Ganhámos, afinal! Serás recompensado
Pelo teu grande zelo, ó Judas.
JUDAS soturno:
Obrigado...
HANAN
Um prémio te darei. Trinta moedas; queres?
De prata!
JUDAS indifferente:
Sim, Hanan... Acceito o que me deres.
O OSTIARIO que appareceu no terraço:
Chamaste-me?
PONCIO
É de crêr que no Pretorio esteja
Algum centurião. É Poncio quem deseja
Que se dê cumprimento a tudo que estes dois
Homens disserem.
O OSTIARIO
Bem.
PONCIO
Fique entendido pois.
Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha.
E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar,
retira-se para os seus aposentos.
HANAN que se curvára muito á passagem de Poncio, murmúra:
Moysés ha de vencer!...
JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel:
Maria ha de ser minha!...
Vão-se com o Ostiario pela outra porta.
Apparece então a escrava Geda, que se encaminha para o terraço.
GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr
parte do reposteiro que pende do arco.
Vae repoisar a minha ama...
Como a noite é calma e linda!
Mas ninguem ha que prescinda
Das indolencias da cama!
Muito ingrata a Humanidade,
Que acha as trévas de Morpheu
Preferiveis a este ceu
De risonha castidade!
Talvez seja por vingança
Que a mostrar-nos a outra face
A Lua não se abalança!
Seja lá pelo que fôr,
Que sem protesto não passe,
Diana, o teu desamor!
Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o
candalabro e dispõe-se a leval-o comsigo.
Mas o reposteiro agita-se, é corrido pela parte exterior por mão nervosa
e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto
occulto por espesso veu de lã negra.
A MULHER adiantando-se como procurando alguem:
Claudia?
GEDA admirada e insolente:
Quem te deu a livre entrada?
Que vens fazer aqui, judía?
A MULHER
Venho
Para falar a Claudia, unicamente
É este o meu empenho.
GEDA
E que importa o motivo, se é costume
Não entrar sem licença do Ostiario?
A MULHER
Em pouco a minha falta se resume:
Vi tudo solitario...
GEDA
Esperasses.
A MULHER
Desculpa-me...
GEDA
Duvído
De que a minha ama te receba. É tarde.
A menos que a tivesses prevenido
De vir, e que te aguarde.
A MULHER assumindo attitude imperiosa:
Urge que eu fale a Claudia. É muito sério
O que me traz!
GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na
meza.
Eu vou...--Temos misterio!
E entra nos aposentos de Claudia.
A mulher, vendo-se sósinha, ergue então o véo. É Maria de Bethania. Á
fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.
MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma
préce:
Ó essencia do Bem! ó divinal encanto,
Que fazes do Amor a tua crença unica!
Presinto que a Desgraça estende o negro manto
E deixa a descoberto a sanguinaria tunica,
Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora
Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura,
Em breve deixará de ser como é a aurora,
Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura!
Mostra-te para mim bondoso e esmoler:
Escuta-me, Senhor! E que seja bastante,
Para fazer da noite aurora triunfante,
Uma lagrima ardente e pura de mulher.
E fica absorta, com a cabeça encostada ao pedestal do busto de Tiberio.
CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, não reprime o seu
assombro.
Maria de Bethania?! O quê? Pois tu
Ousaste vir aqui? Pois desafías
Com a tua presença o meu rancor?
Tens a loucura, a falta de criterio,
_De brincar com as cinzas inda quentes_?
MARIA baixou a fronte; e a meia voz:
Perdôa-me, Senhora...
CLAUDIA
O que fizeste
Da altivez soberana e do teu odio?
MARIA
Perdôa-me, senhora. Quem se humilha,
É porque tudo esquece, e quem supplíca
O perdão d'uma offensa, tem direito
A ser ouvida...
CLAUDIA encostando-se á meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua
figura:
Apraz-me isso que dizes.
Tu propria te encarregas de vingar-me.
Optimamente!--O que é que tu me queres?
MARIA com meiguice:
Nunca viste, depois da tempestade,
Quando vem a bonança,
Resplandecer de luz na immensidade
O Arco da Alliança?
Pois que venha, senhora, em tal momento,
Um meigo olhar bondoso
Alegrar do teu rosto o firmamento
Como o divino traço luminoso.
CLAUDIA com uma risada:
Não faças poesia, que Virgilio
Mandou lançar a sua Eneida ao fogo!
Começas muito mal. Por um idilio!...
