a _escripta_ na linguagem, resultam explicações essenciaes de
grandes phenomenos linguisticos accusados na historia. É assim que
sendo a Linguagem congenita com a Raça, apparece muitas vezes o
caracter da linguagem em contradicção com os dados anthropologicos,
como notou Paul Broca. Basta a linguagem ser a consequencia de
um estado elevado de civilisação, para ser facilmente admittida
por um povo mais atrazado em relação áquelle que o absorveu ou
subjugou. Vê-se que a linguagem é um importantissimo documento de
paleontologia ethnica, mas um inseguro recurso para as classificações
anthropologicas. Pelo desenvolvimento _escripto_ do Latim na sua
vasta legislação civil e administrativa, e continuado pelo catholicismo
nas constituições apostolicas e doutrinação moral, tinha forçosamente
esta lingua de dominar sobre as vastas populações prevalecendo sobre os
dialectos celticos da Italia, das Gallias e da Hespanha, vulgarisando
por meio da sua legislação uma linguagem cultivada artificialmente
por escriptores barbaros, gaulezes, hispanicos e italiotas. Foi este
facto que deu origem ao erro de se imaginar que as Linguas romanicas
tinham sido formadas pela corrupção do Latim em uma _vulgaria_,
como normas _rusticas_ ou _sermo pedestris_. O uso do Latim
entre os povos do occidente foi um artificio, uma educação, a ponto
das provincias da Africa, Hespanha, Gallias e Italia cisalpina darem
magnificos escriptores a Roma. Vêmos em Osca fundar Sertorio um
centro de estudos classicos; continuam em Roma a litteratura latina
os _cordovezes_ Sextilio Henna, Lucano, Porcio Latro, os dois
Senecas, Anneo Mella; os _gaditanos_ Cornelio Balbo e Columella,
Marcial, natural de Calatayud e o rhetorico Quintiliano, natural
de Calahorra; á Hespanha pertencem os _escriptores_ Claudio
Apollinario, Felix, Marco Licinio, Pomponio Mela, Lucio de Tuy, Allio
Januario, Cordio Sinforo, Silio Italico, Floro e Julio Higino, os
imperadores Trajano e Adriano. Tambem a propagação do christianismo no
segundo seculo, pelo emprego do latim na liturgia, fez que a classe
sacerdotal concentrasse uma certa cultura e se imitassem as fórmas
do Latim urbano; e ainda no ultimo seculo do Imperio empregavam
o latim classico na litteratura ecclesiastica os bispos, Osio, de
Cordova, Paciano e Olympio, de Barcelona, Gregorio Betico, de Granada,
Potamio, de Lisboa, o papa S. Damaso, Dextro, Juvenco, Idacio, Paulo
Osorio, Prudencio, Elpidio. É escusado ampliar este ponto de vista
com escriptores latinos da França; egual phenomeno se dera com o
grego transformado no dialecto commum, que os padres da Egreja, os
Chrysostomos e os Basilios empregavam com o esmero de reproduzirem
ou restaurarem o puro atticismo. Por certo que a lingua latina não
penetrou nas populações sertanejas, os _Pagi_ e _Vici_, as
aldêas e os concelhos, para ahi se corromper. A par da Lingua latina
existia a linguagem _oral_ com riquezas proprias e differenças da
fórma _escripta_. É essa lingua oral o fundo primitivo, que no
Occidente constituiu o ramo complexo denominado no seu syncretismo,
por Schleicher, _Lingua Greco-Itala-Celtica_, contrapondo-se no
norte da Europa o outro ramo _Slavo-Tudesco_. Não admira, que ao
destacar-se o Latim dos dialectos italicos pela fórma _escripta_
e pela preponderancia historica, muitos dos seus elementos superiores
fossem facilmente assimilados pelas populações occidentaes que recebiam
o impulso da civilisação romana; o mesmo se póde inferir sobre a
apropriação de elementos das linguas germanicas na França, Italia
e Hespanha. Desde que se descobriu a unidade das linguas áricas ou
indo-europêas, melhor se comprehende esta linguagem, de que se destacou
o Latim classico, que coexistiu com as linguas _falladas_ em todo
o Occidente.
