obscuridade foram desenvolvidos em lendas, que se ampliaram depois
em phantasias poeticas; esses dados historicos resumem-se em dois
factos, um _politico_, que se refere ás luctas com que o rei Arthur
sustentou a liberdade nacional da Bretanha contra a invasão dos
Saxões; o outro é _religioso_, consagrando a resistencia com que a
Bretanha se considerava christã pela doutrinação evangelica de Joseph
ab Arimathia, e por tanto independente da Egreja de Roma á qual se
tinham convertido os Saxões. Tal é o dado essencial dos poemas do
_Santo Graal_ e da Cavalleria celeste, que deriva d’essa autonomia
das Egrejas nacionaes da Francia meridional e da Hespanha, que se
consideravam proto-cathedricas. Foram os Normandos que se apropriaram
d’estes germens épicos da Bretanha insular e lhe deram o brilhantismo
com que seduziram o mundo; e por isso mesmo que essas tradições não
eram suas, mais as diluiram no vago, no maravilhoso, fazendo o
syncretismo de todas as ficções provenientes de varios povos pelo
encontro das Cruzadas, pelas relações com os Arabes, pela leitura da
Biblia e dos escriptos dos rabbinos convertidos e já pela erudição
da Antiguidade classica.[132] Os Normandos, occupando a Inglaterra,
pareciam aos Bretãos como que os seus vingadores sobre os seus antigos
dominadores Saxões: «os Bretãos não estiveram longe, se dermos credito
a algumas indicações contemporaneas, de vêrem no vencedor de Harold
um libertador, quasi uma incarnação do rei Arthur. Os companheiros de
Guillaume podiam então acceitar, como cantos de sua propria gloria,
as tradições poeticas creadas pelo odio ao Saxão que elles acabavam
de vencer pelas armas, mas que não estavam ainda subjugados nem
socialmente, nem politica, nem religiosamente. Qualquer que fosse a
sympathia que os novos conquistadores pudessem sentir pela poesia das
populações indigenas, qualquer que fosse a relação que taes lendas
pudessem ter com o seu proprio genio, elles eram sempre estrangeiros,
estrangeiros orgulhosos, e arrogando-se o direito de tratarem como
senhores a litteratura bretã. A lingua empregada n’esta litteratura
não lhes era familiar, a significação d’estas tradições era para elles
obscura, e não comprehendiam bem o alcance philosophico e patriotico;
não penetravam todo o conjuncto dos cantos dos bardos, e o vago que
era inherente a estes cantos tornava-os mais obscuros, e para elles
os fazia ainda mais ideaes.»[133] Era esta situação que dava aos
troveiros normandos a liberdade de crearem sobre vagos nomes de heroes
e de symbolos nacionaes essa riqueza phantastica dos poemas da _Tavola
Redonda_ e do _Santo Graal_, confundindo com figuras historicas fadas,
gigantes, anões e adivinhos, animaes monstruosos, dragões, bebidas
magicas e philtros amorosos, encantamentos, e poderes talismanicos das
espadas invenciveis. Compondo especialmente para as côrtes, exaltavam
a galanteria e tornavam-n’a o culto da mulher, aproveitando assim a
tendencia iniciada pela idealisação dos trovadores. O symbolismo da
Cavalleria, dos passos de armas, dos torneios, dos votos denodados,
lisongeava a paixão dos Barões feudaes, que iam decahindo diante
da crescente dictadura monarchica. E como as Cruzadas acabavam, a
imaginação dos nobres precisava de uma outra cruzada, a da Cavalleria
celeste em procura do _Santo Graal_, vindo assim a confundirem-se
os dois cyclos poeticos, mais mysticos nos poemas dos minnesingers
allemães, mais guerreiros e amorosos entre os troveiros francezes. Essa
fecundissima actividade poetica que veiu sobrepôr-se á imitação das
Canções dos trovadores e á attenção pelas Gestas frankas, espalhava por
toda a parte os romances da Tavola Redonda, em prosa: o _Santo Graal_ e
_Demanda do Santo Graal_, o _Tristão_, _Lancelot_, _Merlin_, _Morte de
Arthur_, _Giron le Courtois_, _Palamedes_, _Meliadus_; e em verso os
romances do _Perceval le Gallois_, _La Charrette_, _Chevalier au Lion_,
_Erec et Enide_, _Cliges_, _Loucura de Tristão_, _Frejus_, _Jaufre_,
_Atre périleux_, _Claris et Laris_, _Chevalier à l’Epée_ e _La Dame à
la licorne_.
