Assim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma intimação de
Lord Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)[32] e mandou Robert,
(primeiro sobrecarga da companhia) em deputação ao Governador. Robert
fallou neste espirito.[33]
--Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu intento é
empregar as forças do seu commando na defeza de Macáo, contra os
francezes! A explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord Minto
dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico assim
procede.
O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do desembarque das
tropas: com tudo é preciso que o Senado esteja tambem disposto a
cooperar com os inglezes para a segurança desta cidade e do commercio;
se o plano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o Almirante,
a seu pesar; terá conducta opposta.
[Nota: Setembro 11]
É para notar o ameaço que faz o sobre carga na primeira entre vista!
É grato ao meu coração, tornou Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais
em defender as possessões lusitanas: com tudo pela intima alliança dos
nossos monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos
tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no desembarque das
vossas tropas, sem ordem superior.
[Nota: Septembro 12.]
Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da convicção
em que estais da intimidade dos nossos monarcas: sou sensivel á situação
em que vos achaes: comtudo previno-vos, que pela grande distancia do
logar donde podeis receber ordem superior, não a tereis tão cêdo, como é
de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord Minto. Para a
conclusão deste negocio desejo ter uma conferencia com vosco.
[Nota: Septembro 13.]
Não só na primeira participação, mas tambem na primeira replica teve o
Senado motivo bastante para desconfiar das intenções britannicas; por
tanto officiou ao Almirante pelo modo seguinte:[34]
Suppondo-vos certo da razão que me assiste para não alterar as ordens
que tenho; devo lisongiarme da vossa persuasão tanto da lealdade no
desempenho dos meus deveres, como da certeza em que estou da intima
alliança dos nossos monarcas: assim espero que modifiqueis as instruções
de Lord Minto, em quanto não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu
tambem demorarei a participação das vossas intenções ao Governo Chinez:
intenções de dificil compreensão a povos altivos e desconfiados.
Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos
consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a satisfação de
aprender com vosco o modo de tirar a estes povos o receio, que lhe ficou
em 1802, e agora renovado pela vossa pretenção.[35] O Imperio da China é
o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais é preciso para sua
defeza. Sendo a coacção origem de disturbios e conhecendo vós a nossa
razão, espero que se houver máo resultado na vossa empreza, não o
imputareis ao governo de Macáo.
[Nota: Setembro 14]
Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o Senado intimou um
protesto aos sobrecargas, e disse mais: Será infalivel a complicação dos
negocios britanicos, se o vosso Almirante tentar contra os ajustes
feitos em 1802 pelo Senado com o Governo Chinez, para não admittir
auxilio extrangeiro.
Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte nesta
empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso não esperado, de
continuarem as mesmas instancias para a admissão das vossas tropas nesta
cidade, farei pôr em execução o que no protesto junto declaro. É
repugnante o vosso procedimento contra povos fieis e amigos da Caza de
Bragança desde a sua restauração. Exijo que o protesto junto com a copia
desta carta seja remettido ao Almirante.
Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado enviou a
participação seguinte ao mandarim de Hiang-san. A dez de Setembro
surgiram em frente desta cidade, uma náo, uma fragata, e um brigue da
nação ingleza, sendo chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma
carta de Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado
do nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma invasão
franceza. O Almirante assegura não exceder os limites de defesa; porém
como o seu desembarque nesta cidade, quebra os tractados deste governo
com a celestial dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim
de o levares ao Suntó, em virtude dos mesmos tractados.
O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as relações
politicas e commerciaes, que tem ligado esta cidade com os Chinezes, e
varias nações da Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer
na opinião das nações, propria e extrangeiras, a consideração de leal e
honrado, titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer
ao publico a succinta e franca exposição dos factos acontecidos desde a
chegada do Almirante Drury a este porto até hoje, no protesto seguinte.
A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota
commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto,
onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso
Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e China; e que
sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia ser guarnecida
com as suas tropas. Para esse fim mandava um destacamento a esta cidade,
e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a sua admissão e necessario
arranjo.
No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida não deviam
obrar de modo, que destruissem a independencia, que deviam querer
segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que não devo.
Esperava desta resposta alguma moderação, e mais por saberem, que os
chinezes não admittem novidades com que possam julgar menos segura a sua
independencia. Com tudo reagiram, mandando intimar pelo chefe da
companhia, que se não fossem admittidas as tropas, seria differente o
seu procedimento.
Firme nos meus principios, e na minha primeira resolução, assegurei-lhe
a immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que
jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por uma nação,
que se dizia alliada: porém que a ter logar aquella intimação
ameaçadora, eu me defenderia conforme o direito natural, e os limites
desta praça, que sempre fora respeitada por todas as nações costumadas a
descançar á sombra da bandeira portugueza.
Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os esforços da
mais estudada prudencia; querendo salvar a honra, e a paz constrangida
pelo nosso mais antigo alliado; não devo demorar por mais tempo a
necessaria participação ao governo chinez. Este como protector da cidade
fundada por sua concessão em seus dominios, da qual recebe foro a seu
contento; prestará com brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a
participar-lhe todas as circunstancias, não obstante saber quão tristes
se tornarão as suas providencias, se o almirante não cessar da sua
contumacia.
O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim desembarcar
tropas inglezas nesta cidade; declara que se defenderá até o ultimo
extremo. Protesta contra taes procedimentos: a responsabilidade recaírá
sobre os aggressores. A razão anima os habitantes desta cidade, que
tanta honra e gloria tem dado á nação portugueza em sua não interrompida
posse.
[Nota: Setembro 16]
Quem não esperaria moderação nos britannicos, pela leitura daquelle
protesto? Retorquiram!--Sendo os offerecimentos liberaes de Lord Minto
rejeitados pela desleal conducta do governo macaense[36], e os esforços
da nossa parte a fim de livrar esta cidade da invasão franceza, e
querendo nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a
nação britannica: somos arrastados pela inexperada conducta dos
macaenses a tomar medidas, que podem offender os chinezes; mas o senado
responderá por tudo.
Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve os
soldados inglezes occuparão Maçáo. A nossa tenção, quando chegar esse
momento, é desembarcar tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á
ponta de bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como rebelião
directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos,
deve o Senado admittir já as tropas britannicas.
[Nota: Setembro 19]
Foi recebida esta intimação, quando chegava outra dos mandarins do
destricto, para não deixar o Senado, desembarcar as tropas inglezas. O
governador remetteu-a por copia ao almirante, com a seguinte carta.
Agora me foi presente a vossa intimação! Com pesar vejo nella, tratada
de infiel a conducta do governo desta cidade por não admittir, contra o
seu dever, guarnição ingleza! E que tomareis como acto hostil qualquer
resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a tantos males,
introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as rasões que vos
expuz; extranho caracterisares este governo de mal intencionado no
cumprimento dos seus deveres. Confesso que da minha parte os tenho
modificado, julgando continuar assim a distincta amizade dos respectivos
monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa intimação: sendo bem
examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso rigor,
admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis isso sem
nos dar motivo para desconfiar das intenções britannicas; e sem que os
chinezes se offendam de tão escandaloso procedimento. Posso
assegurar-vos, que elle não só ha de ser prejudicial a Macáo: a
companhia ingleza soffrerá tambem os seus effeitos.
