VII

Mas um dia, um grande infortunio,--a viuvez inconsolavel, o seu pobre

lar em ruinas,--devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a

alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua

vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes

que tanto o torturavam e entristeciam,--a elle, filho d'estas bemditas

terras do Sul!...

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e

soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que,

através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira

na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que

o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia

dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha

oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer

ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu

Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto,

que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel

torrão de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a

patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.

Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito,

immobilisado para sempre!

E de novo ao sahir d'esta angustia demente,

Sinto bem que tu és, para toda a amargura,

A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente

Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva,

Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida,

--Borboleta celeste, ebria de Deus--se eleva

Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que

ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.

Assim deve ter sido a sua--uma transição insensivel, uma serena

Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter

evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura,

sempre voltada para o Amor e para a Vida!

Luiz de Magalhães.

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 12 / 106 题