Todas estas ficções lidas e escutadas nas côrtes tendiam a confundir-se
na imaginação produzindo situações romanescas, que vieram depois a
constituir uma nova fórma de idealisação--a Novella de Cavalleria, de
que o typo fundamental é o _Amadis de Gaula_. Os nomes dos personagens
d’estes poemas foram adoptados na sociedade civil em Portugal, e é
frequente encontrarem-se nos Nobiliarios as _Viviana_, _Iseu_, _Ausea_
ou _Ausenda_ (de Yseult), as _Ginebra_ (de _Gwenivar_), as _Briolanja_
(Brengienne), os _Arthur_, _Percival_, _Lisuarte_, _Lançarote_,
_Tristão_, desde o seculo XIV até ao fim do seculo XV. Que prova mais
evidente do interesse que produziram em Portugal os poemas da Tavola
Redonda.
Esta nova corrente litteraria e erudita veiu interromper a elaboração
e a propagação das Gestas frankas: em 1155 estavam as Gestas no seu
esplendor e fecundidade, quando appareceu o _Roman de Brut_, de
Robert Wace, d’onde diffluiram depois todos os romances da Tavola
Redonda. A Bretanha insular e a Armorica provindo de uma mesma origem,
collaboraram diversamente n’estes poemas que tiveram por centro o rei
Arthur; as tradições bardicas e mesmo christianisadas conservaram-se
nas populações insulares, mas só foram desenvolvidas litterariamente
pelos troveiros normandos ou continentaes. Foi assim que a Inglaterra
recebeu a sua materia poetica elaborada artisticamente pelo genio
gallo-bretão. Paul Meyer fundamentou este facto: «que o francez
tendo-se implantado em Inglaterra depois da conquista, a litteratura
das classes elevadas foi, durante mais de dois seculos, inteiramente
franceza, não só pela origem, como pela lingua.»[134]
O _Roman de Brut_, de Robert Wace, acha-se aproveitado como
documento historico pelo Conde Dom Pedro no seu _Nobiliario_,
fazendo a genealogia e contando o nascimento do rei Arthur:
«E hum dia teue corte (o rei Uterpandragon) e forom hi todos seus ricos
homeens com sas molheres. E veo hi hum Conde de Cornoalha e trouve hi
sua molher que avia nome Ygerna, e veo muy bem afeitada e muy ricamente
aparelhada, e ella era a mais fermosa molher de toda a terra. E quando
vieerom aa mesa hu se assentou elrrey a comer oolhoua elrrey e nom
pode mais comer, tanto se pagou d’ella, e nom fazia all senon oolhala
dos olhos. E pensou em seu coraçom que se com ella nom jouvesse que
morria. Este Conde seu marido soubeoo e levantou-se da mesa com sa
molher e foysse para huum seu castello que avia nome Tinteol. E elrrey
foyo cercar com toda sua oste, e emviou por _Merlin_ e veo a
elle por seu comsselho e ouve elrrey por molher esta dona, e ouve
della huum filho que ouve nome _Artur_ o que disserom _Artur
de Bretanha_, onde ouvistes fallar que foy muy boo.»--«Morreu
Uterpandragom e rreynou seu filho Artur de Bretanha, e foy boo rey e
leal, e conquereu todollos seus emmiigos e passou por muytas aventuras
e fez muytas bondades que todollos tempos do mundo fallarom delle. Este
rrey Artur fez huum dia em Chergeliom (Caerleon) sa cidade cortes. E
estas cortes forom muy boas e muy altas. A estas cortes veerom doze
cavalleiros messageiros que lhe enuiaua Luçius Liber que era emperador
de Roma que sse fezesse seu vassallo rey Artur e que teuesse aquella
terra de sua mãao. E se esto não fezesse que lhe mandaria tolher a