No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e
Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.--O protesto de Vossa
Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a intimação dos
mandarins. Nós sabemos o que elles são: o almirante não fará caso
delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o Suntó.
É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de 1808.
Achavam-se ás mãos com os piratas da China, e ameaçados, pelo almirante
inglez, de serem atacados á bayoneta. Mas quanto maiores eram as
adversidades, mais se engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se
publicou no Senado a injusta, cruel, e atroz intimação da força ingleza,
gritaram todos:--Só depois de morrermos na defesa destes muros
levantados por nossos maiores, poderão entrar esses barbaros, que não
podendo tomar nossas casas pela hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O
capitão mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas de amor
patriotico, disse para o governador;--Irei para o logar mais arriscado,
lá darei a vida na defesa do meu posto--Bernardo Aleixo, consummado em
prudencia, não soffreu ser vencido em valor. Dirigio-se ao Ministro
Arriaga, dizendo:--Honrado collega, com taes companheiros não serão
arrebatados os lares macaenses. Devemos acabar de ter contemplação com
homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha
residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do monte,
confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; e
fiquem todos na intelligencia, que ella não se renderá em quanto eu
existir.
Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo, desenvolvidos pelo
magnanimo Arriaga neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que
tinha accendido nos peitos macaenses, e persuadilos, que não se offendia
em cousa alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com
permissão do Senado; e talvez isso desse novo realce á gloria dos
portuguezes; afiançou não ser longa a demora dos inglezes em Macáo.
Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto estava ao seu alcance
para livrar a cidade da invasão ingleza; mas que em todo esse andamento
haviam chegado os negocios a tal extremo, que a julgava necessaria para
ensinar os britanicos, pela experiencia, que os macaenses não toleram
invasores.
Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o
desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de
confiança. O Governador foi para a do monte: e o Capitão mór para a de
S. Francisco. Commandava então a guarnição da praça, o Senhor José
Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu elogios do Governo
por saber conciliar as qualidades militares com as virtudes civicas.
No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães Robertson, e
Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o Governo de Macáo,
ácerca do desembarque da tropa; e levaram a Bernardo Aleixo a carta
seguinte.
Tive a honra de receber a vossa participação, diz o Almirante, em que me
informais da sabia e leal determinação do Senado, em adimittir um
destacamento inglez na defesa desta cidade. É grande o meu prazer entrar
em Macáo como sincero amigo, e sem quebrar-se a antiga amizade dos
nossos monarcas. Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas,
obediencia e respeito.
Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em quanto os
macaenses não cederam á tenacidade britanica, éram infieis; agora que
pareciam afrouxar na defesa dos seus direitos, são leaes e sabios!
Ver-se-ha mudarem de linguagem em pouco tempo.
No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo Aleixo,
e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.
1.^o As leis do paiz regerão com toda a sua plenitude.
2.^o Os crimes contra os Chinezes, seguirão o julgado estabelecido.
3.^o O destacamento inglez será subordinado ao governo desta cidade,
combinando com o Capitão Robertson, em casos extraordinarios.
4.^o Nenhuma outra bandeira será arvorada em Macáo, além da portugueza.
5.^o As munições do destacamento entrarão nos armazens publicos, ás
ordens do governo desta cidade. Os inglezes terão permissão para
beneficialas.
6.^o Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste porto não
serão interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios
inglezes ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta
convenção.
Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar complicação
com o governo chinez. O governo de S. M. Britanica fica responsavel ao
Sr. D. João VI, pelas consequencias deste tractado.
Desembarcaram as tropas sem tumulto; aquartelaram-se na feitoria de
Bernardo Gomes de Lemos, e nas fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O
Almirante requereu estes dois ultimos quarteis, para não haverem
disturbios.
Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e
respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de lingoagem:
temeu logo que os britanicos insultassem os Chinezes. A intenção dos
sobrecargas e do Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa
da amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que
o Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo aquillo procedia da
intima alliança entre as duas Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha.
No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença para enviar
ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes de entrarem as tropas
inglezas em Macáo. Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo quanto
se tinha feito em Macáo.
No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir queixas ao
governador, pelos insultos, que faziam os chinezes aos britannicos; e
dirigiram-lhe a participação seguinte.--Somos obrigados, com pezar
nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso destacamento
na fortaleza de monte, a fim de evitar a communicação com os chinezes;
por quanto já espancaram alguns officiaes, e esta manhãa insultaram
outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do quartel,
haveria grande desordem. Se o destacamento se estabelecer na fortaleza
do monte, acabar-se-ha a idéa de perigo. Asseguramos-vos a repugnancia
com que fazemos esta applicação, mas somos a isso obrigados para evitar
males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, de quem
temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos de guerra. Seria
bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para receber o nosso
destacamento, fizesseis o mesmo á proclamação do vice-rei de Goa.
Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que
os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo Aleixo não
possuia o talento e virtudes exaradas por aquelle celebre navegador nas
paginas da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão em
que estavam.
Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a fortalesa do
monte: sendo necessaria para defeza contra os francezes, está nos termos
da ordem que recebi de Goa[37]: porém sendo o motivo dessa exigencia
evitar a communicação e disputa com os chinezes, estou certo de que na
feitoria, onde se acha aquartelada, observada a disciplina que hade usar
na fortaleza, conseguirá o mesmo fim sem dar logar a ciumes da parte dos
chinezes; causa sem duvida de males maiores do que pretendeis evitar: e
de mais, isso não é conforme com o tractado, que fizemos.
--A desconfiança do governo chinez tem augmentado pela occupação das
fortalezas da Guia, e Bom-parto com tropas britanicas. Assim acrescerá
mais em prejuizo do commercio das duas nações, que na união, com os
chinezes tem igual parte nesta cidade. A nação britanica não consentirá
em plano algum, que destrua esta união: e a mim não é permittido
admittir defeza opposta á lealdade, que este governo tem á constituição
do imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama
parte do mesmo imperio.
Ainda que é forte a razão que me assiste, maior será o meu pesar, quando
pareça falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer
os serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João VI. Elles exigem,
que espereis a resposta do governo chinez, aos artigos da nossa
convenção, que não pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer
outra participação. Sería agora passo arriscado, pelo escrupulo dos
Chinezes ácerca das intenções britanicas. O Senado já mais deixará de
cooperar no que for util á nação britanica. Agora mesmo acaba de pedir
aos mandarins do districto, providencias para evitar, que os chinezes
insultem os vossos officiaes.
Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de Goa. Tambem
fiz publicar a proclamação segundo o costume deste governo. Vivei na
intelligencia, que não esconderei o que vos possa interessar, não
offendendo o decóro desta cidade.
