_Da variedade, e composiçaõ dos verbos._
TODOS os verbos desta lingua se dividem em dous generos, ou activos,
e naõ activos: Os activos saõ os que pedem seu caso direito sem
preposiçaõ alguma, ao qual caso chamamos Accusativo.
Os verbos naõ activos comprehendem neutros verdadeiros; e outros a que
podemos chamar de alguma maneira passivos; e a outros podemos chamar
absolutos.
Os neutros naõ pedem caso algum; salvo por virtude de alguma
preposiçaõ, como _A-quer_, dormir: _A-gu-apyc_, estar
assentado.
Os passivos se fazem dos activos entremettendo-lhe alguma destas
syllabas, _Nhe_, _Ye_, ex. _Aiu-câ_, eu mato:
_A-ye-iuca_, eu me mato, ou sou morto: _Aimonhang_, eu faço:
_A-nhe-monhang_, eu me faço, ou sou feito.
Os Absolutos saõ os que significaõ absolutamente alguma cousa,
naõ tendo caso expresso; mas em seu modo de significar o levaõ
comsigo; e estes se fazem tambem dos activos, entremettendo esta
dicçaõ _Porò_, v. gr. deste verbo _A-iucà_, formamos este
_A-poro-iucà_, e significa matar gente: Deste _Ai-mondo_,
mandar, formamos _A-poro-mondo_, mandar gente: _A-û_, comer:
_A-por-ú_, comer gente. Em alguns verbos naõ entra toda a dicçaõ
_Poro_, como no verbo _A-yo-çub_, visitar: _A-po-çub_,
visito gente, e naõ se diz _A-poro-çub_.
A toda esta variedade de verbos chamamos naõ activos; porque posto
que na significaçaõ tenhaõ a variedade sobredita; com tudo no modo de
conjugar todos guardaõ as regras dos neutros; e assim por isso, como
por naõ terem caso algum expresso, se podem chamar neutros.
Afóra esta variedade de neutros, que começaõ por artigo; ha outros
verdadeiramente neutros, que saõ todos os que começaõ por pronomes,
_Xe_, _Nde_, _Y_, &c.
Todo esta multidaõ de verbos se divide em simples, e compostos; e na
composiçaõ ha muita variedade.
De dous verbos ás vezes se compõe hum v. g. _Aymonhang_, faço:
_Aycuab_, sei: _Ay-monhang-uab_, sei fazer.
Outras vezes do verbo activo, e do seu accusativo, se compõe hum verbo
neutro, ex. _Aimon-gueta Tupã_: _A-tupã-mongueta_; e entaõ se
conjuga como neutro.
Outras vezes entre o artigo do verbo activo se mette huma das tres
letras, que servem de relativos, _Y_, _ç_, com zeura,
_T_, e juntamente o nome que havia de ser accusativo do verbo; e
de tudo se fórma hum só verbo activo; e fóra isso tem outro accusativo,
ex. _Ay-co-monhang-xe-r-uba_, faço a rossa de meu pai, _A_
he o artigo, _Y_ he relativo, _Co_, rossa, he accusativo;
_Monhang_, he o verbo activo, em direitura, faço a sua rossa a meu
pai.
_A-ce-co-monhang Pedro_, dou ordem de vida a Pedro; _A-tú-jucá
Francisco_, matei o pai de Francisco.
Semelhantes saõ os verbos seguintes.
_A-ço-patí xe-r-uba_, armo a rede em que se deita meu pai:
_A-ço-pe monhang amana_, faço caminho para correr a agua da chuva;
_A-y-tapûi mon-gaturõ xe-cig_, concerto a choupana a minha mãi;
_A-y-acang-oc boia_, corto a cabeça á cobra; _A-y-iuru mopen
nheeng ixoera_, quebro a boca a hum bacharel; _A-tayg-nupã xe
atuaçaba_, açouto o filho de meu compadre, &c.
Aqui devemos advertir com attençaõ, que dos verbos neutros se podem
fazer activos, e dos activos neutros, para o que poremos algumas regras.
I. Regra. Dos verbos activos se fazem absolutos, com entremetter
a dicçaõ _Poro_, como atrás tocamos. _Aiuca_, matar;
_A-poro-iuca_; e se o verbo activo começar pela letra ç com zeura,
perde o _ç_, _Açauçub_, _A-poro-auçub_.
E se o verbo activo tiver a syllaba _Nho_, ou _Yo_, tambem
se perde a tal syllaba. _Anhotim_, enterrar, _A-poro-tim_,
enterrar gente; e se tiverem a syllaba _Nho_, ou _Yo_,
e despois della, _ç_ com zeura, ambas as cousas se perdem,
_Anhoçữi_, queimo, _A-poro-ữi_, queimo gente.
Os seis verbos activos, _Ayoçoc_, _Ayocib_, _Ayoçub_,
_Ayxoo_, _Ayxuban_, _Ayxuu_, naõ perdem o _ç_
com zeura; _A-poro-çoc_, _A-poro-cib_, _A-po-çub_,
_A-poro-çoo_, _A-poro-çuú_, _A-poro-çuban_.
