As invasões germanicas, communs á Italia (Ostrogodos e Lombardos),

á França (Frankos e Borguinhões), á Inglaterra (Saxões) e á

Hespanha (Visigodos e Suevos), determinam uma certa similaridade das

instituições modernas, cujas relações com as instituições gregas e

romanas foram achadas por Freemann como provenientes de um fundo

commum árico. Mas a invasão germanica da Hespanha, embora numerosa,

não alterou o typo anthropologico da população iberica. Assim como

os Lombardos, no clima quente da Italia ao fim de um seculo estavam

extinctos, por egual causa os Visigodos seriam lentamente eliminados em

Hespanha; ao fim de dois seculos já não puderam resistir a uma pequena

incursão de Arabes. Comtudo, a invasão germanica deixou elementos

que foram apropriados pela povoação hispanica, como vamos vêr. Os

Godos aqui em contacto com a organisação civil e politica romana

conformaram-se com ella; e a sua aristocracia ou classe guerreira,

chegou a esquecer a mythologia de Odin pelo polytheismo social romano;

imitou os Codigos romanos, principalmente o theodosiano, excluindo

do seu direito a _banda pastoral_ e _agricola_, a quem deixava o

costume ou lei consuetudinaria do Estatuto territorial, conservando

exclusivamente para si o estatuto pessoal; esqueceu-se do culto

da mulher, de que falla Tacito, e adoptou os costumes dos harens

asiaticos; em religião, abandonaram a doutrina da humanidade de Jesus,

tornaram-se orthodoxos por corrupção, e desprezaram completamente as

suas tradições poeticas. D’esta ruina falla o profundo Jacob Grimm:

«As tradições goticas, tão bellas, tão numerosas, aniquilaram-se na

maior parte, e não se avalia o alcance d’esta perda; pelo que nos

deixou Jornandes se poderá julgar a importancia das origens mais

antigas e mais ricas, que existiam no seu tempo.»[20] Grimm explica

esta ruina pela influencia da reacção catholica: «A historia trata

os Godos com severidade por causa de terem abraçado o arianismo e

combatido a orthodoxia;»--«o christianismo triumphante arruinou-lhes

os monumentos do passado, prescrevendo como um dever o abandono dos

velhos costumes, e o desprezo de todas as tradições do paganismo.»

Estas tradições conservaram-se nas camadas populares da banda agricola

e pastoral, como o symbolismo juridico. Muitas das lendas germanicas

se acham implantadas, confundidas com as nossas lendas portuguezas: as

lendas de _Nossa Senhora da Nazareth_, salvando Fuas Roupinho,[21] da

_Roussada de Bemfica_, contada por Fernão Lopes,[22] o estratagema do

_Alcaide do castello de Faria_,[23] a de _Geraldo sem Pavor_,[24] de

_Gaia_,[25] da _Náo Catherineta_,[26] são provenientes d’este fundo

dos lites ou colonos decahidos da condição de homens-livres. Nas

superstições populares prohibidas pelas Constituições dos Bispados, vem

apontada a _Camisa de Soccorro_, costume privativamente germanico.[27]

No Direito portuguez consuetudinario, as Cartas de Foral encerram

numerosos symbolos germanicos, embora o mechanismo dos Concelhos tire

as suas designações de nomes arabes.[28] Porém, esta camada popular dos

lites, era formada do _colonato_ admittido pelos Romanos, de Alanos

e outras tribus que acompanharam as invasões sem serem propriamente

germanicas; pertenciam a esse fundo que já vimos identificado com o

elemento iberico. Não admira pois o facto, citado por Émile Chasles,

que na invasão dos Arabes, os Berberes fallassem e se entendessem com

povoações acantonadas nos valles (_Cagots_, _Mauregatos_), por isso

que pertenciam a esse elemento iberico ou hispanico. Quando se deu a

reconquista visigotica ainda a aristocracia quiz conservar no Codigo

Visigotico os seus privilegios, mas não foi isso possivel diante do

desenvolvimento da população das cidades, que era hispanica.

