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JUDAS
DO MESMO AUCTOR
Theatro:
_A Flôr dos Trigaes_, comedia original em um acto, em verso--Theatro de
D. Maria II.
_Aspasia_, drama original em quatro actos--Idem.
_Samuel_, idem--Idem.
_A Tesoura_, monologo--Idem.
_A Charada_, sainete original--Theatro do Gymnasio.
_Casados-Solteiros_, comedia original em tres actos--Idem.
_O Vicio_, peça original em cinco actos--Theatro do Principe Real.
Em livro--Edições esgotadas:
_Religião do Amor_, versos.
_O Padre_, romance intimo.
_A Pança_, contos.
_A Lei da Exauctoração Militar_, poemeto.
_Cyrilleida_, analyse de uma critica á «Velhice do Padre Eterno.»
_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia.
A entrar no prélo:
_O Rabbi da Galiléa_--(Vida de Jesus)--Romance.
_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia--2.ª edição.
Em preparação:
_Consciencia Libertada_--Evangelho do Futuro.
_Lendas de Israel._
Augusto de Lacerda
JUDAS
ROMANCE LIRICO
EM
_QUATRO JORNADAS_
LISBOA
Antiga Casa Bertrand--JOSÉ BASTOS
_73, Rua Garrett, 75_
1901
_Exemplar n.º_ 461
Todos os direitos d'este livro são propriedade exclusiva e reservada do
seu auctor.
Ao Dr. Manoel Maria Bordallo Pinheiro
_Il n'y a guère de détails certains en histoire; les détails
cependant ont toujours quelque signification. Le talent de
l'historien consiste à faire un ensemble vrai avec des traits qui ne
sont vrais qu'à demi._
Ernest Renan--Vie de Jésus
PRIMEIRA JORNADA
EM 8 DE NISAN
PRIMEIRA JORNADA
EM 8 DE NISAN
A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em
que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a
casa de Simão, o _Leproso_. Tem esta a forma tipica de uma piramide
rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos
canteiros roseiras de Jerichó.
Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um
pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores
seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.
A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae
sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas
cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...
Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao
descanso e á meditação.
Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando
por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que
chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas
entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras,
de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois
altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um
bando de pombas brancas.
Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do
Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da
encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de
Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e
patriarchas.
Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a
cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica,
amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas
estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.
A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:--é
ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a
cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda,
Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor.
Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande
Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: _Jehovat_. A Torre
Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto
vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta
quietação.
Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o
carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas
folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos
longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando
no firmamento azul e alegre.
Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que
entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o
harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de
mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um
sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as
cotovias.
GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas
doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:
Eleazar, meu caro, honrado ebionita,
Recebe de um amigo a cordeal visita.
ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos
annos, franzino e melancólico.
És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja
Teus passos dirigiu assim, para que eu veja
Á porta do modesto e humilde lavrador
Aquelle que possue o nome de doutor
Notavel e profundo?
GAMALIEL
É pobre a moradia,
Amigo?--Não encerra a vil hypocrisia,
Ornamento dos maus e da nefanda casta,
Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.
ELEAZAR
É que a virtude leva ás almas refrigerio
Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio;
Pranto suave, meigo e virginal e ardente,
Que uma estrella chorou silenciosamente...
GAMALIEL
É que a bondade espalha a sua luz divina
E pura, como o Sol que a todos illumina...
E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se
conservou:
O que tenho a dizer-te é coisa de segredo.
Escuta-me portanto aqui.
ELEAZAR
Porquê? Tens medo
De que minhas irmãs...?
GAMALIEL
O assumpto é muito grave,
E receio que a dôr ainda mais se crave
Nas almas feminis do que na tua.
Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de
casa, accode logo ao secreto chamamento.
Amigo,
Uma nova cruel:--o Mestre...
ELEAZAR, estremecendo
Algum perigo
É imminente?
GAMALIEL
Aquella estupida gentalha
Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha
Prepara com misterio o plano vingador,
E está na posição terrivel do condôr,
Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora,
Em casa de Kaiapha...--É sabbado hoje? Embora!
--... O Conselho procura, extravasando o fel,
Garantir-se o poder no povo d'Israel.
ELEAZAR
Prendendo o Mestre?
GAMALIEL
Sim! Razões tem para tudo
O seu pensar feroz, indómito e agúdo!
Amor divino? Qual! Apenas o receio
De perder o logar no execravel meio:
D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma,
E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!
N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e
que se expande, emfim, n'uma invocação:
A Virgem de Sião suspira ha muito já!...
--Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat!
Que é feito do vigor da tua fala, Isaías?
E das lamentações sinceras, Jeremías?
Profeta Ezequiel, a tua voz potente
Jámais ribombará por todo o Oriente,
Fazendo estremecer o despota cezareo,
Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario,
Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma,
Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!