Esta coexistencia e duplicidade encontra-se expressa na designação de
_Latino_ e _Ladino_, contrapondo-se a _Romance_. São abundantes os
trechos francezes, castelhanos o portuguezes, em que o termo _Latino_
significa o espirito culto, o que falla bem, o arguto e ardiloso;
_romance_ significava a linguagem popular, a que se falla de visinho a
visinho, como diz Berceo, a tradição oral, e já em épocas adiantadas
da historia, o vernaculo ou nacional. Esta lingua syncretica estava
diffundida em uma infinidade de dialectos, que foram desapparecendo á
medida que a lingua escripta, pela absorpção nacional, se foi impondo
ao uso das povoações ruraes. Raynouard cahira na illusão da unidade
plena d’este fundo linguistico, chamando-lhe _Lingua romance_, e
fazendo derivar da sua dissolução durante a Edade media as novas
linguas meridionaes.
A coexistencia da linguagem oral com o Latim classico ou escripto
acha-se notada no vocabulario pelos proprios escriptores latinos,
taes como Festus, Vegecio, Palladio, Ennio, Terencio, Pacuvio,
Lucrecio, Varrão, Aulo Gellio, Plauto, Columella, Cicero, Suetonio,
Apuleio, Theodosio, Justiniano, Plinio, Vitruvio, Celso, Lactancio
e todos os Padres da Egreja e escriptores latinos das provincias
conquistadas. Ao passo que nas Gallias ás fórmas litterarias _urbs_,
_iter_, _os_, _hebdoma_, _osculare_, se sobrepunham as fórmas vulgares
_ville_, _voyage_, _bouche_, _semaine_, _baiser_, as quaes egualmente
prevaleceram na Hispania, vêmos tambem na peninsula prevalecerem
sobre os vocabulos latinos esses outros vulgares _Burgo_, _Batalha_,
_Camisa_, _Carregar_, _Cabana_, _Cafua_ e muitissimos outros apontados
por Isidoro de Sevilha, nas suas _Etymologias_. Poder-se-ha contrapôr
um vasto vocabulario da linguagem oral ao vocabulario classico latino,
mas não é esse phenomeno ainda o que explica a formação das Linguas
romanicas; o processo organico ou formativo operou-se intimamente,
avançando essa lingua oral para a expressão _analytica_, que é
verdadeiramente um progresso; e quando Plauto ou Cicero, e muitos
escriptores classicos esclareceram os _casos_ com _preposições_, ou as
fórmas verbaes com _auxiliares_, não se deve entender que transigiam
com a futura decadencia do latim, mas que sentiam a necessidade do
processo analytico. Desde que o latim escripto deixou de exercer uma
missão social pela queda do Imperio, e pelas invasões germanicas
no Occidente, essas linguagens falladas na Italia, nas Gallias e
na Hespanha, sem a disciplina imposta pelos cultos, procederam na
transformação em que iam, desenvolvendo as fórmas analyticas e
periphrasticas. Olhou-se mesmo com certo desdem para o Latim classico:
no quarto Concilio de Carthago, no IV seculo, prohibiu-se a leitura dos
livros profanos, que eram latinos; o papa Gregorio Magno, desprezava
intencionalmente o emprego dos _casos_, dizia elle para não submetter
as palavras divinas ás regras de Donato. A importancia das linguagens
vulgares era tal, que em 230 Alexandre Severo promulgou uma lei
permittindo fazer-se ou _redigir-se_ fideicommissos n’ellas. Não era
pois uma decadencia, que trazia essas linguas á fórma _escripta_.
O proprio clero catholico, como se vê pela auctoridade de Licinio,
bispo de Carthagena, e de Gregorio de Tours, tinha cahido em um certo
analphabetismo, relaxando-se assim a preponderancia exclusiva do
latim escripto. As linguas _falladas_, que tinham existencia propria,
avançaram quando os fócos nacionaes as impulsionaram, e sem se moldarem
no latim chegaram á _accentuação_ e á _rima_, a uma fórma de poesia
nova, a que o proprio Latim foi submettido na hymnologia da Egreja.
Vê-se quanto é absurdo explicar a formação das linguas romanicas por
meio de degenerações phoneticas operadas no vocabulario do latim
classico. As modificações do _vocalismo_ e _consonantismo_ romanico são
as mesmas que dominam todo o organismo das linguas indo-europêas, de
que ellas são um producto.
