Mas desde que no teu o meu olhar depuz,

Enxerguei o brilhar d'uma divina luz

Na immensa escuridão d'este viver amargo

E senti-me surgir do fundo do lethargo.

Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem,

Adorada Maria, envolta na roupagem

Tão alva como o arminho, immaculada e honesta:

No prado sorridente, em meio da floresta,

Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros,

No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros...

Por toda a parte, em summa!--Adoro-te, Maria!

No caminho da vida o teu olhar me guia...

Vem dar uma esperança ao pobre coração

Que vive para ti, que te pertence...

MARIA com ligeiro movimento de cabeça:

Não.

JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:

Oh! que negra palavra, amarga como fel!

MARIA com a voz tranquilla:

Á doutrina do Mestre...

JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:

O Mestre!...

MARIA

... és infiel.

Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro

Do que seja o dever, e que se torna avaro,

Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista!

Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista!

Se não queres viver do amor pela virtude,

Se á pureza é rebelde essa tua alma rude,

Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte:

Foge para distante, ou foge para a Morte.

JUDAS allucinado, avançando para ella:

Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala!

Fica sabendo pois que isto que me avassala,

O que por fim se espande e que ha de ser funesto,

Nunca foi do amor um sentimento honesto!

MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:

Maldito sejas tu, se acaso me tocares!

JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos,

agarrando-a:

Que importam maldições inuteis e vulgares?

Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,

Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!

E tenta beijal-a, soffrego:

MARIA evitando-lhe os beijos:

Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!

JUDAS arrastando-a para o triclinio:

Chamaste muito bem á minha ardente furia,

Como o fogo voraz, cruel e deshumana,

Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.

MARIA com a voz estrangulada, luctando:

Soccorro! Eleazar!

JUDAS pondo-lhe a mão na bôca:

Oh! cala-te!

MARIA já sem forças:

Meu Deus!

JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:

Ah! como são gentis assim os olhos teus!

Como é rosada e fina a tua debil mão!

Vaes ser minha, afinal!

Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade,

abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas,

diz n'um murmurio de desespero:

Desfallecida?!...

Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem

em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção,

com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o

contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza

lhe désse um grito na alma:

Não!!

E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos

campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um

lirio d'Issachar...

TERCEIRA JORNADA

EM 13 DE _NISAN_

TERCEIRA JORNADA

EM 13 DE _NISAN_

Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio

Pilado, tudo é silencioso, embora a noite só agora acabe de tombar.

Assenta o elevado tecto em dez columnas não distantes das paredes; é de

mosaico branco e preto o chão marmoreo. Duas portas fronteiras

communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as

diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente,

achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que dá

para um terraço resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria

d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da

quadra, ergue-se um busto de guerreiro: é de marmore branco o pedestal;

de roseo o busto, em cuja base lêmos, em caracteres romanos esculpida, a

legenda: _Tiberius Claudius Nero, Imp_. Das portas ha pendentes

reposteiros de azul e oiro. É da mesma fazenda o reposteiro que está

ornando o arco e repuxado junto ao angulo. Fitando nós o busto de

Tiberio, temos sobre a direita larga meza de citrus, onde ardem n'um

bronzeo candalabro trez vellas de cêra e pez; e perto d'ella vemos uma

cadeira d'estofado, de braços longos, costas amplas e recurvas; á nossa

esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com embutidos de tartaruga

e trez almofadas de lavor riquissimo; não distante, no chão, está

estendida grande pelle de leão do Atlas. Um armario de ébano macisso

alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta graciosa

clepsydra de bronze, onde um Éros aponta com a flécha a escala das horas

que decorrem.

Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraças, capacetes,

escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de

oiro cinzelado.

Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas

espargem frouxamente, côr de prata a que o chão do terraço reenvia e que

a Lua derrama das alturas. A cidade dormita lá em baixo; e o luar,

banhando as casarías, dir-se-ía illuminar uma necropole.

No coxim do terraço está Claudia reclinada. A tunica é de lã; escura e

longa a estóla. Tem os braços cobertos pelas mangas da segunda tunica, e

é branca a facha que os cabellos lhe prende em élos brandos. Perto de

Claudia a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar cançado o por

demais conhecido panorama.

