os pontos de vista, o berço necessario da grande evolução esthetica
das sociedades modernas.» E observa como esta longa crise de transição
historica, pela instabilidade social não deixou chegar á perfeição
os themas artisticos idealisados na poesia moderna: «A expansão
esthetica não faz suppôr sómente um estado social bem fortemente
caracterisado para comportar uma idealisação energica: exige, além
d’isso, que qualquer que fôr esse estado seja bastante estavel para
permittir espontaneamente, entre o interprete e o espectador, esta
intima harmonia prévia, sem a qual a acção das bellas-artes não
conseguiria obter habitualmente uma plena efficacidade. Ora estas duas
condições fundamentaes, naturalmente reunidas entre os antigos, nunca
mais puderam sêl-o depois em um gráo sufficiente, mesmo na Edade
media,...»[103] «Assim a fonte essencial d’esta singular hesitação
social que caracterisa a arte moderna, e que tanto neutralisou até hoje
a universalidade necessaria da sua influencia contínua, depois da sua
primeira evolução tão firme, tão original e tão popular na Edade media,
deve ser directamente procurada na inevitavel instabilidade do estado
social correspondente, suscitando sempre novas transições successivas.
Uma profunda e perseverante elaboração esthetica era certamente
impossivel entre populações em que cada seculo, e algumas vezes mesmo
cada geração modificava mui notavelmente a sociabilidade anterior para
que cada geração determinada tivesse já essencialmente cessado antes
que o poeta ou o artista podessem n’ella contrahir sufficientemente a
intima penetração espontanea indispensavel á acção das bellas artes.
É assim, por exemplo, que o espirito das Cruzadas, tão favoravel á
mais poderosa poesia, tinha irrevogavelmente desapparecido quando as
linguas modernas puderam achar-se assás formadas para permittir-lhe a
plena idealisação; ao passo que entre os antigos, cada modo effectivo
de sociabilidade tinha sido de tal modo duravel, que o genio esthetico
podia tornar a sentir e tornar a achar, depois de muitos seculos,
paixões e affectos populares essencialmente identicos áquelles de que
queria representar o imperio anterior.»[104]
Conhecidos os caracteres da evolução historica da Edade media, a
separação dos Poderes e a sua transformação, que ainda se exerce na
determinação das fórmas compativeis do Poder _espiritual_ e do
_temporal_ com a consciencia e liberdade do homem moderno, por um
tal processo de dissolução do regimen catholico-feudal se explica a
evolução e as vacillações de todas as Litteraturas romanicas. Vejamos
agora os themas poeticos com que a França exerceu a hegemonia esthetica
sobre essas litteraturas:
_a_) INFLUENCIA GALLO-ROMANA
(_Lyrismo trobadoresco_)
No meio da confusão das raças e das invasões dos povos, em que se
elaboraram as novas instituições religiosas e politicas que deram á
Europa a estabilidade, foram-se creando costumes e as relações de uma
pacifica sociabilidade. É então que se quebra esse mutismo, e as novas
linguas se exercem no canto, celebrando pela poesia o amor, a
galanteria e a confraternidade. A partir do seculo X espalham-se pela
Europa esses cantores vagabundos, sahindo da França meridional, do fóco
da Provença, levando a todos os povos a boa nova do amor; póde-se dizer
que as canções jogralescas vieram desenvolver pela _accentuação_ as
linguas romanicas, tornal-as communicativas e escriptas. Tambem nas
linguas germanicas esta ideia de que a linguagem começa pelo canto
exprime-se em _Singuen_ e _saguen_, synonimos como o _cantar_
e _decir_, nos romances hespanhoes. A situação da Provença favorecera
esta influencia esthetica impulsiva. Durante o periodo das invasões dos
barbaros do norte, permaneceu quieta a Provença, apenas alvoroçada pela
passagem dos Visigodos, que se precipitaram sobre a Peninsula, e pelos
Burguinhões então já polidos pela permanencia na Italia. Flor bafejada
pela amenidade do meio dia da França, recebendo os restos da cultura
grega e da paixão arabe, ella foi como o nectario em que se formou o