Com a invasão dos Arabes, embora a peninsula fosse fundamentalmente

revolvida e até certo ponto as duas civilisações se penetrassem, nem

por isso o elemento semita alterou os caracteres anthropologicos da

população iberica. Assim como os Romanos, nas suas conquistas formavam

o grosso das suas legiões com povos barbaros, tambem os Germanos

trouxeram nas suas bandas guerreiras tribus que lhes eram extranhas

(_Alanos_, _Gelas_, _Seythas_), e os Arabes occuparam a peninsula

hispanica quasi que com exercito de _Berberes_. Os dominadores

conservaram-se sempre estranhos ou incommunicaveis com os povos

conquistados; o estipendiario, o mercenario, o aventureiro trazidos na

corrente da conquista é que se misturavam entre o povo e conviviam em

uma crescente mestiçagem. O Proconsul romano, o Conde germanico, e o

Emir arabe consideravam barbaros a sociedade e o paiz que governavam,

e fechavam-se nos seus costumes aristocraticos, e nos seus privilegios

excepcionaes; pelo contrario os elementos do _colonato_ romano, dos

_lites_ germanicos, que se haviam confundido na persistente população

hispanica, e dos _mouros_ trazidos pela invasão e ulteriores conflictos

do dominio dos Arabes, vieram a constituir a gente sedentaria das

villas e cidades, a que já no seculo XII se dava o nome de _Mosarabes_.

Esta designação é preciosa, por que denominando o fundo anthropologico

da raça hispanica ou _iberica_, exprime a influencia exterior ou a

acção do contacto com a civilisação dos Arabes; segundo Pascoal de

Gayangos, _Must’ariba_ significa o que imita o viver dos Arabes.

Bastava a profunda tolerancia politica e religiosa dos Arabes, e o modo

como garantiram a existencia e a propriedade ás populações sedentarias,

mediante um leve imposto de capitação, para os seus costumes provocarem

interesse. Mas estas relações entre o povo conquistado e o Arabe

não foram descriptas com verdade pelos chronistas ecclesiasticos;

do seculo VII em diante não cessaram de retratar com as côres mais

sinistras o quadro da invasão arabe; representam razzias sangrentas,

desolação geral, ruina dos templos, ausencia de toda a cultura

litteraria; para elles entre a Cruz e o Crescente existe um abysmo,

de odio eterno, irreconciliavel, de morte; as duas raças, arabe e

germanica, repellem-se com uma antithese absoluta. Para os escriptores

ecclesiasticos e chronistas contemporaneos é esse eterno antagonismo

que faz com que a aristocracia visigoda se refugie nas montanhas das

Asturias abandonando as populações sedentarias ao invasor arabe, e é

que o obriga passado o primeiro espanto a ir reconquistando a palmos

o solo patrio. Odio politico, repugnancia entre as duas religiões,

aversão á diversidade de linguas e costumes, era quanto bastava para

communicar entranhado ardor á cruzada permanente que terminou na

conquista de Granada.

