Na analyse do poema, escreve: «Creio entrevêr em algumas

particularidades e no desfecho do romance de _Fierabras_, uma

allusão romanesca á creação do reino de Portugal. Affonso VI, rei de

Castella, conquistou em 1093 aos Arabes uma parte dos territorios

entre o Douro e o Tejo, e d’elles fez um Condado, que deu com uma de

suas filhas a Henrique de Borgonha, joven e valente senhor que viera

em seu auxilio d’além dos Pyreneos; este Condado chamado Porto-Cale,

do nome da sua capital, engrandecido pelas conquistas do seu primeiro

senhor, veiu a ser o reino de Portugal. Entre a fundação d’este Reino e

o desenlace do _Fierabras_, não ha, é verdade, relação alguma de

datas ou de pessoas; mas cumpre considerar, que para os romancistas dos

seculos XII e XIII, toda a historia tanto nacional como estrangeira,

se reduz a algumas tradições cada vez mais alteradas e falsificadas,

sobre as quaes bordaram sem escrupulo, sem outro designio mais do que

o de exaltar as imaginações contemporaneas. Fazer de Portugal um reino

de Agramene; de um Henrique um Gui de Borgonha; de uma filha de Affonso

VI uma princeza sarracena convertida; transportar para o VIII seculo um

acontecimento do seculo XI, tudo isto é quasi historico para qualquer

d’estes romancistas.»[114] O caracter altivo de D. Thereza, tal como

se conserva na historia, está em harmonia com o retrato de Floripar

feito no poema; isto comprova o juizo de Fauriel: «que não ha epopêa

primitiva que não seja por algum ponto a expressão de um acontecimento

ou de uma ideia.»

Em uma citação do _Livro de Linhagens_, em que se allude aos _Doze

Pares_, encontra-se o vestigio das Gestas francezas: «muitos

ricos-homeens que iam para lhes acorrerem disseram a elrey dom

Fernando, que nunca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam

soffredores fossem e pozeram-nos em par dos _Doze Pares_.»[115] A

creação dos Doze Pares apparece nas mais antigas Canções de gesta

franceza, taes como a _Chanson de Roland_, a _Viagem a Jerusalem_ e em

_Renaud de Montauban_.[116] O texto em que se faz a referencia aos Doze

Pares é do principio do seculo XIV; por tanto é natural, que qualquer

d’essas trez epopêas fosse conhecida em Portugal. Nos _Karlamagnus

Saga_, _Gui de Bourgogne_, _Otinel_, _Fierabras_, _Simon de Pouille_,

_Ogier le Danois_, _Huon de Bourdeaux_, _Galien Restoré_, cita-se

a instituição dos Doze Pares; estes poemas como mais modernos pouco

teriam influido para a vulgarisação da lenda carlingia em Portugal, em

um tempo em que começava o perstigio dos poemas da _Tavola-Redonda_.

Na sepultura do cavalleiro Rodrigo Sanches, morto na _Lide do

Porto_ em 1245, batendo-se a favor de D. Sancho II, gravaram-lhe um

epitaphio, comparando-o a _Roland_:

Belliger insignis fuit hic cunctis et amandus,

Laudibus ex dignis, alter fuit hic _Rotulandus_.[117]

Eghinard escrevera este nome _Hruodland_, e Radulphus Tortarius

_Rutlandus_, e acha-se na canção de Guerau de Cabrera na fórma

_Rotlon_ (_Roldão_ na linguagem popular portugueza, como

synonimo de valentão.) Ainda na côrte de D. Diniz eram lembradas as

Gestas carlingias, como se vê pela canção de João Baveca:

e ora per _Roncesvales_ passou

e tornou-se do Poio de _Roldan_.

(_Canc. Vat._, n.^o 1066.)