Do teu poema a sorte pões em jogo...
MARIA docemente:
Na ironia cruel quanta amargura!
Esta hora é suprema.
Vou falar-te d'um ser todo candura...
CLAUDIA zombeteira, petulante:
O heroe do teu poema?
MARIA animando-se pouco a pouco:
Heroe, disseste bem, mas que regeita
O gladio vingador,
E que tem na palavra uma arma affeita
Á bondade, ao amor...
Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce
Que de manso deslisa,
Perfumado, subtil, como se fosse
O perpassar da brisa,
As almas estremecem, de sentidas,
E ficam-se amorosas,
Desabrochando trémulas, florídas,
Como botões de rosas!
Ha já trez dias, Claudia, que o terror
É para mim veneno!
Querem matal-o! Ai! salva o meu amor!
Ai! salva o Nazareno!
Não deixes que lhe roubem a existencia,
E termina o martirio
D'esta paixão que tem do Sol a ardencia,
E a pureza d'um lirio!
Ordena que o não matem, Claudia! acalma
Os monstros malfasejos,
Que eu a teus pés arrojarei minh'alma
N'um effluvio de beijos!
E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril,
os braços estendidos, supplicante.
CLAUDIA depois de nova risada:
Isto é completamente um caso novo,
E agrada-me de véras
Que sejas tu, mulher, em vez do povo,
Quem venha interceder pelo Profeta
Com lagrimas sinceras!
É bello!
MARIA
Tem piedade!
CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:
Honra o teu sexo
O platonico amor que te inquieta;
E n'elle vejo mais do que um reflexo
Do feminil civismo d'outras eras.
Tu excedes Cornelia,
E de Coriolano a mãe Veturia!
--Tenho notado haver n'esta Judéa
Mais valor nas mulheres que nos homens,
O que toma o aspecto d'uma injuria
Ás patricias de Rhéa!
Judith a Holofernes rouba a vida,
Para salvar o povo seu amante,
Ao vêr que elle agonisa;
Esther, em patrio amor toda incendida,
De Assuéro affronta a crueldade e insânia;
Debóra, a profetisa,
Entra na lucta e sae-se triunfante...
Agora vem Maria de Bethania!
--Palavra, que a Judéa é divertida!
Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois
de ageitar-lhe as almofadas.
MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:
Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime!
Quando uma alma se dobra e tanto se deprime,
Quando um peito soluça, a compaixão ordena
Que a ironia que esmaga e o riso que envena...
A um olhar severo de Claudia, humildemente:
Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo
Que não seja o tormento indómito e agudo,
Que me offusca a razão e o peito me lacéra!
Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera
Que soubesses tambem como é risonha a vida,
Que toda se consagra a uma entidade querida:
Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora;
Respirar o subtil perfume que evapora;
Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama;
Silenciosamente, amar tudo o que ella ama;
Ouvir-lhe da palavra a doce melodía
Tão limpida, tão casta e pura, que enebría,
Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal,
Semelhante, no brilho, ao riso divinal
Da estrella que, tremente, em candidez scintilla,
Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.
Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se
impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.
Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido:
Tu poderás talvez, pedindo a teu marido...
Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana
Quando te respondi com altivez soberana.
Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor
E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr...
--Mas fala, mas responde a isto que eu te peço!
Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!
E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos
fincados no coxim.
Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.
Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando
de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos
enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:
Não me resta uma esperança,
Pois não me escuta ninguem!
Dorme a eterna Divindade
No azul da Immensidade,
Nos horisontes d'além,
Onde não chega um suspiro,
Onde o silencio é profundo.
Ha de ser bom tal dormir,
Descuidoso do porvir,
Descuidoso d'este mundo,
N'aquelle reino divino
Tecido por andorinhas,
Feito só para os honrados,
Para os bons e desprezados,
Para as meigas creancinhas...
Tão sereno como o lago
Da Galiléa florída,
Que se formou por encanto
Do arrependido pranto
Da mãe Eva arrependida...
--Parece mesmo que o vejo
No seu manto azul. Dir-se-ia
Que o firmamento amoroso
Teve a alegre fantasía
De enviar á terra um beijo
Puro, suave, bondoso...
Parece mesmo que o vejo.
--É seu olhar calmo e doce;
A tudo o mais fica estranho,
Quando distingue o fulgor
Dos astros, como se fosse
O cuidadoso pastor
Do scintillante rebanho...
CLAUDIA adormecida, vagamente:
É seu olhar calmo e doce...