Combatendo a theoria da escóla philologica que deriva as linguas e os
dialectos romanicos immediatamente do Latim, já em quanto á estructura
e mesmo ao vocabulario por processos de modificações phoneticas,
Gubernatis oppõe-lhe os seguintes factos historicos: «porque é que
os Romanos tendo penetrado na Grecia mais do que na Hespanha, não
fizeram fallar latim aos gregos, como querem que o fizeram aos
hespanhoes?--Porque é que uma colonia militar romana que occupou
poucos seculos a Engadina, devia introduzir entre os Alpes suissos
o dialecto latino, ao passo que numerosas colonias romanas fixadas
na Illyria não conseguiram submetter os Slavos ao Romanismo?--Por
que é que os Italianos da Italia superior fallando o Celtico, e os
povos da França fallando Celtico, e os Bretãos fallando Celtico,
o Celtico desapparece da Italia e quasi inteiramente da França, e
sobrevive na Bretanha? e comtudo, os Romanos não occuparam certos
remotos valles alpinos, certas provincias remotas da França, tanto
como tinham occupado a Bretanha.»[80] Gubernatis reconhece a grande
importancia do latim _escripto_ e das leis promulgadas em latim
pelo Imperio sobre os dialectos dos povos occidentaes, mas estabelece
como principio historico que essas linguas vulgares não derivaram do
latim, coexistiram com elle como irmãs: «contemporaneamente ao latim
fallado em Hespanha e França, na Italia pela pluralidade das gentes
pertencentes á mesma raça que os Latinos; Roma tendo predominado, a
lingua romana prevaleceu e exerceu aquella mesma influencia que agora
vêmos exercer-se da lingua italiana sobre os dialectos italianos, dos
quaes o fundo é sempre italico...» E procurando o typo d’esta linguagem
dos povos occidentaes, exemplifica: «De facto, quem de Genova se metter
em viagem pelos Pyreneos, as variedades da linguagem modificam-se
com um modo tão progressivo e espontaneo, que os dialectos da França
meridional ficam como laço natural entre os da Italia e da Iberia,
onde se os Bascos dominaram foram com o andar do tempo reduzidos como
os Celtas...» E conclue: «Se não existisse um fundo italico nas
populações e na sua linguagem, Roma teria triumphado com o seu latim no
valle do Pó, provavelmente da mesma maneira negativa com que triumphou
na Grecia e na Bretanha.»[81]
Como se vê, esta doutrina vae de encontro á escóla de Diez, que
deriva as linguas romanicas do latim, principalmente por processos de
degenerescencia phonetica, embora sustente ao mesmo tempo que ellas não
provieram de um latim corrompido, mas sim de um _latim vulgar_
coexistente com o latim escripto: «Ao lado do latim litterario,
existia effectivamente uma lingua latina correntemente fallada, que
os Legionarios e colonos levaram para a Iberia, para as Gallias,
para a Dacia. Foi esta lingua popular que se transformou lentamente,
tornando-se aqui o Hespanhol, ali o Francez, além o Roumenio, do mesmo
modo que em Italia se tornou o Italiano.»[82]
É verdadeiramente maravilhosa esta explicação do metamorphismo do
Latim vulgar, identificando-se nos seus resultados com os d’essa outra
theoria tão combatida de Raynouard, da _Lingoa Romance_, cuja unidade
quebrada produzira as linguas modernas meridionaes.[83] Nas linguas
romanicas operou-se um trabalho de transformação de progresso, e não
de decadencia; se o Latim como lingua flexional é synthetico na sua
expressão, estas tornam-se essencialmente _analyticas_, pelo desprezo
das _flexões casuaes_, e pela simplificação da _Conjugação_ pelos
_verbos auxiliares_. Alguma cousa de fecundo se passou n’esse periodo
de elaboração analytica, tal como a substituição da _quantidade_ pelo
_accento_, que conduziu as linguas modernas á creação da mais bella
poesia, e á construcção syntactica directa, actuando na nitidez do
pensamento. A _quantidade_, ou o prolongamento ou abreviação do som
vocalico de uma syllaba, liga-se á origem primitiva da _raiz_, breve na
sua formação, longa, na sua derivação; o _accento_ é o ponto de apoio
em uma syllaba dominante, quando modificações profundas se operam na
palavra por meio de _flexões_ e de _suffixos_, para exprimirem varios
pensamentos, mas sempre conservando a ideia primaria. Como observam
Weil e Benloew, nas linguas mais antigas predomina a _quantidade_, que
domina e determina o _accento_, ao passo que nas que mais avançam para
a civilisação o _accento_ prevalece sobre a _quantidade_.[84]
O predominio da _accentuação_ representa historicamente o
prevalecimento do espirito _logico_ actuando sobre todas as
fórmas da linguagem, como conclue Benloew, dominando a sua ordem ou
disposição e a sua versificação.
