Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres

Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres

Supplícas com aspecto humilde uma parcella

P'ra o Mestre!--Na verdade, é preciosa e bella

Tanta dedicação! Provoca o elogío!

--Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío

O teu olhar matreiro, o brilho da avareza

A dar-lhe um tom sinistro?--Odeias a pobreza!

Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas

Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!

JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o

olhar ameaçador:

João!

JOÃO cruza os braços e sereno:

Podes bater, amigo! Por que esperas?

Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E

João, agora ainda mais excitado:

E chamas illusões! e vens chamar chiméras

Ao que é verdade núa e positiva?!--Agora

Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora;

No actual momento em que até eu vacílo,

Presentindo que não poderá ser tranquillo

O futuro do Mestre e de nós todos, mudas

Em odio declarado essa frieza, Judas?!

Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso?

Confessa que proveito, ou que terrivel goso

Encontras n'essa infamia abjecta!

Desesperado pela indifferença apparente de Judas:

Que supplicio!

Não poder arrancar-te ao menos um indicio!

Não poder descobrir a causa que assim léva

O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva!

Ah! não poder, depois do que disseste aqui,

Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!

E senta-se, febril, n'uma das camilhas.

JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente,

diz-lhe emfim com muita ironía:

Está bem! muito bem! Ao menos, esperava

Que soubesses deter a incandescente lava,

Que todo me queimou, transformando em carvão

A minha consciencia... embora de _ladrão_.

Resoluto, firme, altivo:

Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino;

Mas isso que te importa? Um ser tão viperino,

Como eu, só tem logar no meio da ralé,

E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!

JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:

Acalma a excitação, Judas. O principal

Resume-se, ao presente, em confessares qual

A origem do teu odio. É isto o que eu te peço,

É isto o que eu desejo.

JUDAS n'um brusco impulso de independencia:

Isso é que não! Confesso

Á minha consciencia o que me vae no peito!

Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito

De desvendar em mim reconditos misterios?

Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios!

--Pediste por acaso ao mar em que nasceste

Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste

A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo?

Pois o meu coração como elle é tão profundo,

Que se alguem pretendesse abrir uma passagem,

Teria de morrer submerso na voragem!

João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem,

detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas

verdadeiras intenções:

Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça

Conseguirei vergar esta alma tão submissa.

Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis...

Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis,

Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos,

Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos...

Depois quando vier o derradeiro instante,

Desamparado, nú, febril, agonisante,

Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas,

Em vez de maldições, tem palavras bemditas,

Para quem desprezou teu pobre coração,

Deixando-o succumbir como se fosse um cão!

--Adeus e para sempre.

Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:

Acceita em pensamento

O que d'aqui te envio: em tão cruel momento,

Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo

Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo

Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha!

--Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.

E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:

Canalha!

JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria

consciencia:

Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se

Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse

Pedir ao exagero o auxilio necessario

Para augmentar de vulto o crime involuntario,

Ou a leviandade alheia á malvadez.

Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez

Arrastar pelo mundo uma existencia nua

De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...

Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de

Bethania.

ELEAZAR indicando João aos companheiros:

Eil-o aqui está! E nós á tua espera!

SIMÃO PEDRA

São horas de partir para a cidade.

JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu

pensamento entregue ao Mestre:

Não deve ser pequena a caravana!

MATHEUS

Junto do Mestre, o povo delibera

Acompanhal-o.

SIMÃO PEDRA

O que é grande imprudencia!

JOÃO

Grande imprudencia?!

SIMÃO PEDRA

Os nossos companheiros

Em vão procuram com docilidade

Suster o passo á gente leviana...

JOÃO

E porquê? Não são elles verdadeiros

Defensores do Mestre?

SIMÃO PEDRA

Mas reflecte...

JOÃO

O povo quer seguir-nos? Pois que venha!

SIMÃO PEDRA

Mas pode provocar algum tumulto.

É preciso que a dentro da muralha

Evitemos qualquer indisciplina.

JOÃO

Tu que dizes? Que pensamento occulto

Encerram taes palavras? Será crivel

Que te arreceies da imbecil gentalha,

Que anda a rosnar as suas ameaças

Contra a força que temos, invencivel,

Justiceira e tremenda?!

