particularidades e no desfecho do romance de _Fierabras_, uma
allusão romanesca á creação do reino de Portugal. Affonso VI, rei de
Castella, conquistou em 1093 aos Arabes uma parte dos territorios
entre o Douro e o Tejo, e d’elles fez um Condado, que deu com uma de
suas filhas a Henrique de Borgonha, joven e valente senhor que viera
em seu auxilio d’além dos Pyreneos; este Condado chamado Porto-Cale,
do nome da sua capital, engrandecido pelas conquistas do seu primeiro
senhor, veiu a ser o reino de Portugal. Entre a fundação d’este Reino e
o desenlace do _Fierabras_, não ha, é verdade, relação alguma de
datas ou de pessoas; mas cumpre considerar, que para os romancistas dos
seculos XII e XIII, toda a historia tanto nacional como estrangeira,
se reduz a algumas tradições cada vez mais alteradas e falsificadas,
sobre as quaes bordaram sem escrupulo, sem outro designio mais do que
o de exaltar as imaginações contemporaneas. Fazer de Portugal um reino
de Agramene; de um Henrique um Gui de Borgonha; de uma filha de Affonso
VI uma princeza sarracena convertida; transportar para o VIII seculo um
acontecimento do seculo XI, tudo isto é quasi historico para qualquer
d’estes romancistas.»[114] O caracter altivo de D. Thereza, tal como
se conserva na historia, está em harmonia com o retrato de Floripar
feito no poema; isto comprova o juizo de Fauriel: «que não ha epopêa
primitiva que não seja por algum ponto a expressão de um acontecimento
ou de uma ideia.»
Em uma citação do _Livro de Linhagens_, em que se allude aos _Doze
Pares_, encontra-se o vestigio das Gestas francezas: «muitos
ricos-homeens que iam para lhes acorrerem disseram a elrey dom
Fernando, que nunca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam
soffredores fossem e pozeram-nos em par dos _Doze Pares_.»[115] A
creação dos Doze Pares apparece nas mais antigas Canções de gesta
franceza, taes como a _Chanson de Roland_, a _Viagem a Jerusalem_ e em
_Renaud de Montauban_.[116] O texto em que se faz a referencia aos Doze
Pares é do principio do seculo XIV; por tanto é natural, que qualquer
d’essas trez epopêas fosse conhecida em Portugal. Nos _Karlamagnus
Saga_, _Gui de Bourgogne_, _Otinel_, _Fierabras_, _Simon de Pouille_,
_Ogier le Danois_, _Huon de Bourdeaux_, _Galien Restoré_, cita-se
a instituição dos Doze Pares; estes poemas como mais modernos pouco
teriam influido para a vulgarisação da lenda carlingia em Portugal, em
um tempo em que começava o perstigio dos poemas da _Tavola-Redonda_.
Na sepultura do cavalleiro Rodrigo Sanches, morto na _Lide do
Porto_ em 1245, batendo-se a favor de D. Sancho II, gravaram-lhe um
epitaphio, comparando-o a _Roland_:
Belliger insignis fuit hic cunctis et amandus,
Laudibus ex dignis, alter fuit hic _Rotulandus_.[117]
Eghinard escrevera este nome _Hruodland_, e Radulphus Tortarius
_Rutlandus_, e acha-se na canção de Guerau de Cabrera na fórma
_Rotlon_ (_Roldão_ na linguagem popular portugueza, como
synonimo de valentão.) Ainda na côrte de D. Diniz eram lembradas as
Gestas carlingias, como se vê pela canção de João Baveca:
e ora per _Roncesvales_ passou
e tornou-se do Poio de _Roldan_.
(_Canc. Vat._, n.^o 1066.)
