Os jurisconsultos da Europa cavaram a ruina da Edade media; serviram-se

da esquadria da rasão contra os impulsos espontaneos da cavalleria

feudal. Defendendo o povo contra os barões, abafaram a liberdade

popular tirando-lhe as garantias das _instituições locaes_,

unificando-as nos codigos reaes ou _Ordenações_ formados segundo o

espirito do Direito romano ao serviço da dictadura monarchica. Isto se

repetia em Portugal, em contacto com a corrente da civilisação europêa:

ao lado de um Condestavel que imitava no seu heroismo a virgindade

cavalheiresca de _Galaaz_, prepondera o chanceller Dr. João

das Regras, o homem da toga, armado com os textos legaes, com o pezo

da burguezia derruindo o feudalismo. O desembargador Ruy Fernandes

codificando o _Regimento de Guerra portuguez_, como bom legista,

propõe para modelos os feitos dos gregos e romanos. Fallando do cargo

de Alferes, formúla a _Ordenação affonsina_: «Os Gregos e Romanos

forom homeens, que usaram muito de guerrear, e emquanto o fezerom

com siso e entendimento vencerom e acabarom o que quizerom; e elles

forom os primeiros, que fezerom em como fossem conhicidos os grandes

senhores nas Côrtes dos Princepes e nas batalhas, e nos outros feitos

de grande façanha.» E com a preoccupação da antiguidade, transcreve-se

extensamente no _Regimento de Guerra_ a auctoridade de Seneca e de

Aristoteles.

Já para o fim do seculo XVI prevalecia a admiração da antiguidade, que

influia na fórma litteraria da Historia. Villani, ainda no seculo XIV,

confessava que a sua visita a Roma e a leitura dos seus escriptores

lhe revelára o modo de escrever a historia. Em Portugal escreve-se em

latim a historia de Ceuta, por Matheus Pisano, e de Italia é mandado

vir o humanista Justo Baldino, para traduzir para latim as chronicas

do reino. Os costumes palacianos exigem aos fidalgos a cultura do

latim; vive-se em _signo de latim_, como a apoda graciosamente

Ayres Telles. A Edade media ainda sobrevive vagamente em uma ou outra

serodia novella de cavalleria; a antiguidade greco-romana impõe-se

triumphantemente d’entre a crise intellectual do seculo XVI.

=§ 2.--A Renascença=

(HEGEMONIA DA ITALIA)

A França precedeu a Italia na iniciativa e influencia do genio

esthetico na Edade media, como o proclamou Dante com toda a

superioridade do seu espirito; Comte, consignando o facto, explica-o:

«ora esta incontestavel diversidade historica parece-me dever ser

sobretudo attribuida á menor consistencia da ordem feudal na Italia,

apezar da acção mais especialmente favoravel que o catholicismo ali

devia exercer sobre o desenvolvimento inicial das bellas-artes.»[161]

Poderia a Egreja provocar o desenvolvimento da architectura e artes

ornamentaes, mas bastava sustentar o principio de que a sociabilidade

polytheica era inferior á christã, para desviar os espiritos da

admiração das obras da antiguidade. A queda do regimen feudal

envolvendo a do regimen catholico alterou a estabilidade da Edade

media, e deixou as capacidades estheticas sem elementos sérios de

idealisação; tal foi a causa de se procurar na civilisação polytheica

greco-romana, já o typo ideal para a imitação artistica, já as fórmas

sociaes para o estabelecimento de um regimen politico, como se vê no

esforço laborioso dos Humanistas e dos Jurisconsultos. Comte propõe

com a maxima clareza a causa da Renascença: «Se o estado catholico

e feudal tivesse podido persistir realmente, não é duvidoso, a meu

vêr, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII teria adquirido,

pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade

muito superiores a tudo o que tivesse podido existir depois, sobretudo

quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas-artes.

Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que com frequencia

tinha de effectuar-se no decurso d’este grande periodo revolucionario,

e ao qual a progressão industrial tão poderosamente contribuiu, o

genio esthetico teve necessariamente falta de direcção geral e de

destino social. Entre a antiga sociabilidade expirante, e a nova pouco

caracterisada ainda, não pôde bem nitidamente sentir o que devia

sobretudo idealisar, nem sobre que sympathias universaes elle devia

principalmente repousar.»[162] É d’esta instabilidade social que deduz

Comte a «alteração notavel, vãmente qualificada de regeneração das

Bellas-Artes, e que sob muitos aspectos, constituia mais de que tudo

uma tendencia retrograda, inspirando uma admiração muito servil e muito

exclusiva pelas obras primas da antiguidade relativas a um systema

inteiramente differente de sociabilidade.»[163]

Na grande crise revolucionaria, em que á vida guerreira do Feudalismo

se contrapõe a actividade pacifica do proletariado e da elevação da

vida domestica, a expansão industrial vem espontaneamente estimular

as capacidades estheticas. E como a Italia era entre os orgãos da

Republica occidental, a que pela sua separação do feudalismo e regimen

municipalista mais avançava para a liberdade civil da burguezia,

achou muito cedo novos elementos de idealisação, quer na autonomia

critica, como em Dante com a _Divina Comedia_, quer no sentimento

do amor como na _Vita Nuova_ e em Petrarcha nos _Sonetos_

e _Canções_, quer nos quadros da vida domestica, como Boccacio

conseguiu representar nos Contos e Novellas, rudimentos essenciaes

que precederam a caracteristica creação moderna do Romance. Mas a

instabilidade não era simplesmente social; era essencialmente mental,

e foi sob este aspecto que se manifestou o espirito critico contra a

Egreja, e a necessidade de construir uma nova synthese especulativa.

A antiguidade classica apresentava profundos philosophos, para serem

consultados na formação de uma tal synthese, e incomparaveis poetas

e artistas, para fornecerem typos estheticos para a imitação. Assim

a Italia que avançava para o estabelecimento das fórmas definitivas

da litteratura moderna, como se vê pelo lyrismo petrarchista e pelas

narrativas novellescas, ao entrar no seculo XV, e mesmo no esplendor

do seculo XVI, não tornou a appresentar uma pleiada como Dante,

Petrarcha e Boccacio. A imitação da antiguidade classica tornou-se

uma necessidade, uma como disciplina do gosto, na instabilidade das

emoções abaladas pelas alterações do meio social. Observa-o Comte:

«Uma apreciação mal aprofundada, conduz mesmo, ao que me parece, que

a imitação mais ou menos servil da arte antiga, deveu desde logo, por

uma reacção necessaria, tornar-se para a arte moderna um meio facticio

de supprir provisoriamente, ainda que de uma maneira imperfeitissima,

a esta lacuna fundamental, que o progresso da transição revolucionaria

devia tornar cada vez mais funesta á marcha das bellas-artes... Não

podendo achar em volta de si uma sociabilidade bem caracterisada e

assás fixa, a arte moderna imbuiu-se naturalmente da sociabilidade

antiga, tanto quanto podia permittil-o uma ideal contemplação, guiada

pelo conjuncto de monumentos de todos os generos, etc.»[164]

O abandono ou desprezo pelas obras classicas greco-romanas durante a

Edade media, facilitára em certa fórma a espontaneidade e originalidade

do genio esthetico moderno; mas um tal abandono era a consequencia do

desdem com que esse passado e edade polytheica eram considerados pelo

catholicismo em relação ã nova sociabilidade europêa:

«Convém notar, que uma tal tendencia era, na Edade media, intimamente

ligada ao preconceito universal, tão justamente estabelecido pelo

catholicismo, sobre a preeminencia fundamental do novo estado social

comparado ao antigo.»[165] A época da Renascença caracterisa-se por

uma profunda admiração pelas obras e até pela constituição social

d’esse passado polytheico; como se deu uma alteração tão profunda no

gosto e no criterio, apparecendo a Edade media como barbara, como uma

edade de trevas? Desde que a Egreja deixou de acompanhar o progresso

da sociedade europêa, e o Poder espiritual se materialisou nas fórmas

de uma soberania terrena, estabeleceu-se uma reacção nos espiritos,

levando os que eram crentes para a preoccupação de uma Reforma,

dentro da propria orthodoxia da Egreja, e os que se emancipavam da

credulidade, a acharem no estado de consciencia do mundo antigo

greco-romano manifestações mais bellas em quanto á situação moral e

social. A revivescencia das obras primas da antiguidade obedecia a um

certo espirito revolucionario, já contra a Egreja, e mesmo contra as

Monarchias, como se observa no Humanismo francez e no hollandez. Comte

notou um d’estes aspectos revolucionarios: «Esta relação natural, mesmo

ulteriormente contribuiu, em sentido inverso, para a resurreição da

litteratura antiga, na qual tantos espiritos cultivados procuravam,

máo grado seu, uma especie de protesto indirecto contra o espirito

catholico, desde que elle deixou de ser sufficientemente progressivo.»

Causas especiaes actuavam na Italia para que ella se apaixonasse pelo

esplendor da civilisação antiga, exercendo a sua hegemonia litteraria

e artistica desde o seculo XV. Não foram os eruditos exilados de

Byzancio que trouxeram á Italia o conhecimento dos monumentos da

antiguidade classica; essa tradição não perdera ali a continuidade.

Dante tomando Virgilio como mestre e guia (_tu duca, tu maestro_) e

proclamando Homero _poeta soverano_, define com mais clareza do que

qualquer prova historica essa relação entre as duas edades. A cultura

da Jurisprudencia romana, fazendo convergir ás Escholas de Italia

todos os estudiosos da Europa, preparava para essa cultura humanista,

que servia de alivio suave aos espiritos no meio da instabilidade

politica de uma sociedade, que aspirava debalde á vida nacional no

meio das absorpções e traições dos Papas, da pressão semi-barbara dos

Imperadores germanicos, e da indifferença de uma burguezia preoccupada

exclusivamente do goso egoista das riquezas do seu trafico. O mundo

ideal da Arte era um refugio para as almas mais puras; não podendo

estabelecer uma relação com o meio social, fugiram da realidade,

procurando nas litteraturas antigas as normas que mais encantavam, e

cultivando a expressão esthetica (a arte pela arte) pelo instincto vago

da perfeição e não pelo seu destino social. Philarète Chasles accentúa

esta situação: «Na Italia, ao contrario do que succedia no norte, as

molas da sociedade politica estavam gastas; a galanteria dos costumes,

o brilho das artes, o encanto do estudo consolava o paiz d’esta divisão

intestina que lhe não permittia ter esperança em uma grande vida

nacional. Por confissão dos pensadores e dos escriptores philosophos

da Italia, Machiavelli, Bentivoglio e Tasso, a época do seu esplendor

intellectual é simultanea com a da decadencia moral. O genio das artes,

da belleza do estylo e da fórma attingiram uma perfeição admiravel, sem

que a sociedade se elevasse.»--«Tinham surgido á luz Dante, Petrarcha,

Boccacio; as republicas tinham cumprido o seu ruidoso destino; a fé

politica e religiosa tinham desapparecido; tudo se dissolvia na ardente

voluptuosidade dos costumes, no luxo das festas principescas e no culto

physico das paixões, da belleza e das artes.»[166] Reflectia-se este

estado social nas manifestações dos espiritos, em que a inspiração era

um phenomeno psychico de tensão encephalgica, de erectismo nervoso.

