ex.ª

vê o que representa para nós a sua simples confissão de _que não ha

hoje homem inteligente que não deva ser feminista_.

Agora permita-me que explique o meu pensamento, que, certamente por

deficiencia de clareza na fórma, não foi interpretado como desejava que

o fosse.

O que entendo por--desenvolver livremente as qualidades afectivas na

mulher,--é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de

amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente

uma vergonha ou, pelo menos, um ridiculo.

Entendo que o ser humano que pertence ao sexo feminino, não deve ser

coagido pela educação, nem pelos costumes, nem pelas conversas, nem

pelos pais--que têm a mania de talhar muito discricionariamente o

futuro dos filhos--a vêr no casamento um fim, um ideal completo e

único, quasi uma obrigação.

Assim como o homem pode ser professor, jornalista, sabio, artista,

empregado, operario, tudo emfim, sem que ninguem lhe pergunte pela

certidão do matrimonio, sem embargo de serem quasi todos chefes de

familia, não vejo inconveniente a que a mulher procure a sua colocação,

tenha o seu curso scientifico, estude, trabalhe para si, para o seu

futuro, para a sua vida autonoma, sem se lhe inquirir do seu _estado_...

Que essa mulher fique solteira, porque não encontrou o companheiro ao

qual lhe seria grato ligar o seu destino, ou que, encontrando-o, seja

sentimentalmente feliz, que temos nós com isso?

Por acaso nos preocupa a vida conjugal do politico A. ou do artista B.?

O maior erro do homem é, a meu ver, estar convencido de que a mulher

nasce e existe só para o seu prazer e encanto. Partindo deste

principio, é claro que não nos encontraremos nunca, visto eu pensar de

modo tão contrario.

A mulher, como o homem, nasce para si mesma. Tanto um como o

outro fazem parte da sociedade, de que são factores igualmente

imprescendiveis, que se não comprehenderia nem sequer existiria sem a

união dos dois sexos, mas na qual individuos isolados podem coexistir

igualmente, decentes, honestos e respeitaveis--quando muito pagando

maior contribuição, como querem alguns economistas francêses...

Quando digo que não temos nada com a vida _sentimental_ de cada um, não

quero dizer que a mulher case por ambição monetaria ou intelectual, se

é exatamente para a livrar dessa baixesa que a desejamos independente

pelo seu trabalho, quando o não seja pela fortuna, e mais independente

ainda pela razão que a torne um ente de consciencia justa.

Diz V. Ex.ª que é o _amôr_ que salva a mulher?!...

Efectivamente, _por muito amar_ se salvou uma--a biblica Magdalena.

Mas não é desse amôr que se trata, dirá, é do amôr puro e honesto da

mulher honesta por temperamento, educada e instruida, que escolhe

com toda a liberdade do seu coração e do seu espirito o homem que lhe

agrada.

Ora não é esta mulher assim elevada, assim honesta, assim livre na sua

escolha, a que, pelo mais futil motivo, irá mudar de afecto, enredar-se

em aventuras galantes, para as quais geralmente não tem vocação, e que

podem preencher a existencia duma frívola e ignorante criaturinha cheia

de vaidades e que no triumfo dessas vaidades tem os seus unicos gosos

intelectuaes.

O que não quer dizer que todas as mulheres instruidas sejam

honestas--quem o pudésse dizer, que seria essa a nossa maior

gloria!--mas tão sómente que a mulher, que por seu desgraçado

temperamento, educação ou influencia de meio, é deshonesta, o é, tanto

ou mais, quando ignara e frívola.

Um dos mais graves defeitos da raça latina é o de dar ao amôr a

importancia maxima da vida. Os romancistas não sabem nem podem falar

em outros assumptos, querendo ser lidos e comprehendidos. O theatro

explora-o em todas as gamas, desde o amôr ingenuo e sentimental até ao

amôr falsificado dos adulteros. Os poetas choram os seus e os alheios;

os musicos dão-lhe a fórma ritmica; os pintores e os esculptores

divinisam-no no marmore polido e na policromia das suas telas...

Rapazes e raparigas, antes mesmo de chegar á puberdade, não pensam

noutra coisa, e uns e outros julgar-se-hiam inferiorisados se

estivessem cinco minutos na mesma casa sem se defrontarem valorosamente

num complicado tiroteio de olhadelas amorosas.