terra por força e que faria justiça de seu corpo. Quando esto ouviu
o rrey Artur foy muito irado e mandou chamar toda sa gente que armas
podiam levar. E quando foy a Sam Miguel em monte Gargano combateosse
com o gigante que era argulhoso e vençeo e matou; o Luçius Liber
quando soube que rey Artur hia sobre elle chamou sa oste e toda sa
gente e sayolhe ao caminho. E lidarom ambos e vençeo elrrey Artur foy
arrancando ho emperador. E elrrey Artur quando moveu da Bretanha por
hir a esta guerra leixou a sa terra a huum seu sobrinho que havia nome
Mordech.»--«Este Mordech que avia a terra em guarda do rrey Artur e a
molher quando elrrey foy fóra da terra, alçousse com ella e quislhe
jazer com a molher. E elrrey quando o soube tornousse com sa oste o
veo sobre Mordech. E Mordech quando o soube filhou toda sa companha e
sayo a ella aa batalha. E elles tiinham as aazes paradas para lidar
no monte Cambelet, e acordousse Mordech que avia feito grande traiçom
e se entrasse na batalha seria vençido. E enviou a elrrey que saysse a
departe e falaria com elle, e elrrey assy o fez. E elles que estavam
assy em esta falla sayo huma gram serpente do freo a elrrey Artur, e
quando a vyo meteo mãao aa espada e começou a encalçalla e Mordech
outrossi. E as gentes que estavam longe viram que hia huum apos ho
outro, e foramsse ferir humas aazes com as outras e foy grande batalha,
e morreu Galuam (_Gauvain_) o filho do rrey Artur, e huma espadada
que trazia sobressada, que lhe dera _Lançarote do Lago_ quando
entrara em reto ante a cidade de Ganes. Aqui morreu Mordech e todollos
boos caualleiros de huma parte e de outra. Elrrey Artur teue o campo e
foy mal ferido de trez lançadas e de huma espadada que lhe deu Mordech,
e fezesse levar a _Islaualon_ (ilha de Avalon) por saar. D’aqui
em diante nom fallemos d’el se he vivo se he morto, nem _Merlin_
nom disse del mais, nem eu nom sey ende mais. _Os bretões dizem que
ainda he vivo._»[135] Vê-se por este trecho, que o Conde D. Pedro
estava ao facto da litteratura da Tavola Redonda seguindo o _Roman
de Brut_, de Robert Wace, e referindo-se ás outras composições dos
troveiros normandos, _Merlin_ e _Lançarote do Lago_, que
ainda no seculo XV citava o chronista Azurara. Estava esta litteratura
artificiosa em harmonia com os habitos da côrte do rei Dom Diniz,
e facilmente se apoderou da predilecção dos trovadores portuguezes;
Estevam da Guarda, favorito de Dom Affonso III, falla em uma canção dos
amores de Merlin com a fada Viviana:
Como aveo a _Merlin_ de morrer
per seu gram saber, que el foy mostrar
a tal molher, que o soub’enganar...
.........................................
E o que lhe é muyto grave de teer
por aquelo que lh’el foy mostrar,
en estar com quem sabe que o pod’ensarrar
en tal logar hu convem d’atender
a tal morte da qual morreu _Merlin_
hu dará vozes fazendo ssa fin,
ca non pode el tal morte escaecer.
(Canção n.^o 930.)
O conhecimento das prophecias e aventuras de _Merlin_ transparece
no Poema de Affonso Onzeno, e na livraria do rei D. Duarte vem
catalogado o livro de _Merli_ (do bretão _Myrdhinn_.) No
_Cancioneiro geral_, de Resende, falla Diogo de Pedrosa na lenda
dos amores do propheta bretão:
O que foy d’esse _Merlyn_
E d’outros antes d’aguora,
Ysso ade ser de mym
Por vossa filha senhora.
(Fl. 57.)
