_Transformação erudita do Romance popular._--Cansados de esgotar

os innumeros artificios do lyrismo trobadoresco, que em Portugal

se manteve por todo o seculo XV, os cavalleiros, condemnados pela

organisação social em que a Realeza caminhava para o predominio da

dictadura monarchica, a viverem a vida parasita de _cortezãos_

e a divertirem os serões do paço, lançaram-se á imitação dos cantos

populares; as fórmas lyricas subsistem nos _Cantares d’Amigo_,

nos cancioneiros aristocraticos, mas as fórmas narrativas não se

conservaram com o mesmo esmero. Affonso Sabio só admittia que esses

cantos fossem de feitos de armas; e mais tarde o Marquez de Santillana

condemnava-os ao desprezo pela inferioridade da sua origem. Mas no

seculo XV os Romances conseguiram vencer esse desdem dos latinistas e

aristocratas. O que havia de profundamente humano e pittoresco n’esses

cantos tradicionaes, em que o mosarabe alludia ainda aos seus Symbolos

já sem os comprehender por extranhos á legislação codificada, não

deixou de impressionar os Poetas palacianos. D. João Manoel adoptára

esses _cantares-romances_, e impuzera-se a moda; a rainha D.

Joanna, filha do rei Dom Duarte, casada com Henrique IV de Castella,

pedia aos cavalleiros da sua côrte que lhe glosassem Romances, como o

que começa: _Nunca fue pena mayor_, tambem glosado em Portugal

por Pedro Homem, estribeiro-mór, e referido em Gil Vicente. Garcia de

Resende tambem glosou o romance _Tiempo bueno_, Sá de Miranda e

Gil Vicente, o romance da _Bella mal maridada_. Colligindo-se

todas as referencias a romances velhos nos escriptores quinhentistas,

vê-se a sua vivissima vulgarisação oral, antes da primeira collecção

formada e impressa em Sevilha em 1551.

Quando no seculo XV a erudição latina tomou um ascendente no gosto,

fazendo decahir os elementos medievaes das litteraturas, os dialectos

populares chamados _romance_ continuaram a empregar-se na poesia

popular, vindo este nome a designar esta fórma épica tradicional.

Bernardim Ribeiro usa-o com este duplo sentido: «não soube inteiramente

mais que por um _cantar-romance_, que d’aquelle tempo ficou.»

E em um verso do _Cancioneiro geral_: «mais ande _cantar

romance_.» (t. III, 358.) O povo ficou empregando a palavra

_Estoria_ no mesmo sentido de narrativa poetica, como a usava

Fernão Lopes no sentido de tradição, e que Bernardim Ribeiro emprega:

«ouvi-a já então contar a meu pae por _estoria_.» Quando a

erudição, para variar as fórmas poeticas, teve de contrafazer a poesia

popular narrativa no seculo XV, perdeu a noção da sua origem, e mais

ainda a sua comprehensão. A fecundidade do povo, que se fixa entre

o seculo XII e XIV, acabou em resultado da extincção das liberdades

locaes ou foraleiras pela dictadura monarchica, e com a liberdade

de consciencia pela intolerancia catholica a pretexto de combater a

Reforma. Ambos estes poderes fizeram reviver e prevalecer a cultura

latina nas letras o na politica.

A reacção clerical contra a Reforma, matava a alegria entre o povo; os

romances sacros ou ao divino foram considerados peccados de bocca, como

anteriormente o dissera o rei D. Duarte, e os Indices Expurgatorios de

1564, 1581, 1597 e 1624 condemnaram com excommunhões todos os romances

populares em geral. Gil Vicente consigna essa depressão de tristeza

produzida pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal, quando

no Auto do _Triumpho do Inverno_, diz ser: «Jeremias o nosso

tamborileiro.» Os romances populares foram parodiados ridiculamente,

e a sua fórma applicada ás narrativas historicas, recebeu fórma

litteraria em Lorenzo de Sepulveda, Lasso de La Vega, Timoneda, Juan de

la Cueva, em Hespanha, e em Portugal por Gil Vicente, Jorge Ferreira e

Balthazar Dias, que traduziu na _Imperatriz Porcina_ as lendas de

Crescencia, tiradas do _Speculum historiale_ de Beauvais.

