É hoje conhecida a novella portugueza da _Demanda do Santo Graal_, que

possuia D. João I, bem como a rainha Isabel a Catholica e o princepe

de Viana; é uma livre paraphrase da novella franceza _La tierce partie

de Lancelot du lac avec la Queste du Saint Graal et de la dernière

partie de la Table Ronde_. No seu texto fazem-se referencias á redacção

franceza de Robert de Boron, que seguira o paraphrasta portuguez.

D’este manuscripto, a que falta o principio, ha já uma grande parte

publicada pelo Dr. Reinhardsttoetner, que o copiou na bibliotheca

imperial de Vienna. É tambem da época de Dom João I a novella _Livro

de Joseph ab Arimathia intitulado a primeira parte da Demanda do Santo

Graal_; allude a este livro uma passagem do Cancioneiro de Resende em

que falla do Mestre Eschola e da novella (João Sanches, Mestre Eschola

de Astorga, que a mandára escrever.) Tambem no tempo de D. João I foi

lido em Portugal o poema inglez de John Gower, _A Confissão do Amante_,

que Roberto Payno traduziu para portuguez; formado de uma selecção

de contos francezes, de imitações de Jean de Meung, de extractos de

_Lancelot_, de _Amadas_, _Tristan_, _Partenopeus de Blois_, era mais

um vehiculo para nos relacionar com a vigorosa poesia da Edade media

franceza. Na Livraria do rei Dom Duarte, continuou a prevalecer a

sympathia por estes poemas, apesar de ir despontando já a admiração

pelos escriptores classicos. Ali se guardava o _Livro de Tristam_,

por ventura a redacção de Luce de Gast e de Helie de Boron; _Merli_,

que é uma das partes da Tavola Redonda, como se deprehende do exemplar

descripto no catalogo da livraria de Isabel a Catholica; o _Livro de

Galaaz_, que era a leitura favorita do Condestavel; a _Conquista de

Ultramar_, em que uma parte é imitada das aventuras do _Cavalleiro do

Cysne_. Ruy de Pina mostra a influencia d’esta novella na côrte de D.

João II: «antre os quaes ElRei para desafiar as justas que havia de

manter, veeo primeiro momo, envencionado _Cavalleiro do Cisne_ com

muita riqueza, graça e gentileza.»[146] Esta novella começada por Jehan

de Renault e terminada por Graindor, exalta Godofredo de Buillon entre

complicadas scenas de encantamentos e duellos.

As viagens dos monges bretãos, as narrativas do claustro de Cruenferl,

as lendas monasticas de Kadock, Barontus, e de _S. Brendan_

devassando as regiões do norte, contemplando as auroras dos polos e

vendo á superficie dos mares as magnificencias do creador, muitas

o muitas vezes seduziram a imaginação dos primeiros navegadores

portuguezes, attrahidos pelo maravilhoso da geographia antiga. É

admiravel a Odyssea monachal das viagens de _San Brendan_; na

_Chronica da Conquista de Guiné_ cita-as Azurara: «Bem he que

alguns deziam, que passara per ally _san Brandam..._»[147]

