IV

Mas _Sol de Inverno_ é, sem duvida, a sua obra prima.

No frontespicio, por baixo do titulo,--na realidade bello, mas talvez

suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou

explicar,--o poeta traçou estas palavras: _ultimos versos_. E foram-n'o,

de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do

seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma

dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava

então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas

parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,--o

epitaphio da sua Musa,--exprimiam um presentimento fatidico.

Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o

entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa

estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de

Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que

no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça

ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa

(como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia

imminente.

É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa

epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não

apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente

d'um meio-dia estival.

N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica

esplendidamente. Está alli todo o seu coração, como está todo o seu

pensamento,--porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia não nos dá

sómente emoções, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos

_hymnos_, póde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feijó

ala-se ás regiões mais altas da poesia, áquellas que só attingem os

grandes espiritos. São odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde

a sua alma se abre toda na adoração da _Vida_, da _Belleza_ e da

_Alegria_, se contorce nos transes da _Dôr_, se embebe na melancholia da

_Solidão_ ou se abysma na meditação hamletica da _Morte_.

De todas as peças d'este hymnario, a ultima é talvez a maior, a mais

profunda. E encerra uma exegése da morte subtilmente verdadeira. A

sensação e a dôr da morte não estão no phenomeno da morte physica, em

si, no termo da nossa vida material. Estão na lenta morte moral do nosso

coração, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a

pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaços vivos da

nossa alma.

Toda essa ideia está admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas

quadras.

Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca

O teu suave dormir sob a leiva de flores!...

A morte que, sem dó, me tortura e suffoca,

É outra--essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata,

Como um tufão que passa, as nossas affeições,

E deixando-nos sós, lentamente nos mata

Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,

Morrer é ter vivido, é renascer... O horror

Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada,

Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,

Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,

--Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,

É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

Esta poesia, que Feijó, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para

Londres, onde então eu residia, fôra-lhe inspirada pela morte recente

d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a

consagrou, como se vê do distico votivo que a precede: _Meorum

amicorumque pie manibus_.

Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de

tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem,

n'elle, como em muitas outras composições do _Sol de Inverno_, um formal

desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente,

essa torturada e angustiada _Supplica ao Vento_, de que transborda toda

a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando,

tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma

voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as

suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a

sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos

d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar

vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha

e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu

amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem

uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a

sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.

Já, na _Alma Triste_, essa incuravel nostalgia transparece em algumas

poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um _leit-motiv_ favorito.

_Domingo em terra alheia_, _Soliloquio do Outomno_, _No mez de Abril_,

_Silencio_, _No campo_, _Inverno_, ressumam as melancholias d'um

espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e

sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.

Ouçamos as lindas quadras finaes do _Inverno_, onde esse sentimento tão

docemente se exprime:

Nasci á beira do Rio Lima,

Rio saudoso, todo crystal;

D'ahi a angustia que me victima,

D'ahi deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto,

Por toda a parte por onde andei,

Nunca achei nada mais imprevisto,

Terra mais linda nunca encontrei.

São aguas claras sempre cantando,

Verdes collinas, alvôr d'areia,

Brancas ermidas, fontes chorando

Na tremulina da lua-cheia...

É funda a mágoa que me exaspéra,

Negra a saudade que me devora...

Annos inteiros sem primavera,

Manhãs escuras sem luz d'aurora!

Oh meus amigos, quando eu morrer,

Levae meu corpo despedaçado,

Para que eu possa, já sem soffrer,

Dormir na Morte mais descansado!

V

A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos

portuguezes.

Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são

precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto,

pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas

marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da

euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,--Feijó pode

chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de

mestre Theo: _Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait_. Mas o que

elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico,

na mais ampla plenitude da designação.

Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de

viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o

eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves

melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da

galanteria,--são a substancia psychica da sua poesia.

Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente

perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha

poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de

tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus

tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas,

tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o

alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com

arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.

Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia

ser um poeta popular. O seu publico, de _conhecedores_ e _dilettanti_ da

arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um

circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em

todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além

d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha

moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a

todos os secretos manejos de notoriedade banal.

Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo.

Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros

gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma

qualquer _camelotte_, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular

com abundancia.

Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como

de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não

despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e

superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por

todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por

conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 10 / 106 题