Anna de Castro Osorio
Ás mulheres
Portuguêsas
LISBOA
=LIVRARIA EDITORA=
VIUVA TAVARES CARDOSO
5--LARGO DE CAMÕES--6
1905
Typ. a vapor da Emprêsa Litteraria e Typographica
178, Rua de D. Pedro, 184--Porto
Na incerteza pelo futuro, caracteristica muito acentuada do actual
momento historico, não ha ninguem, por mais ferozmente que se
ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se
não surprehenda, um dia, meditando, transido de duvidas, nalgum dos
multiplos problemas que agitam a alma moderna.
São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta
lagrima, evocam tanta dôr soffrida pela mísera humanidade--que em vão
lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente
goso, conforme é alevantada aos ares em triumfo ou mergulhada na
indifferente desgraça--que o nosso espirito se detem e pergunta, no
augusto silencio da propria consciencia--se vale a pena existir num
mundo assim?!
Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados
pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de
trazer, embora com o sacrificio proprio, alguma melhoria á sociedade;
outros desanimam, a mesma dôr os mata ou anula para o trabalho paciente
do futuro.
Mas o desânimo e a renuncia é uma dupla falta--pelo que deixâmos de
fazer e pelo que consentimos que os egoistas e os sem escrupulos façam
impunemente.
Para todos é de responsabilidade a hora presente, na qual, a par de
muito crime e muita injustiça, um bello e salubre movimento se opéra
por todo o mundo.
Ninguem se poderá isentar dessa tremenda responsabilidade moral, que
tanto cabe ao homem como á mulher, a esta mais ainda porque nas suas
mãos, com a educação da infancia, que lhe pertence, está confiado o
futuro.
Á mulher, pois, ou seja pobre operaria que mal ganha para o pão de cada
dia, ou opulenta dama avergada ao pêso dos seus deveres sociaes; ás
mães que têm filhos a entrar na lucta pela existencia e que ansiados
esperam o conselho, que os guie para a felicidade e para o bem,
dos labios que lhes ensinaram as primeiras palavras e lhes deram
os primeiros beijos; como ás raparigas que, mal iniciadas nos seus
deveres, têm de arcar com um futuro de que nem chegam a comprehender
as responsabilidades; a todas, repetimos, corre o dever de se deterem,
ao menos um instante, a pensar no remedio a dar a tanto mal e a tanta
iniquidade.
Por isso é ás mulheres, e principalmente ás mulheres do meu paiz--que
tão insuficientemente são educadas para serem as companheiras e as mães
do homem moderno--que me dirijo.
Possa este modesto trabalho corresponder dalgum modo ás necessidades
espirituaes da alma feminina, que desperta emfim para uma nobre e mais
util missão social.
FEMINISMO
I
SER FEMINISTA
Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou
se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das proprias
mulheres córam, coitadas, como de falta grave cometida por algumas
colegas, mas de que ellas não são responsaveis, louvado Deus!...
E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este
caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua
autonomia.
O homem português não está habituado a deparar no caminho da vida
com as mulheres suas iguais pela ilustração, suas companheiras de
trabalho, suas colegas na vida pública; por isso as desconhece, as
despresa por vezes, as teme quasi sempre.
Mas siga a mulher o seu caminho, intemerata e digna, sem recear o
isolamento como o ridiculo--que nem um nem outro atingem o verdadeiro
mérito e a sã razão.
Tenha o coração alto e o espirito alevantado; não faça do amôr o ideal
unico da existencia nem o seu unico fim. Pense no trabalho e no estudo,
e deixe que as suas faculdades afectivas se desenvolvam livremente, ou
se não desenvolvam mesmo, que isso deve ser indiferente á sociedade.
Cuidados de amôr devem ser cuidados tão absolutamente pessoais e
intimos, que não os assoalhar deveria ser a maior prova de pudôr.
Tal não sucede, porêm. Toda a gente publíca os seus afectos, puros
ou impuros, verdadeiros ou falsos; e, por mais absurdos, por mais
indesculpaveis que sejam, despertam mais simpathia e compaixão do que
verdadeiras desgraças sociaes. Na vida real, como no drama, no romance,
na poesia, ou na musica, só cai bem no gosto do publico o amavío
voluptuoso do amôr sentimental.
Assim o quer a sucessão de seculos, em que a mulher foi a reclusa do
convento ou da familia, tendo na vida um só fim--_agradar_.
Assim o estima o homem, que fez do amôr carnal o seu culto e da mulher
a sacerdotisa desse culto. Mas sacerdotisa que se torna em escrava,
deusa que se cobre de injurias e se lança ao monturo das velhas coisas
inuteis, logo que o capricho, a paixão dos sentidos, foi como o fumo
desfeito no céo sem nuvens.
O homem, passada a idade da poesia, segue triumphante o caminho da
existencia, sem mais lhe importar com a sua inspiradora. Da deusa ideal
dos seus sonhos faz a cozinheira habil, a dôna de casa ignorante e
util, mixto de costureira e governante, a mãe paciente e sofredora dos
filhos que são o seu orgulho.
A mulher, em geral, é, quando esposa, a companheira só para a vida
banal e mesquinha--que nem por sombras deve abordar os graves
pensamentos que preocupam o marido!...
Porque quando o homem, por acaso, encontra méritos intelectuaes que o
confraternisem com um individuo do sexo feminino, é rarissimo confessar
que a sorte lho deu para companhia da sua vida.
Mas quantas vezes se enganam na escolha, e, por castigo, na companheira
ignorante e inferior que procuram para seu descanço, não encontraram,
hipocritamente velados por uma habil ingenuidade, todos os baixos
instinctos dos seres inferiores?!
Quantos, procurando nas ignorantes criaturinhas que nunca se _poluiram_
com o estudo e com o trabalho, as previdentes mães de familia,
destinadas a fazer prodigios de economias, de método e de arranjo,
não depararam com desditosas mulheres roídas de ambições e vaidades,
tanto mais ásperas quanto maior é a sua impotencia para as realisar--a
fantasia só presa nas galanices e módas, inuteis para os trabalhos
caseiros como para outro qualquer, sofrendo e fazendo sofrer todos os
seus por não possuir o que deseja e vê ás outras, transformando os
lares em gehenas onde féras da mesma raça se espesinham e abocanham?!
