A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer
mal; não privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um
o que é devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem só
merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da
sociedade.
A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode considerar-se
o centro comum de todas as outras. Ella dá aos entes da especie humana
direitos sobre o nosso coração. Sim ella tem por base a sensibilidade, e
esse sentimento dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as
nossas faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, a beneficencia,
a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.
Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor
da patria; isto é, produz a necessaria affeição nacional.
A força deve só respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em
que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e
moderação. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes
sociaes; as quaes tem por objecto o bem da sociedade devem ser efficazes
e não inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela
impostura, ou fanatismo. A sociedade só agradece acções proveitosas: só
essas merecem a sua estimação e reconhecimento.
A justiça é o vinculo da união social; sustenta a balança em equilibrio
entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da
differença que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma
desigualdade ao bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e sábia
distribuição do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e
chama á ordem os que são tentados a obrar contra os entes da sua
especie.
Taes são as disposições que a sociedade deve exigir dos seus membros;
tudo nos mostra a sua utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem
por fundamento a natureza e as precisões constantes da especie humana.
Faltando a justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o estado social
torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. É melhor viver só
do que rodeado de homens injustos.
A temprança é igualmente necessaria: a prudencia nasce da razão ou da
experiencia das cousas. A razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a
estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a razão compara
os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do
preterito, e do futuro para não saír da meta conveniente na occasião
opportuna.
Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da
sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os cidadãos, em paz e
socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios
internos, e das invasões externas. O Senado de Macáo firme nestes
principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam
aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam
esbulha-lo da sua pósse, ou perturbar o socego publico.
Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de
Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda que elles
diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado
desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.
Assim firme em sua resolução, sustentou entre os Chinezes e os
britanicos a seguinte correspondencia.