accumularam-se tambem as _Tradições_ poeticas, coexistindo por
modo que ainda hoje se póde determinar o que provém de uma origem
iberica, celtica, phenicia, romana, germanica ou arabe. O syncretismo
d’estes elementos resultava da obliteração dos _caracteres
nacionaes_; por que o facto da unificação politica da Peninsula foi
sempre um esforço artificial, voluntario, mas impotente, sem que, sob
o imperio romano, germanico ou kalifado arabe se conseguisse fundar
a synthese organica de todos estes povos em um substractum de nação.
Existem tradições ibericas, que não exprimem um sentimento nacional;
como existem tradições celticas que não attingiram tambem esta alta
expressão social. Se as tradições germanicas ou arabes chegaram a
revelar essa consciencia superior de uma raça, perderam o sentimento
nacional n’este syncretismo determinado pela successão de tantos povos
já de caracter mongoloide ou allophylo, já de caracter semita e árico.
As nacionalidades peninsulares, como a portugueza, por exemplo, são
posteriores a este grande residuo de tradições ethnicas: e a sua
constituição é devida a um impulso individual, ao heroismo e ambição de
um chefe; mas este esforço seria esteril se não aproveitasse as
condições immanentes, que existiam nas populações que se confederavam
espontaneamente nas suas _Behetrias_. Diante d’isto facil foi o
equivoco de um historiador qualquer de attribuir a formação da
nacionalidade portugueza á vontade de homens que se impuzeram á
multidão inconsciente. Se D. Affonso Henriques e os reis que lhe
succederam até D. Affonso III, não dessem cohesão ás cidades livres do
Condado portucalense, jurando elles proprios as suas garantias
em _Cartas de Foral_, não teriam conseguido apoiar o seu poder real
sobre populações autonomistas, que assim se submetteram a uma
unificação nacional. Em uma carta de Alexandre Herculano vimos uma
allusão a essa theoria historica de nação-consciencia, que elle refuta
com simplicidade dizendo, que no seculo XII já os Portuguezes chamavam
com desdem aos hespanhoes _estrangeiros_. E Fernão de Oliveira, tambem
notava, sem o saber explicar, como é que os Portuguezes acceitaram a
fórmula castelhana _El-Rei_ para designarem uma instituição politica
que não tinham, por que viviam por si, nas suas cidades confederadas.
Quando esta união se conheceu pela primeira vez proficua nas batalhas
do Salado e de Aljubarrota, e nas expedições maritimas do Atlantico,
foi então que a collectividade portugueza pulsou com o sentimento de
Patria; é n’este activo periodo, que abrange os fins do seculo XIV e
todo o seculo XV, que as tradições peninsulares, persistentes e
sobreviventes de um longo passado, se adaptam á expressão do sentimento
nacional. Assim, vetustas tradições do cyclo da Odyssea mediterranea,
como a dos errores de Ulysses e do regresso do heroe, tomam o aspecto
nacional das navegações portuguezas nos romances da _Náo Catherineta_ e
da _Bella Infanta_. O povo canta o seu heroe nacional na idealisação do
Condestavel Nun’Alvares, e lamenta como em um novo _Iálemos_ a morte do
princepe Dom Affonso. As vagas tradições phenicias das Ilhas encantadas
servem-lhe para estimular a audacia nas expedições maritimas pelo
_Mar Tenebroso_; e as lendas celticas da ilha dos heroes, da phantastica
Avalon, servem para guardar a esperança do vingador da nacionalidade
extincta, o desejado e popular Dom Sebastião. Aqui vêmos como se faz a
apropriação ao organismo nacional e historico d’esse residuo de
tradições de todas as proveniencias ethnicas persistentes na peninsula
hispanica. E n’este ponto de vista está implicita uma certa
similaridade de fórmas lyricas, épicas e dramaticas em todos os povos
do occidente da Europa em que entraram os mesmos elementos da raça,
facto já anteriormente notado por alguns philologos e ethnologistas em
quanto a Portugal, Hespanha, França, Italia e Grecia moderna. É pois
esta a primeira base para o estudo comparativo das
_Tradições_, resultando das suas similaridades nas fórmas lyricas,
épicas, novellescas e dramaticas a reconstrucção de uma manifesta
_occidentalidade_.