MARIA continuando alheiada a tudo:
Tem o brilho das seáras
O cabello perfumado,
Que nos hombros lhe descansa
E lhe cerca as faces claras.
É tão formoso e doirado
Como um sorrir de creança...
CLAUDIA adormecida, vagamente:
Tem o brilho das searas
Seu cabello perfumado...
MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:
Mais uma vez perdão te peço. Eu vou sahir
E não perturbarei, ó Claudia, o teu dormir.
Reconheço por fim que era a esperança fátua.
É inutil chorar em frente d'uma estátua...
--Retiro-me vencida, assim como o pagão,
Que dedicou á Sphinge, ardentemente e em vão,
Os gritos da sua alma e os canticos do amor.
Podes dormir risonha: eu levo a minha dôr!
E com a cabeça descaída sobre o peito, dirige-se para o terraço em
passos vagarosos, como se fôra a caminho da morte, com o negro véo
pendente ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida
escadaria.
O somno de Claudia é agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se
uma a uma, com lentidão, as véllas no candalabro; e o luar, a que o arco
sem peias dá passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede
fronteira, como um enorme phantasma negro...
QUARTA JORNADA
EM 15 DE _NISAN_
QUARTA JORNADA
EM 15 DE _NISAN_
Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de
Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á
indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam
mansamente.
Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas
parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz,
corpos sem vida de suppliciados.
Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural
caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro.
Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde
os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas.
Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.
Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os
penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco,
argiloso e triste.
Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de
quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.
A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.
O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que é
Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são
Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram
reforçadas na vespera por ordem de Poncio.
AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem:
Erguei-vos, camaradas, pois não deve
O negro deus do somno tal imperio
Exercer sobre vós, quando do Olympo
Cáem com furia as cóleras de Jove.
LAUSO accordando:
Novamente começa a tempestade?
FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:
Foi aquelle patife do Vulcano,
Que lhe enviou fornecimento novo.
LAUSO erguendo-se:
Pois ainda troveja?
AMPÍO
Muito ao longe.
FÁBIO
O peior é que Phébo, com certeza,
Não vem tão cedo.
AMPÍO
Os galos já cantaram
Das bandas do Levante, amigo Fábio.
LAUSO
Olha! alguem se dirige para aqui.
FÁBIO rindo:
Talvez seja Noctifer, deus das trevas.
E os trez esperam, encostados ás lanças. São seis miseros mercadores
avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos
soldados.
UM MERCADOR em tom submisso:
É permittida a entrada aos mercadores?
AMPÍO
A dúvida, meu velho, está sómente
Em pagarem tributo ao publicano.
O MERCADOR
Decerto que pagamos, como é de uso;
Mas quando vi trez guardas junto á porta.
Fiquei suppondo alguma novidade...
AMPÍO
Pois quê! não morreu hontem o profeta?
Nada mais facil do que haver rebeldes...
Conhecemos a vossa grande astucia
E o vosso rancor, judeus malditos!
O MERCADOR por entre dentes:
Maldita Roma!...
FÁBIO com uma risada alvar:
Eh! lá! Vê como falas,
Que o _teu rei_ já não vive!
O MERCADOR muito seccamente:
Da Judéa
Ha muito que fugiu a realeza!
E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que
d'elles chasqueiam.
A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um
vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra
um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer,
os membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente,
esfarrapada e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés
descalsos.
JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a
voz muito enfraquecida:
Vem o dia a nascer das regiões eternas.
Depois de ter lançado as iras justiceiras,
O grande firmamento agora é mudo e quedo.
Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas,
E vão pedir a noite ás fendas do rochedo
As aves agoureiras.
E olhando para a caverna d'onde saíu:
Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,
Ó treva de amargura e negras maldições!
Ó antro, que animei co'o halito do crime,
Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro
Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime,
Das tectricas visões!
Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com
passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois,
como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:
Estavam a dormir ao pé das oliveiras,
E a Lua derramava em cheio nas clareiras
O argentino olhar, o seu formoso pranto.
Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,
Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...
Mas ficou-se indeciso apenas descobriu
Dos archotes a luz na solidão campestre.
--Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.»
Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,
Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo
Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!
Co'um latido feroz toda a matilha sae
Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!
Aos amigos leaes occorre o pensamento
Heroico de empregar a força. A gritaria
Desperta o olival da funda lethargia.
Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador...
Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror.
Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja
Espavorida vae dizendo-me que fuja.