SIMÃO PEDRA

E porque não?

Onde possues algemas e mordaças

Para conter as furias imminentes?

Pode acaso fugir-se a uma traição?

Reflecte bem: devemos ser prudentes,

Evitando que Hanan tenha pretexto

Para exercer emfim uma vingança,

Roubando ao Mestre a preciosa vida.

JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:

Não tens portanto uma unica esperança

Em ver surgir a aurora promettida?

--Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto

Do Profeta, que vamos afinal

Assistir ao enorme vendaval,

Que ha de causar a todo o mundo espanto!

Da Lei não ficará nem uma linha,

E as pedras do Templo hão de cahir!

Eu antevejo, amigos, o porvir,

Que de instante a instante se avisinha!

Como cães a ulular, de toda a parte

Hão de saír as abominações!

Entre espadas de fogo e maldições,

Vae tremular um sólido estandarte!

Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus

Ribombará como um trovão gigante,

E o vento ha de levar para distante,

Onde não haja terra, mar, ou ceus,

As ultimas parcellas do monturo

A que chamamos hoje humanidade!

Álerta! vae rugir a tempestade!

--Confia em Deus! Espera no futuro!

Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:

Gamaliel?!

GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João.

Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova

terrivel.

Eu proprio. E vejo que cheguei

A tempo de lembrar que existe de uma Lei

A rispida crueza, a inquebrantavel força,

E que por mais que a tua exaltação retorça

O positivo, elle ha de emfim prevalecer!

Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder.

--O perigo é enorme.

Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:

Ouvide: Nicodemo,

Um homem de honradez e que respeita em estremo

O vosso Mestre, não me occulta o que se passa

A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça,

Fazendo-se abortar o plano vingador!

TODOS em sobresalto:

Um plano?!

JOÃO

Como?!

SIMÃO PEDRA

Dize!

MATHEUS

É de grande valor

O que disséres.

JOÃO

Sim! deves dizer-nos tudo!

E acercam-se d'elle ainda mais:

GAMALIEL pausada e custosamente:

Hanan possue no genro o seu melhor escudo.

Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote,

Foi para ter alguem que cegamente vote

Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança

Dos homens do Conselho estima e confiança.

E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:

Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta,

Por elles foi votada a morte do Profeta!

SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus:

O meu presentimento!

MATHEUS, convulsamente:

Infamia!

JOÃO, n'um grito:

Cobardia!

ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:

É tempo de calcar aos pés a tirannía!

Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se,

animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes

cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio.

GAMALIEL

Tende serenidade!

JOÃO

Oh! não, Gamaliel!

ELEAZAR

Liberte-se de vez o reino d'Israel!

GAMALIEL

Que poderá tornar-se em grande mar vermelho,

Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!

JOÃO

As espadas de Roma, as furias de Tiberio,

Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio!

O povo ha de gritar, raivoso, leonino,

Rasgando a face impura ao despota assassino!

GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos

olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:

Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto

No livro da experiencia, amigos, que é de pranto

A minha pobre offerta á causa alevantada!

Vós não podeis brandir a rutilante espada;

Nem elle, todo amor, consentiria nunca

Na transfiguração do verbo em garra adunca.

Parti, pois que é preciso apparecer ao povo,

Mas fugide a que venha um incidente novo

Aguçar ao tiranno o sanguinario intento.

Entrae com desassombro a porta do aposento

Onde finge dormir, silencioso, o crime;

Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime

O seu rancor feroz!

SIMÃO PEDRA tambem resoluto:

Seja o que Deus quizer!

JOÃO

Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher,

Pode esfriar em mim a indignação!

GAMALIEL

Piedade!

ELEAZAR

Vamos!

MATHEUS

Jerusalem!

SIMÃO

Coragem!

JOÃO

Na cidade

Havemos de formar com os nossos companheiros

Possante legião d'impávidos guerreiros!

E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho

Gamaliel.

Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada,

Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta

em grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á

janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de

Jerusalem.

MARTHA

E uma vez que partiram

Para a cidade, afinal,

Entreguemo-nos agora

Ao que julgo essencial:

Tratemos da nossa casa.

