O elemento arabe nas linguas romanicas manifesta-se tambem no

vocabulario, mas sem influencia directa no regimen phonetico ou

morphologico; tem sido esse elemento estudado em quanto á Italia por

Narducci, em relação á França por Marcel Devic, em relação a Portugal

por Fr. João de Sousa, por Dozy e Engelmann, e em relação á Hespanha

por Yanguas e Simonet. Os Arabes representavam uma aristocracia militar

incommunicavel; as communicações da população hispanica fizeram-se

entre Berberes e Mouros, e a _Aravia_ era um dialecto indistincto

tanto de romanico como de arabe com que se entendiam com elles os

_Mosarabes_ e os _Mulladies_, isto é, os que se conservaram

christãos e os que apostataram. Quando se pôde examinar nas linguas

peninsulares as palavras arabes, escriptas nos documentos mais antigos,

reconheceu-se que eram palavras romanicas modificadas pelos arabes e

recebidas d’elles por segunda via. E o que se verifica na Architectura

arabe, o caracter dos operarios _mosarabes_, tambem se observa

na linguagem, que exprimia a riqueza de uma civilisação de que os

arabes se apropriaram. Tal tem sido a revindicação laboriosamente

fundamentada por Simonet. A civilisação occidental não teve por unico

fóco Roma; e se ella se lhe impoz pelas Gallias e pela Hispania,

tambem se impoz aos Arabes como se vae reconhecendo. Um certo sentido

pejorativo se ligava a grande numero de palavras arabes, taes como

o nome de _Caschich_, dado ao sacerdote christão, e que é uma

interjeição popular _Cachicha!_ com que se exprime a repugnancia

pela porcaria; _Azambrado_, _Madraço_, _Léria_, exprimem

tambem ideias de chasco e descompostura em contraposição ao seu sentido

natural; a injuria _Safardana_ era o titulo de gloria dos Judeus

de Hespanha que a si se chamam _Sephardin_, para se distinguirem

dos outros elementos da raça. Devem apparecer nomes arabes designativos

de funcções sociaes, cargos administrativos, da mesma fórma que das

palavras germanicas apparecem os termos que designam instituições

feudaes e material de guerra.

Na longa lucta da reconquista, as povoações sedentarias ficavam

indifferentes á sorte das batalhas; os _Mulladies_ voltavam

ao seu culto primitivo, e a _Aravia_, que os _Mosarabes_

fallavam eram os dialectos vulgares ou _Ladinha christenga_, que

em breve se iam desenvolver como linguas nacionaes. A designação de

_Aravia_ passava a significar o cantar-romance, que veiu a servir

de primeiro elemento tradicional da historia.

Se causas sociaes profundas, como a dissolução do Imperio romano e

invasões germanicas, actuaram no desenvolvimento dos dialectos ou

Linguas romanicas, eguaes causas, como o fim das invasões dos Saxões

do norte da Europa e o combate successivo contra o dominio dos Arabes

no sul, determinaram a estabilidade necessaria para o estabelecimento

de novas nacionalidades, em que as Linguas romanicas attingiram a sua

fórma e perfeição litteraria.

Essas linguas, assimilando por uma fórma viva elementos latinos,

germanicos, gregos e arabes, tornam-se orgãos importantes para a

continuação da Civilisação occidental, de que cada nação foi um activo

factor, cabendo durante toda a Edade media essa hegemonia á França.

Na peninsula hispanica a constituição das novas nacionalidades depois

da reconquista christã está intimamente ligada aos seus dialectos;

aquelles territorios que alcançaram autonomia ou que a souberam

sustentar desenvolveram com a cultura litteraria os seus dialectos

locaes. Muitas d’essas nacionalidades, como a Galliza, a Catalunha e

Aragão foram incorporadas na unidade politica de Castella, mas o seu

espirito autonomista ou regionalista sobreviveu e luctou sempre com a

vitalidade dos seus dialectos _gallego_, _catalão_, _aragonez_, contra

o uso official do castelhano. No _Poema de Alexandre_ e no _Poema do

Cid_ esboçam-se as fórmas linguisticas que se fixam no castelhano;

nos poemas de Gonzalo de Berceo, em que se reflecte a influencia dos

trovadores, destaca-se já a feição peculiar do catalão; o rei Affonso o

Sabio escrevendo a prosa em castelhano, prefere de um modo exclusivo o

_gallego_ para a poesia.

