Em Hespanha a imitação da poesia épica não encontrou a sympathia

com que foi assimilado o _dolce stil nuovo_, ou o lyrismo

italiano. Havia um laço commum da Sicilia tanto para a Italia como

para a Hespanha, era a _pastorella_, apta a receber a perfeição

individual do subjectivismo amoroso. A classe culta que seguia o

humanismo da Renascença despreza os romances populares e as Novellas

de cavalleria, fórmas organicas ou derivadas da epopêa; a elaboração

poetica dispendia-se em Eclogas, que se ampliavam em Pastoraes. Os

poetas de Hespanha desejavam uma epopêa séria, nacional, e com os olhos

fitos em Homero e Virgilio caíam no genero hybrido da epopêa academica;

querendo um heróe nacional, cegaram-se com o brilho das intrigas

politicas de Carlos V, e sobre este chefe da dictadura monarchica,

Zapata compõe o _Carlos famoso_, Urrea o _Carlos victorioso_,

e Samper a _Carolêa_. A corrente erudita chegou quasi a fazer

perder ao genio hespanhol o sentimento épico, que lhe fez pôr em

Romances as tradições heroicas que supplantaram os cyclos das Gestas e

poemas francezes.

Como todos os outros povos romanicos, Portugal tambem seguiu a

influencia italiana da Renascença; o reflexo d’esse brilhante periodo

litterario e artistico começou no tempo de D. João II, até se impôr á

admiração nos reinados de D. Manoel e D. João III. Correspondendo-se

directamente com Angelo Poliziano, D. João II não encobre a emulação

que tem por Lourenço de Medicis, ao qual procura imitar no grande

movimento philologico e artistico que prepara o seculo XVI. No

_Cancioneiro geral_, os dois pequenos poemas á morte de D. João

II e á tomada de Azamor, têm certas analogias com o genero a que os

italianos chamaram _poemetti_, que Lourenço de Medicis e Angelo

Poliziano iniciaram.

Na litteratura portugueza tambem se reconhecia a necessidade de

uma epopêa culta. Desde que começou a dominar o espirito classico,

conheceram-se desde logo os épicos antigos; Azurara cita frequentes

vezes Lucano, o creador da epopêa historica; o texto de Homero era

explicado na Universidade com pasmo dos estrangeiros. O syncretismo

erudito levava as imaginações para a mythificação etymologica dos nomes

de Luso e Lisboa ou Ulyssêa; o sentimento da realidade impellia-nos

para o facto das grandes navegações. Tinhamos descoberto o caminho

maritimo da India; João de Barros no Panegyrico recitado diante de D.

João III em 1533, sentia que se não ligasse á poesia épica o interesse

que provocavam as canções lyricas: «ás mezas dos princepes e grandes

senhores se cantavam antigamente em metro os feitos notaveis dos

grandes homens, d’onde primeiro nasceu a poesia heroica, e segundo

eu tenho ouvido ainda n’este tempo os Turcos em suas cantigas louvam

feitos de armas de seus Capitães, o que se fosse usado em Hespanha

e toda a Europa, se me eu não engano, mais proveito de tal musica

naceria, do que de saudosas cantigas e trovas namoradas.» Fallava

contra a preoccupação exclusiva dos lyricos petrarchistas e bembistas

de Hespanha e Portugal; elle queria a epopêa historica, chegando a

metrificar algumas outavas de fórma castelhana para amostra. No fim

da Oração recitada por André de Resende na Universidade de Lisboa

em 1534, vem um poemeto latino sobre a fundação de Lisboa, no qual

o antiquario eborense deixou em um hexametro a designação épica de

_Lusiadas_, segundo o patronimico heroico: «Inter _Lusiadas_

nisi amor revocasset amatae.» N’esse poemeto falla dos vastos

dominios de Portugal, cita a _Taprobana_ e muitos outros nomes

com colorido poetico. Os eruditos faziam sentir a necessidade de uma

epopêa nacional, mas séria e em contraposição á italiana, que era

phantasmagorica. Sá de Miranda fallando d’esses poemas recommenda: «A

estraños cuentos orejas seguras;» o que equivale ao rifão: A palavras

loucas, orelhas moucas. Camões contrapõe ao--_Orlando_, ainda

que fôra verdadeiro, e ao _Rogeiro vão_, a realidade dos factos

historicos, mas acceita da epopêa italiana a magnifica e incomparavel

_Outava rima_ esboçada por Boccacio e universalisada por Ariosto.

