Affonso V, doente de melancholia, não assistira; não tivera forças para
tanto. Não tivera energia para resistir ás imposições de seu filho; mas
faltara-lhe tambem a coragem para assistir á profissão de sua sobrinha,
que elle proprio victimara.
Logo em Coimbra, diz Damião de Goes na _Chronica do principe D. João_,
esteve para morrer _de pura melancholia_. Escapara por então, mas
fizera-se intratavel, misanthropo. Queria recolher-se ao mosteiro do
Varatojo, e professar. Assim acabaria por um duplo voto religioso este
triste drama do seu projectado casamento com a _Beltraneja_. Mas, antes
de realizar um tal plano, precisava avistar-se com o filho, que estava em
Beja: deviam tratar n’essa conferencia da convocação de côrtes geraes,
para que ellas reconhecessem D. João como rei. Affonso V partiu, pois, de
Coimbra para Beja no verão de 1481. Na entrevista, ficou resolvido que
as côrtes se convocassem para Estremoz, porque Lisboa e Evora estavam
assoladas pela peste. Tratado este negocio, D. Affonso V partiu, no
principio de agosto, de Beja para Cintra onde, solitario como desejaria
viver, devia esperar pela reunião das côrtes.
Em Cintra, o rei foi acommettido de febres. Pouco era preciso para o
matar no estado de abatimento e desgosto em que se encontrava. O principe
acudiu logo a Cintra, mas os medicos desenganaram-n’o: o rei morria.
D. Affonso acceitou a morte como uma redempção: fez ao filho algumas
recommendações, deu-lhe conselhos. Pediu-lhe que protegesse a orfandade
da _Beltraneja_. E morreu, a 8 d’esse mez, com quarenta e nove annos de
edade.
Acabara-se finalmente a tortura que lhe rasgara o coração a lentas
punhaladas.
Poucos dias depois do fallecimento de Affonso V, nascia o filho que
D. Anna de Mendonça tivera do principe herdeiro D. João. D. Anna de
Mendonça, mulher muito fidalga e moça formosa de mui nobre geração, diz
Garcia de Rezende, servira como dama de honor da _Beltraneja_, andara na
sua casa. Ao passo que D. Joanna, casada e virgem, via fechada a dobra
do seu leito de noiva, jámais occupado, uma das suas damas de companhia
rendia-se ás seducções do principe D. João, menos disposto a guardar para
si a abstinencia de prazeres que exigia de sua prima. Era justamente na
roda da noiva mallograda de seu pae que o principe D. João ia procurar e
encontrar uma amante, com a qual corria a emboscar-se nas moitas floridas
de Cernache do Bom Jardim. Singulares ironias tem ás vezes o destino!
D. João II, subindo ao throno, travou desde logo uma porfiada lucta com
a nobreza. Alexandre Herculano sustenta que a indole das instituições da
velha monarchia ovetense-leoneza, e das que d’ella procederam, não só
foi extranha, mas até repugnante á indole do feudalismo. Temos o maximo
respeito pela memoria do illustre historiador, mas n’este ponto não
concordamos inteiramente com a sua opinião.
De passagem relembraremos, por fazer ao nosso proposito, que em Portugal,
os reis transmittiram por meio de concessões os direitos de soberania aos
senhores feudaes, creando, para assim dizer, outras tantas monarchias
quantos eram os donatarios, que, por esse facto, se chamaram senhores
de baraço e cutello, senhores de pendão e caldeira. Como prova do
enfraquecimento real entre nós, por effeito do poder feudal, bastará
citar um unico facto. Reinando Sancho II, Estêvam Pires de Molny possuia
um paço no logar de Carcavellos, na terra da Feira. Como o resto do
logar não fosse coitado, o mordomo do rei entrou n’elle para penhorar
um lavrador. Pois o senhor do paço arrastou o mordomo pela freguezia,
dizendo-lhe: «Cá por aqui é honra!» e depois enforcou-o.[58]
Os senhores feudaes davam foraes e leis aos aldeões e villãos
(_villani_), taxavam a quantidade de fructos e a qualidade de serviços
que lhes deviam prestar, nomeavam juizes e tribunaes, e arbitravam penas;
d’aqui nasceu a escravidão da terra (_servitus glebæ_). Algumas vezes,
os donatarios concediam terras em feudos aos plebeus ou peões: a estes
beneficios chamava-se _feudos dos senhores ou subfeudos_.[59]
Em virtude d’este regimen, e como se deprehende do que fica exposto,
temos nos primeiros tempos da monarchia as seguintes divisões sociaes
por classes: senhores feudaes ou fidalgos, plebeus ou peões, vassallos
ou servos. Desde o começo da realeza em Portugal, a acção do feudalismo,
e as luctas a que dava causa, accentuam-se de um modo nitido, segundo
cremos. Vemos os irmãos de Affonso II negar-lhe vassallagem, por um acto
de rebellião feudal. D. Sancho II deposto pelo clero e pela nobreza.
