A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um
occasional desvio de destino.
Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no
officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse
tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu,
porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que
desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver
mundo... por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios
proprios. Pensára em ser consul.
A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos
litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha
Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,--talvez
ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos
mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por
essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e
um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado
nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o
seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação.
Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido
para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o
famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado
em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho
chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para
sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos
serviços diplomaticos.
Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua
competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia
correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer
plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a
apodrecer»--escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado,
inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto,
a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e
á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados
encargos e mais arduos trabalhos--e doía-se de se não ver utilisado. O
seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e
trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura.
Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles
predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil
e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os
multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as
questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o
seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é
essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade;
tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e
esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida
politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola--o
bom-senso.
Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e
cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e
a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima
a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.
E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde
Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros.
A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que
contava uma anedocta, o _humour_ ligeiro, e levemente malicioso ás
vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma
personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a
expansiva jovialidade do seu forte temperamento--faziam d'elle um
_cavaqueador_ irresistivelmente atrahente.
Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre,
um _dyonisiaco_, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista,
gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que
punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica.
Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas,
devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o
cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua
ascendencia, do que do d'esse _Feijóo escudeiro_, do tumulo de Celanova,
_bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro_, a quem o poeta
consagra a poesia final da _Alma triste_.
O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito
parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se
tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a
_joie de vivre_. Junqueiro chamava-lhe, então, o _opiparo_ Feijó...