=_Sá de Miranda e a Pleiada portugueza._=--O momento definitivo

em que a poesia italiana influenciou em Portugal, fixa-se no

regresso de Sá de Miranda da viagem em que percorrera Roma,

Veneza e Milão «em tempo de hespanhóes e de francezes,» isto é,

desde 1521 a 1527. Durante a sua digressão artistica Sá de Miranda

praticou com Ruscellai e com Luctancio Tolomei; vinha fascinado com

os _Assolanos_ de Bembo, com as phantasias cavalheirescas do

_Orlando_, enlevava-o o platonismo de Petrarcha e de Dante, cuja

relação com os trovadores provençaes lhe era já conhecida; vinha

desvairado pela exuberancia de vida e de alegria da saturnal da

Renascença, que o seu espirito catholico condemnava. Quando regressou

á côrte portugueza, tinham acabado os serões do paço, onde ouvira

poetar ainda D. João de Menezes; quiz ensaiar os novos metros, receioso

de ir de encontro á auctoridade perstigiosa da poetica hespanhola,

abonava-se com o exemplo de Garcilasso, e indicava como o proprio

Petrarcha derivou o seu lyrismo dos provençaes. Os partidarios do verso

octosyllabo tinham pelo seu lado os poetas palacianos, e a suspeição

contra as ideias da Reforma. Em volta de Sá de Miranda foram-se

agrupando os novos, como D. Manoel de Portugal, Francisco de Sá de

Menezes, Pedro de Andrade Caminha, Diogo Bernardes, Agostinho Pimenta,

o Dr. Antonio Ferreira e Jorge de Monte-mór, e por ultimo André Falcão

de Resende; pelos seus ensaios poeticos estreitavam uma encantadora

amisade formando uma _Pleiada_ egual á franceza, não menos

sympathica e innovadora.

A Eschola italiana era combatida pelos sectarios da poetica de Encina

que preferiam escrever em _castelhano_, e pelos eruditos, que se

vangloriavam de metrificar em _latim_. O Dr. Antonio Ferreira

foi o que mais propugnou pelo uso da lingua portugueza. Desgostado da

côrte, Sá de Miranda retirou-se para a vida confinada da provincia,

moralmente alquebrado antes de tempo; distrahia-se em amenas conversas

com Antonio Pereira, o senhor de Basto, na sua quinta da Tapada, lendo

no remanso campestre os mais bellos exemplares da poesia italiana.

Ali lhe iam ter as poesias de Caminha, de Bernardes, de Ferreira, e o

princepe herdeiro D. João, que começava a sympathisar com a poesia,

instava para que lhe mandasse a collecção dos seus versos. Por

trez vezes lhe enviou cadernos das suas composições para comprazer

amavelmente com a curiosidade do princepe, que mandava tambem a Evora o

seu secretario Luiz Vicente copiar os versos de Fernão da Silveira.

Por falta de um ideal superior a poesia lyrica tornou a cahir no

mais acanhado personalismo; vertiam-se excerptos de Anacreonte e

de Moscho, e odes de Horacio. Porém entre estes Quinhentistas que

se admiravam na mais beatifica ingenuidade, que se louvavam em

todos os seus versos, que se chrismavam com nomes bucolicos, que

eram camareiros-móres, desembargadores, commendadores, apparecia um

homem de genio, irreverente, travesso, sem fumos de erudição nem de

gerarchia, que se identificou com a Renascença pelo seu espirito de

rehabilitação da Natureza, e que amou a Edade media para agradar ás

damas; era Camões, que teve a comprehensão suprema da poesia italiana.

Os outros poetas fecharam-lhe o accesso ao princepe D. João e guardaram

silencio absoluto em volta do seu nome; Caminha satyrisa-o duramente

alludindo ao verso dos _Lusiadas_: «Dae-me uma furia grande e

sonorosa;» Bernardes indicando o nome dos poetas que devem formar um

grande Cancioneiro que projecta, não só omitte o nome de Camões, como

tambem se apropria de alguns sonetos, eclogas e do poemeto de _Santa

Ursula_, talvez desmembrados dos manuscriptos roubados a Camões.

Apenas Falcão de Resende, que o conheceu na desgraça e doença, lhe

dedicou uma composição moral ou satyra contra os costumes.