As allegorias do _Leão dormente_ e do _Porco selvagem_, que
das prophecias de Merlin passaram para o poema da batalha do Salado,
tambem se reflectem nas prophecias de Bandarra no seculo XVI, da mesma
fórma que a lenda da immortalidade e vinda do rei Arthur para vingar
a raça bretã, se personificou em D. Sebastião, vivendo em uma ilha
encantada para vir fazer de Portugal o _Quinto Imperio_ do mundo.
Junto com o livro de _Merlin_ andava tambem o poema de _Tristão_, nos
manuscriptos da Edade media. Na côrte de Dom Diniz era _Tristão_
considerado o typo ideal do namorado, e o proprio monarcha trovador diz
que o excede:
Qual mayor poss’e o muy namorado
_Tristã_, sey ben que non amou _Iseu_,
Quant’eu vos amo, certo sey eu...
(Canç. n.^o 115.)
E compara-se tambem a outro modelo dos amantes exaltados, idealisado no
romance de _Flores e Brancaflor_, que se liga pelo encadeamento
cyclico ás gestas carlingias. Os trovadores provençaes citavam esse
typo do namorado:
Quar plus m’en mi abellida
Non fis _Floris_ de _Brancaflor_[136]
E o rei Dom Diniz empregava a mesma comparação:
Qual mayor poss’e o mays encoberto
que eu poss’e sey de _Brancha frol_,
que lhi non ouve _Flores_ tal amor
qual vos eu ey;..............
O thema da fidelidade no amor tornou-se quasi exclusivo nos poemas de
aventuras, em que degeneraram os da Tavola Redonda; sobre o sentimento
de _fidelidade_ se elaboraram os poemas _Meliadus de Leonys_, _Frejus
et Galienne_, _Claris et Laris_, _Helias_, _Chevalier de la Charrette_,
_Partenopeus de Blois_, destacando-se d’entre todos elles pelo seu
exagero vertiginoso os poemas de _Amadas et Ydoine_, conhecidos na
Hollanda, Allemanha, Borgonha, Inglaterra, Hespanha e Portugal já nos
fins do seculo XIII. Em varios fableaux apparece frequentemente citado
o nome de _Amadas_, como o ideal da fidelidade em amores; não admira
que sobre este rudimento novellesco, se agrupassem todas as aventuras
da fidelidade amorosa dos poemas conhecidos na côrte de D. Diniz,
dando a novella em prosa do _Amadis de Gaula_. De toda essa elaboração
poetica dos troveiros normandos, conhece-se hoje apenas dois poemas,
o _Amadas et Ydoine_, por Jean de Mados, e _Sir Amadace_; mas além
d’estas versões franceza e ingleza, é crivel que existissem pelo menos
uma outra neerlandeza anterior a 1290, e uma allemã. De uma versão
que chegou á côrte de Dom Diniz é que Lobeira (João, antes de Vasco)
elaborou por amplificação e syncretismo a novella de _Amadis de Gaula_,
que por seu turno conquistou todas as imaginações na Europa, mesmo na
época da Renascença. O phenomeno litterario de um poema em verso, quer
seja _Amadas et Ydoine_, _Sir Amadace_, ou qualquer outra redacção
passar á prosa de uma extensa novella como o _Amadis de Gaula_, era
frequente na Edade media. O poema de _Blanchefleur_ converteu-se na
mão de Boccacio no _Filicopo_, novella desenvolvida largamente á custa
da simplicidade primitiva do poema. D’este facto conclue Du Méril: «Os
habitos litterarios da Edade media complicam desgraçadamente todas as
questões de origens com difficuldades insoluveis, se se não deixar ao
sentimento o tirar as conclusões, quando escaceando os dados precisos,
o raciocinio se dá por incompetente.»[137] Quem escreveu a Novella
tinha presente na imaginação as situações dos romances que então mais
lisongeavam o gosto da aristocracia no seculo XIV; poz em prosa as
aventuras cavalheirescas mais conhecidas e sympathicas, e attribuiu-as
a um mesmo typo, tambem já conhecido e idealisado em varios poemas
em verso. Originalidade poetica, nenhuma litteratura da Edade media
a tem, nem mesmo a franceza: os themas tradicionaes são communs a
este syncretismo das raças. O que interessa na novella do _Amadis de
Gaula_ é a fórma em prosa, e essa é um producto que mais caracterisa a
litteratura medieval portugueza.
