entre os seus livros as poesias de Petrarcha, e escrevia os seus versos
no gosto allegorico. São d’este desgraçado princepe e rei deposto, as
outavas em fórma castelhana do _Menosprecio do mundo_, attribuidas
erradamente a seu pae o infante D. Pedro, e as pequenas elegias que sob
a rubrica de _Elrei D. Pedro_ (sc. de Aragão) foram attribuidas a
D. Pedro I. Póde bem considerar-se o Condestavel de Portugal o chefe
d’esta eschola allegorica, a que pertencem os poetas que no tempo de
D. Duarte e D. Affonso V floresceram na ilha da Madeira, então centro
da aristocracia insulana. O Condestavel D. Pedro escreveu no genero
allegorico a _Satyra de felice e infelice vida_, em que as paixões
e os pensamentos são personificados em figuras de mulheres.
Nos poetas do Cancioneiro de Resende, em que prevalece a imitação
castelhana, distingue-se essa eschola allegorica perfeitamente
caracterisada em Duarte de Brito, que começa a sua visão perdido e
embalado pelo canto de um rouxinol; como reminiscencias da _Divina
Comedia_ descreve minuciosamente o inferno dos namorados, veste a
figura da esperança com todos os seus ornatos symbolicos, adopta as
figurações mythologicas da astronomia, e já desenvolve as imagens como
que em pequenos poemas a que chama comparação. Na poesia castelhana
o _Inferno de Amor_ de Garci Sanches de Badajoz tornou-se o
modelo d’este genero de idealisação; o mesmo typo foi tambem imitado
por Fernão Brandão na formosa poesia _Fingimento de amores_. Os
caracteres do gosto allegorico manifestaram-se livremente nos processos
amorosos dos serões do paço, como o do _Cuidar e suspirar_,
pallido arremedo das _Côrtes de Amor_ da tradição provençalesca.
Esta eschola extinguiu-se, por que não foi fecundada pelo influxo do
neo-platonismo com que Dante e Petrarcha converteram os rudimentos
trobadorescos no esplendido lyrismo italiano que dominou todas as
litteraturas romanicas desde o seculo XV.
Depois de acabadas as luctas com Castella, e que se conheceu o
esplendor da poesia nas côrtes de Juan II e Enrique IV, já não era
possivel attingir-se aquella altura; deslumbrados, imitámol-a e
escrevemos em castelhano. O infante D. Pedro escrevia em verso a Juan
de Mena, e pedia-lhe a collecção das suas obras; em Portugal, já no
principio do seculo XVI, ainda era citado Juan de Mena como o exemplo
do poeta de côrte, _medrado_ pelo favor dos reis. As obras do
Arcipreste de Hita foram traduzidas em portuguez, como se conhece pelo
fragmento da Bibliotheca do Porto; as obras do Marquez de Santillana
eram enviadas para Portugal ao Condestavel D. Pedro, a quem dirigia
uma Carta com a filiação das escholas poeticas. Os Cancioneiros
aristocraticos encerram documentos da communicação das duas côrtes,
que avançavam para a unificação politica por casamentos reaes; no
_Libro de Cantos_, manuscripto da Bibliotheca de Madrid, acham-se
composições de cinco fidalgos portuguezes; no _Cancionero general_
de Hernan de Castillo figuram bastantes poetas portuguezes, e foi
essa collecção o modelo que seguiu Garcia de Resende. No Cancioneiro
portuguez já apparecem traducções do latim, como as _Heroides_ de
Ovidio, e já se tiram comparações da mythologia.
Dava-se no seculo XV na Europa um phenomeno politico, que acabou de
tirar á poesia a sua expansão natural, tornando-a uma insignificativa
bajulação dos aulicos; fixára-se o poder real por uma forte dictadura,
e acabára a lucta dos grandes vassallos que procuravam manter a
independencia senhorial do regimen feudal. O infante D. Pedro foi a
nobre victima n’esta lucta, que se renovou sob D. João II, e terminou
pela execução do duque de Bragança e pelo assassinato do duque de
Vizeu. A imitação exclusiva da poesia castelhana era uma especie de
reacção da nobreza, tendendo para a unificação politica sob Fernando e
Isabel; a poesia era um passa-tempo da côrte, que servia para celebrar
as anecdotas da occasião e encher a inanidade da vida aulica. O numero
pasmoso dos poetas aristocraticos revela a frivolidade da inspiração,
que se explica pelo desconhecimento do lyrismo italiano, em que nos
conservavamos, apezar das relações litterarias e commerciaes que
Portugal desenvolveu com a Italia n’este tempo.