Não será muito pensar num assumpto que só interessa a duas criaturas

e por um tempo relativamente curto na vida humana?! Sim, que não

interessa nem póde interessar senão a quem o sente e com elle é feliz

ou infeliz.

Senão vejamos: V. Ex.ª, que leu e respondeu ao meu artigo, sabe

porventura se eu sou casada ou solteira, feliz ou infeliz no casamento,

ou pensou sequer em tal?

Porcerto que não, nem isso importaria para lêr o que escrevo e

responder o que entende.

É a prova de que a vida psíchica de cada individuo é completamente

autonoma do seu estado civil.

A independencia da mulher não pode importar o _não reconhecimento da

autoridade do marido_, (um dos grandes receios de V. Ex.ª) porque essa

autoridade existe, senão de facto, pelo menos de direito, emquanto

existirem as leis que hôje nos governam, leis que a mulher deveria

conhecer quando vai casar, leis que a tornam uma menor sob a tutella

directa do homem.

O que será o futuro não o podemos prevêr, de tal maneira a educação da

mulher modificará a sociedade.

Diz V. Ex.ª que a mulher independente poder-se-ha _desafrontar_ do

marido que a atraiçôa atraiçoando-o por sua vez.

Poderá ser, mas isso o que prova? Apenas o que já disse--que,

infelizmente, o cultivo da inteligencia nem sempre acompanha a

honestidade e que essas mulheres se subalternisam tornando-se

criminosas como aquelles que condemnam, irmanando-se ás levianas que

hôje o fazem, a maior parte das vezes por inconsciencia.

A mulher _independente_ que tal fizer, não terá por motor a

independencia mas tão sómente o capricho ou o temperamento, e em

qualquer circumstancia, portanto, faria o mesmo.

Com respeito á _proscripção da mulher erudita da familia_, não é, não

pode ser, uma regra. Assim como ha homens que, não obstante serem

_intelectuaes_, são bons chefes de familia, o mesmo sucede ás mulheres.

Nem em Portugal temos o direito de pensar doutra maneira, tendo na

ilustre mulher, que é uma verdadeira erudita, D. Carolina Michaëlis de

Vasconcellos, o exemplo vivo do que se pode ser ao mesmo tempo como

mulher de sciencia, como esposa e como mãe exemplar.

Haverá mulheres que, pela sua profissão, se vejam obrigadas a estar

afastadas do lar e dos filhos uma parte dos seus dias?... É certo; mas

quantas os não abandonam hôje, sem esse imperioso motivo? E quantas,

tambem, estando sempre em casa, tendo por unica obrigação o seu amânho

ou direcção, não mandam as criancitas, ainda mal desmamadas, para a

_sujeição das mestras_?! Quantas?!... Quasi todas as mães sem oficio

nem emprego, as da pequena burguesia, essas mesmas que não querem

instruir-se mais, nem se querem tornar _independentes_,--exatamente

para não terem a maçada de trabalhar...

Se, em geral, a mulher portuguêsa filosófa--_que para trabalhar

escusava de casar!_... Já os senhores estão vendo o que lhes devem.

Depois, álêm dessas mulheres que mandam os filhos para os colegios

embora não tenham emprego fóra de casa, o que diz ás que têm as suas

visitas, os seus passeios, os seus divertimentos, e que por igual

são por esses motivos _imperiosos_ afastadas dos filhos, com menos

utilidade, parece-me, do que pela doença de um semelhante ou pela

retorta de um laboratorio?!

Poder-se-ha dizer que a mulher intelectual despresa os modestos

mesteres do seu lar, quando a propria Clemence Royer costurava a sua

roupa e entretinha os seus ocios trabalhando como qualquer críaturinha

que não saiba ao certo em que parte do mundo está situado o paiz que

tem a dita de lhe ser berço?

Não se póde dizer que a mulher erudita tem fatalmente de ser _uma

proscripta do lar_ exactamente quando o nome de um homem e duma mulher,

ligados pelo casamento, se uniram para a sciencia, num triumfo para

os dois sexos; exactamente quando as revistas francêsas nos trazem o

retrato de Mr. e M.^{me} Curie acompanhados muito _burguezamente_ de

seu filhito.

