D’este missal e breviario composto por ordem do Concilio toledano

em 633 para uso geral da egreja de Hespanha, falla o bispo D.

Rodrigo da Cunha, referindo-se á hostilidade com que era combatido o

_mosarabismo_: «D’este Missal e Breviario usaram muitos annos as

egrejas de Hespanha, por confirmação da sé apostolica, que por varias

vezes os approvou, _pretendendo seus legados o contrario_, como se

póde vêr em Ambrosio de Morales.» (Lib. 12, c. 19.)[68]

Desde que o catholicismo imperou absolutamente na peninsula, o povo não

tornou a crêr, mas a temer, submisso pelos Autos de fé ante o terror

dos inquizidores; o christianismo que fôra sob o dominio dos arabes um

consolo, tornára-se no tempo dos reis catholicos um pezadello.

Quando a fé era sentida, a sua exaltação e fervor inspirava as obras de

arte; por isso, escrevia Herculano ácerca da população _mosarabe_:

«cuja especial influencia na organisação da monarchia portugueza não

tem sido apreciada.»[69] Sob a emoção ingenua do christianismo, ella

cria as fórmas da architectura das bellas cathedraes, e a fixação do

seu direito no estatuto territorial. Se a população mosarabe tem sido

desconhecida na organisação politica da nacionalidade, mesmo para o

historiador que descreveu essa influencia, mais desconhecido foi o seu

genio artistico manifestado na Arte. Os grandes terrores do fim do

mundo despertaram o fervor da fundação de templos por toda a Europa

no seculo X; foi quando a immobilidade pezada do acanhado estylo

byzantino, de origem erudita, se quebrou para sempre para dar logar

a esplendidas creações ogivaes. Os christãos que viviam por toda a

peninsula em contacto com os sarracenos, obedeceram a esse impulso,

e deram começo ás grandes cathedraes pela tolerancia illustrada dos

invasores. Quer do norte da França (_Ars francigena_) como

hoje se reconhece, ou da Allemanha, o gotico ogival só entrou na

peninsula quando ia na sua phase secundaria; os _Mosarabes_

ao construirem os seus templos reformaram a sombria architectura

byzantina, tiraram-lhe o aspecto de refugio e deram-lhe a largueza da

futura assembleia politica. Fundada ao lado da mesquita arabe, a egreja

imitava naturalmente a elegancia da architectura oriental, n’esta

efflorescencia do ornato, apparentemente caprichoso, mas dominado por

uma lei geometrica constante. Os escriptores coévos da invasão, ao

fallarem da reedificação dos templos accusam essa elegancia arabe;

tal é o documento apresentado por Herculano: «quicquid novo cultu in

antiquis basilicis splendebat, fuerat que, _temporibus arabum_,

rudi formationi adjectum.»[70] Nas antigas basilicas resplandeciam

os ornatos accrescentados no tempo dos arabes á rude fabrica; assim

interpreta Herculano esse texto, pela rudeza da architectura visigotica

comparada com o esplendor da architectura arabe. Mais tarde, quando

pela reacção neo-gotica os arabes foram submettidos, os cativos eram

obrigados a trabalhar nas construcções dos mosteiros, obliterando-se os

ultimos restos do byzantinismo. Sousa Loureiro, director da Academia de

Bellas Artes em 1843, dizia dos primeiros monumentos architectonicos de

Portugal, como Santa Cruz de Coimbra, Sam Vicente de Fóra e Alcobaça:

«N’estes edificios não ha o estylo gotico d’aquelle tempo; nem o estylo

arabe da Hespanha no seculo XI se reconhece ali; tem um typo, um

_caracter luzitano_, porque a Luzitania existiu sempre como uma

região, como uma nação, como um povo particular e separado da união

geral, mesmo no tempo que a Hespanha foi successivamente invadida por

potencias estrangeiras...»[71] E considerando anteriores á monarchia,

a fundação da capella de Nossa Senhora da Oliveira, de Guimarães, e

de Santa Maria de Almacave, de Lamego, classifica-as juntamente com

as egrejas de Santa Maria de Tarquere e Santa Cruz de Coimbra como

_luzitanas, cuja architectura é ainda bastante simples_.

