A historia da litteratura franceza já foi tratada sob o ponto de

vista dos caracteres da raça por Émile Chasles:[12] no typo _gaulez_

synthetisa o genio nacional persistente através de todas as fusões e

assimilações historicas com outros povos; no _Gallo-romano_, descreve

a esplendida civilisação meridional, que veiu a produzir a creação do

Lyrismo trobadoresco; no _Gallo-bretão_, as ficções novellescas que

encantaram o mundo medieval unindo o espirito christão e cavalheiresco;

no _Gallo-franko_, a unidade politica imposta pelo poder real na

lucta dos grandes vassalos, lucta que inspirou o cyclo épico feudal

das Canções de Gesta, creadas no norte da França. O encontro das

raças produz, como observou Lemcke, um desenvolvimento de poesia; o

conflicto da França feudal com a França meridional desenvolve e faz

manifestar o genio lyrico nas canções da lingua d’oc, que se propagam

pelo meio dia e pelo norte da Europa; a propria Bretanha, antes de

entrar na unificação nacional faz a revivescencia dos seus cantos ou

lais, que se desenvolvem nos poemas de _Merlin_, de _Arthur_ e da

_Tavola redonda_. A estes trez elementos que constituiram a unificação

da nacionalidade franceza, correspondem no territorio trez regiões

climatologicas, agronomicamente bem reconhecidas. Os Celtas e os

Frankos, que se fusionaram com o elemento _Gaulez_ não apagaram, apesar

da sua supremacia árica, esta raça, que através de todos os tempos

synthetisou a feição nacional da França. Se o Gaulez manteve e imprimiu

em tudo o seu caracter, é por que além do seu numero tinha attingido

uma civilisação superior á dos Celtas e Frankos. O imperador Claudio,

que conhecia perfeitamente a Gallia, diz que Roma não póde desprezar

a nação que estava unida á civilisação romana pelos costumes, pelas

artes, pelas affinidades (_moribus, artibus, affinitatibus nobis

mixto_.) Quaes seriam estas affinidades, para o imperador que nascera

em Lyon, senão a similaridade ethnica de uma raça que se estendia

por toda a Europa meridional, e que mantinha os mesmos costumes e

práticas industriaes. Os Romanos, segundo Diodoro Siculo, davam o

nome de Gaulez a todos os povos da França meridional; pela sua parte

Polybio já distinguiu o _Gaulez_ das outras populações celticas, raça

que se manteve intacta na Aquitania entre os Pyreneos, o Garona e o

golfo da Gasconha. Broca diz que tudo induz a crêr que os Aquitanios

pertencem a esta raça de cabellos pretos, cujo typo se conserva quasi

sem mistura entre os Bascos actuaes.[13] (_Gascões_, _Vascones_ e

_Bascos_.) Este elemento iberico, commum á Hespanha, Italia e França

meridional, é caracterisado por Jorge Philipps: «no tempo de Cesar, os

Iberos possuiam ainda na Gallia a maior parte do territorio situado

entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos; elles se conservaram n’este

triangulo, apesar das conquistas dos Ligurios primeiramente, e depois,

de um inimigo mais terrivel, a raça Celtica.» Estes factos comprovados

pelos modernos anthropologistas explicam-nos a transmissão do lyrismo

trobadoresco a todo o occidente da Europa. Chasles d’Héricault,

considera os Iberos como repovoadores e civilisadores da Gallia;

