Nas Litteraturas, como expressão da vida affectiva das socie

OBRAS COMPLETAS

HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA

INTRODUCÇÃO

HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA

EDIÇÃO INTEGRAL

1 Introducção e Theoria da Historia da Litteratura

portugueza 1 vol.

2 Trovadores portuguezes 1 "

3 Amadis de Gaula 1 "

4 Poetas palacianos 1 "

5 Os Historiadores portuguezes (_Inedito_) 1 "

6 Bernardim Ribeiro e os Bucolistas 1 "

7 Novellas de Cavalleria e Pastoraes (_Inedito_) 1 "

8 Gil Vicente e as origens do Theatro nacional 1 "

9 Sá de Miranda e a Eschola italiana 1 "

10 Ferreira e a Pleiada portugueza 1 "

11 A Comedia e a Tragedia classicas 1 "

12 Vida de Camões 1 "

13 Lyricos camonianos 1 "

14 Epopêas historicas 1 "

15 Bibliographia camoniana 1 "

16 Os Culteranistas (_Inedito_) 1 "

17 Épicos seiscentistas (_Inedito_) 1 "

18 As Tragicomedias dos Jesuitas 1 "

19 A Arcadia de Lisboa (_Inedito_) 1 "

20 Dissidentes da Arcadia (_Inedito_) 1 "

21 A baixa Comedia e a Opera 1 "

22 Bocage, vida e época litteraria 1 "

23 José Agostinho de Macedo (_Inedito_) 1 "

24 Garrett e o Romantismo 1 "

25 Os Dramas romanticos 1 "

26 Alexandre Herculano 1 "

27 Castilho e os Ultra-Romanticos 1 "

28 João de Deus e o moderno Lyrismo (_Inedito_) 1 "

29 A Eschola de Coimbra 1 "

30-31 Recapitulação da Historia da Litt. portugueza 2 "

32 Indice geral analytico (_Inedito_) 1 "

_N. B. N’esta reedição começa-se de preferencia pelos volumes a

refundir, e especialmente pelos que estão ainda =ineditos=._

HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA

INTRODUCÇÃO

E

THEORIA DA HISTORIA

DA LITTERATURA PORTUGUEZA

POR

THEOPHILO BRAGA

[Ilustração]

PORTO

LIVRARIA CHARDRON

Casa editora

SUCCESSORES LELLO & IRMÃO

1896

Todos os direitos reservados

_Porto--Imprensa Moderna_

PROLOGO

Um dos sonhos que me embalaram a vida já está realisado: foi a Epopêa

da Humanidade, idealisação de trinta annos contínuos enquadrada

na VISÃO DOS TEMPOS. Um outro sonho, tambem absorvente e

consolador, o plano da HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA,

é que me foi educando o criterio e interessando o espirito por toda

a complexidade dos phenomenos sociaes. Como autodidacta, n’esse

longo trabalho apresento as vacillações e incertezas de methodo, e

o desconhecimento de sciencias subsidiarias da historia litteraria.

Quanto mais avançava para a terminação da HISTORIA DA LITTERATURA

PORTUGUEZA, mais sentia a necessidade de refundil-a integralmente,

unificando o processo critico e esclarecendo-a por uma mesma luz

philosophica. A obra estava tratada com amor, e apezar de todos os

seus defeitos merecia ser reelaborada; assim o disseram alguns criticos

estrangeiros. Para fazel-o, era preciso vencer o problema material dos

meios de publicação; emquanto o não consegui fui escrevendo e deixando

ineditos os volumes que faltavam á obra completa. Agora que se tornou

possivel a reedição da HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA, e

que já passaram vinte e trez annos de magisterio sobre esta disciplina

no Curso Superior de Lettras, volto mais habilitado a emendar os

meus erros e a supprir as deficiencias da educação universitaria.

Recordar-se é viver, porém acordando muitas vezes magoas latentes que

são sem remedio: revêr uma obra da mocidade é tambem uma recordação,

um confronto da capacidade mental, com a vantagem de poder eliminar

erros e dar mais nitidez ás concepções de uma vocação incipiente. Para

escrever uma HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA digna d’este

titulo, faltava-me o conhecimento da anthropologia e da ethnographia;

ignorava o processo da formação das linguas romanicas e o methodo

philologico comparativo; tinha uma incompleta noção historica da

Edade media, e principalmente da revolução occidental que envolve

todas as manifestações da historia moderna da Europa; estava desviado

de apreciar a missão iniciadora e profunda da cultura greco-romana

continuada pelos povos latinos; com um criticismo anarchico julgava

as instituições e os homens, sem ter a vista de conjuncto de uma

Philosophia que me revelasse as leis psychologicas e historicas, para

coordenar o immenso tropel de factos accumulados por uma erudição

impertinente. Todas estas faltas fui reconhecendo, acudindo-lhes com a

disciplina conveniente. A revisão de toda a HISTORIA DA LITTERATURA

PORTUGUEZA impoz-se como uma necessidade; se na obra poetica fiz

a minha Cathedral, esta agora identificada em um mesmo methodo critico

ficará o meu Palacio, por onde divaguei livre de paixões ruins em um

sonho do trinta annos.

DA 1.^A EDIÇÃO (1870)

Em 1867, em uma nota do CANCIONEIRO POPULAR appareceu pela primeira vez

a promessa de uma HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA. A obra está

prompta; não sabemos se será possivel vencer a indifferença geral por

esta ordem de trabalhos. Se a parte principal tiver de jazer inedita ou

se perder, aqui fica desde já a INTRODUCÇÃO, como fio conductor para o

que aventurar-se a examinar os páramos da nossa Litteratura.