As _Ilhas encantadas_, da tradição celtica, surgem vagamente

na imaginação do povo portuguez, que se arroja ás descobertas. E

Camões, profundamente nacional, quando, representando no seu poema o

genio d’este povo, quer consolar os cansados navegantes recorre ao

sonho deleitoso da antiga geographia das Ilhas Fortunatas, Antilia

e Atlantida, no episodio da _Ilha dos Amores_. Egual seducção

com as lendas do _Preste João das Indias_, cuja Epistola desde

o seculo XII circulava na Europa entre as relações apocryphas de

Merlin e de Sam Brendan. Quando a nacionalidade portugueza esteve a

ponto de extinguir-se na incorporação castelhana, foram os sonhos

deliciosos do genio celtico que fortificaram no seu desalento este

povo atraiçoado pelo clero e pela aristocracia. O rei D. Sebastião,

que vivia emballado em sonhos novellescos de imaginarias conquistas,

ao precipitar-se para a catastrophe de Alcacer-kibir, fazia-se

acompanhar pela mesma fórma como os antigos monarchas saxões, que

entravam em combate seguidos pelos seus menestreis. O povo sympathisou

com este typo do hallucinado cavalleiro, idealisou-o na sua tradição,

guardou-o, á similhança do rei Arthur, tambem em uma ilha encantada,

d’onde o seu Merlin, Bandarra o sapateiro de Trancoso, prophetisou que

viria tornar Portugal liberto o _Quinto Imperio do Mundo_.[148]

O elemento celtico, que desde muito cedo differenciou Portugal

das populações hispanicas, manifestou-se pela sympathia por estas

ficções gallo-romanas, tornando-as como um dos estimulos da sua acção

historica.