Émile Chasles, resumindo o estado d’esta questão apresenta o seguinte

facto: «Atravessando a Bretanha franceza, notareis com surpreza, em

certas aldeias, homens que têm os olhos com a obliquidade dos Mongoes,

e por consequencia a arcada zygomatica do extremo Oriente, signal

palpavel de uma migração obliterada na historia.»[14] Charrière, na

_Politique de l’Histoire_, acceita a identidade primitiva da raça

hispanica e italica, reunindo-se pelo laço natural da Aquitania e pelo

meio dia da Gallia; e Petit Radel observou a semelhança de um grande

numero de nomes geographicos da Italia e da Hespanha.[15] O typo do

_africano branco_ é o que conservou mais puros os caracteres d’esta

raça autochtone do Occidente da Europa, anterior ao estabelecimento

dos Celtas, e com os quaes se cruzou; Émile Chasles cita um facto, que

segundo confessa, faz pensar: «na Edade media um exercito de invasão

passou da Africa a Hespanha, e devastou-a até aos Pyreneos. Chegados

alli, os Africanos reconheceram immediatamente em um reconcavo da

montanha, _gente que fallava a mesma lingua que elles_; em logar de se

baterem fraternisaram em nome de um remoto parentesco que a politica

e o tempo tinham obliterado. Eis aqui Berbères, que nos dão uma lição

sobre os primordios da historia, e que por ventura fornecerão um

novo argumento a M. de Belloguet.»[16] Na sua _Ethnogénie gauloise_,

Belloguet sustenta a anterioridade da civilisação gauleza á celtica,

que attribue aos Ligurios. Sobre este fundo ethnico commum á França,

Italia e Hespanha, é que as invasões dos Celtas, dos Romanos e Germanos

vieram constituir os povos que formaram as modernas nacionalidades

depois da queda do Imperio. Competia á França a hegemonia sobre as

nacionalidades da Edade media, continuando a grande Civilisação

occidental, que em Marselha reflectira a cultura grega, e em Tolosa

a cultura romana. Pela região da Aquitania transmittia á Italia e

Hespanha o _gai saber_, a idealisação do lyrismo trobadoresco; pelo

elemento celtico espalhava na Inglaterra as tradições do _Santo Graal_

e da _Tavola redonda_; pelo elemento franko, transmittia á Allemanha o

impulso que acordava a inspiração dos seus _Minnesaenger_. O que vemos

pelas condições da raça, confirma-se pela consideração geographica, em

que a França tinha naturalmente de exercer uma missão intermediaria

entre os novos estados da Europa; escreve Edgar Quinet: «seja qual

fôr a diversidade dos instinctos da Europa, tem a França orgãos para

apanhar-lhes o caracter. Pelo Meio Dia e golfo de Lyon não toca ella

na Italia, a patria de Dante? Do outro lado, os Pyreneos não a ligam

como um systema de vertebras ao paiz d’onde surgiram os Calderon,

Camões, Miguel Cervantes? Pelas costas da Bretanha não se prende ella

intimamente ao corpo inteiro da raça gallica, que deixou a sua feição

em todo o genio inglez? Emfim, pelo valle do Rheno, pela Lorena e pela

Alsacia, não se une ella ás tradições como ás linguas germanicas, e

não lança ella um dos seus ramos mais vivazes ao seio da litteratura

allemã?» E assim como a França influiu directamente na cultura europêa

por estas condições mesologicas, ellas mesmas facilitavam esse

espirito de sociabilidade e prompta assimilação de todos os progressos

europeus; é assim, que no seculo XVI o humanismo italiano leva a França

ao abandono das tradições medievaes e imitação das obras classicas

da Antiguidade; no seculo XVII a Hespanha inspira os seus poetas

dramaticos, como Corneille e Molière, e dá-lhe o modelo das novellas

picarescas; no seculo XVIII a Inglaterra suscita a actividade do

pensamento critico e do encyclopedismo; e no seculo XIX é da Allemanha

que recebe a nova corrente de idealisação litteraria do Romantismo,

que propagou depois ás litteraturas meridionaes. Quinet, fallando da

diversidade das provincias francezas para estas diversas assimilações,

conclue: «Resulta d’esta diversidade, que estando em communicação com a

Europa inteira, a França não tem a temer uma influencia exclusiva; que

o Norte e o Meio Dia se corrigem mutuamente, e que este paiz chamado

para tudo comprehender, póde enriquecer-se com cada elemento novo sem

se deixar absorver por nenhum.» Onde se conhece esta indemnidade ou

originalidade é no chamado _genio francez_, já notado pelos escriptores

da antiguidade, que alludem á sua paixão guerreira e oratoria (_Rem

militarem aut argute loqui_, segundo Catão); _tumidissimi_, lhe chamam

outros, e vê-se pelas referencias de Aristoteles, de Plutarcho, de

Sallustio, de Florus, de Tito Livio, de Cicero, de Diodoro Siculo e de

Cesar, que as suas qualidades os impressionaram excepcionalmente.