No fim do seculo XVI os romances populares reflectiram o estado da

sociedade civil: estava acabada a cavalleria, e como as Gestas feudaes

tinham caído na _faulse Geste_, ou idealisação dos traidores, assim os

Romances celebraram os facinoras e contrabandistas, os _Valentones_,

os _Guapos_ e os _Xaques_. Appareceu o genero meio popular meio

litterario das _Xácaras_ ou _Xacarandinas_, metrificadas por Quevedo

e entre nós egualmente seguido por Dom Francisco Manoel de Mello, que

falla d’este genero: «um rascão musico, que a poder de _rácaras_ e

seguidilhas a trazia martelada (a uma escrava da casa).» Imitaram-se

tambem os romances _mouriscos_ e granadinos em um monotono prurido

litterario, dissolvendo-se por fim no gosto allegorico e subjectivo.

D’aqui em diante a poesia épica do povo perde-se totalmente: a

dominação castelhana, obscurantismo religioso, restauração bragantina,

tudo conspirou para fazer esquecer-se a tradição nacional, a ponto

de chegarmos a ser conhecidos na Europa como o povo mais escravisado

e embrutecido, como o referiu o P.^e Theodoro de Almeida na Oração

inaugural da Academia das Sciencias em 1779. Só muito tarde, na

renovação das Litteraturas pelo Romantismo é que se tornou a achar este

veio riquissimo da Tradição.

_c_) DAS FÓRMAS DRAMATICAS

Como manifestação da vida social o theatro attingiu nas civilisações

antigas e nas raças vigorosas o caracter de uma instituição. O

Drama, a fórma de arte em que o homem apresenta a consciencia da

sua personalidade, comprehendeu primitivamente elementos do Lyrismo

e da Epopêa; as mais vetustas composições dramaticas começam pelo

_Côro_, puramente lyrico, d’onde se destaca um personagem que narra

incidentalmente; mas a necessidade de figurar e desenvolver as

tradições épicas, de as tornar vivas diante da multidão, reduziu o

_Côro_ á rubrica explicativa, á decoração material, vindo o dialogo

dos personagens (de _persona_, a mascara com que o _som_ da voz era

reforçado) a constituir a tragedia. Deu-se isto na Grecia de um modo

natural e logico, por que ali o theatro tomou o caracter de uma

instituição nacional. O theatro indiano derivou-se tambem da Epopêa. E

assim como nas civilisações rudimentares o theatro é uma continuação

dos actos liturgicos, como o _Mitote_, no Mexico, os _Ludi_, nas festas

christãs, os _Mysterios_ francezes, as _Reprezentazioni_ italianas,

na Edade media, em nossos dias repete-se este processo generativo, em

que dos côros lyricos e elegiacos sobre as desgraças da familia de

Oly, entre os Persas modernos, se formam os grandes dramas chamados

_taziéhs_, a que a multidão assiste com fervor commentando pela acção

scenica as doutrinas do Babysmo.

Recebe o theatro a importancia de instituição quando se torna para um

povo a sua satisfação moral, uma fórma de protesto, uma manifestação

da--opinião publica. É por isso que o theatro attinge a sua maior

vitalidade nas épocas burguezas. Os dogmas religiosos e civicos

foram pela primeira vez discutidos n’esse tribunal, como se vê pelas

tragedias de Eschylo e pelas comedias de Aristophanes; assim foi tambem

comprehendido na fórma hieratica da Edade media, em que o Velho e o

Novo Testamento eram postos em acção debaixo das abobadas da Cathedral

popular; em que os actos respeitaveis da Bazilica eram parodiados

pela _Bazoche_, nas farças mordentes em que os papas e os reis

figuravam no conflicto dos dois poderes. O renascimento das fórmas

classicas greco-romanas veiu desviar esta creação das Litteraturas

romanicas dos seus germens organicos ou tradicionaes. Esses germens

tinham vigor bastante para efflorescerem, se não tivessem apparecido

outros meios mais faceis para manifestar-se a Opinião publica, taes

como a Imprensa.