MARIA, indolente:

Espera. Não tenhas pressa...

MARTHA

É que está tudo em desordem,

E o nosso irmão começa

Dentro em breve a murmurar

Que ninguem aqui trabalha!...

MARIA

Martha, vae tu repoisar,

Que eu tratarei do preciso.

MARTHA

Não teimes, que me aproveito

Do teu conselho.

MARIA

Careces

De alguns momentos no leito;

Deves estar fatigada.

MARTHA

E não te enganas. Ergui-me

Ao romper da madrugada...

MARIA

E foste uma das primeiras

Que se juntaram co'os Dôse

No Monte das Oliveiras,

Onde passaram a noite,

Como é costume.

MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:

E não ficas

De mal comigo?

MARIA

Porquê?

Se em nada me prejudicas...

E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:

O que ha de novo, Judas?

JUDAS

Nada sei...

MARTHA muito admirada:

Não quizeste partir para a cidade?

JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:

Como vês, não parti... pois que fiquei.

MARIA

E porquê?

JUDAS

Porque o somno que me invade

Exige para o corpo algum repouso.

Vae alto o Sol; de ha muito manifesta

Que brilha no seu ponto mais radioso,

E que são horas de dormir a sesta.

MARIA, sem o fitar, serena:

E vaes dormir?

JUDAS cerrando as palpebras:

O Livro dos Proverbios

Alguma coisa diz... «Quem se julgar

Com pequenos desgostos, exacerbe-os

A dormir, a dormir... e a sonhar...»

--Se durmo, para onde é que foge a vida?

Para fóra de mim quem a conduz?

Encontrará descanso na guarida

Para onde, ao apagar-se, vae a luz?

Ao despertar depois, quem reacende

No cerebro o fulgor que relampeja?

Quem é que nos dá vida ou que a suspende

A seu prazer?

MARTHA com muita convicção:

É Deus...

JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:

Talvez que seja.

MARTHA surpreza:

Talvez?!

Muito baixinho ao ouvido da irmã:

Extranho o Judas!

JUDAS

Sim, talvez;

Porque não julgo prova de criterio,

Antes se me affigura insensatez,

Explicar um segredo co'um misterio.

MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção,

melodiosamente:

Anda a tua alma fugida

Ao bom caminho da crença...

Quem foi que d'elle a affastou

E que dentro em ti deixou

Uma escuridão immensa?

Hontem á noite... (Desculpa

Se acaso te contrarío

Ao falar agora d'isto)

Por todos nós foi mal visto,

Judas, o teu desvarío.

De tão modesta homenagem

Não era merecedor

Aquelle Mestre sublime

Em cujo rosto se exprime

A bondade e o amor?

--Anda a tua alma fugida

Ao bom caminho da crença.

Que Deus de novo a conduza

E o brilho reproduza

Na tua alma, treva immensa!

Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o

convencido, diz então baixinho á irmã:

Não responde. Pode ser

Que facilmente consigas

Descobrir toda a verdade.

MARIA, querendo esquivar-se:

Eu?

MARTHA

Com palavras amigas

Interroga-o, porque, em summa,

Custa ver n'um coração,

Que deveria ser meigo,

Semelhante ingratidão.

E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado.

Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas,

observa-a.

MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo

a si propria:

É mais prudente...

E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:

JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:

Maria,

Pareces que vaes fugindo...

MARIA baixando o olhar:

Para não te incommodar,

Quando estiveres dormindo.

E retira-se tambem, fechando a porta castamente:

JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se,

perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por

onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos

joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:

É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa...

Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa,

Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim.

Provem este rancor, que ella sente por mim,

Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala,

Do ente extraordinario a que nenhum se eguala,

Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito.

Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito!

--Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,

Ainda que me sinta a resvalar no lodo!

E erguendo-se, impetuoso:

E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços!

Quando o trovão ribomba altivo nos espaços,

Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!

Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho!

--... Mas quem me diz não ser este sinistro plano

Improficuo, ou então summamente leviano!

