este lyrismo tradicional o ser a canção amorosa composta e cantada pela
mulher. Nos cantos populares da Galliza a mulher conserva o costume que
vêmos nas serranas e pastoras do Cancioneiro trobadoresco da Vaticana.
Já o erudito Sarmiento, nas _Memorias para la Historia de la Poesia
española_, escrevia: «he observado que en Galicia las mugeres no solo
son poetisas, sino tambien músicas naturales.--En la mayor parte de las
coplas gallegas hablan las mugeres con los hombres; y es por que ellas
componen las coplas sin artificio alguno; y ellas mismas inventan los
tonos ó ayres à que las han de cantar, sin tener idea de arte musico.»
[44] É ainda este o costume do Minho;[45] o caracter da lyrica de
elaboração feminina determina-lhe a sua mais alta antiguidade; escreve
Jeanroy, apesar de ter receio da litteratura pre-historica: «W.
Scherer, em uma muito instructiva noticia, citou um grande numero de
factos que o provavam: desde o seculo X, a canção de mulher existia na
Allemanha, como o mostra uma pequena peça latina d’essa época; as
canções servias são ordinariamente collocadas na bocca de uma rapariga,
e Talvj pensa que são realmente as raparigas que as compõem; peças
analogas se acham na Islandia, na Russia, na China, nas Kabylas, e em
muitas tribus selvagens. A attribuição das canções a uma mulher, é por
consequencia uma feição commum á nossa antiga lyrica popular e a muitas
outras.»[46] Por este exame de Scherer, encontramos sempre este
caracter do lyrismo tradicional entre povos em que persiste o
elemento _mongoloide_ (como a Servia, a Russia, as Kabylas, a China,
notando-se tambem que entre os Germanos se fusionou o Geta.) E
continuando a citação: «Scherer faz notar, que o _parallelismo_ mais ou
menos rigorosamente seguido entre a descripção de algum objecto natural
e a pintura da paixão se encontra em um grande numero de poesias
populares, particularmente entre os Servios, os Allemães, os Malaios,
os Chinezes. A poesia slava, sobretudo, abunda n’este genero em uma
infinidade de especimens, dos quaes alguns têm impresso o cunho da mais
alta, da mais bella poesia, etc.»[47] É por consequencia um processo
logico o procurar estas origens do Lyrismo na raça branca, não árica
nem semita, que precedeu ou occupou a Europa antes dos Celtas; o centro
ethnico da Aquitania como ponto de irradiação do Lyrismo, levou-nos á
investigação apparentemente aventurosa: as fórmas tradicionaes communs
á Italia, Provença, Galliza, Catalunha e Portugal,(populações romanicas
que não lhes deram origem), têm um typo perfeitamente egual ao das
Canções accádicas, descobertas e traduzidas pelos modernos
assyriologos, e são na sua estructura semelhantes ás canções chinezas
do _Chi King_, traduzidas pela fórma homeometrica, homeostrophica e
homeorythmica por Legge. D’aqui a inferencia sobre o estado moral e
relações anteriores d’esse typo _iberico_ conservado mais puro na
Aquitania. O desenvolvimento da poesia provençal fôra attribuido á
influencia dos Arabes no lyrismo do Occidente; mas a poesia lyrica dos
povos semitas, como o provam os estudos assyriologicos, foi produzida
pela imitação da poesia dos Accads. Reconhecida esta demonstração,
comprehende-se como, apparecendo na poesia arabe a fórma
da _Pastorella_, esse grande ramo semita viesse estimular a
revivescencia de uma tradição, que se extinguia entre a transmissão
oral das camadas populares. Como relacionar esse fundo occidental ou
iberico com os povos accádicos? Esse é o problema a que conduzem todas
as similaridades do Lyrismo tradicional; a elle respondeu Roisel no seu
livro _Les Atlantes_, mostrando como a civilisação da Chaldêa foi
iniciada por navegadores atlanticos da raça branca primitiva e
autochtone da Europa.[48] Comprehende-se como os cantos arabes fossem
communs entre o povo hespanhol e portuguez; nos versos do Arcipreste de
Hita ainda vem enumerada a lista dos instrumentos musicos para
os _cantares arabicos_, e em Gil Vicente ha uma referencia a uma canção
arabe _Calbi arabin_. No _Cancioneiro da Vaticana_ existe uma canção
trobadoresca com o estrebilho _Lelia vai Lelia_, que dava nome a um
genero lyrico tão popular e persistente nos costumes, que Philippe II
prohibia que se cantassem as _Leilas_ arabes. A designação com que no
seculo XV se conhecia esta fórma tradicional da _Pastorella_ era a de
_Serranilha_, da palavra arabe serra. Na poesia moderna do povo da
Galliza persiste este genero na fórma da _Muiñeira_; e em Portugal
tornou a communicar-se aos escriptores como Gil Vicente, Sá de Miranda,
Christovam Falcão e Camões, tomando a fórma litteraria das _Modinhas_
brazileiras, especialmente nas Lyras de Gonzaga. Determinada, pois, esta
base tradicional, temos a disciplina critica para conhecer o
desenvolvimento do Lyrismo trobadoresco, e successivamonte da sua
transformação italiana do _dolce stil nuovo_, e imitação geral nas
Litteraturas romanicas da Renascença até ao Romantismo.