Assim como as fórmas do _Lyrismo_ e da _Epopêa_ apresentam

nos povos meridionaes a persistencia de typos tradicionaes que

se ligam a uma communhão ethnica de raça, tambem existiu uma

forma de _Drama_, com egual origem, e que ainda persiste nos

costumes populares na Italia, Hespanha e Portugal. Os criticos não

comprehenderam ainda o seu valor; mas esse typo dramatico hade merecer

o interesse dos eruditos como a _Pastorella_ e o _Romance_.

Já vimos que a antiga raça italica tinha a comedia mimica e improvisada

das _Atellanas_ oscas, com os seus personagens typicos e

invariaveis o Macus, o Pappus, o Casnar, o Sannio, o Manducus.

Esta fórma pertencia evidentemente a essa raça que constituiu o

fundo popular das nações occidentaes: na Italia resistiu sempre aos

dramas classicos ou litterarios, em todas as épocas, com o nome de

_Commedia dell’Arte_, e de _Commedia a soggeto_. O assumpto

era previamente definido, o _canevaccio_, os dialogos é que eram

improvisados em scena pelos typos immutaveis de Arlechino, Brighella,

Zanni, Pantalone, Truffaldino e Dottore. Emquanto a comedia litteraria

ou _sostenuta_ se mostrava sem interesse, o povo preferia

a comedia improvisada, na qual os varios dialectos da Italia se

unificavam, por isso que eram empregados pelos diversos typos comicos

segundo os caracteres que representavam. A linguagem dialectal fornecia

as vivas graças e chascos que ha sempre de terra para terra; e as

mascaras tinham a expressão dos traços provinciaes. Quando fallava

o typo amoroso, empregava a lingua culta da Toscana; se era o pae

tyranno, era o dialecto de Bolonha; se conversavam a criada ladina ou

serigaita com o criado dialogavam em bergamasco. Em Gil Vicente tambem

se encontra esta necessidade de mudarem de linguagem os seus typos,

chegando a dizer que--o castelhano é bom para fingir, e empregando por

vezes o cigano e o creoulo.

A vitalidade da _commedia dell’Arte_ resistiu ás reformas do gosto

dramatico tentadas por Goldoni no seculo XVIII, e chegou a influir no

desenvolvimento do theatro francez; os antigos typos apresentam novos

nomes, como Scaramouche, Scapin, Tartaglia, e chamava-se _commedia

a braccio_, pela gesticulação exagerada. Quando Goldoni tentou a

comedia do género menandrino, os actores não se queriam sujeitar ao

estudo de papeis definidos, e o publico preferiu a improvisação dos

representantes, que ás vezes pelos seus repentes felizes adquiriam

uma grande celebridade, a ponto de Biancolelli receber de Luiz XIV

o tratamento de amigo, e Cecchini cartas de nobreza pelo imperador

Mathias.[61]