Reflectiu-se este cyclo épico nos cantos populares portuguezes; nos
romances que fallam da derrota de Roncesvalles, allude-se a uma
expressão franceza: «Nos _portos_ de mal passar.»[118] N’este sentido
de desfiladeiro, fauce entre dous montes, significando a passagem
dos Pyreneos, usa-a a Chronica de Turpin, e vem no _Roman de Garin_:
«As _ports_ d’Espagne s’en est entrez Roland.» A influencia popular
conhece-se principalmente como foram aportuguezados os nomes dos heróes
épicos francezes: _Roland_ é Roldão, _Renaud de Montauban_, Reinaldo de
Montalvão; _Ogier le Danois_, Dones Ogeiro e Ogeiro o Dão; _Olivier_,
Oliveiros; _Bauduin de Vannes_, Valdevinos (na giria popular,
vagabundo, tunante); _Richer_, Ricardo; _Garin de Monglave_, Garinos;
_Naimes le Bavarois_, Duque Maime; _Gaifier de Bordeaux_, Gaifeiros;
_Didier_, Dirlos; _Huon_, Dudão; _Eghinard_, Eginaldo, Gerinaldo e
Reginaldo; _Aude_, a namorada de Roland, Alda; _Floripar_, Floripes;
_Fierabras_, Ferrabraz (valentão roncador).
O rei D. Affonso III, que residira quando princepe alguns annos na côrte
de França, imitou na sua côrte as festas poeticas que lá admirára. Nos
festejos que se fizeram em Melun, quando D. Affonso foi armado
cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta libras aos menestreis que a
elles assistiram; vinte menestreis se acham inscriptos nos Documentos
para a historia de França.[119] É evidente que a influencia da poesia
franceza se havia de reflectir na côrte de Portugal; assim
no _Regimento_ da Casa real manda D. Affonso III, que estejam sempre
trez jograes ao serviço da côrte, e prescreve o numero dos
_jograes_ e dos _segreis_ que venham de longe aos quaes se dará
agasalho. As Canções de Gesta caminhavam para a inevitavel decadencia,
e este mesmo reflexo vêmos em Portugal na parodia feita por D. Affonso
Lopes de Baião de uma Gesta franceza em uma metrificação de doze
syllabas, em longas tiradas monorrimas, e com a celebre _neuma_ AOI
(seculorum amen) com que terminavam as estrophes longas da _Chanson de
Roland_. No Cancioneiro da Vaticana foi colligida essa composição
singular da _Gesta de Maldizer_, em que o fidalgo Baião, da côrte de
D. Affonso III, ridicularisa um cavalleiro Dom Velpelho
(de _Vulpecula_, a raposa), talvez um dos vencidos do partido de D.
Sancho II. Aqui o que nos interessa é a prova clara do conhecimento da
fórma litteraria das Canções de Gesta.
Na descripção da batalha do Salado, de Rodrigo Yanes, alludem-se aos
personagens do cyclo franko:
Nin fue mejor cavallero
El arçobispo _Don Turpin_,
Ni el cortés _Olivero_,
Ni el _Roldan_ paladin.
(St. 1739.)
A çanfonha era o instrumento que acompanhava a recitação das Gestas;
o seu uso, peculiar aos primeiros seculos da monarchia, e ainda
hoje popular na Galliza, leva-nos a inferir que tambem as Gestas
seriam cantadas por esse tempo. Em um manuscripto da Edade media,
descreve-se a Çanfonha: «Chama-se em França Cymphonie um instrumento
que _os cegos tocam cantando a Canção de Gesta_, e tem este bello
instrumento doce som, e mui agradavel de ouvir.»[120] Quando o rei D.
Pedro I prohibiu os instrumentos musicos que não fossem a trompa ou a
corneta, para não se effeminarem os animos, seguia as disposições da
Egreja exaradas nas Summas do seculo XII. Escrevia Guillaume Perrauld,
na _Summa Vitiis_: «O ouvir Canções é muito para se temer...
Tambem são muito para se temer os instrumentos musicos, pois tocam e
amolecem os corações humanos.»[121] Em uma _Summa de Penitencia_
prega-se a maior complacencia para os jograes que cantam Canções de
Gesta, e condemnam-se os que cantam cantilenas lascivas. Tambem nas
_Leis de Partidas_, que estavam em vigor em Portugal, prohibe-se a
todo o bom cavalleiro o ouvir canções quando ellas não forem de feitos
de armas.