Estão lançadas as bases, determinado o elemento nacional, discriminadas

as influencias das litteraturas estrangeiras que actuaram sobre nós,

e ligada a cultura portugueza ás grandes tradições da Edade media da

Europa. A INTRODUCÇÃO Á HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA

inaugura uma critica nova: inventaram-n’a os Schlegel, os Grimm, Victor

Le Clerc, Paulin Paris, Fauriel e outros; nada mais fizemos do que

repassarmo-nos da sua luz. Trabalho modesto a par dos iniciadores, é

grande em uma terra aonde se não estuda e nada se respeita.

INTRODUCÇÃO

Á

HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA

Quando no fim do seculo XII se constituiu independente o estado

de Portugal, terminava o periodo fecundo da Edade media, em que

foram elaboradas as condições para a existencia e desenvolvimento

das sociedades modernas: Estavam unificadas as _raças_, que

desde o seculo V até ao seculo VII se encontraram, em invasões e

occupações territoriaes; differenciadas as classes, as guerras

defensivas e o trabalho industrial tinham garantido a estabilidade

das cidades com os seus codigos locaes, esboços para a constituição

das _nacionalidades_ europêas; realisada a creação popular das

_linguas_ romanicas, e o seu emprego na elaboração esthetica

das _tradições_ epicas das Gestas feudaes e das canções lyricas

dos trovadores ocitanicos; florescia a architectura ogival, e o

Catholicismo e o Feudalismo mantinham a nova ordem pela unanimidade da

crença sob o Poder espiritual, e pela dependencia ou subserviencia ao

Poder temporal.

Com a nacionalidade portugueza cooperam no seu desenvolvimento moral,

economico e politico todas essas manifestações que imprimiram uma

certa unidade nos povos europeus sob o regimen catholico-feudal. As

diversas raças peninsulares integraram-se em um typo de população

_mosarabe_; os dialectos romanicos definem-se nas formas vulgares

em que o _galleziano_ se aperfeiçôa no uso popular e palaciano das

canções _trobadorescas_; as cidades livres ou behetrias redigem

os seus codigos locaes ou _Cartas de Foral_; erigem-se os bellos

templos gothicos, e compartilha-se do enthuziasmo da guerra defensiva

das _Cruzadas_, tanto no territorio hispanico como nas expedições

de ultra-mar.

Porém do seculo XII em diante, começa a grande crise da Revolução

Occidental, pela dissidencia dos espiritos contra a unanimidade

do Poder espiritual da Egreja, e das luctas da liberdade civil

contra o Poder temporal do Feudalismo. Quando as linguas romanicas

estavam aptas para fixarem a idealisação esthetica dos interesses

da sociedade medieval, deu-se a instabilidade dos sentimentos e o

negativismo dos pensamentos. As Litteraturas romanicas resentiram-se

d’esta perturbação, que se prolonga até hoje e ainda actúa sobre

ellas; durante os primeiros trez seculos da crise, do XIII ao XV,

desconheceram mais ou menos completamente a Antiguidade classica,

e os themas poeticos da Edade media foram tratados sem respeito,

preponderando o genio sarcastico nas satyras, nos _fabliaux_, nos

cantos _farsis_, nas parodias, nas comedias, e até na epopêa,

como o _Renard_, e a _faulse Geste_. No seculo XVI, esta

revolta ataca a ideia religiosa, na Reforma; e pelo enthuziasmo dos

Humanistas diante das litteraturas classicas da civilisação polytheica

greco-romana, a Edade media é desprezada como uma época barbara, e as

Litteraturas romanicas exercem-se na imitação erudita, separando-se

os escriptores da cooperação com o povo; aggrava-se esta situação

deprimente com a influencia geral do pseudo-classicismo francez no

seculo XVII e XVIII, e sómente no periodo do Romantismo, no primeiro

quartel do seculo XIX é que as Litteraturas modernas foram revocadas

á idealisação das suas origens pela rehabilitação e pelo estudo

scientifico da Edade media.

Como todas as outras Litteraturas romanicas a portugueza acompanha

esta longa crise _social_ e _mental_, em que o sentimento

ficou sem disciplina; através das mais artificiosas canções amorosas

dos trovadores destacam-se as satyras e as coplas obscenas; por seu

turno a auctoridade classica impõe-se á imitação dos escriptores, que

abandonam com desdem as tradições nacionaes e populares, chegando a

idealisação poetica a ser um producto frivolo para a distracção pessoal

nas Academias e Tertulias.

A historia da Litteratura portugueza só póde ser feita scientificamente

pelo processo comparativo, e collocando-a no quadro das Litteraturas

novo-latinas; sob este aspecto não é menos fecunda, nem menos original

do que as outras congeneres, embora se manifestasse depois de todas

ellas e reflectisse todas as suas influencias pela solidariedade com a

civilisação europêa.

A creação da Historia litteraria é muito recente; foi entrevista

por Bacon no seculo XVII, e só depois dos trabalhos materiaes da

bibliographia, e pela renovação dos estudos historicos n’este seculo,

é que se conseguiu deduzir da obra litteraria a psychologia do que

a sentiu, e a relação com o meio social em que foi sentida. Nenhum

facto do espirito satisfaz tão bem este processo como a Litteratura;

os factos da vida politica ou das emoções religiosas, das instituições

sociaes e das descobertas progressivas, são sempre motivados por

paixões bastante violentas, com consequencias imprevistas, e por

isso não explicam tão claramente o homem como as creações estheticas

produzidas por sentimentos desinteressados, por uma espontaneidade

especifica de inspiração, por meio de themas tradicionaes que conduzem

a uma unidade sympathica. Quem escrever uma Historia litteraria, tem,

diante da série das obras de arte, de deduzir o genio e caracter intimo

do povo que as produziu, e sobretudo de pôr em relevo as circumstancias

exteriores que lhes deram origem; é um processo _philosophico_

desenvolvendo-se conjunctamente com a investigação _historica_.