Triste erro da paixão patriotica e religiosa dos chronistas, que não

quizeram relatar como a população sedentaria, _colonos_ romanos,

_lites_ germanicos, sob o regimen de tolerancia dos Arabes, acceitaram

a convivencia com os _mouros_ ou berberes, e vieram do seculo VII ao

seculo XI a formar d’esse complexo elemento hispanico ou iberico um

povo livre. No onomastico popular acham-se os nomes godos ligados

com os arabes (ex. _Venegas_ e _Viegas_ = Ibn-Egas); acham-se

nos divertimentos e cantos populares os nomes dos instrumentos

musicos e dos generos poeticos, (_quitara_, _serranilha_, _leila_,

_lenga-lenga_); os sacerdotes christãos têm nomes arabes, e escrevem

em caracteres arabes ou aljamia. Quando começou a reconquista pela

aristocracia goda, este elemento popular ou propriamente nacional

estava já tão desenvolvido nas suas relações civis e economicas,

que não foi possivel restaurar as velhas e atrazadas instituições

germanicas, artificialmente e capciosamente regulamentadas no

chamado _Codigo Visigotico_. É esta população que recebeu o nome de

_Muztarabe_, como se acha em um documento de 1101, de Affonso VI; no

poema de Gonzalo de Berceo, _Milagros de la Virgen_, já se dá a essa

collectividade o nome de _Mozarabia_, em contraposição á classe culta

ou Clerezia; o nome é vulgar no castelhano _Mozarabe_, no valenciano

_Moçarab_, _Moçab_, e no portuguez _Mosarabe_. Este dualismo entre um

povo livre, que se vae constituir em nacionalidades, e uma aristocracia

atrazada que vae ser submettida pelo poder real, acha-se perfeitamente

representado no typo épico do Cid, como observou judiciosamente

D. Agustin Duran: «Ha um Cid monarchico, _popular_, religioso e

aventureiro; ha outro aristocratico, _feudal_, cavalheiresco e devoto;

porém nunca se confundem no principio politico que representam. O Cid

_feudal_ e devoto acha-se sómente idealisado na _Chronica rimada_ e

em alguns romances tirados d’ella; o Cid monarchico, _popular_, santo

e cavalheiresco está formado no _Poema_ publicado por Sanchez, nas

Chronicas latinas e castelhanas, e provavelmente nos cantares que

n’ellas se citam, ou que convertidos em prosa se inseriram no texto, e

nos romances velhos que restam, ou em antigos compostos posteriormente

no seculo XVI, quando predominavam o espirito cavalheiresco e os

costumes palacianos. Este Cid, que se oppõe ao Cid dos senhores, é o

que triumphou das ideias feudaes, é a verdadeira figura popular que

a escripta e a tradição nos legaram, condemnando ao olvido a do seu

antagonista; é a que caracterisa em todas as épocas a idiosincrasia

nacional, a necessidade de conquistar a unidade de territorio e das

leis, a de acabar com a anarchia que impedia a reconquista do paiz

contra os Arabes. Este é o Cid, que, como o povo, se ligava aos

monarchas para libertar-se da oppressão dos senhores; mas que, ao mesmo

tempo, vencido de outra tyrannia que podia empecer a liberdade, ao

passo que acatava e fortalecia os reis, lhos fallava severa linguagem

de verdade, obrigando-os a respeitar a lei da opinião.»[29] A poesia

popular fez aqui a synthese da creação da sociedade civil na alliança

da burguezia com a realeza.