Depois d’esta coordenação fundamental, em que os povos meridionaes não
se plagiam mas são simplesmente conservadores inconscientes, apparecem
os rudimentos em que pela aggremiação territorial se iam estabelecendo
os esboços de nacionalidades. As Tradições e cantos populares do Minho
(norte de Portugal) completam-se pelo estudo simultaneo e comparativo
das Tradições da _Região Asturo-Galecio-Portugueza_, substractum
de uma nacionalidade que se definia na orla maritima de oéste, que
chegou a abranger a Beira. Ao sul de Portugal esboça-se um outro
rudimento social apagado na historia, mas persistente nas Tradições
da _Região Extremenha-Betico-Algarvia_. No percurso historico
da nacionalidade portugueza, a expansão colonial começa quando a
Tradição se tornava a expressão do sentimento de Patria; os cantos
tradicionaes fixaram-se n’esses varios centros de persistencia ethnica,
os _Archipelagos da Madeira_ e _dos Açores_, e modificaram-se
segundo os elementos da população nos outros fócos coloniaes da
_Africa_, _Brazil_ e _India_.
Quando um povo entra na vida historica, assimilando os progressos
realisados na humanidade e contribuindo para a civilisação com a
energia ou tendencias novas que distinguem a sua raça, a este impulso
dynamico corresponde a manifestação d’essa outra força statica, a
_Tradição_, que no meio de todas as transformações hade ser o
vinculo moral e affectivo da nacionalidade. A Tradição torna-se muitas
vezes um estimulo de actividade, como se vê na Grecia quando reagiu
contra a Persia; e então, como primeira revelação da unidade d’esse
povo, o amor das tradições provoca elaborações individuaes conscientes,
que pelo seu intuito esthetico constituem o phenomeno sociologico da
_Litteratura_. Só merece o nome de Litteratura, tomada sob este
aspecto, a série das creações sentimentaes e intellectuaes por onde o
gráo de consciencia que esse povo tem do seu individualismo nacional
chegar a ser expresso. Todos os povos que tiverem caracteres de raça
bem accentuados, que a par de uma marcha historica importante não
tiverem obliterado as suas relações com um passado tradicional, que ao
facto da nacionalidade ligaram um ideal de liberdade na esphera civil,
politica e philosophica, esses povos devem possuir uma Litteratura
original e fecunda, servindo ao mesmo tempo para patentear o seu
nivel moral e para annunciar a aspiração que ás vezes leva seculos
a ser effectuada. Sob um tal aspecto não existem Litteraturas mais
ou menos perfeitas, por que productos reflexos do meio social, o seu
estado é um documento immediato; se se moldam por typos de convenção,
a que as academias chamam classicos, se a obra do escriptor consiste
em uma paciente imitação e é produzida sem intuito de communicação
com o povo, a sua esterilidade está revelando que a nacionalidade se
conserva em uma aggregação sem destino, e que causas intimas a atacam
nas suas condições organicas. Estas são as bases positivas da critica
de qualquer litteratura; procurar se as obras se conformam com os
preceitos rhetoricos, ou se se aproximam do typo abstracto do Bello
pelo confronto com as realisações artisticas da Grecia, estes dous
processos são os que ainda seguem os obcecados habitos escholares do
humanismo jesuitico, e os que levados por miragens metaphysicas dão a
phrases sem sentido o nome de syntheses.