Os nossos poetas quinhentistas eram sugeridos pela realidade historica

para a idealisação épica; em uma Carta a Caminha, o Dr. Antonio

Ferreira incita-o, por 1554, para que se entregue ao labor de uma

epopêa nacional:

O Portuguez Imperio que assim toma

Senhorio por mar de toda a gente,

Tanto barbaro ensina, vence e doma,

Por que assi ficará tão baixamente

Sem Musas, sem sprito, que cantando

O vá do Tejo seu ao Oriente?

O vaticinio de Ferreira, desejando que o filho do princepe D. João

protegesse o futuro épico, foi realisado por Camões. Mas nem João de

Barros, nem Antonio Ferreira chegaram a vêr os _Lusiadas_; o

chronista expirou quando Camões chegou a Lisboa, e n’esse mesmo anno

Ferreira succumbia á _Peste grande_. Na gigante epopêa de Camões

apparecem os dois espiritos antagonicos, conciliados pela intuição

do seu genio esthetico: a mythologia, posta em moda pela Renascença,

e as lendas do Christianismo medieval cooperam na mesma estructura.

Qualquer d’estes preconceitos de eschola ou de crença era bastante

para lhe imprimir o sello da mediocridade, se as impressões directas

da viagem da India, e as saudades da Patria ditosa sua amada, o

não temperassem com a verdadeira emoção poetica. Assim através das

correntes contradictorias da erudição humanista, como bacharel latino,

e da crença catholica que se transformava no Jesuitismo, Camões teve o

dom de realisar nos _Lusiadas_ a epopêa nacional simultaneamente

europêa e moderna.

_c_) A COMEDIA E A TRAGEDIA CLASSICAS

A imitação do theatro classico na Renascença atacou a obra organica

da fundação do Theatro _nacional_, inaugurado por Gil Vicente

sobre modelos tradicionaes e populares. Já no seculo XV apparecem

citadas por Azurara varias tragedias de Seneca, que existiriam por

certo na Livraria de D. Affonso V. Em 1534 mestre André de Resende

citava as comedias de Menandro e as tragedias de Euripides pelos textos

gregos. Imitámos, porém, os modelos da antiguidade com os olhos fitos

na Italia, como aconteceu com as outras litteraturas romanicas. Nas

principaes côrtes da Europa, e nas Universidades, entregavam-se aos

divertimentos dramaticos; os cardeaes e grandes senhores pisavam os

palcos, como Bibiena, e o sacerdote Torres de Naharro abrilhantava

com as suas comedias lubricas as noites de Leão X. D. Manoel queria

hombrear com a pompa da côrte pontifical, e tambem celebra as festas

do paço com um Auto ou Farça; á maneira italiana tivemos muito cedo

o theatro particular nas casas nobres. Manoel Machado de Azevedo

quando deixou a côrte e regressou á sua quinta de Entre Homem e

Cavado, celebrou o nascimento de seu primeiro filho com divertimentos

dramaticos, para honrar os princepes que foram de Lisboa á festa do

baptisado. Por 1528 leu Jorge Ferreira de Vasconcellos nos serões do

paço a Comedia _Eufrosina_, antepondo a prosa ao verso, segundo o

gosto italiano. Reagia-se contra o theatro nacional ou medieval, como

se descobre pela rubrica da farça de _Inez Pereira_, em que Gil

Vicente reage contra os humanistas (homens de bom saber). Gil Vicente

não foi vencido, mas a corrente erudita continuou a lisongear um

publico restricto de eruditos, que desprezavam os Autos hieraticos.

Sá de Miranda que tinha iniciado o novo estylo italiano na poesia

lyrica, tambem ensaiou a mesma reforma na poesia dramatica; no prologo

da sua primeira comedia, representa a tradição da Arte classica

theatral contando as suas peregrinações desde a antiguidade hellenica

até ao seculo XVI, queixando-se de que os barbaros lhe tivessem

pervertido o nome de _Comedia_ em _Auto_, e a obrigassem

a deixar a prosa para fallar em verso. A allusão feria directamente

Gil Vicente, que pelo seu lado parece visal-o no Francisco filho do

_Clerigo da Beira_ (segundo Camillo, o conego Gonçalo Mendes

de Sá.) A feição italiana da Comedia é inferior á ingenuidade do

Auto medieval: n’este ha o typo popular, com as suas superstições,

locuções, costumes, interesses, emfim todo elle é um documento ethnico

e historico; na comedia imitada do italiano a acção nem mesmo se

passa em Portugal, é em Palermo, com costumes sensuaes de cortezãs,

com intrigas não comprehendidas, sem realidade. O cardeal D. Henrique

mandava representar as Comedias de Sá de Miranda; foram imitadas nos

divertimentos da Universidade, nos Collegios, e, quando prevaleceu o

humanismo jesuitico, volveu a fórma da comedia ao texto latino.