Na discussão da origem do _Amadis_ o sabio Victor Le Clerc
assentou o problema definitivamente: «a primeira redacção do famoso
_Amadis de Gaula_, que todavia não é, como se vê pelo texto mais
antigo hoje conhecido o hespanhol, senão uma imitação prolixa dos
poemas da Tavola Redonda e dos Romances de aventuras, taes como o nosso
romance de _Amadas_.»[138] N’este monumental Discurso, escreve:
«Nos _Amadises_, os quaes são _derivados dos Lancelot e dos
Tristãos_, e aonde se tem querido vêr o ideal do amor cavalheiresco,
a bella Oriana concede tudo antes do tempo tanto esperado em que os
imperadores e os reis hão de vir assistir ás nupcias.»[139] E apresenta
o problema da origem litteraria com toda a segurança:
«Quando o poema francez de _Amadas_, que em 1365 fazia parte
dos livros de um conego de Langres e que ainda subsiste, tiver sido
vulgarisado; quando o poderem comparar ao _Amadace_ inglez,
áquelle bravo, que os fragmentos publicados em 1840 e 1842, segundo
differentes textos manuscriptos, concordam em represental-o como o mais
brilhante modelo de lealdade, de bravura e de respeito cavalheiresco;
quando principalmente se fizer uma ideia mais justa e mais completa
da alluvião de romances em prosa que, nos primeiros cento e cincoenta
annos da imprensa, para corresponder, tanto em Hespanha como em França,
ao enthuziasmo da moda, multiplicaram á compita os nossos antigos
poemas, alongando-os com digressões importunas, conversas alambicadas,
com uma ampla brigada de gigantes, fadas, encantadores, será então
occasião de perguntar, se foi sem fundamento ou se com rasão que o
velho traductor francez do _Amadis_ hespanhol, Herberay des
Essarts, nos disse que descobrira _alguns fragmentos escriptos á mão
em lingua picarda_, e de decidir se este romance de aventuras, cujo
plano pouco se prestava aos embelecos do perfeito amor, por isso que
começa por onde outros acabam, nasceu em Portugal, em Hespanha ou em
outra qualquer parte.»[140] Du Tréssan, já no seculo XVIII, resumindo
esta novella do _Amadis de Gaula_, tambem declara ter visto
na Bibliotheca do Vaticano, o antigo poema no fundo que pertencera
á rainha da Suecia, cujo exame lhe fôra facultado pelo cardeal
Querini.[141] Da mesma opinião de Le Clerc é Littré: «_Amadas_
lembra o cyclo dos _Amadises_, que certamente hespanhol no
seculo XV, tem por ventura ligações com mais antigas composições
francezas.»[142]
Dando-se a transformação de um poema versificado para prosa dramatica e
descriptiva, com o intuito de ampliar um thema favorito, as analogias
entre as duas composições não devem ser procuradas na fórma mas no
pensamento e situações que o desenvolvem. A novella de _Amadis de
Gaula_ foi lida e admirada durante toda a Edade media pelo vigor do
thema da fidelidade dos dois amantes _Amadis e Oriana_; o romance de
_Amadas et Ydoine_ foi egualmente inspirado pelo mesmo sentimento
de fidelidade. Identidade completa de thema: tanto _Amadas_ como
o _Amadis_ servem na côrte de um rei, por cuja filha _Ydoine_ ou
_Oriana_ (temos a fórma _Idana_) se apaixonam, e para merecerem-a vão
nobilitar-se nas armas para serem primeiramente armados cavalleiros.