Se alguma feição _luzitana_ apparece na cathedral antiga é simplesmente

a reunião do gotico-byzantino com o estylo arabe, por effeito dos

mouros cativos e alvenéres que trabalhavam então nas construcções; e a

fusão da raça goda e sarracena produzindo essa nova população

_mosarabe_, com o seu direito proprio nos Foraes e Concelhos,

com o seu culto religioso proto-cathédrico, com uma poesia lyrica e

narrativa fecunda, que se authentica nos Cancioneiros e Romanceiros,

tambem formou uma architectura nova, pondo em accordo na egreja christã

o byzantino-gotico com a arte arabe. Escrevia o Conde do Raczynscky com

a sua alta competencia: «Os Portuguezes, no meu entender, deixaram

provas do seu gosto constante pelas obras de architectura. A perfeição

dos seus monumentos, sob o ponto de vista da execução, bem prova

que _esta arte era verdadeiramente nacional_.» E accrescenta: «Uma

circumstancia que prova mais fortemente ainda, que a architectura,

mesmo nas épocas mais remotas, devia até um certo ponto ser filha do

paiz, é a perfeição com que a pedra foi sempre trabalhada e

esculpturada aqui, e o gosto, a nitidez com que todos os

_ornamentos_ foram e são ainda hoje executados.»[72]

Sustentando a prioridade da civilisação hispanica em frente do dominio

arabe, escreve Simonet em relação á architectura dos Arabes em

Hespanha: «que a maior parte das construcções que se levaram a cabo sob

o seu dominio, tanto em Hespanha, como na Africa e no Oriente, foram

obra de _artifices christãos e indigenas_, ora _Mosarabes_,

ora _Mulladies_, ora captivos.»[73] Em uma nota fundamenta o asserto

com o facto citado pelo historiador arabe Annowairi, que Abderahman

III, ao tratar as pazes com os christãos do norte da peninsula exigiu

doze mil operarios para lhe construirem o alcazar de Medina Azzahrá.

Este mesmo trabalho dos operarios christãos se nota nas construcções

arabes do Egypto, como observou Stanley Lane Pool.[74] O historiador

tunesino Ibn Jaldon, considera que a perfeição das artes na Hespanha

sarracenica era devida a uma tradição da edade visigotica; Simonet

recuando-a até á edade romana, accrescenta: «Semelhante tradição

deveram transmittil-a os indigenas; assim os _Mosarabes_, que

conservaram a sua fé christã e com ella os mais elementos da sua

civilisação, como os _Mulladies_, isto é, os hespanhoes renegados, que

ao arabisarem-se e fazer-se mussulmanos mantiveram da sua antiga

cultura hispano-romana tudo aquillo que era compativel com o islamismo,

e ainda uma não pequena parte do espirito christão e nacional.»[75]

Este elemento indigena ou hispanico vem citado nos poemas e leis antigas

com o nome de _Mosarabe_; nos cantos populares ha uma referencia

importante aos _Mulladies_, sob o nome de _Malados_:

Eu sou filha de um _malado_

Da maior _malatararia_.

Homem que me a mim tocar

_Malato_ se tornaria.

O desprezo que se ligava a este nome não era por nenhuma doença

asquerosa, mas pela degradação de terem renegado a religião christã. E

esta classe era tanto ou mais importante do que a dos _Mosarabes_;

era maior o seu numero, mais intelligente e activa essa população,

possuindo em si mais familias nobres, e pela sua preponderancia tomavam

parte entre todas as discordias dos Arabes desde a segunda metade do

seculo IX, como o observam Dozy e Simonet.[76] Muitos _Mosarabes_

se tornaram _Mulladies_, especialmente em Granada, para se

eximirem aos fortes tributos, e principalmente a gente dos campos: «la

poblacion agricola, que aqui abundaba mucho, merced á la feracidad

del suelo, aprovachándo-se de las franquezas y beneficios que la

ley mahometana concede á los islamizados habia logrado por este

medio conseguir su libertad y librarse del odioso impuesto de la

capitacion.»[77] A maior parte da população de Granada no principio do

seculo XIV, como o affirmam Zurita e Marianna, eram _Mulladies_.

É pois este fundo de população hispanica, que se conservou inalteravel

entre os dominadores Arabes, e a que se deu o nome de _Mosarabes_

e _Mulladies_, que persiste nas suas tradições tanto poeticas como

artisticas. Arte mosarabe, como chama Garret á Architectura, Epopêas

mosarabes, como chamámos aos Romanceiros, são designações verdadeiras

emquanto d’este elemento persistente sob a dominação arabe se transita

para o reconhecimento da população iberica.