ELEAZAR, com o olhar vago:
Vergonha! opprobrio!...
GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de
enthusiasmo civico:
Ai! desde que um idumeu
Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,
E nos hombros depoz o manto purpurino...
Maldito! que deixaste um rasto viperino,
Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,
O teu nome recorda o luto e um acervo
De horrores!--Certo dia, ousaste no portal
Da casa do Senhor dar poiso á _immortal_
Aguia romana!...--Vil, nascido de idumeus,
O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus!
... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia!
--Do nome do tiranno o filho honra a memoria.
Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta...
Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?...
--Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros;
Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros,
Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia!
E ao passo que na morte o hebreu se contorcia,
E filhas e mulher's davam á luz o pranto,
O incendio voraz lavrava o Logar Santo!
--Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga,
Revolvendo o punhal na apodrecida chaga!
Seja procurador Coponio, ou seja Marco,
Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco
Onde vivem, senís, as rãs do servilismo...
É provincia romana; e viva o cezarismo!
E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando,
convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.
ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:
Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor,
D'esta funda apathía e d'este grande horror!
Judéa, serás livre! Elias não morreu,
Porque revive n'um que tem o verbo seu,
E elle ha de trazer a guerra e o exterminio!
Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!...
Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia!
O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a
Sem minimo temor da colera dos ceus!
GAMALIEL, n'um clarão de esperança:
Já temos o preciso: um _Homem_!
MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:
Não!--Um _Deus_!
Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser
tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens
escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares
e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os
seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da alma.
É bello o teu falar, mas como de cegueira
Pelo amor patrio estás vencido! De maneira
Que apenas bastaria um pulso valoroso
Para despedaçar o monstro ambicioso
De fausto e de poder que se revolve além,
N'aquella babylonia? Então, Jerusalem,
Movida por um braço, embora resoluto,
Poderia colher o ambicionado fructo
Da plena liberdade em meio da revolta?
--Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta!
A Judéa prefére a honra em mil pedaços,
Cheia de timidez, crusando inerme os braços,
Inhabil para a lucta e com horror á morte...
A tribu de Levy, aquella cujo porte,
Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria
Coragem ao vencido e alguma simpathia
Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo.
--Onde encontraste, irmão, o excitante novo,
Que possa dar alento a quem succumbe exangue,
Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?
GAMALIEL
Ha sempre em casos taes...
ELEAZAR
a força d'um athleta!
MARIA
Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!
Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição
Das coisas divinaes a toda a multidão,
Que se contorce afflicta em negro paroxismo,
Descrente de Moysés, propensa ao paganismo.
Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,
Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra,
Pesada, como o arado á terra bemfasejo,
Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!
GAMALIEL
E quem te diz que não? Eu julgo indifferente
Que tenhamos no Mestre aquelle descendente
Do nome de David ao mundo promettido
Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido.
Porque bem vejo a força enorme, o poderío
Que exerce na cidade. É mais que prestadío
Á Patria um homem tal!
ELEAZAR
A sua mão convulsa,
Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa
Para longe do sitio ás preces consagrado...
MARIA
E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!...
--Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes
E que mercadejava as graças corporaes;
Ascende até o amor aos pobres, ás creanças,
Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças
N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...
ELEAZAR
Quando, porem, troveja irado, mais parece
Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!
MARIA
Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...
ELEAZAR
Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...
GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria,
que foi sentar-se junto da fonte:
Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso,
E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso.
ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez
opprime no intimo:
O Mestre não virá. Alegra-me a certeza
De que foge ao Conselho a ambicionada preza.
Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros
Ainda não chegou nem um dos companheiros
Do Mestre.
GAMALIEL
Vae o Sol no termo da viagem:
Torno para a cidade.
E novamente em segredo:
Eleazar, coragem!
No teu silencio tens a minha vida e a tua.
ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:
Se te constar, porem, que o plano continúa
E mais se desenvolve...
GAMALIEL
Hei de dizer-te, amigo.
ELEAZAR, saúdando-o:
Que não te fuja Deus!
GAMALIEL, saúdando-o:
Fique o Senhor comtigo!
Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da
estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão
no solo poeirento.
ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos
proprios pensamentos:
Ninguem pode roubal-o á proxima agonía.
Morrerá na cidade. A horrivel profecia
Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte...
Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!
Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de
desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo
cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura
poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra
deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.
MARTHA
No que pensa o meu irmão?
ELEAZAR
Em nada penso.
MARTHA
Duvido.
Ha n'esse olhar definido
Vislumbre d'inquietação.
SIMÃO
Se tu pensas na lavoura,
Fazes mal, que o dia de hoje,
Emquanto o Sol não nos foge,
Prohibe que, scismadora,
A mente se occupe assim
De coisas que não respeitam
A Deus.
MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:
Aquelles que engeitam
O pensar, mesmo o ruim,
São como as ondas brutaes,
Que lançam á rocha dura
A espuma de cuja alvura
Ellas são as mães e os paes...
SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:
Sempre has de ser renitente
Em respeitar a doutrina
De Moysés!
MARIA, com amargo sorriso:
O que ella ensina
É por vezes incoherente.
De ouvil-a já estou cançada,
E nem assim me convence.
MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:
Não falas?
SIMÃO
Deixa-o! Que pense,
Uma vez que isso lhe agrada!
ELEAZAR
Mas como sois curiosos
Do que se passa por fóra
De vossas almas!
MARTHA
Agora
Vem discursos lamentosos,
Recriminações, aposto!
Grande mau!
ELEAZAR sorrindo contrafeito:
Grande creança!
MARTHA picada no seu amor proprio:
Não te inspiro confiança?
ELEAZAR condescendente:
Inspiras, sim.
MARTHA
Pois não gosto
De segredos--Que tristeza!...
Não percebo! Porque, em summa,
Não vejo razão nenhuma
Para tal! Não ha riqueza?
A nossa vida, porem,
É feliz; a privação
Nunca nos veio affligir,
Nem ameaça o porvir,
Não é verdade? Simão,
Este bom velho leal,
Que tanto e tanto nos ama,
Dá-nos meza, casa, cama,
E conselho paternal;
Tu retribues a amizade,
Auxiliando-o na vida.
Achámos uma guarida
Nas trevas da orfandade:
Temos familia! Por isso
Para nós a vida é clara
Assim como a luz. A seara
É verdadeiro macisso
De pão; agua na fonte;
Lenha nas faldas do monte...
Nada vejo, d'importancia,
Que não tenhamos. Então,
Quero saber o motivo
Por que estás tão pensativo...
E rindo muito:
E com cara de chorão!
ELEAZAR
E tenho de que sorrir?
MARIA em longa abstração, como se ninguem a ouvisse:
Quem pensa é como quem sonha...
E como a vida é risonha,
Quando se pode dormir!...
ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha:
A minha alma atribulada
Profundo misterio aninha...
Sê caridosa, irmãsinha,
Não me perguntes mais nada!
MARTHA afastando-se logo com muito despeito:
Ai! não pergunto!
SIMÃO que de parte estivera rindo dos dois:
Uma idéa,
Que talvez seja bem dita:
Vou fazer uma visita
Ao José d'Arimathéa.
Vem commigo. Pode ser
Que tenhas n'este passeio
O prompto e seguro meio
Da tristeza espairecer.
ELEAZAR
Dizes bem.
SIMÃO
Acceitas?
ELEAZAR
Sim.
SIMÃO
Afinal é sempre o velho
Quem dá o melhor conselho!
ELEAZAR ás irmãs:
Adeus!
E beijando Martha, que o evita d'arremeço:
Tu foges de mim?
Não vens beijar-me, teimosa!
É então uma vingança?
MARTHA, deixando explodir o seu despeito:
São arrufos... de _creança_!
ELEAZAR beijando-a á viva força:
São os espinhos da rosa!
Vão-se Eleazar e Simão. Succede grande silencio.
MARTHA foi á beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois,
appreensiva, com vago receio:
Nunca o vi assim como hoje...
MARIA em longa abstracção, como se ninguem a ouvisse:
«Espairecer»... Puro engano!
O pensamento não sae...
É como a sombra que vae
Correndo atraz de quem foge...
MARTHA que lançou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais
proximo d'uma cotovia.
Como o tempo está formoso
E se prepara, amoroso,
Para a Paschoa d'este anno!
N'uma corrida, eil-a junto da irmã que ficára sentada á beira da fonte.
Um beijo resôa na face de Maria e logo aos pés d'esta se senta Martha.
Achamos isto um encanto!
Como elles acham, porem,
Que tudo é feio.
MARIA
Elles, quem?
MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido
erguido para o olhar da irmã:
Os Dose, que gostam tanto
De dizer mal de Judá.
A Galiléa! Não ha
Para elles outro mundo!
Têem sincera affeição,
Tributam amor profundo
Ao paiz de Salomão!
MARIA desculpando-os:
A sua terra natal...
--Todos dizem que em verdade
É um paiz ideal
A Galilêa.
MARTHA
Quem ha de
Duvidar, se elle inspirou
Os galanteios doirados
D'aquelles apaixonados...
--Como elles, ninguem amou!
Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e
recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado
de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com
elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.
«É formoso o meu amante,
Formoso como nenhum,
E como o cédro elegante...
É formoso o meu amante,
Formoso como nenhum...
«São de perfumes e odores
Suas faces purpurinas,
Dois ramalhetes de flores...
