Um mestre, sim! Elle foi-o, não só entre os da sua geração, mas tambem e
mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu
no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correcção metrica, mais
relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais
ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais
riqueza de rimas, mais graça de rythmo, do que o poeta excellente do
_Cancioneiro Chinez_, da _Ilha dos Amores_, do _Sol de Inverno_.
Nem durezas, nem frouxidões, nem hiatos, nem cacophatons, nem
alliterações mal soantes, nem _muletas_, nem rimas forçadas, nem
impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases
feitas, como _clichés_ sempre promptos para qualquer reproducção.
Já nas _Transfigurações_ e nas _Lyricas e Bucolicas_, que são as suas
_juvenilia_, esse poder e segurança de technica se haviam revelado. Mas
foi no _Cancioneiro Chinez_ que se affirmaram decisivamente. Feijó
attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero
saboreava essas pequenas composições, finamente desenhadas e coloridas
como uma delicada pintura em porcelana ou um _cloisonné_ ricamente
esmaltado, commentando-as com um sobrio «É perfeito!»--que, em tal
bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica.
Sobre as traducções em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num
estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou
e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstrucção que é o
_Cancioneiro_, dando á poesia nacional um raro e magnifico exemplar da
arte do verso.
Na _Ilha dos Amores_, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua
arte firma-se e completa-se.
A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas
«velhas canções d'amor» da _Ilha_, (onde ha uma lindissima _Ignez_, tão
intensamente dolorida, e uma admiravel _Lady D. João_, d'um
baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do
_Auto do meu affecto_, tocadas da mais delicada graça, quer nas diversas
poesias que formam a _Alma triste_, entre as quaes se encontram, nas
mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte.
Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o
seu anceio de perfeição plastica no verso, que elle nos formula n'estes
soberbos alexandrinos:
Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados
No marmore d'um busto aureolado e sereno!
Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados
A graça e a proporção do sentimento helleno.
Revela-me num gesto os mais altos modelos
Do Verso lapidar, para n'elle esculpir
Com encantos de deusa e doirados cabellos,
Essa flôr de volupia a tremer e a sorrir!
Ensina-me em segredo o genio incomparavel
De poder transformar os versos que componho,
E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel,
N'um distico immortal, a visão do meu Sonho!
Basta o oiro do Sol para a côr dos cabellos;
Para os olhos azues basta o azul crystallino,
Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os
N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!...
Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo,
onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades
de versificador.
Nas _Bailatas_, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima,
o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante,
reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas _Novas
Bailatas_, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série
d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de
sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem
haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e
charivárico.
N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom
joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia
incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida
jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr.
Algumas d'essas poesias, como _Sideria_, _Felina_, _Lithurgica_ e
outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do
symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura
portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e
atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e
sybillinas,--tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e
d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma
phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do
mais fino e requintado acabamento artistico.
Até n'essas _pochades_ em que elle desenfadadamente se comprazia, dando
sahida á sua _vis comica_, se sentia a mão habil e maravilhosa do
mestre.