Nos divertimentos da vida escholar escreveu Antonio Ferreira as

comedias de _Cioso_ e _Bristo_ nos moldes italianos; entre os

cinceiraes de Coimbra nasceu a comedia _Eufrosina_, como declara

Jorge Ferreira de Vasconcellos; a comedia dos _Amphytriões_

escreveu-a Camões á imitação de Plauto, quando seguia o curso de

Artes. Os divertimentos dramaticos adquiriram um maior desenvolvimento

quando veiu para Coimbra o Collegio de Mestre André, ou o _Collegio

real_, de que os jesuitas se apoderaram.

A renascença da tragedia não foi devida á imitação directa dos

tragicos gregos, mas ao perstigio de um poeta da decadencia latina,

Seneca, imitado por Albertino Mussato, por Angelo Poliziano, Trissino,

Rucellai, Alamani, Cintio e Dolce. Em Portugal, já no seculo XV eram

conhecidas as tragedias de Seneca; mas na Universidade de Lisboa

nos principios do seculo XVI liam-se as tragedias de Sophocles e

de Euripides, e o Dr. Antonio Ferreira conhecedor da lingua grega,

ao escrever a tragedia _Castro_, seguiu os modelos gregos.

Antes de Ferreira, em 1555, Ayres Victoria imprimia uma traducção

do _Agamemnon_ de Sophocles. O merecimento da _Castro_ de

Ferreira não está sómente no lyrismo dos córos, accentua-se no senso

artistico com que soube fixar um assumpto _nacional_, sendo o

primeiro que na Europa iniciou a tragedia fundada sobre um facto

historico da civilisação moderna; por que a _Sophonisba_ de

Trissino representada em 1520, embora em lingua vulgar, não lhe derroga

a prioridade, por falta de nacionalismo. Ferreira morreu em 1569

deixando manuscripta a sua tragedia, que appareceu imitada na _Nise

lastimosa_ de Jeronymo Bermudez, em Madrid em 1577, assumpto que

desenvolveu na _Nise laureada_, em que se dramatisa a vingança

da que «depois de morta foi rainha.» Depois de Ferreira nunca mais

os poetas abandonaram o thema tragico de Ignez de Castro, ao qual

imprimiram a galanteria de capa e espada do seculo XVII, o imbroglio do

seculo XVIII, e mesmo o sentimentalismo romantico do nosso seculo. A

tragedia classica não progrediu; pela cultura humanista decaíu na fórma

allegorica das Tragicomedias dos jesuitas.

A Comedia popular, como Gil Vicente a creára continuou a ser apreciada

na côrte, como vêmos pela declaração de Luiz Vicente, dizendo que

Dom Sebastião se recreiava com os autos de seu pae na meninice.

E por que constituia eschola, o Auto foi atacado com prohibições

severas nos Indices Expurgatorios. No meio d’estas duas correntes

classica e medieval, Camões pela sua intuição de artista concilia os

dois espiritos; elle adopta a fórma popular do Auto para dramatisar

assumptos da mythologia e da tradição hellenica.

II. _Sympathia pela Edade media na Eschola da medida

velha._--Caracterisando a revolução occidental, Comte precisa-lhe os

aspectos essenciaes por onde ella se manifestou: «a transição moderna

abrangeu simultaneamente a _intelligencia_ e a _actividade_, mas

deixando de parte sempre o _sentimento_.»[174] E como a dissolução do

regimen catholico-feudal comprehendeu o systema das ideias dominantes

da synthese theologica que perderam a credulidade dos espiritos, e a

fórma da sociabilidade, cuja hierarchia aristocratica se quebrou com o

advento do proletariado, essa profunda crise, que constitue a historia

moderna, foi conjunctamente _social_ e _mental_. Nos jurisconsultos

vêem-se estes dois aspectos, quando pela erudição fazem reviver as

leis romanas em favor da dictadura monarchica; servem a mesma causa

os humanistas coadjuvando a emancipação _mental_ com a vulgarisação

dos philosophos gregos, cuja metaphysica oppõem á theologia catholica.