Quando ao homem fôr dado encontrar facilmente a mulher sua igual,
comprehenderá quanto era louco preferindo-lhe esses pobres sêres que
não têm assumpto para conversa fóra do ultimo figurino, da vida alheia
e das criadas e seus costumes.
Comprehenderá então o que é o verdadeiro afecto entre esposos, e não
mais preferirá essas que hoje diz amar, mas que no intimo despresa,
como suas inferiores, que supõe.
E digo que supõe, porque está provado pela sciencia que
_intelectualmente_ não ha sexos privilegiados, mas unicamente
individuos e, quando muito, raças.
Foram os sabios que desmentiram esse grosseiro e velho erro de que
o cerebro feminino é menos pesado e consequentemente inferior ao do
homem. Foram elles, os mesmos que lhe tinham levantado barreiras sobre
barreiras e escreveram sobre cada porta da sciencia o fatal _non
possumus_, os primeiros a desmentir-se e a penitenciar-se próbamente a
cada manifestação da mentalidade feminina.
Foi a sciencia, fonte de toda a verdade e de toda a justiça, e na
qual devemos pôr os olhos como na unica libertadora, que fez cahir por
terra esse argumento tão falado da superioridade intelectual do homem,
fundando-a no peso do cerebro.
Se a _massa cinzenta_ contida no craneo feminino é menor, corresponde
harmonicamente ao tamanho do corpo, em regra mais pequeno.
Foi esse o primeiro passo, o mais importante e decisivo, para o
triumfo da ideia feminista. Até lá, quando a mulher pretendia estudar,
trabalhar, ser um ente de razão e de luz, cahia-lhe como avalanche de
gelo, a sufocar-lhe as aspirações, essa cruel e deprimente opinião. E
a pobre, se não era um espirito de excepcional brilho ou um caracter
de excepcional tempera, sentia-se amesquinhada aos seus proprios olhos
e desistia do enorme esforço requerido para subir onde a multidão das
suas pobres irmãs nem sequer se atrevia a pôr as vistas ambiciosas.
Ás vezes, ou porque fossem realmente _excepcionaes_, ou porque as
condições mesologicas as favorecessem extraordinariamente, dentre
as mulheres sahiam algumas que os proprios homens eram os primeiros
a reclamar e incensar, mas passando-lhes cautelosamente o diploma
de _raridades_, quasi fóra do sexo, sêres hibridos, masculinos pela
inteligencia e só fisicamente femininos.
De modo que essas aclamadas, e afastadas do caminho trilhado pela
turba-multa das ignorantes, exactamente porque eram superiores e se
julgavam intangiveis, abandonavam a causa das suas irmãs, que já não
era a sua, concedendo-lhes apenas, e isto nem sempre, a sua piedade
diluida em conselhos de resignação e submissão para desempenharem o
papel de escravas, nascidas sómente para a felicidade e regalo do
homem. Desta maneira, a causa feminina perdia as suas mais legitimas
defensoras, deixando nas mãos dos homens os melhores argumentos.
É como algumas esposas, que, por serem ditosas no casamento, porque
tiveram a fortuna--que não digo rara--de encontrar para maridos homens
inteligentes e justos, encolhem os hombros com indiferença á desgraça
das que tiveram destino contrario.
É uma prova de egoismo, que é uma deploravel qualidade, e é, peor do
que isso, o abandono duma causa justa que, se não toca individualmente
a cada mulher, interessa colectivamente o sexo a que pertencem.
Acabar com os _fenómenos_, com os _monstros femininos_, julgar todos os
individuos intelectualmente semelhantes sem distinção de sexo, aptos
igualmente a estudar e progredir pelo trabalho, foi sem dúvida o passo
definitivo para a libertação feminina.
As mulheres poderão, assim como os homens, distinguir-se pela sciencia,
pela industria, pela arte, pelo comercio, pela pedagogia, ou ficarem
tão-sómente dônas de casa,--mas fazendo do seu lar a primeira e a mais
nobre escola dos filhos.
Haverá, decerto, tal-qual entre os homens, umas que se superiorisam
num trabalho, outras em outro, mas serão todas educaveis, todas
melhoraveis, todas uteis, laboriosas e conscientes obreiras, ajudando á
melhoria da grande colmeia social.
As mulheres de hôje não têm desculpa se continuarem na ignorancia e na
inactividade, tudo esperando do homem, que as hade procurar para a sua
conveniencia.
As escolas estão abertas por igual aos dois sexos e não ha já quem,
nesta hora alta da civilisação, se atreva a banir dellas um individuo
que as queira frequentar sob o pretexto da diferença do sexo.
Tempos atrás, quando a mulher pensava em sahir do anonimato da sua
missão caseira, tinha apenas por campo aberto á sua actividade, a
literatura, visto que é a unica profissão onde o talento e o estudo
individual dispensam a educação preparatoria.
Hoje não é assim. Toda a gente aceita uma senhora que tem a profissão
de medica, pintora, esculptora, engenheira ou professora, tudo que
requer habilitações e estudos publicos, e que lhe tinham ensinado
a crêr que nunca poderia atingir por falta de genio criador e
persistencia no estudo.
Não se sobresaltem os homens com a concorrencia, que é antes auxilio.
Pequena, por mal da humanidade, hade ser sempre a percentagem dos
cerebros verdadeiramente superiores em qualquer dos sexos. Não é, pois,
justo que por falta de educação se percam aptidões que nem sequer
chegaram a manifestar-se, talentos de que nem sequer se suspeita...
Se os mais ardentes sectarios dos velhos preconceitos já chegaram
á conclusão egoista de que é preciso educar o povo para que se não
percam tantissimos talentos que podem beneficiar a humanidade, não
é justo--ainda que não seja senão pelo mesmo motivo--condenar á
ignorancia, na mulher, metade dessa mesma humanidade.
Dever-se-ha pensar que Clemence Royer, honra e gloria da França, sabia
entre os sabios, espirito todo precisão, clarêsa e método, não teria
sido o que foi se, por um mero acaso, tivesse nascido em Portugal ou
em outro qualquer paiz, onde, como no nosso, se descure a educação
feminina.