mel da poesia, que encantou a primeira sociabilidade dos povos da
Europa, e que determinou as fórmas do moderno lyrismo. Da lingua usada
nas canções dos trovadores, dizia Raymond Vidal: «_La parladura ... de
Lemosin val mais per far vers et cansons et serventes._» Esta região
comprehendia um centro de irradiação commum intermediaria, entre a zona
oriental que formam o Auvergne e Velay, e a zona occidental de Poitou,
de Saintonge e de Guienne.[105] Escreve Fortoul, fazendo notar a
importancia d’este fóco de cultura trobadoresca, em que a burguezia do
Limousin, do Périgord e de Quercy, rivalisava com a nobreza na
composição das canções amorosas: «No Limousin, em quanto o terrivel
Bertrand de Born canta as guerras, que elle ateia constantemente,
Giraud de Berneil sáe da condição mais infima para fazer as mais bellas
canções de amor, e Bernard de Ventadour aprende ao pé do forno de seu
pae a lingua que o faz brilhar na côrte dos seus senhores, na Hespanha,
na Italia; de um lado os senhores de Uisel reunem-se para compôrem as
arias e os versos dos cantos que tornam a sua nobre familia celebre; do
outro, os joviaes burguezes de Uzerche, Gaucelm Faydit e Hugues de la
Bezelaria, espalham na sua cidade e até á Lombardia a fórma do seu
espirito cortez e agradavel. O Périgord, mesmo, que com o gentilhomem
Arnaud Daniel, leva ao suprasummo as difficuldades e os artificios da
versificação meridional, produz operarios como Elias Cairel, bastante
feliz para fazer brilhar até na Grecia o esplendor da poesia que elles
aprendiam nas lojas de Sarlat.»
No seculo XI acodem os provençaes á côrte de França por occasião do
casamento de Constança com Roberto; cento e cincoenta annos mais tarde,
já se acham diffundidos pelo territorio francez o mesmo gosto poetico
e galanteria provençalesca; usavam-se esses certames poeticos a que
concorriam com as suas trovas e canções para celebrarem o casamento
dos princepes, ou o gráo de cavalleria que recebiam. Em Italia,
segundo Folgore de San Geminiano era do estylo: «Cantar, danzar alla
provenzalesca.»[106] Dante, no _Convito_, queixa-se do emprego
immoderado do provençal: «Questi fanne vile lo parlare italico, e
prezioso quello de Provenza.» E tão precioso era este modo de fallar
provençal, que no _Purgatorio_, Dante obedeceu á corrente da
época pondo na bocca de Arnaldo Daniello trez tercetos em provençal.
Na Allemanha não era menos conhecida a lingua e a poesia provençal: no
poema do _Parzival_, lê-se que as verdadeiras tradições foram da
Provença para a Allemanha.[107] Os trovadores achavam as linguas do
norte sem melodia; e Peire Vidal compara-as a ladrar de cães: «E lor
parlars sembla lairar de cans.»
Vejamos a irradiação d’este lyrismo para a peninsula hispanica. O
governo suave da Provença continuado na mesma familia por mais de
duzentos annos, aprimorou a galanteria cortezã, que tanto distingue as
canções dos seus trovadores; quando se extinguiu o herdeiro masculino,
em 1092, a corôa de Provença passou para o Conde de Barcellona, pelo
casamento com a unica herdeira da familia de Borgonha. Os poetas
acompanharam a côrte que transpoz os Pyreneos e veiu fixar-se na
Hespanha. Um facto semelhante se deu com o casamento dos Condes de
Barcellona, que lhes fez pertencer o reino de Aragão. Os reis, que
tambem poetisavam em lingua limosina, abriram nas suas côrtes azylo
aos poetas provençaes, principalmente depois da cruzada de exterminio
contra os Albigenses. O maior elogio que se póde fazer do sentimento
e elevação moral dos trovadores é vêl-os abraçarem o partido dos
perseguidos. A cruzada contra os Albigenses recebeu um caracter
religioso para lhe imprimirem mais ferocidade, mas era a pressão brutal
da França feudal e monarchica do norte contra a França meridional
municipalista e semi-republicana.[108] Muitos trovadores se refugiaram
na Hespanha, no tempo de Pedro II de Aragão, que morreu em 1213,
defendendo a causa d’elles na batalha de Moret. Entre esses foragidos
citam-se os trovadores Hugues de Saint-Cyr, Azémar le Noir, Pons Barba,
Raimond de Miraval e Perdrigon.
