O poeta, como vêmos pelo exemplo de Tolentino--«acabava por fim

pedindo esmola;» era uma especie de creado de casa fidalga, que

festejava os annos dos titulares e esperava que o brindassem com um

fato. Ainda não havia a dignidade do escriptor. O Marquez de Pombal

viu na _Arcadia_ uma Companhia com o privilegio ou monopolio das

composições metricas, e assim a protegeria; desde que alguns espiritos

sympathisaram com as doutrinas pedagogicas do Oratorio, o ministro

tirou-lhes o favor official, e aos que suspeitou de fallarem mal do seu

governo metteu-os no carcere, como ao Garção que morreu no Limoeiro.

=_Os Dissidentes da Arcadia._=--A verdadeira feição do seculo

XVIII na poesia não está no que produziu a _Arcadia_ adstricta

á imitação classica; sob a pressão do despotismo houve protestos

irreflectidos da natureza, como se observa n’esse phenomeno de

perversão mental da poesia erotica. O _molinismo_ dos conventos e

a sensualidade do cesarismo patrocinavam este genero litterario, de que

foram victimas quasi todos os poetas do seculo XVIII. Esse phenomeno é

conhecido em França pelo nome de _Sadismo_.

O _Camões do Rocio_ e o _Lobo da Madragôa_ revelam melhor a

depressão moral sob o cesarismo, do que as campanudas odes horacianas.

Garção, Tolentino e Filinto Elysio sacrificaram ao gosto erotico; foi a

doença do seculo, cuja intensidade se nota na quantidade de nomes que

cultivaram o genero, taes como Domingos Monteiro de Albuquerque, Pedro

José Constancio, Fr. José Botelho Torrezão, o Abbade de Jazende, o P.^e

José Agostinho de Macedo, Bocage, Pimentel Maldonado e outros.

Na constituição da _Arcadia de Lisboa_ alguns poetas afamados do

tempo não foram convidados, e outros mais tarde não foram admittidos

por causa do seu genio satyrico. N’este caso apparecem Nicoláo

Tolentino, que metrificava irreprehensivelmente, e Francisco Manoel do

Nascimento (_Filinto_) que com outros poetas constituiu o _Grupo

da Ribeira das Náos_. Cruzou-se por vezes o tiroteio das satyras,

acirrando-se uns e outros, a ponto de ser conhecido o seu principal

conflicto pela designação da _Guerra dos Poetas_, a proposito da

cantora Zamperini.

Havia no seculo XVIII um costume em que a poesia se tornava um elemento

das festas; chamava-se-lhe _Outeiro poetico_, em que se versejava

nas eleições dos abbadeçados. Seria ainda uma apagada reminiscencia

das _Côrtes de Amor_. Tolentino pinta com traços pittorescos este

costume, que formava reputações.[209]

A reacção da côrte de D. Maria I contra as reformas pombalinas,

lançou a nação na violencia do _intolerantismo_; fizeram-se

perseguições systematicas aos homens intelligentes, como ao mathematico

e poeta José Anastacio da Cunha, a Felix de Avelar Brotero, a Filinto

Elisio, a José Corrêa da Serra, e por ultimo até ao poeta Bocage,

por causa do seu espirito encyclopedista. Assim se cahiu n’esse gráo

de cretinisação, que fazia dizer ao P.^e Theodoro de Almeida, ao

inaugurar a _Academia das Sciencias_ em 1779: «Que admirados

ficareis, senhores, se soubesseis quam vil é o conceito que mesmo

os estrangeiros fazem injustamente de nós. Quando lá fóra apparece

casualmente algum portuguez de engenho mediocre, admirados se espantam

como de phenomeno raro. E como assim? (dizem) de Portugal? do centro

da ignorancia!--Assim o cheguei a ouvir.» No seculo XVIII a Europa

confundia a situação mental dos portuguezes com a crassa estupidez

dos seus governantes, como hoje nos identificam com o descaro da sua

insolvencia. A _Academia das Sciencias_ foi um fóco de luz que o

duque de Lafões e José Corrêa da Serra, auxiliados por Vandelli e o

visconde de Barbacena, projectaram n’este prolongamento da Edade media

em Portugal.

