Um outro humanista, que citava Gil Vicente como auctoridade

philologica, o grammatico Fernão de Oliveira, tambem seguiu as

ideias da Reforma, porém na phase mais adiantada da transformação

da disciplina. Os estudos criticos dos exemplares da litteratura

antiga abriam aos eruditos do seculo XVI um horisonte mais vasto do

que a rotina das escholas monachaes com a sua _Arte velha_ de

Pastrana ou de Alexandre Villa Dei. Os habitos da exploração dos textos

desenvolvia o espirito de livre-exame; a intelligencia avesada a

interpretar palimpsestos, a restituir a lição dos auctores classicos,

a restabelecer os textos truncados, a compenetrar-se do sentimento da

antiguidade, não podia abnegar da sua supremacia, e applicára o mesmo

processo á Biblia e aos Evangelhos. Foram os humanistas e os philologos

que mais concorreram para a obra da Reforma; por isso os Jesuitas,

reagindo contra o Protestantismo, tornaram-se essencialmente pedagogos

apoderando-se do humanismo. Em Portugal vieram contraminar a obra do

renascimento litterario superiormente dirigida por André de Gouvêa e

por Diogo de Teive. Antes de ter cahido na illaqueação jesuitica, D.

João III tentára attrahir para a reforma da Universidade de Coimbra a

Erasmo. Damião de Góes é o que representa em Portugal a corrente da

Reforma, não pela manifestação das ideias, por que elle confessa-se

sempre orthodoxo, mas pelo seu martyrio, por ser amigo pessoal de

Erasmo, por ter tratado com Luthero, quando esteve na Allemanha, e com

Melanchton. Em uma confissão no Santo Officio declara: «Depois que vim

a Portugal ... El Rei ... e os Infantes seus irmãos, e outros senhores

do reino, me perguntaram com muito gosto e mui particularmente pelo

discurso de minhas peregrinações, fallando-me em Luthero e nas cousas

da Allemanha ... e por El Rei saber que vira eu já Erasmo Rotherodamo

e que eramos amigos, me perguntou algumas vezes se o poderia eu fazer

vir a este regno pera se d’elle servir em Coimbra.» Por intervenção de

André de Resende é que viera tambem para Portugal o celebre humanista

Nicoláo Clenardo.

Uma certa sympathia pessoal e litteraria existia entre Damião de Góes e

Gil Vicente; fallando em humanidades com Erasmo _inter pocula_,

teve occasião de lhe inspirar curiosidade pela obra dramatica de Gil

Vicente, que elle vira representar na sua mocidade na côrte de D.

Manoel. Na relação das festas feitas em Bruxellas pelo embaixador D.

Pedro de Mascarenhas pelo nascimento do princepe D. Manoel, em 1532,

vem o nome de Damião de Góes como um dos que assistiu á representação

do _Auto da Lusitania_, escripto n’esse anno por Gil Vicente, e

repetido n’aquella côrte.

Uma das grandes influencias da Reforma, que a ligam ao movimento do

humanismo da Renascença foi a summa importancia que se deu ao estudo

do hebreu e do grego; as polemicas religiosas, as traducções da

Biblia em vulgar, a leitura dos padres da egreja para a controversia,

exigiam conhecimentos d’essas duas linguas, que estimulavam o criterio

philologico. Melanchton recommendava aos seus discipulos Homero e S.

Paulo; é tambem um sectario da Reforma, Fernão de Oliveira, que em 1537

publica a primeira _Grammatica portugueza_, plagiada por João de

Barros para auxiliar a catechese de uns princepes indianos que vieram a

Portugal. André de Resende recommendava aos alumnos da Universidade de

Lisboa a alliança do grego com o latim; na reforma da Universidade em

1547, vieram de Paris para mestres de grego o Dr. Fabricio e Buchanan,

para hebraico Rosetto. Pouco depois tiveram de fugir de Portugal, ao

terror inquisitorial que os perseguia pela mão occulta dos jesuitas,

para se apoderar da disciplina humanista. Em Jorge Ferreira de

Vasconcellos, Dr. Antonio Ferreira, Sá de Miranda e Garcia de Resende,

acham-se referencias ao nome de Luthero, e á injuria terrivel da

accusação de lutherano. Na epopêa de Camões, em que está implicito todo

o espirito da Renascença, ha uma nota de aversão contra o movimento da

Reforma:

Vêdel-os _Allemães_, soberbo gado

Que por tão largos campos se apascenta,

Do successor de Pedro rebelado,

Novo pastor e nova seita inventa...