É durante a sua educação na Galliza, que o rei Affonso o Sabio estuda
a nova poesia provençal, adoptando o dialecto gallego para as suas
_Cantigas_, por que essa linguagem se achava exercitada na
expressão dos mais delicados sentimentos. Em volta de Affonso o Sabio
reunem-se os trovadores mais distinctos, sendo elle o mais generoso
impulsor da propagação do novo lyrismo. Conforme os centros d’onde
irradiava essa poesia, assim ella tinha um caracter mais ou menos
aristocratico, mais ou menos popular. Os trovadores da Gasconha,
Cercamons, Marcabrun e Peire de Valeira, e por tanto predominando o
elemento popular, foram conhecidos em Portugal, prevalecendo o seu
gosto nas serranilhas. Marcabrun em uma das suas canções pede a Deus
que vele pelo rei de Portugal. De todos os trovadores o que dá prova
de ter frequentado a côrte portugueza é Peire Vidal. Estas relações
cortezãs explicam-se pelos casamentos reaes; D. Sancho I foi casado
com D. Dulce, filha de Raymundo Berengar, quarto conde de Provença
e rei de Aragão. No Nobiliario do Conde D. Pedro citam-se muitos
fidalgos com a indicação, _foi trobador_, e que _trobou bem_;
pertencem a esse numero dos partidarios de Affonso III, que antes
da deposição de D. Sancho II se refugiram na côrte de S. Luiz, como
os Baiões, os Cogominhos, os Valladares, os Porto-Carreros. O rei
D. Diniz, um dos mais fecundos e talentosos trovadores portuguezes
estudou conscienciosamente a arte do _gai-saber_, e, affirmando
a superioridade do seu ideal, escrevia: «Quero eu _em maneira de
Proençal_--fazer agora um cantar de amor.» O grande apreço que tanto
na Galliza como em Portugal se ligava á nova poesia «esta arte que
mayor se llama» como escreve o Marquez de Santillana, fez com que a sua
influencia se exercesse sobre toda a Hespanha: «en tanto grado, que
no ha mucho tiempo quatesquier Decidores ò Trovadores destas partes,
agora fuesen Castellanos, Andaluçes e de la Extremadura todas sus obras
componian en lengua _gallega_ ó _portugueza_.»[109] Esta
poesia começa a florir justamente quando os nossos cavalleiros traziam
accesas as almenaras dos castellos roqueiros, e faziam investidas,
correrias nas terras dos sarracenos.
Na côrte de D. Sancho I e D. Affonso II os duros guerreiros neo-godos
brilhavam com a graça das canções, algumas das quaes se acham no
_Cancioneiro da Ajuda_. Em uma d’essas canções um cavalleiro
allude ao grito de guerra na tomada de Santarem por D. Affonso
Henriques. Ajuntára o monarcha alguns cavalleiros, indo com altas
escadas atacar o castello de Santarem; era ao quarto de alva e as
roldas dormitavam; o rei dividiu a sua comitiva em dois troços, um
que investia pelo lado do monte _Alphão_, e outro que atacava
pelas bandas da ribeira ou parte baixa (_sesserigo_). Ao lançar
as escadas, o ruido despertou as roldas do somno, tocaram alarme, e
a mourisma deu de repente sobre os poucos cavalleiros que confiavam
no seu ardil. N’aquelle transe desesperado foi preciso levar tudo á
viva força; os poucos portuguezes venceram. D’ahi o grito de guerra
conservado na canção:
Ay Sentirigo! ay Sentirigo,
Al e _Alphão_ e al _sesserigo_.
Era dever de todo o homem de guerra, como bom cavalleiro, saber
brandir uma espada e discretear galantemente com damas; mas n’estes
tempos de luctas como a da facção que depoz D. Sancho II, prevalecia
principalmente a satyra, como se vê nas coplas contra os Alcaides
que entregaram _como não deviam_ os castellos a D. Affonso III.