A cultura litteraria da região gallega que escapára ás invasões

arabes, fez com que essa lingua fosse muito cedo escripta, de modo

que ella conserva ainda hoje fórmas archaicas já modificadas no

portuguez, ou que em Portugal ficaram plebeismos. A lingua gallega e

a portugueza constituem um grupo homogeneo, que tenderia a unificar-se

em um centro nacional, se o territorio da Galliza até ao Mondego ou

até ao Tejo se não desmembrasse pela creação de dois Condados; mas

conservariam sempre differenças dialectaes, como se vê no gallego

septemtrional e no meridional. A lingua portugueza, como observa Diez,

tem caracteres originaes proprios. Conforme porém os centros de cultura

preponderassem, assim seria exercida a influencia, do _gallego_

sobre o portuguez, como primeiramente se deu, ou do portuguez sobre o

gallego, como se vê impresso na lingua.

A primitiva unidade territorial já fôra reconhecida pelos geographos

antigos; Strabão chamava Gallaicos aos Luzitanos. Quando o Marquez

de Santillana considerava os gallegos e portuguezes os primeiros que

exerceram na Hespanha a arte de trovar, mal sabia que essa região

pertencia áquelle elemento ethnico que creou o lyrismo trobadoresco.

Desde 863 existia a Galliza como um Condado independente, luctando

fortemente pela sua autonomia contra a annexação leoneza em 885, que

desfez ao fim de vinte e cinco annos, e vindo por ultimo a cahir

na unificação dos outros estados peninsulares, abafada a revolta

separatista de 981. Bastava esta energia social para que a Lingua

se desenvolvesse; deu-se o facto; tinha uma côrte, e ahi se educára

Affonso o Sabio, que nas _Cantigas de Nossa Senhora_ empregou a

lingua que melhor lhe exprimia os seus sentimentos. Forçosamente a

lingua gallega devia actuar nas fórmas do _portuguez_, que ainda não

tinha uso litterario. E esse cunho gallego, como o pronome _che_ por

_te_, _douche_ por _dou-te_, chegou a reflectir-se nos escriptores

portuguezes dramaticos do seculo XVI.

Quando, porém, Affonso VI desmembrou da Galliza o Condado de Portugal,

que em breve tempo se tornou um estado livre, a lingua portugueza

começou a ter um desenvolvimento proprio, devido a esta circumstancia,

por que incorporada a Galliza desde 1073 na unidade castelhana,

Portugal foi estendendo o seu dominio para o sul, abrangendo as

populações mosarabes da Beira, e recebendo uma certa cultura dos bispos

francezes chamados para as dioceses recem-estabelecidas. Na marcha

successiva da organisação da nacionalidade portugueza, a sua côrte

torna-se um centro de convergencia de trovadores occitanicos, e por

seu turno a lingua portugueza actúa sobre o _gallego_. Em grande parte

o vocabulario portuguez é egual ao gallego mascarado com ortographia

castelhana; mas a situação politica da Galliza, entre Portugal autonomo

e Castella, de que é uma provincia, reflecte-se fundamentalmente na

sua lingua. Exemplificando: _soubo_, analogo ao portuguez _soube_,

muda o _e_ em _o_ pela influencia do _supo_ castelhano; o mesmo

nas palavras derivadas com o suffixo em _ouro_ no portuguez, que o

gallego conserva em _oiro_ (_sumidoiro_, _dobadoira_), modificado

pela influencia do castelhano, _sumidero_, _devanadera_. D’Ovidio

synthetisa esta dupla influencia sobre a lingua gallega nos nomes dos

dias da semana, parte tirados do castelhano como _lunes_ (_lues_),

_martes_, e parte do portuguez, como _corta feira_ (quarta-feira).