Vêdel-o duro _Inglez_..........

Entre as boraes neves se recreia,

Nova maneira faz de Christandade...

Pois de ti, _Gallo_ indigno, que direi?

Que o nome christianissimo quizeste,

Não para defendel-o, nem guardal-o,

Mas para ser contra elle e derrubal-o.

Pois que direi d’aquelles, que em delicias

Que o vil ocio no mundo traz comsigo,

Gastam as vidas, logram as divicias

Esquecidos do seu valor antigo?...

Comtigo _Italia_ fallo, já submersa

Em vicios mil, e de ti mesmo adversa.

(_Lus._, VII, 4, 5, 6, 8.)

Camões sentia aqui a solidariedade d’estes elementos da Republica

occidental, que quebravam a sua unidade catholica; mas as reacções

provocadas pelo Concilio de Trento para restabelecel-a, levaram á

depressão intellectual suscitando a fórma _social_ da revolução

moderna, desde a monstruosa revogação do Edito de Nantes. Já quando

em 24 de Agosto de 1572 chegou a Portugal a noticia da matança da

noite de Saint-Barthelemy, celebrou-se esse crime da religião com

repiques de sinos e luminarias, e um Te-Deum cantado na egreja de S.

Domingos, com sermão do mystico Frei Luiz de Granada. Já nos estudos

imperava o espirito que ditára a D. João III, que os estudantes da

Universidade fossem «_mais catholicos e menos latinos_.» Pelo

sacrificio á unidade catholica, em 1580, a aristocracia e o povo

portuguez sacrificaram a propria nacionalidade. Nos paizes catholicos

os Jesuitas mataram o Humanismo pelos seus cursos de Artes, e preparam

essas gerações que na litteratura desconheceram o sentimento preferindo

á verdade natural o conceito affectado e a figura de rhetorica.

O duplo elemento classico e medieval das Litteraturas romanicas,

manifesta-se pela influencia que na portugueza exerceram as

litteraturas italiana e castelhana.

I. _Antagonismo dos dois elementos classico e medieval._--Em

todas as manifestações estheticas do genio moderno, na architectura

e na pintura, na poesia como na arte ornamental, appresenta sempre a

Renascença uma duplicidade nos meios da expressão do bello: umas vezes

o artista conserva-se alheio ao movimento da Renascença idealisando a

vida medieval (Gil Vicente), outras vezes desprezando tudo quanto possa

recordar o obscurantismo d’essa edade (Dr. Antonio Ferreira e Sá de

Miranda) e tambem fazendo o syncretismo dos dois espiritos, como vêmos

em Camões confundindo nos _Lusiadas_ as divindades do polytheismo

como symbolos poeticos da indole dos symbolos christãos.

Van Bemmel, no seu livro _De la Langue et de la Poésie provençales_,

caracterisa essa duplicidade das Litteraturas da Edade media:

«A actividade intellectual, na Edade media, formava dois mundos

inteiramente differentes, tendo cada um seu povo, sua lingua e sua

litteratura. De um lado era o elemento novo, espontaneo, essencialmente

popular, cheio de vida e de futuro; do outro, o elemento conservador,

não tendo mais do que uma existencia facticia, fóra do movimento

social, inabalavel e sempre o mesmo ao lado da marcha rapida das

ideias. De um lado estava a poesia e a lingua que se chamava vulgar ou

romana, espalhadas entre o povo; do outro lado a sciencia e as linguas

latina e grega, habitando os claustros, as escholas e as Universidades.

E por longo tempo estas duas sociedades tão dissimilhantes viveram uma

ao lado da outra, sem se conhecerem, sem se verem.» (p. 6.)