Fallando do _Cancioneiro da Ajuda_ (publicado por lord Stuart
em 1823), Frédéric Diez caracterisava as obras d’esta collecção e a
época a que pertence: «Se as fórmas poeticas são rigorosamente as dos
trovadores, _de longe em longe accusam a nacionalidade_, mas não
deixam suppôr o conhecimento familiar da fórma provençal. Os _versos
de dez syllabas_ predominam nas estrophes, que se correspondem
pela rima... Ha uma analogia surprehendente na contextura, e em
nenhuma das canções pudemos descobrir vestigios de traducção.»[110]
Esta caracteristica de metro define-nos a influencia _limosina_,
que seguiram os nossos trovadores fidalgos. Ainda não imperava a
galanteria e o requinte da sensibilidade; só começou com a imitação
directa da Provença, na côrte de Dom Diniz, que empregou todos os
recursos da arte para exprimir a paixão. As canções provençalescas
ou _em maneira de proençal_ dobravam-se a todos os caprichos
de uma poetica artificiosa, aos segredos do _leixapren_ e do
_mansobre_, ás exigencias da rima encadeada, aos córtes do verso
nos seus hemistichios, para corresponderem ás finas allegorias do
sentimento. Depois do direito feudal ter aberto um abysmo inaccessivel
entre a castellã e o servo, a canção trobadoresca veiu estabelecer
a _egualdade perante o amor_, conforme a bella phrase de
Quinet. O artificio provençalesco não consistia apenas em alardear
a plasticidade da lingua rude amoldando-se a todos os requebros, em
achar (_trouver_) os melhores recursos da rima e das combinações
estrophicas, mas principalmente em velar ou encobrir o sentimento que
fazia com que o apaixonado cantor erguesse os olhos para a castellã
orgulhosa. Um compassivo olhar, um leve sorriso precipitava o
scismador em um enlevo ou melancholia eterna, em uma louca inspiração.
Todas as emoções estão ali descriptas: o sentimento da propria
inferioridade, o olhar generoso que o levantou da terra, a anesthesia
das dores por um simples relance descuidado, o receio ou terror de que
adivinhem por quem é a absorpção do seu espirito, que o traz de longe,
a esperança de a vêr mais de perto e a lembrança angustiosa de uma
ausencia forçada, tudo isto vibra na canção provençalesca. Avançava-se
para o idealismo neo-platonico, que ia suscitar o superior lyrismo
italiano.
No _Cancioneiro da Ajuda_, imita-se toda essa ordem de sentimentos;
não só a lingua, como as fórmas poeticas notadas por Diez, como a
natureza dos sentimentos, provam a antiguidade e o valor d’este
monumento. Os nossos trovadores tambem se apaixonam por castellãs,
sem attenderem ao abysmo que os separava; João Soares de Paiva morreu
em Galliza por amores de uma infanta. Na côrte de D. Diniz impera já
esta metaphysica amorosa, que elle idealisa artificialmente, fallando
do temor do seu segredo amoroso, apezar de ter numerosos bastardos. E
levado pela necessidade de variar e vivificar com realidade as fórmas
poeticas, é que o rei D. Diniz, seguindo o estylo das pastorellas
da eschola de Gasconha, imita as serranilhas populares portuguezas
e gallegas, dando assim protecção a todos os jograes das côrtes
de Hespanha, que vinham a Portugal como ao centro da mais activa
elaboração poetica do seculo XIV. Pela poesia trobadoresca se fazia
a unificação affectiva dos Estados livres peninsulares, e Portugal,
como o confessa o erudito Marquez de Santillana, exerceu então pela
primeira vez a sua hegemonia. Durante este periodo a poesia provençal
recebeu uma transformação profunda na sua essencia; suffocado o
esplendor da Provença pela terrivel cruzada contra os Albigenses,
esse lyrismo desceu ás classes populares, d’onde primeiro sahira
(_son veill antic_), convertendo-se-lhe agora em um mister lucrativo
(os _jocistae_, _joculatores_ ou _jograes_, e os _ministralles_ ou
_menestreis_). O jogral substituia o desinteressado trovador: ia de
terra em terra acompanhando o cantor apaixonado, apanhando de memoria
as canções que lhe ouvia, e repetindo-as depois nas praças, ou nas
côrtes, recebendo da multidão a pequena moeda (a _poitevine_) e da
fidalguia pannos e cintos. É _frequente_ encontrarem-se protestos dos
trovadores contra esta exploração jogralesca; Astorga, no seu _Poema
de Alexandre_, tem medo que o tomem por um jogral, e diz: «Mester
trago fermoso, no es de _ioglaria_.» Em uma das suas canções o rei
Dom Diniz confessa que celebra os seus amores sem se parecer em nada
com esses que «troban no tempo da frol.» Mas a invasão jogralesca era
uma consequencia da vitalidade esthetica acordada na alma moderna. No
_Cancioneiro da Vaticana_ encontram-se a par de reis, de infantes e
fidalgos, numerosos jograes; taes são Affonso Gomes _jograr_ de Sarria,
Ayres Paes _jograr_, Diogo Pezelho _jograr_, Lopo _jograr_, que se
destacam tambem d’entre clerigos e burguezes. A casuistica amorosa
vae encontrar nas fórmas jogralescas moldadas sobre o typo da canção
popular, extraordinarias bellezas de simplicidade natural e de riquezas
tradicionaes. Assim no momento em que o lyrismo moderno ia receber
na Italia a sua fórma litteraria, tocava as fontes vivas da tradição
poetica occidental.