A lingua gallega conserva, além das suas fórmas originaes, outras

archaicas do portuguez e mesmo populares nas nossas provincias;

estes phenomenos ajudam a penetrar o processo de formação da lingua

portugueza supprindo a falta de documentos. Desde Fernando o Magno o

territorio portucalense formava parte da Galliza, cujas fronteiras em

1065 se estendiam até ao Mondego, e depois de 1093 até ao Tejo, apoz a

tomada de Santarem, Lisboa e Cintra. A vinda dos cavalleiros frankos

á peninsula, que ajudaram o monarcha leonez na batalha de Zalaka em

1086, influiu no acto de desmembração de Portugal, por que as cidades

livres ou _Behetrias_ esparsas n’este territorio e a sua situação na

proximidade do mar, provocavam á creação d’esse organismo nacional.

Á medida que a vida de _côrte_ actuava no desenvolvimento da lingua

portugueza, a paixão pela poesia trobadoresca forçava a imitar essas

novas fórmas lyricas, apropriando-se de elementos provençaes, e creando

um dialecto em parte artificial, o _galleziano_, em que versejavam

todos os jograes que vinham a Portugal de Aragão, Valencia, Castella,

Galliza e mesmo do Béarn. Certos provençalismos e italianismos dos

antigos Cancioneiros portuguezes são consequencia de uma necessidade

do artificio prosódico. Pela situação da Galliza como provincia

submissa, a lingua _gallega_ deixou de ser _escripta_, cahindo assim

com o tempo na espontaneidade popular, e na sua immobilidade archaica.

Muitas das suas palavras alteraram-se por metateses negligentes,

como _drento_ (dentro), _prubico_ (publico), _prove_ (pobre); a sua

conjugação conserva certos tempos já transformados no portuguez, como:

_Falades_ (fallaes), _faledes_ (falleis), _falariades_ (fallarieis).

Em consequencia da actividade de um organismo politico nacionalista, o

portuguez torna-se _escripto_, e este facto determina o processo de um

constante _neologismo_ no seu lexico, já pelas traducções latinas das

obras ecclesiasticas, já pela cultura juridica das escólas, já pela

communicação dos poemas e novellas francezas, e pela fórma escripta foi

continuamente a separar-se da corrente popular ou das fórmas vulgares,

por um excesso tal que chegou a ser reconhecido.

Na época da constituição da nacionalidade portugueza foi grande a

influencia da cultura franceza; o Conde D. Henrique, cavalleiro

borgonhez, chama para o territorio sobre que governa cavalleiros

francezes, a quem reconhece um certo numero de costumes feudaes; dá ás

novas colonias frankas privilegios especiaes chamados _franquias_;

muitos bispos, como S. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. Bernardo, eram

francezes, e em _letra franceza_ foram trasladados os Evangelhos,

segundo ordenava o Concilio de Leão de 1090. Continuou a corrente sob

D. Affonso Henriques, concedendo as terras de Athouguia a Guilherme

des Cornes, para as povoar com francezes e gallegos. Iam estudantes

portuguezes estudar a Paris a theologia e a medicina, como vêmos com D.

João Peculiar e Frei Gil Rodrigues. É natural que os poemas carlingios

aqui tivessem écco na passagem dos jograes vagabundos, sobretudo sendo

as romagens a Sam Thiago bastante populares em França no seculo XII e

XIII. É certo que a lingua franceza deixou numerosos vestigios no velho

lexico portuguez, como se encontra nos textos das versões do Velho

e Novo Testamento; mas poder-se-ha attribuir-lhe os sons nasaes tão

caracteristicos da lingua portugueza? Esses sons nasaes já tinham sido

explicados por Helfferich et De Clermont como provenientes do contacto

com os Suevos, mas sem demonstração. A influencia do francez foi nas

classes cultas, e nas fórmas litterarias da linguagem, mas não no seu

organismo intimo, nem no povo, em cuja loquela estacionou.