No estudo da Litteratura portugueza chegamos por um esforço individual

a este resultado, tão lucidamente formulado por J. Jacques Ampère:

Se a Litteratura não é uma declamação vã, se é uma sciencia, então

entra no dominio da _philosophia_ e da _historia_. São pois

a _Philosophia da Litteratura_ e a _Historia da Litteratura_

duas partes da sciencia litteraria. Fóra d’isto não ha senão minucias

da critica de detalhe e alarde de logares communs. Ampère recommenda

que se comece pela Historia litteraria, porque: «Da historia comparada

das Artes e da Litteratura em todos os povos, é que deve resultar a

Philosophia da Litteratura e da Arte.» De facto os estudos da historia

da Litteratura da Grecia, revelam-nos que a _Tradição_ é sempre

o elemento organico e o thema elaborado conscientemente pelas mais

altas idealisações individuaes; bem como as fórmas universaes das

Litteraturas, o _Lyrismo_, a _Epopêa_ e o _Drama_ têm uma correlação

intima com as phases psychologicas da humanidade na sua representação

_objectiva_ e na sua reacção _subjectiva_. Todo o grupo das

Litteraturas romanicas está cabalmente historiado, e pela luz do

methodo comparativo chega-se aos caracteristicos da sua unidade e

similaridade de evolução, como observaram Frederico Schlegel e Comte,

na lucta do espirito novo elaborando as tradições medievaes nos rudes

dialectos que se hão de tornar linguas nacionaes, reagindo contra o

perstigio das obras classicas da antiguidade impostas á imitação pelos

eruditos e pela admiração incondicional dos monumentos antigos. Goëthe

presentiu que o conhecimento de todas as litteraturas levará ás novas

fórmas de uma inspiração universalista; e Comte, prevendo o termo da

grande revolução occidental que se prolonga do seculo XII ao XIX,

liga á edade normal da humanidade as novas idealisações que darão ao

_sentimento_ a preponderancia social e moral de uma Synthese affectiva.

Pela marcha dos estudos accumulados póde já preceder a _Philosophia

da Litteratura_ á _Historia da Litteratura_, como a luz que

melhor fará comprehender a complexidade de innumeros factos concretos,

que tendem sem esse criterio a perder-se na curiosidade esteril. Tal o

intuito d’esta introducção ou theoria da historia.

I

Elementos staticos da Litteratura

Como um producto da actividade social em condições de estabilidade, uma

Litteratura só póde ser bem estudada e comprehendida conhecendo-se os

elementos _staticos_, ou de ordem, e _dynamicos_ ou de progresso, de

que ella é um dos effeitos complexos. Spencer submettendo os phenomenos

sociaes e mentaes á correlação das forças physicas, formúla com clareza

esta base critica: «_Uma sociedade pouco numerosa_, seja qual fôr a

superioridade do caracter dos seus membros, não póde desenvolver a

mesma somma de acção social como uma que é grande. A producção e a

distribuição das mercadorias deve fazer-se em uma escala relativamente

pequena. Uma imprensa numerosa, uma _litteratura fecunda_, uma agitação

politica poderosa não lhe são possiveis. A producção das obras de arte

e das descobertas scientificas tambem não deve ser excessiva.»[1]

Escrevendo a Historia da Litteratura portugueza importa ter sempre

presente este ponto de vista, para não attribuir á raça a fraqueza

da tradição nacional, a falta de concepção original e de invenção

scientifica, a indifferença politica e a incapacidade de um regimen

economico. Somos uma nação pequena, sem os estimulos organicos de

uma numerosa população, sem o conflicto de classes, e limitada á

provocação de um exiguo territorio. Isto se comprova ainda pelo final

do pensamento de Spencer: «O que demonstra melhor a correlação das

forças sociaes com as forças physicas, por meio das forças vitaes,

é a differença das quantidades de actividade que desenvolve uma

mesma sociedade conforme os seus membros dispõem de quantidades

differentes de força tiradas do mundo exterior.» Assim, a visinhança

do oceano Atlantico ao passo que nos differenciou dos hespanhoes,

fez dos Portuguezes um povo de navegadores, dando-lhe a iniciativa

das descobertas maritimas e condições economicas subsistentes. Os

periodos de esplendor litterario ligam-se á influencia d’estes

estimulos; surgiram os Quinhentistas, destacando-se então a epopêa mais

caracteristica e expressiva da civilisação moderna, os _Lusiadas_.

