[94] _Dialog._, p. 229.--Como comprovando esta affirmação escrevia

Radau, referindo-se a Malaca, ao fim de trez seculos de decadencia do

nosso poder: «O idioma que ahi se falla hoje ao lado do inglez é uma

especie de phenomeno philologico: _é o portuguez despojado das suas

terminações_, e por assim dizer, reduzido a raizes. Os verbos não têm

tempos nem modos, nem numeros, nem pessoas; os adjectivos perderam o

feminino e o plural. _Eu vai_, significa _eu vou_, _eu tenho ido_, _eu

irei_, segundo as circumstancias. Algumas palavras do malaio completam

esta lingua que representa um curioso exemplo de retrocesso ao estado

primitivo.» (_Un Naturaliste dans l’Archipel Malais_, Rev. des Deux

Mondes, vol. 83, p. 679.)

[95] _Obras_, t. I, p. 64.

[96] _Europa na Edade media_, t. I, p. 347.

II

Elementos dynamicos da Litteratura

As instituições sociaes no seu funccionamento normal, transformando-se

e acompanhando o progresso humano nas varias cathegorias da evolução

economica, politica e moral, e do seu desenvolvimento esthetico,

scientifico e philosophico, são como uma energia ou um organismo em

estado dynamico. As Litteraturas como expressão da affectividade,

reflectem todos os impulsos d’estes varios factores do progresso

social, e modificam-se continuamente obedecendo a esse dynamismo.

Costumes estaveis e opiniões conscientes criam uma sociabilidade que

se alarga pelo sentimento de patria; sentimentos collectivos é que

determinam pela necessidade da sua expressão a elaboração esthetica

de uma litteratura e de uma arte nacional. A Edade media é o grande

campo historico em que as raças barbaras da Europa, depois da ruina do

Imperio romano, foram espontaneamente estabelecendo as suas bases de

ordem, e organisando-se em novas nacionalidades, que se tornaram por um

concurso successivo instrumentos de progresso, como continuadoras da

Civilisação occidental. Essas novas nacionalidades foram remodelando

os antigos poderes temporal e espiritual no Feudalismo e na Egreja;

reconstituindo a familia pela elevação moral da mulher; nobilitando

o trabalho pela emancipação das classes servas no proletariado que

se tornou o terceiro-estado; creando as linguas romanicas, e uma

arte original, sobretudo a architectura e a poesia, para exprimirem

este espantoso concurso de sociabilidade. As nacionalidades modernas

ao cooperarem n’este movimento, exerceram uma acção hegemonica umas

sobre as outras, as mais adiantadas, como a França, sobre as mais

rudimentares ou mais remotas. As Litteraturas meridionaes, franceza,

italiana, hespanhola e portugueza foram a consequencia d’esta vasta

organisação do Occidente, actuando sobre o desenvolvimento das

linguas romanicas, e tornando-as aptas para exprimirem poeticamente

os sentimentos d’esta mais ampla sociabilidade, e logicamente os

pensamentos de uma mais profunda capacidade intellectual. Uma mesma

noção, como observou Littré, rege a historia politica e a historia

litteraria das nações occidentaes; é impossivel conhecer uma sem a

outra. N’este longo periodo de transição entre o mundo antigo e a edade

moderna, a Edade media apparece como uma éra de transição; n’ella se

criam as condições staticas do futuro progresso humano. É na Edade

media que existem todos os germens tradicionaes e estheticos, que

receberam ulteriores fórmas conscientes de Arte e de Litteraturas;