_b_) DAS FÓRMAS ÉPICAS
Nas composições poeticas tradicionaes distinguem-se o genero lyrico ou
subjectivo, e o genero narrativo ou épico, essencialmente objectivo.
Observando esta distincção nas _Origens da Poesia lyrica em
França_, escreve Jeanroy: «Os differentes criticos estrangeiros
que se têm occupado respectivamente da historia da sua poesia, MM.
Bartoli, d’Ancona, Scherer, Richard M.-Meyer, Braga, entre outros,
sustentam unanimemente a opinião que estas ultimas (as narrativas)
constituem o fundo original da sua poesia. Sendo nos trez paizes
esta parte identica ou muito analoga, elles não podem egualmente ter
rasão. Nós tentaremos demonstrar que estão egualmente em erro, e que
n’isso em que vêem uma emanação espontanea do genio nacional, importa
vêr uma imitação de toda uma poesia franceza hoje perdida.»[49] Mas
referindo-se aos themas tradicionaes d’esses cantos narrativos,
Jeanroy presente um fundo ethnico que não é propriamente francez:
«Nós demonstraremos bem que _estes themas não são exclusivamente
italianos, allemães, portuguezes_; mas demonstraremos nós por isso
que elles _são exclusivamente francezes_? _Não_; e seria uma
pretenção evidentemente excessiva. Queremos só fixar um ponto, e vem a
ser, que as peças estrangeiras consideradas como autochtones, devem,
na sua fórma actual alguns dos seus traços á imitação franceza, que
ellas não lhe escapam, como se tem dito. Mas, será certo que o assumpto
mesmo tenha sido importado da França, que o thema nos pertença tão bem
como a fórma que o revestiu? Não. É mesmo mais que provavel que, se a
nossa poesia achou tanto enthuziasmo no estrangeiro, é por que ella
ali encontrava assumptos analogos aos seus, e que o terreno estava
como que preparado para receber a communidade de certas tradições
poeticas. Bem longo de affirmar que estes themas são exclusivamente
francezes, nós _não ousamos sustentar que elles sejam exclusivamente
romanicos_.»[50] Não andavamos em erro quando localisámos as nossas
investigações no fundo anthropologico persistente na Europa, de que
o elemento iberico, eusk e gaulez na Italia, França e Hespanha, e o
elemento getico e seythico na Allemanha, conduzem a uma unidade de
tradição poetica.
É incalculavel a extensão e profundidade da tradição popular hispanica
d’onde se tem colligido desde o seculo XIII até hoje esses pequenos
cantos narrativos, verdadeiros rudimentos de uma Epopêa cyclica que
não chegou á elaboração, como as Gestas germanicas. Esses cantos
aproveitados por Affonso o Sabio como elemento historico para a
_Cronica general de España_, explorados pelos impressores do
seculo XV, estudados e colligidos com amor desde o principio d’este
seculo, constituem o vasto campo do _Romanceiro_, que se deve
considerar o elemento poetico mais rico das Litteraturas peninsulares.
A tradição apparece por vezes commum a Portugal e Hespanha; outras
vezes os paradigmas encontram-se em França, na Italia, e na Grecia
moderna, o que revela uma fonte primordial. Nos _Romances_
peninsulares ou meridionaes, encontram-se costumes de uma sociedade
barbara, como na _Sylvana_ e _Rico-Franco_, vive-se em estado
de guerra, e a lei é a vontade irrefreiavel de um só.