Basta observar o antagonismo entre a civilisação e o poder imperial

de Roma, e as raças barbaras da Europa, que vieram a prevalecer

na reorganisação social moderna depois das invasões das tribus

barbaras da Germania, para se notar que estes dois elementos não

podendo unificar-se tinham de alternar-se na sua influencia. Entre a

civilisação da Antiguidade classica e o mundo medieval, apparece a

religião universalista do Christianismo; no periodo proselytico da

sua constituição e da lucta apoiou-se a nova religião nas classes

servas, na plebe, adaptando-se ao elemento popular; quando ligada

ao poder politico se fortificou pela hierarchia, ou Egreja, a nova

religião tentou apoderar-se da missão da unidade de Roma, e tornar-se

cultora e depositaria da litteratura latina. O antagonismo entre o

_clericus_ e o _laicus_ reflecte-se em toda a vida mental

da Edade media. Escreve Gaston Paris, sobre este antagonismo: «A

Egreja conservou officialmente a lingua do imperio romano, ao qual

se tinha associado intimamente com Constantino; em quanto, na época

das suas luctas ella tinha favorecido o desenvolvimento da lingua e

da poesia populares, a partir do periodo barbaro, procurou conservar

a unidade romana, sequer pelo menos na ordem espiritual, acima de

todas as variantes nacionaes. A tentativa de renascença feita por

Carlos Magno apoiou-se então essencialmente na Egreja, e desde ahi

até aos tempos modernos, a lingua da Egreja foi a da sciencia e a da

litteratura elevada. Este estado de cousas creou entre o _clerigo_

e o _leigo_ uma separação profunda que domina toda a historia das

litteraturas da Edade media. A poesia popular desenvolveu-se com uma

grande espontaneidade e uma liberdade completa; mas ficou privada, pela

abstenção dos espiritos superiores e mais cultivados, da perfeição da

fórma e da seriedade de fundo, que sem duvida com o seu concurso teria

podido attingir. Por outro lado, os _clercs_ fechados nas suas

fórmulas tradicionaes e herdeiros muito fieis, dispenderam durante

seculos esterilmente uma actividade intellectual consideravel.»[169]

«Na Renascença o _clericus_ e o erudito confundem-se em um mesmo

typo, o humanista, que detesta a rudeza medieval e só visa a attingir

a perfeição da fórma pela imitação da belleza classica. Póde-se

seguir esta predilecção exclusiva através de todas as fórmas geraes

da Arte. Na Architectura, á efflorescencia gotica, desenvolvida pelos

sentimentos da sociedade catholico-feudal, oppõe-se a reproducção das

ordens gregas, propagando esse estylo Bramante, Raphael, Peruzzi,

Geminiano de San Gallo. O estylo classico foi propagado em Portugal

por Sansovino, de Florença. O conflicto entre os dois estylos, deu

logar a uma manifestação architectonica encantadora o gotico florido,

chamado _manoelino_, no qual como nos generos que o antecederam

existe, como observou o artista Roquemont alguma cousa de privativo,

que pertence unicamente a Portugal.»[170] No _Auto da Ave Maria_,

de Antonio Prestes, escripto por 1529, esboça-se a lucta do estylo

classico e do gotico:

MESTRE: E a que vem a esta terra?

DIABO: Mostrar mi saber, mis manos;

suena allá _que Luzitanos_

_su gusto aora se encierra_

_en edificios romanos_.

CAVALL: Eu sou dos que estão postos

n’esse gosto;

que não vi melhor composto,

hei-o por gosto dos gostos,

jamais lhe virarei rosto.

As doutrinas estheticas de Bastiano de Sangallo (1481-1551) tambem

apparecem citadas n’este Auto do Prestes: «el gran Sebastiano--fué la

tinta, yo la pluma...» A corrente classica foi sustentada em Portugal

por Francisco de Hollanda, que viajou pela Italia e se educou em Roma,

vivendo na intimidade dos grandes artistas da Renascença.

Na Pintura reflecte-se o mesmo antagonismo; o chamado estylo gotico

ou propriamente a influencia flamenga e allemã, representada em Gram

Vasco, é substituida pelo gosto italiano, revolução determinada pelo

sabio Raczynski na época de D. João III, entre 1530 e 1550, sendo os

principaes renovadores Gaspar Dias, Fernando Gomes, Manoel Campello

e Francisco Vanegas. Na Esculptura e Ourivesaria, o erudito Garcia

de Resende, na _Miscellanea_, mostra um grande desprezo pelos

artistas nacionaes, talvez mesmo com intenção de ferir o auctor da

_Custodia de Belem_, dando a palma aos italianos:

_Ourivisis e Escultores_

São mais sotis e melhores.

A mesma preoccupação erudita fazia com que se não estudassem as

chamadas leis do reino na Universidade, e todo o ensino incidisse

exclusivamente no Direito romano. E como os Poetas eram geralmente

jurisconsultos, como Sá de Miranda, Ferreira, Gabriel Pereira de

Castro, André Falcão de Resende, Mousinho de Quevedo, era natural

tenderem para a imitação da poesia classica, Gil Vicente, eminentemente

nacional, satyrisa esta corrente juridica:

vereys com quanta graveza

busca leys de gentileza

no lindo estylo romano.