=_A nova Arcadia._=--A influencia franceza, que se

contrabalançava com a auctoridade dos Quinhentistas na primeira

_Arcadia_, depois da sua dissolução é que adquiriu uma completa

preponderancia. A litteratura franceza era o orgão da propaganda

philosophica e politica que convulsionavam a Europa. A _Nova

Arcadia_ ou Academia de Bellas-Lettras foi fundada pelo mulato

brazileiro o P.^e Caldas (_Lereno Selinuntino_) no palacio do

Conde de Pombeiro. No meio das grandes commoções politicas da Europa

com o apparecimento dos principios de 1789, a _Nova Arcadia_

fechou-se no seu remanso pastoral, alheia a todas as reclamações

humanas.

No meio d’este insulso idyllio, rebentou o conflicto turbulento do

genio de Bocage, que reagia contra a mediocridade geral vibrando

satyras immortaes. A sua adhesão aos principios da Revolução franceza

levou-o aos carceres da Policia, então mais terriveis do que os da

Inquisição, para a qual appellou, para escapar. Póde-se dizer que o

meio social amesquinhou este genio, que apezar da imbecilidade geral

soube sentir a superioridade de Camões.

O lyrismo portuguez teve uma fugaz renovação, pelo favor que no gosto

do tempo encontraram as _Modinhas brazileiras_, tão celebradas

por lord Beckford, consideradas como o elemento generativo da musica

portugueza por Strafford, e sendo na realidade uma persistencia

tradicional das antigas serranilhas gallezianas. As Lyras da _Marilia

de Dirceu_, de Gonzaga, são o que ha de mais bello no lyrismo da

ultima metade do seculo XVIII. A superioridade litteraria revelava-se

entre os escriptores do Brazil, que pelo influxo da Revolução franceza

serviam a causa da emancipação d’esta explorada colonia, que aspirava á

legitima autonomia de nacionalidade. A _Nova Arcadia_ dissolveu-se

depois do conflicto de Bocage, depois de ter accumulado Odes, Sonetos,

Epistolas, Elogios dramaticos. Durante a segunda metade do seculo

XVIII vivemos entregues a todas as tropelias da rasão de estado, sob a

vigilancia feroz do Intendente Manique, sob a suspeição das _ideias

francezas_ e apavorados pelo intolerantismo religioso. A censura

litteraria e a policia nas alfandegas, não deixavam entrar em Portugal

os livros suspeitos, e as obras dos Encyclopedistas eram queimadas na

praça publica pela mão do carrasco.

A nação soffreu os tremendos desastres provocados pela inconsciencia

politica; depois da invasão napoleonica e do não menos terrivel

protectorado da Inglaterra, houve um momento em que a nação manifestou

vida propria, na revolução de 1820, em que no meio das grandes

catastrophes reassumiu a sua soberania, proclamada como fonte do

poder na Constituição de 1822. Com esta data gloriosa da liberdade

portugueza, começa simultanea com a renovação social uma nova e

fecunda phase na litteratura.

Na Europa passava-se a renovação litteraria do _Romantismo_,

agitando a França, a Italia, a Inglaterra e a Hespanha; em Portugal

continuavamos estacionarios na admiração dos classicos, como a colonia

romana longinqua que ainda continuava a veneração do Imperador já

destituido. Um accidente desgraçado, a restauração do absolutismo

bragantino, provocando a emigração de 1823, é que levou os nossos

innovadores a descobrirem a relação entre as litteraturas e as

aspirações da sociedade.