CLAUDIA solta emfim um suspiro.

Dorme tudo na cidade.

Que silencio e que tristeza!...

GEDA

Tens então grande saúdade

De Roma?

CLAUDIA

Sim. Dizes bem:

É saúdade esta amargura,

Pois outro nome não tem

O que sinto na Judéa

Onde Poncio me exilou.

--Que horas podem ser? Vê lá.

GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se á

clépsydra. Repõe depois no seu logar a vella, e voltando para junto de

Claudia:

Salvo engano, gottejou

A segunda hora de prima...

CLAUDIA

Por Saturno, é muito cedo,

Pois não é?

GEDA

Tambem eu cria

Ser mais tarde.

CLAUDIA boceja largamente.

Agora, em Roma,

Ouve-se ainda a folia

Da multidão buliçosa,

Que de toda a parte assoma,

Soltando ao vento a harmonía

Da sua voz descuidosa...

Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mão

direita um escripto em papyro. É homem d'estatura mais do que regular, e

de idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bôca breve,

olhos negros e vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga

onde as rugas bem se ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto;

sandalhas amarellas; mãos carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro

consulta.

CLAUDIA indolente, para Geda:

Ali tens quem me trouxe para o _exilio_!

Se não dormem Plutão nem Proserpina,

Hão de cedo chamal-o ao domicilio

Onde cáem as victimas da Morte!

Muito ironica:

Que inspiração divina

Eu tive ao escolher este consorte!

Com um gesto ordena a Geda que se retire. Ergue-se do coxim, e

adiantando-se para Poncio, que não a viu:

Que novas trazes, Poncio?

PONCIO sem se voltar, continuando a lêr:

É de Tiberio

Foi-me enviado este papyro honroso.

CLAUDIA em sobresalto infantil:

O quê?! Novas de Roma?

PONCIO

O grande imperio

Continúa radiante e venturoso.

Foi porém necessario reprimir,

No principio do anno,

Certa conspiração que fôra urdida

Pelos amigos do traidor Sejano.

A mensagem termina

Aconselhando a que use da violencia.

E lê pausadamente, accentuando muito as palavras:

«Aprende em mim como o poder se eleva

E como se elimina

Todo aquelle que tenha a impudencia

De attentar contra a posse d'este manto.

Faze como eu tambem:

Reprime a todo o custo a rebeldia.

Talvez no Templo se conspire. Emquanto

Mostres sabedoria,

Espirito sensato, forte e agudo,

Podes contar comigo.

Recommenda a Claudia, Poncio amigo.

Por Jove, te saúdo».

Põe de parte o papyro e reclina a fronte na mão.

CLAUDIA que em silencio ficára appreensiva:

O que vaes responder?

PONCIO sem se mover:

Já respondi.

CLAUDIA apoiando-se nas costas da cadeira por detraz d'elle:

Permaneces?

PONCIO

Decerto, pois me cumpre.

Na perna esquerda sobrepõe a direita, fazendo-a oscillar por longo

tempo.

CLAUDIA não podendo conter a intima revolta:

Bella esperança! Hei de viver aqui,

Segundo me parece, eternamente!

--Casou Venus com Marte e foi o Amor

O que nasceu da conhecida união;

Casei comtigo, audaz procurador,

A principio amoroso, bom, cortez...

O que nasceu, por fim, d'este consorcio?

Nasceu a Insipidez!

PONCIO enrugando a testa e sem olhar para Claudia:

Pela divina _Isis_ que estás louca,

Ou requintas de véras em maldade!

CLAUDIA

Talvez seja melhor

Não despertar do Nilo a divindade!

--N'estes ultimos annos tenho sido

Verdadeiro modelo de matrona...

Sabes que ambiciona

A minha alma fugir a tal desterro,

E não queres pedir a demissão!

Imaginas talvez ser este o meio

De garantir a minha honestidade?

Pois olha, estás em erro!

Não me curvo a pressões tão aviltantes.

Se não fôr satisfeito o meu desejo,

Perderei todo o pejo...

