Olha que talvez pense

Em prender-te, e depois nada ha que recompense

O inutil sacrificio.

SIMÃO PEDRA

Ao teu valor opponho

Todo o meu raciocinio.

JOÃO que ficára immovel olhando para a muralha da cidade:

Ainda julgo um sonho!...

GAMALIEL encostado ao bordão, a meia voz, rancoroso:

Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida,

Como o escravo traidor, como o ladrão!...

JOÃO irrompendo:

Ó Vida,

E continúas tu dando vigor a quem,

Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem!

Profetas de Sião, da campa alevantae-vos

Para escrever ali com sanguinarios laivos

Esta nefanda historia, este inarravel crime!

Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime,

E que a mão do Senhor, terrivel, iracundo,

Em látegos crueis com ella açoite o Mundo!

SIMÃO PEDRA

Co'a doutrina do Mestre o odio não se casa...

GAMALIEL por entre dentes:

Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza!

JOÃO desalentado:

E assim tudo acabou!...--Saúdosa Galilea,

Onde sorris tranquilla, ó minha pobre aldeia!...

Quantas recordações do teu ceu, do teu ar,

Dos dias que passei no teu sereno mar,

Das noites que dormi na relva da campina,

Tão descuidoso! Mãe da excepcional doutrina,

Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores

As almas infantis d'ingénuos pescadores,

Fazendo-os caminhar atraz d'uma visão,

Confiados, como vae por entre a cerração

A barquinha velleira ao descobrir farol!

Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol

Canta serenamente em noites estivaes;

Macieiras em flôr; regatos que passaes,

Ondeando, como ondeia á brisa, levemente,

Da aldeã virginal a trança refulgente...

Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte,

Que te elevas no fundo azul do horisonte,

Redondo como um seio a amamentar os astros...

Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros,

Rochedos, alcantís, seáras e pastagens,

Que bordam a primor tuas alegres margens...

--Eis aqui finalmente a horrivel derrocada!

A solida affeição dos Dôse feita em nada;

A cegueira vencendo; a Luz amortecida;

A tripudiar em nós um ladrão homicida;

E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto,

Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!...

--E assim tudo acabou!

GAMALIEL avançando para elle nervosamente:

Quem fala de acabar?

O fogo ainda não se extinguiu no altar

Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos

Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos

Não deixaram de todo os nossos corações!

JOÃO desanimado:

Que havemos de fazer?...

GAMALIEL animando-se e animando-o:

Povos, religiões,

Autoridades, leis, é tudo movediço

E débil como ao sôpro um tímido aranhiço!

SIMÃO PEDRA

Queres dizer então...

ELEAZAR

A lucta?!

GAMALIEL

Braço a braço,

Não se deve luctar. Seria um erro crasso

Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae

Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!

JOÃO erguendo-se:

O que pensas?

GAMALIEL

Que chega a ser um attentado

Á memoria do Mestre abandonar o arado

Com que elle andou lavrando a consciencia humana!

Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana,

Que esfria os corações e purpurisa as ruas!

Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas!

Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!

SIMÃO PEDRA

Mas faláste de lucta.

GAMALIEL

Humilde, mas sem trégoas;

Branda, mas incisiva; humana... mas divina!

Como arma, aquelle dom secreto que extermina,

Ferindo os corações sem que haja soffrimento.

Ruge, como o trovão e géme como o vento,

Murmúra como a fonte e estála como o raio,

Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio;

Dolente, acaricía; em furias, escalavra!

Esta arma triunfante, esta arma...

JOÃO com o olhar brilhante:

É a palavra!

Mas logo receioso:

Falar ás multidões...?

SIMÃO PEDRA tambem receioso:

Continuar...?

GAMALIEL

Decerto!

Entrando no porvir que Elle deixou aberto.

Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir

O caminho traçado entrando no porvir,

E esse alguem és tu!

JOÃO n'um sobresalto:

Eu?

ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo:

Sim, João!

SIMÃO incitando-o:

Ninguem

Melhor que tu!

SIMÃO PEDRA secundando já agora Gamaliel:

Qual é de nós o que mais tem

O verbo inspirador, altivo e fulgorante?