O velho Latim anterior (treze seculos antes da nossa éra) ao Latim
classico, só differia d’este em ter diphtongos, que o litterario
reduziu a vogaes simples;[85] vê-se pois que o chamado latim vulgar
não estava em decadencia, e se se differenciou do latim tornando-se
analytico é por que avançava para uma expressão logica. Mesmo nos
escriptores classicos apparecem _preposições_ junto dos _casos_, e
vozes de _auxiliares_ simplificando fórmas verbaes, no periodo do
esplendor de Roma. A lingua latina, empregada na Jurisprudencia e nos
Editos administrativos, tornou-se quasi hieratica ou sacramental: _Uti
lingua nuncupassit ita jus esto_; e a sua versificação retrogradou para
a _quantidade_. Os outros povos occidentaes eram vivos e progrediam,
sem precisarem do estimulo da conquista romana; estavam no periodo da
_accentuação_, e foi esse o principio fundamental das Linguas chamadas
romanicas, por meio do qual adaptaram ao seu vocabulario palavras
latinas, celticas, germanicas e arabes com um rigor inalteravel como
uma lei natural: _a persistencia do accento tonico_.
A primeira condição para o estudo scientifico das Linguas romanicas foi
a descoberta da unidade das Linguas indo-europêas, de cuja filiação
se veiu a descobrir uma grammatica geral a esse grupo de linguas;
successivamente a analyse comparativa dos seus sons e fórmas, o
consequentemente o mesmo methodo proseguido no exame dos seus varios
dialectos e derivações.
A unidade linguistica indo-europêa foi entrevista em 1786 por William
Jones, e em 1808, Schlegel formulava com toda a nitidez essa intuição:
«O antigo indiano, _sanskrito_, isto é, culto ou perfeito,
designado _Gronthon_, quer dizer, escripto ou dos livros, tem
grandissima affinidade com a lingua grega, com a latina, com a
germanica e persa. A semelhança consiste não tanto no grande numero
de vozes communs a esta lingua, mas principalmente no que pertence á
intima estructura e á grammatica. Não se trata de uma concordancia
casual, que possa explicar-se por mestiçagem de povos: é concordancia
organica, que denuncia uma origem commum.» A comprovação d’este ponto
de vista produziu uma revolução scientifica, na creação da Glottologia,
da Mythographia e no criterio da Historia, por um conhecimento mais
profundo das civilisações áricas.
Começou a ser estudada esta familia linguistica no seu conjuncto, e
pela applicação dos novos methodos por Jacob Grimm á Grammatica allemã,
começada em 1819, descobriu este erudito genial a lei das modificações
e equivalencia dos sons nas linguas germanicas, _Umlaut_ e
_Ablaut_, que constituem o desenvolvimento historico da lingua
allemã. Os sons modificam-se em uma escala constante, de _fortes_,
_brandos_ e _aspirados_, de modo que na situação em que se
fixaram pela fórma escripta as palavras, se póde deduzir qual seria
a sua fórma anterior. Esta grande lei, que torna a Phonetica uma
sciencia natural, applicou-se a um exame mais vasto e verificou-se que
dirigia todas as linguas indo-europêas. Existe hoje reduzida a quadro
essa escala de sons no sanskrito, zend, grego, latim, erse, esclavonio,
lithuanio, gotico e alto-medio allemão. É maravilhoso o resultado da
sua applicação ao vocabulario indo-europeu, e as deducções das mutuas
similaridades para a chronologia da sua formação, e para a recomposição
da lingua árica,[86] de que ellas por circumstancias sociaes e
historicas se differenciaram.