--Inda possuo algum, valha a verdade!--

E para me vingar bem cruelmente

Serei mais leviana do que d'antes!

PONCIO que se voltára, encarando n'ella, e em tom suasorio:

Tu não vês que deixarmos a Judéa

Não seria prudente?

Tiberio é para nós inexcedivel

Em attenções, e dá-me como prémio

A confiança. Bastaria a idéa

Da minha demissão, para de vez

Nos expulsar do resumido grémio

Dos seus affeiçoados, e talvez

Depois se transformasse em vingador...

--Pede outra coisa, Claudia; nunca peças

O que julgo insensato.

Somos grandes aqui; nenhum valor

Teriamos na côrte. Não te esqueças

Da sorte de Coponio, Rufo e Grato,

Ao voltarem a Roma.

Pede outra coisa, Claudia, que por certo

Has de ser attendida.

Não me digas, porém, que vá trocar

Aquillo que é seguro pelo incerto.

CLAUDIA n'uma espansão de franqueza em que o desdem transparece:

Mas que m'importa, a mim, o teu logar,

Se eu desejo viver onde se viva?

Em Roma, na cidade portentosa,

Onde qualquer escrava é mais altiva

Que uma nobre judía virtuosa!

Onde Gelanio, o deus das gargalhadas,

Desinfecta as emmanações palustres

Da tristeza! onde as pedras das calçadas

Falam até de tradições illustres!

Quero fugir d'este mortal supplicio

Para onde o meu ser se espanda e vibre;

Participar no seductor bulicio,

E ver á tarde o Sol beijar o Tibre!

Assistir como outr'ora aos festivaes

No grande circo onde o valor impéra;

Vêr athletas sanguineos, triunfaes

E ouvir os rugidos d'uma féra!

Beber o doce vinho de Falerno,

Ser cortezã, de novo rir e amar...

Dêem-me vida longe d'este Averno,

E que m'importa, a mim, o teu logar!

PONCIO resoluto, imperioso, deixando caír na meza a mão espalmada:

O que uma vez escrevo, escripto fica!

Depois, mais brando:

Não fugirei ás ordens de Tiberio.

De mais, coisa nenhuma justifica

Em solidas razões o que me pédes.

E volta á primitiva posição.

CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a cólera:

Disseste?

PONCIO indifferente:

Disse.

CLAUDIA

É caso firme e assente

Permanecer?

PONCIO

Que dúvida!

CLAUDIA

Não cédes

Nem aos meus rogos?

PONCIO

Não.

CLAUDIA muito a sério:

És imprudente...

--Sabes que fui amante de Tiberio?

PONCIO bamboleando a perna e sem mudar de expressão:

Tenho ouvido dizer.

CLAUDIA

Não desconheces

Que se é meigo, tambem é vingativo

O meu caracter. Pois talvez um dia

Desappareça o teu falar altivo.

Tiberio, com certeza,

Muito embora já tenha algumas cans,

Ha de ainda lembrar-se da belleza

Das suas cortezãs...

PONCIO franzindo lévemente o sobr'olho:

Não comprehendo bem. Com isso tudo

O que vens a dizer?

CLAUDIA sorrindo, palaciana e misteriosa:

Que te saúdo...

E recolhe em silencio aos seus aposentos, deixando tombar atraz de si as

prégas do reposteiro.

Poncio ficou sósinho, meditando. Logo apparece no terraço o Ostiario que

veio do andar terreo pela escada exterior.

O OSTIARIO

Poncio, recebes agora?

PONCIO erguendo-se:

E quem é que me procura?

O OSTIARIO

O sacerdote judeu

Hanan.

PONCIO surprezo, como comsigo:

Hanan procurar-me

Na Torre Antonia, a esta hora?

--Ostiario, succedeu

Alguma coisa?...

O OSTIARIO

Não sei.

O povo está socegado.

PONCIO depois de reflectir:

Manda entrar o sacerdote

Para aqui mesmo.

Retira-se para o terraço o Ostiario. Poncio, que ficára preoccupado, diz

como comsigo:

Cuidado!...