Reflectiu-se este cyclo épico nos cantos populares portuguezes; nos

romances que fallam da derrota de Roncesvalles, allude-se a uma

expressão franceza: «Nos _portos_ de mal passar.»[118] N’este sentido

de desfiladeiro, fauce entre dous montes, significando a passagem

dos Pyreneos, usa-a a Chronica de Turpin, e vem no _Roman de Garin_:

«As _ports_ d’Espagne s’en est entrez Roland.» A influencia popular

conhece-se principalmente como foram aportuguezados os nomes dos heróes

épicos francezes: _Roland_ é Roldão, _Renaud de Montauban_, Reinaldo de

Montalvão; _Ogier le Danois_, Dones Ogeiro e Ogeiro o Dão; _Olivier_,

Oliveiros; _Bauduin de Vannes_, Valdevinos (na giria popular,

vagabundo, tunante); _Richer_, Ricardo; _Garin de Monglave_, Garinos;

_Naimes le Bavarois_, Duque Maime; _Gaifier de Bordeaux_, Gaifeiros;

_Didier_, Dirlos; _Huon_, Dudão; _Eghinard_, Eginaldo, Gerinaldo e

Reginaldo; _Aude_, a namorada de Roland, Alda; _Floripar_, Floripes;

_Fierabras_, Ferrabraz (valentão roncador).

O rei D. Affonso III, que residira quando princepe alguns annos na côrte

de França, imitou na sua côrte as festas poeticas que lá admirára. Nos

festejos que se fizeram em Melun, quando D. Affonso foi armado

cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta libras aos menestreis que a

elles assistiram; vinte menestreis se acham inscriptos nos Documentos

para a historia de França.[119] É evidente que a influencia da poesia

franceza se havia de reflectir na côrte de Portugal; assim

no _Regimento_ da Casa real manda D. Affonso III, que estejam sempre

trez jograes ao serviço da côrte, e prescreve o numero dos

_jograes_ e dos _segreis_ que venham de longe aos quaes se dará

agasalho. As Canções de Gesta caminhavam para a inevitavel decadencia,

e este mesmo reflexo vêmos em Portugal na parodia feita por D. Affonso

Lopes de Baião de uma Gesta franceza em uma metrificação de doze

syllabas, em longas tiradas monorrimas, e com a celebre _neuma_ AOI

(seculorum amen) com que terminavam as estrophes longas da _Chanson de

Roland_. No Cancioneiro da Vaticana foi colligida essa composição

singular da _Gesta de Maldizer_, em que o fidalgo Baião, da côrte de

D. Affonso III, ridicularisa um cavalleiro Dom Velpelho

(de _Vulpecula_, a raposa), talvez um dos vencidos do partido de D.

Sancho II. Aqui o que nos interessa é a prova clara do conhecimento da

fórma litteraria das Canções de Gesta.

Na descripção da batalha do Salado, de Rodrigo Yanes, alludem-se aos

personagens do cyclo franko:

Nin fue mejor cavallero

El arçobispo _Don Turpin_,

Ni el cortés _Olivero_,

Ni el _Roldan_ paladin.

(St. 1739.)

A çanfonha era o instrumento que acompanhava a recitação das Gestas;

o seu uso, peculiar aos primeiros seculos da monarchia, e ainda

hoje popular na Galliza, leva-nos a inferir que tambem as Gestas

seriam cantadas por esse tempo. Em um manuscripto da Edade media,

descreve-se a Çanfonha: «Chama-se em França Cymphonie um instrumento

que _os cegos tocam cantando a Canção de Gesta_, e tem este bello

instrumento doce som, e mui agradavel de ouvir.»[120] Quando o rei D.

Pedro I prohibiu os instrumentos musicos que não fossem a trompa ou a

corneta, para não se effeminarem os animos, seguia as disposições da

Egreja exaradas nas Summas do seculo XII. Escrevia Guillaume Perrauld,

na _Summa Vitiis_: «O ouvir Canções é muito para se temer...

Tambem são muito para se temer os instrumentos musicos, pois tocam e

amolecem os corações humanos.»[121] Em uma _Summa de Penitencia_

prega-se a maior complacencia para os jograes que cantam Canções de

Gesta, e condemnam-se os que cantam cantilenas lascivas. Tambem nas

_Leis de Partidas_, que estavam em vigor em Portugal, prohibe-se a

todo o bom cavalleiro o ouvir canções quando ellas não forem de feitos

de armas.

