As Novellas de Cavalleria é que resistiram mais no gosto publico

contra a corrente erudita que desdenhava de tudo quanto provinha da

Edade media. Aqui são em geral as mulheres, que se interessam pelas

narrativas novellescas. Em varios logares das suas comedias refere

Jorge Ferreira a grande importancia que tinham as novellas na sociedade

portugueza; diz na _Eufrosina_: «Ride-vos dos aphorismos de Hypocras,

nam das _Xergas de Esplandião_.» E na comedia _Ulyssipo_, alludindo

ás predilecções femininas: «Já se entram em saber latim ou musica,

nenhuma cura lhes sinto. E se são lidas por _Espelho de Cavalleria_, ou

_Carcel de Amor_, e _Conde Partinoples_, e não leixam udo nem meudo;

ride-vos vós de mais _Donzella Theodora_.» Os humanistas eram inimigos

encarniçados das Novellas medievaes; escreve o auctor do _Dialogo de

las Lenguas_: «Dez annos, os melhores da minha vida, gastei em palacios

e côrtes, não me empregando em exercicio mais virtuoso do que lêr estas

mentiras, em que achava tanto sabor, que me deixava levar por ellas;

e olhae que cousa é ter o gosto estragado, que se pegava em algum

livro escripto em latim, que são os de historias verdadeiras, ou que

pelo menos são tidos como taes, não podia resolver-me a acabal-os de

lêr.» E no livro _De institutionae Faeminae christianae_ o humanista

hespanhol João Luis Vives deblatera contra as Novellas, pedindo a

intervenção prohibitiva dos governos: «Deviam fazer o mesmo d’estes

outros livros vãos, que são: em Hespanha, o _Amadis_, _Florisandro_,

_Tirante_, _Tristão de Leonis_, _Celestina_, a alcoviteira, mãe da

malvadez; em França, _Lançarote do Lago_, _Páris e Viana_, _Ponto e

Sidonia_, _Pedro de Provença_, _Magalona e Melusina_; e em Flandres,

_Flores e Brancaflor_, _Leonela e Cananior_, _Curias e Floreta_,

_Pyramo e Tisbe_. Ha outros traduzidos do latim em vulgar, como são as

infacetissimas _Facecias_ e _Graças_ desgraçadas de Poggio, e as _Cem

Novellas_ de João Boccacio, livros todos elles escriptos por homens

ociosos e desoccupados, sem letras, cheios de vicios e sordidez, nos

quaes eu me maravilho como se póde achar cousa que dê deleite, a não

ser que os nossos vicios nos tragan tanto al retortero;... eu por

mim digo na verdade, que nunca vi, nem ouvi dizer que lhe agradavam

obras d’este genero senão ás pessoas que nunca tocaram nem viram um

bom livro, e eu tambem fiz d’essas leituras algumas vezes, mas nunca

achei vestigios alguns de bom engenho.» Tambem na _Historia imperal

e cesárea_, Pedro Mexia clama com sarcasmo contra as novellas: «e em

paga de quanto trabalhei em a recolher e abreviar, peço agora attenção

e aviso, já que o costumam prestar ás proezas e mentiras de _Amadis_,

de _Lisuartes_ e de _Clarianes_, e de outros portentos, que com tanta

rasão deviam ser desterrados de Hespanha como cousa contagiosa e

damnosa á Republica, pois tão mal fazem gastar o tempo aos auctores

e leitores d’elles, e o que é peior, que dão mui máos exemplos e

bastantes perigos para os costumes.» E n’esta increpação crescente de

deshonestidade, conclue: «É um mui grande e damnoso abuso, do qual,

entre outros inconvenientes se segue grande ignominia e descredito das

Chronicas e Historias verdadeiras, permittindo que andem cousas tão

nefandas a par com ellas.» Vives, no seu livro _De causis corruptarum

Artium_, condemna implacavelmente o _Amadis_ e _Florisandro_,

hispanicos, o _Lancelot_ e _Tavola Redonda_, francezes, e o _Orlando_,

italico; mas apezar de tudo a paixão cavalheiresca actuava na

sociedade, como vêmos pela paixão de Ignacio de Loyola pelo _Amadis

de Gaula_, na mocidade. Cervantes, no capitulo VI do _D. Quijote_,

synthetisa esta antipathia, no exame feito pelo barbeiro Mestre Nicoláo

e pelo Cura ás novellas por onde lia o Cavalleiro da triste figura:

«O primeiro que lhe deu Mestre Nicoláo foi os quatro (sc. livros) do

_Amadis_; e disse o Cura:--Parece cousa de mysterio esta, por que ao

que tenho ouvido referir, foi este livro o primeiro de Cavallerias que

se imprimiu em Hespanha, e todos os mais tomaram principio e origem

d’este, e assim me parece que como a dogmatista de uma seita tão má o

devemos sem excusa lançar á fogueira.--Não, senhor! (disse o barbeiro),

pois tambem tenho ouvido dizer, que é o melhor de todos os livros que

d’este genero se tem composto, e assim como a unico em sua arte se deve

perdoar.--É verdade isso, volve o Cura, e por tal rasão se lhe outorga

a vida por agora.» No exame do _Palmeirim de Inglaterra_, resolvem

tambem «que _este_ e _Amadis de Gaula_ quedem livres de fogo, e todos

os outros sem fazer mais reclamações pereçam.» Cervantes revelava

n’este episodio o seu superior sentimento esthetico, diante d’essas

duas creações do genio portuguez, que continuava na historia a sua

paixão pelas aventuras. Na _Côrte na Aldeia_ refere Rodrigues Lobo

uma anecdota caracteristica: «Na milicia da India, tendo um Capitão

nosso cercado uma cidade de inimigos, certos soldados camaradas que

alvergavam juntos, traziam entre as armas um livro de Cavallerias, com

que passavam o tempo. Um d’elles, que sabia menos que os mais d’aquella

leitura, tinha tudo o que ouvia lêr por verdadeiro, (e assim ha alguns

innocentes que cuidam que se não póde mentir em letra redonda) os

outros ajudando a sua simpleza, lhe diziam que assim era. Veiu occasião

de um assalto, em que o bom soldado invejoso e animado do que ouvia

lêr, lhe pareceu ensejo de mostrar seu valor e fazer uma cavalleria

que ficasse de memoria, e assim se metteu entre os contrarios com

tanta furia, e a começar a ferir tão rijamente com a espada, que em

pouco espaço se empenhou de sorte, que com muito trabalho e perigo

dos companheiros e de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida,

recolhendo-se com muita honra e não poucas feridas. E reprehendendo-o

os mais amigos daquella temeridade, respondeu:--Ah, deixae-me, que não

fiz a metade do que cada noite lêdes de qualquer cavalleiro do nosso

livro.»

Era com este espirito que iamos á descoberta do _Preste João das

Indias_ e das _Ilhas encantadas_, e davamos a volta do mundo.

Mas a edade da burguezia tinha chegado, e o nosso ultimo rei cavalleiro

D. Sebastião amando mouras encantadas e sonhando o _Quinto Imperio

do mundo_, ao lançar-se para a conquista de Marrocos levava já

comsigo a corôa de ouro com que havia de significar a sua soberania,

e ia acompanhado do poeta que havia de exaltar na tuba épica o seu

triumpho. Seria um prototypo de Quixote, se a este tresloucamento não

andasse ligada a perda da autonomia da nacionalidade portugueza. As

Novellas de Cavalleria tambem degeneraram nas allegorias pastoraes

do gosto italiano, e nas historias moraes encabeçadas em nomes de

personagens da antiguidade. Mas d’esta fórma se transitava para o typo

mais caracteristico da arte moderna--o Romance, na accepção actual, que

por este seu proprio titulo nos relaciona com a poesia da Edade media.