=_A baixa Comedia._=--Com as comedias hespanholas de _capa

y espada_ e as italianas de _imbroglio_, fez-se um amalgama sem

intenção, nem responsabilidade litteraria para acudir á exploração dos

theatros do Salitre e do Bairro Alto. Tal era a _baixa comedia_,

em que se fundiam elementos das obras de Lope de Vega, Molière e

Goldoni. Eram geralmente em verso octosyllabo assonantado, e constituem

um vasto reportorio avulso, chamado _Comedias de cordel_. Esta

creação correspondia ao estado dos espiritos, quasi idiotico, a que

os levára a inquisição e o cesarismo; a sua publicação tornára-se

uma industria dos cegos, ligados entre si em uma Confraria do Menino

Jesus, que tinha o privilegio exclusivo da sua exploração. Na _baixa

comedia_ não se encontra um protesto contra o aviltamento geral, mas

abundam as graçolas equivocas, os esgares de quem quer reagir contra

o terror. Distinguiram-se no genero Antonio José da Silva, alcunhado

o _Judeu_, e Nicoláo Luiz. Contra o gosto popular que applaudia

as _Operas do Judeu_ reagiu o árcade Garção. Filinto appellava

para a tradição dramatica nacional: «Lêam a opera dos _Encantos de

Circe_, eruditissimo parto de um engenho judaico. Houve editor que

modernamente deu á luz esse non plus ultra do genero dramatico; e

_Gil Vicente_, e _Prestes_ e outros classicos ficaram para

sempre no cadoz! Oh vergonha! oh ingrata incuria!» Pela sua parte, o

árcade Manoel de Figueiredo reagiu contra Nicoláo Luiz, querendo dar ao

theatro bases philosophicas; faltava-lhe porém o talento, não obstante

a sua clara comprehensão do problema.

O que era o theatro póde avaliar-se pela situação dos actores;

o Intendente da Policia, Pina Manique, nas _Contas para as

Secretarias_ traz curiosas noticias, que derramam uma immensa luz

na historia do theatro no seculo XVIII; lê-se na Conta, de 30 de

setembro de 1792: «Os comicos e os Emprezarios, que de ordinario são os

mais infimos, e que para os conter e conservar a boa ordem e policia

do theatro é necessario a força, sem a qual nada se póde fazer, por

que é uma gente sem melindre ou caprixo, e são susceptiveis de tudo

aquillo que é máo para o adoptarem, ou seja contra os bons costumes,

ou contra a honra, o ponto é que elles tenham interesse. Além de que

não cumprem o que devem para satisfazer ao publico, e muitas vezes é

preciso contel-os para não enxerirem algumas palavras menos decentes,

que não vêm na peça que executam; etc.» (Liv. III, fl. 264 a 267.) O

Intendente era a favor das representações, por que oppondo-se á entrada

em Portugal das _ideias francezas_, considerava o theatro um

elemento indispensavel para conservar os cidadãos longe do conhecimento

dos successos da Europa, e sem logar para discutirem sobre os negocios

publicos. A _baixa comedia_ foi um instrumento do cesarismo. Durou

esta fórma dramatica até ao tempo de Garrett, e algumas das principaes

peças d’esta eschola ainda sobrevivem na scena, como o _Manoel

Mendes Enxundia_, de Ferreira de Azevedo, o _Doutor Sovina_

e o _Zanguizarra_. Nunca uma litteratura foi mais completa na

revelação do estado decadente de uma nacionalidade. A _Arcadia_,

querendo restaurar o theatro, traduziu e imitou os tragicos da

época de Luiz XIV, segundo a sua fé monarchica; mas com a corrente

revolucionaria lêram-se e representaram-se as tragedias philosophicas

de Voltaire, que persistiram até á geração de 1820.

NOTAS DE RODAPÉ:

[206] No fragmento da _Poetica provençal_ que vem no Cancioneiro

Colocci-Brancuti, cita-se no cap. IX este genero de seguidilha, em que

se intercalam versos de outrem: «som em prazer ou em _ledo_.» Têm quasi

sempre o estribilho: _Leda vou eu_, etc.

[207] _Historia de la Literatura española_, t. I, p. 11.

[208] No _Catalogo_, de Barrera y Leyrado, p. 534, cita-se esta ultima:

«Manuscripto sin año, de principios del siglo XVI, en la Libreria de

señor Duran.»

[209]

Fôra cem vezes em nocturno _Outeiro_

Da sabia Padaria apadrinhado;

E dizem que glosava por dinheiro...

Rompi _Outeiros_ em Sant’Anna e Chellas,

Chamei sol á Prelada, e ás mais estrellas.

TERCEIRA ÉPOCA

(SECULO XIX)

Revivescencia das Tradições nacionaes pela idealisação da Edade media,

e comprehensão do elemento classico pela solidariedade historica

Á proclamação da liberdade de consciencia no seculo XVI, pela

_Reforma_, corresponde essa outra emancipação do dogmatismo na

arte, pelo _Romantismo_, com o qual a Allemanha no começo do

seculo XIX propagou o principio da espontaneidade do sentimento.

