Entretanto, o duque de Bragança, em intelligencia com os reis de
Castella, continuava a conspirar. Um mensageiro castelhano veio
avistar-se secretamente a Portugal com o duque, combinando ambos
n’uma capitulação, da qual o marquez de Montemór teve conhecimento.
A capitulação dividia-se em dois pontos principaes: 1.º Que visto a
_Excellente Senhora_ não viver no rigor monastico a que era obrigada,
fosse entregue ao duque de Bragança ou a seus irmãos, para lhe fazerem
cumprir o que fosse honesto. 2.º Que fosse permittido aos subditos
castelhanos o irem negociar na Guiné.
É claro que D. João II não podia annuir a estes pedidos, em primeiro
logar porque lhe arrancavam das mãos uma grande arma diplomatica, tal
era a _Excellente Senhora_; em segundo logar, porque abalaria o dominio
portuguez, na Africa, com a concessão feita aos castelhanos.
Mas isso mesmo era o que Castella e o duque de Bragança queriam: porque
na propria recusa estava um pretexto para Fernando e Isabel declararem a
guerra, e para o duque se desculpar de não prestar auxilio a D. João II,
fingindo achar desarrazoada a recusa.
As novas intelligencias do duque com os soberanos de Castella foram
descobertas a D. João II por Gaspar Infante, irmão de Pedro Infante,
familiar dos Braganças. D. João II, que já estava desconfiado, ficou
prevenido, mas não lhe convinha precipitar os acontecimentos, tanto
mais que tinha seu filho nas terçarias, e receava pela sua vida. Mas,
como a guerra de Granada absorvesse toda a attenção e recursos dos reis
catholicos,[65] um embaixador chegava a Portugal para tratar justamente
de desfazer as terçarias. Assentou-se pois no casamento do principe D.
Affonso com a infanta D. Joanna, filha segunda dos reis castelhanos.
A este tempo voltava de Castella Pedro Infante com a correspondencia
secreta para o duque. O rei leu-a, e resolveu logo, visto que o obstaculo
que as terçarias offereciam ia desapparecer, prender o duque ou cercal-o
em qualquer logar que estivesse. «E para isso, escreve Garcia de
Rezende, houve logo secretamente muito dinheiro junto que trazia em sua
guarda roupa, e assim fez muitas das cartas, provisões, que em tal caso
havia de mandar pelo reino, e ás villas e castellos do duque e seus
alcaides-móres, o que tudo lhe aproveitou na noite que prendeu o duque
como adeante se dirá.»
D. João II mandara procuradores seus a Moura buscar o principe. O duque
de Bragança, sabendo isto, foi encontrar-se com elles em Portel, e
alli lhes perguntou o que deveria fazer, visto que o principe passava
pelas suas terras. Os procuradores responderam que, para serenar de vez
certas differenças que tinha havido entre o rei e o duque, o que este
devia fazer era acompanhar o principe á côrte, servil-o e honral-o. Mas,
receosos de que o seu conselho desagradasse ao rei, mandaram, por meio
de postilhões que havia na estrada, consultal-o a este respeito. D. João
II respondeu que lhe aprazia muito que o duque fosse á côrte; o rei
respondeu em carta, não fechada, para que todos a pudessem ver, a fim de
armar á credulidade dos que a lessem.
Desfeitas solennemente as terçarias em Moura, onde o duque de Bragança
já havia chegado, o principe foi entregue aos procuradores do rei de
Portugal, e a infanta D. Isabel aos procuradores do rei de Castella.
Na jornada de Moura para Evora, onde estava a côrte, o principe D.
Affonso foi hospedado em Portel pelo duque de Bragança, que lhe fez
muitas honras. Fóra dos muros de Evora o rei sahiu a receber o principe,
que vinha acompanhado pelo duque de Bragança e pelo de Vizeu. A gente
que acompanhava o rei estava toda armada, porque D. João II ia em duvida
sobre se logo prenderia o duque ou não.
Mas como o duque lhe parecesse tranquillo e nada desconfiado, D. João II
adiou o seu proposito.