As mulheres conservam-se entre nós numa indiferença quasi total pelas
conquistas que dia a dia vão marcando um passo de avanço para o triumfo
definitivo do espirito sobre a materia, da inteligencia sobre a força,
da educação sobre a ignorancia, embora doiradas pela fortuna ou pelos
privilegios de classe.
Mas esperemos serenamente, porque á mulher portuguêsa hade chegar
tambem a sua vez de comprehender que só no trabalho póde encontrar
a sua carta de alforria. Não no trabalho esmagador, exercido como
castigo, mas no trabalho que enobrece o espirito, que dá o bello
orgulho dos que só contam comsigo e nunca foram um peso para ninguem.
E desde que se torne independente pelo seu proprio esforço, desde que
saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos que
veste, sem estar á espera do homem, fonte perene de todo o dinheiro que
hoje a sustenta--seja como pai, como marido ou irmão--a sua alforria
está decretada.
Uma vez será um artigo do codigo que se modifica (porque as leis devem
seguir e não preceder os costumes); ámanhã um preconceito que cahe no
desuso; depois um habito que se vence; até que obrigações e direitos se
igualem entre as duas metades do genero humano, hôje em guerra sob a
aparencia do amôr e do respeito social.
Os proprios homens as ajudarão nesse empenho, porque nenhum ha que não
seja feminista se a mulher victimada fôr a sua propria filha, aquella
para quem ambicionou maior soma de venturas e de bem estar.
Não ha pai que não aspire a deixar nas mãos de suas filhas, senão um
dote em dinheiro--cada vez mais dificil de juntar honestamente, com
as necessidades sempre crescentes da vida moderna--pelo menos um dote
em educação e aptidões de trabalho que as pônha ao abrigo de toda a
servidão.
Não haverá pai que se não insurja contra a lei, se vir o marido de
sua filha pôr e dispôr da fortuna que lhe deu, e sem que a dôna possa
sequer gastar o rendimento. Nenhum que se não indigne se o genro
a despresar ou maltratar, se lhe prohibir qualquer intervenção na
educação dos filhos, se a não atender nos seus conselhos e opiniões,
se a não consultar para os negocios decisivos da sua vida, se por
capricho ou vaidade se oposer a que exerça uma profissão honesta
que a dignifique a seus proprios olhos, se, emfim, o homem fizer da
esposa o que de facto a lei quer que seja--a menor sem vontade nem
discernimento, a _coisa_ de que o marido é o senhor, o ser humano
pertença absoluta doutro sêr, que devia ser seu igual.
Os homens mais autoritarios e rotineiros como maridos, são, como pais,
incapazes de apoiar um estado de coisas que apenas dá por garantia de
felicidade á mulher que casa, a bondade, a inteligencia e a tolerancia
do marido.
É evidente que, na maioria dos casos, mórmente no nosso paiz onde o
homem é bondoso por temperamento, ninguem se importa com a letra do
codigo feito para uma sociedade onde a esposa era ainda, ou apenas, uma
escrava submissa, sem azas para grandes vôos de vontade nem ansias de
libertação.
Nas mãos de um doido ou de um perverso, porém, o que poderá ser a
vida da mulher que se volta para a lei e a lei manda-lhe simplesmente
e implacavelmente: _que obedeça!_ Que se volta para a sociedade, que
lhe ordena hipocritamente: _disfarce e submissão!_ Que se volta
para a familia, e essa propria, temendo o escandalo, a violação das
conveniencias sociaes, lhe aconselha: _que se resigne!_
Portanto, _ser feminista_ é o dever de todos os pais. Porque _ser
feminista_ não é querer as mulheres umas insexuais, umas _masculinas_
de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de
inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a
vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a
dignidade humana.
II
UMA RESPOSTA[1]
Não imagina V. Ex.ª o prazer que me deu a sua carta, sabido como é que
da discussão inteligente e sincera têm sahido as mais claras verdades,
conhecido como é, por todos os propagandistas, quanto se ganha em fazer
interessar pelas nossas opiniões, ainda os adversarios que mais as
combatem.
E não sendo V. Ex.ª um adversario, mas um confesso adepto, embora
moderado, maior prazer o meu em lhe vir expôr serenamente as ideias
feministas, tais como as comprehendo e preconíso. Diz V. Ex.ª que é
_feminista_, embora moderado, que o é _como todos os ilustrados não
poderão deixar de o ser_, segundo a sua propria frase.
Eis o nosso primeiro triumfo, a nossa principal batalha vencida; tudo
mais, creia, é questão de tempo, de paciencia, de serena e pertinaz
energia, e de muito _bom senso_.
Ora aquellas qualidades não faltam ás mulheres, este é que ás vezes tem
faltado, e não estamos longe de confessar que faltará ainda por largos
annos á maior parte...
Mas, neste ponto, ninguem no nosso paiz poderá lançar á mulher a
primeira pedra; culpados dessa falta somos todos e talvez mais o homem
do que a mulher, talvez...
Voltando ao assumpto dizia eu, que está ganha a principal batalha
do feminismo; efectivamente assim é desde que todos os homens, que
se presam de inteligentes, reconhecem a mulher como um sêr _quasi_
autonomo, com direito a pensar, trabalhar e luctar pelo seu proprio
ideal. Nós não temos a fazer mais do que expôr ideias, e realisar pela
prática as conquistas a que nos julgâmos com direito.
Que victoria imensa não representa essa sua simples frase! Que soma
enorme de trabalho intelectual, que acumulação de esforços, para que
os homens inteligentes nos concedam a _outorga da sua restricta carta
constitucional_!...
E se pensarmos que esta primeira, mas definitiva conquista do espirito
masculino, representa quasi o trabalho de meio seculo, temos vontade
de dizer como o mais brilhante dos feministas francêses, Camille
Mauclair:--que as mulheres apresentando as suas ideias e luctando pela
educação que as superiorisa, lembram a paciencia das aluviões que fazem
recuar o mar e mudam o aspecto de um paiz.
Se á geração que nos precedeu alguem falasse em feminismo, que apenas
lá fóra começava a fazer-se perceber pela guarda avançada de exageradas
e desiquilibradas, como adeante das procissões solemnes vem sempre o
rapasío gralhando e correndo a foguetes, não haveria homem inteligente
que não soltasse uma gargalhada escarninha, nem, com certeza, rapaz
das escolas, que madrigalisasse pelos passeios publicos ou para os
balcões floridos das vizinhas, que não encolhesse os hombros com desdem.