(_Canc. ger._)

É nas fórmas da Poesia que mais nos interessa observar esta corrente do

classicismo pela imitação da litteratura italiana.

O genio sensual da Renascença fizera do estudo litterario um passatempo

epicurista; o culto dos exemplares gregos era objecto de um fanatismo

e de vaidade pessoal; os Cardeaes entregavam-se a este culto de

predilecção, a ponto de resarem odes gregas em vez dos canones da

missa, como fazia o cardeal Bembo, ou de representarem comedias

classicas como o cardeal Bibiena. Á imitação da academia alexandrina,

os eruditos italianos, com o vinculo do mesmo amor pela Antiguidade,

reuniam-se em palacios esplendidos, ora em jardins magnificos,

terminando regularmente as palestras litterarias com musicas e opiparos

banquetes. Este empenho da arte pela arte levou á fundação de innumeras

Academias italianas no seculo XVI, com os titulos heteroclitos

de _Intronati_, (1525) _Infiammati_, (1540) _Innominati_, (1549)

_Insensati_, (1560) _Animosi_, (1576) _Illuminati_, (1598) etc.

A influencia italiana estendeu-se a Portugal tambem em relação ao

estabelecimento de Academias. Na côrte de D. João III, a Infanta

D. Maria, a ultima filha do rei D. Manoel, fundou uma Academia de

mulheres, a que pertenceram Luiza Sigêa e Angela Sigêa, Joanna Vaz,

e Paula Vicente filha do fundador do theatro nacional. Era estylo

comparar as damas formosas e cultas á celebre Victoria Colonna. João

de Barros descreve a Infanta aproveitando o tempo que lhe restava das

suas resas em aprender latim. Nos versos feitos por André de Resende á

morte de Luiza Sigêa, vêmol-a retratada como uma assombrosa polyglota,

versada no latim, grego, hebraico, chaldeo, e correspondendo-se com

o Papa Paulo III, a quem dedicou o seu poema _Cintra_. No livro

das Moradias da Casa da Rainha D. Catherina, Anna Vaz apparece com

o ordenado de 6$000 réis com verba de _latinas_, provavelmente

mestra das outras damas. Falla dos seus conhecimentos de letras

humanas o Dr. João de Barros no _Espelho de Casados_. No citado

livro das Moradias, Paula Vicente, tambem auctora de uma grammatica

e collaboradora nos Autos de seu pae, apparece com o assentamento de

_tangedora_. D’entre a pleiada academica distinguia-se então D.

Leonor de Noronha, que traduzira do latim as _Eneadas_ de Marco

Antonio Sabellico. Vê-se como a moda da erudição abafava a natural

sympathia feminina pela Edade media.

_a_) O LYRISMO PETRARCHISTA

A influencia da poesia trobadoresca irradiou da Sicilia para a Italia

continental, empregando-se o dialecto toscano, fallado em Florença e

preferido para a linguagem escripta, para propagar as canções amorosas,

em que se manifestaram as mais delicadas e ideaes emoções dos _Fieis

do Amor_. Dante falla com encanto d’esse «_dolce stil nuovo_

ch’io odo,»[171] e no _De vulgare Eloquio_, diz que as composições

poeticas em linguagem vulgar se consideram de gosto _siciliano_.

D’esta corrente poetica nasceram as fórmas definitivas do lyrismo

moderno, levadas á perfeição por Petrarcha. Em Portugal foram

conhecidos os principaes trovadores chamados _sicilianos_,

Bonifazio Calvo, de Genova, e Sordello, de Mantua, mas a sua influencia

decahiu com a eschola provençalesca desde o tempo de D. Affonso IV.

A Hespanha começou a renovação do seu lyrismo desde Micer Francisco

Imperial e chegou ao esplendor da eschola de Sevilha; em Portugal essa

influencia manifesta só se determina depois da viagem de Sá de Miranda

á Italia em 1521, quando tambem se operava egual transformação do gosto

em Hespanha por Boscan, Cetina e Garcilasso. Sá de Miranda, que teve

uma clara comprehensão do _dolce stil nuovo_, conhecia-lhe a sua

origem litteraria, e mostra a relação entre os rudimentos poeticos dos

trovadores provençaes e o bello lyrismo italiano:

Entrando o tempo mais, entrou mais lume,

Suspirou-se melhor, veiu outra gente,

De que o _Petrarcha_ fez tão rico ordume:

Eu digo os _Proençaes_, que inda se sente

O som dos brandos versos que entoaram

As suas musas brandas, brandamente.[172]