Esta lei da permutação dos sons foi tambem applicada ás linguas
romanicas tomando por ponto de partida o Latim, e seguindo as suas
modificações no Italiano, Valachio, Hespanhol, Portuguez, Provençal
e Francez; é a continuação do phenomeno que se patentêa nas linguas
flexionaes indo-europêas. Não são pois na sua formação moderna uma
decomposição, mas um processo reconstructivo, em que pela modificação
de certos sons deixam de ser notadas fórmas que vão desapparecendo.
Foi em 1816 que Bopp, na sua _Theoria da Conjugação_, estabeleceu
o processo da analyse da palavra, tomando o Verbo como aquella que
na sua fórma fundamental agrupava a maior somma de differenças
desinenciaes, taes como as _flexões_ pessoaes, temporaes,
numeraes e modaes. Foi por este processo que chegou a determinar as
_raizes_ attributivas, a isolar as raizes pronominaes, a achar
a formação dos _themas_, em volta dos quaes pelos suffixos,
prefixos, affixos e infixos se organisa esse corpo complexo e
adiantadissimo da palavra. A exposição completa d’este methodo
constitue na sua applicação o assombroso trabalho da _Grammatica
geral das Linguas indo-europêas_.
Levada a sciencia da Glottologia a esta perfeição, foi depois o
methodo applicado por Frederico Diez á familia das Linguas romanicas,
organisando tambem a sua grammatica comparativa. Cahiram por terra as
theorias imaginosas de Maffei, Ciampi, Aldrete, Court de Gebelin, La
Tour d’Auvergue, Raynouard e Ribeiro dos Santos, formadas a proposito
de cada uma das linguas romanicas isoladamente. Pelo estudo dos
documentos litterarios provençaes, é que em 1827, Frederico Diez,
no seu livro _Da Poesia dos Trovadores_, lançou as bases da
philologia romanica, que depois systematisou na _Grammatica das
Linguas romanicas_, publicada de 1836 a 1844. Tomando o Latim como
ponto de partida, por ser _escripto_ ao tempo em que as linguas
romanicas ainda eram _oraes_, determina-lhes as modificações dos
seus _sons_ e particularidades prosodicas, as suas similhanças
_morphologicas_, e a identidade syntaxica.
No exame dos sons, chega-se á lei fundamental das linguas romanicas:
_A persistencia do accento tonico ou vogal accentuada_. Mil accidentes
podem obliterar o vocabulo, como acontece sendo fallado por boccas
estrangeiras, e n’este caso estão os vocabularios romanicos que
soffreram a influencia dos povos germanicos, arabes e ainda de eruditos
greco-romanos; porém a _vogal accentuada_ conserva-se inalteravel,
como o eixo em que se apoia a palavra. É á custa d’esta segurança, que
a palavra se abrevia no uso, perdendo uma grande parte do seu corpo.
Exemplifiquemos: _Episcopus_, Bispo; _Ecclipse_, Cris; _Dominus_, Dono,
Dom; _Presbyterus_, Preste (ainda em _Arcipreste_) Prètre; _Ungula_,
Unha; _Quadragesima_, Carême; _Genuculum_, Joelho; _Rotundus_, Rond.
Forçosamente, uma lei phonetica assim tão exclusiva deveria actuar no
desprezo pelas inflexões da _quantidade_, e pelo abandono das
flexões casuaes, e da grande variedade das desinencias verbaes. Foi a
consequencia d’essa outra lei phonetica das linguas romanicas: _A
suppressão das vogaes breves não accentuadas_. N’este processo a
palavra tende a contrahir-se, como em _Trifolium_ (trèfle, trevo),
mas tambem se duplica, conservando-se inconscientemente a fórma do
caso obliquo, como em _Pulvis_ (pó) e _Pulverem_ (pólvora),
_Index_ (endes e indice).
A terceira lei phonetica fundamental é a da: _Queda de certas
consoantes mediaes_, a qual tambem actuou na fórma contrahida das
palavras nas linguas romanicas, sendo essa usura referente á sua
chronologia. Sirva de exemplo o adverbio _Semeptissimus_; no provençal
encontra-se na fórma _semetessme_, na lingua d’oc _metesme_; no
italiano _medesimo_; em lingua d’oc, _medesme_, _meseyme_, _meisme_; no
portuguez antigo, _medes_, _meesmo_, e em francez _même_. Com certeza
estas contracções mais ou menos intensas representam um trabalho de
usura, ligado a causas historicas e sociaes.