De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de
Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros, respondeu
neste espirito.--Eu o procurador da Cidade de Macáo, mandarim de
Hao-king, remetto-vos toda a nossa correspondencia com os inglezes, a
fim de conheceres a verdade. O Senado remetteu ao Almirante todas as
vossas chapas, (avisos) nestas circunstancias é o que podemos fazer.--
O mandarim respondeu:--Pelo que respeita ás cartas do Almirante, ainda
que as tenho feito interpretar, não posso entender o seu verdadeiro
sentido: espero que o declarareis ao portador desta para minha
intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa não prevalece contra os
tractados existentes do Governo celestial com o vosso Rei. Em quanto ao
desasocego dos moradores chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com
que os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em perfeita
quietação.--
[Nota: Outubro.]
No dia 16 remetteu outro aviso.
--Sei que fôra apresentada a minha carta aos inglezes para saírem de
Macáo, e que responderam terem vindo para defenderem Macáo dos
francezes, visto não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para saírem
precisam que venham soldados portuguezes!
É inegavel ser Macáo territorio da China, assim como ter-vo-lo concedido
a celestial dynastia, attendendo a virdes de tão longe, e quererdes
repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, não só vos tracta sem
differença de seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de
beneficios.[38] Os francezes não costumam insultar as terras deste
imperio: quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes
deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso
exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao
Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que embarquem
o seu destacamento sem demora.--
No dia 17 sabendo o mesmo mandarim, que os Chinezes emigravam de Macáo
assustados pelo ameaço da guerra, mandou outra chapa ao procurador,
offerecendo-lhe tropas para auxiliar os portuguezes, e animar os
Chinezes a fazerem o trato do costume, para não soffrerem os habitantes
da cidade por falta de alimentos.
(18 de Outubro.)--Mostrei a vossa chapa de hontem ao Almirante (tornou o
procurador ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio
com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento para com elle,
visto ir encarregado de negocio tão importante.
No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos
sobrecargas).--Capacitesse V. Exc.^a da grande importancia, que é para
as duas nações Portugueza e ingleza, accommodar em breve a
desintelligencia, que reina entre nós e os Chinezes. A viagem do
Almirante a Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que os seus
intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó. Só o padre Rodrigo o
pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. faculdade para elle
acompanhar o Almirante. O Governador concedeu a licença pedida.
Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as calamidades,
augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta seguinte: basta
meditala com reflexão para se conhecerem as intenções britanicas.
--Soubemos esta manhãa--ter chegado de Bombaim outro destacamento. O
Almirante ordena que desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que
mande fazer os arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes
vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas mandadas pelo vosso
Rei; e que desembarcadas estas embarcarão as que se acham em terra. Para
dar mais força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar os navios com
bandeira portugueza. As objecções dos chinezes são de pouca entidade.
Para este segundo desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos
licença para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns
macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos mandarins
representações desfavoraveis aos britanicos. Da sua má conducta nascem
os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não dá remedio a tam
grande mal, o Almirante enviará para o Brazil as pessoas suspeitas.[39]
Esta carta demonstra bem a protecção levada pelos inglezes a Macáo. 1.^o
soberba, 2.^o falsidades, 3.^o arrogancia fraudulenta, 4^o calumnias,
5.^o despotismo horrivel. Bernardo Aleixo usando da sua consumada
prudencia, respondeu nestes termos.
(Outubro 21.)--Dizeis ter ordem do Almirante para desambarcar tropas
novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender aos chinezes, virem
da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma duvida teria no seu desembarque, se
as circunstancias decorridas depois que desembarcaram as primeiras não
tivessem de dia em dia complicado mais este negocio com os mandarins.
Effeituando-se este segundo desembarque antes de conferir o Almirante
com o Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao commercio, já
suspenso em Cantão. Accresce ter eu agora recebido, ácerca dessa tropa,
protesto, que devo tomar em muita consideração. Esta cidade tem soffrido
muito com a vossa expedição; e a meu cargo está vigiar por seus
interesses. Não me consta haver aqui morador algum infiel á Caza de
Bragança, apesar de ser dever meu cuidar nessa indagação.
(Outubro 21.)--No mesmo dia, escreveu o mandarin de Hiang-san, ao
procurador de Macáo, neste espirito.--Consta-me chegarem ahi mais tropas
inglezas; jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito dos
seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó, de que faltais ao
vosso dever.
(Outubro.)--De 21 a 28 houveram disturbios entre os inglezes e os
chinezes. O procurador representou aos mandarins, que não tinha leis por
onde castigasse os chinezes em casos taes; e que para isso exigia
providencias.--Aquelles tornaram. Não são precisas leis para castigar
crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os inglezes,
tudo fica remediado.--Não davam resposta, á exigencia de providencias.
(Outubro.)--Em 29 escreveram os sobrecargas ao Governador:--Sabemos com
certeza não serem as partecipações de V. Exc. (ácerca do auxilio
britanico) expostas ao Suntó como deviam; antes sim pelo contrario.
Rogamos a V. Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico,
e que esta declaração seja remettida ao Almirante para elle mesmo a
entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V. Exc. em seguir o
exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar os portuguezes contra os
nossos inimigos. Se os moradores desta cidade fossem assim admoestados,
desejariam o nosso auxilio em logar de o aborrecer.--
(Outubro 30.)--Entre as difficuldades, que vos apresentei, tornou
Bernardo Aleixo, foi uma a complicação com os chinezes. Tenho
conhecimento do systema do seu governo por longa experiencia adquirida
na pratica; sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ
o máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui
considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado
desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao exercicio do meu emprego)
ser qual quer opposição do governo chinez, desembaraçada pelo Almirante
com o Suntó; agora vejo depender deste governo a ultimação do negocio.
O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da
vossa expedição: se tem havido desconfiança nos mandarins, não é
motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua
correspondencia entre vós e os chinezes.
Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um só deixa de
respeitar a caza de Bragança, costumada a encher esta cidade de
beneficios em honra do seu governo, e gloria de seus moradores. Porém
como não lhe seja vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não
deve extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar da
causa, aborrece os effeitos.
Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das
amas chinezas--que se retiram. Os infelizes que tem na labutação diaria
o seu recurso, lastimam-se pela escacez e carestia dos generos
alimentares. Os mais abastados lastimam-se por ver chegar o tempo de
fazerem suas negociações, e terem ainda as mercadorias empatadas por
falta de gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão ainda por fabricar
á mingua de artifices, que tambem fugiram. Os empregados publicos vendo
parar o commercio, lastimam-se por saberem, que delle tira o estado
rendimento para pagar-lhes. Os mesmos habitantes chinezes, dados ao
commercio, tem emigrado e levado até o mais inferior dos seus trastes.
Isto era de esperar de homens pacificos ao verem apparatos de guerra.
Além disso ameaçados pelos mandarins, que julgam a constituição do
imperio atacada pela vossa imprudencia.
Á vista do exposto não admira haverem descontentes, que deplorem a sua
desgraça, e aspirem ao socego deste fiel estabelecimento, que ha 252
annos tem sempre respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este
quadro se um tal povo necessita de proclamações para ser fiel ao Rei a
quem adora?
Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que
exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o
que fez pelo modo seguinte.--O chefe da companhia ingleza accusa-vos de
não teres enviado as minhas chapas ao Suntó, ou que mandando-as lhes
viciastes o texto. Não posso crer teres procedimento alheio do vosso
emprego e caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes
ao Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferir com elle, e
ficar desse modo illesa a vossa reputação.
Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo seguinte:--A
vossa carta encheu de magoa os nossos corações pelas circunstancias em
que se acham os habitantes de Macáo; tudo nasceu da conducta do Senado:
se adoptasse o nosso systema, não teria agora de vêr essas lastimas. Os
macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa expedição; e
fizeram repetidas instancias ao governo chinez, pedindo soccorro contra
os hostis procedimentos britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o
manejo do Senado motivaram todos os males.--Em verdade dissemos, que o
almirante removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria se
o governo de Macáo se unisse cordialmente com o almirante.
Os esforços que V. Ex.^a promette fazer em suas applicações ao governo
chinez, são para nós de grande importancia. Sabemos que hão-de produzir
bom affeito. Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo pode remover
as presentes difficuldades e miserias.
Grande documento é este para augmentar, se é possivel, a honra dos
macaenses, pelo valimento que tem com os chinezes. No principio da
carta, invectivam os sobrecargas aos macaenses; no fim pedem-lhe
misericordia! Era tal a ambição, ou a impudencia daquelles bretões, que
diziam em face ao governo de Macáo serem motivadas as calamidades
daquella cidade pela ignorancia dos chinezes, e manejo do Senado! Quem
não vê provir tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se
daquelle nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser aquelle
empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos portuguezes? Em
pouco sairá o almirante da illusão em que o tinham os sobrecargas.
O ultimo paragrafo desta carta merece particular attenção: O governador
despresou as argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.--Vejo a
necessidade que tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O
Senado já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos
remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a
vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas desconfianças.
Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até agora equivoco)
farei novas representações ao governo chinez sempre que me indiqueis a
forma de applacar a tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos
mandarins superiores.
Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem não esperaria
moderação nos sobrecargas? A carta seguinte mostra o contrario!
[Nota: (Novembro 3.)]
--Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e
descarregando navios britannicos em Macáo.--Em virtude de ordens do
almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.^a que mande apromptar
armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas embarcações.
Esta medida nasce da oppoção que os chinezes fazem ao auxilio dado por
nós a esta cidade. Esperamos que V. Ex.^a não recuse os seus extremosos
esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do governo de
Macáo são bagatela em comparação dos que temos soffrido pelo embargo do
commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a generosidade de
querermos dar segurança a esta cidade: Assim esperamos a ordem para a
descarga, sem dilação.
Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia á vontade do
almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo sou forçado a dizer o que
sendo publico, admira ser por vós ignorado. As leis deste paiz só
admittem navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o
direito das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de Cantão,
até poderem seguir o seu destino. Achando-se em iguaes circunstancias,
qualquer navio da companhia, não haverá duvida na sua admissão; porém se
a descarga, que se pertende fazer em Macáo provem da opposição dos
chinezes ao commercio britannico, tenho grande embaraço no cumprimento
do meu desejo.
Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem só
carregações neste porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se
o commercio inglez está prohibido em Cantão, como o poderei admittir em
Macáo, sendo dominio chinez, sómente aforado aos portuguezes debaixo de
certas condições, que vós, dizendo auxiliar, pretendeis romper?
Accresce não haver logar para tão grandes carregações: por falta de
gyro, acham-se todos os armazens cheios de generos vindos na monção
ultima. Dizeis que são grandes os vossos sacrificios, e os nossos
bagatela! Os sacrificios, neste sentido, não devem considerar-se pelo
valor das riquezas: por perderes muito não se segue, que não sejam
maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. Lançais as culpas das
vossas perdas sobre nós, e que faremos a vosso respeito? O tempo fará
justiça ao nosso procedimento[40].
Agora (apezar de tudo) é tal o meu desvelo em vos servir, que se algum
navio se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, terá os
soccorros necessarios como se pratica entre povos civilisados; sem
offensa dos laços domicilarios e privativos, sustentados pelo esforço e
gloria da Nação Portugueza.
Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os
britannicos: aquelles não só maltractavam estes, encontrando-os nas
ruas, mas tambem lhe apedrejavam as janallas. Por mais que o procurador
do Senado exigisse providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a
mesma.--Sáiam os britannicos da cidade, e tudo ficará em socego.--Quando
os inglezes estavam mais teimosos em descarregar os seus navios em
Macáo, baixou a seguinte admoestação do Suntó aos sobre-cargas.
Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso
Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo: considerando elle que
os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito tempo, obedientes e
politicos, concedeu aos europeos licença para negociar em Cantão;
reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes
experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes na
China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados, nem
desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo é cidade edificada em
terreno chinez: a dynastia passada concedeu aos portuguezes
estabelecerem-se alli; a presente, em virtude da sua antiga posse,
deixou-os ficar como d'antes; porém debaixo de certas condições. A
nenhuns outros europeos se concedeu privilegio semilhante! Como
pertendeis vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear venham os
francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a pertubar as
terras deste imperio: e quando venham com muito socego os esperaremos;
vindo desfalecidos, e sendo poucos contra muitos, sem batalha ficarão
vencidos. Terão a sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser
amigos dos Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes!
Porque não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou porque não
os esperais fora das ilhas da china para os baterdes quando cheguem? Não
é justo estares em Macáo quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo
a união mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo
perdeis o direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura não
sabeis o que vos é interessante? Podereis existir sem commercio? Por
certo não: pois quanto mais depressa embarcardes os soldados, mais cedo
se vos abrirão as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis
communicação com a terra. Ponderai bem o que vos proponho, e não me
incommodeis com mais peditorios.--
Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do districto, que o
ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, nas leis do
imperio, a fim de não se irritar contra elles o Suntó, chegou outra
chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, em que dizia:--
Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi, faço saber ao
mandarin de Hiang-san, que da entrada dos soldados inglezes em Macáo,
são culpados os seus moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas
examinando o seu antigo, e moderno procedimento, achei serem sempre
gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo toléro o erro commettido.
Ácerca dos navios inglezes, já consultei o Kuam-pu, a fim de lhes
permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que pertence aos soldados,
dei parte ao Imperador; eis a sua resposta:--Se os inglezes tiverem a
ousadia de presistirem em sua teima, lançaios fora com o nosso
exercito.--Em poucos dias elle marchará sobre Macáo: no entanto
recommendai aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti
ao Procurador, que não se fie desses inglezes.
Como estes não fossem promptos na execução das ordens do Suntó,
augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que julgaram
tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes.
Desembarcarem estes as tropas já não éra a maior offensa: o que mais
ferio o orgulho chinez, foi não obedecerem logo ao mando do Imperador.
Tomaram os mandarins calor tão ardente, que não deixavam passar um dia
sem repetirem intimações para que os inglezes saíssem de Macáo: eis o
seu espirito.
Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo apossaram-se das
igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão vossas cazas possuidas ha
seculos; depois tirar-vos-hão mulheres e filhos: não podemos soffrer tam
grande offensa. Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa.
