pedindo esmola;» era uma especie de creado de casa fidalga, que
festejava os annos dos titulares e esperava que o brindassem com um
fato. Ainda não havia a dignidade do escriptor. O Marquez de Pombal
viu na _Arcadia_ uma Companhia com o privilegio ou monopolio das
composições metricas, e assim a protegeria; desde que alguns espiritos
sympathisaram com as doutrinas pedagogicas do Oratorio, o ministro
tirou-lhes o favor official, e aos que suspeitou de fallarem mal do seu
governo metteu-os no carcere, como ao Garção que morreu no Limoeiro.
=_Os Dissidentes da Arcadia._=--A verdadeira feição do seculo
XVIII na poesia não está no que produziu a _Arcadia_ adstricta
á imitação classica; sob a pressão do despotismo houve protestos
irreflectidos da natureza, como se observa n’esse phenomeno de
perversão mental da poesia erotica. O _molinismo_ dos conventos e
a sensualidade do cesarismo patrocinavam este genero litterario, de que
foram victimas quasi todos os poetas do seculo XVIII. Esse phenomeno é
conhecido em França pelo nome de _Sadismo_.
O _Camões do Rocio_ e o _Lobo da Madragôa_ revelam melhor a
depressão moral sob o cesarismo, do que as campanudas odes horacianas.
Garção, Tolentino e Filinto Elysio sacrificaram ao gosto erotico; foi a
doença do seculo, cuja intensidade se nota na quantidade de nomes que
cultivaram o genero, taes como Domingos Monteiro de Albuquerque, Pedro
José Constancio, Fr. José Botelho Torrezão, o Abbade de Jazende, o P.^e
José Agostinho de Macedo, Bocage, Pimentel Maldonado e outros.
Na constituição da _Arcadia de Lisboa_ alguns poetas afamados do
tempo não foram convidados, e outros mais tarde não foram admittidos
por causa do seu genio satyrico. N’este caso apparecem Nicoláo
Tolentino, que metrificava irreprehensivelmente, e Francisco Manoel do
Nascimento (_Filinto_) que com outros poetas constituiu o _Grupo
da Ribeira das Náos_. Cruzou-se por vezes o tiroteio das satyras,
acirrando-se uns e outros, a ponto de ser conhecido o seu principal
conflicto pela designação da _Guerra dos Poetas_, a proposito da
cantora Zamperini.
Havia no seculo XVIII um costume em que a poesia se tornava um elemento
das festas; chamava-se-lhe _Outeiro poetico_, em que se versejava
nas eleições dos abbadeçados. Seria ainda uma apagada reminiscencia
das _Côrtes de Amor_. Tolentino pinta com traços pittorescos este
costume, que formava reputações.[209]
A reacção da côrte de D. Maria I contra as reformas pombalinas,
lançou a nação na violencia do _intolerantismo_; fizeram-se
perseguições systematicas aos homens intelligentes, como ao mathematico
e poeta José Anastacio da Cunha, a Felix de Avelar Brotero, a Filinto
Elisio, a José Corrêa da Serra, e por ultimo até ao poeta Bocage,
por causa do seu espirito encyclopedista. Assim se cahiu n’esse gráo
de cretinisação, que fazia dizer ao P.^e Theodoro de Almeida, ao
inaugurar a _Academia das Sciencias_ em 1779: «Que admirados
ficareis, senhores, se soubesseis quam vil é o conceito que mesmo
os estrangeiros fazem injustamente de nós. Quando lá fóra apparece
casualmente algum portuguez de engenho mediocre, admirados se espantam
como de phenomeno raro. E como assim? (dizem) de Portugal? do centro
da ignorancia!--Assim o cheguei a ouvir.» No seculo XVIII a Europa
confundia a situação mental dos portuguezes com a crassa estupidez
dos seus governantes, como hoje nos identificam com o descaro da sua
insolvencia. A _Academia das Sciencias_ foi um fóco de luz que o
duque de Lafões e José Corrêa da Serra, auxiliados por Vandelli e o
visconde de Barbacena, projectaram n’este prolongamento da Edade media
em Portugal.
