[173] Ap. _Influence de l’Italie sur les Lettres françaises_, p. 93.

[174] _Système de Politique positive_, t. III, p. 514.

[175] _L’avenir de la Science_, p. 58.

[176] A preoccupação da lisonja da côrte dava aos escriptores as

expressões amaneiradas, como notou Weise no _Politischer Näscher_, nos

escriptores do seculo XVII que se annullavam «pelo grande desejo da

_sôpa da côrte_ politica.»

[177] _Études sur l’Espagne_, p. 227.

[178] _Études sur l’Espagne et sur l’influence de la Litterature

espagnole en France et en Italie_, p. 40.

[179] _Études sur l’Espagne_, p. 108 a 111.

[180] _Ibid._, p. 113.

[181] _Ibid._, p. 114.

[182] _Études sur l’Espagne_, p. 148.

[183] _Ibid._, p. 41.

[184] _Ibid._, p. 225.

[185] Sobre este assumpto, vid. Child, _John Lyly and Euphuism_;

Laudmann, _Der Euphuism_; e Morly, _Quarterly Review_, 1861.

[186] _Congrès historique_ (IX^{me}) p. XVIII. Paris, 1843.

[187] _L’Ancien Régime_, p. 257 e seguintes.

[188] _Ibid._, p. 260.

[189] _Ibid._, p. 261.

[190] _Verdadeiro methodo de estudar_, t. I, p. 177.

[191] Ap. Marquez de Valmar, _Historia de la Poesia española_, t. I, p.

261.

[192] _Panorama_, t. VIII, p. 152.

[193] _Verdadeiro methodo de estudar_, t. I, p. 220.

[194] _Verdadeiro methodo de estudar_, t. I, p. 201.

[195] _Obras poeticas e oratorias_, p. 166. Ed. 1888.

[196] «Beles, Shakspeare, inglez, em nove volumes de outavo magno,

encadernados em pasta. Boa edição, estampados, avaloados em 6$400 réis.

«_Poemas_ de Raulay, inglez, 1 vol.

«_Hudibras_, por Samuel Butler, inglez, 1 vol.

«_Ancient Inglis_, obra poetica, em 3 vol., encadernada em pasta.

«_Several Hands_, collecção de poemas em inglez, em 6 volumes.

«_British Theatre_, comedias em inglez em um volume.

«Obras de Laurence Sterne, inglez, em 3 volumes de 8.^o.

«Obras de _Tristran Shandy_, inglez, encadernado em pasta, 6 vol. de

8.^o.

«_Sentimental Journey_: Yorich, em 2 vol. de 8.^o em pasta.

«_British Tragedias_, inglezas, em 1 vol.

«Obras de Young, francez, em 3 vol.

«_Cartas de Junius_, em inglez, em 2 vol.

«_Obras_, _Poemas_ de Milton, inglezes, 3 vol.

«Um tomo das Obras de William Shakspeare, em que contém algumas

comedias inglezas, em 1 vol.»

[197] Fallando do meio como poderia reflorir a poesia franceza do seu

inexpressivo arcadismo, escrevia Frederico Schlegel: «eu sou levado a

pensar que isso não se daria nem poderia acontecer pela imitação dos

inglezes, como se tem feito até ao presente para sustentar a poesia

desfallecida, nem pela imitação de nenhuma outra nação; mas sómente

por um regresso ao espirito poetico em geral, e reconduzindo a poesia

franceza aos tempos antigos.»--«basta a cada nação o voltar-se para

a sua poesia e tradições suas proprias e originaes. Tanto mais perto

se está da origem e mais profundamente se immerge n’ella, quanto mais

se vê apparecer o que todas as nações tem de commum.» (_Historia

da Litteratura antiga e moderna_, t. II, p. 248, trad. franc.) A

influencia da Litteratura ingleza era devida a não se ter completamente

separado da Edade media, e é d’esta fonte commum das Litteraturas

modernas que ellas avançam para a sua unificação.

[198] _La Philosophie positive_, resumida por Miss Martineau, t. II, p.

446.

[199] _Ibid._, p. 484.

[200] _La Philosophie positive_, condensée par Miss Martineau, t. II,

p. 486 a 488.