(proximos á cidade de Macáo) afim de os anniquilar. Despresaram a graça
feita pelo Suntó; soffrerão o peso da força, que marcha contra elles.
Esses inglezes sendo homens não tem coração humano; conhecem os males
que tem feito, e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e
somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só inglez
escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e perguntai-lhe se
ainda querem teimar contra a justiça, que os ameaça.--O procurador
respondeu:--
--Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos sobrecargas
inglezes; não despresam as graças do Suntó; acham-se promptos para
retirar-se; mas não o podem fazer de repente. Os inglezes vieram com
designio de nos auxiliar assim julgo ser mal fundada a vossa
desconfiança. Não precisamos do vosso exercito; viria fazer maior damno
á cidade. Sabeis quaes são as leis que regem este nosso estabelecimento:
não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás muralhas desta cidade
tropa chineza, sem que a pessa, e é cousa, que ainda me não veio á
lembrança. Não é justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos
auxiliar; trouxeram-nos incommodos e perdas.--
É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense para com os
inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas! Ao mesmo tempo enviaram
os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta seguinte.
--A situação em que nos achamos é triste: temos recommendação do
Almirante para evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa
reconciliar-nos com os chinezes. Se esta recommendação for confirmada
aos manderins, por V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os
inglezes.
Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava
socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os mandarins, sobre a
retirada da espedição britanica sem efusão de sangue, donde resultou o
tratado seguinte.
Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e
o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da selecta
companhia, desejando retirar o destacamento inglez, decorosamente,
ajustaram:
1.^o O Ministro Arriaga tractará com os mandarins ácerca da retirada das
forças britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se
achava, antes da sua entrada nesta cidade.
2.^o Exigindo este negocio a cooperação do Almirante, Miguel de Arriaga
irá a Wampo-o, para se concluir alli do modo mais vantajoso ao vinculo
das tres nações.
3.^o Concluido este negocio cessará a prohibição de mantimentos para
sustento dos inglezes.
4.^o Os mandarins farão suspender immediatamente a marcha das tropas
chinezas dirigidas a esta cidade.
[Nota: (Dezembro 11.)]
A presente convenção mostra a confiança, que o Ministro Arriaga tinha em
domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, que só a
politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de um homem pudesse
conter a justiça chineza, sustentada por 80 mil homens! A carta seguinte
dirigida a Bernardo Aleixo, dá bem a conhecer o dominio que Arriaga
tinha na vontade dos mandarins.
(Dezembro 11)--Depois que assignámos a convenção esta manhã, fui ao
pagode, onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com elles a
fim de soltar difficuldades proprias a uma nação escrupulosa e
desconfiada; todavia consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso
capaciteios das boas intenções britannicas (apezar de terem sido más
para nós); naquella intelligencia asseguraram-me ficar o commercio
inglez no mesmo pé e systema antigo--Despedidos os mandarins; tornou
Arriaga á cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por
meios tão honrosos para a nação portugueza, como lisongeiros para o
negociador.
Sabendo o mandarin de Hiang-san, que o novo governador Lucas José de
Alvarenga, instava pela posse do seu emprego, remetteu ao procurador a
chapa seguinte.
--Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo governador dirigido bem
este negocio; agora constame, que o successor insta para tomar posse e
que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende fazer: não é
conveniente: os inglezes entraram no tempo do seu governo, nelle devem
saír. Sabemos que o novo governador veio em navio inglez; quem nos
assegura não ter elle correspondencia com esses homens? Não é justo nem
conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos extraordinarios
nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando os inglezes saírem
de Macáo e ficarem todos em socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os
costumes.
[Nota: (Dezembro 11 de 1808.)]
No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para
Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da náo se
avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. Em 14 de Dezembro,
já de volta fez Arriaga, a participação seguinte a Bernardo
Aleixo.--Assim que cheguei á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual
era a minha commissão: respondeu ter já ordenado o embarque das tropas,
e que desejava ser grato ás officiosas declarações anteriormente feitas
pelo governo de Macáo; pois eram veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a
civilidade propria de sua pessoa: disse que esperava do governo de Mocáo
o bom serviço de remover qualquer difficuldade, que de novo apparecesse.
Despedi-mo-nos com as mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle
ceder veio acompanhar-me ao portaló.
Logo que o ministro Arriaga concluio a sua negociação com o almirante,
dirigio-lhe o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta
seguinte.
(Dezembro de 1808.)--Os officios de V. S., de 11 e 14, manifestam o
grande trabalho, que teve na conferencia com os mandarins: Pelo contexto
dos mesmos se conhece a excessiva applicação e desvelo com que V. S.,
além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com heroico
patriotismo, a cruel revolução que ameaçava esta cidade.
Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais importante
serviço á patria. Á força de tão efficazes e singulares deligencias
_devem os inglezes_ fazer a sua retirada sem effusão de sangue, e os
macaenses o socego da cidade.
(Dezembro de 1808.)--No dia 16 começou a retirar-se o destacamento
britannico; depois de se effeituar o embarque de tudo quanto lhe
pertencia, cuidaram logo os sobrecargas em obter licença para
desembarcar as suas mercadorias em Cantão. No 1.^o de Janeiro expedio o
Suntó a chapa seguinte.
--Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de Cantão, faz saber a todos os
europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em Macáo jámais se
lhes devia permittir commerciar neste imperio. Com tudo lembrando-nos
que o seu rei offerecera tributo ao nosso imperador, relevamos a
offensa, que nos fizeram pela sua entrada em Macáo. Agora depois de
enviarem os soldados ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos,
perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir commerciar neste
imperio. Conhecendo a misericordía do nosso imperador, cedi ás suas
repetidas supplicas, deixando que desembarquem as mercadorias, e possam
vendelas nesta cidade. Devem receber esta graça como um beneficio
extraordinario. Assim mostramos, que as leis chinezas tem enfraquecido
com o tempo: no futuro haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante
se algum europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será lançado
fora para sempre.
Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam antes de
tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia enormes sommas dispendidas
naquella empreza.
Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram della, farei ver agora o
motivo porque atentaram.
A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. João
VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez julgar aos bretões,
que Bonaparte se apossaria de Portugal, assim como o tinha feito da
maior parte da Europa.
Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, seu inimigo, seu
inimigo, como havia sido o antigo, praticaram a lição tomada dos
hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda tinhamos no
Oriente.
Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes,
não lhes convém possuilos outra nação, que não seja a portugueza, já
pela sua antiga alliança, já por não a temerem. Avisaram os agentes da
companhia, para guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte
do mundo, a fim de não serem tomadas pelos francezes; na esperança de
que voltando Portugal á sua independencia, tudo ficaria como dantes; e
se não podesse livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos
ainda no Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e
Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez.
Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os
sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam
desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os
britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos espalharam dinheiro na
feira de Cantão, esperando que havendo alguma desintelligencia entre os
portuguezes e os chinezes, estes os preferissem.
Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas
em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os inglezes;
por quanto estes não são menos violentos em seculo mais illustrado.
Veja-se no quadro seguinte a differença de ambição e despotismo das duas
nações.
--Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 milhões de homens
de castas, côres, e raças differentes: é a India ingleza. A Soberania
não pertence á nação; exemplo unico na historia do mundo; é propriedade
de uma companhia de negociantes! Viram-se os cartiginezes enriquecidos
pelo commercio, conquistaram a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o
corpo inteiro da nação, foi quem adquerio pelas armas importantes
possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza adquirio grande
esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da Asia, eram
armações fortificadas, e não colonias.
A companhia ingleza sem perder o commercio dos portos de mar, estendeu o
seu dominio a mais de trezentas leguas pelo interior das terras. As
regiões mais ferteis e mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de
fazenda amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, ostentam luxo
asiatico, e reinam com orgulho.
Especulações mercantis elevaram este thesouro de nova especie, que
subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria dos Principes,
respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra e consagra nefandas
usurpações.
As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que são
vendidas em leilão, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e
comprando acções da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem
fortalezas, náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode vir e
dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Grão-Mogol,
o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande
Lama[41]!
Os portuguezes combateram na India os sectarios de Mafoma livrando desse
modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes
servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal fadados bramas.
Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os lusitanos obraram prodigios
na India, vingando sobre os turcos os males que lhe haviam soffrido em
nossa terra, hoje não desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por
quanto o Suntó disse:--Nenhuns outros europeos alcançarão (por merito)
os privilegios concedidos aos portuguezes.--Os sobrecargas confessaram,
que só o Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias (que
elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem disse:--Estou muito
obrigado ao governo de Macáo pelas suas declarações anteriores; por
quanto eram veridicas e justas.--Taes declarações confirmam a dignidade
do caracter Luzitano, em todos os tempos e logares.
Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros
nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado alli em
1808, e fallaram do que viram praticar em 1809, pelo modo seguinte.--As
patrioticas applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram a esta
cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas as
nações commerciantes a liberdade dos mares da China[42]. Os povos
chinezes congratulam-se com a extincção do inimigo que por mais de 20
annos os havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio
insufficientes para destruilo.--
Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever: não foi menor
a vantagem de Macáo e a gloria da nação portugueza, lançar fora daquella
cidade as tropas inglezas, que della se pertendiam apossar.
Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador que fôra de
Macáo, sou obrigado a contestala para desagravar os macaenses das
offensas que alli lhes derige aquella triste e miseravel jactancioso.
Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera
motivo a isso outra impressa em Lisboa em 1824; por se achar nella o seu
nome inglorio. Sendo eu quem a escreveu, devo mostrar a razão de não
fallar em louvor do Sr. Lucas.
Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e o Sr. Lucas entrou
naquella cidade em Setembro do mesmo anno. Tornei a Macáo em Novembro de
1810, já elle tinha saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher
factos sobre a extincção dos piratas, a fim de completar o meu opusculo,
tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas daquella cidade.
Haviam em tão pouca conta este cavalheiro, que não se atreveram a
confiar-lhe o governo das armas senão depois de fazerem retirar as
tropas inglezas, como fica demonstrado, no officio do mandarim de
Hiang-san.
O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos
lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é, 1.^o O zelo e a
actividade do Ministro Arriaga; 2.^o o valor das pessoas empregadas na
esquadra; 3.^o a existencia dos tractados; 4.^o a entrega dos piratas
5.^o a invasão e a retirada das tropas inglezas; mas offende-se do
silencio guardado a seu respeito; e julga haver nesse procedimento algum
misterio.
Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta memoria por não fallar
na sua entrada em Macáo, no dia da sua saída, e talvez naquelle em que
fôra encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso não ter
fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um escripto consagrado ás
virtudes Luso-Macaenses, com a irregular conducta de tal governador.
Como fallaria em louvor de um individuo desprezado não só pela sua
conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr. Lucas por fraco obstou ao
mais glorioso triunfo que podiamos obter em recompensa de tantas e tão
longas fadigas: obstou que o chefe dos piratas se entregasse com toda a
sua esquadra no porto de Macáo. Destas e outras acções do Sr. Lucas
devia eu fallar, se escrevesse a historia de Macáo, mas eu apenas me
encarreguei de levar á posteridade dois factos dessa historia, a
destruição dos piratas, e o desembarque e retirada das tropas
britanicas. Não fazendo o Sr. Lucas cousa boa digna de notar-se, julguei
fazer mercê ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em que alli se lançou.
Sendo este opusculo destinado a louvar as acções dos Luso-Macaenses, não
devia apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario
do que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um
governador, cuja administração foi tempo de martyrio para os macaenses,
não só pela falta de caracter do Sr. Lucas, mas tambem pela grande
rapina do ouvidor Peixoto?
É verdade innegavel ser tudo quanto alli se praticou de maravilhoso,
devido ao genio extenso e luminoso de Miguel de Arriaga. Assim o provam
as actas do Senado, as cartas de Cam-pau-sai, as de Bernardo Aleixo, e o
hymno cantado na presença dos bons Macaenses, pelo benemerito cidadão
José Baptista de Lima, no dia em que estes celebraram o triumfo de
Miguel de Arriaga pela extincção dos piratas.
Quando fallei, em 1824, na 1.^a parte desta memoria, ácerca do bom
governo Macaense referime á sua fórma e aos annos em que influio nelle
Miguel de Arriaga, e Bernardo Aleixo. Agora vejo, com admiração, o Sr.
Lucas arrogar a sí os louvores de outros, quando elle ainda nem ao menos
tinha visto Macáo!
O Sr. Lucas diz, a paginas 23 de sua memoria:--Sei em ultima analyse que
não sei nada, e não sou nada--e a paginas 7 diz:--Tendo eu sido autor de
todos os negocios publicos e mui particularmente este, sería bastante
para dar idéa do objecto contestado, e da falta de exactidão da memoria
impressa em 1824, do espirito, conhecimentos, e fins com que foi
escripta.--
O homem que não é nada, e não quer nada pretende roubar a gloria dos que
foram alguma cousa; contestar com falsidades, documentos legaes e
autenticos. Confessa a veracidade dos factos impressos nesta memoria, e
censura o seu autor por não lhe dar a elle o que pertencia a outros! Eis
a falta de exactidão encontrada pelo Sr. Lucas: dahi nasce a sua
desconfiança ácerca do espirito, conhecimentos e fins com que ella fôra
escripta.
Póde viver certo de que o espirito foi patriotico; os conhecimentos
extraídos, parte das actas do Senado, parte adquerida na presença dos
factos; e os fins limitaram-se no gosto de levar á posteridade os factos
macaenses.
Arriaga, Bernardo Aleixo, Pereira Barreto, Alcoforado, e outros muitos
empregados naquella empreza, já o mundo os havia perdido quando tive a
honra de publicar pela imprensa as suas virtudes e proezas; o Sr. Lucas
não sendo nada e não querendo nada, esperou que elles morressem para
denegrir não só as proezas, mas tambem as virtudes daquelles varões
illustres!
--Não posso deixar passar semelhante expressão, diz o Sr. Lucas a pag.
