No convento de Santarem _ainda hoje_, diz frei Manuel da Esperança, _se
vê uma casa, que foi sua, onde se rezam matinas dos dias menos solennes,
a qual por este respeito_ é chamada _o corinho_.[55]
O principe D. João, endurecido pelos calculos ambiciosos da politica,
olhava mais para o futuro do que para as tranças da _Beltraneja_, que
cahiam despedaçadas no chão. Era que, segundo o tratado feito com
Castella, seu filho devia desposar a filha mais velha de Fernando e
Isabel. Assim, poderia chegar talvez ao mesmo ideal, a unificação de duas
coroas, por caminhos mais suaves.
«O principe, que de se cumprirem as capitulações, diz Duarte Nunes, tinha
seus particulares interesses, e o casamento para seu filho, _e porventura
a successão dos reinos de Castella_, como depois pudera succeder, se o
juizo divino o não atalhara...»[56]
Que importava que fosse preciso, para realizar esse _desideratum_,
esmagar o coração de uma pobre mulher?
Affonso V, envergonhado de si proprio, deixou inteira liberdade de acção
ao filho. Pungia-o a consciencia dos seus erros. Sentia-se prostrado, de
mais no mundo... e talvez no reino. O seu tempo passara; o pobre rei era
o cadaver de si mesmo, apenas amortalhado nos trophéos conquistados em
Africa, e manchados em França.
No principio do anno seguinte, de 1480, a peste, essa cruel e duradoira
peste que por tantos annos devia assolar Portugal, principiou a brandir o
seu gladio desolador. D. Joanna recebeu ordem de retirar-se do convento
de Santa Clara, de Santarem, para o de Evora, por fugir ao morticinio,
e, todavia, talvez que ella houvesse preferido ser uma das victimas do
terrivel flagello, que parecia mais apiedado da sua triste sina do que o
coração do principe D. João, seu primo.
Elle, porem, queria poupar-lhe a vida, para não ver partir-se-lhe nas
mãos um poderoso instrumento de ambição politica. Se Castella procurasse
algum dia illudir as estipulações do tratado, D. Joanna serviria como
ameaça, a questão dos _seus direitos_ renasceria das proprias cinzas...
Era, pois, preciso que a _Beltraneja_ vivesse. Porisso, invadida Evora
pela peste, levaram D. Joanna para o Vimieiro, e do Vimieiro para Santa
Clara, de Coimbra.
Graças a um documento por nós encontrado na Torre do Tombo, onde aliás
fizemos muitas outras investigações infructiferamente, conhecemos o
teor de negociações entaboladas entre Portugal e Castella para retirar
de Evora, quando a peste alli entrou, D. Joanna, já então officialmente
appellidada a _Excellente Senhora_.
Esse documento (existente na cella M, ms. 1163, fl. 518) é uma carta
do principe D. João para Rodrigo Affonso, embaixador de Portugal em
Castella, escripta de Beja.
Eis o seu conteúdo:
«Rodrigo Affonço Amigo, nós o Princepe vos inviamos muito saudar: nos
soubemos hora per o Doutor Mestre Rodriguo como foi dito a hum frade em
confição que nesta villa fallecerão hora dous moços deste mal que anda,
e assim houvemos recado do Conde de Abrantes ha dous dias como em Evora
fallecerão hora duas outras pessoas desta morte em huma casa a qual
logo foi cerrada, e taypada a rua, e que estavão em grande sospeita,
e temor de o mal ser mais, por o qual os da Cidade se fasião prestes
para se sahir della se mais alguma couza acontecesse pedindo nos que lhe
mandassemos diser a maneira que terião com a muy Excellente Senhora minha
prima acerqua de sua estada alli ou partida para outra parte sobre o que
acordamos de vos logo escrever e vos faser saber como nosso fundamento
he se a couza mais for antes de vermos vosso recado se com a dita
Senhora nom podermos acabar que se venha aqui a esta Villa sendo seguro
de a poremos em algum lugar desta Comarqua, acerca donde nós estivermos
ataa veremos vosso recado do que lá acabais neste feito, per que se aos
Reys aprouver que se a dita Senhora esté fora dos sinco Mosteiros na
cappitulação limitados trabalharemos como esté em algum luguar desta
Comarqua porque nella nom ha mais luguares que tenhão Mosteiros de
Freiras tirando Evora e esta Villa, que Estremoz e Portalegre, e poderia
ser segundo este mal anda espalhado muito neste Reyno que nestes tambem
morrerião como já agora morrem em Souzel que he antre ambos como sabeis
e tam acerqua delles, compre que saibamos se em tal caso lhes prazeria
á dita Senhora estar em algum outro lugar desta Comarqua posto que
Mosteiro de Freiras nom tenha, estando com freiras e encerrada em forma
de Relligião e com sua guarda assim como a deve ter estando em cada hum
dos cinco Mosteiros porque nom prazendo aos Reys de dar seu consentimento
tal que proveja a dita Senhora minha prima poder estar nesta Comarqua e
Luguares della segundo vay aqui apontado sem nosso pejo com relevamento
do passado segundo forma da instrucção que levastes será necessario
que se vá a Coimbra como comvosco fallamos e para isto cumprir que muy
trigosamente hajais despacho, e nolo invieis logo a mais andar, ou se já
fordes despachado nolo traguais.»
Havia-se completado um anno desde que D. Joanna vestira o habito;
restava-lhe professar ou entrar em terçaria.
Ella ou alguem por ella optou pelo convento. De Castella vieram
embaixadores assistir á profissão, para assegurar-se d’esta parte do
tratado, diz um escriptor hespanhol, isto é, para levarem a Fernando e
Isabel a certeza de que as pretensões de D. Joanna á côrte de Castella
ficavam para todo o sempre encarceradas dentro das grades de um
mosteiro, e amortalhadas no burel de uma pobre freira, cujos laços
mundanos parecia deveriam, desde esse momento, ficar partidos de vez. Não
aconteceu inteiramente assim, como veremos.
É certo ter D. Joanna dicto aos embaixadores castelhanos que _sin ninguna
premia, salvo de su propria voluntad queria vivir en religion e facer
profesion e fenescer en ella_. Seria, porem, completamente essa a sincera
expressão da sua alma? Não por certo. Essas palavras são transparentes,
revelam bem a altivez da mulher ferida no seu orgulho: ha n’ellas um
mixto de fel e de lagrimas. Ao pronuncial-as, o coração da _Beltraneja_
devia despedaçar-se. Mais do que nunca se denuncia então o justo
desespero com que ella se revoltava contra os repetidos sacrificios que
exigiam da sua fraqueza.
O principe D. João, de Portugal, sorria porventura, por entre dentes,
da credulidade dos embaixadores hespanhoes, que julgavam ser muralha
inexpugnavel a parede de um mosteiro, e prisões inquebrantaveis as grades
d’elle.
Nas conversações particulares, que mantinha com os seus intimos, D.
Joanna deixava-se enternecer facilmente pelas lagrimas d’elles: a
mulher, revoltada contra o sacrificio, apparecia então. Ruy de Pina não
o dissimula quando noticía que foi precisa a intervenção do principe D.
João para que a profissão da _Beltraneja_ se realizasse, como realizou, a
15 de novembro de 1480, em Santa Clara, de Coimbra.
Consummara-se o sacrificio. D. Joanna recebeu o véo preto das mãos de
frei Diogo de Abrantes.