mas esse mesmo caracter de transição, tirou á estabilidade das

instituições, das opiniões e dos interesses sociaes uma continuidade

necessaria para serem idealisados lentamente e generalisarem-se como

thema de obras bellas. Comte notou admiravelmente esta caracteristica

da Edade media, que veiu a influir na vacilação das Litteraturas

modernas; bellos germens para uma larga e fecunda elaboração

esthetica, e transformações rapidas, ou crises revolucionarias na

sociedade europêa alterando as sympathias pelo passado, e fazendo

cahir na indifferença os themas da idealisação. O que é o caracter

_satyrico_, predominante nas Litteraturas romanicas, como

observou J. J. Ampère, senão a consequencia do desprezo dos velhos

themas religiosos e heroicos, quando os dois Poderes espiritual e

temporal entraram em uma dissolução no seculo XII? O que é o prurido

da imitação classica das Litteraturas greco-romanas, da Renascença

humanista até ao pseudo classicismo francez, senão a desorientação

d’essa instabilidade social, que procura novas bases de ordem? É

d’esta instabilidade que resultou o antagonismo que Frederico Schlegel

definiu nas litteraturas modernas, entre os seus germens medievaes

espontaneos e a auctoridade dos modelos classicos impostos pela

imitação erudita. Comte penetrou a essencia do problema, deduzindo-o

do phenomeno da dissolução do regimen catholico-feudal com que termina

a Edade media. A evolução esthetica medieval inspirára-se de todos

os elementos sociaes existentes: do militar ou _feudal_, na

idealisação das epopêas ou Gestas heroicas; do _theologico_ ou

sacerdotal, na hymnologia, na arte architectonica, na musica e nas

riquissimas lendas populares; do _industrial_, na coordenação

dos cantos lyricos, das Festas civicas e dramaticas; e por ultimo

d’esse estado mental do _positividade_ ou de criterio de bom

senso, que reage contra os preconceitos e avança para a comprehensão

scientifica e philosophica, que tanto transparece nas satyras e nos

contos. Alterados estes elementos sociaes, toda essa riqueza esthetica

da Edade media ficou prejudicada, justamente quando o novo grupo das

Linguas romanicas estava apto para dar-lhes expressão na elaboração

das Litteraturas modernas occidentaes. Observemos pois o processo, em

que as Litteraturas acompanham a intensa crise social e mental d’esta

longa phase revolucionaria que vae do seculo XII até ao seculo XIX,

reflectindo os seus principaes movimentos.

=§ 1.--A Edade media=

(HEGEMONIA DA FRANÇA)

A Edade media é a origem de todas as fórmas da evolução esthetica

moderna; n’essa grande época de elaboração fecunda, as manifestações

dos sentimentos _pessoaes_, _domesticos_ e _sociaes_, que correspondem

ao lyrismo, ao drama e á epopêa, acham na transformação da vida

collectiva estimulos para se desenvolverem estes caracteres do

individualismo humano. Comte esboça com nitidez esta evolução

esthetica, que se alarga idealisando as emoções de cada um dos

elementos sociaes que se debatem, o feudal ou militar, o theologico

ou sacerdotal, o industrial ou proletario, e o positivo ou esse

estado mental tendendo a julgar pela observação: «Sendo as faculdades

estheticas por sua natureza, essencialmente destinadas á ideal

representação sympathica dos sentimentos que caracterisam a natureza

humana, pessoal, domestica ou social, o seu desabrochamento especial,

seja qual fôr o ascendente que se lhe attribua, não bastava para

definir na realidade a civilisação correspondente.» E continúa

deduzindo da Edade media as condições para a grande expansão esthetica

moderna: «um estado social tão fortemente pronunciado como o da

Edade media--verdadeira fonte necessaria da evolução esthetica das

sociedades modernas.--Os costumes feudaes tinham desde logo impresso

aos sentimentos de independencia _pessoal_ uma energia habitual até

então desconhecida; ao mesmo tempo a vida _domestica_ fôra sobretudo

commumente embellezada e alargada, muito além do que fôra possivel aos

antigos, principalmente em virtude das felizes mudanças effectuadas

na condição da mulher; finalmente, a actividade collectiva, quando

ella pôde então ser convenientemente exercida, deveria com certeza

constituir uma fonte não menos poderosa de inspirações poeticas e

artisticas, segundo a nova convergencia moral que devia apresentar o

grande systema das guerras defensivas peculiar a esta memoravel phase

da humanidade.»[97]