O caracter gaulez, audaz e mobil, com regularidade nos seus caprichos,

logico na paixão, preferindo a prosa á poesia, o conto faceto á

lenda épica, trocando a palavra abstracta pelo symbolo naturalista e

concreto, possuindo-se primeiro do que outrem da verdade das grandes e

generosas ideias pelo que ellas têm de prático e de sociavel, adorando

a dedicação da amisade e mais ainda o chiste de um bom dito, leviano

mas intuitivo no alcance, bom e ao mesmo tempo implacavel na ironia,

sensualista e crente na immortalidade, o genio gaulez é sempre a alma

d’este eccleticismo intelligente e do sentimento de sociabilidade que

caracterisa o francez em toda a parte. Quando o direito universal se

exprimia por um symbolismo poetico, a França começava pela linguagem

da rasão; quando a Europa jazia sob a arbitrariedade do Feudalismo e

dos terrores da Egreja, o burguez ria-se nos _Fabliaux_, mofando

das duas tyrannias temporal e espiritual; a lingua franceza tornou-se

de um universalismo extraordinario pelo espirito de sociabilidade, e

como dizia Martin de Carrale, no seculo XIII: «_la plus delitable à

lire et à oir que nulle autre_.» É uma lingua vulgarisadora para

toda a ordem de factos, cooperando para que a França seja a capital

da civilisação, o centro em que palpitam as emoções mais generosas.

A litteratura franceza é influenciada por este génio da raça: ora

desenvolta e cheia de ironias e ditos de boa sociedade, como em

Rabelais, Montaigne, Bonaventure des Periers, Beroalde de Verville,

Luiz XI e a rainha de Navarra, La Sale e tantos que continuaram sob

o humanismo classico a vêa sarcastica e mordente dos _Fabliaux_

dos seculos XIII e XIV e das _Sotties_ do velho theatro popular;

ora pautada, pedante, convencional como no preciosismo, em Racine,

Marmontel, Scudery, Delille; mystica, como em Calvino, Francisco

de Sales e Fénélon; tumida e emphatica em Victor Hugo. A hegemonia

intellectual da Edade media continuou-se pela França na fórma social

depois da Revolução, que ella propagou a todos os povos da Europa não

tanto com balas como com cantigas. Michelet, que comprehendeu tão

lucidamente a hegemonia da França, proclama-a na _Introducção á

Historia universal_: «Toda a solução social ou intellectual fica

infecunda para a Europa, até que a França a interprete, traduza,

popularise... Ella diz o Verbo da Europa, como a Grecia disse o da

Asia.»

Para a comprovação do genio da raça transluzindo nas creações

artisticas, ainda apesar do convencionalismo de escóla e dos

preconceitos da civilisação, Taine determinou na Historia da

Litteratura ingleza duas correntes de inspiração, provenientes dos

sangues _saxão_ e _normando_, caracterisadas nos maiores escriptores.