Todos os outros sons consonantaes, quer sejam iniciaes ou mediaes,
soffrem modificações especiaes em cada uma das linguas romanicas, e é
isto o que as differencia umas das outras, por isso que a glotte de
cada um d’esses povos não emitte os mesmos sons. Em quanto ao systema
vocalico, tambem por elle se fixam as differenças na familia romanica:
«Na vocalisação do hespanhol (sc. castelhano) acha-se muitas vezes o
A puro, em quanto que o U, que recebeu do latim, é em geral attenuado
e mudado em O; d’este modo a lingua recebeu o caracter de uma lingua
artificial, e as durezas são substituidas por sons mais euphonicos.
Depois do A, ou antes concorrentemente com elle, o O é a vogal que mais
caracterisa o hespanhol.--A lingua franceza, pelo emprego exagerado
da vogal E, renunciou á custa da sua euphonia á vocalisação latina;
é sobretudo uma lingua artificial, admiravelmente propria para a
conversação, mas em geral pouco propria para a poesia, por que a vogal
intermediaria E que intervem a cada instante prejudica a vocalisação
pura, e além d’isso nunca produz uma elevação e um abaixamento
completos. Quanto ao Italiano, de todas as linguas romanicas é a que
guardou mais harmonia, por que sustenta a elevação e o abaixamento
produzido por A e por U transformado em O pela intervenção do I
agudo.»[87]
Na vocalisação da lingua gallega Helfferich e de Clermont, acham o
emprego do U, exemplificando com um documento de 1255; em que vem
as palavras _cunuzuda_, _tudos_, _escritu_, _julgadigu_, _razues_,
_consellu_, _buus_, etc.[88] Tambem na sua these da _Origem da Lingua
portugueza_, Soromenho nota o mesmo caracter: «No norte de Portugal,
na provincia de Entre Douro e Minho, predomina o U na terminação
dos nomes. N’um só documento de 936 encontramos _reirigu_, _agru_,
_conclusu_, _ipsu_, _dublatu_, _tolinu_, _sasarigu_, _ermegildu_,
_fagildu_, _sesuldo_.»[89] D’Ovidio observa tambem no portuguez «que
o _e_ e _o_ finaes não accentuados pronunciam-se como _i_ e _u_,
como no nosso dialecto calabrez, siculo, leccez, sardo meridional e
septentrional, e ainda, quanto ao _u_, sardo central, corso, genovez,
com outros dialectos sardo-italicos.»[90]
Aqui temos já uma caracteristica que assimila as duas linguas
congenitas o Gallego e o Portuguez, que tanto se differenciaram por
causas historicas. A lingua portugueza não é um dialecto do castelhano,
como se julgou inscientificamente, é um organismo autonomo como a
sua nacionalidade; faltam-lhe os sons castelhanos _c_ palatal, a
spirante guttural tenue _j_ e _g_, o que influe na maior suavidade da
pronunciação portugueza, e possue sons que faltam ao castelhano, como o
_s_ doce, o _sh_ e o _sg_ (ex.: ro_s_a, campo_s_, _j_aspe) e distingue
com uma grande delicadeza, que se reflecte nas vozes verbaes, as vogaes
fechadas _a_, _e_, _o_ das abertas (and_a_mos, andámos), e possue as
vogaes nasaes.
Em toda a Europa meridional, as linguas romanicas receberam a fórma
_escripta_, e a disciplina grammatical pela circumstancia da
formação das novas nacionalidades; mas a par do Francez (dialecto da
ilha de Paris), do Italiano (o toscano), do Hespanhol (o castelhano),
do Portuguez (destacando-se do gallego), subsistiram numerosos
dialectos, muitos dos quaes conservam preciosos vestigios archaicos de
fórmas que revelam o processo formativo. Na Hespanha esses dialectos
representam pela sua vitalidade invencivel o vigor dos organismos
nacionaes, que ainda luctam através de todas as imposições do
centralismo politico.