O nome que deve ter esta architectura, filha do genio do povo

portuguez, não seremos nós que o imporemos; tomamos a designação que

lhe deu um poeta que teve mais do que ninguem a intuição das cousas

bellas, e que suppria a falta de sciencia por um tino raro e gosto

aprimoradissimo; escrevia Garret: «E aqui a proposito, por que se não

hade adoptar na nossa Peninsula esta designação de _mosarabe_

para caracterisar e classificar o genero architectonico especial

nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da Meia

Edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes

moirescos e de uma luxuosa elegancia.»[78] O portuguez tem o genio

architectonico; o artista Roquemont reconheceu-lhe essa capacidade

ingenita. É a influencia exterior da natureza que fez este povo

architecto, como o fez tambem navegador. O norte de Portugal abunda em

excellente pedra para construcções grandiosas, tem o granito duro para

as fórmas eternas; de facto é ao norte de Portugal aonde se encontram

os primeiros e mais venerandos trabalhos de architectura, não tão

delicados como os rendilhados lavores da pedra calcárea do sul, mas em

maior numero e em todas as edades como productos de uma necessidade

vital. Este genio artistico acha-se reflectido na technologia do povo,

apresentando uma riqueza de vocabulos ainda na linguagem do mais

humilde alvenér.

As Constituições apostolicas mandavam que a Egreja fosse edificada

em fórma de uma náo (_ad instar navis_) voltada para o Oriente.

Comprehendeu Portugal o symbolismo no sentimento aventureiro e

maritimo com que no seu christianismo transpoz os mares, no meio das

invasões dos Turcos na Europa, levando a _Fé e o Imperio_ ao

Oriente, sem se preoccupar com o antagonismo das _Duas Espadas_.

Foi Portugal o unico povo que soube fazer a mirifica alliança da

Architectura e do sentimento maritimo; e emquanto se inspirava da

simplicidade evangelica, propriamente _mosarabe_, este povo era

creador, edificava a Batalha e Belem, que já não pôde acabar depois

que o catholicismo romano, pela repressão do Concilio de Trento,

mandado observar em Portugal como lei vigente, e pela acção dirigente

dos Jesuitas na instrucção e na politica, levou este povo a uma

esterilidade de morte, a uma indifferença diante da perda da sua

autonomia.

Participando da fecundidade germanica e da sensibilidade do arabe, o

_mosarabe_ mostrou a espontaneidade do seu genio creador, além

da Religião e da Arte, tambem no Direito. N’este campo a depressão

é exercida pela monarchia na sua absorpção temporal, fazendo em

quanto á vontade o que a Egreja fez em relação á consciencia. Para o

_Mosarabe_ o direito não era uma imitação dos Codigos romanos,

como o Codigo visigotico privativo da classe aristocratica; não era uma

fórmula ambiciosa da theocracia imposta nos Concilios nacionaes; era a

realidade da vida prática em uma fórma consuetudinaria e não escripta;

a lei em vez de ser uma prohibição validada com penas atrozes era uma

garantia commum, mantida pela consciencia, sanccionada pela transmissão

tradicional.

No momento em que o godo não pertencente á _banda guerreira_,

e que decahira na condição do _lite_, se viu desassombrado da

nobreza que se refugiou nas Asturias, ficou entregue á liberdade franca

tolerada pelos invasores e foi reconstituindo as suas primitivas

instituições livres. É por isso que o _Symbolismo_ germanico

dos codigos barbaros floresceu de novo; o _Mallum_ antigo, ao

ár livre, ou á sombra da arvore secular torna-se a assembleia, o

_Malhom_, em que se allega o costume; a individualidade germanica

reapparece na prova dos _Juratores_; as cerimonias juridicas

supprem a magestade das fórmulas abstractas romanas; a prova faz-se

pelo _Ordalio_, perante o testemunho da natureza, pelo _Duello

judiciario_; a pena é a banição da terra, o _Wargus_, sem

tecto, lar, nem agua. Todos estes caracteres são privativos do Direito

dos mosarabes, que vigorou sem ser escripto no periodo da tolerancia

arabe, e que ainda transparecem nos textos escriptos das Cartas de

Foral, quando a restauração senhorial e o poder monarchico procuraram

submetter ou alliarem a si, conforme os tempos, esse elemento popular,

que constitue as nacionalidades peninsulares. Nunca os Foraes poderão

ser comprehendidos senão como a antithese do Codigo visigotico. O

momento em que este direito começou a ter fórma escripta coincide

com o da formação do _Terceiro estado_ na Europa; em nenhuma

legislação se proclama com mais clareza a independencia do trabalho, a

liberdade territorial, a remissão do homem por contribuições ou resgate

do colono. Quem se lembrou de vêr nos Foraes uma liberalidade régia?