A vida nacional, com côrte, egreja e escólas, leis escriptas,

processos judiciarios e regulamentos de administração, provocava

um desenvolvimento artificial da lingua portugueza; debaixo das

fórmas alatinadas dos escribas e tabelliães existem as palavras

vulgares, que mais tarde appareceram em uma graphia nacional, como

se verifica no _Livro dos Testamentos_ de Lorvão, no _Livro

Preto_ da Sé de Coimbra, e nos _Diplomatae et Chartae_. João

Pedro Ribeiro publicou documentos em portuguez de 1192, redigidos

no reinado de D. Sancho I; reconhece que o seu emprego se tornou

mais frequente por 1293, e de um uso geral e exclusivo de 1334 em

diante. Não provam estes factos a crescente ignorancia do latim, que

pelo contrario começava a estudar-se a sério pelo renascimento das

leis romanas, canones ecclesiasticos e livros sagrados da Vulgata;

a lingua fallada é que entrava em um periodo de fecundidade, como

idioma nacional. As traducções em vulgar, tão numerosas, representam

um esforço para transportar o pensamento de uma lingua classica para

uma dicção pobre, e vacillante nas suas fórmas e construcções; por

isso as traducções portuguezas dos seculos XIII, XIV e XV encheram

o portuguez de neologismos do vocabulario classico, dando logar aos

_duplos divergentes_, á imitação da morphologia dos superlativos

em _issimo_, e a grande numero de themas que só serviram para

as derivações de novas palavras. Era natural a illusão, por effeito

d’estas aproximações litterarias, de considerar a lingua portugueza

a mais proxima da latina do que todas as outras romanicas; pensou-o

assim a Renascença erudita, quando Fernão de Oliveira e João de Barros

fundaram a Grammatica portugueza nas regras da latina, e quando

Camões synthetisava poeticamente esse sonho de uma missão historica

universalista: «_Com pouca corrupção crê que é a latina._» Os

philologos do seculo XVII, como Alvaro Ferreira de Vera e Manoel

Severim de Faria, chegaram pacientemente a _escrever_ trechos

em prosa que se podiam lêr simultaneamente em portuguez ou em latim,

segundo as inflexões da voz. Causas vitaes actuaram ao mesmo tempo no

vigor da linguagem fallada.

A lingua portugueza, pela intensidade da vida provincial,

primeiramente, e mais tarde pela expansão da actividade nacional

na Africa, Archipelagos atlanticos, Brazil e India, desdobrou-se

em differentes _dialectos_. As differenças ethnicas das provincias

portuguezas já tinham sido notadas pelo grammatico quinhentista

Fernão de Oliveira, fallando das dicções populares: «Algumas d’estas

ficaram já de muito tempo: ha tanto, que lhe não sabemos seu principio

particular ... tambem se faz em terras esta particularidade, por que

os da _Beira_ tem umas fallas, e os _d’Alemtejo_ outras; e os homens

da _Extremadura_ são differentes _d’Antre Douro_.»[92] A linguagem

da Beira já no seculo XVI apresentava aos grammaticos um caracter

archaico; continúa Fernão de Oliveira: «muitas vezes algumas dicções

que ha pouco são passadas, são já agora muito aborrecidas, como:

_abem_, _ajuso_, _acajuso_, a _suso_, e _hogano_, _algorrem_ e muitas

outras; e porém se estas e quaesquer outras semelhantes se metterem em

mão de um homem velho da _Beira_ ou aldeão, não lhe parecerão mal.»[93]