Por sua parte, os reis reagiam, procurando cercear as garantias dos
senhores feudaes. Affonso II supprime os tributos do _comestivel_ e das
_aliavas_; Affonso III cria os _juizes de fóra_, representantes do poder
real para inspeccionarem a administração da justiça nos territorios
feudaes; D. Diniz procurou oppor o seu manifesto espirito de justiça
á acção da prepotencia feudal; Affonso IV definiu a jurisdicção dos
donatarios no edito geral; D. Fernando tratou de cohibir as malfeitorias
que os fidalgos commettessem com armas; D. João I e D. Duarte recorrem
principalmente á _lei mental_, como a um poderoso meio de combate.
Affonso V, porem, como já tivemos occasião de ver, augmentou em larga
escala o poderio dos nobres, pelo abuso de concessões. Mas seu filho, D.
João II, estava talhado para oppor uma barreira gigante á onda crescente
e abusiva do regimen feudal.
Coisa notavel! Pessoalmente, D. João II devia odiar Luiz XI pela maneira
doble e aviltante por que recebera em França seu pae; politicamente,
tomava-o como modelo n’essa lucta terrivel em que se achava empenhado,
salvas as differenças de caracter. João II imitou Luiz XI não só nos
rasgos mais principaes, mas até na dissimulação e crueldade; era comtudo
mais paciente, e porisso mesmo não arriscava os passos senão depois de
pisar terreno firme.[60]
Os senhores feudaes, que em França acabavam de ajudar Carlos VII a
expulsar os inglezes, não eram por certo menos poderosos do que aquelles
que em Portugal haviam conseguido supplantar o infante D. Pedro. O duque
de Bragança era relativamente tão importante como o duque de Borgonha.
Esta identidade de circumstancias levou fatalmente João II a copiar,
melhorando-o, o exemplo de Luiz XI.
Assim como o rei de França inicia o seu reinado proclamando a lucta com a
nobreza,[61] o de Portugal trata, depois de reunidas as primeiras côrtes
em Evora, de lançar a luva aos seus emulos, cuidando de regularizar a
fórma das menagens. Era o cartel para o repto; o aviso para a lucta.
«Antes de se fazerem estas menagens, diz Garcia de Rezende,[62] el-rei
com o duque de Bragança e outros senhores, e pessoas do conselho,
praticou umas palavras que nas menagens haviam de dizer muitas vezes, _em
que houve muitas porfias, desgostos, descontentamentos, por lhe parecer
aspera fórma a que el-rei queria_...»
Mas, não obstante a opposição do duque de Bragança, João II fez vingar o
novo formulario de menagens.
Como claramente se póde ver do teor das menagens, a sua redacção bastava
para revelar as intenções do rei, e o duque de Bragança, querendo
protestar, mostra, como toda a outra nobreza, não conhecer D. João II:
julga-o fraco, parece-lhe que se acobardará perante a resistencia.
O duque precisou dos titulos das suas doações para documentar o protesto,
e mandou buscal-os a Villa Viçosa, pelo veador da sua fazenda, João
Affonso, dando-lhe a chave de um cofre que continha todos os papeis de
segredo.
João Affonso declinou esta grave commissão n’um filho seu, em quem
muito confiava. Na occasião em que o filho do veador andava procurando
no cofre, appareceu por acaso na sala Lopo de Figueiredo, escrivão da
fazenda do duque, o qual, a pedido do rapaz, o ajudou a procurar os
papeis. Depararam-se-lhe, porem, entre elles algumas cartas e instrucções
de Castella, e para os reis de Castella, com emendas e correcções feitas
pela lettra do duque. Lopo de Figueiredo poude escondel-os, mettendo-os
na manga do gibão. Em casa leu-os vagarosamente, e reconheceu que se não
havia enganado, pelo que immediatamente correu a Evora, a mostral-os ao
rei, que d’elles tomou conhecimento, dando-os a copiar a Antão de Faria,
e mandando-os pôr no cofre, onde estavam, por Lopo de Figueiredo.
Eis aqui como o acaso, ou o _mysterio de Deus_, como diz Garcia de
Rezende, poz nas mãos de D. João II o fio de uma intriga, que era como
que o vendaval que devia atiçar o fogo da lucta travada entre elle e a
nobreza de Portugal.
D. João II tinha um duplo motivo para, segundo o seu ponto de vista,
combater o duque de Bragança: em primeiro logar, atacava um dos maiores e
mais altivos potentados que faziam sombra á coroa real; em segundo logar,
desde que o duque se oppuzera a que Affonso V passasse a Castella, via
n’elle um parcial da causa, agora triumphante, de Fernando e Isabel. E
depois lembraram a D. João II as palavras duras do duque quando, depois
da batalha de Touro, se não sabia do destino de Affonso V.