Os que não rissem, por temperamento sombrio e sentimentalesco,
ergueriam os braços em clamôr chamando em auxilio da propria opinião
a ignorancia das pobres mães e descrevendo, com enthusiasmo lamecha,
o encanto duma carta amorosa com _erros de ortografia_ como ironisava
dôcemente Gonçalves Crespo, elle que na prática tão flagrantemente
mostrou estimar o contrario.
Homens de incontestavel mérito não se pejavam de dizer--que só
apreciavam as mulheres para os lavores caseiros, chegando a pôr em
duvida a competencia intelectual do sexo feminino, não obstante
as tradições gloriosas de _excepcionaes_, que tem vindo sempre a
acompanhar a humanidade na sua evolução social através dos seculos.
Se a um dos mais bem organisados cerebros da geração a que me refiro,
ouvi responder a quem citava o enorme talento de George Sand como
prova da igualdade intelectual dos sexos--_que essa não era mulher, era
o diabo!_...
Se é do meu tempo, se ouvi muitas vezes, eu mesma, a novos e a velhos,
a homens e a senhoras, troçar das _doutoras_, citar por troça aquelle
estupido dictado portuguez da _mulher que sabe latim_... já V. Ex.ª
vê o que representa para nós a sua simples confissão de _que não ha
hoje homem inteligente que não deva ser feminista_.
Agora permita-me que explique o meu pensamento, que, certamente por
deficiencia de clareza na fórma, não foi interpretado como desejava que
o fosse.
O que entendo por--desenvolver livremente as qualidades afectivas na
mulher,--é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de
amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente
uma vergonha ou, pelo menos, um ridiculo.
Entendo que o ser humano que pertence ao sexo feminino, não deve ser
coagido pela educação, nem pelos costumes, nem pelas conversas, nem
pelos pais--que têm a mania de talhar muito discricionariamente o
futuro dos filhos--a vêr no casamento um fim, um ideal completo e
único, quasi uma obrigação.
Assim como o homem pode ser professor, jornalista, sabio, artista,
empregado, operario, tudo emfim, sem que ninguem lhe pergunte pela
certidão do matrimonio, sem embargo de serem quasi todos chefes de
familia, não vejo inconveniente a que a mulher procure a sua colocação,
tenha o seu curso scientifico, estude, trabalhe para si, para o seu
futuro, para a sua vida autonoma, sem se lhe inquirir do seu _estado_...
Que essa mulher fique solteira, porque não encontrou o companheiro ao
qual lhe seria grato ligar o seu destino, ou que, encontrando-o, seja
sentimentalmente feliz, que temos nós com isso?
Por acaso nos preocupa a vida conjugal do politico A. ou do artista B.?
O maior erro do homem é, a meu ver, estar convencido de que a mulher
nasce e existe só para o seu prazer e encanto. Partindo deste
principio, é claro que não nos encontraremos nunca, visto eu pensar de
modo tão contrario.
A mulher, como o homem, nasce para si mesma. Tanto um como o
outro fazem parte da sociedade, de que são factores igualmente
imprescendiveis, que se não comprehenderia nem sequer existiria sem a
união dos dois sexos, mas na qual individuos isolados podem coexistir
igualmente, decentes, honestos e respeitaveis--quando muito pagando
maior contribuição, como querem alguns economistas francêses...
Quando digo que não temos nada com a vida _sentimental_ de cada um, não
quero dizer que a mulher case por ambição monetaria ou intelectual, se
é exatamente para a livrar dessa baixesa que a desejamos independente
pelo seu trabalho, quando o não seja pela fortuna, e mais independente
ainda pela razão que a torne um ente de consciencia justa.
Diz V. Ex.ª que é o _amôr_ que salva a mulher?!...
Efectivamente, _por muito amar_ se salvou uma--a biblica Magdalena.
Mas não é desse amôr que se trata, dirá, é do amôr puro e honesto da
mulher honesta por temperamento, educada e instruida, que escolhe
com toda a liberdade do seu coração e do seu espirito o homem que lhe
agrada.
Ora não é esta mulher assim elevada, assim honesta, assim livre na sua
escolha, a que, pelo mais futil motivo, irá mudar de afecto, enredar-se
em aventuras galantes, para as quais geralmente não tem vocação, e que
podem preencher a existencia duma frívola e ignorante criaturinha cheia
de vaidades e que no triumfo dessas vaidades tem os seus unicos gosos
intelectuaes.
O que não quer dizer que todas as mulheres instruidas sejam
honestas--quem o pudésse dizer, que seria essa a nossa maior
gloria!--mas tão sómente que a mulher, que por seu desgraçado
temperamento, educação ou influencia de meio, é deshonesta, o é, tanto
ou mais, quando ignara e frívola.
Um dos mais graves defeitos da raça latina é o de dar ao amôr a
importancia maxima da vida. Os romancistas não sabem nem podem falar
em outros assumptos, querendo ser lidos e comprehendidos. O theatro
explora-o em todas as gamas, desde o amôr ingenuo e sentimental até ao
amôr falsificado dos adulteros. Os poetas choram os seus e os alheios;
os musicos dão-lhe a fórma ritmica; os pintores e os esculptores
divinisam-no no marmore polido e na policromia das suas telas...
Rapazes e raparigas, antes mesmo de chegar á puberdade, não pensam
noutra coisa, e uns e outros julgar-se-hiam inferiorisados se
estivessem cinco minutos na mesma casa sem se defrontarem valorosamente
num complicado tiroteio de olhadelas amorosas.
Não será muito pensar num assumpto que só interessa a duas criaturas
e por um tempo relativamente curto na vida humana?! Sim, que não
interessa nem póde interessar senão a quem o sente e com elle é feliz
ou infeliz.
Senão vejamos: V. Ex.ª, que leu e respondeu ao meu artigo, sabe
porventura se eu sou casada ou solteira, feliz ou infeliz no casamento,
ou pensou sequer em tal?
Porcerto que não, nem isso importaria para lêr o que escrevo e
responder o que entende.
É a prova de que a vida psíchica de cada individuo é completamente
autonoma do seu estado civil.
