(Lido na Academia Brasileira, sessão de 28 de Junho de 1917)
A Morte astuciosa--ou caridosa?--antes de apoderar-se finalmente da
nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco
nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos
conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa
hospedagem. Cada coração, que só carinhos e affectos alojava, eis que um
dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe
cumpre fazer companheira de casa. E o espaço, a principio exiguo, que
ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres
mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes
ocupe o logar. Vão faltando os parentes, vão morrendo os amigos, um a
um, em periodos cada vez menos espaçados. Começamos, ao romper da vida,
crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se
limita, se estreita, até n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a
nossa hora chega, já não é senão um fragmento ultimo e minimo da vida
que abandonamos á Morte. O coração, a que ella faz parar a fatigada
corda, estava tão atravancado de cadaveres que já não podia bater
livremente.
Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e já não são
os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que
nada e ninguem mais preencherão, na calma felicidade dos meus dias. Em
1915 foi Ramalho Ortigão, esse ao menos depois de uma longa e bem
aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno,
morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feijó, a mulher
querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e
um mezes exactos depois da desgraça a que não conseguiu mais
resignar-se, é António Feijó que morre por sua vez, que morre de amor e
de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida.
Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma
profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um
conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á
beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor
o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e
trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no
seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus
contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como
se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom
Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua
morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu
para sempre
Deitada no caixão estreito,
Pallida e loira, muito loira e fria,
aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos
annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o
commovedor necrologio.
Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero
Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um
longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos.
Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça
que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor,
tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com
dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas
vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona
Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo
e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz,
alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e
alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e
comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse
o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os
intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou
sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que,
por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles
eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam
intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem
completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de
Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo
diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a
gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias
e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e
excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor
Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como
um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol
equatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da
sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a
chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem
imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres
côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e
graciosa capital sueca.
O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr,
sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e
não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna
consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga
hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga
em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da
sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais
indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez--formas
terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero--que o seu lucto não
era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura
excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez
para escapar-lhes.
Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na
maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente
febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só
hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a
traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no
entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o
preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer
indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio.
Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos
em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima
carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está
escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa.
Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte,
datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as
primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher,
que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde
essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa
amarga correspondencia:
_18 de julho de 1914_: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas,
porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas
primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o
seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai
melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas...
este _mas_ é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que
seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão
a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se
reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A _Imitação de Christo_, que
eu leio assiduamente, diz que _à chaque jour suffit sa peine_; mas eu
estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que
Deus só concede aos eleitos.»
Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que
absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas
occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção
intima. Em 23 de outubro escreve-me:
«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação
de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita,
mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha,
são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam,
todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.»
A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo:
«Sinto-me num estado de espirito tão desolado e abatido que nem posso
conversar á vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra
vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova _poussée_ do
antigo mal. Trago o coração em sobresaltos.»
Abre-se, então, um longo silencio, que as minhas cartas não conseguem
quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo ás minhas
instancias, vêem duas palavras pelo telegrapho: «Mercedes sempre doente.
Estou desolado.» E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes
noticias: «Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não escrevo a
ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de
facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que
padecem são sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos
mezes que a vida é para mim um suplicio, e sem esperança de lhe ver um
termo. Deus sabe o que terá succedido quando esta carta lhe chegar ás
mãos!»
Com effeito. A previsão não falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que
eu embarcava para a Europa, que me chegou ás mãos um telegramma de
Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: «Tout est fini».
A censura de guerra não os deixára transmittir na nossa lingua; mas nem
assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este
desgosto, não podendo crêr que uma tão luminosa e formosa mocidade se
pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um
verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa
do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim
tão contagiosa, não se me communicou desta vez. Fiz uma travessia
melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da
morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigão, a quem eu queria como a um
avô, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos.
Não sei, nem agora me importa saber, se é monotona a descripção de uma
dôr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona será, mas
ai de quem lhe não sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua
mulher, as raras cartas de Antonio Feijó são um lamento continuo, cuja
leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se
que o viver assim já não tem de viver senão o nome, e verifica-se uma
vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da fé, a
vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes, é coisa
nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para não a copiar toda:
«Se um dia nos encontrarmos--do que duvido--então lhe contarei o que foi
o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida,
vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e
alimentar-lhe a esperança da cura, que nunca, felizmente, a abandonou.
Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. Não tenho
forças para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer
resolução. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, são 24
horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha
parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo é inutil.»
Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado
desesperado da sua dôr. Vive como um somnambulo, não sabendo distrair-se
senão com a recordação do passado. «É só,--escreve-me,--e a remexer na
minha memoria attribulada, que as horas me passam menos
atormentadoramente.» Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle
objecta: «Ir a Portugal agora é absolutamente impossivel, e essa viagem
não serviria senão para aggravar o meu soffrimento. Não ha sitio nenhum
por ahi, nem casa amiga, que me não desperte recordações e saudades
pungentes.» Fala-me, além disso, da educação dos filhos, que não deseja
perturbar, e vê-se que procura nelles a razão de viver, que a dôr
destruiu. Mas não o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira
vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que
lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de
60 annos, casado e sem filhos, tão grande admirador de Dona Mercedes,
que pensou sériamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a
fortuna. Feijó sabe o telegramma de cór e transcreve-m'o no original
sueco e em traducção. É assim, e parece, na verdade, como elle me dizia,
um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: «Receba
expressão da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu.
Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e
belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido é uma ventura
que nunca ninguem poderá esquecer.»
Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que não annunciam
melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleição para a Academia
Brasileira, «pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi
votada.» Feijó era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos
ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a
homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de
offerecer algum conforto á angustia que soffria. E esse terno pensamento
commoveu-o. Mas a Dôr era sempre a sua nova companheira: «Vou vivendo,
com a minha tristeza e a minha saudade. _Vou vivendo_ não é a expressão
justa. _Deixo-me viver conforme Deus quer_, é mais exacto.» Distrai-se
relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava
cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos
pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro: «É a leitura dessas
cartas, como já lhe disse, a minha unica distracção. Quando ellas
acabarem, não sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na
receita de Goethe, puzesse a sua dôr em poemas) é-me absolutamente
impossivel. Estas dores não cabem dentro de moldes litterarios. _Quem
attende ao concerto do que diz não sente o que diz_, sentenciava um
velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram. É bem
possivel que não torne a escrever mais uma linha. _Pena, que póde
explicar-se, perto está de não sentir-se_, como diz o mesmo frade,
alludindo a circumstancias identicas.»
Carta em 3 de abril: «Não tenho forças para nada. Escrever uma carta é
como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo não me tem curado.
Dá-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para
um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta.
(Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo
se vai afastando de mim, cada vez mais.»
Nova carta, em 10 de julho: «A minha cabeça, como a minha alma, andam
profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais só, cada vez mais
desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estação em que a
minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano
cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e
pittoresco, ou em excursões pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou
agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia.
Não imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta
monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto
de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus
infeliz. Para evitar recordações, a que não poderia resistir, lembrei-me
de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo,
acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. Não posso viver só.
Amanhã vou partir, não sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a
Laponia, para alguma terra onde não encontre lembranças do passado.
Perdoe este desabafo. Na verdade, não ha outra coisa a fazer senão a
gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca,
é preciso viver. Mas, o peior, é que não encontro nada que me interesse
ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me
ás vezes, agora, estultas frivolidades.»
Escreve-me, em 6 de setembro: «Contava ir este verão a Lisboa, mas esta
guerra, que ameaça de se tornar chronica, obrigou-me a pôr de parte os
meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas,
numa excursão pela provincia, mas o passeio não me serviu de consolação.
Era a primeira vez, após 15 annos, que viajava só. Tão angustiado me
sentia nos vagões do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que
preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolação
que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha
mandado para o campo. De maneira que estive aqui só, completamente só,
desde julho até hontem, porque só hontem elles regressaram. Este mez é
para mim todo cheio de terriveis recordações. Fez, no dia 4, um anno que
regressei do campo com a minha querida doente. Não imagina quanto essa
viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o
medico, a _garde-malade_ e uma cunhada minha. Trazia já a impressão de
que era o ultimo passeio que dava com Ella... E, n'esse estado de
espirito, se foram passando os dias até á morte, no dia 21 do corrente.
Na vespera esteve todo o dia ali, naquela _chaise-longue_, com o sorriso
e o bom humor de sempre. E lá está, ha quasi um anno, na capela do
cemiterio catholico, tambem á espera que a guerra acabe, para ser
transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feijó e que elle
adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. Não me
consolo, querido amigo. Toda a dôr contém, em essencia, o esquecimento.
Mas eu não quero esquecer. Os mortos não morrem completamente emquanto a
gente se lembra delles. E eu não quero que Ella morra emquanto eu andar
neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraçados são
sempre ridiculos. Mas V. não é para mim um estranho, e, diante dos
outros ninguem é capaz de ler o que me vai na alma, através da minha
serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos
do meu coração.»
Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no
primeiro anniversario do seu lucto. E continúa: «A 21, foi o primeiro
anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do
nosso casamento em 1900; hoje, é o anniversario do enterro. Imagine o
estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe não escrevo mais.
Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas não me consola;
socega-me, ás vezes, por intervallos, mas o _retour_ da memoria é sempre
inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua
falta se me afigura maior.»
Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da
gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente
envelhecido. «Contemple essa ruina, accrescenta. Não imagine, porém, que
foi só a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no
esboroamento da minha velha carcassa.» Espera ir no verão a Lisboa.
Deseja encontrar-se commigo: «Parece que já estamos separados pelo outro
mundo.» Dá-me as boas festas de Natal e Anno Novo: «Como para mim não ha
festas, e faço tudo para não me aperceber do que este periodo do anno
significa para o meu coração attribulado, ia-me esquecendo de cumprir
este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graça e de mysterio, em que
um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio
a não devastou. Lembre-se de mim!» E na noite de Natal volta a
escrever-me, dizendo-me que se fechou só no seu gabinete, com os seus
pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras...
Emfim, tem a data de 21 de março de 1917, dezoito mezes justos depois da
morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a
ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: «Estamos
tão longe um do outro, sinto-o tão distante de mim, que parece que já
estamos separados pelo outro mundo», repete elle, como quem adivinha.
Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura
de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica
sueca, dando-me informações interessantissimas. Recomeçou a fazer
versos, mas não os que desejava. Só lhe saem da penna _bailatas_, versos
de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. Não o consolam. E
a doença de alma, a verdadeira, não cessa de minal-o: «Faz hoje anno e
meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece
que foi hontem. Não ha esforços que consigam afastar o meu pensamento
dessa hora terrivel. Não é o desespero dos primeiros tempos; mas é uma
saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me.
Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em
Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho
receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas
mudadas!»
Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes
que me deu o golpe, apesar de tudo não esperado, da morte de Antonio
Feijó. Elle era um homem robusto e ainda são, tinha apenas 55 annos, e
eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educação
dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce
saudade a sua dôr dilacerante. Feijó não se estava _deixando viver_,
como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor
incuravel, o amor de perdição tão caracterisadamente portuguez, o amor
da nossa raça e tradição matou-o como a mais fatal das doenças physicas.
Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que só recebi
hontem, como que me chega de além-tumulo. E como me doe o coração e se
me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias
com o meu silencio, de que só a falta de communicações era culpada, e te
inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos
os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de
tantas almas que se affeiçoaram á minha, mas quanto me pesam, e me
desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que começam a povoal-a!
Feijó, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim Áquella sem cuja
companhia desaprendera de viver. Deus lhe haverá concedido todas as
bem-aventuranças, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este
valle de lagrimas.
Não peço perdão a quem me haja lido ou ouvido, do espaço que consagrei a
este romance vivido e sincero, tão digno de ser sentido e meditado por
cabeças e corações ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria
do alto poeta do _Cancioneiro chinez_ e da _Ilha dos Amores_, que eu me
haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus
versos, e que a sua vida me pareça, como a de todos os seres de eleição,
mais bella ainda que a sua obra. Mas não me despeço de versar um dia
esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feijó
figurará sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais
subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expressão. O
nome de um Feijó illustrou já a historia do Brasil na pessoa do
Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e até se parecia
com elle no porte da cabeça profundamente encravada entre os hombros.
Hoje então são as nossas Letras irmãs que registram, em caracteres
indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome.
Ainda uma justificação para esta longa pagina de memorias. Ha muitas
pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os
transportes do Amor e da Paixão incompativeis com a regra e o pacto do
casamento, e que não são capazes de exprimir a poesia, de que as suas
almas transbordam, senão em versos errados. Longe de mim o intuito de
contradizel-as. Mas não ha mal em que aqui lhes offereça este _espelho
de casados_, no qual poderá remirar-se, ao menos uma vez por outra, a
sua perfeição.
Alberto d'Oliveira.
Dans quelques instants de loisir, j'ai fait des vers inutiles; on
les lira peut-être, mais on ne retirera aucune leçon pour nos
temps...
C.^{te} Alfred de Vigny.
Le vers est une création mystérieuse dont l'habitude seule nos
empêche de nous étonner.
Ernest Hello.
[Figura: D. Mercedes de Castro Feijó]