[201] Philarète Chasles indicando este phenomeno, não explica a sua

origem: «Que causas sociaes determinaram tambem a sentimentalidade

wertheriana, esta moda extraordinaria de chorar sem fim, este

_obermanismo_ desesperado que só teve um dominio passageiro em França

com Arnaud Baculard, em Inglaterra com o Dr. Young, mas que penetrou

até ás ultimas camadas da sociedade e da burguezia allemãs entre

1780 e 1790, e que tanto persistiu que duas operarias gorduchas e

dois bons burguezes que se encontrassem em Leipzic ou em Goettingue,

não perguntavam um ao outro: Como passaes? mas: Tendes vós derramado

copiosas lagrimas? ou então:--Como vão os soffrimentos do vosso

coração?--Esta tendencia lagrimejante auxiliou o successo do _Werther_

de Goëthe, e o da _Intriga e amor_ de Schiller; as obras de Kotzebue

foram um producto definitivo. Mas onde teve esta tendencia a sua

origem?» (_Des travaux récents sur le XVIII^{me} Siècle._)

[202] _Cours de Philosophie positive_, t. VI, p. 762.

[203] _Cours de Philosophie positive_, t. V, p. 106.

III

Épocas historicas da Litteratura portugueza

Para formar a Historia de uma Litteratura moderna em especial, importa

considerar a nação que a produziu como membro d’esta Republica

occidental, analysando as manifestações do seu genio esthetico e

deduzindo pela comparação dos typos communs a marcha que seguiu a

evolução esthetica da Europa desde a Edade media até ao presente, nas

suas relações complexas com as instituições politicas e economicas, bem

como com as phases mentaes e affectivas do espirito e da sociabilidade.

A um trabalho concreto de erudição tem de seguir-se uma forte

abstracção philosophica, considerando a _Edade media_ como o fóco

de elaboração do genio esthetico tanto para as linguas e para a poesia

como de todo o systema das bellas-artes. Pelo exame da marcha geral da

Civilisação europêa no seu movimento de decomposição e por tanto de

instabilidade social, se comprehenderá como o elemento _classico_

serviu de apoio provisorio para o exercicio das capacidades estheticas

na época mentalmente agitada da Renascença. Todas as phases por

que passou a civilisação europêa sob a dissolução do regimen

catholico-feudal, actuaram nas fórmas das Litteraturas, umas vezes

desviando-as da idealisação dos seus elementos affectivos medievaes

para a imitação greco-romana, outras vezes confundindo-os, e por ultimo

regressando á origem organica. É este facto fundamental o em que melhor

se observa a solidariedade das Litteraturas romanicas, e o que melhor

define as transformações que constituem a caracteristica de cada época

historica. Assim as épocas da Historia da Litteratura portugueza são

semelhantes ás que apresentam as outras litteraturas meridionaes.

PRIMEIRA ÉPOCA

(SECULOS XII A XV)

Preponderancia dos elementos tradicionaes e estheticos da Edade media,

e começo de transição para o estudo da Antiguidade classica

=1.^o Periodo (Seculos XII a XIV):=

=_Trovadores portuguezes._=--A poesia provençal entrou na peninsula

hispanica especialmente pela Galliza, quando Portugal se achava ainda

incorporado no seu territorio. Eram da Gasconha, pertencente á eschola

poetica da Aquitania, os trovadores que aqui penetraram, entendendo-se

pela homogeneidade da tradição, dos costumes e da linguagem. Pelo

casamento de D. Affonso Henriques, o primeiro monarcha portuguez, com

uma princeza italiana, assim como nos apropriámos das fórmas municipaes

(o _Podestariado_) tambem conhecemos a poesia dos trovadores que em

grande numero se haviam refugiado na Italia por causa da absorpção

monarchica da França do norte. Peire Vidal, Marcabrun e Gavaudan o

velho, que vieram a Portugal ou a elle se referiram, tinham passado a

parte principal da sua vida na Italia. No _Cancioneiro da Vaticana_

determina-se esta phase de iniciação italo-provençal: ha importantes

referencias a Sordello, de Mantua, e abundantes italianismos, como:

_Cajon_, _Mensonha_, _Mentre_, _Pelegrin_, _Toste_, _Ledo_, _Nozir_,

_Solaz_, _Guirlanda_, _Dolçor_, _Vergonça_, Potestade, etc. No

_Cancioneiro Colocci-Brancuti_ acham-se em portuguez canções assignadas

por Bonifazio Calvo, de Genova.