Em ambas as revoluções, religiosa e esthetica, existiu uma base

commum: o regresso á tradição, quer a da Egreja primitiva, quer a das

origens nacionaes. A Allemanha chegou a este resultado fundamental

pelo trabalho erudito da descoberta das tradições germanicas, e

pela renovação philosophica exercida na critica da Arte, suscitada

práticamente pela necessidade de estimular o espirito da nação contra

as desvairadas devastações napoleonicas. O influxo da Allemanha na

transformação do _Romantismo_ foi universalisado por M.^{me} de

Staël; em Portugal tambem uma mulher teve essa sympathica iniciativa.

Herculano confessou dever á marqueza de Alorna a direcção dos seus

primeiros passos na Litteratura: «Como madame de Staël, ella fazia

voltar a imaginação da mocidade para a Allemanha, a qual veiu dar nova

seiva á arte meridional, que vegetava na imitação servil das chamadas

letras classicas...»

De facto a renovação do _Romantismo_ correspondia a uma

transformação social da Europa moderna pelo influxo dos principios

da Revolução franceza; e se a nova eschola triumphou foi por que se

encontrou em um novo meio social. As monarchias absolutas reagiam

contra o direito das Constituições ou codigos da soberania nacional,

e pretendiam restaurar o antigo e decahido regimen, ou pelo menos

falsificar esse direito pela _outorga_ ou concessão de Cartas

constitucionaes. Aquelles que combatiam pela liberdade politica

e civil, tanto na Italia e França, como em Hespanha e Portugal,

abraçaram por instincto a nova concepção das Litteraturas, da mesma

fórma que os trovadores provençaes tinham sido os proclamadores da

independencia municipal, e os humanistas da Renascença os propugnadores

do livre-exame.

=_Os chefes do Romantismo._=--Os principaes promotores da renovação do

Romantismo em Portugal foram dois emigrados liberaes, Almeida Garrett,

que em 1823 fugira para França ante a restauração do absolutismo de D.

João VI, que prejurára a Constituição de 1822, e Alexandre Herculano,

que em 1831 fugira para Inglaterra ás forcas de Dom Miguel, que tambem

prejurára a Carta constitucional de 1826. Garrett no seu regresso

d’estas duas emigrações procurou descobrir o veio da tradição nacional,

lançando as bases do _Romanceiro portuguez_; no poema _Camões_

comprehendeu a mais alta expressão do genio nacional; na _D. Branca_,

no _Alfageme de Santarem_, no _Arco de Sant’Anna_, universalisou no

poema, no drama, no romance historico as bellas lendas antigas, que

estavam dispersas e desconhecidas nas chronicas monachaes e monarchicas.

A acção exclusiva de Garrett na fundação do theatro portuguez

manifesta-se na extraordinaria intuição do artista que comprehendeu o

alcance da transformação da sociedade burgueza, para a qual o theatro

era uma fórma tambem de liberdade. Teve o raro tino nas suas obras

de inspirar-se nos conflictos do meio social, como se observa com a

tragedia _Catão_, ligada ás aspirações liberaes de 1820; com o

_Camões_, idealisado nos desalentos do desterro; com o _Arco

de Sant’Anna_, vivificado pela resistencia do cêrco do Porto; com

o _Alfageme de Santarem_, exprimindo a necessidade de recorrer á

revolta, na crise terrivel do cabralismo em 1842.

Com a iniciação pois da liberdade constitucional appareceu uma vaga

comprehensão do valor dos elementos tradicionaes como a base das

litteraturas; com esta intuição pôde Garrett levantar o theatro

portuguez. O drama _Frei Luiz de Sousa_ hade ser sempre uma

obra prima em todas as litteraturas modernas. A acção de Garrett

ficou isolada por falta de uma geração intelligente; o theatro

continuou reduzido a uma macaqueação dos dramas ultra-romanticos, por

que surgiram as ambições politicas de um absolutismo mascarado em

constitucionalismo, que perverteram e esgotaram todas as capacidades,

que para engrandecimento pessoal se prestaram á hypocrisia liberal com

que illudiram a nação. Ainda hoje a litteratura dramatica se acha na

mesma esterilidade e mesquinhez em que a deixou a morte de Garrett;

traduzem-se dramas pelo mesmo espirito com que na representação

parlamentar se traduzem relatorios e leis.