A Litteratura é objecto de uma sciencia concreta, que se presta á
deducção de leis geraes da Sociologia; estabelecer a relação entre as
concepções individuaes ou dynamicas, e os elementos staticos da Raça e
da Tradição é o processo por meio do qual se chega á determinação do
caracter nacional de uma litteratura. O criterio da _filiação_ pertence
rigorosamente á historia; por isso a Historia da Litteratura assenta
sobre esta phylogenia da _Raça_ e da _Tradição_ como modificadores de
todas as concepções individuaes. Só por uma tal connexão é que essas
obras podem ser bem sentidas e bem comprehendidas. A _Historia da
Litteratura_ é este processo em que se procura descobrir pela
realisação que nos apresenta, a vitalidade da raça, a consciencia da
nacionalidade, e até que ponto estas duas forças naturaes estiveram em
harmonia ou antinomia com a civilisação.
O estudo comparativo das Litteraturas levou a determinar um certo
numero de fórmas, por assim dizer universaes, que são a _Epopêa_,
o _Lyrismo_ e o _Drama_; a sua universalidade deriva de estados
psychologicos communs, bem como a successão do seu desenvolvimento
resulta das transformações do meio social, onde muitas vezes se
conservam os elementos tradicionaes que serviram de thema ás obras e
concepções sentimentaes das individualidades superiores. Remontar pela
critica das obras primas do genio a esses elementos inconscientes da
Tradição, relacional-as com as exigencias moraes da sociedade cujas
aspirações exprimem, eis o processo da historia completo nos seus fins
de disciplina critica e de synthese.
Estas fórmas litterarias têm uma origem commum humana, n’esse poder
mental de personificar em _mythos_ e de communicar a emoção pelo
equivalente da _imagem_, ou intuição das analogias. Ao trabalho
da personificação, que se acha plenamente desenvolvido nos Mythos
religiosos, segue-se uma degenerescencia provocada pela especulação
abstracta dos dogmas, e em grande parte é d’essa degeneração popular
dos mythos que se formaram as Epopêas antigas ou anonymas. As analogias
das _imagens_ serviram para fixar o modo de expressão do
sentimento em um periodo em que o impressionado não podia ainda julgar
a sensação emotiva; assim o _Lyrismo_ foi tambem descriptivo,
e simultaneo com a _Epopêa_, tendo egualmente uma base de
transmissão tradicional; taes foram os typos hymnicos e dithyrambicos,
e na Europa Occidental as _Pastorellas_ e _Balladas_.
O apparecimento do _Drama_ é tradicionalmente bem caracterisado;
nascido tambem de actos ritualisticos, desenvolve-se com as condições
que emancipam as classes medias ou burguezas, quando ha egualdade
civil, interesses geraes, collisões de deveres, conflictos de ambições,
quando existe um consensus moral por onde se afferem os actos das
personalidades. Nenhuma fórma da arte ou da Litteratura se cria por
méra curiosidade; corresponde sempre a um estado psychologico, á
necessidade de uma expressão e communicação de sentimento.
Seguiremos esta divisão natural de todas as Litteraturas, derivando
cada uma d’estas fórmas dos seus germens tradicionaes, determinando
assim o que ha de organico em manifestações tão complexas que se julgou
terem sido creadas arbitrariamente.
_a_) DAS FÓRMAS LYRICAS
A relação entre a Epopêa e um fundo tradicional foi muito cedo achada
pelos philologos e é uma base positiva da critica; porém não era
procurada essa relação com o _Lyrismo_ por se attribuir o seu
desenvolvimento ao ideal do sentimento resultante do maior progresso
social, e da elaboração subjectiva de um estado do passividade
consciente que se discute. Antes do sentimento pessoal existiu o
sentimento da collectividade, expresso em fórmas consagradas nas festas
do trabalho, como labutação da lavoura, dos rebanhos e do mar, e nos
factos da vida domestica, como nascimentos, casamentos e enterros, ou
mesmo na vida publica. O sentimento pessoal servia-se d’essas fórmas
tradicionaes, adaptando-as á expressão consciente e voluntaria de uma
situação particular; é assim que se destaca do fundo tradicional a obra
litteraria, a qual para ser bem comprehendida precisa ser aproximada da
sua origem. Os cantos hymnicos, que apparecem nas religiões primitivas,
embora se immobilisassem na fórma do dithyrambo, ou a successão de
_imagens_ representando sempre a mesma ideia, conservam o typo
tradicional do Lyrismo: essa ideia unica repete-se como apoio rythmico,
é o estribilho, refrem ou retornello, correspondendo a esta cadencia
estrophica o parallelismo. Assim despontou o lyrismo egypcio, e se
vê seguir o mesmo desenvolvimento nas canções accádicas e chinezas,
e o que hoje traz embaraçados os criticos, ainda se observa nas
_Pastorellas_ do occidente da Europa.