Por esta ordem de factos se infere, que ha nas litteraturas

manifestações de phenomenos inconscientes e separados ou fóra da acção

da vontade do homem. Para bem comprehender a obra do homem, sentida,

reflectida ou praticada, convém antes de tudo determinar-lhe o circulo

de fatalidade dentro do qual se produz: o impulso atávico da _raça_,

que orienta o sentimento do escriptor ou artista; a _tradição_,

transmittida de seculos, que se torna o thema da elaboração ideal

e pela qual a obra do genio realisa a synthese affectiva em uma

sociedade; a _lingua_, como expressão do sentimento individual, que o

escriptor não creou, mas que modifica para universalisar estados das

consciencias, as mais indefinidas vibrações da sensibilidade e ainda

as aspirações latentes de uma edade; por fim a _nacionalidade_, ou a

consciencia da vida collectiva, que tem de exteriorisar-se pela acção

historica, objecto das narrativas, das commemorações, dos monumentos,

que vão unificando cada geração na mesma continuidade. Applicando

pois a segura concepção de Augusto Comte, que divide os phenomenos

sociologicos em staticos e dynamicos, á Litteratura como resultante

do meio social, poder-se-hão considerar como staticos os factores

que preponderam invencivelmente na elaboração esthetica: a _raça_, a

_tradição_, a _lingua_, a _nacionalidade_. O influxo de uma determinada

época historica, como transição, já pela decomposição de um regimen

passado, já como aspiração a uma ordem nova; e além d’isso, o espirito

inventivo das altas individualidades, que nas suas obras servem

essa corrente regressiva ou progressiva, constituem perfeitamente a

parte dynamica na historia litteraria. Uma tão clara distincção é

já uma base segura para a critica scientifica; para o estudo dos

phenomenos staticos são subsidiarias a Anthropologia, a Ethnographia,

a Glottologia ou Philologia, a Historia geral, e a Sociologia; a

comprehensão das obras primas das Litteraturas resulta d’estas relações

intimas scientificamente investigadas e conscientemente estabelecidas.

Sómente assim, é que a historia da litteratura, embora pertença a

um pequeno povo, servirá de verificação das leis psychologicas e

sociologicas, conduzindo ao conhecimento definitivo--a sciencia do

homem.

=§ 1.--A Raça e o Meio=

Só muito tarde descobriu o homem, que os actos que elle julgava mais

livres, reacções immediatas da sua vontade consciente, eram motivados

por influencias a que obedecia sem as conhecer. No mundo physico

vê-se isto na pressão atmospherica, em que nos equilibramos. Depois

de Vico ter formulado o principio autonomico--_o homem é obra de si

mesmo_,--Herder encetou a philosophia da historia pela descripção

physica da terra, como do theatro em que a humanidade tinha de actuar,

segundo as variações do scenario. Se as descobertas da astronomia,

depois de Galileo, fizeram caducar o erro geocentrico, os estudos

historicos e archeologicos desfizeram a illusão anthropocentrica.

Como a distribuição das plantas sobre o planeta depende da luz e do

calor, tambem a cada modificação na climatologia dão-se no homem

modificações profundas na sua organisação; depois de Hippocrates,

que lançou as bases da sciencia da Mesologia, Montesquieu foi dos

primeiros pensadores que ligou uma importancia séria á influencia

dos _climas_; e por certo a diversidade das raças proveiu

de acclimações successivas senão da acção de meios differentes.

Blumenbach, na _Unidade da Especie humana_, considera o negro

retinto e o loiro dinamarquez como provindo do mesmo tronco. Uma

distancia de gráos modifica as nossas ideias eternas do bello, abre

um abysmo entre a _Venus de Milo_ o a _Venus hottentote_;

dá-nos uma glotte mais perfeita e harmoniosa, e a abstracção na

linguagem, que facilita e habitua á cogitação. A doçura do ár ambiente,

a estabilidade da temperatura, as aguas crystallinas, o céo puro

fazem o temperamento sanguineo, como observam Cabanis, Chrichton,

Haller, Cullen, Pinel e outros. O temperamento sanguineo dá uma

carnação viva, um thorax largo proprio para receber grandes volumes

de ár, uma circulação mais forte, de que resulta um augmento de calor

distribuido até ás extremas radiculas nervosas: assim, impressões

promptas, facilidade de movimentos, synergia revelada por um bem estar

descuidado, a graça, a jovialidade espontanea. Eis a organisação do

Grego; em um clima brando, suave, em uma natureza risonha, collocado

em um justo equilibrio das forças do meio exterior com as do seu

organismo, não se sente absorvido como os povos das regiões do oriente,

nem provocado na sua individualidade como na rispidez do norte; gosa

a vida por todos os póros e guarda uma juventude perpetua, uma

voluptuosidade da communicação, na cidade, no ágora, onde o conflicto

dos interesses agita as paixões que criam a obra da Arte. A Grecia

realisou na civilisação o sentimento do _Bello_. Outros povos

indo-europeus, nas suas diversas paragens revelam outras capacidades,

com que se reconhecem na historia; o Romano attingindo a mais clara

noção do sentimento do _Justo_, faz de Roma, no dizer dos antigos

jurisconsultos, _a patria das leis_. Mais alguns gráos para oéste,

e os Celtas, aventureiros, sonhadores, attingem a docilidade moral, a

dependencia da confraternidade, e são dominados pela ideia religiosa

da immortalidade, que os deprime. O Germano, em lucta com a natureza

brumosa do norte, de uma robustez excepcional, faz da independencia

individualista o seu caracter, e lança-se á invasão do occidente, onde

é incorporado pela civilisação romana. No extremo norte da Europa, o

Slavo conserva as suas primitivas tendencias mysticas, e assimilando

todos os progressos da Civilisação oriental e da occidental aspira á

hegemonia futura da humanidade.

Emfim, os innumeros factos em que se observa a influencia dos

climas, a transformação dos temperamentos e as hereditariedades das

raças, têm-se agrupado por forma que estão lançadas as bases para a

systematisação da _Geographia moral_, como lhe chamou Michelet. A

historia da Arte, as creações das Litteraturas, todas as obras em que

a alma humana se deixar surprehender em sua espontaneidade emocional,

são verdadeiramente elementos d’esta sciencia nova. Todas as vezes

que o estylo artificioso, a rhetorica banal ou o servilismo da moda

de uma certa época velarem as manifestações francas do espirito,

essa litteratura não tem valor, por insignificativa; não reflecte o

resultado das ideias religiosas, nem as formas linguisticas, nem as

agitações sociaes, nem a synthese das concepções que constituem a

civilisação de cada cyclo historico.