_c_) OS AUTOS HIERATICOS

Como em todos os povos catholicos em que as festas religiosas do

Natal, Reis Magos e Paixão, eram a base do theatro hieratico, tivemos

esses Autos ou vigilias, que se ligavam ás manifestações do culto,

sobretudo no tempo em que a Egreja admittia o povo á participação da

liturgia. Foi por um monologo de natureza de Visitação da lapinha ou do

presepio, que Gil Vicente começou a elaborar a fórma litteraria do Auto

_hieratico_.

Os velhos mythos da lucta do Verão e do Inverno, base de um grande

numero de festas publicas europêas, tambem foram aproveitados pelo

genio de Gil Vicente na farça _popular_. Por fim a fórma

dos Mômos e entremezes da côrte de D. João II, a que se allude

no _Cancioneiro geral_, constituiam o elemento do theatro

_aristocratico_. Gil Vicente, sugerido pela generosa rainha

D. Leonor, compoz n’estes trez generos os seus Autos, Farças e

Tragicomedias, quasi que exclusivamente para os serões do paço. As

Constituições episcopaes atacaram o costume popular das representações

hieraticas; e os eruditos da Renascença fizeram caír pelo descredito

os mômos e entremezes. Sob o regimen da repressão catholica o povo

ficou triste e mudo; Gil Vicente fez-se o seu interprete nas côrtes

de D. Manoel e D. João III, dando a conhecer a miseria geral. Em um

Auto falla no perigo de mandar os galeões para a India com capitães

nobres mas imbecis; em outro pede tolerancia para a pobre gente

supersticiosa na sua rudeza: em todos desmascara as grandes ambições

do clericalismo. É esta fórma litteraria do Auto mais directamente

medieval a que se manifesta mais radicalmente satyrica; ahi conserva

as orações _farsis_ dos goliardos, e tem como personagem comico

o Diabo, como nos antigos Mysterios. Ainda entre o povo portuguez se

encontra a locução--_Fazer diabos a quatro_, que teve origem dos

Mysterios dramaticos, em que a importancia da peça augmentava com o

maior numero de diabos que entravam; em Rabelais se encontra esta

phrase: _la grande diablerie à quatre personages_, empregada no

_Pantagruel_. D’este personagem popular foram herdeiros da sua

malicia e vivacidade Scapin, Paillasse, Arlechino, Pathelin, Celestina

e Sganarello.

Possuido da inspiração e espontaneidade do sentimento da Edade media,

Gil Vicente, com essa liberdade sarcastica, toca em todos os pontos

capitaes da grande lucta da secularisação social e emancipação

mental, encontrando-se por vezes na mesma aspiração da Reforma. Em

Antonio Prestes causa impressão como elle no _Auto da Ave-Maria_

considera a Rasão como indispensavel para o merecimento da Fé. Não nos

admira pois que o theatro nacional depois do Concilio de Trento fosse

combatido nos Indices Expurgatorios, que conservaram muitos titulos de

autos e comedias que a intolerancia religiosa fez perder.

A influencia castelhana da comedia em prosa, tambem de costumes

populares, como o typo immortal e immoral da _Celestina_, acha-se

introduzida por Jorge Ferreira de Vasconcellos na _Eufrosina_,

_Ulyssipo_ e _Aulegraphia_; elle cita com frequencia esse

typo incomparavel: «E vós dar-lhe-heis mais virtudes que a _madre

Celestina_.» João de Barros e Camões tambem citaram esta comedia

portentosa, que se impoz á imitação portugueza. Na _Côrte na

Aldêa_ escrevia Rodrigues Lobo: «Ainda me parece que haveis de

chegar á _Celestina_, que posto que o officio é commum de dois,

accomoda-se melhor ao feminino.» Na linguagem popular egualmente se

encontra a phrase: _Artes da madre Celestina encantadora_.