É possivel que eu esteja enganada e seja exatamente V. Ex.ª quem tenha

razão, mas como estamos de acôrdo em que se não regateie educação

ao sexo feminino e se acabe assim com o regimen de _prodigios_ e

_excepções_ que só á causa das mulheres tem prejudicado, é o principal.

Que o resto não nos deve preocupar muito nem devemos aventar hipóteses

faliveis, como tudo que pertence ao futuro e que não temos base segura

para julgar.

O homem de ámanhã hade procurar a sua felicidade e a maior porção de

bem estar compativel com a sociedade do seu tempo. Como o fará não o

sabemos, mas é certo que pensará de maneira diferente do de hôje, como

o de hôje, como V. Ex.ª mesmo, pensa decerto diferentemente do que

pensou seu pai e seu avô sobre os mesmos transcendentes assumptos.

Acabe-se com todas as prepotencias e todos os privilegios, tanto de

raça, como de classe, como de sexo, e deixemos que, individualmente,

cada homem e cada mulher, procurem ser felizes a seu modo, organisem os

seus lares como entenderem,--desde que esse conjuncto se harmonise numa

sociedade de mais justiça e tolerancia.

III

A INSTRUÇÃO

É fundamental este assumpto, visto que a nossa civilisação se baseia

não na força mas na inteligencia, não na rotina mas no progresso.

Todos sabem, e apregôam aos quatro ventos, que a mulher portuguêsa

é ignorante e futil, que a mulher portuguêsa tem todos os defeitos

dos incultos, não merecendo do homem a consideração que se tem pelos

iguais, mas a tolerancia que se dispensa ás crianças irresponsaveis.

_Coisas de mulheres_, dizem por vezes os homens, mostrando o seu

despreso; notando-se que os que mais clamam esta superioridade são,

quasi sempre, os mais inferiores...

Não é isso, porém, o que nos interessa; é certo que o homem português

tem tantos ou mais defeitos do que a mulher, mas se ella se

transformar, facilmente o corrijirá.

A mulher tem, em si mesma, bastantes elementos bons para se modificar,

sem se queixar do homem e esperar que lhe ensine o que elle mesmo não

sabe nem é da sua competencia saber.

O homem tem culpa em não elevar a mulher, em não fazer della a sua

companheira de trabalho e luctas, em temer a ilustração da mãe de seus

proprios filhos; o homem faz mal, porque rebaixando a mulher não se

lembra que se rebaixa a si proprio que nasceu della e dos seus labios

escutou as primeiras lições da vida. Mas a mulher póde reagir, póde

educar-se a si mesma, póde, pelo menos, mostrar desejo de progredir, de

se igualar ao homem pelo trabalho e pela inteligencia cultivada.

A mulher falha de educação é muito mais inferior do que o homem,

porque são os seus proprios defeitos que se tornam qualidades,

elevados pela cultura, encaminhados pela educação. O que na mulher

educada é espirito, é na outra grossería; o que numa é presciencia, é

na outra desconfiança; o que numa é desenvoltura e graça, é na outra

descaramento; o que numa é observação, é na outra bisbilhotice...

Vai-se a uma fabrica ou a uma oficina, passa-se por uma rua onde ha

desenas de homens, principalmente se forem do povo, não se ouve um

dito desagradavel, não se ouve um riso que moleste; mas onde estiverem

duas mulheres ás quaes a educação não depurou os defeitos, ou cujos

espiritos não estejam perfeitamente humilhados pela dependencia,

temos dois intoleraveis animaesinhos que riem, falam, troçam, olham

miúdamente, com o proposito ferino de irritar e de ferir.

Por isso, tanto ou mais do que o homem, necessita a mulher ser educada

e ilustrada, e é, a meu ver, por onde deve principiar a remodelação

duma sociedade que seja progressiva.

Educar a mulher--eis o problema maximo a desenvolver e pôr em prática.

A isso é que chamâmos feminismo, que não em pôr gravatas e colarinhos

de homem, que se podem usar como prova de simplicidade ou de

extravagancia, mas nunca como afirmação de opiniões.

Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o

suficiente para a sua sustentação--quando é só--de auxiliar o homem,

esgotado pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorrencia e a

carestia da vida moderna,--quando casada,--parece-nos a maneira mais

prática de a tornar um ser livre, apta a escolher por motu-proprio o

caminho a seguir direitamente na vida.