Foi tambem com o nome de _Mosarabes_ que Alexandre Herculano designou

a população da Extremadura e da Beira antes da constituição da

nacionalidade portugueza: «os habitantes da capital da antiga Luzitania

eram principalmente Mosarabes...»[30] E: «na Beira, o _mosarabismo_

devia caracterisar mais profundamente a população, do que ao norte do

Douro...»[31] _Mosarabia_ e _Mosarabismo_, significa com todo o rigor

historico, ethnico e anthropologico a raça hispanica ou iberica, tendo

incorporado em si todos os elementos celticos, _colonato_ romano,

_lites_ germanicos, tribus _maurescas_ ou berbericas, vindo sob a

tolerancia arabe a constituir a nova povoação livre que se transforma

de classes servas no povo das nacionalidades peninsulares. A designação

é restricta á época arabe, como exprimindo uma unificação ou integração

social; creadas as nacionalidades, esqueceu-se o nome de _Mosarabia_,

prevalecendo o separatismo nos nomes de Gallegos, Portuguezes,

Aragonezes, Leonezes, Navarros, Castelhanos, etc. Mais tarde o nome de

_Mosarabe_ revivesceu com um sentido puramente religioso, para designar

aquellas povoações, que em contacto com os Arabes souberam conservar

intacta a fé e o culto christão; tal é o sentido com que se encontra

em uma comedia citada por Ticknor.[32] Este dualismo da _Mosarabia_

e Clerezia, indica em que elemento ethnico se devem procurar os

caracteres psychologicos e os themas tradicionaes das creações

artisticas, e por que via as correntes da erudição grega e romana

exerceram por vezes uma obnubilação na phantasia dos escriptores

peninsulares. Quando estas populações christãs foram reconquistadas,

o laço religioso é que as unificava, porém os costumes imitavam a

cultura arabe, subordinando-se aos novos senhores pela identidade da

fé; no acaso da guerra, se tornavam a cahir no dominio sarraceno,

eram tratadas com mais brandura. No seculo X o terreno comprehendido

sob o titulo de Minho, Traz os Montes e Beira-Alta era extremamente

povoado, o que não teria sido possivel se tivesse sido occupado

simplesmente por christãos asturo-leonezes. Os territorios do Douro e

do Mondego já por este tempo apresentavam grande numero de granjas,

casaes, villares e povoas. Sob as phrases do latim tabellionico dos

diplomas, como notou Herculano, sente-se palpitar uma população livre,

que se fará reconhecer mais tarde. A contar do seculo IX encontram-se

nos contractos celebrados entre estas differentes sociedades nomes

goticos e romanos amalgamados em agnome e cognome com os nomes

arabes; presbyteros e diaconos assignam-se com nomes mussulmanos, e

ás vezes filhos e irmãos entre si diversamente chamados com nomes

arabes e goticos. Pelo que, conclue Herculano: «Não é evidentemente

esta confusão de denominações a imagem da assimilação, que, salva a

differença do culto e da jurisprudencia civil, se operára lentamente

entre os sarracenos e os hispanogodos sujeitos ao seu dominio?»[33]

Na magistratura civil, os nomes dos varios cargos tinham tambem

designações arabes; na segurança da sua erudição, concluiu Herculano:

«O resultado definitivo de todos estes factos, devia de ser, no começo

da monarchia _a preponderancia do elemento =mosarabe= entre as classes

inferiores_, ao passo que entre a nobreza preponderava forçosamente

a raça asturo-leoneza.»[34] De facto na Extremadura, Alemtejo e

Algarve, depois da separação de Portugal de Leão, ficaram vivendo os

_mouros_ forros com a sua independencia garantida pelos Foraes e pela

immunidade da communa. Assim se fortificava esse elemento _mosarabe_

nas classes inferiores, onde se crearam as manifestações artisticas,

principalmente architectonicas, e se conservaram as tradições poeticas,

ou _Aravias_. Esta influencia poetica dos Arabes acordou a imaginação

popular; pelos Arabes da Hespanha se implantaram na Europa os contos

orientaes do _Hitopadeça_, do _Pantchatantra_ e do _Calila e Dimna_;

foram esses themas novellescos vulgarisados pelos arabes que vieram

fortalecer o instincto da liberdade burgueza, e que foram estimular a

creação romanesca no _Decameron_ de Boccacio, nos _Contos_ de Sassetti,

nas _Notte piacevoli_ de Streparole, nas graciosas narrativas das

litteraturas romanicas.