Nas Litteraturas, como expressão da vida affectiva das sociedades,

é talvez mais importante o elemento inconsciente da tradição e do

meio, do que a obra propriamente original da individualidade do

escriptor. No meio social observam-se a _persistencia_ de certas

qualidades transmittidas na especie, e que differenciam os grupos

humanos ou raças; as _sobrevivencias_ de costumes, que se

conservam automaticamente quando já de todo passaram os estados ou

organisações sociaes que os provocaram e com que estavam em harmonia;

e as _recorrencias_, ou renovações d’essas qualidades anteriores

e costumes extinctos, quando um certo abalo social desperta em um povo

todas as forças do seu instincto de conservação, mantendo-se pelas suas

condições staticas. Como expressão da collectividade, a Litteratura

reflecte ainda nas obras das mais altas individualidades a impressão

d’estas forças latentes, e mesmo as suas concepções ideaes são bellas

em todos os tempos, e são comprehendidas pela humanidade em geral, por

que derivam d’essas condições staticas. Na Europa não existe uma raça

pura de mescla; mas tem-se abusado cynicamente das caracteristicas

da _raça_ nos aggregados nacionaes para justificar hostilidades

egoistas e anachronicos instinctos guerreiros para exploração de

conquistas. Para a comprehensão d’esta influencia das condições

staticas nas Litteraturas ou em qualquer outra manifestação humana,

basta determinar a lei da _recorrencia_ biologica, tão nitidamente

formulada pelo physiologista Muller: «Uma raça nascida da fusão de

duas raças, propaga-se pela união com o seu semelhante; ao passo que,

quando ella se une com as raças que concorreram para produzil-a, ao

fim de muitas gerações torna ao typo de uma d’estas ultimas.» Vemos

prevalecer esta lei de regressão, nas populações _ibericas_:

embora se fusionassem com o elemento árico (Celtas, Romanos e

Germanos), comtudo tinham a seu favor o maior numero, e em ulteriores

invasões com a mestiçagem dos Lybios, Bastados, Alanos, Berberes e

Mouros, raça africana branca, fixaram pela recorrencia o seu primitivo

typo anthropologico. Broca reconhece tambem que pelo predominio

_numerico_ a raça mestiçada tende a regressar, na série das

gerações, á raça mãe. Por esta regressão se explicam as differenciações

dos caracteres ethnicos dos povos, e portanto todas as fórmas das suas

actividades sociaes. Herbert Spencer reconhece que as Litteraturas e as

Bellas Artes só existem como resultante d’estas actividades, tornando

por isso necessario o conhecimento do que as torna possiveis. Tiveram a

intuição d’este principio os humanistas do seculo XVI quando procuravam

interpretar as instituições sociaes romanas pelas referencias dos

poetas satyricos e comicos de Roma, e Vico interpretava Homero como

a synthese dos povos hellenicos, que Wolf applicou methodicamente.

Este processo critico é já antigo e acha-se confirmado pelos grandes

fundadores da historia como sciencia.

Ao começar a historia da Litteratura grega, Otfried Müller foi um

dos primeiros a reconhecer o valor do criterio da raça: «O que é

infinitamente mais importante para a historia da cultura intellectual

dos Gregos, é _o distinguir as raças_ o os dialectos que se

formaram durante a edade a que se deu o nome de heroica por causa da

preponderancia que tiveram n’ella as tribus guerreiras, e por que um

certo gosto pelas aventurosas emprezas a caracterisa evidentemente.

Por este tempo deveria ter começado o contraste entre as raças e os

idiomas da Grecia, que exerceu posteriormente uma influencia tão

notavel sobre toda a vida civil e intellectual, sobre a poesia, sobre

as artes e sobre a litteratura.»[2] Unificando os diversos dialectos

da Grecia nos dois ramos _Dorio_ e _Jonio_, Otfried Müller

deduz o duplo caracter da civilisação hellenica, baseada no accordo

entre o respeito pela tradição do passado e o espirito progressivo de

aperfeiçoamento: «Nos Dorios ... assim como mostram uma predilecção

manifesta pelos sons largos, energicos e asperos, que conservam com

uma regularidade inflexivel, póde-se naturalissimamente esperar o

encontrar entre elles uma disposição a fazer prevalecer até mesmo

em toda a organisação da sua vida publica e domestica, o espirito

de austeridade e de respeito pelos antigos usos. Os Jonios, pelo

contrario, mostram já no seu dialecto uma certa inclinação para alterar

as velhas fórmas segundo o gosto e o capricho do momento, e uma

tendencia a embellezar e a aperfeiçoar o seu idioma, que contribuiu

muito, sem duvida, para que este dialecto, posto que mais novo e

derivado, fosse o primeiro cultivado na poesia.»[3] A differenciação

entre estes dois elementos existia quando ainda estacionavam na Asia

Menor; os Doricos atravessam o Hellesponto e fixam-se nos territorios

montanhosos ao norte da peninsula da Grecia; os Jonios occupam as ilhas

e as costas do archipelago. As differenciações ethnicas são mantidas

pelas condições do territorio: o montanhez é ferrenho nas suas crenças

e costumes, e por isso Delphos torna-se a capital religiosa da primeira

unidade federativa dos Hellenos, apoderando-se Sparta de uma severa

hegemonia. Os habitantes das costas e das ilhas distinguem-se por um

caracter de cosmopolitismo e assimilação facil de costumes; o seu deus

nacional é maritimo, Poseidon, contraposto a Delios, e Athenas torna-se

a capital politica, que realisa pela primeira vez no mundo a liberdade

na formação da lei (_autonomia_) e a egualdade perante a lei

(_isonomia_), que deram ao genio grego o poder creador que o faz

dirigir ainda hoje sob o aspecto de renascença a marcha da humanidade.