Apesar de toda esta riqueza de elementos, as Litteraturas modernas

permaneceram longo tempo estacionarias, por que dependiam da creação

de uma linguagem apta a exprimir um novo estado de consciencia e

sentimentos apropriados a uma mais ampla sociabilidade, em que

tanto cooperára o espirito da confraternidade christã. O phenomeno

da creação ou derivação d’esse systema de linguas era em si já uma

elaboração esthetica; basta vêr como ellas se tornam mais fecundas

pelo desdobramento morphologico e semeiologico dos _duplos_ ou

vocabulos divergentes, e caminham pelos seus recursos analyticos das

preposições e dos verbos auxiliares e variedades pronominaes para uma

maior clareza logica. Por certo que a lingua que primeiro exprimisse

toda esta riqueza poetica seria aquella que se universalisaria por vir

no momento em que satisfazia uma necessidade da sociabilidade europêa,

como aconteceu com o francez.

O desenvolvimento tardio das manifestações litterarias e artisticas

do genio moderno é explicado por Comte pela necessidade de um

trabalho prévio, e da creação das linguas modernas. Mas esta mesma

elaboração é considerada pelo eminente philosopho como um producto

das faculdades estheticas: A creação das Litteraturas modernas esteve

estacionaria durante «uma lenta e difficil operação preliminar, cuja

indispensavel realisação devia preceder, por absoluta necessidade,

a expansão directa do genio poetico; comprehende-se que se trata

da elaboração fundamental das linguas modernas, nas quaes, em meu

entender, deve vêr-se uma primeira intervenção universal das faculdades

estheticas.»[98] E mostrando como estas faculdades são as menos inertes

na maior parte das intelligencias, verifica o seu exercicio no facto

do aperfeiçoamento da lingua vulgar: «Esta propriedade necessaria

tornou-se ainda mais evidente quando se exerceu, não na creação

espontanea de uma lingua original, mas na transformação radical de

uma lingua anterior, era consequencia de uma nova ordem social.» É

n’este ponto que o philosopho mostra como n’esta creação das linguas

romanicas, já se deu o antagonismo entre a evolução organica da Edade

media e o espirito classico e auctoritario da antiguidade: «Apezar

da actividade que o genio philosophico e o genio scientifico puderam

manifestar na Edade media,--seguramente muito pouco contribuiram um e o

outro para a fundação geral das linguas modernas. Apezar das vantagens

essenciaes que cada um d’elles ulteriormente tirou da superioridade

logica propria dos novos idiomas, _o longo uso que ambos fizeram do

latim_, depois que cessára inteiramente de ser vulgar, confirma bem

a repugnancia e a sua inaptidão naturaes para dirigirem a elaboração

da linguagem usual. Era então a faculdades menos abstractas, menos

geraes e menos eminentes, mas tambem mais intimas, mais populares e

mais activas, que devia necessariamente pertencer esta indispensavel

operação. Essencialmente destinada á representação universal e energica

dos pensamentos e dos affectos inherentes á vida real e commum, nunca

o genio esthetico pôde convenientemente fallar uma lingua morta,

nem mesmo estrangeira apezar de todas as facilidades excepcionaes

obtidas por habitos artificiaes.»[99] A lingua franceza exerceu um

extraordinario perstigio nos espiritos: «_cor parmi le monde_, et

est la plus detilable _à lire et à oir, que nulle autre_,» como

affirmava Martin de Carrale, justificando-se de escrever em francez

a sua Historia de Veneza; Bruneto Latini, o mestre de Dante, escreve

tambem em francez, Marco Polo, Rusticiano de Pisa, Fazio d’egli Uberti,

e tantos, contra o que levado pelo espirito nacionalista protestava

Benvenuto de Immola.