_d_) A CULTURA LATINO-ECCLESIASTICA E HUMANISTA

O conhecimento das obras litterarias da civilisação greco-romana não se

obliterou completamente mesmo nos seculos mais perturbados da Edade

media; mas esta continuidade não contrariou as manifestações do genio

esthetico das raças que entravam na corrente historica. É certo que

quanto mais avançavam para a civilisação, mais se accentuava entre as

novas nacionalidades o antagonismo dos dois espiritos,--o _classico_,

reflexivo, disciplinado e harmonico, e o _romantico_ ou _medieval_,

espontaneo, pessoal e impetuoso. Magnin observa este facto: «de se não

poder encontrar na Europa um lapso de tempo de qualquer extensão em que

tivesse havido uma solução total de continuidade e de esquecimento

completo das tradições antigas. No emtanto, a verdade é, que durante

mais de dez seculos, um espirito novo, violento, inculto, posto que

subtil e delicado á sua maneira, o espirito do norte, emfim, prevaleceu

sobro o genio esgotado de Athenas e de Roma; mas, graças á Egreja, esta

vida potente e nova nunca abafou inteiramente a antiga.»[149] A Egreja

adoptando o latim para a sua liturgia e para a chancellaria papal, e

recebendo da patrologia grega os elementos dogmaticos da sua doutrina,

via-se forçada a manter diante da espontanea actividade dos espiritos

da Edade media o respeito pela civilisação polytheica, que ella

combatia. Nos varios seculos da éra medieval foram conhecidas as

tradições homericas, os poemas de Virgilio e de Ovidio, os tratados

philosophicos de Seneca, e mesmo algumas comedias de Terencio; mas a

Edade media apropriou-se d’elles, imprimindo-lhes o seu caracter,

assimilando-os como productos proprios. O _Renascimento_ ou renascença

do mundo classico, nos fins do seculo XIII com Petrarcha e Boccacio, e

que se continúa com deslumbramento no seculo XV, é esse phenomeno de

erudição e de critica que leva a descobrir o verdadeiro caracter da

civilisação greco-romana. É então que se estabelece o antagonismo dos

dois espiritos. Magnin descreve esse conflicto, que se observa nos

costumes, nas instituições e nas litteraturas: «Desde a sua nascença,

isto é, desde o fim do seculo V, a civilisação moderna foi submettida a

duas influencias em sentido contrario, a influencia do genio romano e a

do espirito do norte, dois elementos cuja opposição, bem que temperada

por um laço commum, o Christianismo, ainda hoje se faz sentir em todas

as controversias que nos agitam.» E conclue d’este dualismo

historico: «se a sociedade europêa existe ainda potente e vivaz depois

de mais de treze seculos, é por que ella preenche a condição a mais

indispensavel aos phenomenos da vida, a de ser o resultado de duas

forças, de dois elementos combinados. Depois da dissolução do Imperio

do Occidente até ao meado do seculo XV, quer dizer, durante o

intervallo ainda imperfeitamente estudado a que se chama _Edade media_,

a influencia da barbarie germanica augmentada, sob os ultimos

Carlingios, com a barbarie scandinava, dominou tudo. Depois do meado do

seculo XV, inversamente, o genio mais clemente da Grecia e da Italia

prevaleceu por toda a parte, mas desegualmente, e são estas

desegualdades mesmo que, mais do que o velho caracter indigena,

constituem a originalidade nacional da França, da Hespanha, da Italia,

da Inglaterra. Seria vantajoso levar até aos seus extremos a eliminação

de um d’estes dois elementos? A ter de optar, qual d’estes nossos dois

troncos originaes o menos esgotado e o mais rico ainda de seiva e de

futuro?--Ha, effectivamente, na sociedade moderna, homens e cousas que

mantêm a dupla e desegual feição da sua complexa origem. Ha homens de

natureza romana, e homens de natureza septemtrional. As letras e a

historia têm em todas as épocas apresentado energicos representantes

d’estas duas familias, estes leaes campeões dos instinctos do

septemtrião, aquelles fieis clientes da policia e da urbanidade

romanas.»[150] A alternancia d’estes dois elementos está ligada á

marcha da civilisação europêa, e acompanha a lucta dos dois Poderes. O

papado inicia as escholas das Collegiadas e chega á fundação do _Estudo

Geral_ para o ensino das Sete Artes. O nome de _latino_ é synonimo de

letrado, de culto e intelligente, d’onde se conserva ainda a expressão

vulgar de _ladino_; o _clericus_ destacou-se do leigo pelo uso do

latim, a linguagem da sciencia, dos altos dignatarios da Egreja, dos

embaixadores e dos homens de côrte, em contraposição com a linguagem do

vulgo, a que chamavam _romance_, como se vê em Benoit de Saint More,

na _Historia de Troya_:

Qui du _latin_ ou je la truis

se j’ai le sens e je le puis

je voudrai ci en _romans_ mettre...