O _Saxonio_ tem o genio tenaz, luctador, vive da incerteza, sorri-lhe

a ideia da morte, põe-se em combate com a natureza; a tensão violenta

diante da catastrophe é o momento mais bello da sua vida; tem uma

mythologia sombria, tradições medonhas, instinctos brutaes. Dos

parceis do mar germanico, vem como o alcyão da tormenta accoitar-se

na Bretanha, e com os Juttes e os Anglos supplanta pela conquista o

elemento celtico. Para esses invasores o céo plumbeo da Inglaterra

é uma aurora comparado com a cerração dos mares do norte; são meio

hyppopotamos na ferocidade e na voracidade, procurando a alegria

ruidosa nas bebidas mais corrosivas. Quando o influxo do Christianismo

veiu explorar o instincto supersticioso d’esta raça, substituiu-lhe o

terrivel deus Thor que atirava o martello pelos áres, pelo deus dos

exercitos que arrojava o raio, e enlevou-a com as lendas tenebrosas

da Descida ao Inferno (_Tundal_ e _Purgatorio de S. Patricio_.) A

poesia ingleza, exprimindo esta energia saxonia representa na sua

espontaneidade a trilogia satanica, a Duvida, o Mal, o Desespero; é

Shakspeare propondo a fórmula dubitativa em Hamlet: _To be, or not te

be_, quando depois da Renascença se dissolvia a synthese theologica

da Egreja sem se determinar a synthese humana da consciencia; é

Milton, depois da revolução social, divinisando o principio do Mal,

Satan, como a libertação de todos os absurdos que desde a Reforma

prendia a sociedade e o espirito em um despotico puritanismo, na

phrase: Mal, torna-te o meu bem (_Evil be then my good_) na epopêa do

_Paraiso perdido_; é Byron, levado ao paroxismo do desespero entre uma

aristocracia convencional, que não percebe a marcha do tempo moderno, e

que o repelle com o desdem de uma mediocridade panurgica; ello abandona

a Inglaterra, o vagabundo _Child Harold_, que divaga pelo occidente á

busca do seu ideal da liberdade, indo morrer por ella na Grecia.

A Renascença como o regresso da alma ás fontes da natureza, e as

luctas violentas da Reforma suscitaram em Inglaterra a preponderancia

d’este veio _saxonio_, como as fortes torrentes que descarnam os

rochedos: Dayton, Greene, Marlow, Ben Johnson são os precursores ou os

primeiros productos da corrente que orientou o genio de Shakspeare. E

assim como apparecia o drama em Inglaterra, onde as instituições dos

homens livres coexistiram sempre com instituições feudaes ou senhoriaes

e monarchicas, tambem a complexidade dos interesses burguezes e da

moral privada deram logar á creação nova das litteraturas modernas,

o Romance, de que são creadores Fielding, Swift, de Föe, Richardson,

Goldsmith.