Os jurisconsultos que seguiram este erro eram romanistas, ou melhor

cesáreos, que ignoravam as instituições da Edade media e a organisação

da sociedade portugueza. Mas a vida local que exigia estes Codigos foi

extincta diante da lei geral das _Ordenações_, redigidas pelos

jurisconsultos romanistas ao serviço da auctoridade monarchica. Já

no seculo XVI e quando a dictadura monarchica tendia para o egoismo

dynastico, a pretexto de reformar as palavras obsoletas dos Foraes e

do reduzir as moedas antigas ao dinheiro corrente, o rei D. Manoel

substituiu esses textos, tirando-lhes as garantias e deixando-lhes a

contribuição ou prestação do fôro. Desnaturou-se a propriedade com

a fórma romana da _Emphyteose_. As descobertas favoreceram o

centralismo da capital e da côrte; as liberdades locaes decahiram, e

o povo já depremido pela intolerancia do catholicismo, deixou desde a

reforma manoelina esquecer as suas tradições juridicas, o seu energico

symbolismo, e alheio aos interesses publicos, alheio ficou á occupação

castelhana.

O povo portuguez ainda hoje allude nos cantos tradicionaes aos costumes

do tempo das Cartas de Foral; o estado de _Malado_ é lembrado no

romance da _Filha do rei de França_; a _Sylvaninha_, como

mulher é desherdada pelo pae, segundo o costume germanico; o adulterio

é castigado com a pena de fogo, no _Dom Claros de alem-mar_;

a expulsão do fidalgo do burgo, como nos Foraes do Porto, Coimbra

e Santarem, subsiste no romance do _Santa Iria_. Os romances

ou _Aravias_ alludem ao instrumento a que são cantados, a

_quitára_ arabe; é tambem pela influencia bondosa da mulher,

segundo o costume arabe, que o prisioneiro Virgilios recobra a

liberdade; vê-se em tudo isto a alliança do genio germanico e arabe. A

bella e sentidissima efflorescencia dos Romances sacros, ou ao divino,

em que o Velho e Novo Testamentos se acham dramatisados com a maior

audacia, sem attenções pela versão canonica, que outra origem tem na

rhapsodia popular da peninsula se não uma origem arabe? É do genio

arabe que lhe veiu esta liberdade da creação poetica, que tambem por

egual impulso apparece em velhos poemas provençaes: «É em arabe que se

encontram os primeiros exemplos d’estas falsificações romanescas das

narrativas venerandas da Biblia e do Novo Testamento.»[79]

Sobre o elemento vital da Edade media a tradição das raças, que

actuavam no desabrochar das instituições sociaes e da poesia,

prevaleceu o principio da auctoridade, em quanto á consciencia

religiosa pelo canonismo catholico, em quanto á liberdade pelos codigos

monarchicos, e em quanto ao ideal pelo prurido da erudição classica.

A decadencia do culto ou rito _mosarabe_ coincide com a extinção

das garantias foraleiras; no mesmo seculo em que entrava em Portugal a

legislação imperial romana, que renascia nas Universidades, triumphava

tambem o rito romano. Dom Diniz ressuscita os direitos imperiaes com o

ensino das leis romanas na sua nascente Universidade, ao mesmo tempo

que admittia o rito da Egreja de Roma na sua Capella. Applicavam-se

as _Leis de Partidas_; e o povo era excluido da participação da

liturgia. O papa Eugenio IV impoz-nos o rito romano, que Dom João

II e Dom Manoel acceitaram; e com as _Ordenações manoelinas_

acabaram os ultimos restos da vida das instituições locaes. Para

completar esta obra da cretinisação de um povo, Dom João III deu

entrada em Portugal á Inquisição com o seu queimadeiro, distrahindo a

multidão fanatisada com os espectaculos de cannibalismo, e entregou as

intelligencias á perversão do ensino jesuitico. Gil Vicente conheceu

este primeiro golpe na tristeza das cantigas do povo: «_Todas tem som

lamentado_--carregado de fadigas--longe do tempo passado.» Camões

sentiu esse segundo golpe já reflectido no estado geral da nação: «De

uma austera, apagada e vil tristeza.»