Quando a linguagem vulgar passou a ser escripta, por essa nobilitação

litteraria foi chamada _ladina_; vêmos no _Leal Conselheiro_, do rei

D. Duarte: «e nom screvo esto per maneira scollastica, mas o que leeo

per livros de latym e de toda _lingua ladinha_, do que algũa parte

se me entende, concordo com a pratica cortezã na mais conveniente

maneira que me parece.» (p. 168.) A mesma ideia em Hespanha, como se

vê em Covarruvias: «la gente barbara de España llamava _latinos_ en

tiempo de los romanos á los que hablaban la lengua romana: e como

estos generalmente eran mas sabios que los naturales espanoles, quedó

el nombre de _latinos_ para los que entre elles eran menos bozales, e

de _latino_ se corrompiò facilmente en _ladinho_.»[151] O Poder real

tambem desenvolveu a cultura latina, pela restauração do Direito romano

e pelo estabelecimento das Universidades no seculo XIII. Assim como o

clerigo, o escholar tambem cultiva a lingua latina, e obedecendo ao

espirito sarcastico do seculo faz a parodia das orações e hymnos da

Egreja e dos processos das basilicas ou Curias; fórma-se uma classe

intermedia aos eruditos latinistas e ao povo, a dos _Goliardos_,

que vagam pelas tabernas e empregam as fórmas da poesia popular,

como se vê nas _Carmina Burana_. Existem Pastorellas latinas que são

moldadas nos typos populares occidentaes. A elaboração épica tambem se

apropriou dos themas greco-romanos para as Gestas heroicas; o troveiro

Jean Bodel, define esta classe de assumptos épicos: «De _France_, de

_Bretagne_ et de _Rome la grand_.» Apparecem-nos gestas germanicas sob

as fórmas latinas como o _Waltharius_, e os poemas homericos acham-se

transformados segundo a concepção medieval no _Roman de Troye_, de

Benoit de Sainte More. No romance de _Flamenca_, enumeram-se os

principaes assumptos eruditos que celebravam os jograes: «Um canta de

_Priamo_, outro de _Piramo_; outro da bella _Helena_, como Paris foi

á sua procura e depois a trouxe; outro canta de _Ulysses_, outro de

_Heitor_ e de _Achilles_. Outro canta de _Eneas_ e de _Dido_, como

ella ficou por elle triste e desolada; outro cantava de _Lavinia_

... de _Apollonice_, de _Tideu_, de _Etidiocles_... Um canta do

rei _Alexandre_, outro de _Ero_ e de _Leandro_. Um diz de _Cadmo_ e

sua fuga, e de _Thebas_ como se edificou. Outro cantava de _Jason_

e do _Dragão_; outro de _Philis_ como attenta contra si por amor de

_Demophonte_. Um diz como o bello _Narciso_ se afogou na fonte em

que se mirava. Um diz de _Plutão_ como roubou a _Orpheo_ a sua bella

esposa... Um canta de _Julio Cesar_ como passou sósinho o mar sem

implorar nosso Senhor, por que não conhecia o medo.»[152] Muitos

d’estes poemas existem manuscriptos: na Livraria do rei Dom Duarte

guardava-se a _Historia de Troya_, o _Alexandre_ e _Julio Cesar_.

As lendas de Troya, conhecidas no seculo IX por Macelas, no X por

Constantino Prophyrogeneta; por Suidas no seculo XI, e no XIII por

Constantino Manassés, João e Isac Tzetzés, entraram na corrente das

Escholas Geraes, vulgarisando-se d’ahi para os troveiros. Tambem os

chronistas das novas nacionalidades iam entroncar em Troya a origem

dos povos e estados que historiavam. Os Francezes attribuiam as suas

origens aos Troyanos, como affirmam os chronistas Fredegario, Roricon,

Paulo Warnfried, chegando Dagoberto a declarar em um documento: «_Ex

nobilissimo et antiquo Trojanorum reliquarum sanguine nati._» Luiz

XII na batalha de Ravena usa a divisa: _Ultus avos Trojae_. Tambem

para mostrar a superioridade da Inglaterra sobre a Escossia, Eduardo

III allega ao Papa a sua origem troyana; Veneza, como outr’ora Roma,

considerava um dos seus bairros povoado por foragidos troyanos.

A historia de Portugal tambem se fundou por muito tempo sobre as lendas

de Troya, de varios heroes gregos e patriarchas biblicos; era corrente

a ideia de que _Tubal_ viera ás Hespanhas e fundára Setubal, e _Elysa_,

neta de Noé, fundára Lisboa. Transcrevemos uma pagina caracteristica

d’este systema de historia: «na mais bem apurada chronologia, a _Elysa_

e não a _Luso_, filho ou companheiro de _Baccho_, nem a _Ulysses_, se

deve verdadeiramente attribuir a primeira fundação d’aquelle celebre

emporio do mundo, e a primeira origem dos Luzitanos; pois tudo o mais

que dos outros fundadores posteriores se escreve, dado que assim

succedesse, foi reedificação e augmento e não primeira origem.»[153]

N’esta citação se alludem a todas as lendas greco-romanas, sendo a que

teve mais voga e chegou á transmissão popular a da vinda de _Ulysses_ á

Luzitania e a sua fundação de Lisboa. A fundação da cidade do Porto foi

attribuida por Fr. Bernardo de Brito a _Diomedes_, que veiu á Hespanha

depois de incendiada Troya; e Salgado de Araujo attribuia a mesma

fundação a _Meneláo_, firmado no dizer de Virgilio, de ter-se Meneláo

desterrado depois da guerra troyana para as columnas de Pretheo. A

aldêa de Fão era attribuida á fundação de Phano, rei da ilha de Chio;

um outro erudito, do seculo XVIII, dava como fundador do Porto o

princepe _Callais_, filho de Boreas, rei da Thracia e um dos mais

celebres argonautas. Para os jograes e troveiros por certo influiram as

obras dos pseudo-Dares, pseudo-Ditys e pseudo-Calisthenes; mas para os

chronistas deve essa série de explicações phantasmagoricas derivar-se

dos tratados e dissertações do imaginoso dominicano Anio de Viterbo.