=_A nova Arcadia._=--A influencia franceza, que se
contrabalançava com a auctoridade dos Quinhentistas na primeira
_Arcadia_, depois da sua dissolução é que adquiriu uma completa
preponderancia. A litteratura franceza era o orgão da propaganda
philosophica e politica que convulsionavam a Europa. A _Nova
Arcadia_ ou Academia de Bellas-Lettras foi fundada pelo mulato
brazileiro o P.^e Caldas (_Lereno Selinuntino_) no palacio do
Conde de Pombeiro. No meio das grandes commoções politicas da Europa
com o apparecimento dos principios de 1789, a _Nova Arcadia_
fechou-se no seu remanso pastoral, alheia a todas as reclamações
humanas.
No meio d’este insulso idyllio, rebentou o conflicto turbulento do
genio de Bocage, que reagia contra a mediocridade geral vibrando
satyras immortaes. A sua adhesão aos principios da Revolução franceza
levou-o aos carceres da Policia, então mais terriveis do que os da
Inquisição, para a qual appellou, para escapar. Póde-se dizer que o
meio social amesquinhou este genio, que apezar da imbecilidade geral
soube sentir a superioridade de Camões.
O lyrismo portuguez teve uma fugaz renovação, pelo favor que no gosto
do tempo encontraram as _Modinhas brazileiras_, tão celebradas
por lord Beckford, consideradas como o elemento generativo da musica
portugueza por Strafford, e sendo na realidade uma persistencia
tradicional das antigas serranilhas gallezianas. As Lyras da _Marilia
de Dirceu_, de Gonzaga, são o que ha de mais bello no lyrismo da
ultima metade do seculo XVIII. A superioridade litteraria revelava-se
entre os escriptores do Brazil, que pelo influxo da Revolução franceza
serviam a causa da emancipação d’esta explorada colonia, que aspirava á
legitima autonomia de nacionalidade. A _Nova Arcadia_ dissolveu-se
depois do conflicto de Bocage, depois de ter accumulado Odes, Sonetos,
Epistolas, Elogios dramaticos. Durante a segunda metade do seculo
XVIII vivemos entregues a todas as tropelias da rasão de estado, sob a
vigilancia feroz do Intendente Manique, sob a suspeição das _ideias
francezas_ e apavorados pelo intolerantismo religioso. A censura
litteraria e a policia nas alfandegas, não deixavam entrar em Portugal
os livros suspeitos, e as obras dos Encyclopedistas eram queimadas na
praça publica pela mão do carrasco.
A nação soffreu os tremendos desastres provocados pela inconsciencia
politica; depois da invasão napoleonica e do não menos terrivel
protectorado da Inglaterra, houve um momento em que a nação manifestou
vida propria, na revolução de 1820, em que no meio das grandes
catastrophes reassumiu a sua soberania, proclamada como fonte do
poder na Constituição de 1822. Com esta data gloriosa da liberdade
portugueza, começa simultanea com a renovação social uma nova e
fecunda phase na litteratura.
Na Europa passava-se a renovação litteraria do _Romantismo_,
agitando a França, a Italia, a Inglaterra e a Hespanha; em Portugal
continuavamos estacionarios na admiração dos classicos, como a colonia
romana longinqua que ainda continuava a veneração do Imperador já
destituido. Um accidente desgraçado, a restauração do absolutismo
bragantino, provocando a emigração de 1823, é que levou os nossos
innovadores a descobrirem a relação entre as litteraturas e as
aspirações da sociedade.
=_A baixa Comedia._=--Com as comedias hespanholas de _capa
y espada_ e as italianas de _imbroglio_, fez-se um amalgama sem
intenção, nem responsabilidade litteraria para acudir á exploração dos
theatros do Salitre e do Bairro Alto. Tal era a _baixa comedia_,
em que se fundiam elementos das obras de Lope de Vega, Molière e
Goldoni. Eram geralmente em verso octosyllabo assonantado, e constituem
um vasto reportorio avulso, chamado _Comedias de cordel_. Esta
creação correspondia ao estado dos espiritos, quasi idiotico, a que
os levára a inquisição e o cesarismo; a sua publicação tornára-se
uma industria dos cegos, ligados entre si em uma Confraria do Menino
Jesus, que tinha o privilegio exclusivo da sua exploração. Na _baixa
comedia_ não se encontra um protesto contra o aviltamento geral, mas
abundam as graçolas equivocas, os esgares de quem quer reagir contra
o terror. Distinguiram-se no genero Antonio José da Silva, alcunhado
o _Judeu_, e Nicoláo Luiz. Contra o gosto popular que applaudia
as _Operas do Judeu_ reagiu o árcade Garção. Filinto appellava
para a tradição dramatica nacional: «Lêam a opera dos _Encantos de
Circe_, eruditissimo parto de um engenho judaico. Houve editor que
modernamente deu á luz esse non plus ultra do genero dramatico; e
_Gil Vicente_, e _Prestes_ e outros classicos ficaram para
sempre no cadoz! Oh vergonha! oh ingrata incuria!» Pela sua parte, o
árcade Manoel de Figueiredo reagiu contra Nicoláo Luiz, querendo dar ao
theatro bases philosophicas; faltava-lhe porém o talento, não obstante
a sua clara comprehensão do problema.