Este mesmo genero improvisado encontra-se em Andalusia, com o nome

de _Juegos de cortijo_, usados ao terminar os trabalhos das

colheitas, e especialmente nas bodas. Lafuente y Alcantara, no prologo

do seu Cancioneiro popular descreve esta forma da _Encortijada_,

e dá alguns themas comicos, eguaes ás _Atellanas_ oscas e ás

_commedias dell’Arte_: «Começa este jogo por uma especie de

introducção ou scena preliminar, reduzida a um breve dialogo que

hade terminar com algum chiste, já mettendo a ridiculo qualquer dos

presentes com allusões grotescas, ou simplesmente algum conceito mais

ou menos opportuno, ou alguma sandice inesperada. Chama-se a isto

_entrada de juego_, e geralmente não tem connexão alguma com

a scena que se representa depois. Nesta ultima _só é premeditado

e convencionado o assumpto principal e o desenlace; o dialogo e

demais incidentes são improvisados pelos actores_.»[62] Lafuente y

Alcantara apresenta alguns dos themas usuaes, quasi sempre descambando

nas facecias desenvoltas, como o _Juego del galan_, e o _del

Jalapago_, e _del Licenciado_.

Comprehende-se que os latinistas ecclesiasticos condemnassem a forma

dramatica conservada tradicionalmente nas classes populares; nas obras

de Isidoro de Sevilha, lê-se: «O theatro é um verdadeiro prostibulo,

porque terminados os Jogos, ali se prostram as meretrizes...»

(_Etym._, l. 18 e 39.) Continúa o erudito bispo hispalense:

«Entram os histriões nos espectaculos com a face coberta, pintam o

rosto de azul e de roxo sem se esquecerem dos demais arrebiques; e

levando ás vezes por simulacro um lenço sujo e manchado de varias

côres, untam com elle todo o pescoço e mãos de grêda para egualar a côr

da careta e enganar a multidão emquanto se representam as farças; umas

vezes apparecem em figura de homem, outras de mulher; ora tosquiados,

ora com grande cabelleira; umas vezes de velha, outras do virgem, e em

todos os aspectos, com diversa edade e sexo, a fim de enganarem o povo

emquanto representam.» Recommendando como se devem cantar os psalmos,

o bispo prohibe que a voz tenha effeitos theatraes. D’este texto se

deprehende a existencia do theatro popular na baixa Edade media, e

que apezar de todas as condemnações da Egreja persistiu nas fórmas

elementares dos _Jogos_ dialogados, e _Dansas_ figuradas.

Do theatro primitivo da peninsula iberica falla Marcial: _antiqua

patria theatra_ (_Epigr._, IV, 55) referindo-se a um scenario natural

em um valle, a que concorria a gente de Rigas, ou como diz um glosador

lendo Ripas: «_quod prisci juxta ripas ederent spectacula..._» A estes

theatros naturaes alludo Juvenal (_Sat._ III, p. 172) em relação á

Italia, _herbosa theatra_. A Dansa guerreira dos Gallegos acompanhada

de canto, descripta por Silio Italico (_Pun._, III, 353), ainda nos

apparece na _Dansa dos Espingardeiros_, e as Dansas coreadas religiosas

dos Celtiberos, persistiram até ao seculo XVIII nas procissões

portuguezas. Da mesma fórma diz D. Juaquin Costa, a quem seguimos

aqui: «Los _Dances_[63], con sus representaciones scenicas, ora

historicas, ora religiosas, ora pastoriles, como, por ejemplo, el

_Baile de la inconstancia_, de Benabarre, la _Marisca_, de Ainsa, la

_Pastorada_, de la Fueba, etc, que son una verdadera juris continuatio

del teatro indigena, conservado mas tenazmente que en ninguna otra

region, en los escondidos valles del Pireneo, tanto en la vertiente

española (Aragon) como en la franceza.»

A fórma improvisada do theatro acha-se tambem na tradição portugueza

conservada no Brazil, e usada nas festas chamadas _Reinados_

e _Cheganças_. Celso de Magalhães viu representar na Bahia o

_Auto dos Marujos_, e descreve-o assim: «Um grupo vestido á maruja

conduzia um pequeno navio armado de ponto em branco, com velas de

seda e cordame de linha, montado sobre quatro rodas, embandeirado em

arco e puchado por rodas. Cantavam versos da _Náo Catherineta_,

_Fado do marujo_ e _lupas_ (cantigas de levantar ferro).