É curioso o reflexo d’este syncretismo na epopêa dos _Lusiadas_, que

tambem diz de _Ulysses_: «se lá na Asia _Troya_ insigne abrasa,--Cá na

Europa _Lisboa ingente funda_.»

O poema de _Alexandre_ era uma das joias da livraria do rei

D. Duarte; no seculo XI um medico de Constantinopla, Simeão Seth,

traduziu para grego a _Historia Alexandri magni regis Macedoniae, de

Proeliís_, que n’esta fórma latina veiu acordar a imaginação dos

troveiros, já como o primeiro modelo da _Vida de Carlos Magno_

attribuida a Turpin, já como norma da chronica do rei Arthur de

Geoffroy de Monmouth e do poema francez _Alexandre_ de Lambert li

Cort. No seculo XVI foi conhecido em Portugal na sua fórma originaria,

em lingua persa; D. João de Castro pedira a Aleixo de Carvalho em 1546,

que lhe procurasse uma _Historia de Alexandre_; dirigiu-se este a

Luiz Falcão, que a obteve do goazil Hemires.[154] Fallando das origens

orientaes da _Historia de Alexandre_, diz Berger de Xivrey,

nas _Traditions Tératologiques_: «além da descripção de muitos

paizes, uns tratavam da viagem ao paraiso, outros da correspondencia

com a rainha das Amazonas, com Didimus ou Lyndimus, rei dos Brachmanas;

digressões de antigos textos gregos e orientaes.»[155] Na livraria de

Jehan de Bourgogne, conde d’Estampes, guardava-se tambem uma _Guerra

de Macedonia_, escripta por Jehan Nanquelin «selon ce que je l’ai

trouvet en ung _livre rimet_, dout je ne sais pas le nom de

l’aucteur, fors qu’il est intitulé _histoire Alixandre_.»[156]

Producto do perstigio das tradições greco-romanas na Edade media é a

_Historia do Imperador Vespasiano_, que Herculano classificou

como o monumento mais curioso da arte typographica em Portugal no

fim do seculo XV; descreve-a da seguinte fórma: «A _Historia de

Vespasiano_ consta de vinte e nove capitulos, nos quaes se tratam

varios feitos d’aquelle imperador e de seu filho Tito e outros que

dizem respeito ao christianismo e á morte de Archeláo e Pilatos.--Fecha

a obra por uma subscripção em que se diz ser impressa por Valentim de

Moravia em Lisboa, no anno de 1496.»[157] E em outro logar desenvolve:

«Esta _Historia de Vespasiano_ não é senão uma novella de

cavalleria pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na verdade,

alguns factos historicos; mas os costumes e as particularidades da

narração não passam de meras ficções. Que a obra seja uma traducção

não nos parece duvidoso. Na subscripção d’ella se diz que fôra ordenada

por Jacob e Joseph ab Arimathia, que a todas aquellas cousas foram

presentes. Isto indica bastantemente a origem estrangeira do livro.

Se, porém, nos lembrarmos de que José de Arimathea figura nos romances

do _Santo Graal_, como tendo recebido o sangue de Christo n’esse

celebre Vaso, é naturalissimo que o novelleiro, auctor da _Historia

de Vespasiano_ se lembrasse de lhe attribuir a propria composição,

tanto mais que era quasi como lei entre os romancistas, dar uma origem

mysteriosa ou ao menos remota ao fructo de suas imaginações. Accresce

para mais fundamentar a nossa opinião, que M. Fauriel menciona uma

_historia-romance_ da destruição de Jerusalem por Vespasiano

escripta em provençal, e que elle classifica como livro connexo com o

cyclo das novellas do _Santo Graal_.»[158]