O desenvolvimento completo da poesia trobadoresca deu-se na côrte

de D. Affonso III por circumstancias implicitas nas transformações

politicas portuguezas. Contra o systema administrativo de D. Sancho

II insurgiram-se o clero e a nobreza, e depois da escaramuça violenta

da _Lide do Porto_, os bispos mais audaciosos foram para

Roma conspirar para a deposição do monarcha, e a nobreza emigrou

para França, refugiando-se junto do princepe D. Affonso, que se

distinguia pela sua estremada bravura na côrte de San Luiz. Então

estava o lyrismo provençal em moda no norte da França, e o conde de

Champagne com outros senhores serviam-se das subtilezas das allegorias

trobadorescas para cortejarem a formosa rainha viuva Branca de

Castella. N’essa côrte cavalheiresca residira D. Affonso desde 1238

a 1246; para junto d’elle é que emigraram os fidalgos das familias

dos Bayões, Porto-Carreros, Valadares, Alvins, Nobregas, Mellos,

Sousas e Reymondos, appellidos dos principaes trovadores que assignam

as composições dos nossos trez valiosos Cancioneiros fragmentarios.

Apoiado n’esse partido de revolta dos grandes vassallos, D. Affonso

fez um desembarque furtivo em Portugal, e foi recebendo a homenagem

dos principaes Alcaides dos castellos; refugiou-se o irmão em Toledo,

e só depois da morte d’este é que D. Affonso se acclamou rei. Uma

Satyra violenta contra os Alcaides traidores, revela-nos que já no

reinado de D. Sancho II se cultivava e reconhecia a importancia da

poesia trobadoresca. Nas Canções dos codices da Ajuda e da Vaticana

verifica-se a influencia directa do norte da França: uma traz o

retornello _Que je soy votre ome-lige_, outra imita as fórmas

épicas e chama-se _Gesta de Maldizer_, outra seguindo o gosto das

pastorellas falla no _Caminho francez_. E nos costumes da casa

real ordenava-se que só houvesse trez jograes na côrte.

Dom Affonso III deu os principaes cargos da nação aos seus partidarios,

e tratou de desfazer o seu casamento com a Condessa de Bolonha, para

casar com uma bastarda de D. Affonso o Sabio. Assim se aproximaram

as duas côrtes, principalmente quando D. Diniz tambem se mostrou

apaixonado da poesia provençal como seu avô. Ou para lisongear

Affonso o Sabio ou pela propria predilecção, D. Affonso III deu a D.

Diniz uma educação litteraria completa; o fragmento de uma Poetica

provençalesca do principio do _Cancioneiro Colocci-Brancuti_,

mostra-nos quanto eram estudados os segredos da metrificação limosina;

com intuitos de arte é que são imitados os _Lais_ bretãos, e as

_Pastorellas_ aquitanicas com as _Serranilhas_ gallezianas.

O conhecimento da arte trobadoresca fez renascer a dignidade do

que inventava a canção, do trovador sobre o jogral, que só cantava

mercenariamente. A influencia do meio-dia da França resente-se no

subjectivismo exagerado das canções de D. Diniz, em contradicção com as

suas aventuras amorosas. O gosto elevado que o monarcha mantinha pelo

lyrismo provençal foi causa da extraordinaria actividade poetica da sua

côrte, que se tornou o centro de concorrencia dos jograes e trovadores

da Galliza, de Leão, de Castella e de Aragão, aos quaes distinguia com

grande liberalidade. Até os seus dois bastardos D. Affonso Sanches e D.

Pedro figuram entre os trovadores.

Modificou-se o gosto poetico, oppondo aos typos _limosinos_ os varios

generos gallezianos, como _dizeres_, _serranas_ e _cantares de amigo_,

de uma belleza inimitavel. O motivo d’esta corrente era devido ao

encontro dos jograes gallegos, mas principalmente á concorrencia dos

jograes da Catalunha, Aragão, Leão e Castella, que inconscientemente

faziam renascer as fórmas tradicionaes do lyrismo peninsular, hoje

definidas pelo phenomeno da irradiação poetica da Aquitania. Ao fallar

d’esta corrente galleziana, escreveu o Marquez de Santillana: «d’estas

resçevimos los nombres del arte, asi como _maestria mayor_ e _menor_,

_encadenados_, _lexapren_ e _mansobre_.» No Cancioneiro de Baena, em

que ha uma forte influencia gallega, se lê: «Sin _doble-mansobre_,

sensillo ó _menor_.»