Outro grupo apparecia mascarado. Na frente um individuo montava um

cavallo de pasta vistosamente ajaezado do galões falsos e fazia-o

dansar ao som da musica e do canto aspero e acompanhado de pandeiros

e pratos.» E Roméro acrescenta: «Depois fingem uma lucta, vão coser o

panno, no fim do que ha o episodio do Gageiro, cantando-se os versos

da _Náo Catherineta_...»[64] São muito curiosos os especimens

d’este genero, como _Os Marujos_, os _Mouros_, o _Cavallo

Marinho_,[65] conservados na antiga colonisação brazileira. Nas

aldeias ainda hoje se conservam dansas dialogadas hieraticas, elemento

consuetudinario a que Gil Vicente deu a fórma litteraria.

O primeiro vestigio theatral que nos apparece é a representação

_mimica_, de que a Sicilia era o fóco que mais sortia Roma; é

o _Arremedilho_ do jogral Bon-Amis, coadjuvado por outro a que se

chamava Acompaniado. É provavel que _Bon-Amis_ seja já nome comico,

como o de _bonifrate_. Foram depois regulamentados os costumes

do _Tamo_, ou das festas do casamento(_Epithalamio_) a que pertenciam

os _Jueyos de cortijo_ na Andalusia. O uso popular dos _Clamores_

e _Endexas dos mortos_ era tambem dramatico, havendo banquetes sobre

as sepulturas. A parte representada acha-se nas cantigas com Voz e

Côro acompanhadas de dansa, sobre a sepultura do Condestavel, pela

paschoa florida; os banquetes ainda ha muito pouco tempo deixaram de

usar-se nos cemiterios de Lisboa. Estes ritos eram tambem usados pelos

Belgas sob o nome de

_Dadsila_ ou festim sobre a sepultura das pessoas cuja memoria era cara;

o touro, o bode eram as victimas regularmente immoladas; na primitiva

egreja conservou-se este costume, como se vê pela recommendação de

Santo Agostinho acerca d’esses banquetes: «_Non sint sumptuosae._»

Muitos dos elementos dramaticos dos costumes populares foram

incorporados na grande festa de Corpus Christi; D. João II,

para celebrar a victoria da batalha do Toro, mandou organisar a

Procissão em que figuravam os officios com os jogos que lhes eram

peculiares e emblematicos. No Regimento da procissão, dado por D.

João III, encontram-se esses rudimentos tradicionaes: «Dois Diabos,

e a _representação da Dama e Galante_; dois _Diabos e um

Princepe_; o _Gigante e o Anjo_.» Da figuração do Sam Jorge

matando o Dragão para salvar a Donzella que ia ser devorada, vemos a

persistencia no alto Minho com o nome de _Santa Coca_ como parte

obrigada da procissão. Nos costumes actuaes, na procissão do Carmo

em Vianna, figurava o _Rei da Mourama_, e entre lôas á Virgem

jogavam-se as mais desbragadas chufas á mourisma; a _Dansa dos

Pretos_ em Arcozello da Serra, na festa da Senhora da Assumpção,

em que crianças de nove a dez annos em trajo de negrinhos fingem

de escravos, e queixam-se á Senhora com ditos pela maior parte

indecentissimos para os libertar. A _Dansa das Donzellas_ consta

de um côro de meninas, que pedem para ser baptisadas ao Anjo que

as acompanha, e elle exhorta-as em um monologo final, dando-lhes o

baptismo. A _Dansa dos Espingardeiros_,[66] é um thema inspirado

pela resistencia nacional contra a absorpção castelhana; consta de

oito ou dez rapazes, marchando ao som de tambores, divididos em dois

bandos, simulando o exercito castelhano e o portuguez; postam-se

diante uns dos outros, vão parlamentarios lançar os ditos, trava-se o

combate, e vence o general portuguez, que concede a vida ao inimigo

depois de lhe ajoelhar aos pés. Além d’estes themas ha outros ligados

aos trabalhos do campo ou da industria, como o _Enterro das

Séstas_, as _Malhadas do centeio_ e as _Azeitoneiras_; e

os divertimentos domesticos, taes como o _Jogo da Condessa_, o

da _Almolina_, o de _Villão do cabo_, em que ha dialogos e

movimento scenico.