Mas se a vida historica ou nacional actuou pela fórma _escripta_
no desenvolvimento das linguas romanicas, nem por isso a parte
_oral_ deixou de cooperar no seu vocabulario. O estudo do lexico,
não se faz simplesmente para determinar os elementos contributivos
dos varios povos celticos, latinos, germanicos e arabes, que
occuparam o occidente, onde se formaram as linguas romanicas; elle
apresenta-nos esse phenomeno do _Polymorphismo_, em que as leis
phoneticas determinam o desdobramento ou duplicidade de palavras,
que vão exprimir uma riqueza ideologica. Assim, quando de _Plano_
pelo processo phonetico popular se fez _chão_ e _lhano_, adquirimos
novos vocabulos para designar outras relações materiaes e moraes.
São uma das grandes riquezas das linguas romanicas essas _Derivações
divergentes_, que se produzem por varias causas: já como resto da
declinação conservada no caso obliquo, como _Serpe_ e _Serpente_,
_Chantre_ e _Cantor_, _Animal_, _Almalho_ e _Alimaria_, _Pyrame_ e
_Pyramide_, _Calix_ e _Calice_; já pela fórma dupla do participio, como
_Matado_, _Morto_, _Confessado_, _Confesso_, _Teudo_, _Tido_; já pela
apropriação phonetica vulgar, como _Cadencia_ e _Chança_, _Calido_ e
_Caldo_, _Clave_ e _Chave_, _Palacio_ e _Paço_, _Glandula_ e _Landra_,
_Decano_ e _Deão_. Muitas vezes regressa-se a uma fórma litteraria,
pela necessidade de um neologismo scientifico, como: _Amendoa_
e _Amygdala_; _Coitar_ e _Cuidar_, _Cogitar_; _Obra_ e _Opera_;
_Conselho_ e _Concilio_; outras vezes pela differença de significação
ou semeiologia, como: _Tradição_ e _Traição_, _Bodega_ e _Botica_ (de
_Apotheca_), _Rêlha_ e _Regra_, _Macula_ e _Malha_, _Medula_ e _Meolo_;
algumas vezes por abreviação popular, como: _Cem_ e _Cento_, _São_
e _Santo_, _Gram_ e _Grande_, _Tão_ e _Tanto_, _Galam_ e _Galante_,
_Rol_, _Rolo_ e _Rótulo_.
N’este processo de abreviação popular toca-se um phenomeno de origem
etymologica, quando a palavra é a contracção de uma phrase, como
em _Bacharel_, que é uma abreviação de _Bas chevallier_ (d’onde no
velho francez _Bacheleur_); como em _Freguez_, contracção de _Filius
ecclesiae_ (d’onde a fórma _Feligres_). A palavra _Sengo_ e _Senga_,
significando intelligente, astuto, experimentado, a que na linguagem
popular corresponde, _lá dizia a velha_; é, como observa Diez, a fórma
_Senectus_ do latim vulgar, modificada no castelhano em _Senecho_
(_senechas_, no Canc. de Baena, e no anexim castelhano: _Al buen callar
llaman Sancho_) e _Sengo_ nos autos populares portuguezes do seculo XVI.
Ao mesmo processo de divergencia obedecem os nomes proprios, como
vêmos em _Benedicto_, _Benito_, _Beneyto_, _Bieito_, _Benoit_, _Bento_
e _Vieito_; em _Didacus_, _Thiago_, _Iago_, _Diogo_; em _Dominicus_,
_Domingos_, _Mingo_ e _Mengo_.
Frederico Diez considera os varios elementos ethnicos que cooperaram
para a creação das linguas romanicas; fallando do _germanico_, diz
que este systema do linguas: «não soffreu nenhuma perturbação essencial
do seu organismo; o _grupo romanico escapou quasi completamente
á influencia da grammatica allemã_. Não se póde negar, que haja
na formação das suas palavras algumas derivações e composições
germanicas, achando-se tambem vestigios germanicos na syntaxe; porém
estas particularidades perdem-se na totalidade da lingua.»[91] Se a
lingua popular resistiu, manteve-se a par, e por ultimo se impoz
ao Latim classico, como não havia de resistir aos incoherentes
dialectos germanicos? O proprio Diez reconhece que a sua influencia
era insufficiente para differenciarem entre si as diversas linguas
romanicas.