Vae buscar uma adaga á panoplia mais proxima e mette-a no cinturão; pôe

em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio.

Senta-se novamente na cadeira.

A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho

appareceram no terraço; são dois homens, cujos semblantes o luar

illumina. Um é Judas; o outro um velho de setenta annos, mas válido e

robusto--o ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaíapha.

Meão d'estatura, barba cerrada e não comprida onde abundam as brancas,

assim como no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz

adunco, olhos azues e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde

filho d'Israel: tunica e manto, mitra redonda no alto da cabeça;

chinellos muito usados. Dir-se-ía que tal modestia d'aspecto foi um

calculo, um disfarce... Ha porem na sua fisionomia e na voz resoluta e

aspera a expressão da velhacaria e do mando.

O Ostiario retirou-se pela escada. Judas foi postar-se junto do busto de

Tiberio, com ar matreiro, e d'ali segue attento as fases do dialogo a

que vamos assistir.

HANAN que se adiantou até á presença de Poncio, curvando-se perante

elle:

Tenho intima alegria, ao ver que no teu rosto

Amavel transparece um juvenil composto

De puro entendimento e de vigor e saúde.

No falar respeitoso, humilde na attitude,

O sacerdote Hanan ao grande Poncio envia

Protestos de leal e eterna simpathia.

PONCIO que nem para elle olhou, desdenhoso:

O alamo gigante, ao estender os braços

Como para cingir Apollo, que os espaços

Domína, mostra quanto é grande na affeição,

Mas fructos não produz: É como a adulação.

--Hanan, ouvir-te-ei attentamente.

HANAN fingindo não ter percebido:

Vim

Para que tu me dês auxilio.

PONCIO ironico:

Como assim?

De noite? acompanhado?

HANAN

Este homem ouve, e cala

Tudo o que ouvir. Demais, é-nos preciso.

PONCIO voltou-se um pouco, lançou um rapido olhar a Judas, e depois,

encostando o braço á meza e com a cabeça reclinada na mão:

Fala.

HANAN muito submisso de começo:

Embora nos vencesse a furia dos romanos

Em tempos que lá vão; embora muitos damnos

Haja soffrido o povo heroico d'Israel,

Ás suas tradições conserva-se fiel,

Na crença do seu Deus respeito manifesta.

Religião sómente é hoje o que lhe resta,

Porque tudo entregou ás mãos do vencedor;

Por isso ha de manter, altivo e com fervor,

O que elle considera um virginal trofeu!

--Dize-me então se é justo ou não é justo que eu

Procure lealmente ao povo garantir

A crença de Moysés, agora e no porvir.

PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle

desdem dos romanos pelos povos vencidos:

Não sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo

Uma coisa que eu penso ha muito a sós comigo:

Do leito has de saír com mais celeridade

Para zelar melhor a tua propriedade,

E com menos se alguem te fôr dizer, de rastros,

Que descobriu no ceu ladrões roubando os astros.

HANAN offendido, elevando a voz:

Duvídas de que seja o meu falar sincero?

Julgas que estou mentindo, e em nada considero

A minha crença?

PONCIO olhando para elle de fito, severamente:

Olá!...

HANAN matreiro:

Desculpa-me. Prometto

Não me exaltar de novo, ó Poncio.

PONCIO sem desviar d'elle o olhar:

O mel do Hymetto

Agrada a toda a gente... e fica bem na fala.

HANAN muito submisso:

Dou-te razão; mas vê que dôr nenhuma eguala

A dôr que sinto. E não terei motivo? Escuta:

Aquella sã doutrina, a doutrina impoluta

Que nos deixou Moysés, o grande fundador

Da nação, que livrou das garras do oppressor

O povo escravisado, e que á ditosa grei

Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei!

A doutrina sublime, erario de virtudes,

Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes

Provações...

PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico:

Vaes falar d'alguem profeta novo,

Que anda por'hi talvez a amotinar o povo

Contra os amigos teus?--Pois hei de protegel-o.

Apraz-me não tocar nem siquer n'um cabello

D'esse homem.

HANAN refreando a cólera:

Mas porquê? Terás razões secretas?