No seculo XV as Gestas dissolviam-se em chronicas historicas; ainda

assim, acha-se citada por Azurara a Gesta sobre o _Duque Jehan de

Lanson_, «ca sem embargo de se em todollos regnos fazerem geeraaes

cronicas dos rex d’elles, nom se deixa porem de screver apartadamente

os feitos dalguns seus vassalos, quando o grandor he assy natural de

que se com razom deve fazer apartada scriptura; assy como se fez em

França do _duc Joham de Lançam_.»[122] Azurara alludia a uma Gesta

carolina do seculo XIII pensando que se referia a uma chronica; o mesmo

succedeu a Philippe de Mouskes, na sua _Chronica rimada_, que

resumiu essa gesta attribuindo-lhe valor historico. Foi talvez Portugal

o unico paiz que ouviu fallar da _Chanson de Jehan de Lanson_,

apezar do que d’ella diz Léon Gautier: «Poucas canções ha que tenham

tido popularidade menos vasta e menos duravel. As nações estrangeiras

não parecem tel-a conhecido, e não existe d’ella versão em prosa.»[123]

Mas não bastou a Azurara o cahir no mesmo erro de Philippe de Mouskes;

comparou esta Gesta que idealisa um traidor, e em que é Carlos Magno

exposto ao mais pungente sarcasmo, á bella _Chronica anonyma do

Condestavel_, identificando-o com o typo do heroe-santo.

Não admira; no seculo XV começava o perstigio da erudição latina, e

o desprezo pela Edade media; e na época da Renascença os heróes das

Gestas são conhecidos em Portugal através da corrente italiana, pelos

poemas de Pulci, Boiardo e Ariosto. Esta influencia italiana é evidente

em Sá de Miranda, que cita _Turpin_, _Roland_ e _Ogier le

Danois_, pela leitura d’esses poetas:

Grandes cosas se cuentan de como a escuras

D’aquelles tiempos de vista _Turpino_

A estranos cuentos orejas seguras.

El hadado _Roldan_, Reynaldo, _Dino_,

Que le fuera fortuna mas cortés

De sus riquezas, un tal Paladino.

_Rogel_, del ingenioso ferrarez,

Tanto alabado en tan sabroso estillo,

Astolpho aventurero y vano ingles.

Camões tambem conhecia esse cyclo épico das Gestas francezas através

da influencia italiana, desprezando diante da sublimidade dos

factos historicos dos portuguezes as façanhas do vão Rogeiro,--«E

_Orlando_, inda que fôra verdadeiro.» Era corrente entre os

eruditos da Renascença, como vêmos em Luis Vives, desprezar os poemas

da Edade media.