No celebre manuscripto da _Corte Imperial_, capitulo IX, cita-se

um poema erudito o _Ovidio da Velha_, escripto no seculo XIV

em latim com o titulo _De Vetula_, por Richard de Fournival, e

traduzido para verso francez pelo mesmo tempo por João Lefèvre. Ovidio

e Virgilio foram os dois poetas queridos da Edade media; Virgilio era

tido como o oraculo de toda a sciencia, vendo os theologos n’elle um

propheta, e os jurisconsultos um interprete das leis; Ovidio foi mais

popular, por que as suas _Metamorphoses_ seduziam as imaginações,

e os prégadores moralisavam sobre os seus versos. A predilecção extrema

por Ovidio deu causa a uma immensidade de obras apocryphas, das quaes

o poema _De Vetula_ é um d’esses contos attribuidos no seculo XIV

e XV ao poeta. Eis o trecho da _Corte Imperial_: «bem sabedes que

hun grande poeta muy genhoso e muy sotil ante os outros poetas foy o

que ouve o nome _Ouvidio Naso_ e foi gintil. E este fez muitos

livros antre os quaes antes da sua morte compos hun livro que chama

_Ouvidio da velha_, e este livro foy achado em no seu muymento

cõ os seus ossos en hua cansela de marfim.»--«todas estas cousas

sobreditas que dise o poeta Ouvidio Naso som scriptas em aquele seu

livro que chamam _Ouvidio da Velha_, o qual vós diviades a saber

pelas quaes cousas bem parece que este poeta gintil asás profetizou de

Jehsus xpõ e da sua ley e rraramente segundo avedes ouvido.» No canto

III do poema é que se encontra a referencia da _Corte Imperial_

relativa á influencia dos planetas no apparecimento das religiões. Como

viria para este paiz o poema de Richard de Fournival?

Na côrte do rei D. Duarte já predominava a paixão pelas obras da

antiguidade; no _Leal Conselheiro_ conta as boas conversas que

elle e seus irmãos tinham com o rei seu pae; discutia as regras para

se traduzirem bem as obras classicas; o infante D. Pedro traduziu

para portuguez o livro _De Officiis_ de Cicero, e compilava na

_Virtuosa Bemfeituria_ trechos dos moralistas romanos e dos padres

da egreja. As tragedias de Seneca eram lidas por Azurara, na livraria

de D. Affonso V, herdada de D. Duarte. Essa erudição apparatosa

apparece na encyclopedia moral chamada o _Leal Conselheiro_; o

rei D. Duarte falla já com certo desdem da leitura das novellas: «cá

se o leeren ryjo, e muito juntamente, _como livro de estorias_,

logo desprazerá, e se enfadarom del, por o nom poderem entender nem

renembrar...» (p. 500.) Dos Contos da Edade media ou _Exemplos_,

de que a _Gesta Romanorum_ era a mais afamada collecção, falla

tambem com desdem o rei D. Duarte: «E daquesta guysa erramos per

este desassessego: se no tempo de orar e ouvir oficios divinos,

nos conselhos proveitosos, fallamentos ou desembargos, levantamos

_estorias_ recontando longos _exempros_.» (p. 192.) E falla

das novellas como simples diversão: «para despender tempo ou se

desenfadar com o livro _d’estorias_ em que o entendimento pouco

trabalha por entender ou nembrar.» (p. 7.) No _Leal Conselheiro_

encontra-se o exemplo das _Duas barcas_, (p. 447) e o do _Filho

prodigo_ (p. 61) tão vulgarisado em todas as fórmas da arte da

Edade media. A norma do _Exemplo_ é o conto popular introduzido

nos sermões a pretexto de pela lisonja do gosto tradicional incutir

uma noção de moralidade. A Reforma acabou com os _Exemplos_ nos

sermões; Calvino, na Epistola a Sadoleto, diz que uma parte dos sermões

se gastava: «_em fabulas divertidas_ e especulações recreativas

para excitar e mover o coração do povo á jovialidade.»