Estas differenças que Fernão de Oliveira notava como grammatico

encontram-se observadas por Gil Vicente como poeta; duas farças e uma

tragicomedia versam sobre os costumes mosarabes da Beira, o _Clerigo

da Beira_, o _Juiz da Beira_ e tragicomedia da _Serra da Estrella_. Os

_bailos da Beira_, a que allude Gil Vicente, e o typo comico beirão do

_Ratinho_, bem como a persistencia dos cantos tradicionaes, provocavam

este desenvolvimento dialectal. Quando a vida local se atrophiou

pela concentração da dictadura monarchica (_Ordenações_) e pela

absorpção da capital, os dialectos portuguezes ficaram méras fórmas

archaicas. Em consequencia da expansão historica em um vastissimo

dominio colonial, o individualismo portuguez manteve-se tambem pela

linguagem, e dando logar não só a cruzamentos de raça mas á creação

de numerosos e importantes _dialectos_. Citaremos o _Creoulo_, nas

populações de Africa e Cabo Verde, o _Matuto_, no Brazil, o _Reinol_

ou _Indo-portuguez_ em Columbo, capital de Ceylão, em Malaca, em

Cochim, e o _Macaista_. Alguns d’estes dialectos têm sido estudados;

o da Guiné portugueza por Bocandé, os da India por Hugo Shuchartt, e

outros varios philologos. São estudos que revelam intimos processos

psychologicos formativos no phenomeno da linguagem. E referindo-se a

esta acção fecunda dos portuguezes, escrevia João de Barros no seculo

XVI: «As armas e os Padrões portuguezes póstos em Africa e Asia, e em

tantas mil Ilhas fóra da repartiçam das trez partes da Terra, materias

são e pode-as o tempo gastar; pero, não gastará doutrina, costumes,

_linguagem_, _que os portuguezes n’estas terras deixaram_.»[94] E o que

se dava com a expansão maritima, repetia-se em circumstancias muitas

vezes transitorias, como na _frandunagem_, a que allude Filinto Elysio:

«_lingua franduna_--a que trouxeram os soldados portuguezes das guerras

dos Paizes Baixos.»[95] No dialecto brazileiro encontra-se o diminutivo

do participio, (ex. _dormindinho_) que no gallego é ainda um phenomeno

primitivo (ex. _correndinho_.)

Mas assim como a uma grande dispersão nas expedições maritimas e na

occupação territorial, se tornava mais profundo o sentimento da patria

portugueza, affirmada conscientemente no facto da Nacionalidade,

tambem a Lingua portugueza, disciplinada grammaticalmente e escripta

pelos Quinhentistas, elevou-se a esse typo unitario que uniformisou

a linguagem _fallada_ com a _escripta_, phenomeno digno de

consideração e caracteristico da evolução da lingua do seculo XVI a

XIX. Causas profundas determinaram esta unificação, e não o contacto

dos escriptores com o povo, nem a elevação da cultura popular, ou a

retrogradação dos homens de letras. A lingua foi um sustentaculo da

Nacionalidade, como o foi ainda uma outra vez de 1580 a 1640 sob a

incorporação castelhana. É pela sobrevivencia e resistencia das suas

linguas, que actualmente resistem as nacionalidades peninsulares.

Como um phenomeno que se continúa no tempo, a Lingua, como qualquer

outra creação social tem tambem a sua historia; basta evolucionar e

acompanhar a psychologia humana para merecer esse estudo. É por isso

que aqui esboçamos a historia da Lingua portugueza, nos seguintes

quatro periodos:

I. _Elaboração popular_, antes do seculo X, até á unificação

nacional no seculo XIII. Comprehende as modificações dos sons

celtibericos, romanos, germanos e arabes, constituindo o vocalismo e

consonantismo, de que resultaram o _Gallego_ e simultaneamente o

Portuguez.--Influencia do Gallego pelo seu mais rapido desenvolvimento

sobre o portuguez fallado, até que pela perda da autonomia nacional o

Gallego estaciona, sendo ulteriormente influenciado pelo Portuguez.

Cria-se o vocabulario vulgar com todos os materiaes de um passado

historico importante.