Não temam os homens que a mulher instruida, por mais liberta, quebre

mais facilmente os laços de conveniencias com que a sociedade a

prendeu. Nem sempre foram os conventos, com todas as suas grades e

portarias, o mais puro exemplo da castidade feminina; ainda hôje os

harens, com todos os seus guardas e eunúcos, são para o ciume do macho

bem fragil garantia...

A mulher entregue ao seu proprio discernimento fará o que a

consciencia esclarecida e o respeito proprio lhe ensinam, e não o que o

mêdo lhe dictar.

Que mérito tem a criatura que não falta aos seus deveres porque está

guardada á vista, como um doido furioso?

É certo que no nosso povo está tão enraísado o habito de fazer

acompanhar as mulheres, como signal de grandêsa, que é mais uma

nobilitação do que uma prova de desconfiança.

Andar só é, ainda hôje, em muitas terras de provincia, uma vergonha

para a mulher, mostrando que o marido a não présa bastante para a fazer

acompanhar.

Lá diz a cantiga:

--«Senhora D. Maria

O seu _Dom_ não vale nada,

Vai á fonte, vai ao rio,

Vai á missa sem criada.»

Ir á missa _sem criada_ seria, realmente, para as nobres damas que

abrigavam em casa uma legião de serviçais--criados e filhos de criados,

como outrora tambem os escravos trazidos das terras conquistadas

a moiros e a negros--a maior prova de miseria, ou de decadencia

financeira.

A vaidade da fidalguia que é, ainda hôje, um dos caracteristicos do

genio português, nesta terra em que todos se dizem _filhos dalgo_ e se

sentem com direitos de _senhores_ para escravisar os mais pequenos, não

tolerava á mulher que aparecesse em publico sem _comitiva_... ainda

que constasse apenas duma pequena criadinha.

É esta _fidalguia_, mal interpretada, que faz com que o homem fuja

ao trabalho, como á mais deprimente das servidões, reflectindo-se

bem claramente na educação que se tem dado, até aqui, á mulher,

convencendo-a de que se inferiorisa se trabalhar para ganhar dinheiro e

auxiliar o homem.

O nosso paiz resente-se dum mal-estar e desiquilibrio que vem do

conflicto entre o passado que se desmorona, com todas as suas velhas

ideias e preconceitos, e o presente que ainda não conquistou todos os

espiritos ligados ás convenções, que já despresâmos no fundo.

A nossa geração sofre duplamente pelo embate dos sentimentos que se

entrechocam em nós mesmos e nas nossas proprias familias...

Todos apresentam as suas queixas, todos falam, mas tudo se diz no ar,

sem provas nem proposito firme de conhecer o mal e enveredar pelo

caminho que se nos afigura ser o melhor.

Quem quizer fazer alguma coisa entre nós é preciso revestir-se duma

paciencia sem limites e ter uma coragem excepcional, por isso que

tem de se defrontar com a indiferença de toda uma nação cançada de

aventuras, exausta por um longo periodo de desilusão e enganos. Tudo

contribue para o desleixo fisico e moral em que vivemos, desde o sol

dôcemente enlanguecedor, até á ironia dissolvente com que se recebem

todos os enthusiasmos e todas as emprezas que não tenham por fim o

lucro material.

E no emtanto não devemos desistir da lucta, devemos pelo contrario ir

juntando elementos e amontoando verdades até que a luz se patenteie a

todos os olhos e seja visivel a todos os cerebros.

Uma das nossas maiores vergonhas nacionaes é, por certo, o

analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha é que, no continente,

é a grande maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos

analfabetos.

E ha ainda quem lhes diga que fiquem _em casa a educar os filhos_, em

vez de pretenderem ganhar o seu pão honestamente pelo trabalho!

Mas ensinar o quê, se ellas não sabem o mais elementar, se muitas vezes

nem sabem ler e escrever!?

Dirão que só a mulher do baixo povo é tão completamente ignorante,

mas o que é certo é que pequenissimo é o numero das mulheres que,

embora saibam ler, se preocupem com as questões intelectuais e possam,

portanto, ser educadoras dos proprios filhos.

E todos sabem, principalmente os professores, quanto custa ensinar

crianças que não tiveram a abrir-lhe o caminho da inteligencia, o

cultivo amoravel da familia, principalmente da mãe.