=_Os Historiadores portuguezes._=--Com o poder real creava-se
tambem a nova fórma litteraria da Historia, á imitação dos antigos, que
deixaram memoria dos grandes feitos; era natural que se preferisse para
a sua redacção a linguagem latina, pela illusão da sua universalidade.
Por 1434 encarregou o rei D. Duarte a Fernão Lopes de reduzir a
Chronica as memorias dos antigos reis de Portugal; é um narrador
ingenuo como Froissart ou Villani; do seu trabalho se foram apropriando
Azurara, Ruy de Pina, Duarte Galvão e Duarte Nunes do Leão. O prurido
da erudição começa propriamente em Gomes Eannes de Azurara, que deturpa
assim a fórma pittoresca das suas impressões directas das pessoas e
dos logares. Em Ruy de Pina ha já o intuito politico, narrando os
successos como convinha ao monarcha que o assoldadára, que elles fossem
conhecidos. Em uma carta de João Rodrigues de Sá a Damião de Góes
lê-se: «o estylo de Ruy de Pina pelos muitos adjectivos e epithetos que
se usavam n’aquelle tempo, he muito affeitado.» Cahira-se na imitação
do peior modelo da antiguidade, tomando por norma a rhetorica de Tito
Livio.
NOTAS DE RODAPÉ:
[204] _Essais_, liv. I, cap. 25.
[205] _Ibid._, liv. II, cap. 10.
SEGUNDA ÉPOCA
(SECULOS XVI A XVIII)
Predominio da imitação da Antiguidade classica, e abandono das
Tradições nacionaes
=1.^o Periodo: Os Quinhentistas (Seculo XVI):=
PARTE I: _Poetas da Medida velha._--A tendencia allegorica da ultima
phase da poesia palaciana era um prenuncio da sua transformação. Qual
seria ella, comprehendeu-o superiormente Sá de Miranda inspirando-se
das obras primas do lyrismo italiano. Antes porém de generalisar-se em
Portugal o gosto d’essa nova poetica, mais subjectiva, manifestou-se
uma reacção contra os innovadores; o combate não se feriu por alguma
theoria de arte ou concepção de ideal, versava apenas na preferencia
que se devia manter ao verso octonario ou da _medida velha_ das
redondilhas, com exclusão do endecasyllabo. O titulo de Eschola da
Medida velha, designa cabalmente o periodo que antecedeu o regresso de
Sá de Miranda da Italia, no qual os poetas palacianos pela imitação das
allegorias dantescas e já pelo conhecimento da Renascença classica,
sem abandonarem as fórmas da poetica hespanhola adoptam o estylo de
Theocrito assimilado pelos bucolicos italianos. Bouterwek considera
a poesia pastoril portugueza immensamente bella; não resultou esta
perfeição de imitações litterarias, mas da aproximação inconsciente
das fontes tradicionaes. Nos costumes populares da Peninsula
mantinha-se a fórma dialogada dos _Villancicos_, que coadjuvava a
naturalisação e desenvolvimento da Ecloga litteraria. Observa-se essa
persistencia nos cantos lyricos intercalados por Gil Vicente nos seus
_Autos_; e o conhecimento das Pastorellas e Serranilhas gallezianas
era ainda o que tornava bellas as redondilhas de Christovam Falcão,
de Sá de Miranda e de Camões. Este periodo de transição no gosto
apoia-se na sympathia dos poetas pelos elementos tradicionaes das
pastorellas. Bernardim Ribeiro é o corypheu dos bucolistas, conhecedor
dos Villancicos e Romances populares, a que deu fórma allegorica; soube
alliar a naturalidade com os dialogos pastorís, a profundidade do
sentimento com a simplicidade. A belleza inexcedivel das suas Eclogas
resulta da realidade palpitante dos desgraçados amores com _Aonia_,
a sua prima D. Joanna Zagalo. Pela amisade com Sá de Miranda, chegou
a conhecer a eschola italiana, a _nova frauta_, de que faz menção a
_Ecloga Aleixo_, onde Miranda descreve a sua desgraça.