Tambem com os desalentos da emigração e diante das situações reaes e

sublimes do cêrco do Porto, soube Alexandre Herculano inspirar-se; na

_Harpa do Crente_ a sua poesia é viva. Comprehendendo a Edade

media através dos romances de Walter Scott, fez romances historicos

de segunda mão, cahindo por vezes n’esse mesmo ultra-romantismo que

condemnára nos pareceres do _Jornal do Conservatorio_. A falta de

uma concepção synthetica levou-o para o campo da historia critica, na

doce esperança de exercer sobre Garrett essa influencia fecundante de

Herder sobre Goëthe e de Thierry sobre Victor Hugo. Não foi secundado

nos estudos historicos, e por isso a concepção da Edade media ficou em

mera exterioridade que suscitou um impertinente prurido de banalidades

no lyrismo, no theatro e no romance.

=_Os ultra-romanticos._=--A primeira phase do _Romantismo_ consistiu

em todas as litteraturas em renovar com mais ou menos intelligencia

as tradições nacionaes. Como as modernas nacionalidades provinham

das transformações sociaes da Edade media, nas instituições,

linguas, crenças, costumes e mesmo em quanto ás fórmas litterarias e

artisticas, caíu-se insensivelmente na admiração exclusiva d’essa época

profundamente poetica, e facil foi ás mediocridades o apossarem-se

dos caracteres exteriores da vida medieval; repintando castellos,

pontes levadiças, juras tremendas á meia noite, reprezalias de barões

feudaes, ou pelo lado religioso despedidas de trovadores-cruzados

para a Terra santa, apaixonados amantes cobrindo o seu fogo com as

cinzas da penitencia claustral, tudo isto recortado como se fosse de

cartão, dava uma litteratura romantica de soláos e xácaras, romances

historicos e dramalhões tetricos. A esta inintelligencia de uma

concepção fundamental, que caíu no exagero do processo, chamou-se o

_Ultra-Romantismo_. Em quanto a Edade media era scientificamente

estudada em todos os seus aspectos, os litteratos continuavam a

explorar a nova rhetorica da emphase romantica, que se tornava tão

inexpressiva como a rhetorica classica. Os talentos verdadeiros

reagiram contra esta dissolução, procurando inspirar-se da realidade,

da verdade do natural; mas n’este esforço rasoavel, excederam-se

sacrificando o elemento ideal ou a representação subjectiva á

reproducção ou descripção exacta do dado objectivo.

=_Dissolução do Romantismo: Eschola de Coimbra._=--Causas

immanentes ao nosso meio social mantiveram o gosto do _Romantismo_

em Portugal, quando elle estava já em dissolução por toda a Europa. As

necessidades do jornalismo da pedantocracia monarchico-representativa

absorveram todos os talentos e vocações litterarias, que se esgotaram

n’essas paixões e ambições, abandonando o estudo pela espectativa de

uma pasta ministerial. A nação querendo revindicar a sua liberdade

foi violentamente abafada por uma _intervenção armada_ da

Inglaterra e Hespanha, a reclamo de D. Maria II, para subjugar a

revolução contra a oligarchia dos seus ministerios de resistencia.

Edgar Quinet comprehendeu o alcance de tal attentado; tendo apreciado

o esplendor da primeira iniciação romantica, vaticinou o paroxismo da

nação, da sua vida intellectual e moral sob esta traição da realeza. A

nação vergada brutalmente ao _statu quo_ caíu na inconsciencia.

Abafada toda a aspiração da liberdade, os talentos novos puzeram-se

do lado do paço contra a nação, como Mendes Leal e Rebello da Silva;

n’este interregno do espirito creador e original, ergueu-se Castilho,

reduzindo a elaboração litteraria a traducções dos poetas latinos, e á

cultura do estylo, independente das ideias. Mas peior do que isto, foi

ainda a perversão do _elogio mutuo_, que favorecia o imperio das

mediocridades e a aversão por toda a ideia ou innovação esthetica.

Tinha de dar-se a dissolução d’este ultra-romantismo extemporaneo;

irrompeu em 1865 de um modo tempestuoso, dando logar á longa polemica

da chamada _Questão coimbrã_, analoga ao que na Allemanha se

passára com o _Sturm und Drang_. Proclamava-se a alliança da

poesia e da philosophia, inspirando-se do sentimento da solidariedade

humana, dando fórma ao ideal da Humanidade.