É durante as longas e arriscadas aventuras que tanto o donzel como a
filha do rei se mostram animados de uma sublime fidelidade, terminando
a acção por se unirem como sonhavam. Na redacção em prosa, tanto pelo
seu caracter como pelo gosto do tempo, os innumeros episodios, as
historias genealogicas e os longos discursos fazem esquecer a simples
trama, que facilmente se aproximaria da versão poetica d’onde tirou os
elementos originarios. _Amadis_, apezar da nobreza do seu nascimento,
teve uma infancia obscura, e sómente pelo seu garbo e gentileza é que
foi tomado pelo rei Languinés de Escossia para a sua côrte; _Amadas_
tambem occupava na côrte do Duque de Borgonha um logar secundario
como filho do senescal. _Oriana_ é filha do rei Lisuarte, e na côrte
de Languinés é que _Amadis_ a encontrou na festa á sua chegada da
Dinamarca. Foi n’esta situação que nasceu o amor de _Amadis_, do mesmo
modo que o de _Amadas_ por _Ydoine_: «Amadis tinha então doze annos,
mas pelo seu corpo e pelos seus membros bem parecia ter quinze; servia
a rainha e era muito amado d’ella e de todas as damas e donzellas; mas
logo que ali chegou _Oriana_, filha do rei Lisuarte, a rainha lhe deu o
Donzel do mar para a servir, dizendo:--Amiga, eis aqui o garção que vos
servirá. Respondeu ella: Que era do seu agrado. Esta palavra penetrou
por tal fórma o coração do donzel, que d’ali em diante nunca mais lhe
saiu da lembrança. E nunca, como esta historia o conta, em dias de sua
vida se enfadou de a servir, e seu coração lhe foi sempre dedicado, e
este amor durou tanto quanto ambos viveram.»[143]
No romance de _Amadas_ repete-se esta situação; o senescal n’esse
dia veiu servil-o á meza, como lhe competia, e a seu lado seu filho
_Amadas_ ia-o ajudando; foi então que o Duque mandou o donzel
servir a sua filha _Ydoine_.[144]
Nas referencias que alguns poetas castelhanos do seculo XIV fazem do
_Amadis_, como Pero Ferrus, Fray Miguel, Micer Francisco Imperial e
outros, tudo leva a crêr que alludiam á _fórma poetica_ do romance
assim conhecido em Hespanha. Ferrus cita o _Amadis_ junto com o _Rei
Arthur_, _Dom Galaaz_, _Lançarote_, _Carlos Magno_, _Tristão_ e
_Roland_, que eram escriptos em verso. As allusões constantes que
se encontram no _Amadis_ aos romances do cyclo da Tavola Redonda e a
outros de origem franceza, mostram claramente que esse thema não é uma
invenção do genio portuguez, mas que foi em Portugal que essa ficção
recebeu a fórma em prosa com que se universalisou.[145] No texto da
versão hespanhola de Montalbo, e no Cancioneiro Colocci-Brancuti estão
as provas irrefragaveis da primitiva redacção portugueza: são a rubrica
ácerca da emenda do episodio de Briolanja, e a canção de João Lobeira,
_Leonoreta_, que o traductor castelhano deturpou não conhecendo a fórma
estrophica.
Os romances da Tavola Redonda fizeram decahir de interesse as Gestas
carlingias, exclusivamente guerreiras, e actuaram tambem para que a
poesia lyrica trobadoresca bastante subjectiva fosse substituida pelas
narrativas apaixonadas das novellas de aventuras. Com o falecimento do
rei D. Diniz decahiu na côrte a lyrica trobadoresca; a sua paixão pela
eschola provençal, causára essa exuberante actividade poetica da sua
côrte, centro a que convergiam os jograes da Galliza, Catalunha, Leão,
Aragão e Castella, e até os seus bastardos, D. Affonso Sanches e D.
Pedro o lisongeavam metrificando com esforço, ou colligindo canções. Em
uma canção de Joham jogral, fixa-se esta decadencia pela morte do rei:
Os trobadores que poys ficarom
En o seu regno e no de Leon,
No de Castella, no de Aragon
Nunca poys de sa morte trobarom.
(Canção n.^o 708.)