D’onde provém essas tradições? Nada se encontra semelhante na
civilisação romana; mesmo entre as colonias mais romanisadas, como
a Italia, a poesia tradicional narrativa é pouco profunda.[51] Se
os dialectos romanicos se desenvolveram pela acção dos Romanos, os
costumes e as tradições são mais antigos, devem ser procurados em
um sub-solo ethnico; os dialectos romanicos servindo de expressão
e unificação d’esses elementos, contêm as _indoles_, como os
proprios romanos lhes chamavam, mas cuja natureza não é romana.
Os recentes estudos accádicos e assyriologicos, e as conclusões da
anthropologia e ethnogenia peninsulares, dão auctoridade ás palavras
de Strabão, que consignava a existencia de poemas heroicos entre os
Turdetanos, de mais de seis mil annos do antiguidade. As inscripções
lapidares encerram tambem os nomes de muitos deuses ibericos; e as
superstições comparadas com as do magismo accádico, espalham uma grande
luz sobre a ethnologia iberica. A persistencia do typo iberico na
Peninsula, quer pelas migrações do norte, como se vê pela Aquitania,
quer pelo sul, como se comprova pelos Berberes, acha-se confirmada
pelas differenças cephalicas representadas nos _dois typos_
bascos francez e hespanhol. Por tanto o estudo da poesia tradicional
narrativa da Peninsula deve fixar-se n’este fundo ethnico iberico,
remontando essas camadas de civilisação até á constituição das suas
nacionalidades. Como o estudo dos cantos lyricos feito comparativamente
leva a achar nas _Serranilhas_ gallezianas e _Pastorellas_
francezas um typo commum ás populações romanicas, o estudo dos cantos
épicos, ou _Romanceiros_, deve seguir egual methodo, que conduz
aos mesmos resultados, como observaram Nigra, Wolf, Köhler e Liebrecht.
_Do elemento iberico._--Os cantos heroicos peninsulares foram chamados
_Romances_ pelos eruditos, por considerarem os dialectos em que
eram cantados como despreziveis em comparação com a lingua e cultura
latina; ainda no seculo XVII _romancista_ era o homem sem cultura
litteraria ou scientifica. O povo, porém, chamou-lhes _Aravia_, e
mais geralmente _Estoria_; a primeira designação é vulgar em algumas
das ilhas dos Açores, e contém um sentido que nos leva ao intimo do
problema: a _Aravia_ significou um dialecto vulgar das classes que
estavam em contacto com os Arabes ou propriamente com Berberes; esta
classe sendo constituida com as populações hispanicas preexistentes
á invasão arabe, facilmente assimilou a si o elemento _mauresco_
determinando a revivescencia do typo iberico. Para os eruditos do
seculo XV e XVI, a _Aravia_ é a linguagem corrupta com que christãos e
arabes se entendiam, é uma especie de giria não escripta, e a propria
designação de um canto do povo. Mem Moniz, que esteve no seculo XII no
cêrco de Santarem: «sabia fallar mui bem a _aravia_.» E Gil Vicente,
nos seus Autos: «Que linguagem é essa tal?--Ui! e elle falla _aravia_.»
Quando no fim do seculo XVI o P.^e Fernão Guerreiro, na phrase «_entoar
uma aravia_» a empregou no sentido de canto, já era usada pelo povo
nas colonias portuguezas dos Açores, e nas colonias hespanholas do
Perú, depois que a cultura latina atacou a originalidade nacional.
Na propaganda catholica, os missionarios hespanhoes introduziram na
toada dos cantos peruanos os romances castelhanos ao divino. Prescott,
na _Historia da Conquista do Perú_, fallando dos troveiros peruanos
chamados _Haraveques_, como os que registavam os annaes d’essa
extraordinaria civilisação, diz: «D’esta maneira formou-se um corpo de
_poesias tradicionaes semelhantes ás balladas inglezas e hespanholas_,
pelas quaes o nome de um chefe barbaro, que teria desapparecido á
falta de historiador, chegou á posteridade por causa de uma melodia
rustica.»[52]
Esta relação notada por Prescott entre os _Yaravis_ peruanos e as
balladas inglezas e hespanholas é tanto mais importante, quanto pelos
estudos ibericos se sabe da correlação entre a Peninsula e as ilhas
Cassiterides ou Inglaterra. Do mesmo fóco atlantico que iniciou a
civilisacão dos Accads na Chaldêa, partiu o impulso das civilisações
rudimentares da America. Continúa Prescott, fundado na auctoridade de
Garcilasso no _Commentario real_: «A palavra _haraveque_ significa
inventor, auctor, e no seu titulo e nas suas funcções este poeta
menestrel póde-nos lembrar o _trouvère_ normando.» A funcção do
menestrel saxonico que cantava á meza dos princepes, dos feitos
e batalhas reaes: «era em parte exercida pelos _Haraveques_, que
escolhiam os incidentes os mais brilhantes para assumpto das suas
canções e balladas, que se cantavam nas festas reaes á mesa dos Incas.»