A independencia da mulher não pode importar o _não reconhecimento da
autoridade do marido_, (um dos grandes receios de V. Ex.ª) porque essa
autoridade existe, senão de facto, pelo menos de direito, emquanto
existirem as leis que hôje nos governam, leis que a mulher deveria
conhecer quando vai casar, leis que a tornam uma menor sob a tutella
directa do homem.
O que será o futuro não o podemos prevêr, de tal maneira a educação da
mulher modificará a sociedade.
Diz V. Ex.ª que a mulher independente poder-se-ha _desafrontar_ do
marido que a atraiçôa atraiçoando-o por sua vez.
Poderá ser, mas isso o que prova? Apenas o que já disse--que,
infelizmente, o cultivo da inteligencia nem sempre acompanha a
honestidade e que essas mulheres se subalternisam tornando-se
criminosas como aquelles que condemnam, irmanando-se ás levianas que
hôje o fazem, a maior parte das vezes por inconsciencia.
A mulher _independente_ que tal fizer, não terá por motor a
independencia mas tão sómente o capricho ou o temperamento, e em
qualquer circumstancia, portanto, faria o mesmo.
Com respeito á _proscripção da mulher erudita da familia_, não é, não
pode ser, uma regra. Assim como ha homens que, não obstante serem
_intelectuaes_, são bons chefes de familia, o mesmo sucede ás mulheres.
Nem em Portugal temos o direito de pensar doutra maneira, tendo na
ilustre mulher, que é uma verdadeira erudita, D. Carolina Michaëlis de
Vasconcellos, o exemplo vivo do que se pode ser ao mesmo tempo como
mulher de sciencia, como esposa e como mãe exemplar.
Haverá mulheres que, pela sua profissão, se vejam obrigadas a estar
afastadas do lar e dos filhos uma parte dos seus dias?... É certo; mas
quantas os não abandonam hôje, sem esse imperioso motivo? E quantas,
tambem, estando sempre em casa, tendo por unica obrigação o seu amânho
ou direcção, não mandam as criancitas, ainda mal desmamadas, para a
_sujeição das mestras_?! Quantas?!... Quasi todas as mães sem oficio
nem emprego, as da pequena burguesia, essas mesmas que não querem
instruir-se mais, nem se querem tornar _independentes_,--exatamente
para não terem a maçada de trabalhar...
Se, em geral, a mulher portuguêsa filosófa--_que para trabalhar
escusava de casar!_... Já os senhores estão vendo o que lhes devem.
Depois, álêm dessas mulheres que mandam os filhos para os colegios
embora não tenham emprego fóra de casa, o que diz ás que têm as suas
visitas, os seus passeios, os seus divertimentos, e que por igual
são por esses motivos _imperiosos_ afastadas dos filhos, com menos
utilidade, parece-me, do que pela doença de um semelhante ou pela
retorta de um laboratorio?!
Poder-se-ha dizer que a mulher intelectual despresa os modestos
mesteres do seu lar, quando a propria Clemence Royer costurava a sua
roupa e entretinha os seus ocios trabalhando como qualquer críaturinha
que não saiba ao certo em que parte do mundo está situado o paiz que
tem a dita de lhe ser berço?
Não se póde dizer que a mulher erudita tem fatalmente de ser _uma
proscripta do lar_ exactamente quando o nome de um homem e duma mulher,
ligados pelo casamento, se uniram para a sciencia, num triumfo para
os dois sexos; exactamente quando as revistas francêsas nos trazem o
retrato de Mr. e M.^{me} Curie acompanhados muito _burguezamente_ de
seu filhito.
É possivel que eu esteja enganada e seja exatamente V. Ex.ª quem tenha
razão, mas como estamos de acôrdo em que se não regateie educação
ao sexo feminino e se acabe assim com o regimen de _prodigios_ e
_excepções_ que só á causa das mulheres tem prejudicado, é o principal.
Que o resto não nos deve preocupar muito nem devemos aventar hipóteses
faliveis, como tudo que pertence ao futuro e que não temos base segura
para julgar.
O homem de ámanhã hade procurar a sua felicidade e a maior porção de
bem estar compativel com a sociedade do seu tempo. Como o fará não o
sabemos, mas é certo que pensará de maneira diferente do de hôje, como
o de hôje, como V. Ex.ª mesmo, pensa decerto diferentemente do que
pensou seu pai e seu avô sobre os mesmos transcendentes assumptos.
Acabe-se com todas as prepotencias e todos os privilegios, tanto de
raça, como de classe, como de sexo, e deixemos que, individualmente,
cada homem e cada mulher, procurem ser felizes a seu modo, organisem os
seus lares como entenderem,--desde que esse conjuncto se harmonise numa
sociedade de mais justiça e tolerancia.
III
A INSTRUÇÃO
É fundamental este assumpto, visto que a nossa civilisação se baseia
não na força mas na inteligencia, não na rotina mas no progresso.
Todos sabem, e apregôam aos quatro ventos, que a mulher portuguêsa
é ignorante e futil, que a mulher portuguêsa tem todos os defeitos
dos incultos, não merecendo do homem a consideração que se tem pelos
iguais, mas a tolerancia que se dispensa ás crianças irresponsaveis.
_Coisas de mulheres_, dizem por vezes os homens, mostrando o seu
despreso; notando-se que os que mais clamam esta superioridade são,
quasi sempre, os mais inferiores...
Não é isso, porém, o que nos interessa; é certo que o homem português
tem tantos ou mais defeitos do que a mulher, mas se ella se
transformar, facilmente o corrijirá.
A mulher tem, em si mesma, bastantes elementos bons para se modificar,
sem se queixar do homem e esperar que lhe ensine o que elle mesmo não
sabe nem é da sua competencia saber.
O homem tem culpa em não elevar a mulher, em não fazer della a sua
companheira de trabalho e luctas, em temer a ilustração da mãe de seus
proprios filhos; o homem faz mal, porque rebaixando a mulher não se
lembra que se rebaixa a si proprio que nasceu della e dos seus labios
escutou as primeiras lições da vida. Mas a mulher póde reagir, póde
educar-se a si mesma, póde, pelo menos, mostrar desejo de progredir, de
se igualar ao homem pelo trabalho e pela inteligencia cultivada.