Se elle fugir á morte, ao estertor final,

Por um processo occulto e sobrenatural,

Contra mim lançará todo o furor do ceu,

Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!

Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:

Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,

O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz,

Ó Deus, entoaria, agradecido a ti,

Uma canção igual aos psalmos de David,

Transformando o meu peito em grande tabernaculo!

--Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!

Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um

sorriso malevolo, animando-se:

E se, como se diz, elle não fôr divino?

Se obedecer, como eu, á força do destino?...

--Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso

E possante vigor d'um corajoso pulso!

Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente,

Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de

Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma

das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa,

agora acobardado:

Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime.

E como poderei matar, sem ver o crime?

Armando um braço vil? comprando uma consciencia?

É pouco, é muito pouco... e é tudo!--Que demencia!

Quem poderá saber onde reside a féra,

Que tenha peito humano e garras de pantéra?

Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca

espumando:

--Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha,

Que vive silenciosa em tua negra entranha,

Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo,

Enorme como Deus, mesquinha como um sapo!

Genio amante do crime e á virtude adverso,

Que mora num covil... e zomba do Universo!

Eu quero conhecer o amigo dos devassos:

Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!

Com grande desanimo:

Nem elle me protege! E eu preciso, emfim,

D'um ser bastante infame!

BENJAMIM com muita humildade:

Aqui me tens, a mim...

JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:

Quem és tu?

BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:

Sou alguem que te escutava.

O tempo, como vês, não desperdiço...

Não perguntes quem sou. Aqui me tens,

Amigo, ao teu serviço.

JUDAS sem o largar:

Ignoro quem tu sejas, mas se acaso

Divulgar o meu odio tencionas,

Juro que em curto praso

No fio de uma lamina abandonas

Co'o meu segredo a vida!

BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:

Cala a bôca!

Não blasfemes de coisas respeitaveis.

Venho fazer propostas acceitaveis,

Dizer tudo o que sinto,

E só respondes co'uma furia louca!

Se me has de receber com effusão,

Achando em mim o teu melhor amigo,

Alevantas a mão,

Ameaçador como um guerreiro antigo!

É ser ingrato!

JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço:

Dize-me o que sabes!

BENJAMIM sinceramente:

Ora! sei que a tua alma se abalança,

Depois do que houve aqui hontem á noite,

A seguir o caminho da vingança.

Naturalmente, sentes-te offendido

Co'a resposta que teve o teu reparo

Tão justo e merecido...

JUDAS como comsigo, satisfeito:

Portanto, ignora...

BENJAMIM

É isto amigo?

JUDAS, rapido:

É isso!

BENJAMIM explicando:

Eu hontem ouvi tudo junto á porta...

--Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens,

Humilde, ao teu serviço.

JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes

com Josué.

Mas se eu não sei...

BENJAMIM agora senhor de si:

Não sabes? Pois sei eu.

O Mestre será morto, em poucos dias;

Depende só de ti, fica sabendo!

JUDAS nervosamente:

Que dizes, fariseu?

BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que

parece devorar-lhe as palavras:

Ouve: É tremendo

O odio que lhe tem todo o Conselho,

O qual procura o instante mais propicio

De pôr em exercicio

O plano da prisão, do julgamento...

JUDAS

E da morte?

BENJAMIM

E da morte! O que, porem,

No actual momento

Ao sacerdote Hanan muito convem

É prendel-o em segredo,

Á noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo

De que o povo alevante alguns protestos...

Á prudencia conforme,

Assim procederá.

JUDAS animado, satisfeito:

Dize-me então...

BENJAMIM

É urgente saber onde elle dorme.

Tu sabes com certeza!

JUDAS hesitando, vagamente acobardado:

Mas...

BENJAMIM

O quê?

Não queres a vingança, Judas?

JUDAS

Quero...

BENJAMIM

N'esse caso, aproveita o bello ensejo,

Que outro não tens melhor. Sendo sincero

E grande, como julgo, o teu desejo,

Não deves recusar o que proponho.

--Ouviste? Muito bem! Reflecte agora,

Este sitio não é muito seguro...

Aguardo te lá fóra!

Vae-se; Josué segue-o, e os dois desapparecem.

JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas

depois:

De que serve hesitar, se me apresentam

Como satisfazer o meu anceio?

Basta que eu seja um cumplice d'Hanan,

Um traidor simplesmente... Nada mais...

Com rude franqueza:

--Na mão direita a Infamia,

A Consciencia na esquerda. Eu de permeio!

Com funda ironia:

A sentença fixei:

«Não saiba a esquerda o que pratíca a irmã.»

--Não saberá, que eu nada lhe direi!

Vae sair, mas a porta que dá communicação para o interior da casa

abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se.

MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:

Julguei ouvir falar...

JUDAS

Aqui? Foi puro engano.

E notando um movimento esquivo de Maria:

Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno

Com a minha presença?

MARIA condescendente:

Oh! não...

JUDAS caricioso:

Deixa-te pois

Ficar junto de mim, que facilmente os dois

Teremos na conversa um passatempo. Fica.

E mentalmente:

Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.

Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do

primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do

corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a,

apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a

paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se

nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez

mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...

JUDAS

Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,

Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar,

Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,

E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.

MARIA com simplicidade, avançando um pouco:

Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa

Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença.

Ao passo que me opprime este cruel receio

De vêr barafustar o nosso Mestre em meio

Dos inimigos seus, mais frio do que a neve

Se torna o meu olhar.

JUDAS tôrvamente:

Deve ser isso, deve...

E depois de algum silencio, ironico:

Costumado a subir nos estos d'esse amor

Aos mundos do Ideal, o candido fulgor

Transforma-se em desdem, e apenas se descerra

Perante a mesquinhez que roja pela terra!

O olhar bem fito n'ella, animando-se:

Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo,

Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo,

Brilha sinistramente e vem caír direito

N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!

N'um arranco d'alma:

Em verdade te digo, ó mulher altaneira,

Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira,

Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama,

Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!

Crescendo em furia:

Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós

Para que emfim termine este supplicio atroz!

Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda,

E vae saír de mim, como em torpel a onda,

Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido!

--Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido,

E deixa de cuidar n'essa paixão agora,

Que é maior a paixão que todo me devora!

Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:

Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar:

É puro o teu amor, não é amor vulgar...

Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida,

No centro da minha alma em sangue e dolorída

Existe uma paixão tambem que me envenena,

Podendo ser mortal, assim como a gangrena...

Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a

roupagem:

Ah! no supremo arranco um peito esfacelado

Como este, não receia o que haja mais sagrado,

E julga-se capaz, co'o seu valor enorme,

De luctar e vencer o ente mais disforme,

Terrivel como Deus, gigante como Adão,

Possuindo na voz as frases do trovão!

E porque sinto aqui as contorsões finaes,

Espando francamente as máculas brutaes,

Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo:

Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!

Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.

MARIA que não se moveu, serenamente:

Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;

Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.

JUDAS n'um rugido:

Maria!

MARIA sempre immovel:

Com franqueza, eu disse-te por vezes:

Em castidade egual ás innocentes rezes

No Templo do Senhor dadas em sacrificio,

Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,

Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha

Acrisolado amor, amor... como de filha.

Na terra nada mais preciso que uma coisa:

A Crença.

Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal:

O meu amor longe d'aqui repoisa,

Estrella que não teme as nuvens tempestuosas.

Brando como o dormir das aguas silenciosas,

Vago como o misterio enorme do futuro,

Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,

Nos espaços do azul vive risonho e inerme.

A estrella é sempre estrella...

Descendo o olhar para Judas:

e o verme é sempre verme.

JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:

Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor,

Fugindo á grande lei do grande Creador,

Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre

Para tornar assim fecundo o estéril ventre!

MARIA sem se perturbar:

Enlouqueceste!

JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto

dolorido, n'um queixume:

Mas se eu nunca fui amado!

Assim como o terreno a que não chega o arado,

Semelhante em mudez ás pedras do caminho,

Era o meu coração. Via-me tão sósinho,

Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus,

Interrogava o Espaço, interrogava Deus,

Procurava arrancar ás trevas o motivo

De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.

Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como

revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas

graciosas, languidas:

Judas: Romance lirico em quatro jornadas · 第 2 / 5 段