E suas mãos dois primores
Das pedrarias mais finas.
«O seu corpo deslumbrante
Do marfim o brilho tem...
--Eu aqui... Elle distante...
Onde está o meu amante,
Filhas de Jerusalem?»
Olhando de fito para a irmã:
Esta idéa é mesmo linda!
MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae
deslisando:
Amôres...
MARTHA
Muito falados!
Olha que outros bem-amados
Como estes não houve ainda!
E quando elle se transporta,
Descrevendo a sua amante?
Não pode ser mais galante!
Queres ouvir?
MARIA
Que m'importa!...
MARTHA
«És formosa entre as formosas!
Como tu não ha nenhuma!
Tens no rosto duas rosas...
És formosa entre as formosas!
Como tu não ha nenhuma!
«Duas pombas tens no olhar
Onde transluz a bondade.
Os teus cabellos sem par
Fazem-me sempre lembrar
As cabrinhas de Galaad...
«Tua bocca é tão fagueira!
Quando sorrís com ternura,
Julgo vêr n'uma ribeira,
Unidinhas em fileira,
Ovelhas de casta alvura!
«Oh! que suaves martirios
Em tuas caricias francas!
São teus seios--que delirios!
--Como duas corças brancas
A pastarem entre os lirios!»
Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu
sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de
Poncio Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da
liteira; sem ser presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua
escrava e confidente Geda.
Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente,
avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado
em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava,
brilha o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.
Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não
enrugou, mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura
e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica
do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de
Tiberio, illustre messallina--_lassata, sed non satiata_. A tunica azul
celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco
esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na
carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica
do perfil das medalhas de Agrippina.
CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos
triclinios de má nota da velha Roma:
Muito bem!
Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio,
dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta
detem-se.
Que formosa poesia
Cheia de amor e de melancolia!
Ha quem diga no Lácio
Que é impossivel encontrar primores
Que não sejam de Ovidio nos «Amores»
Nos «Epodos» de Horacio...
--É que ninguem conhece quanto val'
A doce poesia oriental!
--Isso é de Salomão?
MARTHA muito a mêdo:
Senhora...
CLAUDIA
Pois eu sou tão lisongeira,
Para ouvir-te apeei-me da liteira...
E foges?--A razão?
E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:
Tambem me odeias, tu, gentil creança?
--Quando ha de fazer-se uma alliança
Entre Roma e Judéa?
Ganhariamos todos, com certeza:
Nós, simpathia; vós, delicadeza.
Darei a Poncio a idéa.
Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contraídos
e os punhos cerrados:
Conheces-me tambem?
MARIA por entre dentes:
Perfeitamente.
CLAUDIA
Se não me engano, a tua alma sente
Por mim o mesmo affecto...
Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada
Com Poncio, devo estar acorrentada
A um odio tão directo?
MARIA fitando-a resoluta, mas serena:
É que tu desconheces o rancor
Que tem toda a Judéa ao vencedor!
Fossem mil as nações
Caídas sobre nós! Odio profundo
Teriamos então a todo o mundo
E ás suas gerações!
--Ninguem pediu que ouvisses o falar
Da minha irmã. De mais, vindo escutar
Fizeste muito mal...
És Claudia; quer dizer: alguma coisa
Que nos merece tédio, e que repoisa
Sobre um vil pedestal
Todo feito de lama e impudicicia!
Justamente porque és uma patricia
Deves ter o criterio
De não brincar co'as cinzas ainda quentes,
Porque nós detestamos intendentes
E amantes de Tiberio!
Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo
de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste. Martha
soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo
murmurio da agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a
irmã.
CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo
derretido:
Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo.
A todo o sentimento o da maldade encimo,
Se acaso á minha face o insulto e o desdem
Me forem arrojados por alguem!
Uma frase, um olhar--tanto me basta;
Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta,
Qual sanguineo brilhante, a fébre da matança,
Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingança!
Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento occulto, faz
signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado
sorriso de maldade:
Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus
Esta disposição d'espirito, e os meus
Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria
Que o insulto nem sempre é uma gloria!
MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia:
Eu não pedi perdão...
CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdão causou no animo
independente da patriotica filha d'Israel:
E quem diz tal, judía?
Fui eu que perdoei...--Offendes-te?
MARTHA supplicante ao ouvido da irmã, que ia responder:
Maria...
CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz:
_Maria_... Nome formoso,
Que tem um rythmo éoleo!
Merece logar honroso,
Por Jove, no Capitolio!
E volta para a liteira.
A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira:
Nunca te vi assim...
CLAUDIA
Diverte me a bondade,
Ás vezes...
O CENTURIÃO AMPÍO ao sequito:
A caminho!
Os lecticarios põem a liteira aos hombros.