Nas luctas de D. Affonso II com suas irmãs, e nas de D. Affonso III com

a aristocracia, muitos fidalgos portuguezes refugiaram-se na Galliza,

explicando-se por esta circumstancia esse esplendor poetico da Galliza,

quando ella já não tinha autonomia politica nem acção historica. A

imitação do trovar gallego, tanto em Portugal como em Castella no tempo

de Affonso o Sabio, indica que a Galliza se tornaria uma Provença

peninsular se a posse d’esse estado não fosse duramente disputada

pelos diversos reinos unificados da Hespanha. A Galliza perdeu a

sua autonomia com a constituição das novas monarchias; e a lingua,

tornando-se uma especie de dialecto occitanico para a peninsula, decaíu

por falta de vitalidade nacional. O grande vigor poetico d’este povo

tornou a reflectir-se em Portugal e Castella no fim do seculo XIV e XV,

com Villasandino, Rodrigues del Padron e Vasco Pires de Camões.

Com a morte do rei D. Diniz, o centro da actividade poetica

deslocou-se para Castella, agrupando-se os trovadores das outras

côrtes peninsulares junto de Affonso XI, que tambem era trovador. Os

cavalleiros portuguezes continuaram a frequentar a côrte poetica de

Affonso XI, e são admiravelmente bellas as _Barcarolas_ compostas

por occasião da batalha do Salado, em que elles tão generosamente

figuraram. D. Affonso IV detestava seus irmãos bastardos, e parece

não ter protegido a cultura trobadoresca, estimando mais as fórmas

da Novella em prosa; por este despeito o Conde D. Pedro deixou em

testamento o seu _Livro das Cantigas_ a Affonso XI.

A poesia trobadoresca portugueza-galleziana parecia cahir outra vez no

automatismo popular, mas um facto politico, a tendencia separatista,

suscitou um novo fervor litterario como manifestação do seu

individualismo; brilham Macias, Rodrigues del Padron e Villasandino,

e os documentos d’esta lucta da eschola galleziana contra a imitação

do gosto italiano enchem o Cancioneiro de Baena, e explicam-nos a

natureza do conflicto que se repetiu no seculo XVI, quando Castillejos

se oppunha á invasão do lyrismo italiano propagado por Garcilasso e

Boscan. Em Hespanha a influencia petrarchista prevaleceu pela acção

da eschola sevilhana; em Portugal desconheceu-se essa influencia.

Muitas cidades da Galliza tendo abraçado o partido de D. Fernando

contra Henrique II de Castella, na esperança de alcançarem a antiga

independencia, ao perderem a causa varios fidalgos gallegos tiveram

de refugiar-se em Portugal. O principal d’entre esses emigrados

politicos era Vasco Pires de Camões, terceiro avô do grande épico

portuguez; perdeu-se uma boa parte das composições poeticas

anteriores ao Infante D. Pedro, como o confessa Resende no prologo

do _Cancioneiro geral_. O nome de Macias tornou-se em Portugal

synonimo de apaixonado; conservaram-se com grande vitalidade as fórmas

trobadorescas gallezianas, (em Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam

Falcão e Camões), e não será indifferente indicar que são descendentes

d’esses fidalgos emigrados da Galliza alguns dos nossos principaes

poetas quinhentistas.