O que era o theatro póde avaliar-se pela situação dos actores;
o Intendente da Policia, Pina Manique, nas _Contas para as
Secretarias_ traz curiosas noticias, que derramam uma immensa luz
na historia do theatro no seculo XVIII; lê-se na Conta, de 30 de
setembro de 1792: «Os comicos e os Emprezarios, que de ordinario são os
mais infimos, e que para os conter e conservar a boa ordem e policia
do theatro é necessario a força, sem a qual nada se póde fazer, por
que é uma gente sem melindre ou caprixo, e são susceptiveis de tudo
aquillo que é máo para o adoptarem, ou seja contra os bons costumes,
ou contra a honra, o ponto é que elles tenham interesse. Além de que
não cumprem o que devem para satisfazer ao publico, e muitas vezes é
preciso contel-os para não enxerirem algumas palavras menos decentes,
que não vêm na peça que executam; etc.» (Liv. III, fl. 264 a 267.) O
Intendente era a favor das representações, por que oppondo-se á entrada
em Portugal das _ideias francezas_, considerava o theatro um
elemento indispensavel para conservar os cidadãos longe do conhecimento
dos successos da Europa, e sem logar para discutirem sobre os negocios
publicos. A _baixa comedia_ foi um instrumento do cesarismo. Durou
esta fórma dramatica até ao tempo de Garrett, e algumas das principaes
peças d’esta eschola ainda sobrevivem na scena, como o _Manoel
Mendes Enxundia_, de Ferreira de Azevedo, o _Doutor Sovina_
e o _Zanguizarra_. Nunca uma litteratura foi mais completa na
revelação do estado decadente de uma nacionalidade. A _Arcadia_,
querendo restaurar o theatro, traduziu e imitou os tragicos da
época de Luiz XIV, segundo a sua fé monarchica; mas com a corrente
revolucionaria lêram-se e representaram-se as tragedias philosophicas
de Voltaire, que persistiram até á geração de 1820.
NOTAS DE RODAPÉ:
[206] No fragmento da _Poetica provençal_ que vem no Cancioneiro
Colocci-Brancuti, cita-se no cap. IX este genero de seguidilha, em que
se intercalam versos de outrem: «som em prazer ou em _ledo_.» Têm quasi
sempre o estribilho: _Leda vou eu_, etc.
[207] _Historia de la Literatura española_, t. I, p. 11.
[208] No _Catalogo_, de Barrera y Leyrado, p. 534, cita-se esta ultima:
«Manuscripto sin año, de principios del siglo XVI, en la Libreria de
señor Duran.»
[209]
Fôra cem vezes em nocturno _Outeiro_
Da sabia Padaria apadrinhado;
E dizem que glosava por dinheiro...
Rompi _Outeiros_ em Sant’Anna e Chellas,
Chamei sol á Prelada, e ás mais estrellas.
TERCEIRA ÉPOCA
(SECULO XIX)
Revivescencia das Tradições nacionaes pela idealisação da Edade media,
e comprehensão do elemento classico pela solidariedade historica
Á proclamação da liberdade de consciencia no seculo XVI, pela
_Reforma_, corresponde essa outra emancipação do dogmatismo na
arte, pelo _Romantismo_, com o qual a Allemanha no começo do
seculo XIX propagou o principio da espontaneidade do sentimento.