Dos cantos populares do Perú, escreve o moderno viajante Paul Marcroy:
«Estas composições chamadas _Yaravis_ ... foram a principio cantos
de victoria, odes, dithyrambos destinados a celebrar o triumpho das
armas dos Incas, suas qualidades particulares e seu poderio. Com o
andar do tempo tomaram fórmas mais variadas, e cantaram o amor, a
natureza e as flores.» E em nota accrescenta, definindo a palavra
_Yaravi_: «Litteralmente, cantos tristes. Os _Yaravis_ são hoje
simples _romances_, cuja musica é sempre escripta em tom menor e com
um movimento lento. Cantam-se com acompanhamento de guitarra.»[53]
Tanto o _Yaravi_, como a _Aravia_ açoriana, ou o romance peninsular
ainda hoje são acompanhados á _quitara_ arabe, ou á guitarra actual,
e entre os Arabes, os _Ravi_ eram os narradores. Dá-se aqui o mesmo
influxo de revivescencia tradicional no Occidente ao contacto da
civilisação arabe, como se notou nos cantos lyricos por essa influencia
da poesia accádica no lyrismo semita. A parte communicativa da raça
arabe na invasão da Peninsula eram os _mouros_, cruzamento do Arabe
com o Berber, coadjuvando assim a regressão mais pronunciada ao typo
iberico. A origem dos cantos epicos occidentaes tem sido já procurada
n’este sub-sólo social de uma raça não árica; Liebrecht encontra
paradigmas do romance _Donzella que vae á guerra_ nos cantos chinezes,
e Lange acha nos poemas homericos inclusas tradições mongolicas.
Strabão referindo-se ás tradições de Troya no occidente da Europa,
allude a cantos narrativos na Italia e na Hespanha, que em vez de
se diffundirem dos poemas homericos foram unificados n’elles: «Não
só na Italia se conservam passagens d’essas historias, senão tambem
_na Iberia_, existem mil vestigios de taes expedições, assim como da
guerra de Troya.»[54] As tradições argonauticas que se crearam nas
primitivas expedições atlanticas, é que foram depois incorporar-se nos
poemas odyssaicos, circumscrevendo-se ás expedições mediterraneas ou
jonicas.[55]
No velho romanceiro peninsular ainda se encontram fórmas que revelam
o primitivo modo de recitação coral, em que a rima _masculina_
e _feminina_, grave e aguda, se alternam em um canto amebeo.
Na tradição asturiana dá-se a este genero o nome de _cantos de
estavillar_ (do typo _Ay! un galan d’esta villa_.) É ainda
vulgar na Finlandia esta fórma de recitação das runas, como observa
Léozon le Duc. A rima do canto No _figueiral figueiredo_ é um
vestigio precioso d’esta perdida estructura poetica, que tanto nos
aproxima da origem das tradições épicas peninsulares.[56]
_Do elemento germanico._--Nas invasões germanicas na Peninsula, foram
os Visigodos os que preponderaram, submettendo os outros ramos á
unidade nacional. Da grande familia germanica foi o Godo o que deixou
menos vestigios de tradições poeticas, apesar das immensas riquezas
lendares de que se serviram Jornandes, Paulo Diacono e Saxo Grammatico
nas suas historias. A causa d’esta obliteração, segundo Jacob Grimm,
foi por ter o godo adoptado o arianismo, soffrendo depois os renhidos
combates ou repressões do catholicismo; comprova-se isto com o
Borguinhão, que tambem era sectario do arianismo, e cujas tradições
épicas se perderam. Ao godo da _banda guerreira_, que veiu a formar
a aristocracia feudal, fascinado pela civilisação romana, facil lhe
foi despojar-se das suas crenças e tradições; a _banda agricola e
pastoral_, que pela decadencia dos homens livres veiu a constituir a
classe dos _lite_ (_lendes_, _lazzi_) e dos _Vassu_, com a fusão com
o colonato romano e assimilação do elemento mauresco, formou esse
rudimento de povo, que avançou para o estabelecimento da liberdade
civil e foi conhecido pelo nome de _Mosarabe_. Entre esta grande
classe que sacudiu a servidão, é que se conservou pela sua situação
atrazada aquillo que mais se apodéra da alma humana, os _Symbolos_, as
_Superstições_, os _Costumes_, emfim, a tradição poetica até aos seus
mais inconscientes vestigios.