JOÃO indeciso:

Simão, Gamaliel, amigos... Ai!

GAMALIEL

Ávante!

ELEAZAR

Para gloria do Mestre!

SIMÃO

E gloria tua!

SIMÃO PEDRA

E nossa!

GAMALIEL

É bella a occasião...

JOÃO

E quem vos diz que eu possa?...

SIMÃO PEDRA

Serás novo profeta, aproveitando o exemplo...

GAMALIEL agarrando João por um braço:

Vão começar agora os canticos no Templo.

Anda comnosco!

ELEAZAR

Vem!

SIMÃO PEDRA

Sê forte!

GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo:

N'um instante,

De povo te verás cercado...

JOÃO n'uma grande espansão:

Ávante! Ávante!

É preciso arrancar ao morbido lethargo.

A doutrina do Mestre!

GAMALIEL em doida alegria:

Emfim!

JOÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:

É meu o encargo!

O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora

A escada de Jacob á luz da meiga aurora.

Por ella vae subindo um côro triunfal

Proclamando no Espaço o amor universal

E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio.

Ávante! Não desabe o sólido edificio

De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro

Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro,

Enriqueça de novo a consciencia humana!

Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana!

Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia,

Uma scentelha só do genio teu envia

Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria

Que torne a minha voz da tua a emissaria!

--Vamos, Gamaliel!

GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:

Gloria ao profeta novo!

JOÃO vibrantemente:

Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!

Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de

GAMALIEL bradando:

Negra Jerusalem, escuta, ó assassina,

D'aquelle que morreu a divinal doutrina!

E depois, mais distante:

Ouve, Jerusalem, que matas os profetas,

As palavras que são do teu Senhor dilétas!

E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez

menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e

tortuosas ruas da cidade.

No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o

dinheiro da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo.

D'ali ouvira as ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel.

JUDAS com desdem:

«Gloria ao profeta novo!»--Insensatos! João,

Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!

Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo

alguem que se approxima, recúa e estáca.

Maria?!

MARIA parando tambem:

Judas!

JUDAS, desvairado:

Ah! cobarde salteador

D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor?

O olhar, que seduzia, infunde repugnancia!

O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia,

Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar,

Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar

A carne do meu crime! Odeio-te!

MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:

Não vim

Trazer o meu amor.

JUDAS

Que queres tu de mim?

Trazes-me o teu perdão?

Solta uma risada nervosa.

MARIA

O riso da demencia

Nunca ha de suffocar a tua consciencia,

Que géme e se revolve em negro torvelinho.

Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.

JUDAS impedindo-lhe a passagem:

E a maldição ha de ir seguindo-te as pisadas!

MARIA

A tua maldição... as tuas gargalhadas!...

--Como o teu odio é bom!

JUDAS

Inda não é bastante

Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante,

Como eu satisfaria este voraz desejo:

Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo!

Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois,

Fruir o teu amor, e arrojar depois

O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres

Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres!

--Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...

MARIA muito calma:

P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo:

O mundo é tão cruel que aleives não reprime,

Se junto da virtude elle descobre o crime.

Mas entretanto... foge!

JUDAS rindo febril:

Acaso me suppões

Tão cobarde que vá fugir sem ter razões

Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?

MARIA

E se o Mestre voltar?

JUDAS rindo:

Que doida fantasía!

MARIA

Se o visses novamente?

JUDAS de subito receioso:

Eu? vêl-o?

MARIA

Sim!

JUDAS

Não creio!

A morte é vasto abismo...

MARIA, dogmatica:

Abismo, cujo seio

Não poderá conter o que era illimitado!

JUDAS acobardado:

Que dizes tu, mulher?!

MARIA em tom profetico:

Que dorme inanimado

O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio

Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio,

Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário,

Como o trabalhador que não requer salário

E que só tem por fim realisar o plano

De ha muito concebido. Em vão o olhar humano

Procura descobrir o que existe no centro

Do casúlo: o misterio é silencioso dentro.

Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto,

Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!