Depois de Bernardim Ribeiro, foi o seu intimo amigo Christovam Falcão
o que levou mais alto o esplendor d’este lyrismo hispano-italico;
a ecloga _Crisfal_, em que pinta o desventurado amor com D.
Maria Brandão, irmã mais moça dos dois poetas do _Cancioneiro
geral_ Diogo e Fernão Brandão, não tem cousa que se lhe compare nas
litteraturas da Europa.
Tambem se explicará a sua superioridade pela aproximação dos elementos
tradicionaes do lyrismo portuguez: no _Crisfal_ vem intercalado
um _canto de ledino_.[206] Todos os outros poetas quinhentistas,
á excepção do Dr. Antonio Ferreira, começaram os seus tentames pela
redondilha popular, designada litterariamente trova ou verso de
Cancioneiro.
Sá de Miranda, que escreveu bellissimas Eclogas e Cartas em
redondilhas, satyrisou os que tanto reagiam contra a nova poetica
italiana, e condemnava os que mantinham o uso anachronico de uma triste
_Esparsa_, de uma _Glosa_ ou _Mote_ velho, de uma pobre _Volta_ com
seu _Cabo_. A moda palaciana sustentava o estylo de Cancioneiro, por
uma tradição aristocratica. Em uma carta de Soropita, escripta depois
de 1589, caracterisa-se esta especie de metrificadores: «Achei n’esta
companhia a saber ... um poeta ancião, ainda pela _medida velha_.»
Devem comprehender-se sob esta designação propriamente os poetas que
antipathisavam com a novidade vinda de Italia, pelo terror pelas ideias
da Reforma; e tambem os que tiveram certa communicação com o povo, para
quem compunham redondilhas moraes e romances com fórma litteraria.
Pertencem á primeira cathegoria, D. Luiz da Silveira, Jorge Ferreira de
Vasconcellos e Garcia de Resende; na segunda sobresae o vulto gigante
de Gil Vicente, cujas _Obras meudas_ se perderam. Nos seus Autos
acham-se romances em redondilhas, que entraram na corrente popular como
o _D. Duardos_, e bellas serranilhas semelhantes aos typos dos nossos
Cancioneiros trobadorescos. As _Trovas do Moleiro_ de Luiz Brochado,
os _Arrenegos_ de Gregorio Affonso e _Avisos para guardar_, do Chiado,
tornaram-se vulgares; as _Trovas_ de Gonçalo Eannes Bandarra, com a
fórma rudimentar de eclogas, chegaram a actuar na sociedade portugueza,
como se lê no seu processo do Santo Officio. As redondilhas do poeta
cego Balthazar Dias, taes como _Malicia das Mulheres_, _Conselhos para
bem casar_, não fallando dos seus Autos hieraticos, ainda hoje formam
parte essencial da Litteratura de cordel, ou popular.
=_Novellas de Cavalleria e Pastoraes._=--Sob o dominio da
erudição da Renascença, e com um aspecto apparentemente contradictorio,
desenvolve-se uma certa actividade na elaboração de Novellas
cavalheirescas, d’onde proveiu o vasto cyclo dos _Palmeirins_.
Mas a contradicção concilia-se, por que essas novellas pretendiam
continuar as tradições medievaes conjunctamente com as do cyclo
greco-romano, prestando-se a um facil emprego d’esse extraordinario
prurido rhetorico dos escriptores da Renascença. Além d’isso, influiu
tambem a predilecção das damas, como na côrte de Francisco I, ou
junto da infanta D. Maria na côrte de D. João III. Dentro d’este meio
facticio a pressão erudita leva a novella cavalheiresca a fundir-se
com as lendas pseudo-nacionaes. Assim, na _Chronica do Imperador
Clarimundo_ João de Barros syncretisa as lendas de Ulysses, pensando
em assentar a mão e fixar o estylo rhetorico para escrever dos
descobrimentos portuguezes nas _Decadas da Asia_. A influencia
feminina sustentava o gosto das Novellas, que decahia pela preferencia
da erudição. Do principal romance d’este cyclo, o _Palmeirim de
Oliva_, diz Ticknor: «quasi geralmente admittido que se escreveu
originariamente em portuguez e é o obra de uma senhora.»[207] N’este
cyclo de novellas, os cavalleiros são oriundos da Grecia, e para
conciliar o gosto pelo genero bucolico de Theocrito e Virgilio,
esses mesmos cavalleiros passam a infancia em casa de pastores, que
os accolheram por os terem encontrado abandonados. Foi no regresso
da côrte de Francisco I, que o secretario da embaixada Francisco de
Moraes offereceu á infanta D. Maria a sua novella do _Palmeirim de
Inglaterra_, por 1543, seguindo-se logo a traducção castelhana,
na qual Luis Hurtado confessa ser fructo de _agenos huertos_. A
rhetorica dissolveu este cyclo novellesco em prolixos e illegiveis
volumes.