A poesia abandonada ao subjectivismo metaphysico, ia fatalmente cahir

no romantismo mystico ou em um _pessimismo_ doentio; carecia-se de

uma disciplina critica. Pelos processos novos da critica comparativa

applicados á historia politica e litteraria, á philologia, aos

costumes ou ethnologia, ás tradições, é que Portugal se relacionou

com o movimento intellectual e social da Europa. Com todos estes

elementos novos da actividade mental, havia a necessidade de evitar a

tendencia da _especialisação_, que amesquinha as intelligencias,

ou a _dispersão_ incoherente de estudos, que leva á banalidade

acobertada com o verniz do estylo; essa somma de elementos novos fez

reconhecer a necessidade de uma disciplina _philosophica_. Assim

a Philosophia positiva veiu em um momento opportuno demarcar uma

nova orientação na mentalidade portugueza, mostrando como terminada a

revolução todos os esforços deviam convergir para activar o advento a

uma edade de normalidade.

Os povos do occidente da Europa constituem uma grande confederação

natural, uma mesma familia moral; a Italia, a Hespanha e Portugal

reconhecem espontaneamente a França como o centro da hegemonia da

civilisação latina. Separados politicamente por odios dynasticos, em

que a Italia foi invadida pela Hespanha e pela França; em que pelos

exercitos napoleonicos invadiu a Hespanha e Portugal a mesma França,

que sob a Santa Alliança tornou a invadir a Hespanha sob a bandeira

absolutista, estes paizes, á medida que se aproximam da comprehensão

da democracia, vão reconhecendo que esses odios provinham do egoismo

dos interesses monarchicos, que deram em resultado a decadencia da

Civilisação occidental. A sciencia estudando a similaridade do grupo

das linguas novo-latinas e comparando a evolução das Litteraturas

romanicas ou meridionaes, reconstrue a unidade ethnica e moral dos

estados do Occidente; e em quanto a democracia não funda em bases

juridicas de federação esta solidariedade historica da França, Italia,

Hespanha e Portugal, é indispensavel que essa conclusão scientifica se

generalise na fórma de sentimento.

Pelo exame da marcha da historia moderna da Europa desde o seculo XII

até ao seculo XIX, vê-se que a esse longo processo de dissolução do

regimen catholico-feudal corresponde um trabalho reconstructivo. De

Maistre, que tanto trabalhára para sustentar o regimen da Edade media,

proclamava o facto evidente: «Tudo indica que caminhamos para uma

nova Synthese.» Para elle, essa synthese seria uma reorganisação do

christianismo para abranger a sociedade e a consciencia modernas que

lhe fugiam; mas, os espiritos que seguiram o trabalho reconstructivo

da rasão pela descoberta das verdades positivas das Sciencias

experimentaes e pelo estabelecimento da liberdade civil, tambem

proclamaram o advento da nova Synthese, como Comte, terminando a acção

social das ficções theologicas e metaphysicas substituidas pela noção

da solidariedade humana.

Eis pois determinado o _sentimento_ fundamental que deve

inspirar todos os themas estheticos. Por falta d’este sentimento

universal e decisivo, é que na longa crise da dissolução do regimen

catholico-feudal as Litteraturas fluctuaram na sua idealisação,

imitando e parodiando sem intuito social; uma vez determinado, a missão

do sentimento é chegar á synthese a que as luctas mental e social ainda

não souberam dar fórma. Todo o systema das Bellas-Artes é chamado a

cooperar n’esta missão para a qual foram impotentes os politicos, os

sabios e os philosophos. É verdadeiramente assombrosa a percepção de

Wagner, quando tendo analysado a anarchia da arte, formúla o grande

destino da funcção esthetica: «Aonde outr’ora o artista desesperou, ahi

começaram a politica e a philosophia; ahi, aonde hoje em dia a politica

e a philosophia desesperam, é ahi que começa o artista.»[210] Todo o

vasto corpo da Historia litteraria de Portugal que temos coordenado é

a narrativa d’esses antecedentes do sentimento esthetico, que, pela

comparação com as outras Litteraturas romanicas e relação com o meio

social nos conduzem a uma clara deducção da Philosophia da Litteratura.

FIM

NOTAS DE RODAPÉ:

[210] Maravilha a concordancia do genio philosophico de Comte com a

intuição artistica de Wagner; tudo nos confirma o valor e segurança da

sua direcção mental.

NOTA BIBLIOGRAPHICA

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 26 / 27 段