E erguendo-se de chofre, animando-se:
Percorro velozmente os grandes olivaes;
Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;
O manto esfarrapado o rasto meu indica,
Depois a propria carne! A alma, porem, não fica,
Pois se olho para traz, sobre a verdura espessa
Persegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça.
Termina de repente o estenso matagal,
Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal
Onde tenho uma lucta encarniçada e louca:
A lama em borbotões entra-me pela bocca,
Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,
Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,
Fogem nuvens de rãs para logares occultos,
E o seu coaxar parece arremetter insultos!
Mas saio vencedor e a terra firme alcanço;
Então quero parar... mas corro sem descanso.
As forças vão fugindo, e julgo que do peito
O coração rebenta exanime e desfeito!
Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto
Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,
Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando
Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.
Chego á margem; depois entro por um atalho
Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho...
Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo
Descobrir de repente o mais seguro abrigo!
Abeirando-se da caverna:
Sem saber onde estou, a estremecer d'horror,
Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor,
Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura,
Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura,
Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas,
A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!
Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna
responde-lhe longamente...
Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços
pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:
Eliminei a causa, e agora nem procura
A minh'alma saber se existe ou já não dura
O effeito. Um assassino é o que vejo em ti,
Judas!
Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.
O coração refugiou-se aqui
Transformado em dinheiro. É prata reluzente,
Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente!
E falas de ambição, tu que possues a marca
Das filhas sem pudor do velho patriarcha!...
Relembras o incesto horrendo de Thamar,
E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar
A honra de seu pae no leito da madrasta!...
E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta
Em de redor de mim o grande amontoado
Das velhas podridões da carne e do peccado!
Ferido por um rapido pensamento:
--Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame,
E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...
Mas detendo-se, hesitante:
Tenho medo... não sei...
E supersticioso:
Era de madrugada
E eu ia caminhando em terras d'Ephraím
Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse
Para vir espreitar meus passos junto á estrada.
Esmaguei o!--Se alguem agora me fizesse
A mesma cousa, a mim?
Compadecído:
Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda,
Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente!
Rasteja para longe, ó animal mesquinho,
Deixando atraz de ti a escuridão profunda...
Rasteja para longe... e ségue o teu caminho
Silenciosamente...
A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que
ella fórma.
Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade.
Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São
Maria de Bethania e sua irmã Martha.
MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito
resignada:
Fica perto da cidade
O sepulcro: é no jardim
Do José d'Arimathéa.
Ao aroma do jasmim
Casa-me o aroma da rosa...
É tudo meigo e silente
N'aquelle triste remanso
Onde elle dorme. A corrente,
Que vae regar os pomares,
Tem uns murmurios tão doces
E tão cheios de misterio...
MARTHA
Maria, irmã, se tu fosses
Contaminar o teu corpo?
É prohibido na Lei
Ir a um sepulcro...
MARIA
Decerto...
MARTHA
É um crime.
MARIA
Sim; bem sei.
Mas devo eu conjecturar
Que os negros vermes da terra
Contaminem moradia
Que tanto perfume encerra?
As borboletas sómente,
Aereos beijos de amor,
Hão de poisar junto d'elle
Como poisam n'uma flôr,
Indo contar em seguida
Aos espinhos do balseiro
Quanta fragancia divina
Exhala aquelle canteiro.
... Ao passo que eu viverei
Na grande dôr do meu pranto,
Como a aranha silenciosa
Que fez a teia n'um canto.
--No ceu da minha existencia
Pairavam tranquillamente
Dois flócos de nuvem, que era
Como o fumo transparente...
Andavam pairando assim
Despreoccupados os dois,
Para ao sopro d'uma aragem
Se desfazerem depois...
Fumo illusorio que sobe
Mansamente pelo ar
E que se esvae n'um instante
P'ra nunca mais se juntar...
MARTHA
Ó minha irmã!...
E abraçadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluçam
longamente.
Vem então da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se
reconhece ser Claudia.
CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam
occultos, pára; e depois, poisando a mão no hombro de Maria, diz com voz
muito meiga:
Porque choras?
MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho á irmã:
Ella?!
MARTHA receiosa:
Claudia!...
CLAUDIA
Que motivo
Gerou no teu seio a Dôr,
A negra mãe do gemido?
Conta-me tudo, mulher.
--Morreu-te um filho, o esposo,
Ou um irmão...
MARTHA ao ouvido de Maria:
Oh! meu Deus!
Como o seu falar é outro!