Por morte do Conde D. Pedro, elle deixou o seu _Livro das Cantigas_ a
Affonso XI, de Castella, por que em Portugal Affonso IV não apreciava
as manifestações do lyrismo trobadoresco. E este desprezo continuou-se
nos successivos reinados, persistindo cada vez mais o enthuziasmo pelas
novellas de Cavalleria, como vêmos nas côrtes de D. João I, D. Duarte
e D. João II, em que se lêem a _Demanda do Santo Graal_, _Merlin_,
_José Ab Arimathia_, _Cavalleiro do Cysne_, _Galaaz_, e outras muitas
novellas. A poesia lyrica, revelada tão brilhantemente na côrte de
D. Diniz, tornou-se um pallido reflexo da castelhana no seculo XV,
e só tornou a reflorir depois do primeiro quartel do seculo XVI, em
consequencia de Sá de Miranda trazer a Portugal a nova Eschola italiana.
A nova phase do perstigio das Novellas da Tavola Redonda não
corresponde a uma realidade, isto é, aos habitos sociaes da época;
entravamos no seculo XV, na corrente da burguezia e da prosa, na
creação da historia e da legislação sem symbolos, sob a dictadura do
poder real. Não havia pois logar para a cultura do individualismo
heroico da Cavalleria; a justiça do rei, como o revela o grito popular
_Aqui d’Elrei_, não permittia a intervenção generosa de qualquer
senhor. E é precisamente na côrte de D. João I que se encontra o mais
exaltado prurido pela leitura e imitação das novellas da Tavola Redonda
e dos seus heroes, chegando os seus nomes a serem reproduzidos nas
familias aristocraticas. Explica-se esta antinomia; primeiramente D.
João I era um bastardo, que achando-se no throno, quiz cercar-se de
todos os symbolismos da soberania e do fausto cavalheiresco; depois
pelo casamento com D. Philippa de Lencastre imita o cerimonial da
côrte ingleza e toma conhecimento dos livros ahi mais predilectos
entre a nobreza. O francez era então usual na côrte de Inglaterra.
Convinha mais á côrte portugueza a leitura das novellas com aventuras e
situações ficticias; o cyclo do _Santo Graal_, em que se preconisa
a fidelidade á Egreja, harmonisava-se pelo seu maravilhoso com o nosso
genio celtico. E essas aventuras, como a da Descida aos infernos, a da
descoberta do _Preste João_ (o christianismo entre os Bretãos foi
propagado por discipulos de Sam João) e _Viagens de Sam Brendan_,
influiram no genio aventureiro que levou os portuguezes ás descobertas
maritimas.
Imitava-se o viver idealisado nas novellas de Cavalleria; na
_Chronica de D. João I_ conta Fernão Lopes, que este rei no cêrco
de Coria, se queixára de lhe faltarem cavalleiros como os da Tavola
Redonda, e que agastado Mem Rodrigues de Vasconcellos fôra comparando
os cavalleiros presentes a _Galaaz_, a _Lançarote_, a _D.
Quêa_, allegando pelo seu lado que lhes faltava um bom _rei
Arthur_, flor de liz, que sabia conhecer o valor. Esta anecdota já
andava repetida desde o seculo XIII, em nome do rei Philippe, que se
lamentava de não haver já cavalleiros tão bons como _Roland_ e
_Olivier_. O Condestavel Nun’Alvres queria imitar a virgindade
de _Galaaz_, para manter a pureza da Cavalleria: e faziam-se
votos denodados, como os _Cavalleiros da Madre Silva_, _Ala
dos Namorados_ e _Doze de Inglaterra_. Até nas instituições
sociaes penetrava a imitação artificial das cerimonias e symbolismos
cavalheirescos; basta abrir o _Regimento de Guerra portuguez_,
codificado pelo Infante Dom Pedro, o que correu as Sete Partidas
do mundo, para vêr como debaixo da esquadria logica e unitaria da
codificação romana estabelecida pelos jurisconsultos burguezes,
irrompe o cerimonial novellesco com que um escudeiro devia de ser
armado cavalleiro. E sóbe de interesse esse confronto com o cerimonial
do poema _Ordene de Chevallerie_, de Hugues de Tabarie. As
explicações symbolicas do troveiro francez coincidem com os paragraphos
da _Ordenação affonsina_. É com rasão que se considera o
_Regimento de Guerra_ como o necrologio da cavalleria portugueza;
este ultimo lampejo de vida foi-lhe communicado pela leitura dos
poemas anglo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam nas livrarias
régias.