CLAUDIA
Á porta da cidade
Haveremos de estar antes da noite. Anceio
Por que termine em bréve este infeliz passeio,
Sem novo encontro mau.--Ó palida judía,
Pode ser que eu te veja ainda... Até um dia
Tem saúde até lá, que o ferro vingador
Detesta a gente magra, e tem maior furor
Ao trespassar um cólo arredondado e terno...
MARIA
Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!
Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela
soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a
comsigo para casa.
Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar
obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca
da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras
de feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo
dos braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um
pouco alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o
olhar para as coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario,
conserva-os erguidos ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes.
Claro é que de quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos
manifestam-se.
BENJAMIM
Não ha que duvidar: chegaram todos.
JOSUÉ
Viste bem, Benjamim? seria engano...
BENJAMIM
Engano o que? Se affirmo, se até juro
Ter visto o Mestre e os dose companheiros.
Tomaram pela horta do Simão,
E em bréve hão de estar n'aquella casa.
E approxima-se da casa do _Leproso_. Detem-se; prestando attenção, ouve
a distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com _Hossannas!_ a
chegada do Rabbi da Galiléa.
Eu não te digo?... O povo já começa
A correr ao encontro. Dentro em pouco,
Vae por esta Bethania uma celeuma,
Que nem no Templo em dia de festejo!
Eis portanto o momento ambicionado
De cumprirmos as ordens recebidas...
JOSUÉ, timido, covarde, circumvagando o olhar:
Mas Benjamim...
BENJAMIM
O que é?
JOSUÉ
Sinceramente,
Vou achando pesada esta incumbencia.
É que nós somos dois: elles são tantos!...
BENJAMIM
Em verdade te digo; principío
A estar arrependido de indicar-te
Para meu ajudante n'esta empreza!
Hanan mandou que fossemos prudentes:
Devemos ter prudencia. Hanan mandou
Que tomassemos nota do que vissemos:
Tudo o que virmos lhe será contado.
Hanan mandou que fosse descoberto
O melhor paradeiro onde, em segredo,
Se podesse prender o Nazareno,
Muito em segredo, sim, para evitar
Protestos e tumultos: pois, meu caro,
Havemos de encontral-o!
JOSUÉ
Estás bem certo?...
BENJAMIM velhacamente, animando-o:
E não vejo que mal nos ameace.
O ex-Grande Sacerdote é simplesmente
Quem se entrega aos revezes d'este jogo.
Se perde ou ganha, o caso é lá com elle;
E nós de qualquer forma ganharemos
Não só a consciencia de homens probos,
Leaes respeitadores de Moysés...
JOSUÉ unctuosamente:
O que á minha alma traz doce conforto...
BENJAMIM
... Mas tambem o dinheiro promettido,
Que não menos conforta as nossas bolsas.
JOSUÉ com desinteresse hypocrita:
Tens um sistema de encarar a vida!...
BENJAMIM
É forçoso que nós nos convençamos
De que, se os bons principios se defendem,
Tambem se deve garantir ao corpo
A delicia das bôas digestões...
Á custa do dinheiro do Conselho!
--Ouve portanto o que é mister cumprir:
Tu vaes para a cidade; a bréve trecho
Procurarás o ex-Sacerdote... E então
Dir-lhe-ás que o profeta e os companheiros
Chegaram a Bethania era sol-posto;
Que decerto aqui ficam toda a noite,
E que eu não deixarei de estar álerta.
JOSUÉ
Perfeitamente.
BENJAMIM
Espéra! De manhã,
Logo que vejas os clarões do dia,
Has de esperar por mim...
JOSUÉ
Que sitio indicas?
BENJAMIM
Não distante da entrada principal
Do Templo. Dado o caso que eu não chegue,
Commigo has de encontrar-te...
JOSUÉ
E onde?
BENJAMIM
Aqui.
JOSUÉ
Muito bem!
BENJAMIM
Percebeste?
JOSUÉ
Que pergunta!
Como quem desenrola o «Pentateuco»
E passa a vista pelo que elle diz.
--A proposito: guarda-me estes rôlos.
BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus:
Tens razão. As Sagradas Escripturas
Iriam pezar muito no caminho.
Mas deves ir com um, pois é preciso
Para te dar o aspecto d'homem sério.
JOSUÉ
Ao romper da manhã...
BENJAMIM
Vae-te! Vem gente!
E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual.
Quatro homens assomaram á porta do _Leproso_; são Eleazar acompanhado de
João, Simão Pedra e Matheus.
João é um bello tipo da raça judaica do norte. Alto, robusto, espadaúdo
e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os
hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na
quietação d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz
intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre,
na grande extensão da superficie das aguas.