Para fazer revivescer o genio _mosarabe_ ou nacional, era preciso

descobrir-lhe a sua tradição em uma poesia tantos seculos obliterada

sob o desdem dos eruditos que a julgavam _desprezivel_, pela

Egreja, que a perseguia pelas Constituições dos Bispados e pelos

Indices expurgatorios; e ao mesmo tempo a sua liberdade e autonomia,

debaixo de um unitarismo politico que a monarchia parodiava copiando o

direito imperial romano. O renascimento dos dialectos peninsulares e o

estudo das tradições são o prenuncio de uma vindoura revindicação.

=§ 3.--A Linguagem oral e escripta=

O que distingue a obra litteraria original, da Tradição que é do

dominio de todos, é o cunho da individualidade, o caracter. É por isso

que um thema commum, como se observa com a fabula, póde ser original,

recebendo successivamente a fórma litteraria de Esopo, de Phedro ou

de Lafontaine. O mesmo acontece com a lingua nacional, que é fallada

por todas as classes, destacando-se a feição individual do escriptor

que lhe imprime o seu _estylo_. A linguagem, que é um phenomeno

natural e social independente da intervenção directa do individuo,

torna-se pela expressão esthetica a materia prima da elaboração das

Litteraturas; e o _estylo_, que tanto destaca um escriptor

de outro escriptor, conserva, como diz Fontenelle, _son tour

d’ésprit_ de cada seculo, apezar da supremacia do genio individual.

Ha na creação da linguagem dois trabalhos, o da espontaneidade

_oral_, em que apparecem os elementos radicaes que se transformam

por meio de themas e flexões até constituirem a palavra, e uma

fixação pela _escripta_, que vae systematisando e regularisando

o apparelho grammatologico. Se a lingua não é escripta, tende a uma

exuberancia synonymica e dispersão dialectal; se o seu uso escripto

começa prematuramente, cáe em uma immobilidade de fórmas definitivas,

que não avançam para se não quebrar a regularidade constituida.

É sobretudo o facto historico da nacionalidade e da sua cultura,

que actúam na fórma _escripta_ da linguagem, imprimindo-lhe

pela concentração das energias associativas em uma capital um typo

linguistico, que se impõe e prevalece sobre as differenciações

dialectaes. A linguagem _oral_ continúa no seu originario poder

de creação, mas apoia-se principalmente na auctoridade conservadora

do passado, e mantém fórmas do _Archaismo_ no vocabulario, no

vocalismo e construcções populares; a linguagem _escripta_,

exprimindo necessidades do espirito amplia os seus meios de expressão

pelo _Neologismo_, abandonando fórmas desconnexas do vulgo para

sustentar uma determinada regularidade. São variadissimas as relações

entre estas duas funcções _oral_ e _escripta_ da linguagem;

se se separam completamente uma da outra, a linguagem fallada torna-se

um patois variavel de burgo para burgo, e a fórma escripta obedece a

um aperfeiçoamento racional e artificioso, ficando privativa da classe

culta, como aconteceu com o sanskrito e com o latim classico; se porém

as duas fórmas de expressão se aproximam e se fecundam mutuamente, os

escriptores encontrarão na linguagem do povo bellos elementos para

enriquecerem o estylo com modismos pittorescos (como acontece com a

obra esthetica em relação ás tradições anonymas), e o povo fallará

com a perfeição da cultura social que reflecte, como se viu com o

predominio do dialecto attico na Grecia. Em Portugal a separação da

linguagem _oral_ da _escripta_, deu-se desde que por effeito

da corrente da civilisação preponderou a cultura latino-ecclesiastica,

e chegou a ponto tal essa differenciação, que os velhos documentos

juridicos tiveram de ser traduzidos para _leitura nova_ em tempo

de Dom João II; porém, desde os fins do seculo XVI até hoje tem-se

operado a identificação entre estes dois modos de linguagem, e o poema

de Camões é lido e entendido geralmente como se fosse escripto na

actualidade.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 7 / 27 段