PONCIO

Quem as tem não sou eu: são elles, os profetas,

Ao falarem de ti.

HANAN com ironia e falsa humildade:

Então! sê razoavel

E mostra coherencia, ó tiranno implacavel!

Um cadaver de mais, um cadaver de menos,

É coisa que não leva aos teus dias serenos

Nenhuma inquietação, nenhum remorso.

Animando-se pouco a pouco:

E quando

Um sacerdote probo e honesto e venerando

Em nome da Judéa a morte solicíta

Para um vil criminoso, o teu rancor hesíta?!

Esplodindo, francamente:

De cumprir o dever percebo o que te afasta:

Quem te fala sou eu, que tu odeias!

PONCIO fitando-o enfurecido, dá um murro na meza; e erguendo-se:

Basta!

Sabes que essas razões não oiço, nem toléro,

E que digo uma vez que não, quando não quero!

--Como o poder de Roma aos homens do Conselho

Tirou todo o poder de tingir de vermelho

N'um banho sanguinario os corpos fraternaes,

Privados de lavrar sentenças capitaes

Sem que eu lhes dê meu voto, imaginaste, Hanan,

Que eu poderia, qual infame barregã,

Despejar a vergonha á rua, como o lixo,

Para satisfazer depois o teu capricho?

Porque uma voz protesta e clama contra o vil

Conselho que assoberba o povo e que, febril,

Anda a espiar na sombra, a procurar o instante

Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante;

Porque um homem possue a civica ousadia

De guerrear talvez a tua hipocrisia,

Venerando ancião, tiveste uma lembrança:

Transformar o meu voto em arma de vingança

Cobarde! Sim! Bem vejo a idéa que te inflamma!

Agarrando no pilo:

Pois digo-te que nunca has de caír na lama

Co'o pilo de oiro! Não! D'Oriente a Occidente,

A aguia de Roma é grande, e nunca foi serpente!

E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se.

HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o á bôa paz:

Eu não falo por mim; eu falo por Moysés,

Cuja doutrina tem sido calcada aos pés

D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha

Ao direito e á lei; que os pobres arrebanha

Só para dizer mal dos grandes e dos ricos;

Que dirige a palavra aos seres impudícos,

Ás mulheres venaes, aos infimos ladrões;

Que anda em nome de Deus a conceder perdões

A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino,

Se atreve a inculcar como um ente divino!

PONCIO tranquillo, sorrindo:

Quem sabe?... Pode ser...

HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:

O quê?!

PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras:

Se te reféres

Ao Nazareno em vão me falas. Nunca espéres

Que eu ponha ao teu serviço a minha autoridade

Para o matar. Não mato uma celebridade.

Conheço-o muito bem. Inda ha trez dias teve

Uma grande ovação. De resto, não se atreve

A suscitar no povo o odio contra o Império:

Deseja que se entregue a Deus e a Tibério

O que pertence a Deus e o que pertence a Roma.

Agrada-me o desejo. É o melhor diploma

Que lhe ha de garantir a minha protecção.

HANAN ao ouvido de Judas:

Ficou tudo perdido, ó Judas.

JUDAS reservadamente:

Ainda não.

Péde para eu falar.

HANAN

Duvído...

JUDAS

Experimenta.

HANAN muito supplicante a Poncio:

Senhor, ouve as razões que este homem apresenta:

Conhece o Nazareno, e sabe tudo...

PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:

Vá.

Pode falar, mas bréve.

JUDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si,

firme, resoluto, assim começa:

Eu nasci em Judá.

Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso,

Me curvei de Tibério ao vulto majestoso.

--Engana-te, senhor, aquelle que disser

Que o profeta de quem falou Hanan requer,

Como acabei de ouvir, as attenções do povo

Para o império de Roma.

PONCIO estremeceu, carregou o semblante:

O quê?

JUDAS com sinceridade hypocrita:

Não me demôvo

De dizer a verdade, inda que soffra o peso

Do remorso, indicando um amigo indefeso

Á justiça de Roma e do Conselho! Brado

Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado!

O Profeta conspira, em intimo rancor,

Contra a lei de Moysés e contra o vencedor!