Este dualismo, que Herculano tambem observou entre as classes

inferiores ou _mosarabes_ e a aristocratica ou asturo-leoneza,

reflecte-se no antagonismo entre as autonomias nacionaes, ou

individualismo dos estados peninsulares, e a obliteração de todos esses

caracteres por um espirito abstracto de unitarismo, conservado da acção

imperial romana, gotica e arabe, que a organisação tambem unitaria da

Egreja veiu fortificar na aristocracia e na realeza, que ao caminhar

para a dictadura se separou do povo. Era este espirito de unidade

que fazia com que os reis e aristocratas christãos se entendessem

por vezes com os emires e kalifas; na batalha de Zalaka trinta mil

sarracenos combatiam sob as bandeiras christãs do rei de Castella e

Leão, ao passo que os cavalleiros christãos coadjuvavam as hostes do

almoravide Iussuf; Affonso VI, no enlevo dos seus amores por Zaida,

queria pôr no throno o filho da sevilhana que estremecia; em Portugal

tambem vêmos D. Affonso Henriques fazer uma alliança com Iben-Kasi. O

ideal da unificação manifestou-se na creação do kalifado de Cordova,

e na reconstituição da unidade visigotica, nas luctas de Castella,

Navarra e Aragão. Alheio a todas as ambições creou-se um povo vivendo

por si e para si, que emquanto manteve os seus separatismos naturaes,

ou pequenos estados, chegou a exercer uma acção immensa na Civilisação

occidental. É este caracter ethnico, que o nome de _mosarabe_

exprime tão perfeitamente, que deve ser procurado nas creações dos

povos peninsulares differenciados pelas condições do territorio.

Portugal occupa na peninsula hispanica uma faixa _norte a sul_,

na orla occidental: d’aqui a grande variedade da sua climatologia, das

suas producções agricolas, e das capacidades e caracteres individuaes

dos seus habitantes. Foi esta a causa immediata da actividade social

que o levou á desmembração da unidade asturo-leoneza, e que sem

fronteiras naturaes, separou Portugal profundamente dos outros estados

hispanicos. Além d’esta situação, que em muitas cousas torna Portugal

comparavel ás peninsulas da Italia e da Grecia, o solo do paiz é

bastante accidentado, influindo pelas altitudes na variação do clima de

provincia para provincia; a visinhança do mar, ou as grandes montanhas

e os valles profundos tornam o clima ora desegual, ora desabrido,

como na Beira, Minho e Traz os Montes, apresentando as vegetações

das zonas frias na Serra da Estrella e no Gerez, e o algodoeiro das

zonas quentes no Algarve. A florescencia indica esta instabilidade:

os cereaes recolhem-se um mez mais cedo na Extremadura e Alemtejo

do que em Traz os Montes, em Trancoso, na Guarda, em Almeida e no

Sabugal; o pecegueiro, o damasqueiro e a cerejeira florescem em Chaves

em Janeiro, em Montalegre em Dezembro, e em Coimbra nos principios

de Fevereiro. As duas primaveras que o anno apresenta em Fevereiro e

Outubro, são alternadas, a primeira de calor e chuva em todos os trez

mezes de duração, a segunda é precedida de trez mezes de calma ardente

e falta de agua até ao equinocio, em que começam as chuvas torrenciaes.

Cada provincia apresenta caracteres differentes; nos districtos mais

elevados das provincias do norte, as neves mantêm na estação calmosa

a frescura da atmosphera, tornando as noites frias mesmo nos ardores

do verão. O Minho é a mais pequena de todas as provincias e a mais

florescente em agricultura, em commercio e industria; aqui a actividade

do homem venceu o terreno esteril tornando-o fecundo; ha mais densidade

de população, mais fartura, mais desenvolvimento moral e iniciativa.

Na Beira, o systema agricola dos pousios não deixa á terra a largueza

da sua producção, que diminue cada vez mais com a extensão dos baldios

para pastagens; a falta de communicações conservou por muito tempo

o povo em uma rudeza e fanatismo invencivel. Traz-os-Montes é uma

provincia montanhosa, fria em extremo no inverno, abrasada pelas calmas

no verão, em rasão dos grandes montes que a fecham; tem immensos

baldios, contando mais de dez leguas abandonadas desde a raia de

Hespanha até ás proximidades de Barca d’Alva; alli o homem participa

do caracter energico que lhe dá a natureza, é contrabandista. Na rica

Extremadura, é mais geral a miseria da população solitaria e ignorante,

explorando o solo feracissimo com rotinas caducas. O Alemtejo é a

provincia mais extensa, mais fertil e a mais despovoada; a fecundidade

do solo fez o habitante indolente; ama de preferencia o ser guardador

de gado, a vida de campino; o seu desleixo tem empobrecido a provincia

por não procurarem agua. O clima do Algarve é amenissimo, uberrimo o

terreno, mas desprezado; não conhecem os habitantes as vantagens das

florestas e vão sendo invadidos pelos areaes; a vegetação é tropical,

como a bananeira, a palmeira, a cana de assucar; amendoaes, alfarrobaes

e figueiraes florescem luxuriantes, mas os rios e as barras vão-se

tornando incommunicaveis pela indolencia dos povos.[35]