Parece que tambem allude aqui ao gosto allegorico, que apparece

no Cancioneiro de Resende, recebido da communicação com o lyrismo

aragonez. Abrindo os livros das poesias de Sá de Miranda, de Bernardes,

de Camões, depara-se logo com dois estylos, no systema de metrificação

em octonarios e em endecasyllabos, e na galanteria palaciana differente

da expressão de emoções intimas subjectivas. Em um dos generos a

estrophe é a quintilha, a decima, as voltas e esparsas que se empregam;

no outro é a quadra, o terceto, a sextilha, a outava, com a variação

de hemistichios. Ha poetas que nunca metrificaram em endecasyllabos,

caracteristico do gosto italiano, como Christovam Falcão, e outros que

detestaram o gosto de Cancioneiro, ou castelhano de redondilha, como

o Dr. Antonio Ferreira. Houve effectivamente uma alteração do gosto

no lyrismo, e uma lucta de implantação, que se observa na historia

litteraria de Hespanha e de Portugal, deduzida das proprias composições

dos poetas.

A poesia castelhana ficára no mesmo estado em que a deixára João de

Mena, sendo estafada nos cancioneiros palacianos; por 1526, Andrea

Navagero, embaixador veneziano em Hespanha, fez sentir a Boscan o

atrazo d’essa poesia, revelando-lhe as bellezas do lyrismo italiano, do

_dolce stil nuovo_. Por este tempo viaja Sá de Miranda na Italia

(Roma, Veneza e Milão) e pelas suas relações litterarias com Ruscellai

e Lactancio Tolomei tomou conhecimento das composições dos grandes

lyricos italianos; logo no seu regresso a Portugal tentou implantar

o novo gosto. Seguiram-no D. Manoel de Portugal, Diogo Bernardes,

Pero de Andrade Caminha, o Dr. Antonio Ferreira, Francisco de Sá de

Menezes, Frei Agostinho da Cruz. Na ecloga _Aleixo_, referindo-se

á situação de Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda dá a entender que o

encantador bucolico tambem tentára o endecasyllabo italiano. A este

tempo Garcilasso alliára-se com Boscan contra Castillejos e os mais

poetas que sustentavam a preponderancia da poetica da _medida

velha_; Sá de Miranda tambem se queixa de uns _pontosos_,

que reprovavam a sua generosa tentativa. A lucta azedava-se de parte

a parte, por que não viam no lyrismo italiano mais do que o uso

dos versos grandes, sem comprehenderem a expressão do sentimento

philosophico do platonismo, que elevava esse lyrismo. Mas o resultado

das questões de eschola entre metreficadores de redondilhas ou de

endecasyllabos foi bom: leram-se os mais perfeitos modelos da excelsa

poesia italiana, e começou-se a dar preferencia á lingua nacional,

que d’antes era abandonada versejando-se em castelhano ou em latim.

Ferreira escrevia de si com orgulho: «Ah, Ferreira, dirão, da lingua

amigo.» Da mesma imitação italiana tira a auctoridade, referindo-se á

Hespanha e á _Pléiade_ franceza:

Garcilasso e Boscão, que graça e spritos

Destes á vossa lingua, que princeza

Parece, já de todas na arte e ditos!

E quem livrou assy a lingua franceza

Senão os seus _francezes_ curiosos,

Com diligencia de honra e amor acceza?

E vós, oh namorados e engenhosos

_Italianos_, quanto trabalhastes

Por serdes entre nós n’isto formosos!

Assi enriquecestes e apurastes

Vosso toscano, que será já tido

Por tal, qual para sempre vós deixastes.

Nas suas _Cartas_, Sá de Miranda descreve o prazer intimo com que

lia na quinta da Tapada, junto da fonte da Barroca, a _Arcadia_ de

Sanazzaro, o _Orlando_ de Ariosto, as odes e sonetos de Garcilasso

e de Boscan, e como ia passo a passo implantando o novo gosto. Em

Bernardes tambem apparecem citados os poetas italianos, que mais se

admiravam, em uma Carta ao Conde de Monsanto:

E o vosso sobre todos mais mimoso

Ahi conversareis mais de contino,

Digo o suave auctor do _Furioso_.

Torquato, que sugeito achou divino,

Para mostrar os seus altos conceitos,

Cantando _Godofredo_ e de Aladino.

Petrarcha e Sanazzaro, cujos peitos

O douto Apollo encheu de alta doutrina,

O Bembo e o Lasso, ao mesmo Apollo acceitos.