Em consequencia da incorporação na unidade castelhana em 1580,

começou-se a representar em castelhano, e os escriptores portuguezes

enriqueceram o vasto reportorio dramatico da Hespanha. Pedro Salgado,

Jacintho Cordeiro, Mattos Fragoso escreveram em castelhano, comedias

famosas de _capa e espada_. Rodrigues Lobo refere-se á estructura

castelhana começada a usar: «E tambem os poetas nas suas comedias, que

são mais proprias para recreação e passatempo, dividiram a obra em

actos _a que agora chamam Jornadas_...» Por falta de um interesse

nacional, que fecundasse o theatro, ou de um sentimento que recebesse a

expressão esthetica do drama, os divertimentos scenicos dos _Pateos

das Comedias_ tiveram por fim a especulação da caridade. Comtudo a

riqueza fecunda do theatro hespanhol actuou nas litteraturas da Europa

no seculo XVII, inspirando genios superiores como Corneille, Molière e

Shakespeare.

_b_) O CULTERANISMO SEISCENTISTA

(_Hegemonia da Hespanha_)

Na marcha progressiva da Renascença, o pensamento europeu preoccupa-se

com a renovação das _sciencias experimentaes_ e com a elaboração

de uma nova _synthese philosophica_. É n’esta corrente que finda

o seculo XVI, e que se absorve completamente todo o seculo XVII, o

qual segundo a phrase de Cournot, occupa na historia do espirito

humano um logar unico, sem analogo no passado nem no futuro, em que

as descobertas tornam-se revoluções em geometria, na astronomia e

na physica, pela determinação das leis geraes do movimento e da

acção da gravidade, da figura e movimento dos corpos celestes e

do systema do mundo. N’esta marcha grandiosa da revolução mental,

que se manifestára pelo _Humanismo_, na sua fórma philologica

e critica, a Egreja oppuzera uma reacção, primeiro de compressão

material pela Inquisição, e depois de apropriação pela astucia por

meio do ensino e da direcção espiritual do Jesuitismo. O encontro

d’estas duas correntes depressivas deu-se no Concilio de Trento, que

veiu perturbar as nações catholicas na sua actividade scientifica; e

pela sua assimilação na dictadura monarchica (a Inquisição ao serviço

de Philippe II, e a Companhia de Jesus servindo-se de Luiz XIV) a

revolução tornou-se mais intensa saíndo do campo theorico para a

prática social. A Hespanha, sob o dominio da Casa de Austria que se

dava como garantia da unidade catholica, ficou alheia ao movimento

scientifico e philosophico do seculo XVII. As suas _Academias_,

fórma caracteristica adoptada pela cooperação dos investigadores da

natureza e experimentalistas, tornam-se _Tertulias_ de passa-tempo

litterario. É n’esta exuberancia poetica sem plano, que se cultiva a

fórma figurada da expressão, sem destino social; a cultura humanistica

dos Collegios jesuiticos, com a sua falsa rhetorica, em pouco tempo se

apoderou das novas gerações e lhes imprimiu o sello da mediocridade.

As relações politicas do dominio da Hespanha na Italia, e a fusão do

genio d’estes dois povos, quando a Companhia de Jesus se remodelou sob

os geraes italianos, produziram as perversões moraes da casuistica

_molinista_, do cauteloso _equivoquismo_ do pensamento, e do

vazio _concettismo_ da phrase. A falta de convicções era supprida

pela emphase, e a ausencia de ideias pelo pedantismo mascarado com

antitheses e parallelismos. O Humanismo italiano, materialmente imitado

entre os outros povos da Europa, degenerou no _Preciosismo_ em

França, no _Euphuismo_ em Inglaterra, e no _Cultismo_ em

Hespanha. Tem-se irracionalmente attribuido á Hespanha este contagio

do máo gosto; mas a sua generalidade só póde explicar-se por causas

sociaes persistentes e não por influxo individual de um ou outro

escriptor. A Hespanha exerceu no seculo XVII uma acção sobre todas

as litteraturas: revelou-lhes o drama moderno. Como todas as outras

nações, ella tambem foi victima do máo gosto, por que soffria as mesmas

causas sociaes: a compressão monarchica.