A mulher falha de educação é muito mais inferior do que o homem,
porque são os seus proprios defeitos que se tornam qualidades,
elevados pela cultura, encaminhados pela educação. O que na mulher
educada é espirito, é na outra grossería; o que numa é presciencia, é
na outra desconfiança; o que numa é desenvoltura e graça, é na outra
descaramento; o que numa é observação, é na outra bisbilhotice...
Vai-se a uma fabrica ou a uma oficina, passa-se por uma rua onde ha
desenas de homens, principalmente se forem do povo, não se ouve um
dito desagradavel, não se ouve um riso que moleste; mas onde estiverem
duas mulheres ás quaes a educação não depurou os defeitos, ou cujos
espiritos não estejam perfeitamente humilhados pela dependencia,
temos dois intoleraveis animaesinhos que riem, falam, troçam, olham
miúdamente, com o proposito ferino de irritar e de ferir.
Por isso, tanto ou mais do que o homem, necessita a mulher ser educada
e ilustrada, e é, a meu ver, por onde deve principiar a remodelação
duma sociedade que seja progressiva.
Educar a mulher--eis o problema maximo a desenvolver e pôr em prática.
A isso é que chamâmos feminismo, que não em pôr gravatas e colarinhos
de homem, que se podem usar como prova de simplicidade ou de
extravagancia, mas nunca como afirmação de opiniões.
Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o
suficiente para a sua sustentação--quando é só--de auxiliar o homem,
esgotado pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorrencia e a
carestia da vida moderna,--quando casada,--parece-nos a maneira mais
prática de a tornar um ser livre, apta a escolher por motu-proprio o
caminho a seguir direitamente na vida.
Não temam os homens que a mulher instruida, por mais liberta, quebre
mais facilmente os laços de conveniencias com que a sociedade a
prendeu. Nem sempre foram os conventos, com todas as suas grades e
portarias, o mais puro exemplo da castidade feminina; ainda hôje os
harens, com todos os seus guardas e eunúcos, são para o ciume do macho
bem fragil garantia...
A mulher entregue ao seu proprio discernimento fará o que a
consciencia esclarecida e o respeito proprio lhe ensinam, e não o que o
mêdo lhe dictar.
Que mérito tem a criatura que não falta aos seus deveres porque está
guardada á vista, como um doido furioso?
É certo que no nosso povo está tão enraísado o habito de fazer
acompanhar as mulheres, como signal de grandêsa, que é mais uma
nobilitação do que uma prova de desconfiança.
Andar só é, ainda hôje, em muitas terras de provincia, uma vergonha
para a mulher, mostrando que o marido a não présa bastante para a fazer
acompanhar.
Lá diz a cantiga:
--«Senhora D. Maria
O seu _Dom_ não vale nada,
Vai á fonte, vai ao rio,
Vai á missa sem criada.»
Ir á missa _sem criada_ seria, realmente, para as nobres damas que
abrigavam em casa uma legião de serviçais--criados e filhos de criados,
como outrora tambem os escravos trazidos das terras conquistadas
a moiros e a negros--a maior prova de miseria, ou de decadencia
financeira.
A vaidade da fidalguia que é, ainda hôje, um dos caracteristicos do
genio português, nesta terra em que todos se dizem _filhos dalgo_ e se
sentem com direitos de _senhores_ para escravisar os mais pequenos, não
tolerava á mulher que aparecesse em publico sem _comitiva_... ainda
que constasse apenas duma pequena criadinha.
É esta _fidalguia_, mal interpretada, que faz com que o homem fuja
ao trabalho, como á mais deprimente das servidões, reflectindo-se
bem claramente na educação que se tem dado, até aqui, á mulher,
convencendo-a de que se inferiorisa se trabalhar para ganhar dinheiro e
auxiliar o homem.
O nosso paiz resente-se dum mal-estar e desiquilibrio que vem do
conflicto entre o passado que se desmorona, com todas as suas velhas
ideias e preconceitos, e o presente que ainda não conquistou todos os
espiritos ligados ás convenções, que já despresâmos no fundo.
A nossa geração sofre duplamente pelo embate dos sentimentos que se
entrechocam em nós mesmos e nas nossas proprias familias...
Todos apresentam as suas queixas, todos falam, mas tudo se diz no ar,
sem provas nem proposito firme de conhecer o mal e enveredar pelo
caminho que se nos afigura ser o melhor.
Quem quizer fazer alguma coisa entre nós é preciso revestir-se duma
paciencia sem limites e ter uma coragem excepcional, por isso que
tem de se defrontar com a indiferença de toda uma nação cançada de
aventuras, exausta por um longo periodo de desilusão e enganos. Tudo
contribue para o desleixo fisico e moral em que vivemos, desde o sol
dôcemente enlanguecedor, até á ironia dissolvente com que se recebem
todos os enthusiasmos e todas as emprezas que não tenham por fim o
lucro material.
E no emtanto não devemos desistir da lucta, devemos pelo contrario ir
juntando elementos e amontoando verdades até que a luz se patenteie a
todos os olhos e seja visivel a todos os cerebros.
Uma das nossas maiores vergonhas nacionaes é, por certo, o
analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha é que, no continente,
é a grande maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos
analfabetos.
E ha ainda quem lhes diga que fiquem _em casa a educar os filhos_, em
vez de pretenderem ganhar o seu pão honestamente pelo trabalho!
Mas ensinar o quê, se ellas não sabem o mais elementar, se muitas vezes
nem sabem ler e escrever!?
Dirão que só a mulher do baixo povo é tão completamente ignorante,
mas o que é certo é que pequenissimo é o numero das mulheres que,
embora saibam ler, se preocupem com as questões intelectuais e possam,
portanto, ser educadoras dos proprios filhos.
E todos sabem, principalmente os professores, quanto custa ensinar
crianças que não tiveram a abrir-lhe o caminho da inteligencia, o
cultivo amoravel da familia, principalmente da mãe.
Para ellas tudo é novidade, desde o que seja uma montanha até ao pão
que metem na bôca.
Os professores, mesmo sem querer, o fazem sentir ás crianças, e é
esse sem dúvida o maior castigo das mulheres ignorantes, que julgam
cumprir o seu dever de mães de familia governando a casa e vestindo com
elegancia os filhos.