Em ambas as revoluções, religiosa e esthetica, existiu uma base
commum: o regresso á tradição, quer a da Egreja primitiva, quer a das
origens nacionaes. A Allemanha chegou a este resultado fundamental
pelo trabalho erudito da descoberta das tradições germanicas, e
pela renovação philosophica exercida na critica da Arte, suscitada
práticamente pela necessidade de estimular o espirito da nação contra
as desvairadas devastações napoleonicas. O influxo da Allemanha na
transformação do _Romantismo_ foi universalisado por M.^{me} de
Staël; em Portugal tambem uma mulher teve essa sympathica iniciativa.
Herculano confessou dever á marqueza de Alorna a direcção dos seus
primeiros passos na Litteratura: «Como madame de Staël, ella fazia
voltar a imaginação da mocidade para a Allemanha, a qual veiu dar nova
seiva á arte meridional, que vegetava na imitação servil das chamadas
letras classicas...»
De facto a renovação do _Romantismo_ correspondia a uma
transformação social da Europa moderna pelo influxo dos principios
da Revolução franceza; e se a nova eschola triumphou foi por que se
encontrou em um novo meio social. As monarchias absolutas reagiam
contra o direito das Constituições ou codigos da soberania nacional,
e pretendiam restaurar o antigo e decahido regimen, ou pelo menos
falsificar esse direito pela _outorga_ ou concessão de Cartas
constitucionaes. Aquelles que combatiam pela liberdade politica
e civil, tanto na Italia e França, como em Hespanha e Portugal,
abraçaram por instincto a nova concepção das Litteraturas, da mesma
fórma que os trovadores provençaes tinham sido os proclamadores da
independencia municipal, e os humanistas da Renascença os propugnadores
do livre-exame.
=_Os chefes do Romantismo._=--Os principaes promotores da renovação do
Romantismo em Portugal foram dois emigrados liberaes, Almeida Garrett,
que em 1823 fugira para França ante a restauração do absolutismo de D.
João VI, que prejurára a Constituição de 1822, e Alexandre Herculano,
que em 1831 fugira para Inglaterra ás forcas de Dom Miguel, que tambem
prejurára a Carta constitucional de 1826. Garrett no seu regresso
d’estas duas emigrações procurou descobrir o veio da tradição nacional,
lançando as bases do _Romanceiro portuguez_; no poema _Camões_
comprehendeu a mais alta expressão do genio nacional; na _D. Branca_,
no _Alfageme de Santarem_, no _Arco de Sant’Anna_, universalisou no
poema, no drama, no romance historico as bellas lendas antigas, que
estavam dispersas e desconhecidas nas chronicas monachaes e monarchicas.
A acção exclusiva de Garrett na fundação do theatro portuguez
manifesta-se na extraordinaria intuição do artista que comprehendeu o
alcance da transformação da sociedade burgueza, para a qual o theatro
era uma fórma tambem de liberdade. Teve o raro tino nas suas obras
de inspirar-se nos conflictos do meio social, como se observa com a
tragedia _Catão_, ligada ás aspirações liberaes de 1820; com o
_Camões_, idealisado nos desalentos do desterro; com o _Arco
de Sant’Anna_, vivificado pela resistencia do cêrco do Porto; com
o _Alfageme de Santarem_, exprimindo a necessidade de recorrer á
revolta, na crise terrivel do cabralismo em 1842.
Com a iniciação pois da liberdade constitucional appareceu uma vaga
comprehensão do valor dos elementos tradicionaes como a base das
litteraturas; com esta intuição pôde Garrett levantar o theatro
portuguez. O drama _Frei Luiz de Sousa_ hade ser sempre uma
obra prima em todas as litteraturas modernas. A acção de Garrett
ficou isolada por falta de uma geração intelligente; o theatro
continuou reduzido a uma macaqueação dos dramas ultra-romanticos, por
que surgiram as ambições politicas de um absolutismo mascarado em
constitucionalismo, que perverteram e esgotaram todas as capacidades,
que para engrandecimento pessoal se prestaram á hypocrisia liberal com
que illudiram a nação. Ainda hoje a litteratura dramatica se acha na
mesma esterilidade e mesquinhez em que a deixou a morte de Garrett;
traduzem-se dramas pelo mesmo espirito com que na representação
parlamentar se traduzem relatorios e leis.