No seculo XV as Gestas dissolviam-se em chronicas historicas; ainda
assim, acha-se citada por Azurara a Gesta sobre o _Duque Jehan de
Lanson_, «ca sem embargo de se em todollos regnos fazerem geeraaes
cronicas dos rex d’elles, nom se deixa porem de screver apartadamente
os feitos dalguns seus vassalos, quando o grandor he assy natural de
que se com razom deve fazer apartada scriptura; assy como se fez em
França do _duc Joham de Lançam_.»[122] Azurara alludia a uma Gesta
carolina do seculo XIII pensando que se referia a uma chronica; o mesmo
succedeu a Philippe de Mouskes, na sua _Chronica rimada_, que
resumiu essa gesta attribuindo-lhe valor historico. Foi talvez Portugal
o unico paiz que ouviu fallar da _Chanson de Jehan de Lanson_,
apezar do que d’ella diz Léon Gautier: «Poucas canções ha que tenham
tido popularidade menos vasta e menos duravel. As nações estrangeiras
não parecem tel-a conhecido, e não existe d’ella versão em prosa.»[123]
Mas não bastou a Azurara o cahir no mesmo erro de Philippe de Mouskes;
comparou esta Gesta que idealisa um traidor, e em que é Carlos Magno
exposto ao mais pungente sarcasmo, á bella _Chronica anonyma do
Condestavel_, identificando-o com o typo do heroe-santo.
Não admira; no seculo XV começava o perstigio da erudição latina, e
o desprezo pela Edade media; e na época da Renascença os heróes das
Gestas são conhecidos em Portugal através da corrente italiana, pelos
poemas de Pulci, Boiardo e Ariosto. Esta influencia italiana é evidente
em Sá de Miranda, que cita _Turpin_, _Roland_ e _Ogier le
Danois_, pela leitura d’esses poetas:
Grandes cosas se cuentan de como a escuras
D’aquelles tiempos de vista _Turpino_
A estranos cuentos orejas seguras.
El hadado _Roldan_, Reynaldo, _Dino_,
Que le fuera fortuna mas cortés
De sus riquezas, un tal Paladino.
_Rogel_, del ingenioso ferrarez,
Tanto alabado en tan sabroso estillo,
Astolpho aventurero y vano ingles.
Camões tambem conhecia esse cyclo épico das Gestas francezas através
da influencia italiana, desprezando diante da sublimidade dos
factos historicos dos portuguezes as façanhas do vão Rogeiro,--«E
_Orlando_, inda que fôra verdadeiro.» Era corrente entre os
eruditos da Renascença, como vêmos em Luis Vives, desprezar os poemas
da Edade media.
A propria França chegára ao esquecimento total das Gestas, depois
de uma decadencia successiva, já pelo agrupamento cyclico, já pelo
syncretismo com os poemas de aventuras, e finalmente pela sua
dissolução em prosa com pretenções a chronica. D’onde proveiu esta
decadencia, não já entre os povos romanicos, mas n’aquella mesma nação
que elaborou toda a poesia das Gestas? Comte viu claro, quando esboçou
a dissolução do regimen catholico-feudal, e explicou o desprezo em
que ficaram os themas poeticos de uma edade que desapparecia; o juizo
do philosopho foi mais tarde confirmado pelos eruditos. D’Héricault,
no seu _Essai sur l’origine de l’Épopée française_, accentua
a mesma causa: «A nossa epopêa nacional fôra engendrada por uma
série de factos, de personagens de uma ordem particular, que tinha
desapparecido no seculo XIII. As circumstancias politicas, o estado
da sociedade, as tendencias das ideias e dos costumes, a fusão das
raças, as victorias alcançadas pelo espirito do catholicismo sobre os
restos da barbarie, todo o conjuncto da vida da França tinha tirado
a estes factos e a estas individualidades o seu vivo interesse. Já
não tinham mais razão de ser, não eram comprehendidos e não podiam
por consequencia vir renovar incessantemente a fonte da poesia a
que elles tinham dado nascimento.» E mostrando como um outro estado
de consciencia, em uma nova éra social, exigia outras fórmas de
idealisação, continúa o mesmo critico: «Mas, á medida que se afastavam
d’este periodo barbaro, os caracteres humanisaram-se, os espiritos
educados em outro meio social, admittiram outras bellezas. Do seu lado,
a memoria esquecia a significação precisa d’estes acontecimentos de
outra edade. O poema puramente militar teve de desapparecer e com elle
a invenção ingenua dos typos unicamente guerreiros, dos caracteres
selvagens e grandiosos, personalidades simples, sem meias tintas e sem
flexibilidade. As feridas, as ondas de sangue, todas as peripecias
de uma batalha ou de um combate singular tornavam-se insufficientes
emquanto a interesse, desde que já se não via nos heroes em acção mais
do que titeres de ferro.» Por esta falta de interesse, consequencia