Para comprehender a poesia lyrica portugueza é necessario
determinar-lhe scientificamente as suas bases tradicionaes; ellas nos
explicarão a sua originalidade e vigor, e estabelecerão as relações
com as correntes litterarias da Europa, caracterisando assim pela
connexão historica as épocas e influencias cultas que actuaram sobre
a sua manifestação. Já pessoal e psychologicamente descriptiva, a
fórma lyrica reflecte o estado intellectual do que canta; o poeta é
conhecido, causam interesse os pequenos successos da sua vida, as
aventuras, os triumphos, os desalentos _pessoaes_. Isto influe
sobre as fórmas em que se quer mostrar perito, sabedor de todos os
segredos da arte (_gai saber_); a construcção da estrophe torna-se
a preoccupação exclusiva; inventa o metro caprichoso, acha as rimas
novas, cruza-as, encadeia-as; taes foram os _Trovadores_, que pela
relação com os jograes, nunca se esqueceram completamente dos elementos
vitaes da tradição originaria, que depois imitaram artisticamente.
Outras vezes o poeta faz da fórma lyrica o meio de analyse da sua
paixão, torna o sentimento uma casuistica, desenvolve a imagem até
á allegoria, convertendo o seu estado emocional em uma synthese
philosophica; taes foram os _Petrarchistas_, que não podem ser bem
avaliados quando separados dos Trovadores. A imitação material em que o
lyrismo foi applicado a descrever todos os accidentes insignificantes
de uma vida mediocre, motivou esses productos morbidos das Academias
litterarias (_Culteranismo_, _Arcadismo_) contra os quaes
reagiu a renovação do _Romantismo_, que começou pela revivescencia
das tradições medievaes, e depois da vaga melancholia chegou á
expressão synthetica de uma emoção consciente e universal.
Na poesia trobadoresca, o lyrismo provençal conservou as suas origens
tradicionaes em um elemento popular commum tanto ás _pastorellas_
italianas, como ás _balladas_ francezas, como ás _serranilhas_
gallegas, portuguezas, valencianas e castelhanas, que chegaram a
penetrar nos Cancioneiros aristocraticos e litterarios. Este facto
encerra um grande problema, que tem preoccupado os mais atilados
criticos: que não é na Provença que se hade determinar o ponto de
irradiação do Lyrismo das litteraturas modernas, mas em um facto de
_persistencia ethnica_, que se poderá definir pela observação da área
que facilitou a sua propagação do sul da França á Italia meridional e
ao norte da Hespanha. Analysando algumas canções portuguezas extrahidas
por Ernesto Monaci do grande _Cancioneiro da Vaticana_, o romanista
Paul Meyer, observando as analogias com antigas balladas provençaes,
concluiu que ellas não provieram de uma imitação directa, mas: «_foram
concebidas segundo um typo tradicional, que devera ter sido commum a
diversas populações romanicas, sem que se possa determinar em qual
d’ellas fôra creado_.»[39]
Aqui temos proposto o problema com toda a nitidez, e a que julgamos
ter dado uma solução definitiva, sobretudo auxiliado pelo criterio
ethnico. Para isso descemos das fórmas conhecidas pela via litteraria
até ás suas relações com os costumes populares, e d’estes até ao centro
ethnico da irradiação.