Uma vez perdido o ideal cavalheiresco e esquecida a Edade media,
a Novella vagueava entre os interesses burguezes, que vieram a
idealisar-se no _Romance_ moderno, e a imitação dos quadros de
convenção da vida pastoral, e as allegorias a successos e intrigas
palacianas. O genero da Novella pastoral tem o seu typo na _Daphnis
e Chloé_ de Longus, revivescido na _Arcadia_ de Sanazzaro;
as allegorias foram empregadas como recurso para dar interesse á
ficção. A pastoral mais bella que possuimos é a _Menina e Moça_,
de Bernardim Ribeiro, em que descreve allegoricamente os desgraçados
amores de _Aonia_ e _Bimnarder_ (sua prima D. Joanna Zagalo
e elle Bernardim,) e de _Arima e Avalor_ (D. Alvaro Velez de
Guevara e D. Maria Alvares Zagalo, tia de _Aonia_.) A pastoral
mais conhecida na Europa, e que chegou a formar um cyclo novellesco
é a _Diana_ de Jorge de Monte-mór, continuada por Gil Polo
e por Tejada; é tambem uma allegoria aos amores do poeta. Fernão
Alvares d’Oriente imitou directamente Sanazzaro; o genero decahiu na
insipidez, como se vê no _Desenganado_ e _Pastor peregrino_,
de Rodrigues Lobo, e nos disparates dos _Desmaios de Maio_, de
Diogo Ferreira Figueirôa, nas _Ribeiras de Mondego_ de Eloy
de Souto Mayor, e nos _Crystaes d’alma_, de Escobar. Pelos
Indices Expurgatorios conhece-se a existencia de muitas novellas
allegoricas que se tornaram mysticas, como _Pé de rosa fragrante_,
_Cerva branca_ e outras. Um dos typos mais completos do genero
é a _Historia do Predestinado Peregrino_, imitada d’essa
extraordinaria allegoria ingleza _Pilgrim’s Progress_, de Bunyan,
que o jesuita Alexandre de Gusmão apropriou tomando-a do auctor
anabaptista. Continuou esta corrente no seculo XVIII, como vêmos no
_Feliz Independente_, do P.^e Theodoro de Almeida, misturando
com a imitação de Fénélon o deismo da sua época, e no _Piolho
viajante_ de José Daniel, ficção picaresca não com a pujança
pittoresca de Mendoza e Quevedo, mas como um producto morbido de uma
sociedade imbecilisada pelo mais degradante cesarismo.
Os Contos da Edade media, ou Fabliaux, que receberam fórma litteraria
no _Decameron_ de Boccacio, conciliam-se com os Exemplos da
antiguidade classica, tomados de Valerio Maximo; os prégadores
catholicos empregam-os com intuito moralista. A obra mais capital
d’esta transformação é a collecção de Gonçalo Fernandes Trancoso,
_Historias de Proveito e exemplo_, livro inestimavel, escripto
durante o terror da _Peste grande_ em 1569, e quando o pobre
mestre eschola acabava de perder mulher e filhos, como o confessa em
uma carta á rainha D. Catherina. Este livro manteve-se no gosto publico
até meados do seculo XVIII. Ahi se lê o celebre conto da Edade media,
a paciencia de _Griselidis_, que appareceu referido no _Miroir
des Femmes_ e universalisado depois no _Decameron_. A redacção
de Trancoso egual á castelhana de Timoneda, deriva de um texto italiano
anonymo publicado sem data. Nos anexins populares repete-se: «Pelo
marido vassoura; pelo marido senhora,» referindo-se ás situações
emocionantes d’esse conto. Outros anexins, como: _Minha mãe_,
_calçotes_, acham-se desenvolvidos por Trancoso.