Em nenhum povo da Europa, como notou Reyscher, apparece a conservação
dos _Symbolos_ como na familia germanica; comprovámol-o no
symbolismo juridico do direito consuetudinario das Cartas de Foral
exigidas ou concedidas ás povoações mosarabes. Estudada esta
efflorescencia dos Symbolos juridicos,[57] por elles fomos levados a
comprehender a importancia tradicional dos Romanceiros.
Raro será o romance popular portuguez que não contenha um symbolo
germanico francamente expresso, mesmo com a ingenuidade de quem já
o não comprehende. Enumeremos alguns dos mais profundos: no romance
de _Gerinaldo_, o rei deixa o punhal collocado entre sua filha
e o pagem que dorme com ella, como o signal de que ha entre elles a
distancia inaccessivel de classe; depois de perdoar ao pagem e de o
casar com sua filha dá-lhe a egualdade pela cerimonia de sental-o
comsigo á meza. No romance insulano _Flores e Ventos_ apparece
a penalidade germanica do _banido_ completamente desenhada,
negando-se-lhe tecto, lar e agua, tal como nos Foraes portuguezes; isto
mesmo se encontra no romance castelhano de _Lanzarote del Lago_,
em que os criminosos chegam a transformar-se em cães e veados, especies
de _Wargus_. No romance portuguez de _Clarinda_ ha a pena
de fogo para o adulterio da mulher, como no Codigo visigotico. No
romance da _Infantina_ ha a condição do servo germanico notada com
o nome de _malato_, como se encontra nos documentos juridicos.
O symbolo do _cabello atado_, como signal de mulher casada, e
_em cabello_ (_mancipia in capillo_, da fórmula foraleira)
conserva-se nos anexins: «Moça _em cabello_ não m’a louves
companheiro.»
Passemos ás superstições: o culto do carvalho sagrado _Ygdrasill_,
debaixo do qual se celebrava a assembléa juridica dos homens livres
germanicos, é a carvalheira á porta da egreja, debaixo da qual julgavam
os homens-bons dos Foraes; é esse mesmo _roble_ em que está
a donzella encantada, a _Infantina_ dos romances hespanhoes o
portuguezes, tendo além d’isso a particularidade do _tanque de agua
fria_, que é a _fonte de Urda_. Esta mesma tradição encontra-se
em muitas terras de Portugal, que tem _carvalhos_ consagrados
ao pé de poços de _aguas santas_. O symbolo não comprehendido
torna-se superstição, como o _Wargus_, o banido que era equiparado
ao lobo nocturno, e que ficou para o nosso povo o _lobishomem_.[58]
Nos costumes populares portuguezes temos a _Cavalgada furiosa_
na fórma da _Corrida do porco preto_, em Braga; e _Wodam_,
no _Homem das ervas_, das festas de maio. Ainda que as festas
populares de S. João, Maias e Natal, vestigios polytheistas do
_Combate do Verão e do Inverno_, sejam anteriores ás tradições
germanicas, comtudo a sua persistencia entre o povo mostra-nos que o
rigorismo catholico e a cultura romana pouco actuaram n’este ponto
entre os Mosarabes.
A palavra _Rima_, significando a composição poetica em geral,
é empregada n’este sentido pelo Chanceller Ayala, que em versos de
lingua vulgar diz: «mi tiempo passar, En fazer _rimos_...»
Tambem no seculo XV chamava D. Duarte _Rymanço_ á fórma que
melhor se decorava por causa da _rima_. Parece que o termo de
_romance_, referindo-se á linguagem vulgar se identificou com o
_rimance_, que segundo a origem germanica designava a tradição
poetica. Nas fórmas poeticas conservou-se tambem a _aliteração_,
que com a _rima_ constituem a poetica dos povos do norte. Nos
anexins populares é frequente a _aliteração_, como: Gota a gota, o
mar se esgota.--Vento e ventura, pouco dura, etc.