11, por conter noções erroneas e falsas em perjuizo da honra e da gloria
que me provem do resultado de todos os brilhantes feitos na época
sómente do meu governo, e cujo brilhantismo principiou com a minha
chegada e acabou com a minha retirada!--
Ainda senão vio maior jactancia. O Sr. Lucas chega aponto de alterar a
fórma do governo só a fim de roubar a gloria que não lhe pertence.
É elle mesmo quem confessa, apesar do roubo que pretende fazer, a
paginas 42 da sua memoria, não ter influencia no governo.--O Senado, diz
elle, projectou mandar a galera Ulises ao Rio de Janeiro, afim de
cumprimentar El-Rei; oppuz-me; com tudo a galera proseguio--Assim
destroe o mesmo Sr. Lucas as suas argucias.
Em quasi todas as paginas da sua memoria lançou argumentos
contra-producentes.--Chegaram os piratas pela sua quantidade e força,
diz elle a paginas 43, a dominar os canaes de Wampo-o; então por
circunstancias, apesar das ordens superiores que me embaraçavam a
fazelo, expedi ordens em Setembro de 1809 para serem batidos. O Sr.
Lucas, em seus improvisos desacredita os mesmos a quem pretende elogiar.
As ordens superiores referem-se ao Vice-Rei de Goa: porque motivo daria
este ordem para não se atacar os piratas? Estaria comprado por elles?
Que mais é preciso para saber-se que o Sr. Lucas não cooperara cousa
alguma para a destruição dos piratas, elle mesmo confessa que fôra
obrigado a mandar ordens para serem batidos os piratas?
Em verdade o Senado, de quem Arriaga éra a alma, foi quem o obrigou a
mandar aquella ordem; logo fica demonstrado pelo mesmo Sr. Lucas, que o
brilhantismo daquella época não lhe pertence, pois até para expedir a
ordem para serem batidos os piratas foi obrigado pelo Senado.
É certo, diz elle a pag. 46, que um dia depois que recebi parte do
commandante da esquadra, em que dava por verificada a entrega de
Cam-pau-sai, partio Arriaga para a bocca do rio Tygre, dizendo ír a
negocio particular, e é certo que indo, esteve com o cabeça dos piratas;
e é certo tambem que este logo se retirou com toda a sua esquadra; e que
a entrega se não fez, quando a parte do commandante (Alcoforado) a dava
por verificada!--
Que mais se poderia dizer em desabono do Sr. Lucas, do que elle mesmo
escreveo? Pois quem diz fizera tudo, não sabendo nada! Quem diz que o
brilhantismo de Macáo principiara com a sua chegada alli, e acabara com
a sua retirada, confessa que tendo uma esquadra vencedora debaixo das
suas ordens, deixara fugir o inimigo depois de se ter já entregado?
Então a quem comprou Arriaga na sua viagem á bocca do rio Tigre, ao
Chefe da esquadra portugueza, ou ao chefe dos piratas? Compraria ambos?
Tudo aquillo é falso; mas quando fosse verdadeiro, provaria que éra
Miguel de Arriaga quem predominava em Macáo.
Os documentos improvisados pelo Sr. Lucas; e o Officio dirigido ao
Vice-rei, são partos do seu estro, quando se achava dominado pelo furor
de elogiar-se. O enviado inglez, no Rio de Janeiro, servio-se delles
para desacreditar Arriaga, e Bernardo Aleixo na opinião de El-Rei; mas
este desmascarou a intriga, premiou os macaenses, e castigou o Vice-rei,
por ter mandado a Macáo o Sr. Lucas, que desde então já mais obteve
emprego algum.
Este cavalheiro além de pretender a gloria alheia, deixa ver na sua
memoria o azedume com que a escrevêra! Tentou deprimir os macaenses, e
denegrio a sua estirpe. Um brasileiro jámais deve fallar em desabono
ácerca de colonias povoadas por degradados; por quanto assim que Pedro
Alves Cabral descobrio -----File: 0166.png---\\\\\\-----o Brazil
despejaram-se as masmorras de Portugal. Quando nossos maiores chegaram a
edificar uma cidade no imperio chinez, os criminozos de todo o reino
eram diminutos para domar a sanha dos butecudos e tupinambas nos sertões
do Brazil.
Timor é o unico presidio que temos além da Taprobana. Só Camões, pelo
respeito devido ao genio, obteve ficar em Macáo servindo o emprego de
Juiz dos orfãos naquella cidade, rica pela salubridade do clima, pelos
alimentos, pela forma do seu governo, e pelas virtudes de seus
moradores.
O Sr. Lucas não escreveu para fornecer á historia cousas proprias a
fazer os homens melhores; pertendeu injuriar os macaenses com despreso
da razão e da justiça. As providencias que ele diz foram a Macáo em
1783, são impoliticas e desconcertadas: que outra cousa se poderia
esperar de dois theologos no governo de um reino? (Martinho de Mello, e
um frade) visões, argucias, e fogueiras.
Fallava Martinho de Mello, naquella época, dos incontestaveis direitos
que tem a corôa de Portugal sobre Macáo! Que dirá o imperador da China,
a quem pagamos fóro? Mas quando assim fosse, quem sustentou ha perto de
300 annos esses direitos? Degradados? Por certo não. Martinho de Mello
era tão hospede na historia daquelle paiz, que ignorava haver um decreto
feito em 31 de Agosto de 1629, que prohibe a qualquer degredado, que
alli se refugie, servir os encargos da cidade, e mesmo de eleger para
elles.
--O Senado de Macáo, composto de degradados que para alli se refugiam,
diz Martinho de Mello, ou de outros similhantes, ignorantissimos em
materia de governo, não lhe importa cousa alguma que diga respeito a o
decoro nacional, nem ao incontestavel direito da soberania, que Portugal
tem áquelle importante dominio!--
Fallar assim a povos residentes na China, não é só grande impolitica mas
tambem supina ignorancia das materias de governo. Graças aos generozos
macaenses, que despresando as invectivas dos sejanos, tem sempre
concorrido para tudo quanto é decoroso e interessante a Portugal. O
procedimento daquelle ministro deixa ver que elle tinha mais carencia de
luzes e de virtudes, do que os homens a quem offendeu.
Nem Martinho de Mello, nem o Sr. Lucas (da viola) jámais poderiam fazer
as proezas que em todos os tempos obraram os illustres macaenses. Thomaz
Vieira, natural de Macáo, sendo governador daquella cidade em 1627,
vendo-a sitiada pelos hollandezes, armou seis pequenas embarcações e foi
accommettelos. Abordou uma grande náo, que tomou, fazendo horrivel
mortandade no inimigo; os restantes fugiram deixando triumfante o
denodado Vieira.
Os macaenses sempre honraram e prestaram a Portugal, já fazendo despezas
avultadas com os nossos embaixadores ao imperador da China, já mandando
generosos presentes á capital do reino luso, já derramando o proprio
sangue a fim de limpar as costas da China de piratas, já na defeza dos
muros levantados por seus maiores.