Para ellas tudo é novidade, desde o que seja uma montanha até ao pão

que metem na bôca.

Os professores, mesmo sem querer, o fazem sentir ás crianças, e é

esse sem dúvida o maior castigo das mulheres ignorantes, que julgam

cumprir o seu dever de mães de familia governando a casa e vestindo com

elegancia os filhos.

Mas a triste verdade a confessar, e que é muito para meditar, é que--do

milhão de portuguêses que sabem ler e escrever a sua lingua, apenas um

terço são mulheres!

E ainda se queixam quando se diz que a mulher no nosso paiz é inerte,

ignorante e frivola!

A unica superioridade admitida no nosso tempo, por mais que se queiram

iludir os grandes da terra, é a da inteligencia. Os mais instruidos

são, evidentemente, os superiores, os fortes, seja qual fôr a sua

posição.

No tempo em que o mundo se levava á espadeirada, a força fisica era

superior á intelectual e os homens podiam tornar-se senhores pelo poder

musculoso do seu braço; hôje a força fisica vale muito como educação e

muitissimo para produzir saudaveis criaturas, mas vale muito pouco para

aferir superioridades. Aliás teriamos de acatar o moço de fretes, que

pega numas poucas de arrobas como quem pega num braçado de flôres, e

proclamá-lo superior, nosso indiscutivel chefe.

Ninguem irá buscar um hercules de feira broncamente estupido para o

comparar e achar superior ao sabio empalidecido e enfraquecido pelas

vigilias do estudo.

O que falta no nosso paiz é a instrução, principalmente a instrução

prática que faz progredir um povo. Quando é preciso traçar uma linha

ferrea, vêm engenheiros do estrangeiro; quando necessitâmos dum

porto, lá estão as companhias estrangeiras; quando uma cidade quer

abastecer-se de agua, lá estão os estrangeiros para lha fornecer;

quando é preciso montar um arsenal ou uma fabrica, lá estão os

especialistas estrangeiros.

Quasi tudo o que se faz no nosso paiz é práticamente dirigido por

estrangeiros e estrangeiras. Ainda destas a quantidade não é tão

grande, mas lá chegaremos, e quando quizermos utilizar as nossas

mulheres em muitos e variados mesteres, que o futuro por força lhes

hade entregar, já não encontraremos logares vagos.

Não nos deixemos embalar com o sonho do passado; pensemos no futuro,

que é o trabalho e a educação.

Fomos ha tres seculos um punhado de aventureiros que realisou a maior

aventura que ainda se havia visto, e imaginâmos que tudo será perdoado

a quem tanto fez e a quem tão maravilhosamente o soube cantar.

Mas os tempos são outros, as necessidades muito outras, e a vida já se

não leva a descobrir caminhos por _mares nunca dantes navegados_.

Hôje, que o nosso pequeno planeta está visto por todos os lados,

achâmo-lo pequeno e temos fome e sêde de mais alguma coisa. O homem não

se cança de saber, de procurar lêr o passado nas pedras fragmentadas

dos monumentos soterrados, como de procurar o futuro nos espaços

faiscantes de sóes; a tudo aspira pela inteligencia, tudo quer

comprehender e possuir.

A mulher entre nós não póde, por deficiencia de educação e excessivo

acanhamento, ser a util companheira de tal homem.

Na idade-média a mulher podia esperar o marido, que ia ás aventuras

fabulosas, sentada ao bastidor ou á róda de fiar, tecendo com suas

brancas mãos o linho que por si e pelas suas criadas fôra fiado.

Ignorante e passiva, era a digna esposa do senhor brutal que só

conhecia o direito da força.

No seculo XX a mulher tem de ser outra, porque outro é tambem o homem e

muito diferente o seu ideal.

Educar a mãe para ser a educadora dos filhos; educar a mulher em geral

para viver de si mesma, e para si, quando pertença á enorme legião

das que ficam solteiras e portanto,--_sem filhos a educar nem casa a

governar_, deve ser um dos nossos mais porfiados empenhos.

É este o verdadeiro feminismo.

AS MULHERES E A POLITICA

_A mulher não hade fazer politica?

Então não hade ocupar-se, já não

digo da sua, mas da sorte de seu

marido, dos seus filhos, ella que é

toda dedicação?!_

DR. BERNARDINO MACHADO.