O typo nacional do gracioso da comedia popular era designado o

_Ratinho_, que Miguel Leitão diz ser tomado do caracter broma

dos moradores da aldeia de Rates. Gil Vicente que teve perfeito

conhecimento de todos estes elementos tradicionaes, allude ao typo

comico nacional:

Muitos _ratinhos_ vão lá

De cá da serra a ganhar;

E lá os vemos cantar,

E bailar bem como cá. (II, 443.)

E no mais triste _ratinho_

S’enxergava uma alegria

Que agora não tem caminho. (II, 417.)

_Ratinho_ és de má casta (II, 211.)

E deixas lavrar _ratinhos_ (_ib._, 220.)

Que eu era _ratinho_, senhor. (_ib._, 237.)

Todos os que seguiram as fórmas estabelecidas por Gil Vicente

aproveitaram-se d’este typo do _Ratinho_, como António Prestes e

o Chiado. Muitos d’estes costumes populares foram condemnados nas

Constituições dos Bispados, principalmente os _Autos_, _Colloquios_

e _Lapinhas_, nas trez grandes festas a que o povo deu relevo com

as figurações dramaticas--o Natal, os Reis e a Paixão. Era a grande

trilogia, em que o povo continuava a sua creação poetica depois de

terminado o cyclo de formação dos Evangelhos apocryphos. O trabalho

de Gil Vicente, como se deprehende da tragicomedia do _Triumpho de

Inverno_, foi rehabilitar pela litteratura as tradições populares,

condemnadas pela Egreja, e este esforço do genio foi para a época da

Renascença como o de Garrett, na restauração do theatro portuguez, na

época do Romantismo.

Profundos accidentes historicos separaram da unidade politica

portugueza paizes que pela lingua e tradição pertencem ainda a um mesmo

todo moral. Pelo estudo d’estes documentos ethnicos se reconstitue a

_indole_ de um povo; por isso dizia Gregorovius: «As leis, as

instituições, _separam_, mas a lingua, na qual o povo falla e

canta, é um elemento de _aproximação_; ahi se encontra o que os

latinos chamavam _indoles_.»

A tradição nacional e popular, verdadeiro germen de toda a

efflorescencia artistica, e que era a base de todas as creações

originaes das litteraturas da Edade media, achou-se depois do seculo

XII abandonada ou combatida pelo prestigio da Antiguidade preferida

pelos eruditos latino-ecclesiasticos. Formada n’este começo da grande

crise da dissolução catholico-feudal, a nacionalidade portugueza foi

desviada das sympathias da _Tradição_; a separação dos interesses

e gosto da classe popular, ou a _praça_, e da aristocracia e alto

clero, ou a _côrte_, torna-se um caracter commum ás recentes

nacionalidades europêas, e exprime-se claramente esse antagonismo nas

Litteraturas novo latinas.

Em Portugal encontramos este antagonismo reflectindo-se na Religião

pelo abandono do _culto mosarabe_ ou Egreja nacional substituido

pelo catholicismo romano; no Direito, pela absorpção das instituições

locaes ou autonomia foraleira na codificação real das Ordenações: na

Arte, como a architectura especialmente, e a poesia, pela imitação dos

modelos classicos.