=_Camões, e sua Eschola lyrica e épica._=--Sabe-se pela genealogia

de Camões, que fôra seu terceiro avô um trovador-fidalgo da Galliza,

tendo por parte de sua mãe parentesco com a familia dos Gamas, do

Algarve. N’esta orientação ethnica discorre a sua vida: o genio

galleziano revela-se na sua superioridade lyrica sobre todos os outros

quinhentistas; a tendencia cosmopolita que o levou por toda a extensão

do dominio portuguez era essa mesma que fez com que do Algarve sahissem

as primeiras caravellas para as descobertas das costas da Africa e

das ilhas do Mar Tenebroso. Ainda no seculo XVI formou-se em volta de

Camões uma eschola de imitadores, que souberam dar mais sentimento e

harmonia ás fórmas italianas. Os versos lyricos de Camões só começaram

a ser impressos quinze annos depois da sua morte; reunira-os sob o

titulo de _Parnaso_, mas foi-lhe esta collecção furtada logo que

chegou a Lisboa em 1570; os editores suppriram esta perda explorando

as collecções particulares, como as de Luiz Franco, Manoel Godinho,

Antonio de Abreu; e assim se explicam tambem os plagios de Bernardes e

de Fernão Alvares d’Oriente. Percorrendo-se as collecções manuscriptas,

raro será o poeta quinhentista que não tenha com o seu nome versos que

ou pertenceram ou foram attribuidos a Camões. Por este syncretismo

litterario se vê, que o gosto e a imitação camoniana levavam os

colleccionadores a estes equivocos, ou os plagiarios a uma apropriação

irresistivel. Era-se _camoniano_ no fim do seculo XVI, como na

época das Arcádias se era _elmanista_. O amor e a philosophia

neo-platonica revelaram a Camões a belleza da poesia italiana, em cuja

imitação se exercitára ainda na vida escholar de Coimbra, como se

vê pela _Elegia da Paixão_; na frequencia do paço foi levado a

acceitar a _medida velha_, escrevendo voltas, glosas e endechas,

aproximando-se espontaneamente das fontes tradicionaes: cita romances

populares, reproduz fórmas encantadoras do lyrismo galleziano e mostrou

um conhecimento directo da ecloga _Crisfal_. A sua inspiração

veiu-lhe do contacto da realidade: a vida aventureira na Africa, na

India, na China, nas Molucas, nos cruzeiros, nos naufragios, nos

hospitaes e nos carceres, não lhe dava tempo, nem logar para compulsar

classicos gregos e romanos, os grandes poetas italianos e hespanhóes, e

a seguir servilmente modelos auctorisados. Subtrahiu-se assim áquella

causa que tornou em parte mediocres os Quinhentistas. O contacto da

realidade bastou para lhe dar essa melancholia indefinivel, essa

tristeza da fatalidade e o protesto eloquente que solta por tudo quanto

é verdadeiro e justo. O ideal era o seu refugio; _Natercia_, era

uma realidade, e como elle não comprehendia o amor sem tempestades

e ruinas, a sua vida dispendeu-se nos accidentes d’esta realidade

profunda.

A perfeição do lyrismo de Camões exerceu uma influencia immediata;

seguiram-o os lyricos Heitor da Silveira, Simão da Silveira, Estacio de

Faria, Antonio de Abreu, André de Quadros, André Falcão de Resende, D.

Manoel de Portugal, Vasco Mousinho de Quevedo, Balthazar Estaço e Diogo

de Couto, que começou a fazer um commentario aos _Lusiadas_. A

naturalidade e verdade da sua inspiração foi comprehendida pela nação,

que estava incorporada na unidade hespanhola pela Casa de Austria;

serviu de alento ao sentimento de patria e de estimulo á sua autonomia.

O valor da obra de Camões resume-se na eloquente phrase de Schlegel:

Camões é uma litteratura inteira.

No seculo XVI appareceu nas principaes litteraturas da Europa a

preoccupação de uma Epopêa moderna, individual, academica, pautada

pelos moldes virgilianos. Estavam esquecidas ou diluidas em novellas as

grandes Gestas francezas; faltava um assumpto que servisse de thema ao

ideal heroico, e fosse compativel com a sympathia da sociedade moderna;