de um outro estado social, as Gestas guerreiras foram substituidas
pelos poemas das aventuras de amor. D’Héricault explica o advento
d’esta corrente poetica: «Afastando-se dos factos creadores da poesia,
e não ligando seriedade ao papel de chronistas, os troveiros viam-se
desapossados d’esta fórma naturalmente dramatica, d’esta acção
ingenuamente interessante, d’esta marcha viva que a Canção de Gesta
devia á sua preoccupação de imitar os aspectos da historia. O cyclo
carlingio estava então exposto a perder o sôpro épico, e accumulava,
para o substituir, logares communs, declamações que lhe eram indicadas
pelo seu genero, duello entre guerreiros, injurias contra Carlos
Magno, exposição da doutrina christã a um sarraceno, confusão geral
entre christãos e pagãos, etc. Foi n’este declive que o valente _Rei
Arthur_ e os seus cavalleiros vieram suster os guerreiros do
Imperador da branca barba. O cyclo da _Tavola Redonda_ acordou
a imaginação dos troveiros francezes, e lançou a epopêa em uma via
nova, em que a dirigiu impondo-lhe as suas sympathias, a sua arte e
as suas fórmulas. Foi principalmente por meio d’estes dois perstigios
de predilecção--a mulher e o maravilhoso, que elle revolucionou o
nosso genio, triumphou da Canção de Gesta e poz em debandada os
Doze Pares.--A poesia do amor tendia assim a substituir a poesia da
guerra.»[124]
Quando em França se dava esta decadencia das epopêas feudaes, muito
mais profunda foi ella entre os povos que tiveram heróes nacionaes
a idealisar, como o _Cid_ em Hespanha, ou que desconheceram o
feudalismo, como a Italia e Portugal. Os poemas de amor exerceram uma
acção profunda nos costumes das classes elevadas, foram lidos com
encanto e deram origem ás Novellas cavalheirescas, que luctaram com
vantagem contra a corrente classica.
_c_) INFLUENCIA GALLO-BRETÃ
(_Poemas e Novellas da Tavola Redonda_)
A grande raça celtica que occupou todo o Occidente, possuia como
as outras raças com que se fusionou, profundos elementos de poesia
tradicional. Porém esta poesia só nos apresenta vestigios depois do
seculo VI, em um pequeno grupo celtico, que escapou á conquista e
absorpção dos Romanos e dos Saxões, e até certo ponto resistiu ás
doutrinas do christianismo. Esse grupo celtico, que veiu enriquecer
as litteraturas da Europa com novas tradições poeticas, que seduziram
todas as imaginações depois do seculo XII com as encantadoras ficções
da _Tavola Redonda_ e do _Santo Graal_, compõe-se dos habitantes do
paiz de Galles ou Cambria e da peninsula de Cornwall (os antigos
_Kymris_), dos da Bretanha franceza (a _Armorica_), dos Gaëls do norte
da Escossia, e ainda da Irlanda. Do isolamento que este grupo celtico
conservou diante da conflagração dos povos desde as conquistas dos
Romanos até ao fim das invasões germanicas, escreve Renan: «Nunca
familia humana viveu mais isolada do mundo e mais pura de toda a
mestiçagem estrangeira. Confinada pela conquista em ilhas e peninsulas
esquecidas, ella oppoz uma barreira inaccessivel ás influencias
exteriores; tirou tudo de si propria, e viveu com os seus recursos.
D’aqui esta potente individualidade, este odio ao estrangeiro, que
até hoje, tem accentuado o traço caracteristico dos povos celticos. A
civilisação de Roma apenas os attingiu, deixando entre elles poucos
vestigios. A invasão germanica repelliu-os diante de si, mas não os
penetrou.»[125] É natural que o elemento kymrico, na Bretanha insular,
conservasse mais intensa a memoria das suas tradições; e que a Bretanha
continental, ou a Armorica, as renovasse mais tarde, pela relação entre
os dois paizes, dando-lhes esse relêvo poetico com que deslumbraram
a Europa no seculo XII. Dois periodos de elaboração se destacam
historicamente; um, que começa no seculo VI da nossa éra, quando se
vulgarisam os cantos dos bardos Taliesin, Aneurin e Liwarc’h-Hen,
e se escutam as melodias da _chrota britana_, os _Lais_ amorosos,
e os Contos maravilhosos do _Mabinogion_; o outro é principalmente
litterario, idealisando as aventuras guerreiras de _Arthur_, os amores
de _Tristão_, de _Lancelot_, de _Merlin_, creando por effeito da
propaganda christã o cyclo dos poemas do _Santo Graal_. Se o elemento
tradicional foi principalmente elaborado na Bretanha insular, na
Bretanha franceza é que esses themas tiveram o seu desenvolvimento
artistico, espalhando-se pelos menestreis normandos por toda a Europa.