A letra natural destes tres ultimos verbos, he _ç_ com zeura;
mas por terem por artigo _Ai_, muda-se o _ç_ em _X_,
o que acontece todas as vezes que se encontra _I_ com _ç_,
com zeura na mesma dicçaõ, como já tocamos; e assim os tres verbos
sobreditos nos modos que naõ tem artigos, tem a letra _ç_ com
zeura, e naõ tem _X_, como no conjunctivo, _çuba-neme_,
_çuù-reme_, _çoo-reme_.
Os verbos activos que depois do artigo tem alguma destas syllabas,
_Ra_, _Re_, _Ro_, _Ru_, nas terceiras pessoas,
mettem a syllaba _Gue_, ou _Araço_, _O-gue-raço_; e
se os fizermos absolutos com a dicçaõ _Poro_, mettem a syllaba
_Gue_ em todas as pessoas, ex. _A-poro-gue-raço_, levo
gente; _A-poro-gue-reco_, tenho gente; algumas vezes se comem
por syncopa as duas primeiras letras _gu_, _A-poro-eraço_,
_A-poro-gue-raço_.
Os verbos compostos com a dicçaõ _Poro_, algumas vezes em lugar
do artigo _A_, tomaõ o pronome _Xe_; e entaõ significaõ
o mesmo que dantes; mas com mais extensaõ, e continuação; ex.
_A-poro-iuca_, mato gente; _Xe-poro-iucâ_, tenho em costume
matar gente.
_Segunda regra por ordem._
Os verbos activos se fazem de algum modo passivos com as syllabas
_Nhe_, _ye_, ex. _A-u_, eu como; _A-ye-u_, eu me
como a mim mesmo, ou sou comido doutra cousa. E se o verbo activo
for dos que naturalmente tem as syllabas _Nho_, _Yo_;
essas se mudaõ em _Nhe_, _Ye_, para serem passivos,
ex. _A-nho-tim_, enterrar; _A-nhe-tim_, enterrome,
ou sou enterrado. E se tiverem _ç_ com zeura despois das
sobreditas syllabas, perdem o tal _ç_ fazendo-se passivos, ex.
_A-nho-çữi_, queimo: _A-nhe-çữi_, queimo-me, ou sou queimado.
_Terceira regra._
Dos verbos já feitos passivos com as syllabas, _Nhe_, _Ye_,
se fazem ás vezes alguns outros activos, mettendo-lhe a syllaba
_Mo_, antes das syllabas _Nhe_, _Ye_, ex. deste verbo
_A-yo-pin_, tosquiar, se faz este passivo, _A-ye-apin_,
tosquiar-se; e deste estoutro activo, _Ay-mo-ye-apin_, fazer
tosquiar outro; ex. _Ay-mo-ye-apin Pedro Diogo çupe_, faço que
Pedro seja tosquiado de Diogo.
_Quarta regra._
De todo o verbo neutro que começa por pronome _Xe_, se póde formar
hum activo, mudando o artigo _A_ em _Ai_, e logo a syllaba
_Mo_, ex. _Xe-angaturam_, sou bom; _Ai-mo-angaturam_,
faço bom a alguem. E se o verbo tiver a letra _R_, despois do
pronome _Xe_, perde-se o _R_, na tal composiçaõ, ex.
_Xe-ropar_, eu me perco, _Ai-mo-opar_, faço perder a outro.
_Quinta regra._
De qualquer verbo neutro começado por artigo _A_, se podem
formar dous verbos activos: Hum delles entremettendo a syllaba
_Mo_, despois do artigo, outro entremettendo alguma destas
syllabas _Ra_, _Re_, _Ro_, _Ru_, ex. Deste verbo
neutro _A-poâm_, levanto-me, se fórma este, _Ai-mo-poam_,
faço levantar outro. E se fórma tambem este, _A-ro-poam_,
levanto alguma cousa comigo juntamente. _A-in_, estou quedo;
_Ai-mo-in_, ponho alguma cousa; _A-ro-in_, tenho comigo
alguma cousa.
Note-se ultimamente que nestas composições algumas vezes ha mudanças
de letras por evitar aspereza, ex. _A-ço_, vou, havendo de dizer,
_Ai-mo-ço_, dizemos; _Ai-mondo_, mando: _Ai-co_,
estou; e naõ dizemos _Ai-moco_; mas _Ai-mo-ingo_,
ponho: _A-iur_, venho; naõ dizemos, _Ai-mo-iur_, mas
_Ai-mbo-ur_, mando vir.
Alguns, mas poucos, saõ os neutros que naõ tenhaõ estas duas
composições: _A-mano_, morro, naõ admitte _Ay-mo-mano_;
mas sómente _A-ro-mano_, faço morrer comigo, ex. _A-ro-mano
xe-angutura-ma_, morre comigo minha bondade, ou até a morte
persevera comigo.
Isto baste da composiçaõ dos verbos; outras miudezas se deixaõ por
evitar confusaõ, que o uso ensinará.