Estes dois elementos ethnicos, Dorios e Jonios, fusionam-se pela pressão

da necessidade, para resistirem aos assaltos dos piratas do

Mediterraneo, quando os Phenicios dominavam no mar Egeo; e depois, pelo

estimulo de independencia contra as invasões asiaticas. A synthese

historica da civilisação da Grecia resume-se nas caracteristicas

d’estas duas raças: o elemento _dorico_ prepondera até á guerra da

Persia; até ás guerras do Peloponeso predomina o elemento

_jonico_; o esplendor do genio hellenico revela-se na sua unidade,

primeiramente nas creações estheticas, e por fim na acção politica da

grande época de Alexandre. O antagonismo de Apollo e Poseidon, os

caracteres antinomicos de Achilles e Ulysses, as duas epopêas

da _Iliada_ e da _Odyssea_ idealisando esses dois typos heroicos, as

instituições aristocraticas lacedemonicas, e democraticas da Attica,

não podem ser bem comprehendidas sem a discriminação d’estes dois

elementos, capitalmente estudados emquanto aos Dorios por Otfried

Müller, e por Ernst Curtius emquanto aos Jonios.

Os caracteres da raça _persistem_ através do tempo, cooperando

para a _sobrevivencia_ das tradições e dos costumes. Na Grecia

moderna, as tradições heroicas e muitos versos das tragedias de Eschylo

e de Euripides andam nos estribilhos populares. North Douglas, no

_Ensaio sobre os Gregos_, achou na companhia dos mancebos jonios o

semblante e a linguagem dos antigos hellenos: cantavam nas guitarras

como os rhapsodos, e ao toque da buzina corriam á conspiração, como no

tempo em que reagiram contra a Persia. Este viajante diz, suspirando:

«vinte e quatro seculos antes, seriam uns Alcibiades. É ainda hoje

popular a _Canção das andorinhas_, a que alludem os antigos, e

Charonte continúa a ser evocado nas pragas supersticiosas.»[4]

A separação que se dá entre os Arias e os Iranios, apparece reflectida

nas differenças entre os Gregos e Romanos, embora pertencendo á mesma

raça; o genio hellenico foi essencialmente especulativo, o romano

extremamente pratico ou activo. A Grecia eleva-se á unidade moral pelo

ideal artistico e pela concepção philosophica, Roma faz a unidade

politica pela realisação do Direito. Mas apesar d’estas differenças, é

pelos caracteres das raças da Italia, que se explica como a civilisação

romana foi conjunctamente _agricola_ e _guerreira_; como no

seu direito conservou sempre um constante dualismo (_optimo jure_

e _minuto jure_); por que motivo cedo abandonou as tradições

proprias pela imitação das obras artisticas ou poeticas da Grecia;

por que causas se desenvolveram as linguas novo-latinas ou romanicas,

e como o genio gaulez chegou a ter importancia na Litteratura latina

(Petronio, Ausonio, Rutilio, Sidonio Apollinario, etc.), na época da

decadencia.

Antes das migrações pelasgicas que atravessaram os Alpes carnicos o

se estabeleceram ao nordeste da peninsula italica, já n’ella existia

uma raça autochtone ou população preexistente, a que os Gregos chamaram

_Opicos_ (comprehendendo os Oscos ou Volsquos, Marses, Sabinos,

Sabelios, Samnitas, Lucanios, Campanios). Eram estes povos dados á

agricultura, e á vida pastoral, seguindo alguns as armas, como os

Sabinos, os Marsos, os Hirpinos e Samnitas. Vinte seculos antes da

nossa éra fixa-se a época do encontro com os emigrantes pelasgicos ou

Illyrios (Liburnos, Venetes ou Henetes, das bordas do Adriatico; e

Siculos, das costas da Italia e do Latio). Seguindo as costas do mar,

entram tambem na Italia por esta mesma época os Ligurios, e Sicanos

que se fusionam com os Siculos ou Tyrrhenos. Não admira por tanto que

antes da conquista de Tarento, Roma tivesse conhecimento da civilisação

da Grecia e tendesse a imital-a, abandonando as tradições oscas, pela

preponderancia dos elementos pelasgiscos da Grande-Grecia.

No seculo XIV antes da nossa éra é invadida a Italia septentrional

pelo desfiladeiro do Tyrol, pelos Ambrones, Isombres, ou Ombrios,

raça gauleza cisalpina. É depois d’esta invasão que começa a lingua

osca a tornar-se um meio de unificação social. No seculo XI, antes da

éra moderna, dá-se uma terceira invasão dos Rasenas, raça de pequena

estatura e grande cabeça, extranha á familia greco-italica, que funda

a primeira Confederação, creando a civilisação fundamental da Etruria.

A importancia d’este elemento ethnico, resultou da sua similaridade

com as populações autochtones da Italia, os Opicos, e por tanto com

a separação natural dos elementos extranhos ou _Inopes_, começa o

dualismo da civilisação romana: Os _Opes_, eram constituidos na vida

privada pelos Chefes de Familia a quem competia o _Nome proprio_, a

_Justae Nuptiae_, o _Locuples_ ou dominio do territorio dos tumulos

urbicos, o direito de herdar dos filhos ou _Haeres_, a compartilha

com o pae e com o filho ou _Dubnus_, e a Divindade estavel da terra,

_Opulentus_ (de _Opim_, a divindade feminina ou a Terra agricultada).

Emquanto á vida publica, competia-lhes com o Direito de Propriedade

o dominio auctoritario, o levar os Clientes á guerra, concorrer ás

magistraturas justas, o direito de vida e morte sobre os filhos e a

mulher, o uso do vinho civil _Temetum_ o do pão sagrado _Maza_, a posse

das _Res sacra_ (os Deuses da cidade, _Indigetes_: da Casa, _Penates_,

e da Familia, _Lares_ e _Manes_) e os Augurios.