Ao veio saxonio contrapõe-se o genio _normando_, como exemplifica

Taine. Desde os seculos IX e X, que os Normandos infestavam as costas

meridionaes da Europa; terriveis como os saxonios, a permanencia nos

climas suaves do sul enfraqueceu-lhes a irritabilidade, fel-os brandos,

amigos da novidade. A conquista dos Normandos sobre os Saxões foi

superficial, por que os vencidos em menos de trez seculos imprimiram a

sua feição aos vencedores: o _normando_ conservou apenas as qualidades

exteriores dos seus habitos senhoriaes, que differenciam ainda hoje

a aristocracia ingleza, ao passo que o franco caracter _saxonio_ se

conserva no povo. Os velhos chronistas notaram este antagonismo; diz

Roberto de Gloucester: «As gentes da _Normandia_ ainda habitam entre

nós, e aqui ficarão para sempre... Os _Normandos_ descendem dos homens

de alta cathegoria, que estão n’este paiz, e _os homens de baixa

condição são filhos dos Saxões_.» Antes de Taine, já o historiador

Agustin Thierry fundou sobre este conflicto de raças a _Historia

da conquista de Inglaterra_. A litteratura ingleza resente-se da

influencia _normanda_ na predilecção da fórma, na imitação dos modelos

convencionaes, em um classicismo sem ideia, em um meio termo do bom,

em menos espontaneidade e mais estylo; Drydon, Pope, Addisson, Waller,

Gray, seguem a moda litteraria, e ainda hoje fazem a predilecção dos

espiritos academicos, dos que consideram a litteratura como um nobre

ocio, ou uma habil curiosidade. A hombridade saxonia e a cortezania

normanda reunindo-se formaram esse temperamento sanguineo ligado a

um caracter impassivel; o _humour_ é o estado psychico d’esta fusão,

um lampejo de alegria sob um ár taciturno constante, uma jovialidade

indecisa como de quem reage contra um mal estar. O _humour_ é o

verdadeiro elemento da obra de arte ingleza: Sterne, no _Tristan

Shandy_ e _Viagem sentimental_, Swift, nas _Viagens de Gulliver_,

Fielding, no _Tom Jones_, Butler, no _Cavalleiro de Hudibras_, e

modernamente Carlyle representam esta fórmula da esthetica ingleza. Em

philosophia, tem a audacia critica de Hobbes e de Bolingbroke a par

do mais subserviente biblicismo; tem o positivismo de Locke e Hume

conjunctamente com o idealismo de Berkeley, e na sciencia procura

manter o accordo official entre a velha synthese theologica com as mais

audaciosas theorias transformistas, como se observa em Darwin.

Ampliando o criterio ethnologico á litteratura da Allemanha, já alguns

criticos observaram as differenciações locaes reflectindo no genio dos

escriptores; a Suabia, é a patria do _lied_, a canção tradicional,

do canto que se desenvolve em um esplendido lyrismo; na Franconia,

o gosto artistico popular organisa-se nas _Meistergesang_. Na sua

_Physiologia dos Escriptores e dos Artistas_, Deschanel transcreve

as palavras de um critico indicando que Schiller era da Suabia, e

Goëthe da Franconia, deduzindo assim a diversidade d’aquelles dois

genios que synthetisam toda a litteratura allemã: «O primeiro, como

a raça allemanica d’onde provém, raça isempta, altiva, concentrada,

democratica, apresenta-nos a irritabilidade dos sentimentos, a

vivacidade da imaginação, o liberalismo da rasão; o segundo, em

virtude da sua origem, possue a calma, a correcção, a serenidade, a

flexibilidade industriosa de um espirito aberto a toda a cultura.

Schiller gastou-se prematuramente pela impetuosidade interior; Goëthe,

durante a sua longa vida, foi avançando por um progresso insensivel e

contínuo para a perfeição.»[17] Apesar do sentimento nacional tender

para a unidade politica, ainda assim prevalecem as influencias locaes

nas manifestações do espirito allemão; escreve G. Weber: «Debalde

se procurará hoje, um centro litterario parecido com aquelles que

existiram outr’ora em Saxe e em Thuringe. Berlim permanece a séde

da philosophia e das sciencias especulativas; Munich o fóco das

bellas-artes e o baluarte do ultramontanismo; Leipzic e Dresde o

centro da critica, da arte dramatica e das bellas-letras...»[18]

Heinsius, na sua _Historia da Litteratura allemã_ determina-lhe os

periodos da evolução sob o aspecto da raça: o _gotico_, até ao meado

do seculo VIII; o _franko_, até ao advento dos Hohenstaufen no seculo

XII; o _suabio_, periodo dos _Minnesinger_ e da cavalleria exaltada;

o _rhenano_ ou _saxonio_, da erudição e das Universidades, do seculo

XIV a XVI; o _saxonio_, comprehendendo a renascença, as controversias

religiosas, os _Meistersenger_, ou os cantores populares, e a creação

da lingua nacional, pela fusão dos dois dialectos principaes por

Luthero; o _silesio_ e _suisso_, em que predomina a influencia franceza

da escóla de Opitz, reagindo e vencendo o perstigio das tradições

germanicas em Klopstock, que determina a grande época _allemã_, em que

brilha a pleiada dos genios creadores, como Goëthe, Schiller, Bürger,

Wieland, Lessing, etc., como uma integração affectiva da Germania.