JUDAS tomado de vago terror:

Justos ceus!

MARIA animando-se:

Has de vêr, com a tua alma inquieta,

Saír do seu casúlo a enorme borboleta,

Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,

Encher de luz o espaço e de pavôr a terra,

Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...

JUDAS trémulo:

E caír sobre mim co'o azorrague em punho!

MARIA terrivelmente:

Emquanto não voltar, os olhos do covarde

Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde:

Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro,

Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!

JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:

Não pode ser, não creio...

MARIA perseguindo-o:

Ha de falar-te, Judas,

Á tua consciencia abjecta!

JUDAS tentando occultar o rosto:

Não me illudas,

Que eu nada vejo!

MARIA erguendo o braço:

Vês pairando sobre ti

O Remorso, o fantasma eterno!...

JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e

apontando tambem, trémulo, allucinado:

Ali! ali!

Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!

Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia

Que vae falar-me!--Oh! cala-te! Fui eu

Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu!

Não me accuses, que sinto em mim a accusação;

Tem os dentes da cobra e as garras do leão!

Anda aqui dentro--ouviste?--a esfarrapar-me todo!

Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo,

Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome,

Que nem os proprios cães matem comigo a fome!

E apontando de novo, como um vidente:

O respirar opprésso... o corpo no madeiro...

Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro...

Exactamente!--Eléva os olhos para os ceus;

A agonia final chegou: fala com Deus...

A cabeça descae no peito: vae morrer...

E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:

Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!

E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o

rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.

MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:

Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço.

Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso.

Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação...

A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão,

Passiva e sem vigor n'este fatal momento

Assim como o enforcado a baloiçar ao vento...

--Adeus.

E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.

Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados

de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então

JUDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu

espirito deixaram as ultimas palavras de Maria:

«O enforcado?...»

E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia:

Emfim para que existo?

Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com

que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria

aquellas palavras de João que elle repéte machinalmente:

«As estrigas de linho...»

E prevendo o effeito:

Um laço... um nó...

Resoluto:

--É isto!

Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio,

vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente:

Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante

Correr atraz de mim um grito retumbante

E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus

Quem pode combater a cólera de Deus?

Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo,

Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo!

Não fugirei!--Se fico, atrocidades cruas...

Hei de ser arrastado ahi por essas ruas,

Padecerei do povo horríficos flagellos:

Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos,

E transformar em lama o corpo do homicida!

--Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida!

De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista:

Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço

Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço!

A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a!

Que importa! Serei grande até na propria infamia!

Allucinado novamente:

Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade!

Renego do respeito e amor á Divindade!

Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda!

E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito:

Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda,

Para insultar a Vida, essa madrasta bruta,

Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta!

E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme,

Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!

E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.

É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam

passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as

vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida

melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente

grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.

João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra,

Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham

todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem

João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os

braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno

oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com

os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a

direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no

chão, já secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta

novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de João, destaca-se

fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal.

E é então que

JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e

vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:

Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta!

Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim;

Elle quem libertou da escravidão funesta

O povo d'Israel... Elle descansa em mim.

Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim!

Seja bemdito quem ouvir e conservar

As palavras que encerra a minha profecia!

Quem tem ouvidos, oiça! e purifique o olhar,

Porque já não vem longe o tenebroso dia

Em que todos vereis a minha profecia!

--Despenham se na terra os astros refulgentes;

O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue;

Varíam de logar ilhas e continentes;

A Grandeza estremece e vem caír exangue...

O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue...

..............................................

Escripto em 1888-1890

Acabado de imprimir

aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901

na Imprensa de Libanio da Silva

Rua do Norte, 87 a 103

Lisboa

Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipográficos. Na lista que segue estão as alterações mais importantes.

Pág. Original Corrigido

20 abnadonam Maria abandonam Maria

18 Pois eu sou tou Pois eu sou tão

25 JÕAO PEDRA, com o braço direito SIMÃO PEDRA, com o braço direito

30 a aragem fresca e permada a aragem fresca e perfumada

Judas: Romance lirico em quatro jornadas · 第 5 / 5 段