O genio sobresaía no meio das luctas, n’essa atmosphera de revolução

em que respiram os grandes homens. No conflicto constante dos dois

poderes o Sacerdocio e o Imperio, a Italia géra os organismos mais

extraordinarios da humanidade, como Dante e Francisco de Assis, Miguel

Angelo e Machievelli, Petrarcha e Raphael. As impressões vivas dão

mais intensidade á existencia; vive-se muito em breves momentos. As

melhores épocas da arte italiana coincidem com o veneno dos Borgias;

o desterro abre a Dante a _selva oscura_ da sua trilogia épica; a

_balia_ de Florença embala o nascimento de Miguel Angelo; a tortura

policial ou inquisitorial dá a revelação das leis sociologicas a

Machiavelli, e confirma em Galileo a ideia do movimento da terra; a

perseguição leva Campanella a conceber a utopia da _Cidade do Sol_,

e a Palestrina a concepção da musica religiosa. Cimarosa, o sonhador

divino do _Matrimonio secreto_, cria um mundo novo de harmonia sob

a pressão do despotismo austriaco que lhe deu a morte. A situação

historica da Italia, na sua longa aspiração de nacionalidade,

explica-nos o caracter e successão dos seus grandes homens. Era-lhe

sympathica a sociedade antiga, sob o aspecto da liberdade. Em épocas

em que as garantias politicas se acham distribuidas em um justo

equilibrio, em que a esphera da acção individual está descripta nos

codigos, quando o interesse e o egoismo generalisam virtudes negativas

e impõem uma moral chata de um concreto bom senso, o homem de genio

acha-se asphyxiado, ridiculo, e para resistir procura confundir-se

com a multidão e mascarar-se com o vulgarismo das mediocridades.

Pelo contrario, as sociedades antigas favoreciam mais a livre

manifestação do bello; na vida do _Ágora_, do _Forum_, faziam que o

homem se possuisse do respeito do si mesmo; fallava como um deus,

não conhecia o ridiculo, determinando-se pelas proprias impressões

sem contraste entre si os outros concidadãos. A cada passo tinha de

recorrer á revolta, para supplantar as tyrannias; nas festas civicas

competia com os mais esbeltos, com os mais ligeiros e os mais fortes.

A individualidade italiana lisongeava-se na idealisação da sociedade

antiga, e nas suas crises sentia identificar-se n’esse mundo não pela

erudição mas pela realidade. A Renascença não era para a Italia uma

reconstrucção archeologica, nem uma imitação banal; os eruditos da

Egreja e da Curia chegavam á illusão de se crêrem na sociabilidade

greco-romana, e de quasi tentarem a substituição do catholicismo, que

atravessava a crise de uma reforma, pela alegria exterior e fraternal

dos cultos polytheicos. Pela acção dos seus genios individuaes na

fórma deslumbrante da arte e poesia, a Italia exerceu uma plena

hegemonia em toda a Europa; mas essas manifestações de superioridade

não a elevaram, por que a cultura esthetica era exclusiva, absorvente,

e independente da disciplina intellectual e de toda a acção prática

ou destinação social. É por isso que esse influxo da Renascença se

torna entre as outras nações um artificio rhetorico, que se prolonga

até ao seculo XVIII, sob as fórmas do _Culteranismo_ e do _Arcadismo_

pseudo-classicos.

D’esta preponderancia do ideal classico na Renascença, escreve Comte

com notavel segurança: «Concebe-se facilmente com effeito, que a um

systema de composição tão facticio, era preciso egualmente preparar,

durante algumas gerações, um publico que o não fosse menos; por que,

perdendo a sua originalidade da Edade media, a arte perdia egualmente,

e inevitavelmente, a ingenua popularidade que era a recompensa

espontanea, e que não se tornou a achar em um tal gráo, mesmo nos casos

mais favoraveis. Ainda que a sua natureza geral a destina sobretudo

ás multidões, a arte moderna era então forçada, por uma excepção

inevitavel, de se dirigir especialmente a ouvintes privilegiados, que

uma laboriosa educação tivesse préviamente collocado assim, ainda que

em um menor gráo, nas condições estheticas analogas á dos proprios

artistas, e sem os quaes não poderia existir, entre o estado passivo

de uns e o activo de outros, esta harmonia indispensavel a toda a

acção das bellas-artes. Na ordem plenamente normal, uma tal harmonia

estabelece-se geralmente sem esforço, de uma maneira muito mais

intima, segundo a preponderancia commum do meio social que penetra

constantemente e ao mesmo tempo o interprete e o espectador; mas sob

esta anomalia provisoria, devia pelo contrario exigir uma longa e

difficil preparação.»[167] Comte referia-se ao phenomeno, que tanto

actuou na decadencia das litteraturas romanicas pela separação entre

os escriptores e o povo, e á laboriosa educação classica europêa, que

tornou possivel destacar da imitação antiga algumas obras primas.