Perturbações subitas da atmosphera levam á formação do temperamento

bilioso, que como observa Stendhal torna as impressões violentas, e

as ideias mais absolutas mas inconstantes;[36] a agitação e o mal

estar permanente provocam-no á actividade. Diz Stendhal: «O bilioso

melancolico, _variedade tão commum em Hespanha e Portugal_,

e no Japão, parece-me o temperamento da desgraça em todas as suas

fórmas.»[37] E exemplificando este temperamento pelos typos tão

caracteristicos de Domingos de Gusmão, Carlos V, Cromwel, podemos

equiparar-lhes os portuguezes Pedro I, Dom João II, Affonso de

Albuquerque, Fernão Mendes Pinto, Sá de Miranda, Ruy de Pina, Damião

de Goes, typos austeros e atormentados. Para o melancolico _o amor

é sempre um negocio sério_, como observa Stendhal; e que sômos

aos olhos da Europa, senão um povo de apaixonados? Quem tem os mais

exaltados poetas do amor, como Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão,

Camões, Rodrigues Lobo, Garrett, João de Deus? Uma lenda de amor deu

a primeira tragedia nas litteraturas da Europa, a _Castro_, de

Ferreira; o amor é uma fatalidade invencivel, como se vê nas _Cartas

da Religiosa portugueza_, e torna contagioso o suicidio na mocidade

e nas classes populares.

A _visinhança do mar_ imprimiu a estas energias uma acção

commum, que tornou Portugal um dos principaes factores da historia:

a exploração do _Mar Tenebroso_, a circumducção do globo, e a

idealisação de uma das mais bellas Epopêas da humanidade.

Ha no caracter portuguez uma certa sympathia pela novidade, uma facil

assimilação de todos os progressos ou _estrangeirismo_; foi esta

qualidade, tão mal comprehendida, que fez do genio jonio o elemento

fecundo e activo da civilisação hellenica. É esta tendencia progressiva

que reserva a Portugal uma missão hegemonica na futura federação dos

Estados peninsulares.

Com a marcha da civilisação humana as raças vão naturalmente

unificando-se, e, como observa Comte, só virão a conservarem as suas

qualidades e caracteres differenciaes as raças branca, amarella e

negra. A successão e distribuição das raças da Europa, segundo as

modernas investigações da anthropologia, apresentam uma quasi completa

similaridade; na corrente da historia, uma mesma cultura greco-latina,

uma mesma religião catholica, accordando as consciencias, os mesmos

elementos sociaes desenvolvendo as instituições civis e politicas,

concorreram activamente para esta solidariedade humana que já merece

o nome de Republica occidental. D’estes antecedentes, e do contacto

sempre crescente dos povos europeus no sentido industrial e economico,

resulta a influencia mutua que todos elles exercem entre si,

conduzindo para a _acção commum_.