II. _Divergencia erudita_, durante o seculo XIV e XV: Fazem-se

numerosas traducções latino-ecclesiasticas e juridicas, ampliando o

vocabulario pelos neologismos latinos, italianos e francezes. Fazem-se

derivações de themas que nunca entraram na linguagem fallada, e

empregam-se fórmas exclusivamente classicas. Separam-se os escriptores

das relações com o povo, e da antinomia entre a linguagem fallada e a

escripta apparece a necessidade de unificar a linguagem, fazendo-se sob

D. João II e D. Manoel a reforma dos velhos textos dos Foraes.

III. _Disciplina grammatical_, estabelecida na primeira metade

do seculo XVI, no momento mais activo e exclusivo da Renascença

humanista ou greco-romana. Preponderam as classes cultas, a Côrte e a

Egreja; Fernão de Oliveira e João de Barros explicam o portuguez pela

grammatica latina, e os Jesuitas impõem o latim com exclusão completa

da Grammatica nacional.

IV. _Unificação da lingua fallada com a escripta_, operada desde

o seculo XVII a XIX. Começa o estudo da lingua pelo criterio historico

em Duarte Nunes de Leão; ainda subordinado ao latim, Bluteau realisa

a grande obra do Vocabulario portuguez, mas consultando sempre a

linguagem fallada, de que extrae inauditas riquezas. A Arcadia de

Lisboa sustenta a necessidade dos archaismos, impondo a norma classica

da linguagem dos Quinhentistas, combatendo os _latiniparla_ e os

_gallicistas_ ou o Neologismo. E como a tradição é um vinculo do

individualismo nacional, n’este vasto concurso da civilisação moderna,

a lingua escripta tendo de acceitar novas nomenclaturas de sciencias,

de artes e de instituições, tinha de manter a sua feição ampliando-se

com os recursos sempre pittorescos da linguagem fallada. O Romantismo

sympathisou bastante com o portuguez archaico renovando o vocabulario

medieval; mas, pelo criterio do naturalismo na Litteratura, veiu a

reconhecer-se como belleza do estylo a espontaneidade e a variedade

pittoresca da linguagem fallada em todo o dominio portuguez.

=§ 4.--Patria e Nacionalidade=

As gerações que se succedem sobre o mesmo territorio, organisando a sua

synthese activa ou a Industria na coexistencia da liberdade de todos

e no accordo dos interesses pelo direito, quando se elevam á synthese

affectiva pelo aperfeiçoamento dos costumes de menos em menos egoistas,

pela intuição do sentimento subordinam-se á noção moral, e criam

pela arte e poesia a expressão da sua collectividade, que sobrevive

a cada individuo no tempo. Eis o ideal de _Patria_, que é uma

grande familia; é esse sentimento unificador que inspira os membros de

uma mesma sociedade a uma acção commum, a uma impulsão progressiva,

que constitue a sua vida historica de _Nacionalidade_. Quanto

mais profundo fôr o sentimento de _Patria_, mais intensa é a

consciencia da _Nacionalidade_, para resistir aos accidentes das

edades. É esta relação affectiva que faz com que a Arte e a Litteratura

sejam a estampa do caracter nacional.

Quando se constituiu no seculo XII o estado de Portugal, já existiam

todos os rudimentos de _patrias_ hispanicas que vieram a formar

as _nacionalidades_ peninsulares. Como porém essas nacionalidades

eram violentamente agrupadas pela audacia de um chefe militar, que

se tornára prestigioso na reconquista christã, foi o sentimento de

patria que fez resistir a estas incorporações dos pequenos estados,

revindicando as suas autonomias locaes. A formação da Nacionalidade

portugueza é um facto resultante d’esse movimento de _unificação_

e de _desmembração_ que constitue a trama da historia da Hespanha

da Edade media aos tempos modernos. Póde-se definir este phenomeno como

uma oscillação, em periodico vae-vem, a cujo impulso obedeceram mesmo

todas as raças que occuparam o solo hispanico.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 9 / 27 段