por isso os poetas francezes, italianos e hespanhóes malbarataram

esforços sem conseguir essa creação esthetica. Camões deu fórma á

moderna Epopêa, por que idealisou o facto capital--a posse da terra

e a lucta do homem com a natureza, d’onde deriva a civilisação da

Europa na sua synthese activa. O assumpto dos _Lusiadas_ tinha

sido entrevisto por outros espiritos, mas faltou-lhes as condições

para attingirem a fórma eterna. João de Barros no _Panegyrico_

a D. João III, falla da necessidade de um poema das Navegações

portuguezas, e no _Clarimundo_ chega a esboçar quarenta outavas

sobre o grande quadro. Os chronistas Damião de Góes e Castanheda

reconhecem que é necessario uma fórma mais solemne que a da historia

para a exaltar as navegações portuguezas; o poeta Antonio Ferreira

incita Caminha a essa empreza; Jorge de Monte-mór tentava um poema do

_Descobrimento da India oriental_, e Pedro da Costa Perestrello

rasga com desespero o seu poema sobre a expedição de Vasco da Gama,

quando viu os _Lusiadas_ de Camões, como conta Faria e Sousa.

Camões realisando esta intensa aspiração seguiu o typo virgiliano,

que o gosto do tempo exigia; mas salvou-o a intuição do genio, com que

soube agrupar em volta do facto historico todas as bellas tradições

e lendas da nacionalidade portugueza. É isto o que o distingue dos

outros poetas épicos, que julgaram fazer epopêas pondo as chronicas

em verso, como Jeronymo Côrte Real com o _Segundo Cêrco de Diu_,

em 1574, Luiz Brandão com a _Elegiada_, em 1588, Francisco de

Andrade com o _Primeiro Cêrco de Diu_, em 1589. Na expedição

inconsiderada de D. Sebastião á Africa, encarregou o monarcha a Diogo

Bernardes de ser o seu Homero; Camões foi preterido pela influencia dos

intrigantes palacianos, talvez o mediocre Jeronymo Côrte Real. Camões

saberia inspirar-se da derrota, como o cantor de _Roland_. Depois

da perda da autonomia nacional em 1580, morre o poeta, mas ficaram os

_Lusiadas_ como a unica força viva em que se apoiou a consciencia

portugueza.

=_A Comedia e a Tragedia classicas._=--Assombrado pelo que

vira na Italia, maravilhado com as comedias de Ariosto, de Bibiena

e de Machiavelli, no seu regresso a Portugal tentou Sá de Miranda

renovar a litteratura dramatica, como o emprehendera com a poesia

lyrica. Começou por protestar contra o titulo e a fórma dos Autos

hieraticos, e a escrever no gosto italiano. Pallido reflexo da

sociedade grega, as comedias latinas de Terencio serviram de typo

para o renascimento do theatro classico, em que as _hetairas_ e

o _miles gloriosus_ se transformavam nas _cortezianas_ e

no _condotieri_. Montaigne descreve este processo litterario:

«Muitas vezes me occorre á phantasia, como no nosso tempo, aquelles que

se entregam a fazer comedias (assim como os Italianos, que são os mais

felizes) empregam trez ou quatro argumentos das de Terencio ou Plauto,

para fazerem uma das suas; e accumulam em uma só comedia cinco ou seis

contos de Boccacio.» (_Ess._, II, 10.) Sá de Miranda seguiu esta

mesma pauta; o cardeal D. Henrique folgava em vêl-as representar. A

Comedia classica sustentou-se entre os humanistas, servindo de ensaio

litterario nos divertimentos e férias escholares. D’este costume falla

Montaigne, ao descrever a influencia pedagogica de André de Gouvêa no

Collegio de Guienne, em Bordéos: «j’ay soustenu les premiers personages

ez tragedies latines de Buchanan, de Guerente et de Muret, que se

representerent en nostre Collège de Guienne avecques dignité: en cela,

_Andreas Goveanus_, nostre principal, comme en toutes aultres

parties de sa charge, feut sans comparaison le plus grand principal de

France.» (_Ess._, I, 25.) Em 1547 veiu André de Gouvêa a Portugal

por chamado de Dom João III estabelecer o _Collegio real_ em

Coimbra, que os Jesuitas apanharam e converteram no seu Collegio das

Artes. Sob a influencia de Mestre André e dos professores francezes é

que mais se desenvolveu o gosto do theatro classico, e pela amisade de

Diogo de Teive com Antonio Ferreira é que este seria levado a tentar os

seus primeiros ensaios dramaticos. Nos prologos das suas comedias se

reconhece o esforço para sustentar uma fórma dramatica sem condições

de vida. Adstringindo-se ás regras da comedia _motoria_, os

quinhentistas esqueceram-se da realidade da vida, sendo muitas vezes

incomprehensiveis as situações e mesmo o plano da acção.