CLAUDIA
Tambem eu soffro ha trez dias
D'um enorme soffrimento,
E quero que na cidade
Fiquem todos conhecendo
Quanto Claudia é bondosa,
Claudia, que o povo despreza,
E quanto chora tambem
Pela morte do Profeta.
MARIA absôrta:
O que oiço!
CLAUDIA
D'uma mulher
Taes lamentos recebi,
Que um novo ser despertou
De chofre dentro de mim.
Sonhei depois, e que sonho!
Nem mesmo o posso contar...
Tão cheio de quietação,
De suavidade e de paz,
Que fiquei por muito tempo
Absorta, de madrugada,
Ao construir na memoria
Todo o sonho que sonhara.
--Eu fugira para longe,
Para um paiz tão distante,
Que este mundo em que vivemos
Não me ficava ao alcance;
E alguem cercado de luz
E de meigas creancinhas
Veio alegre ao meu encontro
Nas paragens infinitas...
MARIA
O que te disse?
CLAUDIA
Não sei...
Apenas sei que, accordando,
Não conheci a minh'alma
Transformada por encanto;
E por que um plano de morte
Estava urdido em segredo
Contra o bondoso Profeta,
Logo intentei desfazel-o,
Supplicando a meu marido
Que em seu favor empregasse
Todo o auxilio. Impossivel!
A suprema divindade
Caíra em somno profundo
No seu grande leito azul,
Deixando que o Nazareno
Expirasse n'uma cruz!...
MARIA baixinho á irmã:
E eu que ainda a accusava!...
CLAUDIA
A minha dôr reparti
Comtigo; deves portanto
Confiar tudo de mim...
MARIA espansiva:
Para quê, se tudo sabes?
CLAUDIA
Tudo sei?...
MARIA
Pois que em Judá
Nenhum rosto de mulher
Por mais ninguem chorará
N'este momento.
CLAUDIA
Por Elle?
MARIA animando-se:
Sim, por Elle, Homem-Misterio,
Que voou, como o aroma
Da pobre rosa pendida
Sobre a haste, dolorida
Pela mágua da saúdade...
--Vinde comigo, mulheres,
Orvalhar co'o vosso pranto
A boceta em que dormita
Aquelle celeste encanto.
Ide colher á campina
Braçados de malmequeres,
D'alfazema e rosmaninho,
E vinde, vinde comigo
Dispol-os naquelle ninho...
E vós, ó mães, que trazeis
No ventre o fructo do amor,
Purificae-o aspirando
O perfume e o calor,
Que se evolam brandamente
Do sepulcro sorridente,
Como as nuvens que perpassam...
... Fumo illusorio, que sobe
Com lentidão pelo ar,
E que se esvae n'um instante,
P'ra nunca mais se juntar...
E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas.
CLAUDIA suspeitosa:
Estas palavras?... Judía,
Impossivel existirem
Dois corações como o teu!
MARIA
Já não o tenho: morreu.
CLAUDIA
Como te chamas?
E vendo o rosto de Maria que se desvelára:
Maria!
MARIA caíndo de joelhos e beijando-lhe as mãos:
Sim! que se roja a teus pés
Humildemente contricta,
Para dizer-te: mulher,
Sê bemdita, sê bemdita!
CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e
abraçando-a:
Ergue-te, ó alma sublime,
Que encheste de luz a treva
E que tiveste o condão
De abafar a voz do crime
Co'o soluço do perdão.
--Tambem eu ia levar-lhe
O meu pranto dolorido
Como nunca tive igual.
És a mulher que fugiu
Para o reino do Ideal...
A terra é muito mesquinha,
E o vôo da andorinha
Convida a voar tambem...
Cingindo com os braços Maria e Martha:
Partamos, sim, pela estrada
Que nos conduz ao misterio.
Sorri ao longe a alvorada...
Vamos tranquillas, serenas,
Bater a cada poisada,
E sejam nossas palavras:
Levando-as comsigo docemente:
Vinde comnosco, mulheres,
Orvalhar co'o vosso pranto
A boceta em que dormita
Aquelle celeste encanto.
Ide colher á campina
Braçados de malmequeres,
De alfazema e rosmaninho...
E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.
O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da
madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de
Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade:
João, Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos
denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a
irresolução, o receio. Chegados em frente da muralha:
SIMÃO PEDRA que viera junto de João:
Não entres na cidade...
ELEAZAR
És muito conhecido.
O Conselho não tem desviado o sentido
Dos amigos do Mestre.
SIMÃO