O imperio do equivoco na expressão vulgar e artistica, a linguagem

sempre figurada e translata, não para receber mais relevo pittoresco

mas para subtilisar as comparações sem a justa relação entre o

sentimento e a imagem, e tudo isto feito por um esforço e pedantismo

indigesto, constituem o gosto amaneirado, culteranesco, conceitista,

geral a todas as Litteraturas do seculo XVII. O _gongorismo_

ou _culteranismo_ em Hespanha e Portugal, os _concetti_ em Italia, o

_preciosismo_ em França, o _euphuismo_ em Inglaterra, são o mesmo

phenomeno, indicando no seu vasto contagio de corrupção no estylo

litterario uma causa commum á sociedade europêa. Qual essa causa? A

falta de liberdade. A dictadura monarchica do seculo XVI, acha-se no

seculo XVII dando o apoio do seu poder temporal á compressão das

dissidencias religiosas, e depois das grandes carnificinas

(_S. Barthelemy, Dragonadas_) prohibe a liberdade de consciencia e a

liberdade do pensamento (Revogação do Edito de Nantes). Renan descreve

em palavras incisivas o effeito d’esta suppressão da liberdade mental,

apezar de não traçar o quadro historico da alliança ou colligação da

Monarchia e da Egreja: «É tal a actividade da intelligencia humana,

que o encerral-a em um circulo apertado é forçal-a a delirar. A

liberdade de pensar é imperscriptivel; se barrardes ao homem os vastos

horisontes elle se vingará pelas subtilezas; se lhe impondes um texto

elle exime-se pelo contrasenso. O contrasenso nas épocas de

auctoridade, é a reprezalia que toma o espirito humano contra a algema

que lhe impõem; é o protesto contra o texto. Esse texto é infallivel;

seja-o, embora. Mas é diversamente interpretavel, e n’isso começa a

diversidade, simulacro de liberdade, com que se contenta á falta de

mais. Sob o regimen de Aristoteles, como sob o da Biblia, pôde-se

pensar tão livremente como no dia de hoje, mas com a condição de

provar que tal pensamento estava realmente em Aristoteles ou na

Biblia, o que nunca era difficil. O Talmud, a Masora, a Cabala são

productos extravagantes do quanto é capaz o espirito humano

acorrentado a um texto. Contam-se as letras, as syllabas, entregam-se

aos sons materiaes mais do que ao sentido, multiplicam-se até ao

infinito as subtilezas exegeticas, os modos de interpretação, como o

faminto que depois de ter comido o seu pão apanha as migalhas. Todos

os commentarios dos livros sagrados parecem-se entre si, desde os de

Manu até aos da Biblia, até aos do Coran. Todos são o protesto do

espirito humano contra a letra escravisante, um esforço infeliz para

fecundar um campo infecundo. Quando o espirito não acha um objecto

proporcionado á sua actividade, cria um para si com mil

habilidades.--O que o espirito humano faz diante de um texto imposto,

fal-o diante de um dogma definido. Por que se mostrou tão aborrecido o

seculo XVII? Por que morria de tedio madame de Maintenon em

Versailles? É por que não havia ahi horisontes.--É por esta mesma

rasão, que este seculo de orthodoxia e de regulamentação foi o seculo

do _equivoco_. É a regra estricta que dá origem ao equivoco. Por que é

o direito a sciencia do equivoco? É por que de todos os lados se vê

confinado por fórmulas.»[175]