O apparecimento da poesia dos trovadores e a sua rapida diffusão
nas Litteraturas romanicas e germanicas, só se torna claro pelo
conhecimento de um _fundo commum tradicional_, que já está achado.
Circumstancias accidentaes, como a commoção social provocada pelas
Cruzadas, n’isso influiram tambem, despertando a curiosidade das
classes elevadas, que fixaram essa poesia na fórma _escripta_.
Em quanto duraram as expedições da Palestina, (1095 a 1290) a
poesia trobadoresca attingiu o seu maximo esplendor; n’este periodo
expandia-se a vida burgueza ou propriamente a classe media, que se
tornou a base estavel da sociedade moderna. Terminadas as Cruzadas,
e tendo por tanto a Realeza de concentrar em si a dictadura pela
decadencia necessaria do poder senhorial, envolveu tambem n’essa
absorpção muitas garantias locaes. A França do norte abafando o
municipalismo do sul, a poesia provençal extinguiu-se, voltou outra vez
para o coração do povo, levando-a os jograes por todas as côrtes da
Europa. Podem-se determinar trez periodos a esta efflorescencia lyrica:
_Tradição e Nacionalidade_, em que a poesia é conservada oralmente,
nos antigos cantos populares gaulezes, no centro ethnico da Aquitania,
com relações intimas com as _pastorellas_ italianas, com as _baladas_
provençaes e com as _serranilhas_ portuguezas. O caracter de
nacionalidade chegou a accentuar-se no uso que d’esta poesia fizeram os
trovadores, defendendo a liberdade municipal e proclamando a revolta.
A sua _diffusão_ penetrou como corrente de distincção aristocratica em
todas as côrtes da Europa, chegando até á Inglaterra e á Allemanha;
porém no Meio Dia volvia outra vez para o povo, e pela exploração
jogralesca se aproximava por simplificação do primitivo typo
tradicional.
_Uso e imitação_, nos divertimentos litterarios palacianos; os
proprios monarchas a reproduziam e a protegiam como uma distracção
culta, como um pretexto de galanteria. Pela necessidade de renovar
os artificios da metrica trobadoresca, de que se havia codificado
numerosas regras, o desejo da novidade levou á imitação de todos
os segredos technicos e por fim á renovação inconsciente do typo
tradicional, que transparece na fórma litteraria dos Cancioneiros
aristocraticos.
Na Italia foi outra a corrente; da casuistica sentimental dos
trovadores o genio italiano transitou para um desenvolvimento
subjectivo, fecundando-o pela abstracção philosophica; as Litteraturas
romanicas pela influencia do _dolce stil nuovo_ fixaram sobre os
rudimentos trobadorescos as fórmas definitivas do lyrismo moderno.
