PROLOGO DA SEGUNDA PARTE.

A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer

mal; não privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um

o que é devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem só

merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da

sociedade.

A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode considerar-se

o centro comum de todas as outras. Ella dá aos entes da especie humana

direitos sobre o nosso coração. Sim ella tem por base a sensibilidade, e

esse sentimento dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as

nossas faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, a beneficencia,

a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.

Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor

da patria; isto é, produz a necessaria affeição nacional.

A força deve só respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em

que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e

moderação. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes

sociaes; as quaes tem por objecto o bem da sociedade devem ser efficazes

e não inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela

impostura, ou fanatismo. A sociedade só agradece acções proveitosas: só

essas merecem a sua estimação e reconhecimento.

A justiça é o vinculo da união social; sustenta a balança em equilibrio

entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da

differença que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma

desigualdade ao bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e sábia

distribuição do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e

chama á ordem os que são tentados a obrar contra os entes da sua

especie.

Taes são as disposições que a sociedade deve exigir dos seus membros;

tudo nos mostra a sua utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem

por fundamento a natureza e as precisões constantes da especie humana.

Faltando a justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o estado social

torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. É melhor viver só

do que rodeado de homens injustos.

A temprança é igualmente necessaria: a prudencia nasce da razão ou da

experiencia das cousas. A razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a

estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a razão compara

os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do

preterito, e do futuro para não saír da meta conveniente na occasião

opportuna.

Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da

sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os cidadãos, em paz e

socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios

internos, e das invasões externas. O Senado de Macáo firme nestes

principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam

aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam

esbulha-lo da sua pósse, ou perturbar o socego publico.

Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de

Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda que elles

diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado

desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.

Assim firme em sua resolução, sustentou entre os Chinezes e os

britanicos a seguinte correspondencia.

Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo · 第 8 / 11 题