Mais velho do que elle, Simão Pedra deixa transparecer em toda a sua
figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu
tambem e tambem robusto homem do mar, o seu rosto é circumdado pelos
annelados cabellos e pela barba comprida, bipartida, e tão loura, que
mais parece branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente
accentuado por um vinco entre os supercilios, o que torna a sua
fisionomia um pouco severa. Gesto sempre sereno; voz protectora,
paternal.
Matheus é mais velho do que João e mais novo do que Simão Pedra. Baixo,
de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos meùdos e muito vivos
de antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia é attrahente por
uma expressão de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi
homofona, de homem metódico, que raras vezes se enthusiasma ou
sensibilisa, e que tem da vida uma noção segura.
Os trez trazem na cabeça turbante á moda egypcia, com as pontas caídas
ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi
grande o percurso que fizeram os romeiros.
JOÃO resfolegando:
Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!
MATHEUS
E ficam bem á vista os muros da cidade...
Não sei o que adivinho!...
JOÃO
Ao largo esse receio!
Muito mais me entristece a nuvem má que veio
Escurecer ao Mestre o doce olhar...
SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma
intimidade muito amiga:
Meu caro,
Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo
O tempo que passou a este em que hoje estamos:
O verbo illuminando a treva e os recamos
Do manto a que se abriga uma ambição enorme;
As contorsões finaes do animal disforme
Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés,
Rojando-se afinal vencido a nossos pés!
ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae
n'alma:
E julgas que não tarda em despontar o dia
Tão desejado?
SIMÃO PEDRA
Eu?! Pois quem duvidaría?
--A doutrina do Mestre é como o grão de trigo,
Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo.
Que mais cuidados tem o bom do lavrador?
Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor,
Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão,
A força e o poder da multiplicação.
Se o lavrador depois no campo seu repára
E vê brilhar ao sol a refulgente seára,
Exclama, commovido: Abençoada terra,
Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!
ELEAZAR, quasi a medo:
Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?
SIMÃO PEDRA
Quem passa pela estrada e attenta no crescer
Do risonho trigal, diz logo, reverente:
Bemdito quem dispoz na terra esta semente!
ELEAZAR, depois de grande hesitação:
Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho
Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...
SIMÃO PEDRA
Nunca!
ELEAZAR
Nem fugireis?
JOÃO que se erguera, rapido e violento:
Nenhum de nós!
Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte.
Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e,
dando ás palavras uma intenção reservada:
Nenhum...
Dos que têem do Mestre a patria por commum!
Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios
Nunca hão de vacilar perante os sacrificios.
Se acaso o Mestre fôr levado de vencida,
Qualquer de nós dará por elle a propria vida!
Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André,
Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé,
Iago, o publicano, ou Simão Pedra?--Não!
Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão?
--Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.
JUDAS
Não falaste de mim...
JOÃO muito secco e terminante:
Por méro esquecimento.
E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.
ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:
Pareceu-me o contrario...
SIMÃO PEDRA triste e confidencial:
É sempre assim co'o Judas...
Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força
da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura
regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus
cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada;
pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma
notavel contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham
entre os labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que é
grosso, sensual, estremece-lhe como o d'um touro em circo romano. É uma
d'essas creaturas que não sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se
conservar no nosso espirito a idéa de repulsão que a principio nos
dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos, braços e peito
cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares; extremamente
meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na cólera.
JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:
Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas
As tuas aggressões áquelle que te présa!
Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa.
De injurias contra mim tu sempre estás faminto!
Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto...
(E crê que muita vez isto me vem á idéa)
... Ter nascido em Judá e não na Galiléa?
Sou culpado de quê? De ter a pélle escura?
De ter cabello negro? Isto é para censura?
MATHEUS conciliadôr:
Mas se elle já te disse...
JUDAS
E eu digo que, em verdade,
Prefiro lealmente o odio a esta _amizade_!
E volta aos seus pensamentos dominantes.
MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:
Vinde ceiar, que são horas.
Não quereis?
SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha
Nem se duvída!
MARTHA
Pois deixae-vos de demoras,
Aliás vae-se a comida!
--Uma ceia improvisada
Mas nem por isso mesquinha,
Podeis crêr.
SIMÃO PEDRA
A caminhada
Que fizemos foi damninha...
Por aguçar o appetite.
MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:
Dize que venham depressa,
Porque, faltando ao convite,
Sem vós a ceia começa!
JOÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um
tom de voz inaudivel para Judas:
Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa
Que para ser dos bons não falta a coisa alguma...
Talvez que seja assim como dizeis. No entanto,
Se para o seu olhar o meu olhar levanto...
--É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso!
Pensando sempre! Em quê?--Amigos, bem conheço
Que pode ser fatal este misterio vivo!
Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo...
--Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro:
Não procederam bem.
SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:
Porquê?