_b_) INFLUENCIA GALLO-FRANKA
(_Gestas ou Epopêas medievaes_)
As condições de ordem e estabilidade na Europa datam do apparecimento
e acção historica de Carlos Magno; sustaram-se as invasões, e o
Feudalismo foi gradualmente cahindo diante da crescente dictadura
monarchica. É essa lucta dos grandes vassallos contra a realeza, que
se torna o thema fundamental das Epopêas ou Canções de Gesta, que se
produziram depois da completa fusão do elemento gallo-franko, como
synthese da nova nacionalidade--a França. O typo lendario de Carlos
Magno centralisou na imaginação poetica esta lucta da realeza, que
durou seculos. A fórma cyclica d’essas composições narrativas e a
independencia e superioridade politica do franko, bem mostram que essas
epopêas, ainda não totalmente individuaes, são as _Cantilenas_
germanicas agrupadas em torno de um mesmo vulto historico, pelo
syncretismo dos factos e das épocas, que é um dos processos espontaneos
da tradição. Segundo os medievistas Paulin Paris e Léon Gautier, nas
_Gestas_ francezas é germanica a ideia da guerra, da realeza, do
feudalismo, dos symbolos juridicos, da mulher e da divindade. Os textos
de Tacito e de Eghinard provam a primitiva commoção historica do modo
mais completo, e ao mesmo tempo a persistencia das _Cantilenas_
germanicas durante a primeira raça, cantadas em lingua vulgar, como
vêmos pelo principal monumento, a _Vie de Saint Faron_, do seculo
VII. A figura imponente de Carlos Magno syncretisando em si todas as
individualidades heroicas, que se manifestaram ainda depois d’elle,
veiu imprimir a essas Cantilenas um caracter historico, dar-lhes um
agrupamento cyclico e uma expressão nacional.
As primeiras Gestas que circularam na Europa foram a _Chanson de
Roland_, a de _Girard de Rousillon_, a de _Ogier le Danois_, a de
_Raoul de Cambrais_ e de _Aliscamps_. Este periodo de assombrosa
elaboração épica deu-se do principio do seculo XII até 1328. Estas
datas são capitaes para nós, por que abrangem o periodo organico da
nacionalidade portugueza. Era impossivel que n’estes annos de aspiração
autonomica, em que o conde francez D. Henrique imitava as instituições
carlingias, como os _Missi dominici_, em que buscára apoiar-se
em colonias frankas, em que os Bispos, que representavam então o
maximo poder espiritual e eram os _defensores civitatum_, vinham
tambem de França, impossivel seria que não chegasse a Portugal essa
floração poetica das Gestas heroicas. O nome de _Gesta_ e _Estorea_,
significando a poesia épica na Peninsula, e a referencia á _maestria
de Francia_, indicam-nos, que se deu uma intercorrencia da poesia
narrativa dos troveiros com a subjectiva dos trovadores. Emquanto estes
cantavam nas côrtes e solares feudaes, os troveiros recitavam nas
praças, d’onde muitas vezes a auctoridade os repellia ou obrigava a
pagarem um imposto.
As tradições épicas do norte da França espalharam-se em Portugal no
tempo de D. Affonso Henriques, pela passagem dos cavalleiros que iam
por mar á Palestina. Esses cavalleiros, ávidos de aventuras heroicas, o
ajudaram a conquistar Lisboa, e no descanso do arraial se desenfadavam
com as suas tradições guerreiras.[111] Na _Chronica Gothorum_,
as phrases referentes a D. Affonso Henriques _clarus ingenio_
e _lingua eruditus_, coadjuvam em parte a tradição de que este
primeiro rei portuguez fôra poeta. A sua côrte, apezar dos continuos
trabalhos da guerra, foi abrilhantada pelos costumes da galanteria
provençal; casado com uma princeza italiana (Mahaut) não nos admira que
as canções de Sordello de Mantua e de Bonifacio Calvo fossem conhecidas
em Portugal. Mas sobretudo as suas preferencias deviam de ser pelos
cantos épicos; as epopêas heroicas desenvolvidas pelo genio francez
não puderam encontrar na Peninsula condições para se implantarem, por
lhe faltarem uma classe feudal independentemente organisada, e por ser
excessiva a admiração pela cultura latina, que se tornou uma distincção
na aristocracia e alto clero.
A tradição épica da Edade media não foi extranha a Portugal; na
_Chronica_ de Turpin, acha-se citado o nome de Portugal.[112]
Infeliz lembrança teve o pseudo-chronista, por que pretendendo dar-se
como contemporaneo de Carlos Magno, a designação _Portugal_
desconhecida em todos os documentos anteriores a 1069, descobre
o intuito da falsificação.[113] Segundo Fauriel, na gesta de
_Fier-à-bras_ ha o retrato allegorico da rainha D. Thereza.