Mas a triste verdade a confessar, e que é muito para meditar, é que--do
milhão de portuguêses que sabem ler e escrever a sua lingua, apenas um
terço são mulheres!
E ainda se queixam quando se diz que a mulher no nosso paiz é inerte,
ignorante e frivola!
A unica superioridade admitida no nosso tempo, por mais que se queiram
iludir os grandes da terra, é a da inteligencia. Os mais instruidos
são, evidentemente, os superiores, os fortes, seja qual fôr a sua
posição.
No tempo em que o mundo se levava á espadeirada, a força fisica era
superior á intelectual e os homens podiam tornar-se senhores pelo poder
musculoso do seu braço; hôje a força fisica vale muito como educação e
muitissimo para produzir saudaveis criaturas, mas vale muito pouco para
aferir superioridades. Aliás teriamos de acatar o moço de fretes, que
pega numas poucas de arrobas como quem pega num braçado de flôres, e
proclamá-lo superior, nosso indiscutivel chefe.
Ninguem irá buscar um hercules de feira broncamente estupido para o
comparar e achar superior ao sabio empalidecido e enfraquecido pelas
vigilias do estudo.
O que falta no nosso paiz é a instrução, principalmente a instrução
prática que faz progredir um povo. Quando é preciso traçar uma linha
ferrea, vêm engenheiros do estrangeiro; quando necessitâmos dum
porto, lá estão as companhias estrangeiras; quando uma cidade quer
abastecer-se de agua, lá estão os estrangeiros para lha fornecer;
quando é preciso montar um arsenal ou uma fabrica, lá estão os
especialistas estrangeiros.
Quasi tudo o que se faz no nosso paiz é práticamente dirigido por
estrangeiros e estrangeiras. Ainda destas a quantidade não é tão
grande, mas lá chegaremos, e quando quizermos utilizar as nossas
mulheres em muitos e variados mesteres, que o futuro por força lhes
hade entregar, já não encontraremos logares vagos.
Não nos deixemos embalar com o sonho do passado; pensemos no futuro,
que é o trabalho e a educação.
Fomos ha tres seculos um punhado de aventureiros que realisou a maior
aventura que ainda se havia visto, e imaginâmos que tudo será perdoado
a quem tanto fez e a quem tão maravilhosamente o soube cantar.
Mas os tempos são outros, as necessidades muito outras, e a vida já se
não leva a descobrir caminhos por _mares nunca dantes navegados_.
Hôje, que o nosso pequeno planeta está visto por todos os lados,
achâmo-lo pequeno e temos fome e sêde de mais alguma coisa. O homem não
se cança de saber, de procurar lêr o passado nas pedras fragmentadas
dos monumentos soterrados, como de procurar o futuro nos espaços
faiscantes de sóes; a tudo aspira pela inteligencia, tudo quer
comprehender e possuir.
A mulher entre nós não póde, por deficiencia de educação e excessivo
acanhamento, ser a util companheira de tal homem.
Na idade-média a mulher podia esperar o marido, que ia ás aventuras
fabulosas, sentada ao bastidor ou á róda de fiar, tecendo com suas
brancas mãos o linho que por si e pelas suas criadas fôra fiado.
Ignorante e passiva, era a digna esposa do senhor brutal que só
conhecia o direito da força.
No seculo XX a mulher tem de ser outra, porque outro é tambem o homem e
muito diferente o seu ideal.
Educar a mãe para ser a educadora dos filhos; educar a mulher em geral
para viver de si mesma, e para si, quando pertença á enorme legião
das que ficam solteiras e portanto,--_sem filhos a educar nem casa a
governar_, deve ser um dos nossos mais porfiados empenhos.
É este o verdadeiro feminismo.
AS MULHERES E A POLITICA
_A mulher não hade fazer politica?
Então não hade ocupar-se, já não
digo da sua, mas da sorte de seu
marido, dos seus filhos, ella que é
toda dedicação?!_
DR. BERNARDINO MACHADO.
Transcreve um diario radical,[2] não sei se irritado pelos ultimos
casos da politica portuguêsa, um artigo de Urbain Gohier, publicado no
jornal _L'Action_, em que as mulheres são verberadas violentamente, por
isso que se prova que em politica só se obedece aos seus caprichos, e
os seus desejos se antepõem aos mais urgentes negocios de estado, de
que dependem os destinos duma nação.
Porventura é isso novidade para alguem? Julgaram os homens, por
acaso,--tamanha será a sua ingenuidade?!--que podiam em vão dispôr de
metade da humanidade, redusi-la ao papel farfalhudo de _deusa do lar_,
_nuvem_, _anjo_, _demonio_, e todas quantas mais banalidades se têm
dito e escripto ha seculos, e dizer-lhe:--fica ahi! o teu destino é
agradar-me ou servir-me, conforme o meu capricho de senhor!?
Não penses; não queiras sahir dos meus braços, que é só onde podes
encontrar o luxo, a alegria, a vaidade satisfeita, a preguiça que te
pode conservar a belleza material, mas que te anúla por completo a
vontade e a inteligencia, que dispenso... Salvo se precisar da tua
graça e do teu espirito para chamar aos meus salões os que a minha
energia não conseguir domar, mas é conveniente que esse mesmo espirito
seja frivolo, feito de sorrisos e de _frases do dia_, facil para
qualquer mulher, medianamente inteligente, posta num meio em que as
emoções de arte aguçam os nervos, e o conforto, o luxo, e o convivio
com pessôas distinctas, adelgaçam intelectos e limam as arestas
plebeias, que denunciariam logo a humilde procedencia...
Pois a mulher que só vive de vaidades, que tem a sua orbita limitada
a seguir o _astro rei_ como palida lua sem luz propria; a mulher que
geralmente só tem um nome respeitado quando o homem lho dá; a mulher
que é educada para agradar ao homem, para arranjar pelo casamento uma
situação definida na sociedade; a mulher sem um fim determinado na sua
vida individual, sem um pensamento nobre a elevar-lhe as aspirações; a
mulher escrava pela força e submetida pelas leis, vinga-se como sempre
se vingaram os escravos--corrompendo.