Renan define essa primeira época de revivescencia poetica da raça
celtica: «O sexto seculo foi para as raças celticas esse momento
poetico do despertar, e da sua primeira actividade. O christianismo,
recente ainda entre ellas, não tinha completamente abafado o culto
nacional; o druidismo defende-se em suas escholas e nos seus logares
consagrados; a lucta com o estrangeiro, sem a qual um povo nunca chega
á plena consciencia de si proprio, attinge o seu mais alto gráo de
vivacidade.--O sexto seculo, é effectivamente, para os povos bretãos
um seculo perfeitamente historico.»[126] Basta-nos fixar esta época
para determinar desde quando se espalham os cantos lyricos bretãos,
que adquiriram um certo interesse até ao ponto de se desenvolverem
em poemas de aventuras. As melodias e instrumentos musicos bretãos,
como a _rhota britana_, citada nos versos de Venancio Fortunato, são
levados por todas as côrtes da Europa por cantores vagabundos, desde
o seculo VI até ao XII seculo. Falla-se no poema de _Guillaume au
Court-nez_, no prazer de ouvir _cantos bretãos_ entre os prazeres do
vinho e da caça. Eram esses cantos os _Lais_, principalmente agradaveis
ás mulheres, como o revela Denys Pyramus: «_Lais_ soulent as dames
plaire.» Juntamente se espalhavam os cantos narrativos, a que se
chamava _Bairtni_, designação que se encontra no Arcipreste de Hita
como nome de um instrumento musico, e que o rei Dom Duarte, no _Leal
Conselheiro_ emprega como o narrador de contos: «em tal maneira que
não pareça que os _albardões_ tem mais sabedoria que nós, por que
elles nom se trabalhom d’arremedar as _estorias_ melhores, mas que
lhe som mais convenientes.»[127] A palavra _albardeiro_, empregada
por Gil Vicente como exprimindo a sua vêa comica parece ligar-se a
esta funcção narrativa; assim como as palavras _Fatiste_ no tempo
de Francisco I significando compositor «de jeux et novalités»[128]
e o portuguez _Fadista_, cantor de narrativas, se ligam ao nome de
_Faith_, dado na Irlanda aos cantores ou vates. O bardismo, perdido
já o seu caracter sacerdotal, conservou-se como um mister de cantores
vagabundos: «instituição que atravessou seculos e tornou-se uma feição
caracteristica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade media,»[129]
como o affirma Belloguet. Ao colligir as leis consuetudinarias
cambrianas, no seculo X, estatuia Hoel o Bom ácerca d’estes Bardos:
«Quando a rainha quizer ouvir um canto, o bardo domestico será obrigado
a cantar um á sua escolha, _mas em voz baixa_, ao ouvido para que a
côrte não seja perturbada.» Com o nome de _Segrel_ (de _Secretela_, na
baixa latinidade) encontra-se nas côrtes peninsulares uma classe de
cantores que não são nem jograes, nem trovadores. Pela caracteristica
do canto modulado em voz baixa, como se exige nas _Leges Walliae_,
e pela frequencia dos _Lais_, que achamos citados nos Cancioneiros
portuguezes, este nome de _Segrel_ designa o cantor das melodias
bretãs. Já no seculo XII o trovador Geraud de Riquier fallava d’esta
classe de cantores da côrte: «E ditz als trobadors--_Segriers_ por
totas corts.» E no Regimento da Casa de D. Affonso III, de 1245,
acha-se estabelecido: «Elrei aia trez jograres em sa casa e nom mais,
e o jogral que veher de cavallo d’outra terra, ou _segrel_, lhe dê
elrei ataa cem (maravedis?) ao que chus der, e nom mais, se lhe dar
quizer.»[130] Muitos trovadores portuguezes alludem a este nome; como
Affonso Eanes de Coton:
a todo o escudeyro que pede don
as mays das gentes lhe chamam _segrel_...