Dos themas poeticos germanicos parece-nos pertencer ao typo scandinavo
de _Sigurd_, o romance: _Eu bem quizera senhora_, etc. A vida historica
da raça germanica começou no seculo V; n’este periodo ella cria uma
fórma poetica, breve, narrativa, cantando os feitos bellicos e a
independencia individual, adaptando-se aos successos novos, correndo de
bocca em bocca, sempre anonyma, com interesse immediato, dando vida a
todos os dialectos e animando as tribus á invasão. Tacito falla d’esta
ordem de poemas, a que os medievistas, fundados em um texto de Oderico
Vital deram o nome de _Cantilenas_. D’este typo rudimentar, que pela
aggregação cyclica formou as Epopêas feudaes ou _Gestas_, além de
outros especimens, existe desde 1812 em que se descobriu, a magnifica
cantilena de _Hildebrand e Hadebrand_. Não temos hoje as cantilenas
goticas da Peninsula, posto que sua efflorescencia poetica appareça em
symbolos e superstições populares. Á designação de _Chacone_, tanto em
Portugal e Hespanha, como em Italia e França, por onde se estendeu a
occupação germanica, corresponde esse costume primitivo da raça, em que
os _cegos_, principalmente entre os Lombardos, eram os que diziam as
Cantilenas heroicas, como Ludgero e Bernlef o frisio; chamaram-se por
isso _Chiecone_. Nas raças germanicas entraram populações scythicas,
como colonos e servos, e era costume entre os scythas cegar os escravos
(Herodot., IV, 2); _cegar_ era synonimo de _escravisar_, e _filho
de cego_ significava propriamente escravo. Eram esses os cantores
narrativos, dos quaes escreve Ozanam: «No seculo XVIII via-se ainda
nas aldeias pagãs da Frise, _cegos_ e mendigos ganharem o seu pão
recitando nos ajuntamentos de aldeãos--as aventuras do tempo antigo, e
os combates dos velhos reis.»[59] Isto explica a persistencia do genero
da _Chiecone_, pelo sentido do poeta identificado no de _cego_, como em
_Cieco_ d’Ascoli, _Cieco_ de Ferrara. Homens cultos e aristocraticos,
como o Marquez de Santillana, no seculo XV, tinham por infimos e
despreziveis os que tratavam romances vulgares. O nome de _Chacoula_ é
ainda designativo de canto popular no Alemtejo.
As Cantilenas germanicas, antes do seculo IX, decaíam por falta de
importancia historica; estava terminado o periodo das invasões. O
que se dava no ramo mais vigoroso da familia germanica, com mais
intensidade deveria dar-se entre os Godos, por causa da reacção
do catholicismo fortalecido com a cultura romana. As Cantilenas
germanicas, logo que appareceu o vulto de Carlos Magno receberam um
novo interesse, uma actualidade devida á transformação social, ou
fixidez em que entravam os estados da Europa; emquanto esta acção não
chegou a Portugal, a Cantilena gotica não se perdeu completamente.
Nem do outro modo se explica a existencia dos cantares historicos de
que se serviu Affonso o Sabio na sua Chronica. Alguns d’esses typos se
recompõem nos versos da _Cronica rimada do Cid_; no Cancioneiro
da Vaticana acha-se um romance: _Desfiar enviarom_, assignado por
João Ayras, que nos aproxima do typo da Cantilena. O romance de _Don
Favila_, colligido da tradição popular na Republica Argentina, é uma
prova d’esta elaboração poetica anterior aos cantares da Gesta.[60]
O romance do _Figueiral figueiredo_, que Miguel Leitão ouvira a
uma velha de muita edade no ultimo quartel do seculo XVI, pelo seu
conteúdo, é um vestigio da Cantilena, que se ia apagando, da mesma
fórma que os romances se modernisaram no seculo XVI.
Depois que a poesia dos jograes e _trouvères_ se espalhou pelo
Occidente, o que por colonias francezas, casamentos de princepes
e romarias provocadas pelas santificações locaes, se tornaram as
communicações affectivas mais directas entre os diversos povos,
as Cantilenas, que haviam recebido pelo genio gallo-franko uma
transformação profunda, formando as grandes Canções de _Gesta_,
vieram já em uma época historica fecundar as Aravias, que conservaram
sempre a fórma breve e anonyma, que se continua no _Romance_
popular. Na antiga poesia hespanhola falla-se na _Maestria de
França_; em Portugal achamos empregado o titulo de _Gesta_ em
uma composição satyrica em verso alexandrino por D. Affonso Lopes de
Baião, imitando a _neuma_ tradicional dos recitadores. A palavra
_Francias_ designou os contos facetos dos Fabliaux, em parte
derivados de cantos poeticos, como vêmos ainda na poesia popular da
Madeira, no romance do _Boi Rabil_, que é um conto na _Gesta
Romanorum_.