A transcripção foi extensa, mas merece ser desenvolvida na sua

eloquente verdade. A severidade na etiqueta da vida palaciana, obrigava

a uma linguagem affectada e de convenção, que por seu turno viria

a influir na corrente da linguagem e do estylo litterario.[176] A

severidade das regras deduzidas dos modelos classicos, e a indiscutivel

admiração que lhes era consagrada, escravisavam a imaginação a imitar

ou melhor a _parodiar_ caricatamente essas eternas idealisações

do sentimento. O phenomeno deu-se em Portugal com a parodia dos

_Lusiadas_, e em França com o _Virgile travesti_, de Scarron. Desde

que se imitassem minuciosamente, respeitando as regras da rhetorica,

os modelos classicos, estava admittido como litterario qualquer

absurdo. Facilmente se perverteu a corrente scientifica das Academias

em _Tertulias_ e _Arcadias_, corporações destinadas á inalterabilidade

das rhetoricas de Aristoteles e de Quintiliano, e a fomentar a livre

expansão do equivoco, ou da linguagem conceituosa das pessoas cultas.

Era ao que Gracian codificava sob o titulo de _Agudezas de Ingenio_.

O que se passava na Litteratura repetia-se com a mesma fatalidade do

absurdo na Theologia, com as doutrinas do _Quietismo_, do _Molinismo_,

do _Congruismo_, do _Probabilismo_, que transportadas para a polemica

clerical e para os pulpitos deram os enormes ridiculos dos prégadores,

retratados no _Frei Gerundio de Campazas_, e nas _Provinciaes_ de

Pascal, que reduziu a systema esse acervo de contrasensos. O equivoco

artificioso invadiu os pulpitos, onde os prégadores, em uma época sem

liberdade politica, arrastavam os textos sacros ás interpretações

allusivas, e ás censuras encapotadas ou indirectas aos poderes

publicos, como vêmos nos sermões do Padre Vieira.

Este mesmo motivo suscitou a immensa fecundidade do theatro hespanhol

nos fins do seculo XVI e em quasi todo o seculo XVII; a nação estava

sem liberdade, e era sobre a scena que o pensamento achava uma brécha

para expandir-se. É por isso que o drama hespanhol não representa

o estado de consciencia do poeta que o elaborou; exprime todos os

caracteres da alma hespanhola, repassada das suas tradições, sedenta de

heroismo, cheia de garbo e de paixões violentas, mas não tendo em que

empregar a sua vida affectiva. A cavalleria é atacada pelo ridiculo, a

crença religiosa vae cedendo o logar á verdade scientifica; resta-lhe

o drama sobre o palco, o espectaculo que lhe lisongeia o instincto.

N’esta crise de uma sociedade a que lhe foge o antigo ideal, os

individuos sem recursos para exporem o seu pensamento fizeram do palco

a tribuna; d’ahi a rasão da extrema fecundidade creadora em uma época

de repressão. Sobre este ponto é lucido o juizo de Philarète Chasles:

«Este drama, no seculo XVII, desempenhou o papel que representa a

imprensa periodica moderna. Correu a Europa e o mundo, avivando o

pensamento e a acção, do Mexico a Berlim, e de Londres a Lima.»[177]

E accrescenta: «Todos os acontecimentos, todas as ideias, todas as

loucuras, todas as esperanças creavam algum drama novo.» Separada da

influencia da Hespanha a responsabilidade do contagio do máo gosto ou

o Culteranismo, a sua acção foi impulsiva e fecunda sobre todas as

litteraturas romanicas no seculo XVII em quanto ás fórmas novellescas e

dramaticas. Competiu por sua vez á Hespanha a hegemonia.