=_Gil Vicente e as origens do Theatro nacional._=--Era Gil
Vicente um eminente poeta lyrico, como se vê pelas suas serranilhas,
que elle mesmo punha em musica; era um notavel philologo, citado como
auctoridade nas _Grammaticas_ portuguezas de Fernão de Oliveira e
João de Barros; era um racionalista, sendo pelos seus Autos, e dentro
da orthodoxia um dos precursores da Reforma. No seu genio satyrico
revela o alto senso commum com que retratou todos os vicios do seu
tempo, todos os abusos da organisação social, que dia a dia ia sendo
invadida pela ambição clerical. Para um homem com todos estes dotes,
a vida tinha de ser fatalmente uma lucta; luctou em quanto o protegeu
a rainha D. Leonor, viuva de D. João II, e morreu proximo se não no
mesmo anno em que entrou a Inquisição em Portugal. O ourives-lavrante
da rainha D. Leonor, Gil Vicente, era tio do poeta, que por sua
influencia veiu de Guimarães para Lisboa e cursou os estudos de
Artes em que recebeu o gráo de _Mestre_ (como se lhe chama no
Cancioneiro de Resende). Ainda por influencia de seu tio Gil Vicente
ourives, frequentou a côrte de D. João II, e por convite da rainha é
que elle compoz os seus primeiros Autos hieraticos, que se tornaram um
divertimento palaciano.
O theatro de Gil Vicente é a vida do povo escripta para os serões do
paço, como quem expunha ao monarcha, que andava longe da realidade,
a existencia de soffrimentos dos que trabalhavam sem garantias. Ali
apparecem todos os costumes da Edade media portugueza, as superstições,
os anexins, os jogos, as pragas, as cantigas, as danças, os romances;
os typos da alcaiota, da bruxa, do judeu casamenteiro, do cigano, do
frade unctuoso, do astrologo, do escholastico, do fidalgo pobre, do
lorpa ou ratinho, tudo isso apimentado com essa soltura da linguagem
medieval, que não arranhava os ouvidos das damas da côrte. Quando
vêmos como se passava o tempo nas côrtes europêas do fim da Edade
media; como foram compostas as _Cem Novellas novas_ de Luiz XI,
o _Heptameron_ da rainha de Navarra, os exemplos obscenos de
La Tour Landry para moralisar suas filhas, temos a explicação das
desenvolturas de Gil Vicente, e do gosto que ellas lisongeavam nas
côrtes de D. Manoel e D. João III. O grande artista teve um intuito
superior nos seus Autos, que os torna dignos de estudo, além do merito
de serem a iniciação e fórma evolutiva do theatro nacional: luctava
pela independencia do fôro civil contra o fanatismo religioso, e contra
o parasitismo aristocratico que vivia de capitanias, alcaidarias e
commendas. Os humanistas (_alguns homens de bom saber_) atacaram
a fórma rude dos seus Autos; elle confundiu-os com a farça de _Inez
Pereira_, verdadeiramente molieresca. O seu genio dramatico
manifestou-se em um meio deprimente, a côrte, em que era admirado o
pedantismo humanista e em que prevalecia a intolerancia religiosa, que
por vezes lhe queria impedir a palavra, como se viu quando se oppuzeram
a que recitasse o _Sermão_ em verso pelo nascimento do infante D.