(Canç. 556)
Abril Peres, satyrisando Bernal de Bonaval, refere-se á situação de
dependencia do _segrel_ (Canção n.^o 663); e o jogral Picandon,
respondendo a um apodo de João Soares Coelho, exalta a sua categoria
dizendo:
gram dereyt’ey de ganhar dões,
e de seer en corte tan preçado
como _segrel_...........
A estas melodias bretãs refere-se o trovador catalão Guerau de Cabrera,
como um talento distinctivo: _á tempradura de Breton_; e no
romance de _Raoul de Cambrai_ aponta-se os musicos bretãos como os
melhores: «_Harpent Bretons_ et viellent jougler.» E no _Lai de
l’Épine_, de Marie de France, cita-se o lai d’Aielis cantado por um
irlandez ao som da _rota_ bretã:
Le _lais_ d’Aielis
Que uns _Yrois_ doucement note
Mont le sonne ens sa _rote_.
Vê-se que a fórma lyrica bretã do _Lai_, que encantava a Europa,
tinha tambem de reflectir-se em Portugal; o trovador Gonçalo Eannes do
Vinhal allude á imitação constante de cantares:
senon aquestes de _Cornualha_,
mays estes seguidos ben sem falha,
e nom vi trobador per tantos logares.
(Canç. 1007.)
Em uma canção de Fernão Rodrigues Redondo, (n.^o 1147) refere tambem
esta fórma: «Muy ledo seend’hu cantara seus _lays_...» O lay
tornou-se narrativo, vindo a desenvolver-se nos longos e interessantes
poemas de aventuras e amores. No _Cancioneiro Calocci-Brancuti_
foram colligidos cinco Lais, dos que estavam mais em voga na côrte de
D. Diniz; são o _Lai de Elis o Baço_, trez de _Don Tristan_,
e o _Lai das Quatro Donzellas_. No _Poema de Alfonso Onzeno_,
do seculo XIV, falla-se em: «_la farpa de Don Tristan_.»
O enthuziasmo pelos cantos lyricos provocou o seu desenvolvimento em
poemas narrativos da Bretanha; assim, figuras quasi sem realidade
historica, como o rei Arthur, servem de thema ás ficções da _Tavola
Redonda_, e ás reminiscencias das luctas da nacionalidade celtica
contra os Romanos e Saxões; e Merlim, ultimo vestigio da resistencia
do druidismo contra o christianismo, não achando mais interesse nas
prophecias, torna-se o amante da fada Viviana; os amores de _Tristão
e de Yseult_, de _Flores e Brancaflor_ fascinam todos os povos
da Europa, e para satisfazer esse interesse, desenvolvem-se em extensas
novellas. É na Bretanha continental que estes assumptos são elaborados
no seculo XII, e propagados pelos Normandos: «Cousa estranha! foram os
Normandos, isto é, de todos os povos o menos sympathico aos Bretãos,
que espalharam a fama das fabulas bretãs. Espirituoso e imitador, o
Normando tornou-se por toda a parte o representante eminente da nação á
qual anteriormente se impuzera pela força. Francez em França, inglez em
Inglaterra, italiano na Italia, russo em Novegorod, o normando esqueceu
a sua propria lingua para fallar a lingua do povo que elle tinha
vencido e tornar-se o interprete do seu genio. O caracter vivamente
accentuado dos romances gaulezes não podia deixar de ferir homens tão
promptos a apanhar e assimilar as ideias do estrangeiro. A primeira
revelação das fabulas bretãs, a Chronica latina de Geoffroy de
Monmouth, appareceu por 1137, sob os auspicios de Robert de Glocester,
filho natural de Henrique I. Por estas mesmas narrativas se apaixonou
Henrique II, e a seu pedido Robert Wace escreveu em francez, em 1155,
a primeira historia de Arthur, e abriu a marcha a que se arrojou uma
multidão de poetas ou de imitadores francezes, provençaes, italianos,
hespanhóes, inglezes, scandinavos, gregos, georgianos, etc.»[131]