O lyrismo trobadoresco manifestou-se pela fórma escripta ou provençal
na zona gallo-romana; no sul da França o elemento gaulez não soffreu
uma transformação organica, como no norte em prezença do vigoroso
elemento franko. O romano preoccupado com a ideia da unificação
administrativa dominava mas não absorvia, impunha fórmas governativas
mas não assimilava as populações; a sua organisação municipal,
pelas autonomias locaes, não atacava a essencia da nacionalidade
_gauleza_, ainda que a forçava a uma certa unidade civil. Segundo
Diodoro Siculo, os romanos davam o nome de _gaulez_ a todos os
povos que entraram na França meridional; já Polybio separava os Celtas
dos Gaulezes, antes das confirmações decisivas da Anthropologia.
No sul da França conservaram-se tradições, cuja existencia se
determina pelas prohibições canonicas dos bispos, desde o seculo V;
taes eram os cantos acompanhados de dansa, a que deram o nome erudito
de _Balismalia_ ou _Vallemachia_ (a _bailata_ ou _balada_) com o
caracter satyrico, que reappareceu nas sirventes; taes eram os desafios
poeticos com processos de casuistica sentimental, como os _Puy_, que se
desenvolvem nas _Côrtes de Amor_; taes eram os cantares de _Alvoradas_
e _Serenadas_, de que os trovadores fizeram generos litterarios; e
ainda a caracteristica da composição poetica especialmente pelas
mulheres. Esses cantos eram oraes; não tinham importancia no gosto dos
latinistas para merecerem ser escriptos; e mesmo esses costumes, de que
formavam parte, eram condemnados pela Egreja, e eram risiveis ante o
viver dos castellos senhoriaes.
Identica persistencia das fórmas poeticas se encontra em Italia, com
a mesma similaridade tradicional, como observou Costantino Nigra. E
assim como o sul da França se distingue da França do norte ou feudal
pelo exclusivismo das _fórmas lyricas_, tambem na Italia, segundo
Gregorovius, faltam as tradições épicas; conservam-se ali os _Voceros_,
os _Triboli_, ou _Lamenti_, analogos ás _Endechas_ dos mortos na
peninsula hispanica, e aos _Aurusta_ do Béarn, e _Arrirajo_ das
Vascongadas. Os costumes estão indicando um elemento ethnico commum.
Na sua entrada na Europa os Celtas encontraram uma raça de cabellos
pretos, com que mais ou menos se fusionaram, conservada por longo tempo
intacta na Aquitania, em uma região comprehendida entre os Pyreneos, o
Garona e o golfo da Gasconha; já nos referimos á observação de Paulo
Broca: «Tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de
cabellos pretos que se conserva quasi sem mistura entre os Bascos
actuaes.» É n’este triangulo situado entre o Garona, o Oceano e os
Pyreneos, que essa raça, que se estendeu pela Italia e pela Hespanha,
se confinou, como observa Jorge Philipps, resistindo á invasão celtica.
O problema proposto por Paul Meyer, quanto á communhão lyrica das
diversas populações romanicas, não póde ser explicado como propoz
Nigra, pela raça celtica, e muito menos pelo elemento franko, como
entendem Jeanroy e Gaston Páris. A realidade está na persistencia
d’esse elemento iberico na Aquitania, á qual pertenceu tambem a
Galliza; a propagação do lyrismo para a Italia e Sicilia torna-se
tambem um facto natural de revivescencia. O sul da França teve
condições historicas para esta iniciativa: «Onde quer que a conquista
sobrepoz uma raça a outra, acontece que o vencido por fim retoma os
seus direitos. É o genio da raça primitiva que retoma pouco a pouco
a dianteira. A Gallia soffreu o duplo dominio do Romano e do Franko;
ella recebeu a substancia das duas raças: mas o _velho fundo gaulez
prevaleceu em ultimo logar_, e a França não chegou ao supremo gráo
da sua energia nacional se não no dia em que o Gaulez absorveu o Romano
e o Sicambro.»[40] Esse lyrismo corresponde a uma certa estabilidade na
vida pastoral e agricola, que nem o Ligurio ou Celta maritimo conhecia,
nem o Celta nomada podia acceitar. Com o seu profundo senso artistico,
Montaigne conheceu o valor esthetico das canções populares da Gasconha,
a que chamou _Villanelles_[41]; a que os italianos chamam
_Villoti_, e que Miguel Leitão de Andrada, no fim do seculo XVI
chamava _Villanellas_ para designar as fórmas do lyrismo popular
portuguez.