A propria França chegára ao esquecimento total das Gestas, depois

de uma decadencia successiva, já pelo agrupamento cyclico, já pelo

syncretismo com os poemas de aventuras, e finalmente pela sua

dissolução em prosa com pretenções a chronica. D’onde proveiu esta

decadencia, não já entre os povos romanicos, mas n’aquella mesma nação

que elaborou toda a poesia das Gestas? Comte viu claro, quando esboçou

a dissolução do regimen catholico-feudal, e explicou o desprezo em

que ficaram os themas poeticos de uma edade que desapparecia; o juizo

do philosopho foi mais tarde confirmado pelos eruditos. D’Héricault,

no seu _Essai sur l’origine de l’Épopée française_, accentua

a mesma causa: «A nossa epopêa nacional fôra engendrada por uma

série de factos, de personagens de uma ordem particular, que tinha

desapparecido no seculo XIII. As circumstancias politicas, o estado

da sociedade, as tendencias das ideias e dos costumes, a fusão das

raças, as victorias alcançadas pelo espirito do catholicismo sobre os

restos da barbarie, todo o conjuncto da vida da França tinha tirado

a estes factos e a estas individualidades o seu vivo interesse. Já

não tinham mais razão de ser, não eram comprehendidos e não podiam

por consequencia vir renovar incessantemente a fonte da poesia a

que elles tinham dado nascimento.» E mostrando como um outro estado

de consciencia, em uma nova éra social, exigia outras fórmas de

idealisação, continúa o mesmo critico: «Mas, á medida que se afastavam

d’este periodo barbaro, os caracteres humanisaram-se, os espiritos

educados em outro meio social, admittiram outras bellezas. Do seu lado,

a memoria esquecia a significação precisa d’estes acontecimentos de

outra edade. O poema puramente militar teve de desapparecer e com elle

a invenção ingenua dos typos unicamente guerreiros, dos caracteres

selvagens e grandiosos, personalidades simples, sem meias tintas e sem

flexibilidade. As feridas, as ondas de sangue, todas as peripecias

de uma batalha ou de um combate singular tornavam-se insufficientes

emquanto a interesse, desde que já se não via nos heroes em acção mais

do que titeres de ferro.» Por esta falta de interesse, consequencia

de um outro estado social, as Gestas guerreiras foram substituidas

pelos poemas das aventuras de amor. D’Héricault explica o advento

d’esta corrente poetica: «Afastando-se dos factos creadores da poesia,

e não ligando seriedade ao papel de chronistas, os troveiros viam-se

desapossados d’esta fórma naturalmente dramatica, d’esta acção

ingenuamente interessante, d’esta marcha viva que a Canção de Gesta

devia á sua preoccupação de imitar os aspectos da historia. O cyclo

carlingio estava então exposto a perder o sôpro épico, e accumulava,

para o substituir, logares communs, declamações que lhe eram indicadas

pelo seu genero, duello entre guerreiros, injurias contra Carlos

Magno, exposição da doutrina christã a um sarraceno, confusão geral

entre christãos e pagãos, etc. Foi n’este declive que o valente _Rei

Arthur_ e os seus cavalleiros vieram suster os guerreiros do

Imperador da branca barba. O cyclo da _Tavola Redonda_ acordou

a imaginação dos troveiros francezes, e lançou a epopêa em uma via

nova, em que a dirigiu impondo-lhe as suas sympathias, a sua arte e

as suas fórmulas. Foi principalmente por meio d’estes dois perstigios

de predilecção--a mulher e o maravilhoso, que elle revolucionou o

nosso genio, triumphou da Canção de Gesta e poz em debandada os

Doze Pares.--A poesia do amor tendia assim a substituir a poesia da

guerra.»[124]

Quando em França se dava esta decadencia das epopêas feudaes, muito

mais profunda foi ella entre os povos que tiveram heróes nacionaes

a idealisar, como o _Cid_ em Hespanha, ou que desconheceram o

feudalismo, como a Italia e Portugal. Os poemas de amor exerceram uma

acção profunda nos costumes das classes elevadas, foram lidos com

encanto e deram origem ás Novellas cavalheirescas, que luctaram com

vantagem contra a corrente classica.

_c_) INFLUENCIA GALLO-BRETÃ

(_Poemas e Novellas da Tavola Redonda_)

A grande raça celtica que occupou todo o Occidente, possuia como

as outras raças com que se fusionou, profundos elementos de poesia

tradicional. Porém esta poesia só nos apresenta vestigios depois do

seculo VI, em um pequeno grupo celtico, que escapou á conquista e

absorpção dos Romanos e dos Saxões, e até certo ponto resistiu ás

doutrinas do christianismo. Esse grupo celtico, que veiu enriquecer

as litteraturas da Europa com novas tradições poeticas, que seduziram

todas as imaginações depois do seculo XII com as encantadoras ficções

da _Tavola Redonda_ e do _Santo Graal_, compõe-se dos habitantes do

paiz de Galles ou Cambria e da peninsula de Cornwall (os antigos

_Kymris_), dos da Bretanha franceza (a _Armorica_), dos Gaëls do norte

da Escossia, e ainda da Irlanda. Do isolamento que este grupo celtico

conservou diante da conflagração dos povos desde as conquistas dos

Romanos até ao fim das invasões germanicas, escreve Renan: «Nunca

familia humana viveu mais isolada do mundo e mais pura de toda a

mestiçagem estrangeira. Confinada pela conquista em ilhas e peninsulas

esquecidas, ella oppoz uma barreira inaccessivel ás influencias

exteriores; tirou tudo de si propria, e viveu com os seus recursos.