Sobre esta successão, conclue Heinsius: «Observa-se que em cada época,

á parte esta ultima, _é uma das grandes familias da nação allemã que

conduz todas as outras_, que preponderou tanto no pensamento como na

actividade, nas letras como na vida social, que, finalmente, _imprimiu

o seu caracter ao resto da nação_ e a fecundou com o seu genio.»[19]

Não é excessiva a nossa comprovação, ao tratar-se de determinar o

caracter da raça, e acção do meio na civilisação e litteratura de

Portugal; por que todos esses povos, a começar pela França exerceram

uma acção profunda, já na constituição da raça, já nas fórmas da

manifestação do genio nacional. Celtas, Romanos, Germanos e Arabes

actuaram sobre o fundo persistente das populações hispanicas, que

apesar d’isso conservaram as suas tendencias separatistas e as

suas differenciações locaes. Nas creações artisticas formadas por

individualidades que estão fóra das influencias vulgares, ainda

assim se revela esta fatalidade do sangue, e do meio cosmico. Sobre

a mais antiga camada anthropologica da peninsula estabeleceram-se

os cruzamentos: _Hispano_-celtico, _hispano_-romano, _hispano_-gotico,

e _hispano_-arabe. Vê-se aqui um fundo persistente de população, que as

invasões successivas não conseguiram obliterar nas suas mestiçagens.

O que era pois este elemento _hispano_? Quando as primeiras

frotas tyrias aportaram no Mediterraneo, já a peninsula se achava

habitada por gente que se considerava autochtone ou filha da propria

terra. Bem podiam ter-se esquecido da sua proveniencia, desde que os

Pyreneos a defenderam contra a terrivel invasão dos gelos da época

glaciaria. Quem era essa raça mysteriosa aqui escondida? Ella achava-se

ramificada pelo sul da Italia e tambem pelo meio dia da França, mesmo

pelo norte da Africa; chamaram-se os _Iberos_. Segundo Guilherme

Humboldt, o genio iberico é a base da unidade dos povos meridionaes;

com os recentes estudos anthropologicos foram-se esclarecendo estas

similaridades, e nos estudos comparativos dos costumes e das tradições

confirmando pelas analogias ethnicas este sub solo social. Segundo

Bergman, o _Ibero_ é a transição da raça amarella para a aríaca;

além da Italia e da França, tambem apparece na Inglaterra, e no typo

ruivo germanico, constituindo um fundo primordial ou preárico da

Europa. Monumentos, superstições, mythos religiosos, recorrencias de

costumes, tradições lyricas e heroicas, communs principalmente ao

occidente da Europa, explicam esta raça a que na Hespanha se deu o nome

de iberica, que os escriptores da antiguidade greco-romana descrevem

com uma elevada cultura, com leis e poesia. Nas successivas invasões

da peninsula nunca este elemento hispanico foi obliterado; entraram

aqui os Celtas gaulezes, deixaram o seu vestigio no onomastico local,

venceram as tribus locaes ibericas, mas foram absorvidos por ellas,

como os Saxões da Inglaterra vencidos pelos Normandos os assimilaram

ao fim de trez seculos. Os Celtiberos nunca puderam ligar-se

completamente para a defeza commum, d’onde Guilherme Humboldt conclue

mais pela cohabitação do que pela fusão d’estes dois elementos; o

Ibero continuou a ser taciturno, e accoutando-se nas montanhas por um

instincto defensivo, e o Celta veiu insensivelmente isolando-se para

as bandas do mar, para lançar-se á vida aventureira. _En Dorel_ e

_Esus_ são os dois deuses d’estas raças, que persistem em muitas

das inscripções lapidares da Hespanha. A facilidade de adaptação estava

da parte dos Celtas, que tambem na Italia, em França e Inglaterra se

unificaram com outros povos preexistentes, conservando a sua delicada

sensibilidade poetica. Aqui temos um começo de differenciação na

futura raça hispanica ou nacionalidades peninsulares. As esperanças

da raça celtica, personificadas na vinda do Rei Arthur, ainda hoje

alentam o povo portuguez, que na decadencia da sua grandeza historica

compraz-se com o sonho do _Quinto Imperio do mundo_, em que o

desejado Dom Sebastião hade vir aqui formar a ultima grande monarchia;