O que desejam as mulheres auferir do homem que as não associou a
nenhum dos seus pensamentos e actos, que a aceita como um presente e
a conserva como um luxo? O que todo o inferior pretende tirar do que
se lhe quer impôr como _senhor_, numa revolta amarga de impotencia--a
maior soma de gôso proprio junto ao menor esforço para o conseguir;
o seu prazer, a felicidade egoista de quem não tem um nobre ideal a
orientar-lhe a senda da vida.
É pois criminosa a mulher, e muito, mas criminosa como a criança que
inconscientemente empurrasse para o abysmo o seu proprio irmão.
Responsavel é só o homem, que, cheio de orgulho, não procura na mulher
uma companheira, uma igual, mas uma inferior, embora finja endeusá-la
para a conservar na rotina e no servilismo. Tira-lhe a instrução e
a sciencia, como alimentos improprios para estomagos delicados, e
deixa-lhe o sonho e a fantasia, que as tortura na ânsia louca de
encontrar na vida real o imprevisto de sensações romanescas, que seduz
principalmente os ignorantes.
Culpado é só o homem que afastou a mulher proba e culta de todas as
luctas em que o destino de ambos se joga,--pois que a politica é, ou
deve ser, a arte de bem dirigir uma nação, e a nação pertence tanto
ao homem como á mulher--para se deixar governar por intrigantes quasi
sempre deshonestas, as mais das vezes inconscientes instrumentos
doutros ambiciosos.
Afastaram a mulher das altas preocupações do espirito, puzeram-lhe ao
pensamento e á vontade uma barreira de preconceitos e de ignorancia, e
queixam-se porque ella usa das armas que tem e gosa o fructo do orgulho
masculino!
Indignam-se contra as mulheres e são os proprios homens cultos que
transigem com ellas, nas suas crenças e prejuisos; elles, os que não
têm pejo de dizer publicamente que--embora se sintam libertados,
embora os seus espiritos pairem alto numa atmosfera de saber e de
certeza que os orgulha--consentem que as esposas continuem a crêr o que
elles descrêm, a vêr o que elles não vêem, a seguir o que elles não
seguem,--porque querem ser _tolerantes_!
Não comprehendem, ou não querem comprehender, o que é peor, que a
mulher representa mais do que o homem na constituição da familia,
porque é a ella que pertence o filho nos seus primeiros annos, porque á
mãe está confiada a filha até passar para as mãos do marido. E quantas
vezes o homem, num ingenuo sorriso de criança, encontra os laços que
no futuro lhe hão de manietar o espirito, ou, em caso de resistencia,
o fundamento para luctas que lhe despedaçarão a felicidade se teimar
em não se deixar vencer pela persistente e dôce propaganda das crenças
femininas.
A mulher não póde cortar abruptamente com um passado, que é toda a sua
vida espiritual.
É preciso que uma forte instrucção a liberte de caprichos infantis e
lhe dê a lucida e precisa noção do que deve ser a sua força moral.
Torna-se preciso que o homem já educado eduque a sua companheira; que o
homem livre escolha a mulher já livre; ou que o homem saiba transigir
com os laços seculares que muitas vezes ligam a mulher solteira á
familia e á tradição, mas só quando tiverem a certeza de que esses
espiritos, momentaneamente libertados pelo amôr, não voltarão mais
tarde, numa crise de fastio e abandono, aos ideaes com que fôram
embalados os seus aureos sonhos de menina...
Não é negando e demolindo que se fórma a nova alma feminina, que, por
sua vez, transformará o mundo; é elevando a consciencia e construindo
um novo templo de amôr e bondade humana, irredutivel e forte, onde o
espirito se inunde de luz e não possa mais mergulhar na treva.
O homem livre, o mais responsavel, aquelle que nos seus jornaes, nos
seus livros, nas suas conferencias, mais clama pela educação da mulher,
reconhecendo na sua falta toda a servidão das sociedades burguêsas;
esse mesmo, falto de logica quasi sempre, não se faz acompanhar da
sua esposa ou das suas filhas, não as póde apresentar como exemplo ás
outras mulheres, porque, em geral, são ellas as primeiras a abominar as
suas ideias.
Quando mesmo as não contrariem nem abominem, perfilhando-as algumas
vezes, são raras as que o queiram confessar publicamente, sabendo muito
bem que o homem português tem o terror instinctivo da mulher culta e
intelectualmente independente.
E só assim ella deixará de ser a pedra atada ao pescoço do homem, que
em vão se esforça por fugir á corrente da moda em que a maior parte dos
espiritos masculinos vem a naufragar.
Não é a mulher educada e orientada na consciencia dos seus deveres e
obrigações sociaes a que merecerá nunca a frase seguinte do jornal a
que me refiro:--_capricho que é um erro proprio da fórma de ser do
espirito feminino_.
O espirito da mulher não tem atributos proprios, como a sua
inteligencia e as suas aptidões não podem ser limitadas
autoritariamente, circunscriptas a um certo e inultrapassavel perimetro.
Ha mulheres caprichosas por defeitos de educação ou de temperamento,
consumidas de mesquinhas invejas e pequenas revoltas de impotentes,
como ha tantissimos homens sem energia, que nas suas proprias revoltas
são irritantes, falsos e untuosos, como costumam classificar as
mulheres.
Escolham os homens livres companheiras que egualmente o sejam;
determinem-se os campos, forme-se a familia pelas convicções de cada
um e não pelas convenções duma sociedade que não tem sinceridade nem
nobrêsa, e a transformação será completa.
SER PORTUGUÊS
«_Como hade a mulher educar os
filhos no civismo, se o não
praticar?_»
DR. BERNARDINO MACHADO.
Conserva-se a mulher portuguêsa numa entorpecida indiferença pelas
questões da actualidade, mesmo por aquellas que mais de perto a deviam
interessar.
Alem dos cuidados, mais ou menos caseiros, deveria a mulher
interessar-se pelas questões de civismo, como pelos varios problemas
sociaes, que tambem de perto e profundamente a tocam, não só na sua
vida individual como na sua influencia na familia.
O individuo pertence á familia, a familia á sociedade, e o que
interessa esta por força hade interessar aquelle, numa sociedade bem
organisada e equilibrada.
Não póde pois a mulher, principalmente quando é mãe, conservar-se na
abstenção culposa em que tem vivido até aqui a mulher portuguêsa.