Como a Comedia, tambem a Tragedia classica foi conhecida

indirectamente, não dos modelos gregos, mas das imitações latinas de

Seneca. Separada dos seus elementos mythicos, d’onde derivára, foi

esta fórma reproduzida como mero artificio, visando os talentos que

a imitavam a manter escrupulosamente _as trez unidades_. Ferreira,

um dos mais elevados representantes do humanismo portuguez, teve um

conhecimento directo da tragedia grega. Ao ensaiar esta nova fórma

litteraria teve a felicidade de se compenetrar do verdadeiro espirito

da fatalidade antiga, e de comprehender o valor de um assumpto nacional

e moderno. Mas esta direcção justa não foi sustentada; a desgraça

de Inez de Castro tornou-se o assumpto quasi exclusivo dos tragicos

portuguezes desde os imitadores da comedia de _capa y espada_ até

aos exageros ultra-romanticos. A Tragedia classica foi desnaturada

pelas Tragicomedias latinas dos Jesuitas, que dramatisavam assumptos

biblicos, n’esse como que exercicio collegial, cuja representação com

um apparato scenico assombroso durava por vezes dois e trez dias.

O Collegio das Artes, de Coimbra, o de Santo Antão, de Lisboa, e a

Universidade do Espirito Santo, de Evora, foram os centros em que os

Jesuitas mais desenvolveram estes espectaculos tragicomicos. Eram essas

Tragicomedias intermeadas de grandes córos cantados por estudantes,

apresentando mutações phantasticas, a que se chamou _tramoias_. Na

formatura do Prior do Crato representou-se em Santa Cruz a tragicomedia

latina _Golias_; e quando D. Sebastião, ainda criança, em 1570

visitou Coimbra, assistiu á representação de uma tragicomedia do P.^e

Luiz da Cruz, que durou trez dias. Póde-se inferir, que por via das

tragicomedias chegaram a Portugal as primeiras noticias da Opera, que

estava ainda nos seus rudimentos, como os _Madrigaes_ da Italia e os

_Ballets_ francezes, que se desenvolveram no seculo XVII.

=2.^o Periodo: Os Culteranistas (Seculo XVII):=

Quando as Litteraturas se afastam das fontes naturaes da tradição

seguindo uma imitação erudita, ou uma artificiosa originalidade,

tornam-se o producto de uma aberração doentia; faltando-lhes a

communicação com o publico e um destino social, apoiam-se nos preceitos

banaes da rhetorica, e na superstição dos modelos. Deu-se no seculo

XVII em todas as Litteraturas da Europa este desvio das suas bases

naturaes; chamou-se a esta corrente do máo gosto, _Culteranismo_.

Penetrou o seu influxo em Portugal de um modo absoluto, caracterisando

todas as manifestações estheticas do seculo, e maculando a obra de

espiritos superiores, como D. Francisco Manoel de Mello ou o Padre

Antonio Vieira. O que se passou em Portugal foi simultaneo em Hespanha,

Italia, França e Inglaterra, o que leva a considerar uma causa

geral, immanente ao mesmo seculo. As Litteraturas confinavam-se nas

côrtes e nas Academias. Toda e qualquer actividade da intelligencia

humana, esthetica, scientifica ou philosophica, exercendo-se em um

subjectivismo exclusivo e sem relação com o meio social, cáe na

degenerescencia morbida. Quando a Philosophia ficou confinada nos

claustros, longe da communicação com a realidade das cousas, ou a

objectividade, deu a Scholastica, em que os cerebros especularam

sobre entidades nominaes, sem o apoio dos factos scientificos, e sem

o intuito de subordinar a uma concepção synthetica os dados do mundo

objectivo; reduziu-se a philosophia a uma dialectica palavrosa, a

uma argucia sophistica, e por fim a uma futilidade e inutilidade

lamentaveis. A renovação philosophica de Bacon e Descartes até

Augusto Comte, começou por arrancal-a do isolamento claustral, dando

á especulação a complexidade dos elementos objectivos que constituem

o mundo physico e moral. Fecundada pelas observações o experiencias

physicas, a Philosophia libertava-se de um inane _Ontologismo_;

mas as Litteraturas fechadas nas côrtes, e nas escholas e academias,

cahiram nas banalidades do _Humanismo_. Por isso mesmo que a

especulação intellectual activava o trabalho scientifico do seculo

XVII, é que as manifestações estheticas foram prejudicadas. A rasão

emancipava-se da auctoridade theologica; a Companhia de Jesus

tornou-se o fóco de toda a educação publica, monopolisou o ensino,

tomou conta das gerações novas, amoldou-lhes os cerebros, esgotou a

rasão humana em cousas inuteis, com o prolongado ensino do latim, da

rhetorica, da dialectica e da theologia. Os Jesuitas antepuzeram-se

aos Humanistas, e sustentaram o scholasticismo; aonde dominaram como

pedagogos não penetrou a sciencia; e as Academias, que se creavam como

fócos de actividade mental, nos paizes mais catholicos tornaram-se

exclusivamente litterarias, á maneira das Tertulias hespanholas,

proseguindo o humanismo das escholas jesuiticas.