As cartas que o acaso trouxera ás mãos do rei, vieram fortalecel-o na
antiga suspeita. Desde esse momento, D. João II não pensou senão em
liquidar estas contas antigas. Espirito forte, caminhou resolutamente
para o seu ideal de vingança, umas vezes mostrando-se severo e
desconfiado com o duque de Bragança, outras vezes fingindo acreditar nos
seus protestos de obediencia e fidelidade.
Mas, intimamente, D. João II julgava indispensavel prevenir-se com uma
arma poderosa para contraminar a connivencia do duque de Bragança com
Castella: essa arma era sua prima, D. Joanna, a _Beltraneja_ ou, como
agora lhe chamavam os castelhanos, _la Monja_.
Pois bem. Sem hesitar um momento, D. João ordenou que abrissem a sua
prima as portas do mosteiro de Coimbra, e que ella vivesse no seculo com
a ostentação que ao seu nascimento era devida.
E assim foi que, freira professa havia dois annos, D. Joanna, joguete
malfadado das ambições dos outros, voltou de novo ao mundo onde a
felicidade parecia apostada em mostrar-se-lhe tão esquiva como outr’ora,
quando ainda o véo preto lhe não cingia a bella cabeça juvenil.
Mas o infante D. Affonso, filho unico de D. João II, estava nas terçarias
de Moura, como a princeza D. Isabel, filha dos reis catholicos. Era
preciso arrancal-o d’esse captiveiro, onde a sua vida poderia correr
perigo, tanto maior por certo quanta fosse a animosidade manifestada por
D. João II contra o duque de Bragança, que tinha, como sabemos, intimas
relações com a côrte de Castella.
A fim de salvar a vida de seu filho, tratou D. João II de annullar as
terçarias, e para esse fim enviou a Fernando e Isabel uma embaixada
composta do barão de Alvito e de Ruy de Pina, o chronista, os quaes
começaram por pedir que o deposito dos principes fosse transferido para
um logar menos doentio do que a villa de Moura.
Os reis de Castella, prevenidos pelo duque de Bragança das intenções de
D. João II, fizeram mallograr o exito d’esta primeira embaixada.
Nova embaixada mandou D. João II a Castella, d’esta vez para que as
terçarias se mudassem _ou desfizessem_, dizendo mais o embaixador que, se
não parecia conveniente o casamento do principe portuguez com a infanta
D. Isabel, pela differença das edades, se effectuasse com a infanta D.
Joanna e que, a ser assim, fossem, em compensação, cedidas a Portugal as
ilhas Canarias, que el-rei sempre desejou para maior segurança da Guiné.
A desconfiança dos reis de Castella, a respeito do de Portugal, tinha a
esse tempo subido de ponto, porisso que em Castella haviam sido presos
alguns portuguezes, que se diziam encarregados de negociar, por ordem
de D. João II, o casamento da _Excellente Senhora_ com o rei Phebo, de
Navarra. Fernando e Isabel queriam que os suppostos emissarios do rei de
Portugal fossem por elle punidos, porque só assim se convenceriam da boa
fé de D. João II.
Esta exigencia dos reis de Castella não foi desde logo attendida pelo de
Portugal.
Portanto, um problema inquietador principiou a preoccupar o espirito de
D. João II e d’aquelles que lhe eram dedicados: qual o melhor meio de
conseguir a annullação das terçarias de Moura?
Uma das pessoas que deram o seu voto n’esta importante questão foi D.
Philippa de Lencastre, tia de D. João II, irmã de sua mãe, e religiosa de
Odivellas.
Digamos d’esta senhora duas palavras.
No testamento da rainha D. Isabel é D. Philippa, sua irmã, a principal
contemplada, pelo grande amor que lhe tinha, e porque a situação da
familia do infante D. Pedro, como do mesmo testamento se vê, era
precaria. Mas essa disposição testamentaria de D. Isabel iria, a
realizar-se, prejudicar a legitima devida a seus dois filhos. Não
obstante esta causa de nullidade do testamento, D. Affonso V estabeleceu
a sua cunhada uma tença de duzentos e vinte mil réis; e recommendou-a
nas disposições testamentarias que elle proprio fizera em Portalegre
antes de partir para Castella.[63]
Frei Francisco Brandão diz que, não obstante a tença, D. Philippa passara
a vida _com não grande cabedal_, e que D. Affonso V bem pudera _ter
remedeado a prima que recommenda_. Como quer que seja, seu sobrinho D.
João II doou-lhe uma parte da renda da Villa de Alcolea de Sinca, no
principado da Catalunha.