Esta persistencia do lyrismo tradicional no sul da França impuzera-se
aos trovadores, como vemos em Ramon Vidal, dizendo nas _Les
rasos de trobar_: «la parladura franceza est plus avinenz a far
_romans_ et _pasturettas_, mas cella de Lemosin val mais
per far vers e cansons e sirventes.» O trovador indicava aqui um
genero popular em contraposição com as fórmas artisticas que outros
trovadores iam destacando e individualisando; por que os primeiros
trovadores revelaram-se adstrictos ás fórmas populares, como vêmos em
Cercamons, «joglars de Gascoigna, e _trobet vers e pastoretas_
a la usanza antiga.» O discipulo d’este trovador, Marcabrun, em duas
_pastorellas_ que compoz, já elabora o typo tradicional com um
intuito de satyra moral e social. O typo tradicional, abandonado ao
povo, não foi totalmente esquecido pelos trovadores subjectivistas, por
que ainda foi seguido por Cadenet e Gui de Usiel, que fazem a transição
de Marcabrun para Giraud de Riquier.
A ausencia do criterio ethnico é que fez com que Wackernagel e
Brakelmann attribuissem a origem tradicional da _pastorella_
ao norte da França, quando ella pertence a este fundo da população
occidental que occupou a França, a Italia e a Hespanha antes da invasão
celtica. Esta mesma insufficiencia fez com que Jeanroy considerasse
ironicamente as investigações sobre este campo como litteratura
pre-historica! Como se a tradição pertencesse ás épocas historicas.
As investigações sobre as origens cio lyrismo tradicional feitas na
Italia por d’Ancona, levam a precisar este fundo anthropologico
occidental. Observando as fórmas do _Contrasto_ de Cielo
d’Alcamo, poeta siciliano do seculo XIII, analogas aos themas e
estructura francezas, d’Ancona quer que ellas derivem do antigo
_carmen amebeum_, que se conservou na Sicilia; e conclue: «os
antigos historiadores nos asseguram que _esta fórma teve origem na
Sicilia_, que ella é devida primitivamente aos pastores sicilianos.
Saíndo dos nossos valles e montanhas, ella se nobilitou, um pouco
tarde talvez, nas mãos de Theocrito e de Virgilio; mas ella permaneceu
na sua simplicidade nativa propriamente do povo da Sicilia, no qual
se perpetuou com o dom da improvisação.» A ilha da Sicilia foi o
ponto de juncção das raças brancas do norte da Africa com as da orla
europêa mediterranea; a persistencia d’esse fundo lyrico impressionou
Theocrito e Virgilio, como os themas da Gasconha ou da Aquitania
impressionaram os Trovadores e os levaram á imitação. Reconhecendo as
relações do _Contrasto_ italiano com as fórmas francezas, escreve
Jeanroy: «mas nós nos guardamos de sustentar que este genero fosse
exclusivamente francez, da mesma maneira que não podemos conceder a M.
d’Ancona que elle fosse propriamente siciliano; deve ser effectivamente
uma propriedade commum de todo o territorio romanico.»[42] «Ainda mesmo
que houvesse já _Contrasti_ na Sicilia no tempo de Atheneu e
de Diodoro, não nos auctorisava isto de modo algum a crêr que elles
fossem originarios da Sicilia.--É essa uma fórma, que longe de ser
exclusivamente siciliana, se acha na poesia popular de um grande
numero de povos.»[43] E mostra como longe da Sicilia esta fórma lyrica
tradicional é seguida pelas aldeãs de Ferrara nas _Romanellas_,
em Portugal nos _Desafios á desgarrada_, e nos _Dayemans_ da
Lorena.