Este periodo seiscentista caracterisa-se por um impudente pedantismo,

pela falta de senso commum no emprego das metaphoras; dava provas de

culto, o que encobria a falta de pensamento em laboriosos hyperbatons,

o que primava em sustentar theses ridiculas com gravidade, o que

forjava anagrammas propheticos, o que engenhava labyrintos recheados

de acrosticos, com versos lipogrammaticos ou chronogrammaticos, com a

fórma de columna, de pyramide ou de calix.

Além da educação do automatico humanismo jesuitico, as côrtes, pelas

conveniencias do euphuismo, reduziram a idealisação litteraria a

uma indignidade pela bajulação obtida pela protecção official; os

reis boçaes, a aristocracia frivola, emfim todos os prepotentes eram

proclamados Mecenas. Foram numerosissimas as Academias litterarias

em Portugal no seculo XVII, taes como a dos _Ambientes_, de

1615, a _Sertoria_, de Evora, de 1630, a dos _Anonymos_, de

1637, a dos _Generosos_, de 1647, a dos _Singulares_, de

1663, a dos _Solitarios de Santarem_, de 1664, e _Conferencias

discretas_, de 1696. As bibliothecas estão repletas de manuscriptos

d’este periodo litterario. Uma vez separados da naturalidade, não

tinha limites a aberração mental; ha nos seiscentistas uma tendencia

satyrica, que os absolve, por que protestavam contra o absurdo da moda.

No meio dos desconcertos dos _Culteranistas_ destacam-se pela sua

incontestavel superioridade no lyrismo, D. Francisco Manoel de Mello

e Francisco Rodrigues Lobo. Conheceram estes dois eminentes poetas

as tradições portuguezas; D. Francisco Manoel, que allude a muitos

cantos e contos populares, estudou Sá de Miranda e imitou-o nas suas

encantadoras Eclogas. A superioridade do lyrismo de Rodrigues Lobo, que

estudára Camões, era explicada por Faria e Sousa como consequencia dos

plagios feitos ao immortal poeta; é certo que Rodrigues Lobo conheceu

as antigas serranilhas, mas as suas Eclogas são principalmente bellas

por que se ligam a successos reaes da sua vida desgraçada.

Abundam n’este periodo culteranesco as Epopêas historicas, com o

competente tempero da fabula, descripções, narrações e episodios,

segundo a norma virgiliana. Na perversão do gosto houve intenções de

annullar o poema de Camões, substituindo os _Lusiadas_ pela _Ulyssêa_

do desembargador Gabriel Pereira de Castro. Levantou-se tambem a

polemica entre _Tassistas_ e _Camoistas_, chegando-se a recorrer ás

delações ao Santo Officio para fazer triumphar o partido que esquecido

das tradições nacionaes queria por todos os modos impôr á admiração o

poema de Tasso. O que mais impressiona é o facto da revindicação da

autonomia nacional, pela revolução de 1640, não despertar a idealisação

de tantos poetas épicos que metrificaram a mythologia dos falsos

chronicões.

Unificado na Hespanha no ultimo quartel do seculo XVI, Portugal

era mais conquistado pelos costumes, pela lingua e pelo theatro,

do que pelas leis. Durante todo o seculo XVII deliciamo-nos com as

comedias famosas de _capa y espada_, e com a sua fecundidade

muitos escriptores portuguezes enriqueceram o reportorio castelhano.