D’aqui esta potente individualidade, este odio ao estrangeiro, que

até hoje, tem accentuado o traço caracteristico dos povos celticos. A

civilisação de Roma apenas os attingiu, deixando entre elles poucos

vestigios. A invasão germanica repelliu-os diante de si, mas não os

penetrou.»[125] É natural que o elemento kymrico, na Bretanha insular,

conservasse mais intensa a memoria das suas tradições; e que a Bretanha

continental, ou a Armorica, as renovasse mais tarde, pela relação entre

os dois paizes, dando-lhes esse relêvo poetico com que deslumbraram

a Europa no seculo XII. Dois periodos de elaboração se destacam

historicamente; um, que começa no seculo VI da nossa éra, quando se

vulgarisam os cantos dos bardos Taliesin, Aneurin e Liwarc’h-Hen,

e se escutam as melodias da _chrota britana_, os _Lais_ amorosos,

e os Contos maravilhosos do _Mabinogion_; o outro é principalmente

litterario, idealisando as aventuras guerreiras de _Arthur_, os amores

de _Tristão_, de _Lancelot_, de _Merlin_, creando por effeito da

propaganda christã o cyclo dos poemas do _Santo Graal_. Se o elemento

tradicional foi principalmente elaborado na Bretanha insular, na

Bretanha franceza é que esses themas tiveram o seu desenvolvimento

artistico, espalhando-se pelos menestreis normandos por toda a Europa.

Renan define essa primeira época de revivescencia poetica da raça

celtica: «O sexto seculo foi para as raças celticas esse momento

poetico do despertar, e da sua primeira actividade. O christianismo,

recente ainda entre ellas, não tinha completamente abafado o culto

nacional; o druidismo defende-se em suas escholas e nos seus logares

consagrados; a lucta com o estrangeiro, sem a qual um povo nunca chega

á plena consciencia de si proprio, attinge o seu mais alto gráo de

vivacidade.--O sexto seculo, é effectivamente, para os povos bretãos

um seculo perfeitamente historico.»[126] Basta-nos fixar esta época

para determinar desde quando se espalham os cantos lyricos bretãos,

que adquiriram um certo interesse até ao ponto de se desenvolverem

em poemas de aventuras. As melodias e instrumentos musicos bretãos,

como a _rhota britana_, citada nos versos de Venancio Fortunato, são

levados por todas as côrtes da Europa por cantores vagabundos, desde

o seculo VI até ao XII seculo. Falla-se no poema de _Guillaume au

Court-nez_, no prazer de ouvir _cantos bretãos_ entre os prazeres do

vinho e da caça. Eram esses cantos os _Lais_, principalmente agradaveis

ás mulheres, como o revela Denys Pyramus: «_Lais_ soulent as dames

plaire.» Juntamente se espalhavam os cantos narrativos, a que se

chamava _Bairtni_, designação que se encontra no Arcipreste de Hita

como nome de um instrumento musico, e que o rei Dom Duarte, no _Leal

Conselheiro_ emprega como o narrador de contos: «em tal maneira que

não pareça que os _albardões_ tem mais sabedoria que nós, por que

elles nom se trabalhom d’arremedar as _estorias_ melhores, mas que

lhe som mais convenientes.»[127] A palavra _albardeiro_, empregada

por Gil Vicente como exprimindo a sua vêa comica parece ligar-se a

esta funcção narrativa; assim como as palavras _Fatiste_ no tempo

de Francisco I significando compositor «de jeux et novalités»[128]

e o portuguez _Fadista_, cantor de narrativas, se ligam ao nome de

_Faith_, dado na Irlanda aos cantores ou vates. O bardismo, perdido

já o seu caracter sacerdotal, conservou-se como um mister de cantores

vagabundos: «instituição que atravessou seculos e tornou-se uma feição

caracteristica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade media,»[129]

como o affirma Belloguet. Ao colligir as leis consuetudinarias

cambrianas, no seculo X, estatuia Hoel o Bom ácerca d’estes Bardos:

«Quando a rainha quizer ouvir um canto, o bardo domestico será obrigado

a cantar um á sua escolha, _mas em voz baixa_, ao ouvido para que a

côrte não seja perturbada.» Com o nome de _Segrel_ (de _Secretela_, na

baixa latinidade) encontra-se nas côrtes peninsulares uma classe de

cantores que não são nem jograes, nem trovadores. Pela caracteristica

do canto modulado em voz baixa, como se exige nas _Leges Walliae_,

e pela frequencia dos _Lais_, que achamos citados nos Cancioneiros

portuguezes, este nome de _Segrel_ designa o cantor das melodias

bretãs. Já no seculo XII o trovador Geraud de Riquier fallava d’esta

classe de cantores da côrte: «E ditz als trobadors--_Segriers_ por

totas corts.» E no Regimento da Casa de D. Affonso III, de 1245,

acha-se estabelecido: «Elrei aia trez jograres em sa casa e nom mais,

e o jogral que veher de cavallo d’outra terra, ou _segrel_, lhe dê

elrei ataa cem (maravedis?) ao que chus der, e nom mais, se lhe dar

quizer.»[130] Muitos trovadores portuguezes alludem a este nome; como

Affonso Eanes de Coton:

a todo o escudeyro que pede don

as mays das gentes lhe chamam _segrel_...