Veronica com Laura Terracina,

E aquella formosissima Vittoria

Que sobre o nosso sol o seu empina.

(_Carta_, XXXVIII.)

A edição que se fez em Lisboa das Obras de Garcilasso em 1543

revela-nos o triumpho indiscutivel do novo gosto lyrico. Sá de Miranda

tornou-se um chefe espiritual da nova geração de poetas que o saudavam

em bellas epistolas no seu retiro da quinta da Tapada, no alto Minho.

O lyrismo da eschola italiana já tão perfeito em Diogo Bernardes,

attingiu a sua maior belleza em Camões, que pelo poder do genio

harmonisou as duas escholas, escrevendo em ambos os generos, dando-lhes

a eterna belleza da realidade da paixão.

_b_) A EPOPEA CLASSICA

Aos grandes factos do mundo economico e politico, como a propagação

da Imprensa, a vulgarisação das obras litterarias e scientificas da

antiguidade classica, as descobertas maritimas de Colombo, Vasco

da Gama e Magalhães, a Reforma religiosa de Luthero, e a fórma da

dictadura temporal aspirando á Monarchia universal, corresponde na

litteratura do seculo XVI o esforço para a idealisação da Epopêa

historica nacional. Absorta diante da _Iliada_ e da _Eneida_,

irracionalmente equiparadas, a imaginação dos poetas acha-se sem

audacia para descobrir o thema da Epopêa nova, em harmonia com a

corrente positiva do maior seculo da historia; as tentativas infelizes

conhecem-se logo pelo assumpto, já consagrando os typos menos dignos

da dictadura monarchica, já retomando successos que dependiam da

credulidade, que estava extincta. A França absorvida no culto da

antiguidade classica chegou a desprezar e esquecer completamente as

Gestas heroicas dos seus paladinos do periodo feudal; e sendo ella a

creadora das modernas epopêas cyclicas, os seus criticos formularam a

deploravel phrase: _La France n’a pas la tête épique_.

O genio italiano acceitou a epopêa feudal como um elemento de

distracção, tornando-a compativel com a vida burgueza, com as

resalvas da ironia e das caprichosas digressões. A saudade das bellas

tradições da cavalleria que se iam perdendo, levou-o a reconstruil-a

poeticamente, encobrindo com uma graça faceta o contraste entre

a sociedade real na lucta dos interesses e as ingenuas aventuras

galantes. A Epopêa cavalheiresca como a renovaram Pulci, Berni,

Boiardo, Alamani, Trissino e Ariosto é um mixto de enthuziasmo

guerreiro em indoles pacificas, que se interrompem para sorrir

amigavelmente. A novella do _Amadis_, que recebera a fórma da

prosa em Portugal, entrou através da traducção franceza na elaboração

italiana, dando-lhe Bernardo Tasso a fórma poetica classica egual á que

receberam as Gestas francezas.

Apezar de se resuscitar na vida palaciana o symbolismo e práticas

da Cavalleria, no seculo XV, tudo isso estava fóra dos costumes, e

caía em um ridiculo quixotismo, como vêmos na côrte de D. João I,

em que cavalleiros e damas se baptisavam com os nomes dos heroes da

Tavola-Redonda. Em França, Francisco I tambem quiz galvanisar a morta

instituição da Cavalleria, facto que, segundo Rathery, despertou o

genio de Ariosto e de Tasso. É natural que a Edade media, quando se

extinguia como organisação social, lançasse os ultimos lampejos como

reminiscencia poetica. As outras Litteraturas romanicas foram apoz

as normas italianas da epopêa. Du Bellay suspirava por um assumpto

nacional; levanta-se Ronsard com a _Pléiade_, mas a imitação

grega e latina levada ao exagero não conseguiu mais do que o poema

morto da _Franciade_. Os poetas da _Pléiade_ eram discipulos

dos grandes eruditos da Renascença franceza Danès, Turnèbe e Domat,

e como taes detestavam a Edade media; Du Bellay chega a aconselhar

aos poetas: «folheae com mão nocturna e diurna os exemplares gregos e

latinos, e deixae-me todas essas velhas poesias francezas aos Jogos

Floraes de Tolosa, e ao Puy de Rouan, esses rondós, balladas, virelais,

cantos reaes, canções e outras taes confecções, que corrompem o gosto

da nossa lingua e não servem senão para prestar testemunho da nossa

ignorancia.»[173] É evidente o antagonismo entre as duas correntes do

gosto.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 17 / 27 段