Sonhando a independencia do territorio que fôra dado em dote a

sua mulher D. Thereza, o Conde D. Henrique chamou para Portugal

colonias francezas, as quaes radicando-se no solo o coadjuvassem no

plano da autonomia territorial. A vinda de cavalleiros francezes ás

guerras das Cruzadas, e a sua passagem por Portugal, contribuiram

para a disseminação das tradições poeticas do cyclo carlingio, que

percorriam a Europa, e das canções lyricas trobadorescas; assim,

além da influencia ecclesiastica, se estabelecia a hegemonia franceza

nos primordios da cultura portugueza, quer sob o aspecto social como

sob o mental. No seu estudo _Les Communes françaises en Espagne et

en Portugal_, escrevem Helfrich et Clermont: «quasi que não ha

provincia ou districto em Hespanha, em que não penetrassem francezes,

ou costumes francezes.»[100] Atouguia, Lourinhã, Villaverde,

Azambuja, Cezimbra foram fundadas por colonias frankas. Reconhecendo

a influencia da lingua franceza no gallego e no portuguez, continuam

os mesmos auctores: «Mas a verdadeira influencia, influencia duravel

e preponderante que a França exerceu na Hespanha, deve ser procurada

no espirito das suas leis.--O ponto de partida, o fóco, por assim

dizer da propaganda politica que emanava da França, foi a Abbadia

de Cluny, uma das mais grandiosas creações do seculo X, e o centro

das ideias religiosas de que mais tarde Gregorio VII se tornou o

representante.--Em Hespanha os monges de Cluny fizeram supprimir o

ritual gothico para o substituirem pelo ritual gallicano. Em vez da

escriptura gallicana introduziram a lettra franceza, esforçando-se

para que prevalecesse em Castella a legislação da Bourgogne.» Por

esta influencia se estabeleceram em Portugal os monges de Cistér, que

segundo Victor Le Clerc substituiram o rito isidoriano (mosarabe) pela

liturgia gallicana. Esta ordem religiosa, pelo seu caracter austero

anti-artistico repellindo systematicamente o bello (a ornamentação era

o caracteristico do estylo arabe), teve uma forte preponderancia nos

primeiros seculos da monarchia, obstando em certa fórma á manifestação

do genio portuguez. As Cartas de Foral têm grandes analogias de

redacção e de garantias ou _frankias_ politicas com as das

communas francezas. Na reforma judicial do tempo de D. Affonso III, os

Corregedores imitam os _Missi dominici_ dos _Capitulares_ de

Carlos Magno. Não só bispos francezes regem as sés de Portugal, como os

bispos portuguezes D. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. João Peculiar,

D. Bernardo, fizeram a sua educação em França. Obedecendo ainda a esta

corrente civilisadora, teve o rei D. Diniz por mestre o francez Aymeric

d’Ebrard, a quem fez bispo.

Condições particulares favoreciam a França para esta hegemonia europêa;

herdeira da cultura grega em Marselha, e da romana em Tolosa, tinha

conservado o impulso como continuadora da Civilisação occidental. Pela

região da Aquitania, propagava-se ethnicamente o seu influxo á Italia,

em Hespanha, em Portugal, além das relações politicas estabelecidas

desde Carlos Magno. Os dialectos da França meridional, do Languedoc,

da Provença, do Delphinado, do Lyonez, do Auvergne, do Limousin

e da Gasconha, facilitavam a communicação da nova poesia lyrica

trobadoresca, que veiu exercitar as linguas romanicas litterariamente.

Pelo seu elemento franko podia a França exercer sobre as raças

germanicas da Allemanha e da Inglaterra egual hegemonia, propagando

até lá as suas Gestas épicas e cantos lyricos, e a cultura mental das

Universidades. Assim, pelos dialectos da França septemtrional, taes

como o Normando, o Picardo, o Flamengo e o Wallon tornava-se facil e

natural a communicação com populações que fallassem qualquer dialecto

teutonico. Na Inglaterra essa influencia primeiramente exercida pela

conquista normanda, subsiste nas leis promulgadas por Guilherme o

Bastardo em lingua franceza, que era tambem obrigatoria para as

resas e sermões ecclesiasticos, e ainda em 1328 eram os estudantes

da Universidade de Oxford obrigados a exprimirem-se em lingua

franceza. É esta importante hegemonia o que mais claramente explica o

desenvolvimento de todas as Litteraturas romanicas que tiraram d’ella

os germens fundamentaes com que elaboraram as suas creações estheticas,

na Edade media. Para bem julgar este imponente phenomeno artistico

importa conhecer o caracter social ou politico d’essa grande época

historica.