Póde-se bem explicar toda a Renascença dos fins do seculo XV a

principios do seculo XVII como uma profunda revolução _mental_; com a

Revolução de Inglaterra é que a grande crise europêa toma o intuito

_social_. N’esta instabilidade de critica e de acção não havia logar

para as emoções affectivas; queria-se subtileza para a argumentação e

audacia para o combate. O _sentimento_ fôra inevitavelmente abandonado,

tornando-se por isso mais violentos os conflictos; o que amar, quando

tudo era agitado e incerto? A poesia teve de inspirar-se na admiração

da antiguidade morta; alguns espiritos femininos foram com a forte

corrente da erudição, mas a mulher alheia ao perstigio classico, sentia

a saudade do passado, e, como diz Comte: «aspirava espontaneamente á

Edade media.» De animo submisso, era n’essa edade extincta que a alma

repousava na crença, que se exaltava na galanteria trobadoresca e na

generosidade da cavalleria; a mulher mantinha o _sentimento_ da Edade

media. Foi sobre essa tendencia que se estribaram sempre todas as

reacções catholicas. Quando as Litteraturas romanicas caíam na imitação

fria das obras primas greco-romanas, foi a predilecção feminina pela

poesia dos Cancioneiros e pelas Novellas cavalheirescas, que fortificou

a reacção contra o gosto e auctoridade dos eruditos.

_a_) OS POETAS DA MEDIDA VELHA

Na _Arte de Galanteria_ notou D. Francisco de Portugal, que as

damas não sympathisavam com os versos endecasyllabos por serem longos

e não exprimirem conceitos tão delicados como as redondilhas. E Camões

em uma das suas Cartas falla das damas que mostravam frieza ouvindo um

pensamento de Petrarcha. Evidentemente o lyrismo italiano encontrou

certa antipathia, que foi explorada em Portugal e Hespanha pelos poetas

que continuaram com intuito de reacção a metrificar no verso octonario.

Esta persistencia nada mais é do que o prolongamento da influencia

da poesia castelhana, que desde as relações do Infante D. Pedro com

João de Mena, se exercera nas côrtes de D. Affonso V, D. João II e D.

Manoel. Ideia e fórma são imitadas dos versos de João de Mena, Jorge

Manrique, Stuniga, como era moda nas côrtes de D. Juan II e Enrique IV.

Os casamentos com princezas de Castella tornaram a lingua castelhana

usual na côrte portugueza, n’ella escrevendo os seus motes, voltas

e coplas. No _Cancioneiro geral_, de Garcia de Resende, vinte

nove poetas palacianos escrevem em castelhano, facto já observado por

Pidal; Jorge Ferreira chegou a queixar-se do despotismo que as trovas

castelhanas exerciam no nosso ouvido, e Damião de Góes tambem consigna

o facto da grande importancia que tinham na côrte os _chocarreiros

de Castella_. Era este lyrismo a ultima transformação do gosto ou

estylo trobadoresco, e como um producto archaico, os fidalgos e os

princepes são os que sobresáem como poetas, nos serões do paço. Foram

poetas o rei D. Duarte, o Infante D. Pedro, seu filho o Condestavel

de Portugal, e D. Philippa; mesmo o terrivel D. João II considerava o

talento poetico _uma excellente manha_, e animava a habilidade

poetica de Garcia de Resende. Tambem o infante D. Luiz era poeta, e

de seu irmão o infante D. Duarte escrevia André de Resende: «Fazia

trovas sentenciosas, e guardava todas as leis e arte de bem trovar.»