Pelo seu lado os _Inopes_, formados de Servos, Clientes, Estrangeiros

(almas decahidas) não tinham Familia, eram sem nome, tinham o

_Contubernium_ ou _Injustae Nuptiae_, e existiam pelo Patrono. Não

tinham propriedade.

Os Chefes de Familia elegeram d’entre si um Rei, unificando esta época

do Patriarchado o culto de Saturno e de Cybele; porém, quando se

apoiaram na Propriedade e nos Clientes, constituiram-se em Republica

aristocratica ou Senado, sendo a unificação social sob o culto de

Jupiter e Juno; quando por fim prevaleceram os Clientes pela fórma do

Tribunato, e se chega ao Imperio plebiscitario, preponderaram Vulcano

e Venus. Tal é a evolução da historia da civilisação dos Romanos,

(_Ramnes_) que unificaram os outros dous elementos Lucerense e

Titiense.

A proposito do livro de Noël des Vergers, _A Etruria e os

Etruscos_, escreveu Beulé: «do estudo dos monumentos resalta uma

verdade, que será sempre cada dia mais sensivel, e vem a ser, que Roma,

apenas fundada, e já augmentada por fórma a poder attrahir a attenção,

tornou-se _uma cidade etrusca_, pela religião, pelas artes, pela

civilisação, e preciso é confessal-o, pela conquista. Não é amesquinhar

o genio latino o reconhecer que elle recebeu uma educação, soffreu um

jugo salutar, e acceitou modelos que viria a exceder. A vitalidade

e originalidade da raça latina sobreviveram através d’estas provas;

que direi? engrandeceram-se á custa d’ellas.--Roma devia reagir de

prompto, absorveu a Etruria, como a Grecia sua mãe, e a sua grandeza

não diminuiu por ter conhecido dominadores antes de ter adquirido o

imperio do mundo.»[5] A persistencia d’este caracter _etrusco_,

notado por Beulé na civilisação de Roma é o que melhor explica a

sua facil incorporação das raças brancas do norte da Africa, dos

Iberos da Hespanha e dos Gaulezes, de cuja civilisação rapidamente se

apropriaram, a ponto de darem litteratos a Roma.

Roma achou-se collocada entre dois pontos que diversamente actuaram nas

suas capacidades e épocas litterarias: ao sul, a Grande-Grecia, d’onde

recebeu a cultura hellenica, na poesia, na arte, na philosophia,

na eloquencia e na historia: vê-se isso em Livio Andronico, Ennio,

Pacuvio, Terencio, Horacio. Ao norte, é na Gallia Cisalpina que

desponta o espirito original e universalista da grande raça gauleza;

pertencem a esta corrente Cecilio, o comico; Catullo, de Verona;

Tito Livio, de Padua; Virgilio, de Mantua; Cornelio Gallus, o amigo

de Virgilio, de Frejus; Propercio, de Mevania, na Ombria, bem como

Passienus Paullus, e o umbriano Plauto.[6]

O fundo ethnico da população italica, que apesar d’estas duas

influencias grega e gauleza ou pre-celtica, não perdeu o seu caracter

proprio, chegou a transparecer na litteratura e nos costumes populares

de Roma. As _Saturae_ etruscas, representações scenicas ao som da

flauta, com mimica e dansa, as _Atellanas_ oscas pondo em scena os

aldeãos da Campania, conservaram-se no gosto publico até á época do

Imperio. Este genero de farça burlesca era improvisado de momento, por

typos conhecidos e vulgarisados na sua caracterisação; e o que é mais

para notar é que um tal genero de improvisação dramatica ainda persiste

na Italia, na _Commedia dell’Arte_, e os velhos typos burlescos têm os

mesmos representantes na actualidade, como o Maccus (_Polichinello_), o

Pappus (_Pantalon_), Casnar (_Cassandra_), Sannio (_Zanni_), Manducus

(_Croquemitaine_), que continuam a fazer rir o povo com os seus

ditos desenvoltos. A comedia improvisada pertence a um fundo ethnico

occidental, pois que a encontramos na tradição popular hespanhola nas

_Encortijadas_, e a fórma portugueza conserva-se nos costumes do Brazil

no auto do _Bumba meu boi_. Vê-se portanto, que este fundo ethnico

_Osco_, analogo ao _Euske_ da Hespanha, ao _Ausci_ da Aquitania, é que

nos explica a similaridade dos cantos épicos ou Romances no occidente

da Europa, como a observaram Nigra, Liebrecht, F. Wolf e R. Köhler;

dá-se egual morphologia nos cantos lyricos, Pastorellas, balladas e

serranilhas, como observaram Paul Meyer e Mainzer. E se estas fórmas

se conservaram através da forte cultura greco-romana implantada nas

Gallias e na Hespanha, persistiram tambem os costumes, as superstições,

os jogos, que provocavam o seu emprego, assim como as tendencias

federalistas mantinham as condições para a differenciação do Latim em

dialectos rusticos independentes, que depois se tornaram as linguas

romanicas, pelas condições de autonomia nacional.