Dois poderes preponderaram na reorganisação social da Europa, depois da

queda do Imperio: o poder _espiritual_ ou da Egreja catholica e o

poder _temporal_ dos chefes militares ou Feudalismo. Em relação

ao mundo antigo representam estes dois Poderes um alto progresso, por

que se separaram, e nunca mais, apezar das suas mutuas usurpações,

conseguiram confundir-se. É este antagonismo intimo que constitue os

grandes conflictos symbolisados nas _Duas Espadas_, ou luctas

entre o Sacerdocio e o Imperio. Mas o principal phenomeno social que

resultou d’este antagonismo, foi a transformação d’esses mesmos

Poderes: avançando para a affirmação da intelligencia humana, a rasão

procura pela critica, pela observação e experiencia um novo poder

espiritual na sciencia; por outro lado, a liberdade humana firmando-se

na actividade pacifica da industria e mutua regularisação dos

interesses tornou cada vez menos necessaria a actividade militar e os

chefes feudaes foram fatalmente cahir sob a dictadura ou concentração

do poder temporal da Monarchia. Foi pois a Monarchia uma transformação

coadjuvada pelas classes industriaes, agricolas e mercantis, por que se

absorvia em si todos os poderes era como garantia de tornar a lei egual

para todos. Comte formulou esta noção tão clara de toda essa Edade

tempestuosa: «Sob qualquer aspecto que se examine o regimen proprio da

Edade media, vê-se sempre emanar da _separação dos dois Poderes_,

ou _da transformação da actividade militar_.»[101]

O Feudalismo e a Egreja organisaram-se á imitação um do outro, nas suas

hierarchias, na mutua dependencia dos seus membros; n’este esforço de

se confundirem, desnaturaram-se explorando a sociedade. A Egreja

dominava pelo terror moral, o Feudalismo pela compressão material,

ambos pelo obscurantismo. Uma tinha a _servidão voluntaria_(oblatos), o

outro a _servidão hereditaria_ (os da gleba); a humildade evangelica e

a fidelidade do homem-ligio levavam á mesma negação da dignidade do

homem. O papa comparava-se ao sol, como Gregorio VII, considerando os

imperantes como a lua, corpos opacos que só podiam receber a luz ou a

investidura soberana de Roma. O papado tornára os reinos da Europa seus

feudatarios, cobrando alcavalas em paga das graças espirituaes. Em vez

das terriveis pestes, cahiam sobre os estados as tremendas maldições e

interdictos da Egreja, que absorvia em si todas as capacidades

intellectuaes, tornando inconciliaveis o _clericus_ e o _laicus_. Tal

era a antinomia expressa pelo symbolismo medieval das _Duas Cidades_. É

pois natural que aos primeiros lampejos da rasão, as cousas religiosas

decahissem de respeito, sendo parodiadas sarcasticamente pelo povo nas

festas grotescas (_Missa do Asno_, _Festa dos Tolos_), e pelos cultos

nas satyras pungentes e desenvoltas dos _Goliardos_.