As melhores companhias de actores hespanhóes achavam em Portugal

asylo e dinheiro. No manuscripto da bibliotheca nacional de Madrid,

_Genealogia, origen y noticia de los Comediantes de España_,

enumeram-se os que vieram a Portugal. Em todas as festas publicas

eram obrigadas as comedias de Lope de Vega; os escriptores dramaticos

hespanhóes, como Lope de Vega, Calderon, Tirso de Molina, Alarcon,

Montalban, Mira de Mescua, Velez de Guevara e outros menos celebres,

dramatisavam a historia portugueza, desde os amores de Inez de Castro

até á propria revolução de 1640. Os escriptores portuguezes que

adoptaram o estylo da comedia de _capa y espada_ tornaram-se

celebres entre os _ingenios_ do theatro hespanhol. Sacudido o

jugo politico da Hespanha, entraram em Portugal outras influencias

litterarias e artisticas, mas não passaram do meio restricto da côrte.

=3.^o Periodo: Os Árcades (Seculo XVIII):=

Não existia vida nacional no seculo XVIII; a monarchia passára á

ostentação do cesarismo, em que a auctoridade adormentava a opinião

publica com o deslumbramento da sua sumptuosidade; o rei era senhor

de tudo, e nada se emprehendia sem a acção _official_. Os

ministros de D. João V foram primeiramente dois jesuitas, e depois o

varatojano Frei Gaspar, chefe da seita de illuminados a _Jacobêa_,

e o monarcha sinceramente possuido do poder paternal sobre o seu

povo entendia servir o bem da nação mandando dizer missas por alma

dos seus subditos, e dispendendo a riqueza publica na fundação de

estupendas basilicas, como a de Mafra e a Patriarchal, e na compra

de indulgencias. O que era o povo, dil-o pittorescamente Beckford

nas suas _Cartas_, que nunca vira terra com mais mendigos,

mais grotescamente esfrangalhados, com pustulas mais asquerosamente

assoalhadas á caridade; e dizia lord Tiralwey, que Portugal se dividia

em duas partes, a que suspirava pelo Messias, e a que ainda sonhava com

a vinda de D. Sebastião. E comtudo, no seculo das maiores audacias,

Portugal iniciou os dois factos capitaes, a suppressão da Companhia

de Jesus e a secularisação do ensino; tal era a força da corrente

revolucionaria, que a propria monarchia, sob a acção ministerial,

cooperava activamente embora inconsciente na dissolução do regimen

catholico-feudal.

Os homens que sentiam a necessidade de uma renovação litteraria só

achavam possivel o facto intervindo um decreto do rei. A Academia,

que segundo os costumes italianos era uma reunião familiar, com

musica, poesia e refrescos, recebeu sob o cesarismo uma protecção

_official_, que assegurou a sua existencia, para dogmatisar e

restaurar. Ignorava-se que a litteratura era um reflexo do estado

social e uma expressão do genio nacional; contra a decadencia que

estava na ordem das cousas e atrophiava os espiritos, impunham-se

os moldes greco-romanos, com a mesma inintelligencia com que o

curandeiro ataca o symptoma morbido. Permaneciam as causas, e os mais

sinceros esforços ficavam sempre improficuos. Estafou-se inutilmente

a _Academia de Historia portugueza_, apezar do poderoso influxo

official que a sustentava. Erigiu-se a _Academia dos Anonymos_

de José Freire Montarroyo, mas caíu na glorificação banal de D. João

V; os Ericeiras prestaram os seus palacios, e póde-se julgar que sob

a influencia critica do _Verdadeiro Methodo de estudar_, de

Verney, que analysava o Culteranismo, se organisou a _Academia dos

Occultos_, que veiu a servir de nucleo á _Arcadia de Lisboa_. A

relação entre estas duas Academias explica-nos a reacção estabelecida

contra o anterior elemento seiscentista, representado por Pina e Mello

e D. Joaquim Bernardes, e o purismo classico que procurava restabelecer

a auctoridade dos Quinhentistas.

=_A Arcadia de Lisboa._=--Foi fundada por homens de alta

posição official, principalmente desembargadores que se envergonhavam

de ser poetas, como Diniz (_Elpino Nonacriense_) que conservou

inéditas as suas composições. Os Estatutos da Arcadia eram tão

draconianos, que para ser admittido como socio exigia-se a unanimidade,

e para a critica das obras um sigilo absoluto. Floresceu de 1757 até

1774, e representa historicamente o absolutismo do canon classico em

boa alliança com o despotismo politico e o intolerantismo religioso.

Exercendo-se em dogmatisar, esterilisou-se na indecisão, gastando as

suas energias na discussão se deveria admittir na linguagem litteraria

o _neologismo_ e o _archaismo_. Desde que os árcades perderam

o favor official do omnipotente ministro de D. José, desappareceu a sua

actividade, e a academia desagregou-se silenciosamente.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 25 / 27 段