=_Novellas de Cavalleria:--O Amadis de Gaula._=--Quando as Canções de

Gesta iam recebendo a fórma litteraria, decahia ao mesmo tempo a

organisação da sociedade feudal, e a lucta dos grandes vassallos contra

a realeza terminava pela impotencia diante de um elemento poderoso pelo

seu numero, o proletariado. A Gesta já não podia ser mais do que a

expressão de saudade pelo que acabava; e essa aspiração do passado era

um ideal, a Cavalleria, em que a individualidade do heroe faz lei á sua

vontade motivada por impetos de justiça. Porém, as virtudes do

cavalleiro tornaram-se _quixotescas_, desde que disciplinada a força no

exercito permanente, e convertida a justiça em ministerio publico, o

heróe comprimido entre as communas e a realeza, estava egualado no

mesmo codigo. A litteratura reflectiu esta instabilidade; a Gesta não

tendo que idealisar, decahiu na prosa e achou um novo interesse na

aventura amorosa da Novella. Segundo Victor Le Clerc e Léon Gautier,

nenhuma Canção de Gesta apparece reduzida á prosa antes do seculo XV; é

em Portugal que se inicia essa transformação na côrte de D. Diniz. A

politica do reinado de D. Diniz e a situação de Portugal explicam-nos o

phenomeno. Com a conquista do Algarve sob D. Affonso III acabaram as

expedições militares contra os sarracenos, e por tanto a intervenção do

poder senhorial. D. Diniz tirou as consequencias do facto, fazendo

renascer o direito romano na restauração dos direitos magestaticos

segundo o Digesto, e submettendo a Nobreza ao _fôro de el-rei_, pelo

estabelecimento do cadastro dos _Livros de Linhagens_. Á situação

subalterna da nobreza corresponde a maior intensidade dos divertimentos

palacianos, no lyrismo dos Cancioneiros trobadorescos, e na paixão com

que se liam as Novellas amorosas, como as de _Tristão e Brancaflor_.

Entre essas novellas figura uma mais ou menos rudimentar de um typo da

absoluta fidelidade no amor, o _Amadis_; era celebrado em França no

poema de _Amadas et Ydoine_, na Inglaterra no _Sir Amadace_, na

Hollanda, Italia e Hespanha citava-se a _Chacone de Amadis_. Vê-se por

tanto que a invenção d’este argumento novellesco não pertence a

Portugal, mas em Portugal é que recebeu a fórma em prosa litteraria

definitiva. No texto castelhano do _Amadis de Gaula_ ainda se conserva

uma canção, que se acha assignada por João Lobeira no _Cancioneiro

Colocci-Brancuti_, como vestigio da primitiva redacção portugueza.

D. Affonso IV, quando princepe e em dissidencia com seu pae, proferiu

ao subjectivismo trobadoresco as narrativas das Novellas amorosas;

este facto determinou uma nova redacção no _Amadis de Gaula_:

no capitulo 40 do livro I, do actual texto castelhano, conservou-se

a sigla da emenda mandada fazer por este princepe na estructura da

Novella em relação ao episodio de Briolanja. Esta sigla no texto

castelhano de Montalbo manifesta uma primitiva redacção; e pelo retoque

imposto pelo princepe se estabelece a relação da Novella em prosa

para com um texto poetico d’onde saíu e ao qual em outros poemas da

Edade media ha numerosas referencias. Varios poetas castelhanos do

Cancioneiro de Baena referem-se aos _trez livros_ do _Amadis de

Gaula_; a existencia do _quarto livro_, que não foi escripto

por Montalbo, é que pertencerá a Vasco de Lobeira, do tempo do rei D.

Fernando, como o affirma Azurara, attribuindo a esse tempo a redacção

da novella. Na nobreza de Portugal eram frequentes no seculo XIV os

nomes de _Oriana_ e de _Idana_ (do francez _Ydoine_), o que revela

a influencia profunda da Novella antes da sua vulgarisação pela

paraphrase castelhana.

Talvez em nenhum outro povo a imitação da Cavalleria, ou propriamente

o _Quixotismo_, penetrasse mais nos costumes do que em Portugal, onde

o nosso typo comico contraposto ao _Ratinho_ é o do _Fidalgo pobre_.

Davam-se no principio do seculo XV duas fortes correntes antagonicas na

civilisação portuguesa: a burguezia tendia á preponderancia politica

pelas magistraturas e pelas descobertas maritimas; a nobreza imitava

acintosamente os feitos de armas segundo a Cavalleria, que tinha

passado. Partiam as caravellas para as expedições das costas da Africa

e Ilhas oceanicas, e ao mesmo tempo os Paladins sahiam em desaggravo

das damas, como os Doze de Inglaterra, e os cavalleiros Gonçalo

Ribeiro, Vasco Annes e Fernão Martins de Santarem que foram correr

aventuras por Hespanha e França. As cerimonias da vida cavalheiresca

caracterisam as práticas da côrte de D. João I e de D. Duarte, e

simultaneamente domina a predilecção litteraria pelas Novellas. Para

a lingua portugueza se traduziu e paraphraseou a _Demanda do Santo

Graal_; lia-se o _Galaaz_, a ponto do Condestavel o tomar por modelo;

e na sua opulenta livraria o rei D. Duarte guardava o _Tristão_ e a

_Historia de Troia_. O _Amadis de Gaula_ exerceu certa influencia

no enthuziasmo de um renascimento tardio da cavalleria, por via

da traducção franceza. Fez-se uma vasta série de novellas em sua

continuação desde as _Sergas de Esplandian_ até _Leandro o Bello_. Mas

a corrente do renascimento erudito da Antiguidade, quando a egualdade

civil minava o feudalismo, desviava a actividade litteraria que punha

em novella um ideal ridicularisado. Montaigne fallando da sua educação

litteraria do mais exagerado classicismo, diz com entono que nem

sequer conhecia pelo titulo as principaes producções da Edade media:

«car des _Lancelot du Lac_, des _Amadis_, des _Huon de Bordeaux_, et

tel fatras de livres à quoy l’enfance s’amuse, je ne connessoys pas

seulement le nom, ny ne foys encores le corps; tant exacte estoit

ma discipline.»[204] E em outra passagem refere-se com mais desdem

ao _Amadis_: «Quant’aux _Amadis_, et telles sortes d’escripts, ils

n’ont pas eut le credit d’arrester seulement mon enfance.»[205] Dos

humanistas da Renascença e dos moralistas catholicos poderiamos extraír

condemnações analogas. O enthuziasmo das obras primas da civilisação

greco-romana envolveu em um desprezo mortal todas as tradições, poemas

e novellas da Edade media. No primeiro quartel do seculo XVI já o Dr.

João de Barros, nas _Antiguidades de Entre Douro e Minho_, fallando do

desprezo em que decahira o original portuguez do _Amadis de Gaula_, de

cuja redacção os hespanhóes se apoderaram, lamenta--que estas cousas se

sequem nas nossas mãos.--Era a consequencia do esplendor dos estudos

humanisticos, de que fomos corypheos no seculo XVI. A persistencia do

ideal cavalheiresco em Hespanha explica-se por uma mais numerosa e

opulenta aristocracia e por um intenso catholicismo que lhe tornára

antipathica a civilisação polytheica, e suspeitos de heresia os

humanistas.

=2.^o Periodo (Seculo XV):=

=_Os Poetas palacianos._=--Com o desenvolvimento da erudição

augmenta dia a dia a separação entre os escriptores e o povo. Com o

predominio da realeza que avança para a dictadura, a _côrte_

torna-se centro de todas as manifestações artisticas, reduzidas a

imitações banaes. Desde o reinado de D. Affonso IV até ao de D.

Duarte, dá-se uma grande mudez na poesia portugueza: duas poderosas

correntes disputavam a predilecção dos espiritos; era uma a do lyrismo

da eschola gallega, e a outra a das ficções do cyclo da Tavola Redonda

propagadas pelos aventureiros do bretão Du Guesclin, e tambem pelo

casamento de D. João I com uma filha do duque de Lencastre. Absorvidos

nos primeiros alvores da Renascença, e mais apaixonados da erudição

da antiguidade do que das tradições medievaes, estacámos na imitação

do que estava mais no gosto palaciano. Separados de Castella por

interesses dynasticos que visavam a unificação politica, ficámos,

depois da victoria de Aljubarrota, vacilantes entre o lyrismo

galleziano e as aventuras novellescas do genio celtico, ao passo que

os Castelhanos avançaram na poesia continuando a tradição provençal

reanimada com o platonismo da Italia e com as allegorias dantescas.

Ainda a tradição provençal pura procurou manter-se nos costumes, como

se vê pela fundação do Consistorio del Gay-saber, em Barcelona, em

1393; mas a nova transformação dantesca e petrarchista seguida pelos

poetas Jordi de Saint Jordi, André Fever, traductor da _Divina

Comedia_ em catalão, Ausias March, Rocaberti, como precursores de

Bocan e Garcilasso, determinou a superioridade do lyrismo hespanhol no

seculo XV.

Quando terminaram os odios politicos entre Portugal e Castella,

reconheceu-se que nos passára desapercebida a evolução operada

na poesia desde Micer Imperial até Juan de Mena. Começou pois a

influencia da poesia castelhana sob a regencia do Infante D. Pedro,

duque de Coimbra.

Antes porém do influxo de Juan de Mena, amigo pessoal do regente,

a tradição provençalesca avivára-se um pouco e indirectamente na

côrte portugueza, pelas relações com a côrte de Aragão motivadas

pelos casamentos do rei D. Duarte e infante D. Pedro com princezas

aragonezas. Na Livraria do rei D. Duarte, guardavam-se traducções

aragonezas da _Historia de Troya_ e de _Valerio Maximo_.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 23 / 27 段