Fallando da influencia do theatro hespanhol nas litteraturas da Europa,

no seculo XVII, escreve Philarète Chasles: «Elle é que ensinou á

Italia o _imbroglio_ pueril dos acontecimentos que se embatem,

se cruzam e se entrelaçam. Mestre e precursor do theatro europeu,

produziu Corneille e Beaumarchais, os dois genios mais oppostos que

possam nomear-se. Desde o meado do seculo XVI a Inglaterra imita a

scena hespanhola. Os contemporaneos de Shakspeare, homens de talento

agrupados em volta do homem de genio, Marston, Dekker, Johnson,

Marlow, Webster, Heywood, nomes pouco conhecidos em França, copiam

ou antes calcam os imbroglios de Lope de Vega e dos seus discipulos.

Assim se formou o drama inglez. A Italia fornecia o assumpto, o conto

original, a trama primeira; a Hespanha dava o movimento dramatico:

trapaças, velhacarias, aventuras nocturnas, raptos, disfarces, mudanças

e substituições de nomes e de estado. Tudo o que pertence á vida

activa vinha do meio-dia; o genio nacional do norte ajuntava-lhe a sua

profundidade nativa, a analyse, a reflexão. Consultem-se as peças de

Congrève, de madame Centlivre, de Farquhar, todo o máo drama inglez

do XVII seculo até á bella e brilhante comedia de Sheridan _Fort

Scandal_, appresentam o cunho hespanhol em quanto á intriga.»[178]

Transcreveremos como insuspeitas as palavras do critico francez, para

se notar quam profunda foi tambem a influencia do genio hespanhol na

litteratura franceza.

Sobre esta hegemonia successiva das modernas nações da Europa umas

sobre as outras, fecundando-se por allianças reciprocas, exprime-se

Philarète Chasles: «N’este vasto ensino mutuo dos povos, vê-se cada

nação poderosa elevar-se á missão de instituidora. Os Arabes e os

Provençaes succedem aos Romanos, os quaes tambem tinham succedido

aos Gregos. Do seculo XIV ao seculo XV a Italia dá a lei ao mundo

intellectual. O turno da Hespanha deu-se sob Luiz XIII.» E resumindo a

sua actividade historica, accrescenta: «A Hespanha attraía as attenções

do globo; nação conquistadora e poeta, que tinha descoberto um mundo e

o guardava; que assentava um pé sobre o Perú, o outro sobre a Allemanha

e Flandres. Desde 1590, o genio hespanhol suscita a Liga franceza;

encontra-se em Bruxellas, em Napoles, em Roma, em Vienna, no Mexico,

na Hispaniola, na Florida; por toda a parte é detestado, temido e

admirado, diria mesmo, amado, pois se ama voluntariamente o que se

teme. No proprio momento em que as imprecações do mundo civilisado

se misturavam ás lagrimas longinquas dos Indios, e aos gemidos dos

escravos, a Europa tomava por modelo a Hespanha.--No principio do

seculo XVII o diccionario hespanhol invade e sobrecarrega com o peso

das suas palavras sonoras a nossa lingua flexivel.--Não desenrolaremos

todos os emprestimos que o diccionario francez tomou da Hespanha

sob Anna de Austria e durante a menoridade de seu filho. A phrase

castelhana enche com as suas pomposas circumlocuções as Memorias

de Richelieu e as de M.^{me} de Motteville.--Balzac é hespanhol.