Só no seculo XVI é que Gonçalo Fernandes Trancoso, deu redacção

litteraria a Exemplos e Contos da Edade media, não com o espirito

secular e revolucionario de Boccacio, Sacchetti ou Fiorentino, mas com

um intuito catholico de moralisação. Foi principalmente das fontes dos

novellistas italianos que elle se serviu.

Tanto na litteratura hespanhola como na portugueza os ramos

interminaveis do _Roman du Renart_ não chegaram a lançar a sua

efflorescencia; o rigorismo catholico e auctoritario n’estes dois

paizes, não deixaria elaborar esse poema de revolta; escreve Du Méril:

«Nos poemas do _Renart_ não podia haver outra superioridade real senão a

argucia e a força, d’onde resultavam tendencias democraticas e

anti-clericaes, que os impediriam de adquirir uma grande popularidade

nos paizes aristocraticos ou profundamente catholicos. Tambem os

inglezes, os hespanhóes e os italianos não tiveram poemas do

_Renart_.»[159] Em Hespanha o _Renart_ é conhecido com o nome de

_Guinarda_, e em Portugal com o de _Golpelha_(de Vulpecula), e em um

Auto de Jeronymo Ribeiro falla-se em _Raposias_, no sentido de logro

e de argucia.

O cyclo immenso da epopêa burgueza de _Renart_ divulgou entre o

povo um grande numero de anexins, já pela antiga fórma metrica, já

pelas situações comicas a que alludem; encontramos nos escriptores do

seculo XV, e mais frequentemente do seculo XVI:

O Lobo e a _Golpelha_

Fizeram uma Conselha.

A _Golpelha_ (diminutivo de vulpes) é a pequena raposa ladina; na

linguagem castelhana a _Conseja_ ou Conselha é a designação vulgar

do conto tradicional. Um outro anexim:

Da pele alhea

Grande corrêa,

que é commum a Portugal e aos poemas francezes da Edade media, deriva

de um episodio do _Roman du Renart_: «O Leão, diz Fleury de

Bellingen, achando-se afflicto com uma grande febre, mandou chamar a

Raposa, para saber se no seu conselho poderia ter remedio a sua doença;

a Raposa fingindo de medico, lhe disse, que para sua cura precisava

cingir os rins com uma larga cinta tirada de fresco da pele de um Lobo.

Seguindo esta receita, o Leão doente mandou chamar um Lobo, ao qual a

Raposa cortou ao longo do dorso uma comprida e larga corrêa. O Lobo com

as dores uivava desesperado, clamando: Ah, senhora Raposa, da pele que

não é vossa tiraes larga corrêa.--D’aqui ficou o proverbio.»[160] Este

antagonismo entre o Lobo (_Ysengrin_) e a Raposa (_Trigaudin le

Renart_) apparece bem accentuado em outro anexim portuguez: «Com

cabeça de lobo ganha a raposa.» E na farça do _Clerigo da Beira_,

diz tambem Gil Vicente:

Mas são _Lobos_ para mochos,

E _Raposas_ de nação.

(II, 236.)

Uma variedade ou segunda elaboração do _Renart_ é o _Roman de

Fauvel_, em que ha um intuito moral: _Fauvel_ representava as

vaidades do mundo; todos vinham para elle com intuito de o montarem,

mas cahiam estatelados; d’aqui a acção resumida no anexim do seculo

XV: _Tel estrille Faveau, qui puis le mort_, e tambem o titulo

abreviado _Estrille-Fauvel_. Dois anexins portuguezes parecem

derivar-se d’este poema medieval, alludindo á difficuldade de montar o

cavallo-_Fauvel_: «Cavallo-_fouveiro_, á porta do alveitar,

ou de bom cavalleiro.» A locução: «_Montar o cavallinho_,» exprime

o conseguir uma cousa difficil. Tambem em francez: _Piquer le

Renart_, significando beber em jejum, é um modismo ultima diluição

dos episodios da grande epopêa burgueza.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 15 / 27 段