Luiz. Mas os seus Autos tornavam-se uma necessidade na côrte sempre
aterrada com as contínuas pestes com que no seculo XVI Lisboa era
devastada. No meio da mortandade geral, a côrte fugia para Santarem,
para Almeirim, para Coimbra, para Evora; Gil Vicente era chamado
para distrahir os serões do paço: de uma vez chegou a ir representar
a Coimbra, ainda doente, tendo a peste em casa, como elle proprio o
declara. Por que triumphou a obra de Gil Vicente, apezar do antagonismo
classico, da reacção catholica dos Indices Expurgatorios, das
tragicomedias jesuiticas e do grande perstigio das comedias hespanholas
de _capa y espada_? Para que a fórma de Auto seduzisse espiritos
como os de Camões, e se impuzesse á litteratura desde o seculo XVI a
XVIII, era preciso que tivesse raizes profundas na alma portugueza;
e tinha-as, por que eram as tradições de que o genio de Gil Vicente
soube apropriar-se. Aonde Gil Vicente representou os seus Autos, ahi
parece ter fundado eschola: em Evora, vamos encontrar seguindo as suas
normas, Antonio Ribeiro Chiado, seu irmão Jeronymo Ribeiro, Gaspar
Gil Severim e Braz de Resende; em Santarem, desenvolve-se o talento
dramatico de Antonio Prestes, que tambem como o mestre prégou as
ideias da Reforma; o diacono e mulato Antonio Pires Gonge, e Manoel
de Sousa Nogueira, que sustentou a eschola até ao seculo XVII. Em
Coimbra, apezar da corrente erudita dos Collegios e das representações
de tragedias latinas, a influencia de Gil Vicente não foi extincta;
para os divertimentos escholares é que escreveu Camões o _Auto dos
Amphytriões_. Em Lisboa, fundaram-se os primeiros _Corros_ ou
_Pateos de Comedias_, e as representações dramaticas tornavam-se
uma necessidade da vida burgueza, que um privilegio exclusivo a favor
do Hospital de Todos os Santos explorava como subsidio. Á eschola
do Auto pertencem Gil Vicente de Almeida, neto do poeta, auctor do
_Auto da Donzella da Torre_ e da _Comedia dos Cativos_;[208]
tambem, Simão Garcia, auctor do _Auto do Pé de prata_, de 1557,
Antonio Peres, auctor de comedias manuscriptas, Frei Antonio de
Lisboa e Balthazar Dias, cujos Autos de _Santa Barbara_, de
_Santo Aleixo_, de _Santa Genoveva_, estão ainda em vigor
nas representações aldeãs, e constituem esta eschola lisbonense.
O povo entristecido pelas fogueiras da Inquisição e pelas fôrcas
do absolutismo, ficou sem festas nacionaes, e o unico desafogo que
conservou encontrou-o nos seus Autos hieraticos e farças tradicionaes.
PARTE II: _A Eschola italiana._--Na transição affectiva da Edade
media operava-se uma synthese lenta na civilisação europêa, ou
unidade que tende a realisar no seu destino: a poesia trobadoresca
iniciára, como diz Quinet, a egualdade perante o amor; pela emancipação
das classes servas e luctas do Terceiro estado estabeleciam-se as
bases para a unidade politica; apezar da depressão religiosa, o
sentimento christão ainda inspira uma acção commum nas Cruzadas, e
dá ensejo ao ultimo emprego da intervenção da força na liga contra
os Turcos; as grandes navegações, o estabelecimento do regimen
colonial e do credito, preparam a unidade economica. A dictadura
monarchica, desvairada pelos interesses dynasticos, é que separava
as nações por um systema de guerras alimentadas pela chimera da
_Monarchia universal_. N’este periodo brilhante da Renascença,
as Litteraturas romanicas tendem para uma certa unidade esthetica,
imitando-se mutuamente. A Italia occupou n’este momento da civilisação
um logar analogo ao que Roma conservou depois da sua queda durante a
transição da Edade media, em que a letra dos seus codigos continuava
a sua supremacia; a Italia, depois de subjugada pela Allemanha e
pela França, viveu pela Arte, dominou os seus invasores pelo influxo
esthetico. A poesia italiana era um desenvolvimento do lyrismo dos
trovadores, menos casuistico e mais philosophico; todos os povos
modernos que tinham conhecido o lyrismo trobadoresco acceitaram a nova
expressão do sentimento, e a Italia ficou como que a Grecia do mundo
moderno. Faziam-se viagens á Italia como em santa romagem para sentir
de perto a antiguidade, para se repassarem do espirito da cultura
latina, para observarem a sumptuosidade sensual da Renascença. Os
monarchas eram educados por pedagogos italianos, como Francisco I,
amigo de Benvenuto Cellini; procuravam attrahir para as suas côrtes os
grandes artistas, como Henrique VIII a Ticiano e a Raphael; davam suas
filhas em casamento a princepes italianos, como D. Manoel concedendo
a infanta D. Beatriz ao duque de Saboya. Os filhos das principaes
familias de Portugal, como Luiz Teixeira, João Rodrigues de Sá e
Ayres Barbosa, iam completar os seus estudos á Italia, sob a direcção
de Angelo Policiano; ou a frequentar a lição dos jurisconsultos, que
as Universidades pagavam principescamente. Em uma comedia de Jorge
Ferreira chasquêa-se d’esta monomania da viagem á Italia.