O rei mostrava-se extremamente alegre e despreoccupado. Houve em Evora
grandes festas pela recepção do principe e da infanta, e o rei em todas
tomou parte serenamente. Pelo que o duque, comquanto avisado pelo
marquez seu irmão e por outros fidalgos, para que desconfiasse do rei
e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de permeio o dia de _Corpus
Christi_, em que o rei continuou a mostrar-se despreoccupado, mas na
sexta-feira, indo o duque ao paço despedir-se do rei, achou-o despachando
com os desembargadores. D. João fez sentar o duque junto de si, emquanto
dava o despacho. Findo este, o duque conversou por algum tempo com o rei,
e aproveitou a occasião para pretender justificar-se de varios aleives
que lhe assacavam contra elle, pedindo-lhe que se informasse da verdade.
D. João II, depois de o ter ouvido, disse que aquella casa já ia estando
escura, e que, porisso, era melhor subirem á sua guarda roupa. Subiram,
e o rei disse então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento, e que
effectivamente ia apurar a verdade, mas que julgava melhor que o duque se
conservasse alli, até que tudo estivesse apurado.
O rei, sahindo, deixou por guardas ao duque, Ayres da Silva,
camareiro-mór, e Antão de Faria, camareiro.
Então, o desanimo do duque foi grande. Ayres da Silva quiz consolal-o com
palavras banaes, mas o duque respondeu-lhe: «Senhor Ayres da Silva: um
homem tal como eu não se prende para o soltar.»
Entretanto, D. João II fazia reunir em outra sala do paço os senhores,
principaes auctoridades e lettrados, aos quaes expoz os aggravos que
tinha do duque, lendo serenamente as cartas e instrucções apprehendidas.
Logo que a noticia se espalhou na cidade, o povo correu aos pateos e
terreiros do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade, e pedindo
justiça contra os que contra a sua vida houvessem attentado.
No conselho decidiu-se que se segurasse bem a pessoa do duque; que a
coroa tomasse conta dos seus castellos e terras, e que se notificasse o
caso aos reis de Castella, sem comtudo alludir á causa da prisão.
Tão profunda impressão causou em todo o paiz a prisão do duque, que os
alcaides dos seus castellos logo os entregaram a uma simples ordem do
rei. Esta observação, que Garcia de Rezende faz, pinta bem qual era o
prestigio da monarchia, e o fanatismo do povo pela pessoa de D. João II.
O marquez de Montemór e o conde de Faro, logo que souberam o que se
passara, fugiram para Castella. Este ultimo pouco tempo sobreviveu em
Andaluzia. O outro irmão do duque, D. Alvaro de Bragança, recebeu ordem
do rei para sahir do reino, prohibindo-lhe comtudo que fosse residir em
Castella ou em Roma. Mas D. Alvaro, desobedecendo, deixou-se ficar em
Castella.
A duqueza de Bragança, logo que soube da prisão do marido, mandou para
Castella os seus tres filhos, ficando ella em Villa Viçosa com D.
Margarida, sua filha.
Entretanto, o duque continuava a estar preso na guarda roupa, sem ferros,
mas constantemente vigiado. Era alvo das maiores attenções por parte dos
familiares do rei, e tratado com a etiqueta devida ao seu nascimento.
D. João II, por sua parte, mostrava-se pesaroso da situação em que estava
o duque, e resolvia entregar o caso á justiça, para que ella julgasse.
A justiça! Bem sabia D. João II como ella procederia vergada á pressão
da sua auctoridade real! Mas o caracter reservado do rei levava-o a
proceder assim, sem pressa, sem precipitação, calculadamente. O facto de
entregar o duque a esse como arremedo de tribunal, mas em todo o caso,
apparentemente, á acção da justiça, mostrava ao povo que acima do poder
real pairava, como que a defendel-o, a justiça de Deus, manifestada pela
justiça da terra.
Era um homem superior D. João II.
É conhecido o final d’esta tragedia: o duque de Bragança acabou no
cadafalso levantado na praça de Evora.
Diogo Pinheiro procurou rehabilitar a memoria do duque, escrevendo a sua
_defesa_;[66] mas outro documento, modernamente dado á estampa, o tratado
de Lopo de Figueiredo,[67] mostra que o duque de Bragança procurava
fortalecer-se contra o odio de D. João II, entabolando negociações
secretas com a côrte de Castella, e que á infanta D. Beatriz, mãe do
duque de Vizeu, não repugnavam os planos do Bragança.