Os seus sermões leigos são o segundo tomo das verbosas e solemnes

amplificações de Balthazar Gracian; as miniaturas galantes de Voiture,

ainda que conservam um pouco o colorido italiano, são sobretudo

castelhanas. Desde 1610, a emphase apodera-se do discurso familiar e

do estylo epistolar.--Em Paris, em 1640, só se dirigem ás damas e aos

grandes cumprimentos harmoniosos e vazios, uma pompa elogiosa, uma

lisonja banal, que os hespanhóes chamavam espirituosamente--musica

celeste.» E fallando da influencia dos trajos hespanhóes nos desenhos

de Callot, define-o: «artista mais historiador que os historiadores,

multiplica a parodia deliciosa d’estes gentishomens que marcham com o

punho na cinta, d’esses poeticos maltrapilhos, d’esses mendigos que

o sol aquenta, d’estes almocreves insolentes, verdadeiros filhos de

Castella.»[179]--«Este prurido hespanhol durou até meio do reinado de

Luiz XIV;... este reflexo da Hespanha cáe sobre Versailles, sobre os

seus costumes solemnes, seus usos, sua admiravel mistura de nobreza

e de elegancia, sua litteratura gravemente doce, perfeitamente e

nobremente bella. Por um singular destino, a Hespanha que dominava

tudo pelo seu exemplo, seus costumes e sua lingua, ia morrer sem

esplendor, morrer no meio do seu triumpho. A agonia preparava-se-lhe

pela ignorancia, pelo orgulho e pela priguiça. Ella tinha conquistado a

fonte do ouro, e o berço dos diamantes; possuia os grandes escriptores,

os sublimes pintores, os altos caracteres; viu-se sublime, creu-se

immortal e adormeceu.»[180]

«Triste suicidio! morrer assim, depois de ter creado o primeiro poema

épico da nova Europa, o primeiro romance da nova civilisação, depois

de ter aberto as portas da America ás nações modernas! Nem a Hespanha,

nem a Europa se aperceberam d’esta decadencia; a Hespanha admira-se

e os seus visinhos copiam-n’a; as obras creadas por ella servem de

ensino a todos. Em França estes germens são fecundos; Scarron toma-lhe

as grosseiras tramas de uma intriga embrulhada e a facecia popular dos

pícaros; d’Urfé diverte as mulheres imitando as phantasias zagalescas;

Saint-Amand acha bella acima de tudo a exageração das imagens; Voiture

imita o estylo culto; Corneille acha n’esta mina de ouro o elemento

primitivo do seu genio, uma grandeza sobrehumana e os energicos

combates da paixão e do dever. Seu irmão, intelligencia dotada de

plasticidade e habilidade ... tira da Hespanha o que ella tem de menos

profundo e de menos potente: a intriga habilmente atada, o imprevisto

dos movimentos; o jogo dos acontecimentos extravagantes; a lucta da

sorte contra si mesmo; o amor, o odio, a felicidade e a desgraça

enlaçando-se em um tecido fragil; um movimento vivo e rapido em vez

de uma imitação séria da vida; disfarces e golpes de espada; encontros

extraordinarios, escondrijos maravilhosos, e o facil recurso dos

_aposentos_ nos quaes se topam os inimigos e os amantes.--Tristan,

Hardy e Mairet fizeram a parodia d’isto, mas sem graça, perpetuando-se

até Quinault, do qual o _Timocrates_ é uma verdadeira peça

hespanhola, que sobreviveu até Luiz XIV; _Rhadamisto e Zenobia_

recebeu a mesma successão. Os _Visionarios_ de Desmarets, e as

vesanias divertidas de Cyrano de Bergerac são fructos do mesmo solo.»

«Faltava ainda explicar o mais difficil, a mais intima, a mais

nobre, a mais séria porção do genio hespanhol; coube esta ao grande

Corneille. Potencia de paixão, do pensamento, de combinação, eis o

que elle pediu ao theatro de Hespanha.--_Las Mocedades del Cid_

transformadas fornecem-lhe a mais bella tragedia moderna. Um drama

pseudonymo de Alarcon transforma-o em uma comedia de costumes.»[181] «O

_Menteur_ é uma obra prima de bom senso, de arranjo e de imitação.

Corneille não quiz mais do que isso. Descobriu a fonte hespanhola, e

fez brotar a comedia de caracter.» E na marcha do seu estudo Philarète

Chasles chega a affirmar: «O nosso theatro contém mais de duzentos

dramas que vieram de Hespanha. As obras de Montfleury, de Scarron,

outr’ora tão popular, de Dufresny, mesmo de Destouches, algumas de

Molière, tem uma origem hespanhola.»[182]

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 19 / 27 段