(Canç. 556)

Abril Peres, satyrisando Bernal de Bonaval, refere-se á situação de

dependencia do _segrel_ (Canção n.^o 663); e o jogral Picandon,

respondendo a um apodo de João Soares Coelho, exalta a sua categoria

dizendo:

gram dereyt’ey de ganhar dões,

e de seer en corte tan preçado

como _segrel_...........

A estas melodias bretãs refere-se o trovador catalão Guerau de Cabrera,

como um talento distinctivo: _á tempradura de Breton_; e no

romance de _Raoul de Cambrai_ aponta-se os musicos bretãos como os

melhores: «_Harpent Bretons_ et viellent jougler.» E no _Lai de

l’Épine_, de Marie de France, cita-se o lai d’Aielis cantado por um

irlandez ao som da _rota_ bretã:

Le _lais_ d’Aielis

Que uns _Yrois_ doucement note

Mont le sonne ens sa _rote_.

Vê-se que a fórma lyrica bretã do _Lai_, que encantava a Europa,

tinha tambem de reflectir-se em Portugal; o trovador Gonçalo Eannes do

Vinhal allude á imitação constante de cantares:

senon aquestes de _Cornualha_,

mays estes seguidos ben sem falha,

e nom vi trobador per tantos logares.

(Canç. 1007.)

Em uma canção de Fernão Rodrigues Redondo, (n.^o 1147) refere tambem

esta fórma: «Muy ledo seend’hu cantara seus _lays_...» O lay

tornou-se narrativo, vindo a desenvolver-se nos longos e interessantes

poemas de aventuras e amores. No _Cancioneiro Calocci-Brancuti_

foram colligidos cinco Lais, dos que estavam mais em voga na côrte de

D. Diniz; são o _Lai de Elis o Baço_, trez de _Don Tristan_,

e o _Lai das Quatro Donzellas_. No _Poema de Alfonso Onzeno_,

do seculo XIV, falla-se em: «_la farpa de Don Tristan_.»

O enthuziasmo pelos cantos lyricos provocou o seu desenvolvimento em

poemas narrativos da Bretanha; assim, figuras quasi sem realidade

historica, como o rei Arthur, servem de thema ás ficções da _Tavola

Redonda_, e ás reminiscencias das luctas da nacionalidade celtica

contra os Romanos e Saxões; e Merlim, ultimo vestigio da resistencia

do druidismo contra o christianismo, não achando mais interesse nas

prophecias, torna-se o amante da fada Viviana; os amores de _Tristão

e de Yseult_, de _Flores e Brancaflor_ fascinam todos os povos

da Europa, e para satisfazer esse interesse, desenvolvem-se em extensas

novellas. É na Bretanha continental que estes assumptos são elaborados

no seculo XII, e propagados pelos Normandos: «Cousa estranha! foram os

Normandos, isto é, de todos os povos o menos sympathico aos Bretãos,

que espalharam a fama das fabulas bretãs. Espirituoso e imitador, o

Normando tornou-se por toda a parte o representante eminente da nação á

qual anteriormente se impuzera pela força. Francez em França, inglez em

Inglaterra, italiano na Italia, russo em Novegorod, o normando esqueceu

a sua propria lingua para fallar a lingua do povo que elle tinha

vencido e tornar-se o interprete do seu genio. O caracter vivamente

accentuado dos romances gaulezes não podia deixar de ferir homens tão

promptos a apanhar e assimilar as ideias do estrangeiro. A primeira

revelação das fabulas bretãs, a Chronica latina de Geoffroy de

Monmouth, appareceu por 1137, sob os auspicios de Robert de Glocester,

filho natural de Henrique I. Por estas mesmas narrativas se apaixonou

Henrique II, e a seu pedido Robert Wace escreveu em francez, em 1155,

a primeira historia de Arthur, e abriu a marcha a que se arrojou uma

multidão de poetas ou de imitadores francezes, provençaes, italianos,

hespanhóes, inglezes, scandinavos, gregos, georgianos, etc.»[131]

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 13 / 27 段