Transcreve um diario radical,[2] não sei se irritado pelos ultimos

casos da politica portuguêsa, um artigo de Urbain Gohier, publicado no

jornal _L'Action_, em que as mulheres são verberadas violentamente, por

isso que se prova que em politica só se obedece aos seus caprichos, e

os seus desejos se antepõem aos mais urgentes negocios de estado, de

que dependem os destinos duma nação.

Porventura é isso novidade para alguem? Julgaram os homens, por

acaso,--tamanha será a sua ingenuidade?!--que podiam em vão dispôr de

metade da humanidade, redusi-la ao papel farfalhudo de _deusa do lar_,

_nuvem_, _anjo_, _demonio_, e todas quantas mais banalidades se têm

dito e escripto ha seculos, e dizer-lhe:--fica ahi! o teu destino é

agradar-me ou servir-me, conforme o meu capricho de senhor!?

Não penses; não queiras sahir dos meus braços, que é só onde podes

encontrar o luxo, a alegria, a vaidade satisfeita, a preguiça que te

pode conservar a belleza material, mas que te anúla por completo a

vontade e a inteligencia, que dispenso... Salvo se precisar da tua

graça e do teu espirito para chamar aos meus salões os que a minha

energia não conseguir domar, mas é conveniente que esse mesmo espirito

seja frivolo, feito de sorrisos e de _frases do dia_, facil para

qualquer mulher, medianamente inteligente, posta num meio em que as

emoções de arte aguçam os nervos, e o conforto, o luxo, e o convivio

com pessôas distinctas, adelgaçam intelectos e limam as arestas

plebeias, que denunciariam logo a humilde procedencia...

Pois a mulher que só vive de vaidades, que tem a sua orbita limitada

a seguir o _astro rei_ como palida lua sem luz propria; a mulher que

geralmente só tem um nome respeitado quando o homem lho dá; a mulher

que é educada para agradar ao homem, para arranjar pelo casamento uma

situação definida na sociedade; a mulher sem um fim determinado na sua

vida individual, sem um pensamento nobre a elevar-lhe as aspirações; a

mulher escrava pela força e submetida pelas leis, vinga-se como sempre

se vingaram os escravos--corrompendo.

O que desejam as mulheres auferir do homem que as não associou a

nenhum dos seus pensamentos e actos, que a aceita como um presente e

a conserva como um luxo? O que todo o inferior pretende tirar do que

se lhe quer impôr como _senhor_, numa revolta amarga de impotencia--a

maior soma de gôso proprio junto ao menor esforço para o conseguir;

o seu prazer, a felicidade egoista de quem não tem um nobre ideal a

orientar-lhe a senda da vida.

É pois criminosa a mulher, e muito, mas criminosa como a criança que

inconscientemente empurrasse para o abysmo o seu proprio irmão.

Responsavel é só o homem, que, cheio de orgulho, não procura na mulher

uma companheira, uma igual, mas uma inferior, embora finja endeusá-la

para a conservar na rotina e no servilismo. Tira-lhe a instrução e

a sciencia, como alimentos improprios para estomagos delicados, e

deixa-lhe o sonho e a fantasia, que as tortura na ânsia louca de

encontrar na vida real o imprevisto de sensações romanescas, que seduz

principalmente os ignorantes.

Culpado é só o homem que afastou a mulher proba e culta de todas as

luctas em que o destino de ambos se joga,--pois que a politica é, ou

deve ser, a arte de bem dirigir uma nação, e a nação pertence tanto

ao homem como á mulher--para se deixar governar por intrigantes quasi

sempre deshonestas, as mais das vezes inconscientes instrumentos

doutros ambiciosos.

Afastaram a mulher das altas preocupações do espirito, puzeram-lhe ao

pensamento e á vontade uma barreira de preconceitos e de ignorancia, e

queixam-se porque ella usa das armas que tem e gosa o fructo do orgulho

masculino!

Indignam-se contra as mulheres e são os proprios homens cultos que

transigem com ellas, nas suas crenças e prejuisos; elles, os que não

têm pejo de dizer publicamente que--embora se sintam libertados,

embora os seus espiritos pairem alto numa atmosfera de saber e de

certeza que os orgulha--consentem que as esposas continuem a crêr o que

elles descrêm, a vêr o que elles não vêem, a seguir o que elles não

seguem,--porque querem ser _tolerantes_!