JOÃO em tom leviano:
O embusteiro
Apenas retribue a prova de amizade
Gastando em seu proveito o que é da sociedade.
SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda
mais severo:
Já não te quero ouvir nem mais uma palavra!
No teu peito leal um sentimento lavra
Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo.
Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo!
ELEAZAR conciliador:
Então!
MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do _Leproso_:
Menos calor!
JOÃO repêso, meigo, supplicante:
Oh! cala-te, por Deus!
Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus
Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano...
Proveio o que me ouviste apenas de um engano...
Simão Pedra, desculpa!
Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão
Pedra, aguardando o desenlace.
SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:
Eu sei que és razoavel.
Já tinha como certa a confissão louvavel,
Que logo surgiria á simples ameaça...
JOÃO abraçando-o effusivamente:
Devemos collocar ao longe o que a desgraça
Procura intrometter no nosso coração!
MATHEUS
O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão,
Mas tens dentro do peito os risos da bonança!
SIMÃO PEDRA
Não voltes a magoal-o.
JOÃO
Hei de mudar, descansa.
Encaminha-se para casa, mas
SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se
passára:
E fala-lhe, João: não vês como ficou?
JOÃO com bonhomía:
Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!
JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:
Eu vou.
Mas fica, e só os quatro entram para casa.
Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente
immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando
toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme
reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos;
apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém,
distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos
romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e
pandeiro. É um himno melancólico, dolente, ao pausado compasso da
andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem
fresca e perfumada balouça docemente o arvoredo.
JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:
Porque motivo, ó Deus, esta injustiça?
Desegualdade sem razão, medonha!
Uma alma pura, virginal, submissa;
Outra, vertendo em lagrimas peçonha!
--Ah! fatal e profundo sentimento,
Que tens do abismo a attracção e o horror!
És para mim dulcissimo tormento,
E sendo um grande amor... não és amor!
Um desejo voraz, ardente, furia,
Que a força da vontade não arranca!
Tem sonhos de volupia, de luxuria,
Com as palpitações da carne branca!
Transforma o ideal em verdadeiro
E a minha alma timida conduz
A seductor e vago paradeiro,
Onde eu estreito um cólo e uns braços nús!
Não morrerás? não has de ter um fim,
Ó tenebrosa e infernal tortura,
Que pareces viver dentro de mim
A construir a minha sepultura?
--Quem te ordena que leves a maldade
A fazer-me avançar para o impossivel?
Porque segrédas tu que a castidade
Nem sempre pode ser irresistivel
Ás seducções frenéticas do amor?
E porque vens mostrar-me, sensual,
Certa nudez, e em todo o seu fulgor
Um monte de oiro junto d'um punhal?
--Como és infame! Sim! Com violencia
Levas minh'alma fraca aos empurrões.
E, como a Daniel, a Consciencia
Queres deitar á cova dos leões!
--Oh! nunca! Podes crêr que te resisto!
Hei de salvar minh'alma moribunda,
Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,
Escarrar-te no corpo, besta immunda!
E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta
o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do
interior da casa.
Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo
traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma
coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria,
como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando
pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e
quedou-se a contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e
espera que encha.
Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.
Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está
agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que
se dirige para casa, onde entra a passos lentos.
A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos.
Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da
cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para
algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a
porta.
Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus
instrumentos, e vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons
sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em
todo o quadro a quietação muda da Natureza adormecida...
Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que
esse vulto é Benjamim.
SEGUNDA JORNADA
EM 9 DE _NISAN_
SEGUNDA JORNADA
EM 9 DE _NISAN_
Estamos em casa de Simão de Bethania.
A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas
tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso
conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á
direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade
conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação
para o interior.
Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial,
onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida
domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela;
pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria,
pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira
á cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a
influencia do triclinio nos costumes da Judéa.
A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos
os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro,
festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.
No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o
_Leproso_. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco
temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo
graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços
de pão levedo em frente de cada commensal.
Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas
sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento
as Sagradas Escripturas.
João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por
uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,--medita e
lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam
Judas.
MATHEUS
De ha muito que não como, e sem lisonja o digo,
Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo!
Não achas?
SIMÃO PEDRA
Fabricado em casa do Simão...
SIMÃO
Obrigado. Outro copo?
SIMÃO PEDRA
O vinho é de Ascalão.
Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.
SIMÃO
Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma
Para onde vão toneis sobre toneis!
MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois
d'aspirar o bom perfume:
Pudera!
O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra.
SIMÃO apresentando outra infusa:
Temos agora aqui magnifica cerveja.
SIMÃO PEDRA
De cevada?
SIMÃO
Não é.
MATHEUS
De peros?
SIMÃO
De cereja
Cultivada em Ramá.
Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos para Simão
que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez
em silencio e com recolhimento.
SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando:
Olhae como é profundo
Este segredo!
MATHEUS
Qual?
SIMÃO PEDRA
Por um processo immundo,
Pela fermentação, consegue-se tirar
Da materia um licor tão grato ao paladar.
JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em
Judas, que continúa lendo:
Não acontece o mesmo a tudo que fermenta.
Ha certas podridões que geram peçonhenta
Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma.
Entrando pela vista, é digirida na alma!
E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila
Provem d'esse veneno horrivel que distila
Muito perto de mim com lugubre misterio.
Inutil procurar um doce refrigerio,
Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae
Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!
Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para
alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros
pensamentos.
Judas voltou á leitura sempre silencioso.
SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:
Nunca ouvi tal falar da bôca do João.
SIMÃO PEDRA tristemente:
E o caso é que tambem começo a achar razão
A tudo que elle diz.
Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde
conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.
MATHEUS
O Judas, francamente,
No que hontem se passou, deu prova de demente,
Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!
SIMÃO
Hontem?
MATHEUS
Á noite.
SIMÃO
O quê? Dizei-me, por favor.
Não sei do que falaes.
MATHEUS
Passou-se tudo aqui.
Durante a ceia. Não ouviste?
SIMÃO
Não; sahi,
Mas foi por pouco tempo.
SIMÃO PEDRA muito confidencial:
Então eis o motivo...
--Durante toda a noite esteve pensativo
E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa
Com palavras banaes e frias. Tão submersa
Tinha em meditações a alma, que ninguem
Deixou de perceber...
SIMÃO
Percebi eu tambem
Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto
A fiel expressão d'um intimo desgosto.
SIMÃO PEDRA
Maria, aquella honesta e bôa rapariga,
Desejando seguir a usança muito antiga
No povo do Senhor, a de render um preito
De sincera amizade e natural respeito
Ao viajante illustre a quem se dá guarida,
Abeirou-se da mesa, e, muito commovida,
Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento
De nardo puro. Então, infame sentimento
De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro
E alegre como nós, aquelle companheiro
Reputado fiel, só tem uma censura
Para galardoar a prova de ternura:
--«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo
Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo,
Saberia guardar tambem zelosamente
A importancia da venda a todos pertencente,
Entregando-a depois em meu e vosso nome
Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»
SIMÃO como assombrado:
Mas isso foi um insulto! E o mestre?
SIMÃO PEDRA
Respondeu
Brandamente, como é velho costume seu.
SIMÃO
Nem siquer suspeitaes a causa?
MATHEUS
Tarde ou cedo,
Alguem desvendará por certo este segredo.
E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando,
encaminhando-se por fim para mais distante.
JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre
Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de
estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno,
como procurando dominar-se:
O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho.
Reparo em que lhe dás toda a attenção.
JUDAS
Medonho!
--A infamia de Caím.
JOÃO
É proveitoso, e muito!
Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,
No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã,
De falar d'esse crime o qual desde manhã
Tanto me preoccupa.
Muito ironico:
Á tua consciencia
Não pode causar damno esta coincidencia...
És tão sincero, és tão leal e virtuoso!...
--Mas devo confessar-te...
JUDAS sereno e sempre sentado:
O quê?
JOÃO
Que estou ancioso
De ha muito por que tu expliques o motivo,
Que te obrigou a ser cruel e offensivo
Para quem te consagra uma affeição fraterna.
Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:
O que possues em ti, Judas, que assim governa
O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo
No misterio que abriu na tua frente um abismo
Cercado de fataes e nús despenhadeiros,
Affastando-te assim dos nossos companheiros,
Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.
E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:
Somos na união eguaes a esta corda,
Que as estrigas de linho unidas fortemente
Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente.
Na sólida affeição, unificados, somos
Assim como n'um fructo os solidarios gommos.
--Desfia-se, porem, a corda, ao que parece;
E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...
JUDAS com affectada bonhomía:
Chiméras, illusões...
JOÃO
Talvez.--Mas quando penso
Que o teu profundo mal pode tornar immenso
O crime, e que será depois intempestivo
O arrependimento... Em summa, não me esquivo
A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha:
Nunca simpathisei comtigo; não se amanha
Com a tua frieza a ardencia do meu peito.
É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito
A observar-te.
JUDAS
A mim?!
JOÃO
E sabes o que vejo?
Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!
JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:
Chiméras, illusões...
JOÃO
Talvez.--Mas quem nasceu,
Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu
Por vasto cortinado; aquelle que na infancia
Aprendeu a olhar com summa repugnancia
Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre,
Muito melhor que tu ha de entender o Mestre.
Não podem comprehendel-o os rudes corações
Selvagens como o teu!
JUDAS
Chiméras, illusões...
JOÃO