As fórmas cultuaes e crenças religiosas no meio de uma população

que tendia a unificar-se politicamente era um esboço de integração

affectiva. Tal foi o christianismo durante a occupação arabe. O godo

lite ou aldius, meio lembrado do seu velho culto odinico, abraçára o

Christianismo pelo que elle tinha de sentimental; não comprehendia as

abstracções dos mysterios dogmaticos, e seguiu por instincto natural

a doutrina de Ario: acreditava na _humanidade de Jesus_, e

repugnava-lhe a consubstanciação e a sempiternidade do Verbo. É n’este

ponto que se dá a dissidencia entre a classe popular e a sociedade

aristocratica convertida ao catholicismo romano sob Rekáredo. As

crenças, usos e tradições populares são combatidas pelo clero como

superstições, e começa a preponderancia do clero na sociedade politica,

predominando os Bispos nas Côrtes, nos conflictos dynasticos e em

todas as fórmas de intolerancia.

Para o godo ao contacto com o arabe dominador, era a religião de

seus paes o sentimento mais energico e vital; adoptára a cultura, os

costumes, em parte a linguagem do vencedor, pelos cruzamentos ajuntára

ao instincto de independencia das raças do norte a paixão meridional,

mas permanecera sempre hispano-godo no seu afferro ao christianismo.

O culto dos _mosarabes_ deve considerar-se como uma fórma pura

do Christianismo independente da Egreja de Roma, viciada pelo intuito

da auctoridade temporal a que ambicionava. Como a Egreja da Bretanha

e da França, que se attribuiam uma origem _proto-cathedrica_, a

Egreja hispanica ou mosarabe considerava-se fundada expressamente por

um Apostolo; procurava derivar a sua origem da missão immediata do

apostolo Sam Thiago; não tinha por tanto de reconhecer a supremacia

papal. No culto _mosarabe_ o christianismo achava-se desligado das

affectadas fórmas liturgicas; não existia n’elle a confissão auricular,

com que o catholicismo romano adquiriu o imperio nas consciencias;

na sagração não se partia a hostia; o povo tomava parte nos officios

ecclesiasticos com as suas _Prosas_ e Sequencias, fecundando com a

emoção religiosa a sua sensibilidade poetica e animando a abstracção; a

linguagem vulgar era a que se empregava nas cerimonias liturgicas, com

exclusão completa do latim, costume que determinou ainda nos seculos

XII e XIII as traducções _vernaculas_ do Velho e Novo Testamento

e de alguns hymnos da Egreja. O catholicismo romano reconheceu os

perigos que para a sua disciplina tinha a simplicidade do _culto

mosarabe_, e combateu-o de frente, apoiando-se no poder real para o

extinguir completamente na peninsula. O christianismo-mosarabe tinha

a riqueza do sentimento poetico de uma forte raça; Roma banindo-o com

as censuras dos seus legados, impunha-lhe uma religião cuja força não

residia na santidade da crença, mas na auctoridade do padre. Quando

Affonso o Sabio escrevia a _Historia geral de Hespanha_, existiam

apenas seis egrejas em Toledo do culto mosarabe; a lucta continuou-se

lenta e insensivel a ponto de, no tempo do Cardeal Ximenez, restar

sómente uma capella em que se celebrava pelo missal mosarabico; era

uma opulencia cardinalesca conservada não como crença, mas com o

intuito archeologico de uma tradição da Egreja primitiva. É tambem

como lembrança historica, que na sua Cronica falla o rei Affonso o

Sabio: «Depoys que a cidade de Toledo foy metida em poder dos mouros

per preytesia ... todos aquelles que hy quyzesem vyver so o senhoryo

dos mouros era contheudo no trauto que tevessen sua ley, e vivessem

segundo o que ela mandasse e ouvessem clerigos de myssa e bispos e

outras ordeens. Estes christaãos teveram das entom ataagora ho officio

de Santo Ysidro e de San Leamdre. E oie em dia o mantem seys Igrejas

em Toledo, e chamansse os crerygos d’estas Igrejas _moçarves_.

E vyverom os christãos de ssuum com os mouros e so seu poder teendo

sua ley e guardandoa ataa o tempo dos Almoades que começaram em

tempo do emperador dom Afonso no tempo que era dom biuam arcebispo de

Toledo.»[67]

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 6 / 27 段