Dá-se na Litteratura latina o estranho phenomeno de não se encontrar

a poesia do povo ou da _tradição_ nos seus poetas; estes, absorvidos

pela imitação dos Alexandrinos, ou preocupados com as doutrinas

philosophicas da Grecia, obedeceram a uma corrente do gosto que lhes

fez perder o sentimento da nacionalidade. Procurando-se o caracter

da Poesia latina, não se encontrará nos seus maiores poetas, que

se esqueceram das tradições do Latio e abandonaram a metrificação

organica da sua lingua, a _Accentuação_, do verso saturnino, pela

_Quantidade_, dos gregos, exprimindo o sentimento nas mesmas fórmas de

Pindaro, de Alceo e Sapho, descrevendo a natureza como a representaram

Homero e Hesiodo, e parodiando os conflictos da vida pela adaptação

dos typos de Aristophanes e de Menandro na comedia, e de Euripides,

na tragedia. Como os actos juridicos dependiam para a sua validade

de um certo numero de ritos symbolicos e formulismos tradicionaes, a

que os Opicos ligaram os seus privilegios, é por isso que através do

dominio absoluto dos rhetoricos em Roma, essas _antiqui juris fabulas_

constituiram na sua Jurisprudencia, como observou luminosamente

Vico, na _Sciencia Nova_, uma _severa poesia_. A moderna erudição

historica e as investigações ethnologicas vão determinando esse fundo

anthropologico nas tradições e nos costumes; estão achados os _Cantos

dos irmãos Arrales_, as cantigas a Julio Cesar, a _Vigilia de Venus_,

e numerosos versos a que alludem os escriptores latinos.[7] A Italia

antiga revive ou persiste tambem nos costumes, crenças e tradições

populares; as excavações de Pompeia mostram que a mulher italiana ainda

usa o _venetus cuculus_, a agulha de aço com que prende os cabellos; o

_pileus_ usa-se até em Fondi; os _improvisatori_ de hoje, rodeados pela

multidão, procedem como o poeta Stacio em Roma ante o seu auditorio;

na alimentação segue-se o mesmo regimen, o _prandium_ ao meio dia;

os preceitos das _Georgicas_ ainda vigoram na agricultura, e as

cercanias de Roma permanecem desertas, mantendo o aphorismo de Catão na

observancia do systema dos prados. Os _Condotieri_ precisam dar largas

ao antigo instincto bellicoso do salteador, instincto modificado pelo

contracto de associação. Os contos maravilhosos da feiticeira Circe

continuam a povoar a imaginação do povo; e como observa Bonstetten,

no seu livro O _Latio antigo e moderno_: «segundo Niebuhr, os romanos

de hoje acreditam na existencia da donzella Tarpêa em um poço do

Capitolio. Os Marsi curavam mordeduras de serpentes, e os Giravoli

dos arredores de Syracusa pretendem hoje cural-as com saliva.» Muitos

costumes persistiram mudando-lhes o Christianismo o sentido por uma

lenta evolução: os milagres da Medêa são attribuidos pelos napolitanos

a San Domenico di Cullino; o templo de Romulo e Remo pertence hoje aos

gemeos S. Cosme e Damião; no sitio d’onde se precipitou Anna Perenna,

está a capella de S. Anna Petronilla.[8]

As differenciações ethnicas que mantiveram na Italia as fórmas

federalistas (_lucumonias_), accentuam-se no genio esthetico. Cada

escóla de Pintura, na Italia, tem caracteres em que apparecem feições

locaes, que se succedem fatalmente. O primeiro passo para vencer

a rudeza morta da pintura byzantina foi a ideia de aperfeiçoar os

_baixos-relevos_; sente-se aqui a transição da estatua para o quadro.

A Toscana, aquella antiga Etruria onde primeiro appareceram as artes

e as sciencias na peninsula italica, começou este movimento. Nicoláo

Pisano imitou na pintura as figuras em relêvo dos tumulos antigos;

vendo mais a fórma material que apalpava do que a _linha_, cujo ideal

procurava, não podia deixar de ser um excellente architecto.[9] A

escóla de Roma e de Florença (Raphael, Salvator Rosa) são correctas no

desenho; as figuras reproduzidas de um modo severo têm muitas vezes,

como nota Michelet, a secura architectural.[10] Apoz a esculptura veiu

o mosaico, descoberta da Toscana (do monge Mino da Turita). Á altivez

e terror, seguiu-se a graça e a delicadeza; tal o estylo do florentino

Cimabue. A escóla da Lombardia eleva-se na pintura á _graça_ (Leonardo

de Vinci, Corregio) e ao _movimento_; a escóla de Napoles descobre

os _effeitos da luz_; a escóla de Veneza não tem rival no _colorido_

(Paulo Veronese, Giorgione, Ticiano) e na faina de uma republica

mercantil, que precisa de emoções fortes, esse _colorido_ é vivo e

exagerado (Tintoreto, pintando com furia em quadros descommunaes).

A escóla de Bolonha pertence a uma época em que acabava a creação

inconsciente; formada depois de todas as outras, fixa as regras da

technica, e é naturalmente eccletica (os Carraches, Dominiquino,

Primatice.)[11] Raça e acção mesologica, nas suas sobrevivencias, e na

determinação dos temperamentos individuaes são o verdadeiro criterio

para a comprehensão das creações de uma psychologia collectiva.

Exemplificámos este facto capital com o exame ethnologico da Grecia e

de Roma, que pelo universalismo helleno-italico são ainda hoje a base

da Civilisação occidental propagada á Europa pelo genio francez; assim

naturalmente ficou esboçado esse elemento classico ou greco-romano que

veiu a influir no desenvolvimento das litteraturas modernas. E como a

França suscitou em todos os povos da Europa as manifestações do genio

poetico pela imitação dos seus cyclos épicos, novellescos, e lyrismo

trobadoresco, torna-se tambem importante fixar as caracteristicas de

raça nas fórmas da sua Litteratura, apesar de pela propria corrente da

civilisação europêa irem-se apagando cada vez mais essas differenças

anthropologicas.

Historia da litteratura portugueza [Vol. I] · 第 1 / 27 段