_a_) O HUMANISMO QUINHENTISTA

O phenomeno tão complexo da Renascença, na Europa, abrange segundo o

auctor da _Historia do Materialismo_, dois seculos de actividade,

desde o meado do seculo XV até aos fins do seculo XVII. Segundo Comte,

que analysou assombrosamente a marcha da sociedade moderna partindo

da dissolução do regimen catholico-feudal, esta longa phase da

Renascença caracterisa-se por uma revolução mais mental do que social.

A Renascença apresenta-se com dois aspectos, um _litterario_,

que leva á imitação das obras primas da antiguidade com desprezo

systematico da Edade media, separando a idealisação esthetica dos

interesses da sociedade moderna; o outro é _scientifico_,

retomando os conhecimentos que a Grecia nos legou sobre Mathematica

e Astronomia, caminhando assim a intelligencia europêa para a

creação das sciencias experimentaes, para a elaboração da Physica, e

particularmente para a formação de uma nova synthese philosophica.

Vê-se que d’estes aspectos um é inorganico, renovando o ideal

polytheico, e o outro é impulsivo, restabelecendo a hierarchia theorica

dos conhecimentos humanos, partindo da renovação da Mathematica e

da Astronomia para a Physica e Chimica. Assim póde-se determinar na

successão da Renascença na Europa, os seguintes periodos:

_Philologico_ e _artistico_, em que prevalece a Italia como

impulsora do estudo das litteraturas da antiguidade classica, ou

propriamente o Humanismo:

_Theologico_ e _critico_, resultante do estudo philologico

dos livros sagrados, e pelo seu exame conduzindo ás ideias da

Reforma religiosa, sendo a Allemanha a impulsora d’este movimento

insurreccional dos espiritos:

_Scientifico_ e _philosophico_, em que cooperam a Italia,

a Inglaterra e a França, pela acção de sabios experimentalistas como

Galileo, e espiritos syntheticos como Bacon e Descartes.

A Italia creava a philologia, renovando os perdidos estudos dos

Alexandrinos, e levando a luz da critica e do gosto aos trabalhos

confinados dos eruditos byzantinos. A paixão pela nova sciencia

occupava todos os espiritos, desde a cathedra pontifical até ao humilde

typographo. Era uma revolução em que a humanidade tomava conhecimento

de si mesma; toda a Italia era uma eschola, e de todos os paizes

convergiam ali os espiritos ávidos de luz, destacando-se como novos

pedagogos Victorino de Feltre e Angelo Policiano.