Não comprehendem, ou não querem comprehender, o que é peor, que a

mulher representa mais do que o homem na constituição da familia,

porque é a ella que pertence o filho nos seus primeiros annos, porque á

mãe está confiada a filha até passar para as mãos do marido. E quantas

vezes o homem, num ingenuo sorriso de criança, encontra os laços que

no futuro lhe hão de manietar o espirito, ou, em caso de resistencia,

o fundamento para luctas que lhe despedaçarão a felicidade se teimar

em não se deixar vencer pela persistente e dôce propaganda das crenças

femininas.

A mulher não póde cortar abruptamente com um passado, que é toda a sua

vida espiritual.

É preciso que uma forte instrucção a liberte de caprichos infantis e

lhe dê a lucida e precisa noção do que deve ser a sua força moral.

Torna-se preciso que o homem já educado eduque a sua companheira; que o

homem livre escolha a mulher já livre; ou que o homem saiba transigir

com os laços seculares que muitas vezes ligam a mulher solteira á

familia e á tradição, mas só quando tiverem a certeza de que esses

espiritos, momentaneamente libertados pelo amôr, não voltarão mais

tarde, numa crise de fastio e abandono, aos ideaes com que fôram

embalados os seus aureos sonhos de menina...

Não é negando e demolindo que se fórma a nova alma feminina, que, por

sua vez, transformará o mundo; é elevando a consciencia e construindo

um novo templo de amôr e bondade humana, irredutivel e forte, onde o

espirito se inunde de luz e não possa mais mergulhar na treva.

O homem livre, o mais responsavel, aquelle que nos seus jornaes, nos

seus livros, nas suas conferencias, mais clama pela educação da mulher,

reconhecendo na sua falta toda a servidão das sociedades burguêsas;

esse mesmo, falto de logica quasi sempre, não se faz acompanhar da

sua esposa ou das suas filhas, não as póde apresentar como exemplo ás

outras mulheres, porque, em geral, são ellas as primeiras a abominar as

suas ideias.

Quando mesmo as não contrariem nem abominem, perfilhando-as algumas

vezes, são raras as que o queiram confessar publicamente, sabendo muito

bem que o homem português tem o terror instinctivo da mulher culta e

intelectualmente independente.

E só assim ella deixará de ser a pedra atada ao pescoço do homem, que

em vão se esforça por fugir á corrente da moda em que a maior parte dos

espiritos masculinos vem a naufragar.

Não é a mulher educada e orientada na consciencia dos seus deveres e

obrigações sociaes a que merecerá nunca a frase seguinte do jornal a

que me refiro:--_capricho que é um erro proprio da fórma de ser do

espirito feminino_.

O espirito da mulher não tem atributos proprios, como a sua

inteligencia e as suas aptidões não podem ser limitadas

autoritariamente, circunscriptas a um certo e inultrapassavel perimetro.

Ha mulheres caprichosas por defeitos de educação ou de temperamento,

consumidas de mesquinhas invejas e pequenas revoltas de impotentes,

como ha tantissimos homens sem energia, que nas suas proprias revoltas

são irritantes, falsos e untuosos, como costumam classificar as

mulheres.

Escolham os homens livres companheiras que egualmente o sejam;

determinem-se os campos, forme-se a familia pelas convicções de cada

um e não pelas convenções duma sociedade que não tem sinceridade nem

nobrêsa, e a transformação será completa.

SER PORTUGUÊS

«_Como hade a mulher educar os

filhos no civismo, se o não

praticar?_»

DR. BERNARDINO MACHADO.

Conserva-se a mulher portuguêsa numa entorpecida indiferença pelas

questões da actualidade, mesmo por aquellas que mais de perto a deviam

interessar.

Alem dos cuidados, mais ou menos caseiros, deveria a mulher

interessar-se pelas questões de civismo, como pelos varios problemas

sociaes, que tambem de perto e profundamente a tocam, não só na sua

vida individual como na sua influencia na familia.

O individuo pertence á familia, a familia á sociedade, e o que

interessa esta por força hade interessar aquelle, numa sociedade bem

organisada e equilibrada.

Não póde pois a mulher, principalmente quando é mãe, conservar-se na

abstenção culposa em que tem vivido até aqui a mulher portuguêsa.

Ás Mulheres Portuguêsas · 第 1 / 8 段