Os Francezes, Italianos, Hespanhoes e Portuguezes formam perante

a civilisação um mesmo povo; as mesmas raças invadiram os seus

territorios e ahi se fixaram fusionando-se. O elemento iberico assimila

e unifica em si o romano, o celta, os ramos germanico, franko, lombardo

e gotico e por fim o arabe. A creação das linguas romanicas proveiu

mais da persistencia dos caracteres communs dos povos conquistados

pelos romanos do que da decomposição do latim litterario. Uma mesma

tradição, formada da decadencia dos seus polytheismos serve de assumpto

para essa nova linguagem; o jogral cantando de terra em terra faz-se

entender por toda a parte mudando a accentuação das palavras, chega a

empregar ao mesmo tempo varios dialectos, como no _Descort_; uma

mesma lingua, o latim, presta os seus moldes de construcção syntaxica

a esta diversidade de dialectos, dos quaes os mais desenvolvidos se

tornarão linguas nacionaes; uma mesma poesia, a canção trobadoresca,

alegra a mudez dos castellos, irradia do Meio Dia da França, cultiva-se

nos principados da Italia, em Aragão, na região gallecia ao norte

de Portugal. A arte da poesia ou do _gai saber_ ramifica-se,

imprimindo uma unidade sympathica aos povos novo-latinos. As mesmas

lendas épicas seduzem a imaginação d’estes povos: Carlos Magno, o

centro heroico das Gestas, combate nos romances os Sarracenos; os

Hespanhoes celebram a sua derrota em Roncesvalles na pessoa de Roland;

os Italianos ferem-no na vileza e degradação do filho e dão o nome de

_ciarlatani_ (de Carlos) aos troveiros que celebram os seus feitos

nas praças publicas: em Portugal apparecem os vestigios meio apagados

do Cyclo carlingio, trazido pela passagem dos Cruzados que ajudaram a

conquista de Lisboa.

As mesmas commoções politicas succederam na Europa meridional; o

impeto revolucionario era contagioso, e o grito da liberdade popular

repetia-se por todas as cidades da Italia, servindo aquellas que

primeiro alcançavam a independencia, de typo para a exigencia de

futuras garantias. Por toda a parte o alto clero se oppoz á revolução

communal, em que se creavam as condições do terceiro estado. As

_Chartes_ e _Coutumes_ serviam de typo para as povoações que procuravam

organisar-se; em Hespanha as _Cartas pueblas_ e os _Fueros_, em

Portugal as _Cartas de Foral_, foram consequencia d’esta corrente a

que depois da reconquista obedeceu a liberalidade régia. Os Foraes de

Salamanca, Avila e Zamora foram o typo geral que os povos reclamavam

como segurança das suas garantias, subsistindo em Portugal os typos de

Salamanca, Santarem e Evora.

As lendas da credulidade religiosa foram por todo o Occidente as

mesmas, com egual intensidade e fervor: na Italia, França, Hespanha e

em Portugal campêam as Cathedraes goticas, bellas como noivas préstes

a receberem a visita do amado. Sente-se o mesmo sarcasmo nos contos

decameronicos e nos _fabliaux_, que pintam a vida domestica burgueza e

a defendem; espalha-se o mesmo terror nas lendas da _Dansa da Morte_,

da _Descida aos Infernos_, do _Judeu errante_, dos semeadores das

pestes, da condemnação do livre exame, equiparado ao pacto demoniaco

como no _Milagre de Teophilo_, e ainda no panico do fim do mundo fixado

para o anno mil.

A consanguinidade dos povos latinos é evidente; pelo processo da

fixação do poder monarchico, egoismo das familias dynasticas e abuso da

dictadura, foi-se estabelecendo a separação d’estes povos com as mais

insuperaveis fronteiras de bastardia politica. Esta antinomia, como

observa João Müller, explica dez seculos de guerras na Europa. Foram

as Litteraturas modernas, no seu periodo medieval que conservaram o

instincto d’esta confraternidade apagada; serão ellas os principaes

orgãos, na sua futura idealisação universalista, que hão de tornar

consciente este espirito de _occidentalidade_.

=§ 2.--A Tradição e os Costumes=

De todas as raças que se encontraram na Peninsula hispanica, assim como

ficaram vestigios dos seus caracteres _anthropologicos_, que se

imprimem persistentemente na população actual, tambem se conservaram

disposições _ethnicas_, que se transmittem na prática dos

costumes e no automatismo das Tradições. Esta physionomia organica e

moral do passado revela-se ás primeiras observações, e muitas vezes a

intelligencia dos dizeres dos antigos geographos quando descrevem os

povos peninsulares, comprehende-se melhor fazendo a comparação com os

habitos do presente.[38]

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 3 / 27 段