Tambem com os desalentos da emigração e diante das situações reaes e
sublimes do cêrco do Porto, soube Alexandre Herculano inspirar-se; na
_Harpa do Crente_ a sua poesia é viva. Comprehendendo a Edade
media através dos romances de Walter Scott, fez romances historicos
de segunda mão, cahindo por vezes n’esse mesmo ultra-romantismo que
condemnára nos pareceres do _Jornal do Conservatorio_. A falta de
uma concepção synthetica levou-o para o campo da historia critica, na
doce esperança de exercer sobre Garrett essa influencia fecundante de
Herder sobre Goëthe e de Thierry sobre Victor Hugo. Não foi secundado
nos estudos historicos, e por isso a concepção da Edade media ficou em
mera exterioridade que suscitou um impertinente prurido de banalidades
no lyrismo, no theatro e no romance.
=_Os ultra-romanticos._=--A primeira phase do _Romantismo_ consistiu
em todas as litteraturas em renovar com mais ou menos intelligencia
as tradições nacionaes. Como as modernas nacionalidades provinham
das transformações sociaes da Edade media, nas instituições,
linguas, crenças, costumes e mesmo em quanto ás fórmas litterarias e
artisticas, caíu-se insensivelmente na admiração exclusiva d’essa época
profundamente poetica, e facil foi ás mediocridades o apossarem-se
dos caracteres exteriores da vida medieval; repintando castellos,
pontes levadiças, juras tremendas á meia noite, reprezalias de barões
feudaes, ou pelo lado religioso despedidas de trovadores-cruzados
para a Terra santa, apaixonados amantes cobrindo o seu fogo com as
cinzas da penitencia claustral, tudo isto recortado como se fosse de
cartão, dava uma litteratura romantica de soláos e xácaras, romances
historicos e dramalhões tetricos. A esta inintelligencia de uma
concepção fundamental, que caíu no exagero do processo, chamou-se o
_Ultra-Romantismo_. Em quanto a Edade media era scientificamente
estudada em todos os seus aspectos, os litteratos continuavam a
explorar a nova rhetorica da emphase romantica, que se tornava tão
inexpressiva como a rhetorica classica. Os talentos verdadeiros
reagiram contra esta dissolução, procurando inspirar-se da realidade,
da verdade do natural; mas n’este esforço rasoavel, excederam-se
sacrificando o elemento ideal ou a representação subjectiva á
reproducção ou descripção exacta do dado objectivo.
=_Dissolução do Romantismo: Eschola de Coimbra._=--Causas
immanentes ao nosso meio social mantiveram o gosto do _Romantismo_
em Portugal, quando elle estava já em dissolução por toda a Europa. As
necessidades do jornalismo da pedantocracia monarchico-representativa
absorveram todos os talentos e vocações litterarias, que se esgotaram
n’essas paixões e ambições, abandonando o estudo pela espectativa de
uma pasta ministerial. A nação querendo revindicar a sua liberdade
foi violentamente abafada por uma _intervenção armada_ da
Inglaterra e Hespanha, a reclamo de D. Maria II, para subjugar a
revolução contra a oligarchia dos seus ministerios de resistencia.
Edgar Quinet comprehendeu o alcance de tal attentado; tendo apreciado
o esplendor da primeira iniciação romantica, vaticinou o paroxismo da
nação, da sua vida intellectual e moral sob esta traição da realeza. A
nação vergada brutalmente ao _statu quo_ caíu na inconsciencia.
Abafada toda a aspiração da liberdade, os talentos novos puzeram-se
do lado do paço contra a nação, como Mendes Leal e Rebello da Silva;
n’este interregno do espirito creador e original, ergueu-se Castilho,
reduzindo a elaboração litteraria a traducções dos poetas latinos, e á
cultura do estylo, independente das ideias. Mas peior do que isto, foi
ainda a perversão do _elogio mutuo_, que favorecia o imperio das
mediocridades e a aversão por toda a ideia ou innovação esthetica.
Tinha de dar-se a dissolução d’este ultra-romantismo extemporaneo;
irrompeu em 1865 de um modo tempestuoso, dando logar á longa polemica
da chamada _Questão coimbrã_, analoga ao que na Allemanha se
passára com o _Sturm und Drang_. Proclamava-se a alliança da
poesia e da philosophia, inspirando-se do sentimento da solidariedade
humana, dando fórma ao ideal da Humanidade.