A corrente humanistica do seculo XV, sob o influxo da Italia

reflectiu-se muito cedo em Portugal; vêmol-o pela preoccupação de

traduzir-se em latim as chronicas portuguezas, como pelo empenho

que levava a realeza e a aristocracia a enviarem estudantes para as

escholas italianas. Azurara, que escrevia no reinado de D. Affonso V,

falla na sua _Chronica da Conquista de Guiné_, como reconhecendo

os caracteres dos elementos da Republica occidental, «da grandeza dos

Allemães, e da gentileza da França, e da fortaleza da Inglaterra, e

da _sabedoria da Italia_.» No primeiro quartel do seculo XVI,

Portugal, pela extrema actividade das navegações e colonisações na

India e Brazil, não acompanhou a marcha da Renascença; por este

atrazo, conta André de Resende que viajou pela Italia e Flandres,

que n’esses paizes Portugal era pouco considerado: «quibus Lusitanum

nomen gratiosum non est.» Na Oração recitada em 1534 na Universidade

de Lisboa, o sabio humanista chama a attenção das intelligencias para

a direcção mental da Renascença, apresentando o exemplo da Italia,

da Allemanha, da França, da Inglaterra e Polonia.[168] Em Portugal

estava-se um pouco afastado d’este movimento litterario, mas o nome

portuguez resoava gloriosamente na Europa dominando nas principaes

escholas. Os Gouvêas, como pedagogos quer em Paris ou em Bordeus,

tinham por discipulos homens como Rabelais e Calvino, Montaigne e

Ignacio de Loyola; e Erasmo contava entre os seus principaes amigos

a Damião de Góes. Em breve destacaram-se da activa phalange dos

humanistas do seculo XVI, na Europa, os portuguezes André, Antonio,

Diogo e Marçal de Gouvêa (uma dynastia de pedagogos), Achilles Estaço,

Ayres Barbosa, André de Resende, Aleixo de Sequeira, Diogo de Teive,

Damião de Góes, Francisco de Fontes, Antonio Luiz, D. Francisco de

Mello, D. Fructuoso de Sam João, Jeronymo Cardoso, Jorge Coelho,

Henrique Caiado.

O humanismo italiano decaiu depois da tomada de Florença, appresentando

a França o esplendor dos estudos philologicos, pela acção que os

jurisconsultos como Cujacio, Hotman e Pithou exerceram pela analyse

dos textos do direito romano, tratando de recompôr a vida social

através da interpretação das leis. Era a applicação do methodo

juridico, exacto e severo, ás obras da litteratura para revelarem o

meio social. Como na Italia, o humanismo francez decahiu por causa

das guerras religiosas, e pelo empirismo secco e improgressivo

do ensino jesuitico. Esta situação do Humanismo, que se tornára

critico exercendo-se sobre os Livros biblicos, cooperou n’esse outro

phenomeno social da regeneração do christianismo tentada sob o titulo

de Reforma. Os humanistas, principalmente os da eschola hollandeza,

eram chamados _erasmistas_, para significar a sympathia que

sentiam pela revolução religiosa, tornando-os responsaveis das finas e

livres ironias de Erasmo. Assim como Ayres Barbosa e André de Resende

representam o humanismo italiano em Portugal, e Antonio de Gouvêa

e Diogo de Teive representam o Humanismo francez, o nosso grande

chronista Damião de Góes é o representante d’esse outro humanismo,

que desde Erasmo a Heinsius e Grotius, pela vida prática de uma san

democracia se identifica completamente com a comprehensão historica da

civilisação antiga.

A ideia e aspiração de uma reforma na Egreja, que se manifestou na

Allemanha pela simples aspiração a uma remodelação da hierarchia

sacerdotal, apparece no seculo XVI agitando muitos espiritos dentro da

orthodoxia: e assim um rei _catholico_ e outro _fidelissimo_

intervêm pedindo ao papa que tome essa iniciativa. É frequente

encontrar-se nos escriptores do principio do seculo XVI uma nota

satyrica contra a Egreja e o theologismo que se agarrava ás argucias

do scholasticismo medieval. E assim como Luciano, na dissolução do

polytheismo hellenico satyrisava os deuses, em França Rabelais dissolve

os velhos preconceitos do regimen catholico-feudal pelos sarcasmos

do _Pantagruel_ e de _Gargantua_, e o cavalleiro de Hutten

na _Epistolae Obscurorum Virorum_, abala o carcomido throno da

escholastica e da esteril theologia que atrophiavam a rasão humana.

Em Portugal é Gil Vicente o escriptor que se inspira com toda a decisão

no espirito critico d’esta primeira phase da Reforma. É sublime esta

grande alma, rebaixando-se á situação de actor (_auctor et actor_)

para dizer diante da realeza quanto era necessario actuar sobre a

hierarchia religiosa moralisando-a. São de uma audacia extrema os

seus versos contra Roma. Os eruditos da Renascença em Portugal eram

contrarios a Gil Vicente; mas ninguem como elle representou nos seus

Autos e Farças a vida nacional, e se inspirou mais ingenuamente d’essa

espontaneidade popular para exprimir a aspiração da sua época--a

reforma da Egreja, iniciada por ella propria.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 16 / 27 段