A musica, tão cultivada pela aristocracia, como vêmos em D. João de

Menezes, Sá de Miranda, Manoel Machado de Azevedo e outros, coadjuvava

a sympathia pelos versos curtos de redondilha menor e maior, emquanto

que os endecasyllabos só podiam ser recitados. A persistencia da

_medida velha_ manifestava-se pela paixão dos colleccionadores de

Cancioneiros; d’este costume falla Jorge Ferreira de Vasconcellos, na

comedia _Ulyssipo_: «Fazem por si mundo em segredo, vivem como

morcegos, _tem Cancioneiro de boa letra e má nota_ e mostram-no

em particular a quantos lh’o querem ouvir.» (Fl. 213, V.) De varios

d’estes Cancioneiros formou Garcia de Resende o _Cancioneiro

geral_, publicado em 1516, á imitação do _Cancionero general_

de Hernando del Castillo, começado em 1491 e impresso em 1511. Em

1514 fôra Resende a Roma como secretario da embaixada a Leão X, e por

tanto não fez mais do que confiar ao prelo sem ordem os materiaes que

lhe entregaram, por entender que a poesia: «nas côrtes dos grandes

prinçepes he muy neçessaria na jentileza, amores, justas e mômos,

e tambem para os que máos trajos e envenções fazem, per trovas sam

castigados, e lhe dam suas emendas...» Na _Aulegraphia_ revela

Jorge Ferreira o antagonismo das duas poeticas: «hey muito grande dó de

uns juizes poldros, e tão curtos da vista, que acceitam toda novidade

sem pezo, a olhos, e assi me parece de vós, senhor, que por andar com

som do moderno sereis todo um Soneto, e condemnaes logo o outro verso,

sem mais respeito nem consideração.» (Fl. 165, v.) E D. Francisco de

Portugal, na _Arte de Galanteria_, tambem allude ao antagonismo

das duas poeticas: «las otras modas de versos hizieranse para leydos, e

estos para sentidos...» E explica claramente a influencia hespanhola em

Portugal: «las coplas castellanas son las mas proprias para palacio...»

Os versos de redondilha deram expressão ás mais sentidas emoções

amorosas, como no _Crisfal_ de Christovam Falcão e nas _Eclogas_ de

Bernardim Ribeiro. N’este genero de redondilha chegou Gil Vicente a

renovar os typos tradicionaes das serranilhas, e Camões na galanteria

do paço tornou-se inimitavel na graça com que reanimou toda a poetica

dos velhos cancioneiros. O proprio inaugurador da poetica italiana

era admirado e imitado no seculo XVII mais pelas suas bellas Eclogas

e Cartas em redondilhas. As duas escholas, como notou Sá de Miranda

estabelecendo a relação entre os provençaes e os italianos, não eram

incompativeis, provinham da mesma origem.

_b_) ROMANCES E NOVELLAS DE CAVALLERIA

A instabilidade social na grande transição para a edade moderna,

fez com que a creação épica dos Romanceiros da peninsula hispanica

estacionasse em simples rudimentos narrativos. Facilmente foram

dissolvidos na prosa das chronicas, como testemunhos historicos, e no

seculo XV consideravam-se _infimos e despreziveis_ os que com

_romances_ se recreavam. Esses infimos constituiam o proletariado,

incorporado na sociedade moderna, e por isso não admira que os Romances

começassem a ser colligidos no seculo XV em folhas volantes, máo grado

o desdem dos cultistas litterarios e admiradores da antiguidade.

Explorando esta corrente de sympathia popular, a fórma de Romance foi

adoptada pelos escriptores cultos para n’ella metrificarem a prosa

das chronicas nacionaes. Puzeram em romance a historia de Hespanha,

Sepulveda, Juan de la Cueva e Lasso de la Vega; o mesmo trabalho se

effectuou em Portugal, quando Gil Vicente, Jorge Ferreira, Balthazar

Dias transformaram o romance anonymo, que se tornou subjectivo e um

pretexto para a composição musical.

A lingua castelhana usada como expressão aristocratica na côrte

portugueza, era empregada de preferencia nos romances. André de

Resende, na _Vida do Infante D. Duarte_, conta: «Veiu ter a esta

cidade de Lisboa um mancebo castelhano chamado Ortiz, que graciosamente

tangia e cantava chistes; filhou-o o Infante, e folgava de o ouvir.»

(Cap. 11.) Tambem Jorge Ferreira allude aos romances póstos em musica:

«Eu não vos nego que sabeis muito bem harpar um _Conde Claros_,

que elles logo dizem que não ha tal musica.» O gosto feminino,

suscitado pela musica tambem provocava a fórma litteraria dada ao

romance, como o affirma Diego de San Pedro na _Carcel de Amor_,

fallando das excellencias da mulher: «Por quien se cantan los lindos

romances.» Os romances foram glosados, desenvolvendo-se lyricamente; na

comedia _Eufrosina_, allude Jorge Ferreira a este gosto dominante:

«Bem estaveis agora para glosar _Recuerde el alma dormida_, etc.»

E na comedia _Ulyssipo_: «Este meio é de uns porretas que grosam

_Retrahida está a Infante_, e _Para que pariste, madre?_» É

frequentissimo o encontrar-se em todos os escriptores quinhentistas

referencias aos romances populares que mais espalhados andavam na

tradição, e com especialidade nos poetas dramaticos, que pintavam os

costumes vulgares. O romance decaíu da sua importancia épica para as

fórmas allegoricas e subjectivas do lyrismo culteranista; e quando

conservou a expressão objectiva foi para representar as aventuras

de salteadores e contrabandistas nos romances de _guapos_ e

_temerones_, ou as Xácaras.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 18 / 27 段