as tradições da velha Atlantida enlevam a imaginação dos portuguezes

insulares, que julgam vêl-a nas cerrações em noite de Sam João. Para

as regiões centraes e montanhosas confinaram-se os iberos, de que os

bascos actuaes, apesar dos seus cruzamentos são ainda um manifesto

documento anthropologico; o elemento docil, aventureiro, amoroso,

propriamente celtico irradiou pela orla maritima, em uma linha norte

sul, vindo por isso os Portuguezes a conservarem o genio celtico, não

obstante Herculano affirmar que o portuguez nada tem de commum com os

antigos occupadores da peninsula. É pela extensão e diffusão d’este

ramo celtico, que se explica a facil adopção do latim nas conquistas

romanas, e mais ainda a differenciação dialectal, que produzia as

linguas novo-latinas, cuja formação os discipulos de Diez deduzem

de simples degenerescencias phoneticas. O facto da adopção de uma

linguagem, orgão de uma mais elevada cultura, em nada modificára a

população hispanica.

Os Phenicios, que exploraram o Mediterraneo, vieram attrahidos á

peninsula pela noticia das suas riquezas metalurgicas; os que já

estavam cansados dos errores longinquos, fixaram-se ao norte da

Africa onde fundaram Carthago, e d’ali exploraram commercialmente a

Hespanha, preferindo o trafico á guerra. Seria esta situação do ramo

semita, naturalmente incommunicavel, segura e sem perturbação, se as

rivalidades com o poder romano não produzissem a derrota da segunda

guerra punica.

Roma repelliu da peninsula o dominio carthaginez; possuindo um energico

poder centralisador, começou por imprimir no territorio dos hispanos

as suas divisões administrativas e militares. Não dominava pelo

numero e cruzamentos, por que Roma não tinha gente sufficiente para a

occupação, mas pela vigilancia das suas legiões, e pelo colonato dos

povos vagabundos, que se entregavam á sua protecção, é que sustentava

a conquista. A concessão do _direito italico_ harmonisava-se

com os costumes ibericos. A influencia de Roma é profunda, como

elemento civilisador, e de unificação social, mas nulla em quanto á

modificação dos caracteres anthropologicos da raça. Sob o seu dominio

os _hispanos_ ficaram taes como eram. A lingua latina como

universalista, exprimindo o direito e a poesia, dava distincção ao

que a fallava; por tanto deu a Hespanha á litteratura romana muitos

dos seus melhores escriptores, coincidindo esta actividade com a

adopção da religião universalista do Christianismo, que vinha unificar

sentimentalmente o Occidente: Seneca, Lucano, Marcial, Prudencio,

Draconcio, Sam Damaso, fazem brilhar a lingua de Cicero na época de

uma decadencia que se sustentou com a vitalidade provincial. O verso

latino, que na época de esplendor desprezava a _accentuação_

natural pela _quantidade_, á imitação da poetica grega, voltou nos

primitivos hymnos da Egreja, compostos por Sam Damaso, á simplicidade

do verso saturnino, ao octosyllabo popular. Estavam achadas as bases

da poesia moderna, do lyrismo das novas linguas, a _accentuação_

e a _rima_, que mesmo nos hymnos da Egreja dão á expressão latina

uma belleza incomparavel. A Egreja e o Imperio romano imprimem aos

povos da peninsula uma unidade politica e moral, deixando esse germen

da cultura erudita, que se sobrepõe ás tradições populares sem comtudo

ellas se extinguirem. A Egreja, depois da queda do Imperio, mantém

na sua liturgia a lingua latina, e os Reis germanicos reataram a

tradição imperial, conservando a _lex romana_ e o seu processo nos

tribunaes: estas mesmas causas cooperam para a unidade da civilisação

do Occidente.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 2 / 27 段