Depois da morte da rainha D. Isabel, D. Philippa esteve parte do tempo em
Coimbra, em casa de sua mãe, a viuva do infante D. Pedro; mais tarde veiu
para Lisboa onde acompanhou a educação de sua sobrinha D. Joanna.
Havendo-se recolhido ao mosteiro de Odivellas, sem que aliás professasse,
foi de romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu em Portugal no anno de
1497. Jaz na sacristia de Odivellas.
Como iamos dizendo, esta senhora dera voto na questão das terçarias;
talvez lhe fosse solicitado por sua prima D. Beatriz. Frei Francisco
Brandão encontrou o documento, que nos transmittiu o voto de D. Philippa,
na torre do Tombo, entre os papeis de Fernão de Pina. Publicou-o com
o seguinte titulo: _Conselho e voto da senhora Dona Philippa filha do
infante Dom Pedro sobre as terçarias, e guerras de Castella. Com uma
breve noticia d’esta princeza, dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso
Senhor._ Lisboa, 1643.[64]
D. Philippa lamenta que o principe D. Affonso esteja nas terçarias com
prejuizo para a sua educação. Não aconselha que o tirem para fazer
guerra a Castella, mas não quer isso dizer que deixe de reconhecer as
vantagens de Portugal em qualquer lucta armada com Castella, tiradas da
historia do passado. Entende que um portuguez ha de valer sempre vinte
castelhanos com a ajuda de Deus. Recorda que se Affonso V foi a Touro,
varios castelhanos lh’o pediram. E remata dizendo: «E assi concludo:
sua paz deve ser desejada com grande razom, mas sua guerra que Deos nos
goarde, nem deve ser mui temida, quando sem causa procurarem metella em
obra, pois Deos, justiça, verdade, razoens humanaes som em nossa ajuda, e
a elles contrarios.»
Emquanto variavam os pareceres a respeito das terçarias, D. João II
enviava terceira embaixada a Castella, encarregada de dar satisfacções
e desculpas aos soberanos d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se
satisfeitos com ellas, porque o seu maior desejo era tambem verem fóra
das terçarias a infanta D. Isabel, receosos de que a sua vida pudesse
ser penhor de alguma nova combinação politica. Ficou então assente que
as terçarias se desfariam, e que o principe D. Affonso casaria não com
a infanta D. Isabel, mas com a infanta D. Joanna, e que se lhe daria
maior dote por estar esta infanta mais afastada na linha de successão de
Castella. Outrosim ficou combinado que os reis de Castella mandariam na
proxima Paschoa embaixadores a Portugal para se tratar definitivamente da
resolução d’estas combinações.
A familia real estava em Almeirim n’essa occasião. A rainha teve ahi um
mobito, e por este motivo a foram visitar muitos fidalgos, entre os quaes
o duque de Vizeu, seu irmão, e o de Bragança, a quem D. João II recebeu
de boa sombra. Não obstante, um dia chamou-o de parte á capella do paço,
e, na presença do bispo de Lamego, lhe disse que estava inteirado de que
elle tinha ligações suspeitas com Castella, mas que se essas combinações
eram filhas de um proposito errado, estava disposto a perdoal-as e
esquecel-as. Lembrou-lhe as obrigações que o duque devia á memoria de D.
Affonso V, de quem havia recebido largas honras, e patrimonio. E ainda
que se julgasse aggravado com o degredo do marquez, e a entrada dos
corregedores em suas terras, devia ser o primeiro a querer dar um exemplo
de obediencia e de respeito ao rei.
O duque de Bragança imaginou que D. João II se deixaria embalar pelas
suas palavras; que o supporia um inimigo que retirava, que desalentava na
lucta; e, cheio de hypocrisia, respondeu affirmando os seus sentimentos
de estima e gratidão ao chefe do Estado.
Enganava-se.
O certo é que a nobreza julgou haver submettido aquelle forte inimigo das
suas regalias. Folgou com isso. Sahindo de Almeirim, os duques de Vizeu,
de Bragança e seus irmãos juntaram-se no Vimieiro, folgando com o que se
tinha passado, e entre si resolveram não deixar entrar os corregedores
nas suas terras. Sobre o mesmo assumpto, o marquez de Montemór, o conde
de Faro e D. Alvaro de Bragança tiveram entrevistas secretas no mosteiro
de Santa Maria do Espinheiro, em Evora, tomando-se notavel o marquez pela
exaltação, pelo odio com que sempre falava do rei.
D. João II andava devidamente informado d’estas conspirações, mas, astuto
e reservado, pareceu-lhe melhor esperar. Porisso, deu ordem para que se
não fizesse a correição ás terras dos nobres, e até chegou a despachar
favoravelmente algumas pretensões do marquez, e do conde de Faro.