O Feudalismo, apezar de todas as eminentes qualidades da cavalleria

e da heroicidade, tornava-se odioso pela intervenção arbitraria da

força. Falhando-lhe os motivos da actividade militar pela estabilidade

social da Europa sustadas as duas correntes de invasão do norte e do

sul, o Feudalismo foi seduzido pela proclamação das guerras religiosas

da Cruzada. A Egreja que temia esse rival, pela absorpção das grandes

propriedades, lisongeou-lhe o instincto da guerra, soprou-lhe um

delirio de fervor religioso lançando-o para a Palestina. É no momento

em que o Feudalismo se dissolve, que mais deslumbrante se espalha

a sua poesia heroica. Os Barões longe dos seus solares, sujeitos á

_prescripção_ adoptada do Direito romano pelos jurisconsultos

ao serviço da Realeza, feridos na sua nobreza pelo registo dos

_Livros de Linhagens_, privados dos seus direitos immemoriaes

pela _revogabilidade_ das doações regias, ouviam soar o sino da

communa, que era como a trompa de Gedeão, que fazia cahir por terra

os seus castellos. É o sentimento da revolta que inspira as Canções

de Gesta celebrando a lucta dos Barões contra o poder monarchico;

_Carlos Magno_ foi a figura em volta da qual se centralisaram

as lendas das revoltas dos grandes vassallos. N’esta dissolução do

Feudalismo, e descredito do ideal guerreiro, as Gestas heroicas

tornaram-se satyricas; na Italia cantava-se de preferencia as derrotas

de Carlos Magno, e as infamias de seus filhos; em França decahiam na

prosa novellesca, e desenvolviam-se os episodios da fabula complexa do

_Renard_. Comte tira nitidamente as deducções d’esta crise social:

«Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente,

é indubitavel, a meus olhos, que a expansão esthetica dos seculos

XII e XIII, teria adquirido pela sua eminente homogeneidade, uma

importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que pôde

existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro

criterio das bellas artes. Pela transição rapida, e muitas vezes

violenta, que devia realisar-se no curso d’este grande periodo

revolucionario, e para a qual a progressão industrial tão poderosamente

concorreu, o genio esthetico ficou falho de direcção geral e de destino

social. Entre a antiga sociabilidade moribunda e a nova muito pouco

caracterisada ainda, elle não pôde bem nitidamente sentir, nem o

que sobretudo devia idealisar, nem sobre que sympathias universaes

devia principalmente repousar. Tal é, no fundo, a causa progressiva

d’esta especialidade exclusiva, que tem até hoje caracterisado a arte

moderna, como a industria e como a sciencia tambem, por falta de uma

generalidade realmente preponderante. Bem longe de estar degenerado,

o genio esthetico tornou-se com certeza mais extenso, mais variado e

mais completo mesmo, como nunca o conseguira na antiguidade; porém,

apezar das suas eminentes propriedades intrinsecas, a sua efficacidade

devia então ser muito menor, em um meio social que lhe não podia

offerecer nem a nitidez, nem a fixidez indispensavel para o seu livre

desenvolvimento. Obrigado a reproduzir as emoções religiosas ao

passo que a fé se extinguia, e a representar os costumes guerreiros

a populações cada vez mais entregues a uma actividade pacifica, a

sua situação radicalmente contradictoria devia prejudicar-lhe a

realidade fundamental dos seus effeitos exteriores, mas tambem a

das proprias impressões interiores, até aos tempos ainda remotos em

que a regeneração final da humanidade virá offerecer-lhe um meio

mais favoravel ao seu pleno desenvolvimento, em consequencia de uma

homogeneidade e de uma estabilidade, que nunca puderam existir no mesmo

gráo...»[102]

Contra o poder _espiritual_ da Egreja, a Realeza torna-se

protectora de um ensino geral nas Universidades; e contra os arbitrios

feudaes estabelece os _Ordenamentos_ e fixa a esphera dos direitos

reaes pela restauração da jurisprudencia romana; os _Feudos_ são

equiparados á Emphyteuse e ao Usufructo dos romanos. Por outro lado,

este começo de renascimento _humanista_ ataca a idealisação

épica medieval, á qual tambem se tornavam hostis os _moralistas_

catholicos. É n’esta instabilidade, que caracterisa o fim da Edade

media, que as linguas romanicas se acham aptas para as obras

litterarias, mas os themas da idealisação religiosa e heroica acham-se

insignificativos para o sentimento.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 11 / 27 段