A poesia abandonada ao subjectivismo metaphysico, ia fatalmente cahir
no romantismo mystico ou em um _pessimismo_ doentio; carecia-se de
uma disciplina critica. Pelos processos novos da critica comparativa
applicados á historia politica e litteraria, á philologia, aos
costumes ou ethnologia, ás tradições, é que Portugal se relacionou
com o movimento intellectual e social da Europa. Com todos estes
elementos novos da actividade mental, havia a necessidade de evitar a
tendencia da _especialisação_, que amesquinha as intelligencias,
ou a _dispersão_ incoherente de estudos, que leva á banalidade
acobertada com o verniz do estylo; essa somma de elementos novos fez
reconhecer a necessidade de uma disciplina _philosophica_. Assim
a Philosophia positiva veiu em um momento opportuno demarcar uma
nova orientação na mentalidade portugueza, mostrando como terminada a
revolução todos os esforços deviam convergir para activar o advento a
uma edade de normalidade.
Os povos do occidente da Europa constituem uma grande confederação
natural, uma mesma familia moral; a Italia, a Hespanha e Portugal
reconhecem espontaneamente a França como o centro da hegemonia da
civilisação latina. Separados politicamente por odios dynasticos, em
que a Italia foi invadida pela Hespanha e pela França; em que pelos
exercitos napoleonicos invadiu a Hespanha e Portugal a mesma França,
que sob a Santa Alliança tornou a invadir a Hespanha sob a bandeira
absolutista, estes paizes, á medida que se aproximam da comprehensão
da democracia, vão reconhecendo que esses odios provinham do egoismo
dos interesses monarchicos, que deram em resultado a decadencia da
Civilisação occidental. A sciencia estudando a similaridade do grupo
das linguas novo-latinas e comparando a evolução das Litteraturas
romanicas ou meridionaes, reconstrue a unidade ethnica e moral dos
estados do Occidente; e em quanto a democracia não funda em bases
juridicas de federação esta solidariedade historica da França, Italia,
Hespanha e Portugal, é indispensavel que essa conclusão scientifica se
generalise na fórma de sentimento.
Pelo exame da marcha da historia moderna da Europa desde o seculo XII
até ao seculo XIX, vê-se que a esse longo processo de dissolução do
regimen catholico-feudal corresponde um trabalho reconstructivo. De
Maistre, que tanto trabalhára para sustentar o regimen da Edade media,
proclamava o facto evidente: «Tudo indica que caminhamos para uma
nova Synthese.» Para elle, essa synthese seria uma reorganisação do
christianismo para abranger a sociedade e a consciencia modernas que
lhe fugiam; mas, os espiritos que seguiram o trabalho reconstructivo
da rasão pela descoberta das verdades positivas das Sciencias
experimentaes e pelo estabelecimento da liberdade civil, tambem
proclamaram o advento da nova Synthese, como Comte, terminando a acção
social das ficções theologicas e metaphysicas substituidas pela noção
da solidariedade humana.
Eis pois determinado o _sentimento_ fundamental que deve
inspirar todos os themas estheticos. Por falta d’este sentimento
universal e decisivo, é que na longa crise da dissolução do regimen
catholico-feudal as Litteraturas fluctuaram na sua idealisação,
imitando e parodiando sem intuito social; uma vez determinado, a missão
do sentimento é chegar á synthese a que as luctas mental e social ainda
não souberam dar fórma. Todo o systema das Bellas-Artes é chamado a
cooperar n’esta missão para a qual foram impotentes os politicos, os
sabios e os philosophos. É verdadeiramente assombrosa a percepção de
Wagner, quando tendo analysado a anarchia da arte, formúla o grande
destino da funcção esthetica: «Aonde outr’ora o artista desesperou, ahi
começaram a politica e a philosophia; ahi, aonde hoje em dia a politica
e a philosophia desesperam, é ahi que começa o artista.»[210] Todo o
vasto corpo da Historia litteraria de Portugal que temos coordenado é
a narrativa d’esses antecedentes do sentimento esthetico, que, pela
comparação com as outras Litteraturas romanicas e relação com o meio
social nos conduzem a uma clara deducção da Philosophia da Litteratura.
FIM
NOTAS DE RODAPÉ:
[210] Maravilha a concordancia do genio philosophico de Comte com a
intuição artistica de Wagner; tudo nos confirma o valor e segurança da
sua direcção mental.
NOTA BIBLIOGRAPHICA