Os governadores exigentes das providencias, que alli mandou Martinho de
Mello, eram similhantes aos que desolaram Macáo em 1626, 1709, 1747, e
mesmo ao Sr. Lucas seu elogiador aprol da tyrannia. Para se avaliar dos
homens que pedem taes providencias, bastará ler a carta seguinte do
Conde de S. Vicente. Tem por objecto responder a El-Rei D. Afonso V,
sobre o oitavo que mandava receber, de todos os rendimentos
particulares; tributo imposto em 1666 pelo vice-rei Antonio de Mello e
Castro.
--Sr.: a India ve-se de muito longe, e ouve-se mui tarde: assim não me
espanto da fórma com que muitas ordens se expedem, nem do mal com que
outros se guardam[43]. Já um grande ministro disse:--A jurisdicção dos
Reis de Portugal apenas chega a Santarem; dahi para cima tudo é dos
corregedores--Na India a dos vice-reis não chega a tanto; o mais é dos
capitães das fortalezas! Os gentios não tem fazendas, os canarins apenas
cultivam para comer; assim não ha de quem se receba esse oitavo. Das
pedras não se tira mel. Vossa Magestade deve mandar á India quem lhe
faça desses impossiveis, que eu não sei mais do que chorar as miserias,
que vejo. Se isto vai de mim, venha outro; se nasce dos povos, tenha
Vossa Magestade delles piedade. Goa 26 de Janeiro de 1668.
Se todos os vice-reis fallassem deste modo aos imperantes, não íriam a
Macáo aquellas offenças em logar de providencias; os povos seriam
felizes, os portuguezes respeitados, e os Alvarengas mais commedidos.
Julgo ter dito quanto basta para fazer arrepender o Sr. Lucas de querer
arrogar asi a honra, que não lhe pertence, e de ser ingrato aos
macaenses que tanto lhe soffreram. Para o Sr. Lucas avaliar, com mais
conhecimento de causa, o espirito e fins com que fora escripta esta
memoria, ahi lhe remetto a copia fiel de uma carta que dirigi ao Senado
de Macáo em 1826, assim como a sua resposta.
_Carta dirigida ao Senado de Macáo._
Senhores, ainda que separado de vós ha doze annos pela distancia immensa
da Europa á China, o meu espirito esteve sempre comvosco. Havendo no
coração o germen de todas as virtudes, e recebido da natureza alma docil
ás suas impressões, jámais poderia esquecer-me das sublimes qualidades
que possuis. Deviam ser escriptas por outro Andrade como Jacinto Freire,
mas tivesteis a desventura de viverdes em seculo diminuto em escriptores
capazes de dar vida ás proezas dos heroes.
--Grandes e magnificos foram sem duvida os feitos dos athenienses; mas
quanto a mim, diz Salustio, menores do que a fama. Havendo alli muitos e
grandes escriptores, as proezas dos athenienses foram celebradas no
mundo pelas maiores. Assim o valor dos que as fizeram passa por tal,
qual nos seus exagerados escriptos o figuraram esses preclaros
engenhos[44]--Em nosso tempo não acontece o mesmo; para o mundo saber
das vossas proesas na carreira da gloria servio-se da minha tosca penna.
O livro que vos offereço é pequeno em volume, porém grande em seu
objecto: basta conter os grandes feitos que praticasteis na extincção
dos piratas. Na segunda parte que ficou a imprimir-se em Lisboa ainda
alcançasteis mais gloria. Na primeira realçam os vencedores de
Cam-pau-sai, na segunda brilha o Senado com a expulsão dos inglezes.
Porém não é elle a mesma cousa, o Leal Senado de Macáo, e os cidadãos
macaenses? Nesse tempo luctuoso viviam todos animados do mesmo espirito;
a todos se ouvia a mesma voz:--Morrer, dizeis, ou mostrar que
descendemos dos Castros e dos Almeidas.--
Desculpai, Srs., se desafio a vossa mágoa recordando-vos os illustres
collegas, que por longa serie de annos regeram com vosco esta cidade.
Julgo-os com direito á minha lembrança e aos vossos elogios. Porque
motivo usarão os oradores celebrar só os poderosos? Por que não louvam
elles as pessoas abalisadas em merito e virtudes? Se é preciso celebrar
sempre os grandes, porque não se lembram tambem dos homens que foram
uteis? Não será digno de louvor o magistrado que usando da espada de
Astrêa, por muitos annos, o fez com tanta prudencia, que não ferio
cidadão algum? Magistrado que havia coração tão sensivel e humano, que
não se limitando em fazer a paz e a ventura de uma cidade, pretendia
abranger com esses dons á maior parte do mundo? Que abrazado no sancto
amor da patria, empenhava quanto possuia para engrandecela e
glorificala? Em fim o varão forte que assaltado por intrigas e calumnias
de ingratos, capazes de enfraquecer o espirito de Zeno, as supportava de
animo tranquillo? Vós sabeis que Miguel de Arriaga possuio estas
sublimes qualidades.
Quem, Senhores, deixará de louvar o illustre José Joaquim de Barros,
quando nesse mesmo recinto, agitando-se a questão se deviam, ou não ter,
accesso os inglezes, exclamou.--Voto que não se deixem entrar; desse-me
o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa,
gostoso darei a vida em honra da Patria[45].
Qual de vós, macaenses, nessa crise perigosa houve differentes
sentimentos? Todos repulsasteis o inimigo por modo singular e
extraordinario.
Do monumento consagrado á vossa memoria, offereci um exemplar ao Sr. D.
João VI; dizendo-lhe que certo de em parte alguma depositar melhor as
proezas macaenses do que em suas reaes mãos, alli lhe entregava feitos
praticados em dias, bem similhantes aos do feliz tempo em que os
lusitanos pelo caminho da virtude subiram ao templo da immortalidade.
Fiquei satisfeito por saber depois, que El-Rei apreciára o livro, onde
se acham exaradas as proezas macaenses; porém será completo o meu gosto
se as julgardes levadas á posteridade por maneira digna de vós.
Em verdade, Senhores, é preciso ser estupido para não admirar o vosso
animo, e barbaro para com o vosso exemplo não sentir o estimulo da
virtude. Coimbra, Mattos, Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas:
serviram por mais de trinta annos os encargos desta cidade por modo, que
nem Focio, ou Aristides o fez melhor em Athenas[46].
Macaenses, se os louvores provém de interesse, devem despresar-se; se a
lisonja tenta enganar os poderosos, deve temer-se; porém quando a
admiração tributa homenagem á virtude deve estimar-se.
Assevero-vos que nesse opusculo liguei sempre a minha alma ás vossas
acções; se lhes faltam pensamentos animados, por mingua de genio, tem o
grito da verdade, unico preciso para immortalisar-vos.
_Resposta._
O Senado recebeo com satisfação a vossa memoria, por ver nella
immortalisados os feitos macaenses, na estincção dos piratas, que
infestavam o nosso arquipelago. Em verdade vós ornasteis o vosso e o
nosso quadro com as flores e bellesas de Camões e dos Andrades. O Senado
não perderá occasião, em que vos possa ser util em reconhecimento de tão
precioso presente.
_Cartorio do Senado, 16 de Novembro de 1826_