--De tal conspiração confio-te o segredo...

Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora,

insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á

curva da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e

fixo em um ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem

dos labios de Judas como subtil veneno.

Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo

Austero, alcantilado, enorme?--Toda a gente

Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente,

Que do seu dormitar ninguem o accordaria,

Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria

Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu...

Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu,

Barafustou no espaço, e com fragor medonho

Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho!

--Que forças colossaes, que forças imprevistas

O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas

Majestosas, assim que despontava ao largo;

A Lua namorada, em languido lethargo,

Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,

Que as lagrimas do ceu tornavam tão macío

Como um peito de cisne ou face de mulher...

O proprio Creador do Mundo nem siquer

Lhe causava receio. Em doidas convulsões,

Um raio desabou das vastas amplidões

Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada,

Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada!

--Que forças colossaes, que forças imprevistas,

Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas?

Que forças?--Perguntae-o áquella massa informe,

Que por vezes murmúra e que por outras dorme

Em profundo silencio; interrogae o Mar,

Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar

Do horisonte sem fim, da solidão distante,

Para oscular os pés do impávido gigante!

Interrogae o vil hipocrita, que ao passo

Que era meigo e humilde, em fraternal abraço,

Tratava de roer, silenciosamente,

As bases do colosso athletico e indiff'rente,

Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho,

No abismo tombou com fragor tão medonho,

Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito,

Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!

PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços

alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da

vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.

Ha colossos que teem gigantes nas entranhas,

Féros como leões, grandes como as montanhas!

Possuem dos clarins as frases inspiradas,

E fusilam do olhar relampagos d'espadas!

Ó mares da perfidia, andaes a carcomer

As bases do colosso herculeo do poder?

Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes!

Ondas que assim correis, que vindes em galopes,

Apressadas, servís, infames... Para traz!

Que para reprimir a vossa furia audaz,

Para que o vosso dente ao monstro não carcoma,

Basta um simples olhar dos hercules de Roma!

E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto:

Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro

Se falaste verdade, ou se acaso labóro

Em uma vil intriga! A dúvida me envolve...

Mas n'esta situação o meu poder resolve

O que julga efficaz. Esse traidor proféta

Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa méta

Da existencia. Vou dar a ordem da prisão

Do Zéfiro subtil com furias d'Aquilão!

HANAN detendo-o, supplicante, receioso:

Sê prudente, senhor. O sangue d'innocentes

Não deverá correr. Escuta os meus prudentes

Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Judéa!...

Escuta-me, por Deus! e a indignação refreia!

Tenho medo do povo... elle é tão leviano!...

Será muito melhor seguir o nosso plano.

PONCIO sem querer ouvil-o:

Que poderá falhar!

HANAN n'um protesto:

Que é firme!

JUDAS

Que é seguro!

HANAN matreiramente:

Uma escolta romana ao meu dispôr, e juro

Por Moysés que ámanhã de noite será preso

O Nazareno.

E em tom de muita confiança, como velha autoridade que bem conhece os

seus governados:

O povo ha de ficar surpreso,

Ao saber no outro dia a grande nova. Embora!

Não deve protestar, porque elle não ignora

Que é depois d'ámanhã o dia consagrado

Ao festejo da Paschoa. Assim, manietado

E mudo, ha de assistir ao julgamento e morte

Do Proféta.--Senhor, bem vês que d'esta sorte

Moysés perde um rival, Tibério um inimigo.

--Este homem prometteu que ha de ensinar o abrigo

Onde fica de noite o Nazareno occulto

E os discipulos...

JUDAS

Que hão de fugir ao tumulto...

PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio:

«Um cadaver de mais, um cadaver de menos

É coisa que não traz aos meus dias serenos

Nenhuma inquietação, nenhum remorso...»--Hanan,

Dás-me a tua palavra...?

HANAN

O Proféta, ámanhã

Por esta hora, se Deus não se mostrar contrário,

Ha de estar preso.

PONCIO

Bem! Pois n'esse caso...

Dirige-se ao terraço e batendo as palmas, chamando:

Ostiario!

Judas: Romance lirico em quatro jornadas · 第 3 / 5 段